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sexta-feira, 11 de dezembro de 2020
quinta-feira, 10 de dezembro de 2020
NATAL COM DOIS POETAS – Cyro de Mattos
Natal com dois poetas
Cyro de Mattos
Há
tempos vinha enviando em dezembro para pessoas de meu círculo afetivo,
parentes, amigos e escritores, minha mensagem de Natal acompanhada de um poema.
Penso que decorreram mais de trinta anos quando fiz o primeiro poema motivado
pelo Natal com essa intenção. Lembro do primeiro que enviei. Manjedoura — O
que mais encanta/ é acontecer o menino/ nas migalhas/ deste chão sonoro/ e
ganhar grãos azuis/na manjedoura dos ares.
Certa
vez ousei enviar para o poeta Carlos Drummond de Andrade a mensagem com um
desses poemas. Era um soneto, um soneto menor, com versos de cinco sílabas, que
contava a alegria de bichos e gente com o nascimento do menino pobre nas
palhas, que depois viria ser o bem-amado salvador da humanidade. Assim era o
sonetinho: Historinha do Menino Jesus — O galo cantou, / A vaca mugiu, / O
burro zurrou, / A ovelha baliu. // A rosa acordou, / O peixe sorriu, / A cabra
contou/ Que a cobra sumiu.// Foi tanto balão/ que subiu ao céu,/ Foi tanta canção//
Que ventou ao léu/ Que até hoje luz/ Do menino a cruz.
Não demorou, um milagre aconteceu quando recebi do poeta Carlos Drummond de Andrade, como retribuição à minha mensagem de Natal, o poemeto seguinte: A Cyro de Mattos no Natal — Uma notícia irrompe desta árvore/ e ganha o mundo: verde anúncio eterno/ Certo invisível pássaro presente/ murmura uma esperança a teu ouvido. Depois de receber esse rico presente de um poeta grandão, de minha predileção, que poderia um poeta inventor de ingenuidades, desconhecido, morando e vivendo no interior da Bahia, querer mais naquele Natal?
O
poema de quatro versos do trivial lírico de Itabira, com suas ondas cheias de
ternura, dava-me a mesma sensação que tive quando era menino e acreditava em
Papai Noel. Como até hoje acredito, não sorria, faz favor. Recebi naquele Natal
que já vai muito longe como presente do bom velhinho uma bola de couro, que
encontrei no outro dia pelo amanhecer sobre meu par de sapatos. Era o que mais
queria, aquela bola de couro, para jogar futebol com meus queridos amigos nos
campinhos improvisados dos terrenos baldios. Atordoado, não sabia, naquele
instante, se o presente que me chegava do céu por encanto, com uma bola de
couro, novinha, era sonho ou verdade. Neste caso, eu havia feito um bilhete a
Papai Noel pedindo para que ele me desse no Natal a bola de couro e fui
atendido naquilo que tanto desejava. No caso dos versos de Carlos Drummond de
Andrade, chegou-me aquele presente de um coração lírico como era o do nosso
poeta maior, sem que eu nada lhe ter pedido. Sustos esplêndidos do Natal
aqueles, quer num caso, quer no outro.
Transcorridos dez anos, dei conta que
já havia enviado a cada dezembro para as pessoas um conjunto de poemas
inspirados no Natal. Resolvi reunir e publicar os poemas no pequeno livro Natal
Permanente, que teve ilustrações de Calasans Neto e o selo das Edições
Macunaíma, de Salvador. Naquele dezembro de 1986, enviei para as pessoas esse pequeno
livro, ao invés de um novo poema com tema do Natal, como eu vinha fazendo. Uma
das surpresas agradáveis que tive foi quando recebi da poeta conterrânea Valdelice
Soares Pinheiro uma pequena carta agradecendo o envio do meu pequeno livro. Ela
me dizia que Natal Permanente lembrava-lhe “fonte, peixe e comunhão”,
fazendo-a sentir “nesse caminho por onde os homens deveriam passar colhendo
mel, preparando o pão”. Observava: “Traz-me a alegria de descobrir que sou
cavalo, viagem, travessia desse menino, esse distante, mas ainda agora menino,
que um dia, trinta e três anos depois, pregado em uma cruz, sonhou ser a luz
dos homens, despregando, de seus braços doloridos, o amor e o perdão para a
compreensão de sua presença de Pai e Filho, que, em um só, queria criar o Reino
da Paz no Espírito Santo”. A certa altura, tomando emprestados alguns dos meus
versos, ela perguntava: “Terão os homens entendido essas proezas numa só
mesa de todas as mãos?”
Até hoje vou aos meus guardados e
busco a carta da conterrânea Valdelice Soares Pinheiro. Fico comovido quando a
leio na época do Natal. Ela termina por me dizer que meu pequeno livro, além de
estendê-la na consciência de não solidão, “me trouxe de volta a criança que um
dia, queira ou não queira, a gente pensa que perde”.
Natal
Permanente é o mesmo livrinho que passou a ser
chamado Oratório de Natal, publicado pela Fundação Cultural da Bahia, em
primeira edição, e, acrescido de mais dez poemas, em segunda, pela editora Duna
Dueto, do Rio de Janeiro. Com as
ilustrações singelas do desenhista Ângelo Roberto, baiano nascido em Ibicaraí,
que residiu muitos anos em Salvador, onde ficou conhecido como o poeta do
traço.
O
livrinho Oratório de Natal, que vem me dando alegria, continua
circulando em época ou não do Natal. Para que a vida seja sempre verde como na
campina. Para que a vida seja sempre mansa como na colina. Para que a vida como
a do menino dormindo no presépio seja sempre amiga e no meu peito cresça.
Cyro de Mattos é escritor e poeta. Doutor Honoris Causa da
Universidade Estadual de Santa Cruz. Publicado em Portugal, Itália, Espanha,
Alemanha, França, Dinamarca, Rússia e Estados Unidos. Premiado no Brasil e
exterior. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia e de Ilhéus. Comendador
da Ordem do Mérito do Governo da Bahia.
* * *
quarta-feira, 9 de dezembro de 2020
ORFANDADE - Péricles Capanema
9 de dezembro de 2020
Péricles Capanema
Fiquei órfão de pai aos cinco anos. Esconderam-me a perda,
era natural não me quisessem ciente, evitavam sofrimentos de um toquinho de
gente despreparado para o choque. Estava viajando, voltaria logo, diziam.
Menino acredita em tudo. Um primo, seis meses mais novo, revelou-me a verdade
no meio da rua. Ele nunca se deu conta que dele veio a revelação atroz. Até
hoje tenho nítida a cena, navalha na carne, das dilacerações mais traumáticas
da vida. Contudo vou tratar hoje de outra orfandade, também dilacerante e
trágica, não a de um menino desconhecido do interior mineiro, que afeta
multidões mundo afora.
Fernando Haddad, calculista como todo político de muita
estrada, vem se posicionando como intelectual com tintas de moderação, procura
atrair a atenção no palco por desvestir em ocasiões escolhidas a capa do PT e
enfiar no lugar a toga do professor; sob aspectos de um Fernando Henrique uns
30 anos mais moço. O prócer petista falou sobre as últimas eleições e, no meio
de enxurrada de reflexões carregadas de segundas intenções, veio o que ninguém
ou quase ninguém quis dizer: “Houve um deslocamento do eleitorado para
direita e para a extrema direita”. Haddad também em tais declarações tinha
segundas intenções, mas não julgo o momento de destacá-las. Em política, nada é
ocioso.
Ele caminhou na contramão das opiniões em geral
divulgadas: “Houve um deslocamento do eleitorado para a direita e para a
extrema direita”. É natural, nada poderia irritar mais um político de esquerda.
E por isso procura macular tal migração. Não embarco aí, meu foco é outro.
Concordo com Fernando Haddad em um ponto. Apesar de todas as decepções, apesar
de todas as contrafações, apesar de todas e piores surpresas, o sentimento
conservador resiste. Permanece um substrato na opinião pública que recusa a
desordem, antipatiza com a desonestidade, anseia por rumo estável de decência e
crescimento. É a parte que mais presta, a parte mais saudável, a sanior
pars; e boa parte dela hoje está órfã. Não tem em quem confiar, nem vê
perspectivas no horizonte. Provavelmente continuará órfã, é longo e difícil
trabalho resgatá-la da orfandade; ou, pior, temo muito, a experiência anterior
me deixa escaldado, embarque em algum momento em alguma nova aventura
destrutiva, engolindo utopias, que intoxicarão esperanças sadias.
Os órfãos (órfãos políticos, fique claro) do Brasil, assim
como os órfãos da Argentina, os órfãos dos Estados Unidos, os órfãos mundo afora,
em geral sentem faltam de ideal sistematizado e alcançável; e em decorrência de
tal ausência, de um programa e de um caminho. Em duas palavras, não está claro
o ponto de chegada; digo logo, deveria ser a ordem temporal cristã. E não
enxergam quem a ele deverá conduzir.
E então, muitas vezes no passado, na correria irrefletida e
atabalhoada em busca da solução (espécie de pai mítico), agarraram-se a uma
pessoa ou movimento que lhes parecia ter pelo menos um ponto favorável em
relação a todo o resto: com ele podia dar certo, podiam conseguir pelo menos
parte do que almejavam. A aparente eficácia encobria em geral defeitos que
depois se revelariam, acabariam destruindo o personagem fictício, tornariam
inviável a obtenção das soluções esperadas e lançariam descrédito, desânimo e
dúvidas sobre o movimento.
Terrível e repetido desfecho, filme que se assiste desde
pelo menos o começo do século XIX. De passagem deixa ver a profundidadedo
enraizamento conservador. Desde o século XIX? Sim, desde o começo. Pelo menos.
Exemplo? Com Napoleão já foi assim, talvez tenha sido o maior exemplo. O vivido
chefe militar aproveitou-se do horror que a Revolução Francesa tinha provocado,
o povo estava exausto de sangue e anarquia. Puxou para si as simpatias de
grande parte dos que queriam reagir. O Corso era forte e próximo, Luís XVIII
era distante e fraco; o Corso não mostrava escrúpulos, prendia e arrebentava,
Luís XVIII ainda tinha hábitos da corte do Ancien Régime; o Corso sabia
mandar, Luís XVIII parecia indeciso. A comparação deprimente continuava sem
fim. Em resumo, no jovem e enérgico general se farejavam vitórias, Luís XVIII,
liderança mofada, cheirava a naftalina. O bonapartismo triunfante impôs sua
concepção de ordem, estatizante e autoritária rescendendo a solução genial. Por
alguns anos fez delirar parte da França, despertou admiradores no exterior,
formou imitadores. Depois vieram as decepções, a derrota, a humilhação da
França invadida, a juventude sacrificada nas batalhas, as famílias destroçadas.
Luís XVIII assumiu, ainda arrumou um pouco a casa. A transposição com
adaptações para outros personagens ao longo da história não será difícil.
Realço um dos motivos dessa anomalia mortal. Talvez seja o
verso mais famoso do “Cantar de Mio Cid”: “Dios, qué buen vassalo, si oviesse
buen señor”. O vassalo ansiava por bom senhor, via nele ocasião de ótimos
serviços e aperfeiçoamentos. Empurro de lado as disputas eruditas a respeito e
jogo para o primeiro plano a importância central do bom senhor naquela canção
de gesta. O anelo, o sonho, o sebastianismo avant la lettre, aqui e em
tantos outros lugares, evidenciam um lado louvável, a disposição da adesão
fácil e entusiasmada a uma liderança que leva a bom porto. De outro lado, no
reverso da medalha, muitas vezes tal postura esconde deficiências, entre os
quais desponta a preguiça demolidora de desconfiar das soluções fáceis e de
olhar de frente, riscados nas testas de supostos salvadores, os sintomas
preocupantes, na verdade claros sinais precursores de desastres futuros. É
penoso sondar autenticidade e rumo certo em chefes aclamados que irradiam
atmosfera de vitória.
Um rumo certo, um sintoma de autenticidade. Lembrei acima,
um teste do tornassol para reação conservadora salutar: a defesa da ordem
temporal cristã, fundada na família, no princípio de subsidiariedade, (entre
outras instituições e princípios); enfim, buscar a continuidade e
aperfeiçoamento do que a Civilização Cristã produziu no Ocidente. Na presente
quadra histórica, não vejo outro bom começo. Sem o trânsito por este vestíbulo,
repetiremos fracassos do passado, passando da ilusão para a orfandade, da
orfandade para a ilusão; serão descaminhos e derrotas. Pensemos todos nisso
neste fim de ano. Feliz e Santo Natal, bom ano novo para todos.
https://www.abim.inf.br/orfandade/
* * *
terça-feira, 8 de dezembro de 2020
ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS EMPOSSA SUA NOVA DIRETORIA PARA 2021
A nova Diretoria da Academia Brasileira de Letras, eleita no dia 3 de dezembro, toma posse na próxima sexta, dia 11 de dezembro, às 17h, em cerimônia virtual. O modelo inédito da sessão solene estará disponível para o público no portal da ABL. Ao final da sessão, os musicistas Kiko Horta, David Chew e Franklin da Flauta farão uma apresentação musical em celebração ao evento.
O Acadêmico Marco Lucchesi tomará posse para o cargo de
presidente no mandato de 2021. Tomarão posse, ainda, os seguintes Diretores:
Secretário-Geral: Merval Pereira; Primeiro-Secretário: Antônio Torres;
Segundo-Secretário: Edmar Bacha; e Tesoureiro: José Murilo de Carvalho.
DIRETORIA 2021
MARCO LUCCHESI – Sétimo ocupante da Cadeira n.° 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Padre Fernando Bastos de Ávila, Marco Lucchesi, nascido no Rio de janeiro em 9 de dezembro de 1963, é o mais jovem Presidente da Academia Brasileira de Letras dos últimos 70 anos. O mais novo, em toda a história da ABL, foi o Acadêmico Pedro Calmon (1902-1985), que assumiu, em 1945, com 43 anos de idade.
Escritor muitas vezes premiado, tanto no Brasil quanto no
exterior, Lucchesi é autor de uma obra que abarca poesia, romance, ensaios,
memórias e traduções. Publicou mais de 40 livros ao longo de sua trajetória.
Professor titular de Literatura Comparada da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ), tem pós-doutorado em Filosofia da Renascença na Alemanha.
Formado em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), possui mestrado
e doutorado em Ciência da Literatura. Ganhou três Prêmios Jabuti da Câmara
Brasileira do Livro, o Prêmio italiano Pantera d 'Oro, o Prêmio romeno George
Bacovia, entre outros. Recebeu os títulos de Doutor Honoris Causa,
Universitatea Tibiscus (2016) e Doutor Honoris Causa, Universidade Aurel Vlaicu
de Arad (2020).
MERVAL PEREIRA – Oitavo ocupante da Cadeira n.° 31, eleito em 22 de junho de 2011, na sucessão de Moacyr Scliar, Merval Pereira é jornalista e comentarista da GloboNews e da CBN, e colunista de O Globo. Foi eleito Correspondente Brasileiro da Academia das Ciências de Lisboa em novembro de 2016. Em 1979, recebeu o Prêmio Esso pela série de reportagens “A segunda guerra, sucessão de Geisel”, publicada no Jornal de Brasília e escrita em parceria com o então editor do jornal, André Gustavo Stumpf. A série virou livro, considerado referência para estudos da época e citado por brasilianistas, como Thomas Skidmore. Em 2009, recebeu o prêmio Maria Moors Cabot da Universidade de Columbia de excelência jornalística, a mais importante premiação internacional do jornalismo das Américas.
ANTÔNIO TORRES – Nascido na Bahia, Antônio Torres estreou na literatura em 1972, com o romance Um cão uivando para a Lua, considerado pela crítica a revelação daquele ano. Hoje, entre os seus 17 títulos publicados, destaca-se a trilogia formada por Essa terra (1976), O cachorro e o lobo (1997) e Pelo fundo da agulha (2006). Em 1998, foi condecorado pelo governo francês como Chevalier des Arts et des Lettres, pelos seus livros traduzidos na França. Em 2000, teve o reconhecimento nacional ao receber o Prêmio Machado de Assis, da ABL, pelo conjunto da sua obra. Em 2001, ganhou o Prêmio Zaffari & Bourbon. Recebeu ainda, entre outros, o Grande Prêmio Cidade do Rio de Janeiro, da Academia Carioca de Letras, e o Prêmio da Academia Petropolitana de Letras, ambos pelo conjunto da sua obra, da 9.a Jornada Nacional de Literatura, da Universidade de Passo Fundo, RS, pelo romance Meu querido canibal. Em 2007, Pelo fundo da agulha foi um dos ganhadores do Prêmio Jabuti. Seus livros, que passeiam por cenários rurais, urbanos e da História, têm tido várias edições no Brasil e traduções em muitos países; da Argentina ao Vietnã.
EDMAR BACHA – Economista, fundador e diretor do Instituto de Estudos de Política Econômica/Casa das Garças, um centro de pesquisas e debates no Rio de Janeiro, nasceu em Lambari, Minas Gerais, de uma família de escritores, políticos e comerciantes. Sexto ocupante da Cadeira n.° 40, eleito em 3 de novembro de 2016, na sucessão de Evaristo de Moraes Filho, concluiu a Faculdade de Ciências Econômicas na Universidade Federal de Minas Gerais e, em seguida, obteve o ph.D. em Economia na Universidade de Yale, EUA. É autor de inúmeros livros e artigos em revistas acadêmicas brasileiras e internacionais. Recebeu o Prêmio Jabuti em 2020 pela obra "130 anos: em busca da República”, junto com outros coautores.
JOSÉ MURILO DE CARVALHO – Historiador e professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Nascido em Andrelândia (MG), fez sua graduação em Sociologia e Política na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e é ph.D. pela Universidade de Stanford. Atuou como professor visitante e pesquisador em diversas universidades estrangeiras, como Oxford, Leiden, Londres, Stanford e Princeton. É autor de vasta produção de artigos e crônicas publicados em jornais e revistas, no Brasil e exterior, e de livros, como Os bestializados (1987), Pontos e bordados (1998), A formação das almas – o imaginário da República no Brasil (1990), Cidadania no Brasil: o longo caminho (2001) e Dom Pedro II (2007). Recebeu o Prêmio Jabuti em 2020 pela obra "130 anos: em busca da República”, junto com outros coautores.
07/12/2020
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domingo, 6 de dezembro de 2020
GRACIAS A LA PELOTA – Carlos Diegues
Às vezes, temos necessidade de um choque radical para compreender melhor o que já estava diante de nossos olhos. Como o papel civilizatório de Diego Armando Maradona. Além do craque de bola que ele foi, a base moral de seu comportamento no mundo, Maradona foi um permanente inquisidor da alma humana. Quase diria que se sacrificou por nós, latino-americanos, devedores de tantos poderosos que sempre admiramos pelo mundo afora.
Não é que Maradona não desejasse ser conquistado, como o foi
tantas vezes, como todos nós. Mas ele queria entender o mundo à sua volta e,
para isso, precisava saber por que os homens poderosos amavam e eram amados
pelo povo que cultivava Maradona. Nosso herói não era de esquerda, de centro ou
de direita; mas se interessava pelas pessoas que professavam tais ideias. Não
pelas ideias, mas pelo povo que elas conquistavam, do qual se aproximavam.
Se procurarmos na vasta coleção audiovisual em que o
registramos, vamos encontrar cenas em que Maradona se declara a Fidel, de quem
tinha uma tatuagem na perna esquerda, justamente a perna genial. Ou confissões
de amor a dirigentes políticos como Carlos Menem, um neoliberal populista e
popular, a quem ajudou a se eleger presidente da Argentina. E ainda oferecendo
ao general Videla, comandante da ditadura mais sangrenta na história de seu
país, o título mundial conquistado em Tóquio pela seleção juvenil.
A televisão argentina não se cansava de mostrar Maradona a
cantar hinos peronistas, a defender os Kirchners, a se deixar usar pela máfia
italiana quando jogava pelo Napoli, a fazer oposição contundente a Macri, a
dedicar sua autobiografia ao xeque Mohammed bin Rashid al-Maktoum, cruel
ditador árabe, a quem agradecia por “brindá-lo com seu apoio”. Maradona beijava
o desconhecido, como beijou o Papa Francisco na bochecha, quando o conheceu, e
o atacante Caniggia na boca mesmo, quando este fez, de uma assistência sua, o
gol que desclassificou o Brasil na Copa de 1990.
Segundo Tostão, grande cronista de futebol, “Maradona era o
maior craque do mundo numa época em que a ciência esportiva tentava fazer do
futebol um jogo essencialmente científico, programado e previsível. Ele, com
seu show de habilidades, inventividade, imprevisibilidade e efeitos especiais,
foi uma resistência ao futebol pragmático”. Podemos dizer a mesma coisa de sua
vida pessoal. Quando ele se junta a líderes formados por diferentes ideologias,
não está aderindo às ideologias dos políticos. Nunca o vimos comentar, criticar
ou elogiar essas ideologias. “Não sou comunista”, disse ele uma vez. “Mas tenho
orgulho de ser amigo de Fidel.”
Por meio de seus amigos, de direita, de centro ou de
esquerda, por meio da Camorra ou da Igreja, Maradona se aproximou sempre de
quem o povo admirava ou simplesmente amava de algum modo, por alguma razão. A
única vez em que respondeu à pergunta de repórter sobre as consequências de sua
morte, ele disse que queria apenas que em sua lápide estivesse escrito:
“Gracias a la pelota”.
Acho que o que ele queria mesmo era entender, por meio de
quem o povo amava, o povo que o fez tão grande. Ele se manifestava pela sua
genialidade no futebol, o que o aproximava de todos, do “pibe” do Boca aos
senhores do mundo. Mas ele queria entender o que era a Humanidade, e essa
curiosidade talvez o tenha matado. Nunca entenderemos tudo o que se passa no
mundo.
Maradona deixa como legado maior de sua vida e obra os dois
gols que fez em 1986, no México, contra a Inglaterra, se tornando pela primeira
e única vez campeão mundial de futebol. O primeiro gol, ele fez com a mão
esquerda (“la mano de Dios”), falta que só o juiz encantado por ele não viu. No
segundo, que consagrou a Argentina campeã do mundo, gol classificado pela Fifa
como o mais bonito de todas as Copas, ele driblou o meio de campo e a defesa
inteira da Inglaterra, numa inacreditável linha quase reta. É como se
estivéssemos recebendo de presente as duas mensagens geniais de Maradona: o político
hábil e o mito divino do futebol. O diabo e deus na terra do sol.
O Globo, 30/11/2020
https://www.academia.org.br/artigos/gracias-la-pelota
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Carlos Diegues - Décimo ocupante da Cadeira 7 da ABL, eleito em 30 de agosto de 2018 na sucessão do Acadêmico Nelson Pereira dos Santos e recebido pelo Acadêmico Geraldo Carneiro em 12 de abril de 2019.
* * *
PALAVRA DA SALVAÇÃO (212)
2º Domingo do Advento – 06/12/2020
Anúncio do Evangelho (Mc 1,1-8)
— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Marcos.
— Glória a vós, Senhor.
Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de
Deus. Está escrito no livro do profeta Isaías: “Eis que envio meu
mensageiro à tua frente, para preparar o teu caminho. Esta é a voz daquele
que grita no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas!’”
Foi assim que João Batista apareceu no deserto, pregando um
batismo de conversão para o perdão dos pecados. Toda a região da Judeia e
todos os moradores de Jerusalém iam ao seu encontro. Confessavam os seus
pecados e João os batizava no rio Jordão.
João se vestia com uma pele de camelo e comia gafanhotos e
mel do campo. E pregava, dizendo: “Depois de mim virá alguém mais forte do
que eu. Eu nem sou digno de me abaixar para desamarrar suas sandálias. Eu
vos batizei com água, mas ele vos batizará com o Espírito Santo”.
— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.
https://liturgia.cancaonova.com/pb/
...
Ligue o vídeo abaixo, e acompanhe a reflexão do Pe. Jose V.
Damasceno:
...
Nas brechas e frestas, encontramos o nosso Deus, viajante dos céus e dos corações...
Imagem: pexels.com
Neste segundo domingo do Advento (6.12.2020), duas vozes
falam da vinda de Deus: Isaías e João! Vozes despertas para animar o povo
peregrino: o Senhor vem com o poder da ternura, traz no peito os cordeirinhos e
conduz mansamente as ovelhas-mães... Ternura de Deus, poder possível a cada ser
humano. Os dois profetas usam o mesmo verbo, num eterno presente: Deus vem,
viajante dos séculos e dos corações, vem como semente que se torna árvore, como
fermento que faz crescer a massa, como perfume de vida para a vida. Há quem
saiba ver os céus refletidos numa gota de orvalho, o profeta vê o caminho de
Deus no pó dos nossos caminhos.
Deus aproxima-se no tempo e no espaço, dentro das coisas de todos os dias, à
porta da sua casa, a cada nosso despertar. Mas, há muitas pessoas que já não
conseguem acreditar em Deus: não porquê o rejeitem. É que não sabem que caminho
seguir para encontrar-se com Ele. E, no entanto, Deus não está longe. Está
presente (escondido) no interior da vida! Deus segue os nossos passos, muitas
vezes errados ou desesperados, com amor respeitoso e discreto. Como perceber a
sua presença?
Marcos recorda-nos o convite do profeta em meio ao deserto: «Preparai o caminho
ao Senhor, endireitai as suas veredas». Onde e como abrir caminhos a Deus nas
nossas vidas? Não devemos pensar em avenidas ou vias expressas por onde chegue
um deus espetacular. Deus vem na contramão, lembra-nos Dom Helder! Ele se
aproxima da gente procurando as frestas, as brechas, que as pessoas mantêm
abertas ao verdadeiro, ao bem, ao belo, ao humano. São esses resquícios da vida
que temos de acolher para abrir caminhos a Deus.
Para alguns, a vida tornou-se um labirinto. Ocupados em mil coisas, movem-se e
agitam-se sem cessar, mas não sabem de onde vêm nem para onde vão. Abre-se
neles uma fresta para Deus quando param para se encontrar com o melhor de si
mesmos.
Há quem viva uma vida «descafeinada», plana, superficial e imediata em que a
única coisa importante é estar entretida, ocupada. Só poderão vislumbrar Deus
se começam a atender ao mistério que bate no fundo da vida.
Outros vivem submersos na «espuma das aparências». Só se preocupam com a sua
imagem, do aparente e externo. Estarão mais perto de Deus se procurarem com
simplicidade a verdade.
Quem vive fragmentado em mil pedaços pelo ruído, pela retórica, ambições ou
pressa, darão passos em direção a Deus se se esforçarem por encontrar um fio
condutor que humanize as suas vidas.
Muitos irão encontrar-se com Deus se souberem passar de uma atitude defensiva
perante o divino para uma postura de acolhimento; do tom arrogante à oração
humilde; do medo ao amor; da autocondenação ao acolhimento do Seu perdão. E
todos nós daremos mais espaço para Deus nas nossas vidas se O procurarmos com
um coração simples em meio aos simples e marginalizados.
No princípio, o Evangelho de Jesus! Pode-se começar de novo, mesmo quando a
vida está imobilizada, pode-se partir novamente e abrir futuros. Início de uma
bela notícia... daqui, só a partir de uma boa notícia se pode recomeçar a
viver, a projetar, a apertar laços, e nunca partindo da amargura, dos erros, do
mal que assedia. E se alguma coisa de mau ou doloroso nos aconteceu, o perdão
torna-se boa notícia, que lava os recônditos mais obscuros do coração.
No princípio, uma bela notícia que é Jesus! Ele, mãos implicadas na densidade
da vida, narrativa da ternura de Deus, anúncio de que é possível, para todos,
viver melhor, e que a chave está no Evangelho! O bom futuro é Deus cada vez
mais próximo, próximo como a respiração, próximo como o coração, perfume de
vida.
O mundo está hoje mais próximo de Deus do que ontem. Como se comprova pelo
crescimento da consciência mesmo em meio a ignorância, do anseio da liberdade
mesmo em face de novas escravaturas, o florir do feminino frente a tanto
feminicídio, o respeito mesmo em meio ao preconceito, o cuidado pelas pessoas
com deficiência apesar da mentalidadede exclusão, o amor à casa comum apesar do
desperdício...
A boa-bela notícia é a nossa história está grávida de futuro bom para o mundo
todo, porque Deus está cada vez mais próximo, próximo como um abraço. E perfuma
de vida a vida de cada um de nós. Amém.
(Pe. Paulo Roberto Rodrigues, 06.12.2020 - no segundo domingo do advento)
(adaptação de um texto de José Antônio Pagola e Ermes
Ronchi)
https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2205-nas-brechas-e-frestas-encontramos-o-nosso-deus-viajante-dos-ceus-e-dos-coracoes
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