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quarta-feira, 18 de novembro de 2020
UM ENGANO QUE SE INSINUA - Evanildo Bechara
De uns tempos para cá temos visto alguns profissionais de comunicação cometendo um engano gramatical com o uso dos numerais masculinos “milhar”, “milhão”, “bilhão”, “trilhão”, etc.
Quando esses numerais vêm seguidos de complemento com
substantivo feminino, ouvimos frases equivocadas como a seguinte:
No Enem são corrigidas algumas milhares de redações.
Diante da presença do feminino “redações”, supõe o falante
que o numeral masculino “milhares” obriga o emprego da forma feminina
“algumas”, quando na verdade deveria ser: “alguns milhares de redações”. Este
raciocínio está se generalizando em nossos dias. Assim, temos visto construções
do tipo:
No cenário atual da pandemia, algumas milhares de
pessoas não respeitam o uso obrigatório da máscara. (em lugar da forma
correta: alguns milhares de pessoas)
As milhões de doses da vacina contra a covid-19
serão distribuídas por todo o país. (em vez da concordância
adequada: os milhões de doses)
Enganos dessa natureza têm origem e empregos analógicos,
como é o caso das expressões usadas pelo povo no jogo do bicho. Como ‘dezena’ e
‘centena’ são femininos é comum ouvirmos a palavra ‘milhar’ (substantivo
masculino) usada no feminino em expressão do tipo: ‘acertei na milhar’.
Trata-se de um raciocínio que contraria os princípios da norma padrão.
Ainda sobre numerais, atenção especial merecem entendimento
e leitura de certas expressões abreviadas de uso moderno na linguagem
jornalística e técnica:
1,4 milhão de pessoas (com 1 o numeral coletivo fica no
singular, então leia-se: “um milhão e quatrocentas mil pessoas”),
2,3 bilhões de pessoas (leia-se: “dois bilhões e trezentos
milhões de pessoas”)
2,5 bilhões de doses (“dois bilhões e quinhentos milhões de
doses” ou “dois bilhões e meio de doses”).
Cabe lembrar aqui, neste pequeno comentário gramatical, a
importância que têm essas pessoas públicas no cenário da comunicação, para o
respeito à norma culta da língua portuguesa.
Portal da ABL, 16/11/2020
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Evanildo Bechara - Quinto ocupante a Cadeira nº 33, eleito
em 11 de dezembro de 2000, na sucessão de Afrânio Coutinho e recebido em 25 de
maio de 2001 pelo Acadêmico Sergio Corrêa da Costa.
* * *
terça-feira, 17 de novembro de 2020
MILAGRES AINDA ACONTECEM – Plinio Maria Solimeo
15 de novembro de 2020
Da esquerda para a direita estão Patrick (camisa amarela), Brendan (meio) e Sean Lacey. A foto foi tirada em julho de 2017 no jardim Rose na paróquia da família, Santa Rosa de Lima, após as curas. Patrick agora tem 14, Brendan tem 16, e Sean tem 13. (foto: Cortesia da família Lacey)
- Plinio Maria Solimeo
Neste mundo cada vez mais ateizado, milagres aparentes são cada vez mais
raros. Sabemos que eles ocorrem em Lourdes e outros locais de peregrinação. Mas
não no dia a dia do comum das pessoas. Por isso nos surpreende um duplo milagre
do qual foram beneficiados há pouco dois adolescentes de uma mesma família
americana de Nova Jersey.
Charles e Cathy Lacey têm três filhos: Brendan, Patrick e Sean. O filho do
meio, Patrick, de dez anos, tinha paralisia cerebral, e usava aparelho nas
pernas desde os três. Além disso, como diz sua mãe: “Seus músculos não
esticam o suficiente para ele ficar de pé”. O menino gostaria muito de
passear pelo campo, mas isso mexe tanto com seu corpo, que depois ele precisa
de dois a três dias para se recuperar. “Ele também tossia muito, tinha
fadiga, falta de apetite, e às vezes pegava pneumonia”, acrescenta sua mãe
Cathy.
O que
piorava esse quadro clínico é que a paralisia acabava afetando a capacidade
mental do menino, de maneira que ele tinha “problemas com letras e números,
e nada parecia aderir à sua memória. Ler era para ele um problema”. Por
isso Patrick estava recebendo terapia física, ocupacional e fono-audiológica
intensa na escola, no Hospital Nemours/Alfred I. Dupont para Crianças,
em Wilmington, Delaware, e com terapeutas particulares locais.
Acontece que uma desgraça geralmente não vem só: os Lacey descobriram que
também o filho mais velho, de 12 anos, começava a ter problemas de saúde. Diz a
mãe: “Naquela época, Brendan começou a ter dificuldade para comer. Em cada
refeição ele tinha que se desculpar e limpar a garganta, pois a comida não
descia”. Levado a um especialista, os médicos fizeram vários exames,
incluindo uma endoscopia. Mostraram aos pais do adolescente fotografias da
mesma, que acusavam que o esôfago de Brendan “parecia terrível lá dentro”.
Receitaram ao adolescente quatro medicamentos diários para esofagite
eosinofílica — doença crônica do sistema imunológico em que os eosinófilos (um
tipo de célula sanguínea) se acumulam no esôfago provocando, entre outras coisas,
dificuldade para engolir, engasgo, comida grudando no esôfago, e consequente
dor abdominal. Com isso a vida da família complicou-se muito, pois agora eram
dois filhos que tinham que fazer viagens semanais ao hospital, que ficava a uma
hora de distância de sua casa, para tratamento.
Entretanto, a família Lacey era católica praticante. “Eu estava rezando
muito durante esse tempo, especialmente o Rosário”, diz Cathy. “Deus
estava me carregando por meio da oração”.
Um dia em que ela fazia adoração ao Santíssimo na capela da Igreja
de Santa Rosa de Lima, em Haddon Heights, Nova Jersey, resolveu entrar pela
primeira vez na livraria do centro espiritual da igreja. Nela se sentiu atraída
por um DVD sobre a exposição “Tesouros da Igreja”. Tratava-se de uma exposição
internacional, organizada pelo Pe. Carlos Martins, que incluía 150 relíquias de
santos como Maria Goretti, Teresa de Lisieux, Francisco de Assis e António de
Pádua, além de uma das maiores relíquias da Verdadeira Cruz, e
um pedaço do véu que, segundo à tradição sancionada, pertenceu a Nossa
Senhora.
A
Sra. Lacey levou o DVD para casa: “Nós o assistimos em família. E assim
que terminamos, Patrick disse: ‘Mãe, eu quero ir para ver isso’. Ele ficara
fascinado pelo que viu. Eu rezei: ‘Por favor, Senhor, deixe-me saber quando
essa exposição estiver por perto daqui.”
Verificando depois a programação da exposição, Cathy descobriu que ela
chegaria a Nova Jersey no mês seguinte. Por uma “coincidência”, a apresentação
do Padre Martins foi agendada para o dia de Santo Antônio, “ironicamente
na Igreja de Santa Inês, a mesma igreja em que meu marido fez seu curso de
formação católica para adultos, e recebeu todos os Sacramentos”, diz ela.
Durante a palestra do Padre Martins que precedeu a visita às relíquias,
a família Lacey pôde sentar-se na primeira fila. “Estávamos a cinco pés de
distância da Verdadeira Cruz e do véu de Maria”, explicou ela.
Primeiro Milagre
Naquela visita memorável aos “Tesouros da Igreja” após a palestra do
sacerdote, Patrick foi de relíquia em relíquia, tocando sua Medalha Milagrosa
em cada uma. Diz ele: “A primeira relíquia que toquei foi a madeira da
Verdadeira Cruz. Depois disso, fui a todas as outras relíquias, e toquei minha
medalha em cada uma delas”, contou.
Patrick continua: “Depois daquela noite, minha mãe começou a notar
algo diferente em mim. Pedi então a ela licença para não usar meu aparelho. O
que fiz, e não me sentindo nada dolorido. Então, alguns dias depois, minha mãe
disse: ‘Você está curado!’ ”
A Sra. Lacey explica o que ocorrera quando chegaram em casa: “Patrick
não estava dolorido. Ele subiu as escadas correndo direto para a cama. Eu
pensei: “Como assim!!? Poderia ser?!!”
No fim da semana subsequente, como estava excepcionalmente quente para
meados de fevereiro, Brendan e Sean pediram à mãe para ir andar de bicicleta no
parque. Patrick quis ir também. “Ele não andava de bicicleta há anos”,
explica ela.
Patrick foi de bicicleta todo o caminho até o parque. Lá continuou
pedalando “o tempo todo, mais de uma hora”. Depois, outra surpresa: “Ele
estava jogando! Não podíamos acreditar em nossos olhos”, disse Cathy. No
dia seguinte ele quis novamente ir com seus irmãos em suas bicicletas,
pedalando mesmo morro acima mais de uma vez.
“Naquela altura, eu sabia que era um milagre”, disse Cathy. “Eu
estava chorando, vendo-o jogar com os irmãos. Ainda estávamos maravilhados”.
De volta para casa, Patrick “nos diz que não precisa do aparelho, afirmando:
‘Estou curado’. E foi para a escola sem aparelho”, afirma a mãe.
Quando depois os Lacey levaram Patrick ao seu terapeuta regular — o
mesmo terapeuta que estava tentando ajudá-los a conseguir a cadeira de rodas
que o médico já dissera que Patrick precisaria, “porque seus ossos
estavam crescendo mais do que seus músculos podiam esticar, e sabia o quanto
eles lhe doíam pelas lágrimas que rolavam pelo seu o rosto” — o
terapeuta ficou boquiaberto ao ver que Patrick corria sem o aparelho
ortodôntico. A Sra. Lacey então lhe disse: “O Sr. realmente não sabe o que
nos dizer, não é?” O terapeuta respondeu: “Não tenho nem ideia do que
sucedeu”. Então Patrick contou-lhe toda a história da Exposição, e do papel
das relíquias dos santos.
Mas não parou aí. De volta à escola o menino, que tinha muita
dificuldade com adição e subtração, reservava outra surpresa: “A professora
disse que fez os três primeiros problemas com Patrick; os próximos quatro ele
mesmo fez sozinho, e acertou todos. ‘Ele está indo muito bem’”, afirma a
mãe.
Segundo Milagre
Entretanto, havia o problema com Brendan.
Depois da Exposição, chegando em casa, ele afirmou aos pais: “Minha
garganta está muito boa”. Eles perceberam que Brendan já era capaz de
manter a comida no estômago. Então pararam com os remédios. Em sua próxima endoscopia
agendada para a segunda-feira de Páscoa, os Lacey esperaram para ver as últimas
imagens. Nelas o esôfago de Brendan parecia normal e saudável.
Um ano depois, em seu primeiro ano do ensino médio, Brendan voltou para
casa do treino de futebol, faminto, e pegou um pedaço de frango, que ficou
preso na garganta. Ele acabou no hospital e teria que fazer uma cirurgia. A
caminho do hospital para “a galinectomia”, afirma ele que estava como que
“petrificado”. “Tudo o que eu conseguia pensar era em rezar […].
‘Senhor, por favor, poupe-me; me mantenha vivo. ‘Achei que pudesse parar de
respirar”. Entretanto, “No hospital, fazendo todos os testes, eu mal
conseguia falar e balbuciava constantemente. Minha mãe começou a rezar o
Rosário para que eu tranquilizasse. E logo depois que ela terminou, eu pude
falar. A Mãe Santíssima estava me protegendo, e me dando o conforto que eu
estava desesperadamente precisando naquele momento ”, diz ele. O
médico, especialista em esofagite e osinofílica, coletou amostras da esofagite
de Brendan para exames.
Duas semanas depois, a enfermeira do médico ligou. “Temos os
resultados. Mostra alergias e inflamação.”
Cathy perguntou: “E os eosinófilos?” que eram o que
provocava todo o problema de Brendan. A enfermeira respondeu: “Não há eosinófilos”.
“Ela [a médica] não fez o teste?” Cathy perguntou, só
para ter certeza.
Claro, disse a enfermeira. “Mas não há eosinófilos”,
enfatizou ela uma segunda e depois uma terceira vez.
A Sra. Lacey recebeu emocionada essa notícia que confirmava que Deus
havia curado Brendan. “Deus é tão bom com esta reafirmação [a
cura]”, exclamou ela.
Por sua parte, Brendan afirma: “Eu fui oficialmente curado. Fiquei
maravilhado com a graça de Deus, e sua disposição de curar o que havia de
errado comigo por meio da intercessão de seus santos e de sua grande
misericórdia”.
Rememorando o tempo passado, o adolescente julgou que sentira que já
tinha sido curado pela intercessão dos santos logo após a exibição das
relíquias. “Quando penso no milagre que sucedeu comigo”, afirma Brendan
agradecido, “honestamente, isso me ajudou a crescer como pessoa de muitas
maneiras. Tudo sobre isso fazia parte do plano de Deus. Estávamos visitando as
relíquias, e eu realmente esperava por graça de amor para mim. Logo depois que
o milagre aconteceu, eu definitivamente poderia dizer que eu me sentia algo
diferente. Eu estava cautelosamente otimista, porque não sabia se minha mente
estava me pregando uma peça. Eu definitivamente estava sendo fortalecido na fé
naquela época ”.
Desde a Exposição das relíquias e o episódio do hospital, explica
Brendan que: “Minha fé cresceu astronomicamente”. De modo que ele se
envolveu mais nas atividades da igreja, inclusive como líder do grupo de jovens
de Santa Rosa de Lima, e como coroinha.
Por outro lado, Patrick explicou que “temos rezado um rosário em
família todos os dias, e vamos a Santa Rosa para rezá-lo nas quintas-feiras“.
Entre suas próprias orações, ele afirma que “todas as noites agradeço a Deus
por me curar e aos santos anjos e santos por me curar, e pela manhã também”.
Como resultado do milagre, agora Patrick já joga futebol e basquete em
um time com seu irmão Sean, e é também coroinha. O pai, que a princípio lutou
com a dúvida sobre os milagres, está se preparando para o diaconato leigo.
Quando perguntam à Sra. Lacey qual o santo que mais especialmente teria
obtido o milagre para seus filhos, ela afirma: “Foram todos os santos. Eu
não poderia atribuir isso a nenhum. Era todo o exército celestial. ”
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https://www.abim.inf.br/milagres-ainda-acontecem/
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segunda-feira, 16 de novembro de 2020
O BRASILEIRO MITO EM HOLLYWOOD - Ignácio de Loyola Brandão
Estava passando um final de semana com o casal Sueli e Ivo Szterling e ela me deu o livro Meu Pecado, de Javier Moro, jornalista que escreve best-sellers curiosos. Não consegui largar. Em um dia e meio devorei a biografia de Conchita Montenegro, espanhola belíssima que triunfou em Hollywood nos anos 1930. O ambiente é o do cinema, mas também o da guerra civil espanhola. No livro surge o brasileiro Raoul Roulien em um episódio trágico. Quando cheguei às páginas sobre Raoul, me vi transportado para uma tarde do início dos anos 1960.
Jô Soares e eu estávamos a conversar junto à imensa mesa que
servia para reuniões na redação do jornal Última Hora. Nesta mesa, Jô às vezes
dava um show de sapateado, adorávamos. Devia ser quatro da tarde, Jô me
cutucou: “Olha, olha! Veja quem está entrando”. Era um homem alto,
bem-apessoado, leve início de calvície, sorriso enorme. Carismático. “Quem é a
figura?” Jô ironizou: “Você escreve sobre cinema e não sabe? Raoul Roulien”.
Dei um salto, fui ver, Raoul chegara à mesa do Ibiapaba Martins, escritor que
editava Variedades. Ouvi-o dizendo: “Trouxe minha primeira coluna”.
Ibiapaba apanhou e chamou o Jô. Nós três ali, ele comunicou:
“Roulien, a partir de hoje, escreve uma coluna sobre teatro”. Roulien na nossa
UH? Fiquei paralisado, era a primeira vez que eu me via diante de um astro, no
sentido total da palavra. Ele foi o Rodolfo Valentino brasileiro em Hollywood.
Galã, cantor, bailarino, sedutor. Corremos ao arquivo, dona Alzira, setentona –
achava eu – com seu cigarro em uma piteirazinha de prata, quando soube que
Roulien estava na redação, nos atirou a pasta e desceu voando. Eles eram da
mesma época. Falei para o Jô: “O cara vem trabalhar aqui com a gente? Vamos
aproveitar, saber um mundo de histórias”.
Nós dois, Jô e eu, com 20 e poucos anos, éramos unidos na
paixão pelo cinema. De coisas sérias a trivialidades. Descobrimos juntos o Zé
do Caixão. Líamos A Cena Muda, a Filmelândia, Cinelândia, a
Carioca, que traziam Dulce Damasceno de Brito, Zenaide Andrea, Lyba
Fridman. Líamos Paulo Emílio, Alex Viany, Moniz Vianna, Almeida Salles. O Jô,
que lia inglês muito bem e cujos pais viajavam, tinha em casa Movieland,
Movie Screen e Confidential, esta com seus escândalos. Líamos
Louella Parsons, fofoqueira, chantagista e sua rival Hedda Hopper, que
dominaram Hollywood por anos. Temidas, uma notícia ruim delas destruía uma
carreira.
Assim, sabíamos que Roulien tinha sido criança prodígio no
Brasil, na juventude era um “estouro”, galã adorado pelas normalistas, a
palavra fã fora criada para ele. Mudara-se para Hollywood na década de 1930,
tornara-se astro disputado pelas mulheres, cantava e dançava.
Aquele homem ali na redação da UH, que todos desconheciam,
frequentava as festas de Greta Garbo, contracenou com Carmem Miranda, Spencer
Tracy, John Barrymore – um mito –, Joan Bennet e Leslie Howard. Foi ele quem
indicou Ginger Rogers e Fred Astaire para uma cena de dança em Voando Para
o Rio (Flying Down to Rio) e dali em diante Astaire se tornou o que todos
sabem, o maior bailarino do cinema em todos os tempos. Ator, cantor, dançarino,
produtor, diretor, Roulien foi escolhido por George Gershwin para interpretar a
canção Delicious no filme de mesmo título. Lançou dois foxtrotes de Irving
Berlin com versões suas: Mente por Favor e Se Eu Perdesse Você. Chegou a ser
dirigido por John Ford em 1934, no filme The World Moves on, com Madeleine
Carroll, superstar. Há indícios de que teria também descoberto Rita Hayworth.
Quando voltou ao Brasil, em 1932, foi carregado nos ombros pela multidão.
Em 1933, uma tragédia. Raul era casado com uma mulher
belíssima, Diva Tosca, que morreu atropelada por um bêbado de nome John Huston,
futuro diretor. Raul processou, porém os Hustons eram poderosos, ele perdeu a
causa e foi banido de Hollywood. Um latino processando a elite? Sua carreira
terminou, ele voltou ao Brasil, fez teatro, jornalismo, planejou
superproduções. Fez televisão e era adorado pelos colegas, deu aulas de
interpretação. Quando o conhecemos devia estar com 56 anos, sempre disposto e
sorridente. Todas as vezes que tentamos saber do passado, ele se calou. Nunca
tocou no assunto Hollywood. Que histórias perdemos? O que nunca foi contado que
poderíamos ter sabido? Por que ele nunca escreveu uma autobiografia? Também
nunca ouvimos uma só palavra de autopiedade, nostalgia, lamento. Morreu em São
Paulo em 2000, aos 95 anos. Esquecido.
*
Raul publicou em 1933, pela Freitas Bastos, um livro, A
Verdadeira Hollywood, esgotadíssimo. Haverá nele um desabafo ou sua
indignação?
O Estado de S. Paulo, 11/11/2020
https://www.academia.org.br/artigos/o-brasileiro-mito-em-hollywood
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Ignácio
de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de
março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.
* * *
domingo, 15 de novembro de 2020
ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: Verso Delirante - Bernardo Linhares
Verso Delirante
Bernardo Linhares
Rastro da cauda do cometa,
trajando gala a lua cose
a fantasia do planeta.
dândi no espelho do profeta,
qual paranoia em neurose,
delírio é pena de poeta.
poeta rima com caneta
quando no verso há simbiose.
como se fosse a borboleta
que no casulo se diz pétala.
Bernardo Linhares
* * *
PALAVRA DA SALVAÇÃO (210)
33º Domingo do Tempo Comum – 15/11/2020
Anúncio do Evangelho (Mt 25,14-30)
— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Mateus.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, Jesus contou esta parábola a seus
discípulos: “Um homem ia viajar para o estrangeiro. Chamou seus empregados
e lhes entregou seus bens. A um deu cinco talentos, a outro deu dois e ao
terceiro, um; a cada qual de acordo com a sua capacidade. Em seguida viajou.
O empregado que havia recebido cinco talentos saiu logo,
trabalhou com eles e lucrou outros cinco. Do mesmo modo, o que havia
recebido dois lucrou outros dois. Mas aquele que havia recebido um só,
saiu, cavou um buraco na terra e escondeu o dinheiro do seu patrão. Depois
de muito tempo, o patrão voltou e foi acertar contas com os empregados. O
empregado que havia recebido cinco talentos entregou-lhe mais cinco, dizendo:
‘Senhor, tu me entregaste cinco talentos. Aqui estão mais cinco que
lucrei’. O patrão lhe disse: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Como foste fiel
na administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais. Vem participar da
minha alegria!’
Chegou também o que havia recebido dois talentos, e disse:
‘Senhor, tu me entregaste dois talentos. Aqui estão mais dois que
lucrei’. O patrão lhe disse: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Como foste fiel
na administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais. Vem participar da
minha alegria!’
Por fim, chegou aquele que havia recebido um talento, e
disse: ‘Senhor, sei que és um homem severo, pois colhes onde não plantaste e
ceifas onde não semeaste. Por isso, fiquei com medo e escondi o teu
talento no chão. Aqui tens o que te pertence’.
O patrão lhe respondeu: ‘Servo mau e preguiçoso! Tu sabias
que eu colho onde não plantei e ceifo onde não semeei? Então, devias ter
depositado meu dinheiro no banco, para que, ao voltar, eu recebesse com juros o
que me pertence’. Em seguida, o patrão ordenou: ‘Tirai dele o talento e dai-o
àquele que tem dez! Porque a todo aquele que tem será dado mais, e terá em
abundância, mas daquele que não tem, até o que tem lhe será tirado. Quanto
a este servo inútil, jogai-o lá fora, na escuridão. Aí haverá choro e ranger de
dentes!’”
— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.
https://liturgia.cancaonova.com/pb/
---
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Roger
Araújo:
https://www.youtube.com/watch?v=08LLsavOWb8&feature=emb_logo
---
Talentos: nosso "ser
essencial"
“A um deu cinco talentos, a outro dois, a outro um; a cada um de acordo com a sua capacidade”
Neste 33º. Dom. do Tempo Comum, a liturgia nos propõe uma
parábola não só complexa, mas difícil de incorporar à nossa habitual
interpretação das parábolas dos evangelhos. A história relata um episódio que
um homem rico, ao sair em viagem, reparte seus bens entre seus servos com a
intenção de que os façam render para que, no seu retorno, possa ver
incrementado seu patrimônio. No seu regresso, premia àqueles que tiveram êxito
no negócio e castiga duramente aquele que, por medo, enterrou o dinheiro
recebido e não gerou lucros para o seu patrão.
Geralmente, ao interpretar ingenuamente a parábola,
consideramos que este homem rico está representando a Deus e que os servos
representam as diferentes respostas diante dos “talentos” recebidos do mesmo
Deus. No entanto, a partir desta compreensão, torna-se difícil entender como
Jesus pode apresentar o Deus do Reino atuando de forma tão dura e sem
misericórdia com quem não fez crescer o “talento”. O modo com que
frequentemente resolvemos a dificuldade é responsabilizar o servo que enterrou
seu “talento”. Consideramos que este servo agiu com negligência e covardia e,
portanto, mereceu ser castigado.
Sempre corremos o risco de uma interpretação literal e
moralista da parábola. Isso dá margem a alimentar uma falsa imagem de Deus.
Mas, o Deus de Jesus não atua a partir do critério de prêmio e castigo. A
atitude do senhor da parábola não pode ser exemplo do modo de agir de Deus.
Jesus nunca acreditou nem nos apresentou a Deus como o senhor desta parábola,
que funciona por interesses e rentabilidade. O Deus de Jesus, nosso Deus, é
bondade, acolhida, compaixão e misericórdia. Tampouco o Deus de Jesus é um
senhor duro e rancoroso, que recolhe onde não semeia, que arranca até o último
centavo e que ameaça jogar o ser humano na “geena”, onde haverá choro e ranger
de dentes.
Não, Jesus não quer que rendamos lucros para o patrão
egoísta e austero, que causa pavor no terceiro servo da parábola. Deus não é
austero nem egoísta. Deus é “dom” que se oferece, se compartilha... A presença
de Deus nos inspira para que sejamos e ativemos a vida, pelo prazer de ser e de
partilhar... E pelo prazer de partilhar com os outros o que temos recebido.
Por isso, a parábola dos talentos é muito mais um protesto
contra uma estrutura social e religiosa centrada na cultura do prêmio/castigo,
inclusão/exclusão, competente/incompetente...
Pensemos na parábola do filho pródigo, que é tratado pelo
Pai de uma maneira completamente diferente. Tirar o pouco que tem daquele que
tem menos para dá-lo ao que tem mais, tomado ao “pé da letra”, seria impróprio
do Deus de Jesus. Através da parábola, Jesus denuncia o “deus da religião”,
manipulado pelos encarregados do Templo (sacerdotes, escribas, fariseus...)
para exercer o poder religioso sobre as consciências das pessoas e, assim,
mantê-las sob seu controle.
Em “chave de interioridade”, alimentamos em nós a
imagem de um “deus” que é fruto de nossas projeções, muitas vezes carregadas de
feridas, traumas, medos, autoexigências, busca da perfeição... Uns projetam a
imagem do “deus do mérito”, que recompensa aqueles que se esforçam em
“multiplicar talentos”; é a imagem do “deus” dos dois primeiros servos. Numa
cultura na qual tudo se valoriza pelos resultados, é muito difícil compreender
isto. Em um ambiente social onde ninguém se move a não ser por um pagamento,
onde tudo o que é feito deve trazer algum benefício, é quase impossível
compreender a gratuidade que o evangelho nos pede. Se buscamos prêmios é que
não entendemos nada do evangelho.
Outros projetam a imagem do “deus do medo”, duro,
intransigente, que cobra até o último centavo, que castiga... É o “deus” do
terceiro servo.
Estas falsas imagens de Deus, no entanto, causam danos e
afetam a vida em todas as suas dimensões (pessoal, familiar, social,
espiritual). Por detrás destas imagens se encontram crenças religiosas às quais
chamamos crenças tóxicas.
Estas crenças tóxicas podem gerar personalidades dependentes
e submissas, neuróticas e ansiosas, medrosas e passivas, moralistas e
perfeccionistas; ou talvez personalidades agressivas, dominantes, vingativas,
controladoras. São o reflexo de uma imagem distorcida de Deus e “chegamos a nos
parecer com o Deus que projetamos”. Esta distorção é o resultado, muitas vezes,
de uma educação rigorosa e moralista, produto de uma espiritualidade dualista
que coloca a perfeição como o ideal de todo cristão e o menosprezo de
tudo o que não é “espiritual”. Estas crenças religiosas geram uma fé tóxica ou
insana porque nos afastam do Deus de Jesus e podem favorecer a dependência
religiosa e o abuso espiritual.
Também é insuficiente interpretar “talentos” como qualidades
da pessoa. Esta interpretação é a mais comum e está sancionada em nossa
linguagem. Quê significa “ter talento”? Também não é esta a verdadeira
questão da parábola. Em relação às qualidades pessoais, somos instigados a
ativar todas as possibilidades, mas sempre pensando no bem de todos e não para
acumular mais e “depenar” os menos capacitados, dando graças a Deus por sermos
mais espertos que os outros.
Se permanecermos na ordem das qualidades pessoais,
poderíamos concluir que Deus é injusto. A parábola não julga as qualidades, mas
o uso que fazemos delas. Quer tenhamos mais ou quer tenhamos menos, o que nos é
pedido é que coloquemos a serviço de nosso autêntico ser, a serviço de todos.
Na dimensão da essência, todos somos iguais. Se
percebemos diferenças é que estamos valorizando o acidental. No essencial,
todos temos o mesmo talento. As bem-aventuranças deixam isso muito claro: por
mais carências que tenhamos, podemos alcançar a plenitude humana.
Como seres humanos temos algo essencial, e muita coisa que é
acidental. O importante é a essência que nos constitui como seres
humanos. Esse é o verdadeiro talento: o que há de mais humano em nós. Ter ou
não ter (o acidental) não constitui a principal preocupação. Os talentos, de
que fala a parábola, não podem fazer referência a realidades secundárias, mas
às realidades que fazem cada pessoa ser mais humana. E já sabemos que ser mais
humano significa ser capaz de amar mais. E amar quer dizer servir aos
outros.
Os talentos são os bens essenciais que devemos
descobrir, pois estão presentes em nosso interior. A parábola do tesouro
escondido é a melhor pista. Somos um tesouro de valor incalculável. A primeira
obrigação de um ser humano é descobrir essa realidade; devemos estar voltados
para o nosso interior e poder ativar todas as nossas possibilidades. A “boa
nova” é que todos coloquemos esse tesouro a serviço de todos. Nisso consiste o
Reino anunciado por Jesus.
O grande “pecado” dos(as) seguidores(as) de Jesus é a de não
arriscarem a segui-Lo de maneira criativa. O tesouro (os talentos verdadeiros
da vida) não é algo que se mede em termos pecuniários. O valor do ser humano,
seu talento, é a vida como tal, a capacidade de receber e partilhar
amor. Neste sentido, “lucrar” é simplesmente ser, deixar-se amar, “lucrar” é
simplesmente viver no amor. Não se trata de “lucrar” talentos em dinheiro, mas
o talento mais profundo da vida, o “tesouro” que está presente nas profundezas
de nossa existência, esperando a oportunidade para “render” mais compaixão,
bondade, sensibilidade solidária...
Temos o grande talento, a Vida de Deus, que nos
atravessa e se visibiliza no coração compassivo, nos olhos contemplativos, nos
pés que quebram distâncias, nas mãos servidoras... Que vivamos sem medo: é isso
que a parábola revela. Passar dos “talentos” ao Talento, e em
especial ao Talento do Coração (talento do Reino), a serviço da
humanidade.
Texto Bíblico: Mt 25,14-30
Na oração: dar nomes aos medos que estão
paralisando sua vida, impedindo-o de viver com mais ousadia e
criatividade.
- Quem é o “Deus” em quem você crê? É o “deus da
lei”, o “deus do mérito”, o “deus” que cobra até o último centavo... ou o “Deus
de Jesus”: Pai e Mãe, fonte de misericórdia e compaixão?
- A fé e a confiança em Deus possibilitam ter acesso às suas
riquezas interiores e expandi-las?
Pe. Adroaldo Palaoro sj
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sábado, 14 de novembro de 2020
A FALA DO SANTO EM MUNIZ SODRÉ por Cyro de Mattos
A Fala do Santo em Muniz Sodré
Cyro de Mattos
Muniz Sodré reúne em A Lei do Santo (2000) quinze contos, que têm como tema o mundo do negro afrodescendente e do brasileiro negro. Esse universo rico de saber e mistério é revelado numa prosa fácil de ser captada através das seguintes histórias: “Purificação”, “Água de rio”, “A lei do santo”, “Oluô”, “À moda da Bahia: Tengo Lemba”, “Al dente”, “Vermelho Havana”, “O cágado na cartola”, “Diferença”, “Metafísica do galo”, “Uma filha de Obá”, “Chuva”, “O despejo”, “Batatundê” e “A partida”.
O autor desses contos, que
escorrem no texto com uma linguagem clara, sutilezas no dizer fácil para
revelar o mistério que se ata imperceptível ao mundo real, é sociólogo e Obá
Aressá Nilé Axé Opô Afonjá. Formado em capoeira pela Escola de Capoeira
Regional de Mestre Bimba, sediada em Salvador. Dessa maneira, dotado do
atributo erudito e do saber popular
percebe-se de logo que o autor
movimenta-se à vontade para falar
do Oculto, do Destino, do Fundamento, do Preceito, do Rito, da Comida, do Som e da Cor, de tudo
que emerge da lei do santo na qual seus mitos e crendices resvalam-se pelo
mundo cotidiano do negro. Na escritura pontuada de saber e mistério ocorre um
ritmo cativante, que interliga o divino ao real, circunscreve autor e leitor
num círculo que ao mesmo tempo reflete o escritor, o ensaísta, o pensador e o
artista da palavra, íntimo do assunto, e o negro da Bahia ou de outro
lugar.
São contos bem escritos, de
imaginário simbólico que atrai, torna cúmplice o leitor de um mundo que
responde à sua cosmogonia com as marcas da magia, oriunda de verdades míticas,
sentimentos e belezas além do tempo. Saberes que em sintonia com o mistério vêm
das raízes, dizem de um modo particular de ser negro e seu mundo com bases na
fé, que é capaz de iluminar a parte noturna do ser com vistas à compreensão dos
seres e as coisas. É assim que, nesses
textos de ficção breve, vozes emanadas das fissuras e aberturas tênues fazem
com que se enxergue de maneira saudável uma cultura que tem sua história milenar,
transcendências povoadas de deuses trazidos da África.
O negro é mostrado aqui com o seu
universo feito de histórias, sintonia com sonhos, símbolos de costumes,
crenças, saberes e ritos. Evidenciado como protagonista de situações encobertas
de mistério, flagrado e deflagrado através de sua vida corriqueira, tantas
vezes importante no palco da existência, na trama que o envolve e quer
suplantar a ideologia, para assim alcançar com o seu entendimento herdado dos
antepassados as dimensões da utopia. O
plano dessa utopia é feito de saberes provindos de profundas camadas míticas,
de ressonâncias que chegam a provocar o efeito do estranhamento. Auxiliado pelo
orixá na demanda armada pelo difícil
gesto do viver, esse negro, consequência de virtudes e defeitos no contexto que
é indiferente ao seu destino,
mostra-se de corpo e alma como
consegue encarar a situação desigual, superar os ditames da dura lei da vida,
em geral imposta pelo não preto, e também como não pode se desvencilhar de crenças e costumes tão
dele.
O imaginário desse negro pulsa com
sombras herdadas de outros tempos, cada uma à espera de ser desvendada. Quando
uma delas aflora com luzes das camadas ocultas do mistério mostra-se ligada a
uma cosmogonia que se reflete no mundo e vibra em cada destino. Não é difícil
perceber que o inexplicável que cerca por todos os lados esse negro procede de
fímbrias e vislumbres, que se projetam além do tempo. Na escrita fluente, a narrativa segura de
Muniz Sodré costura personagens que infundem com o seu caráter um jeito de ser
negro, que parece não ser deste mundo, embora pise o chão do cotidiano em
rotação contínua. É que em Fala do Santo o tempo do cotidiano posto em
cada personagem movimenta-se sob o enlace do saber guardado como tesouro em
segredo. O lugar onde os personagens definem-se está sempre nos limites do
acontecimento impossível, que prende até o desfecho. Este, se não é do nosso
mundo, surpreende com o susto provocado na surpresa que ilumina, abrange a
beleza e a poesia, retiradas do divino para o encontro perfeito com o real
externo. A natureza de cada personagem com seus feitos impregnados de voos
impossíveis, percalços difíceis, possibilita a história dotada de sugestões,
auscultações, questões na medida que é necessária para dar a entender que o
mundo do negro é de profunda magia, belo, adensado de saberes, cantos e falares
respeitáveis. Suas surpresas que instigam na trama atraente decorrem de crença
inexplicável através da razão lógica, ao contrário se sustenta com os fios duma
magia que esconde um tesouro guardado no segredo.
Uma das marcas do autor na execução
da história consiste no humor, que às vezes aparece com a roupagem da ironia,
capaz de suscitar em pouco instante o riso que a vida oferece no trecho
envolvente da prosa espontânea. O conto
“Al vento” é exemplo da boa qualidade expressiva do narrador, que sabe prender
com o enleio da intriga. É vivido por
Mirinho, homem baixo e atarracado, que tem dentes fortes, fizeram sua fama
desde pequeno quando torava cana, descascava e chupava com “presteza de
máquina”. Quando topava com osso de boi, não se intimidava. Suas presas
rasgavam e estraçalhavam com prazer tudo que encontrassem de duro pela frente,
chegando rápido ao tutano. Carne-seca fosse como pedra era logo triturada,
virava uma coisa macia, degustada como
uma pasta saborosa.
Recebera de presente do padrinho
Anacleto um violão antigo, de grande valor.
Como o padrinho era tocador de cavaquinho, formou-se a dupla, bastante
admirada quando se apresentava no bar ou botequim. Anacleto, o padrinho, era um
homem corajoso e violento, todos o temiam. Vivia na lei do santo, dado a comer
carne de cachorro, daí ser considerado como filho de Ogum. Achava que o
afilhado tinha também a cabeça comandada pelo santo.
Mirinho foi morar em Niterói,
levando o violão como instrumento necessário para atenuar as saudades quando
batessem no peito com as cenas do interior. Fez-se conhecido nas serestas, rodas de choro e
onde quer que se exibisse um conjunto musical. Trecho desse conto admirável diz
que “desgraça às vezes se acumula para o pobre como dinheiro em mãos de gente
rica: o sujeito não precisa fazer nada, cresce o montão, como uma pedra que
role e, contrariando o provérbio, com limo’.
Mirinho já havia passado momento infeliz
pela perda da mãe, do pai, um irmão e até mesmo um filho, mas sentiu um forte
aperto no coração quando tomou conhecimento que o padrinho fora morto pelas
costas. Certa vez, nessa maré de tristeza, um assaltante investiu contra o
rapaz para tomar o violão. Resistiu. Na briga, desigual para ele, prestes a ser
vencido por golpes sucessivos do agressor feroz, ouviu uma voz a dizer-lhe:
“use os dentes”. Era aviso do padrinho em hora vexatória. Agarrou-se ao homem,
alto e forte, que lhe desfechara vários murros durante a luta. Enfiou a dentada
no peito, rasgando o mamilo e os músculos do ladrão. Tudo poderia ter terminado
com a fuga do ladrão ensanguentado, não aparecesse a voz do padrinho, dizendo
que queria receber seu agrado pela ajuda. Queria comer carne de cachorro gordo.
A iguaria era para ser preparada com as carnes de Tarzan, o cachorro de
estimação de Mirinho. A exigência não foi aceita, mas o espírito de seu França
continuou aparecendo nos sonhos do afilhado, fazendo caretas e exigindo que
fosse cumprido o que pedia como recompensa de sua ajuda na refrega acirrada que
Mirinho teve com o assaltante.
O espírito do padrinho ficou ofendido com
a recusa do afilhado. Não havia outra explicação para o que passou a acontecer
com os dentes de Mirinho e de Tarzan. Foram caindo um após outro, de maneira
incontornável. E ficaram expostos como troféus da desgraça na vaza de tijolos
que lhes serviam de prateleira. Difícil era saber, aos olhos de quem visse, o
que era de gente e de cachorro.
“Al
vento” é um primor de conto que aborda o negro ligado no seu plano mágico ao
palco da vida, podendo figurar em qualquer antologia do gênero, como também
outras histórias que integram A Fala do Santo. E esse é o melhor elogio que se pode fazer à
arte de contar a história do negro com o jeito de Muniz Sodré, autor que
usa linguagem simples por conta do
santo, sabe informar, nas passagens da escrita saborosa, e bem, as intervenções
do que está oculto. Como este acontece no enredo que prende e forma um diálogo
harmonioso com o leitor, em muitas situações chegando a hipnotizar.
Referência
SODRÉ, Muniz. A Fala do Santo, Editora do Livro Técnico, Rio de Janeiro, 2000.
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Cyro de Mattos é ficcionista, poeta, cronista, ensaísta e autor de literatura infantojuvenil. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da UESC (Bahia). Possui prêmios importantes. Publicado no exterior.
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