Muitas obras de arte moderna, intencionalmente ou não,
colaboram para habituar as pessoas ao caos, à cacofonia e à decadência. [Land
of Black Gold – Ali Banisadr (2008). Coleção Particular].
Plinio Corrêa de Oliveira
Como se faz a transição do regime de ordem para o regime de
desordem? Como habituar as pessoas ao caos, à cacofonia, à decadência, sem que
elas discordem e se revoltem?
Teria de ser feita pouco a pouco, uma lenta imersão na
desordem, mas vergando as pessoas e levando-as a degradar-se, a aceitar a
Revolução* do modo como os seus mentores a planejaram. Tais mentores estão
implantando assim a generalização gradual do caos, que chamam de “caos
harmônico”, habituando a humanidade a viver numa espécie de caos macio, mas que
vai desarticulando toda a civilização.
Na demolição que está sendo feita, tudo é contado, pesado e
medido implacavelmente, e transcorre sem perda de tempo, sem desviar-se do
objetivo planejado. Mesmo quando parece desvio, a execução do plano caminha
inexoravelmente. Assim é a situação atual dos acontecimentos.
O problema que se coloca para os promotores do caos é o
seguinte: quando as pessoas perceberão que estão sendo vítimas desse plano?
Quando despertarão, dispostas a empreender a reação?
Creio que haverá em dado momento da História uma grande
graça concedida pela Divina Providência. Nesse momento, muitos dos que agora
dormem acordarão, e saberão encontrar a verdade. Para Deus tudo é possível!
____________
Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa
de Oliveira em 28 de janeiro de 1989. Esta transcrição não passou pela revisão
do autor. A palavra “Revolução” é aqui empregada no sentido que lhe dá o
livro Revolução e Contra-Revolução.*
Caminhava-se através de pequeninas casas que se apoiavam
umas às outras e em breve se chegava a um retiro de caravanas. Mas naquele dia,
junto a uma aguada no centro, o número de forasteiros, que ali haviam chegado,
era enorme. Faziam pequenos círculos nessa hospedaria a céu aberto, sob a luz
das estrelas; muitos cantavam alto sua ascendência, no encarreiramento de nomes
ressoantes, como se afiassem a língua para, no dia seguinte, diante de um
copista e do rolo de pele de carneiro, tornarem presentes suas linhagens de
Davi. Havia cameleiros encostados a enormes animais indormidos que bafejavam o
ar com seu hálito quente. Burricos relinchavam; eram presos junto a seus donos,
que se envolviam em mantos e tentavam dormir a céu aberto. Perto da entrada um
velho solitário cruzava as pernas encostando-se ao muro e repetindo orações,
imóvel e meio desfalecido. Agarrava-se às preces, quando soavam os gritos
alegres das gentes nômades que ralhavam por motivos de cargas. Lá atrás, havia
outros pequenos espaços murados, feitos de pedra mas também a céu aberto.
Comprimiam-se pessoas ali dentro, sob mantos, carga humana mais rica. Estas
divisões agora custavam bom dinheiro e quase só as mulheres as haviam ocupado,
enquanto os maridos, irmãos ou pais ficavam lá foram no envolvimento daquela
noite ruidosa, em que uns se roçavam a outros, em que seria possível até
morrer, agonizando aos gritos, como poderia ser o fim do velho em preces, e
talvez não houvesse ouvidos, pela grande confusão entre as vozes humanas e a
dos animais, a chegada de novas carroças, a oferta orgulhosa de ricos
comerciantes que tomavam as câmaras - se é que assim se podia dizer daquelas
separações em pedra - para as suas famílias, no tinir da moeda mais cara.
Maria esperava, olhando com curiosidade ferida, todas as
vezes que o largo portão se abria, para aquela gente ali amontoada, cheirando à
banha de carneiro e acendendo suas pequeninas fogueiras nos quatro cantos dos
muros. Depressa voltou José amargurado, mas escondendo os cuidados:
- Se quiseres, encontramos algum lugar, lá no fundo, depois
dos cameleiros.
- Mas já vejo que para mim seria difícil.
Sim, José via que a face assustada de Maria agora parecia
anunciar para breve um acontecimento que não deveria ocorrer naquela promíscua
hospedaria a céu aberto. Lembrou-se de um seu parente que possuía duas casas,
Gessel. Uma delas ele a conservava sempre pronta para receber amigos ou alguém
da numerosa parentela. Era um mercador rico. Quando os cascos do burrinho
rasparam as pedras do pórtico e o relinchar alegre soou diante da casa, ele já
estava, o parente mercador, às voltas com um homem que exigia fosse hospedado
por uma noite, ali em sua mesma casa e, à guisa de pagamento, empurrava-lhe
desde já peças de cobre, panos de linho, murmurando agradecimentos antecipados
e consternando o dono da casa. Ele notou a chegada de José, deixou de lado o
mercador e sua face se abriu numa alegria intensa.
- Eis o filho pródigo que volta a Belém!... com outros.
Mas antes que pai José fizesse descer Maria, ele mesmo foi
afetuosamente saudá-la:
- Que bela esposa tu encontraste! Para nós, seria grande
orgulho tê-la em nossa casa; mas desde ontem fomos quase assaltados por pessoas
que nos forçaram a abrir a porta e lá estão apinhadas e tão prontas a trocar o
teto pela má palavra, que, estou pensando, vou dormir fora de casa pois a noite
está limpa.
Vendo o cansaço e a desolação de Maria, não teve senão uma
pequena oferta cortês para fazer-lhes:
- Dentro de quatro dias a cidade ficará vazia, e então serão
convidados para vir morar aqui ou na segunda casa, além desta ladeira. Ela é um
pouco retirada da cidade mas, livre de tantos malcheirosos, poderá ser até
agradável.
José agradeceu o oferecimento:
- Irmão, disse-lhe, carregando no tratamento: Ainda, quem
sabe, habitaremos tua casa, ofertada de boa vontade, pois creio que ficaremos
algum tempo mais em Belém.
Retornaram a andar, e o que se via agora eram pessoas
dormindo fora de casa, acampadas nos currais, ou então, como eles, vagando de
cima a baixo pelas vielas à procura de um lugar. De tempos em tempos, pai José
olhava Maria, assim percebendo sua ansiedade.
- Devias ter ficado em casa de teu pai.
Ela se fazia forte até mesmo sabendo que o nascimento não ia
demorar muito, pois o peso do menino parecia cada vez maior e conhecia que o
filho estava pronto a dela desprender-se. Pai José mediu as colinas e se
lembrou de quando menino bem se ocultava da chuva em cavernas abertas para
guardar ovelhas, em outras cavas que eram depósitos de mantimentos. Novamente o
burrinho, desta vez dificilmente tirado de uma touceira de ervas, foi
movimentado. As casas iam ficando para trás. Sentia-se vivo o odor das
plantações. Um pequeno caminho apareceu por entre os campos, onde os pastores
amedrontados com a quantidade de forasteiros e suas fomes vigiavam os rebanhos
e se chamavam pelas escuridões, tendo muito bem amarrado as ovelhas, com suas vozes
quentes e roucas, ou até troando pequenos sons que eram imediatamente
respondidos em flautas de ossos de animais.
- Não, vamos mais longe, mais longe... - pedia minha mãe.
Caminhavam agora na direção de uma gruta escondida. Esta
deveria estar lá, pai José bem o sentia: no alto dela havia um abrigo para
pastores, embaixo, lugar para as ovelhas.
O Senhor fosse louvado, lá estava ela, sim, completamente
vazia, tendo os pastores aproveitado a noite mais seca e a convivência de
outros, para juntos guardarem os rebanhos, em dias de tantos estrangeiros e
visitantes. Lá estava ela, como quando a conhecera e passava tardes vendo, de
sua altura, o céu corar e a noite acender as estrelas. Lá estava ela, bendito
fosse o Senhor: o lugar onde Maria podia, sem ser ferida por aquela gente
ruidosa, em seu acanhamento, tomar o descanso de uma noite, enquanto ele
providenciaria hospedagem própria.
Na primeira parte da caverna havia a manjedoura e palhas no
chão; em cima, mais alguns passos na rocha, e eles poderiam deitar-se e esperar
o dia, para que pai José se inscrevesse e obtivesse o lugar desejado. Mas
enquanto José dormia, na parte alta da gruta, Maria deslizava e, acendendo um
archote que haviam trazido, iluminava o pequeno cocho; tomou do chão as palhas,
cobriu-o e escorregou mansamente ao lado dele, o archote iluminando seu rosto
angustiado. Principiou a chorar baixinho. "É assim que tu vens, Senhor meu
filho?"
O tempo se havia cumprido.
Lá bem longe, o canto dos pastores vindo ao vento, chamava
uns aos outros. Então eu gritei à Vida. Eu me havia separado da doçura e da
bondade do seio de minha mãe e gritava e chorava, uma criança ferida pela
aspereza de viver, porque o ar dói em nosso peito e começar a vida será sempre,
para todos os pequenos, também começar a gritar, chorar muito diante do
desconforto: as criancinhas logo sabem de sua dor e de sua áspera condição. Eu
gritava todo o choro, eu clamava como clamam os bem pequeninos. Maria cuidava
de mim. Tirava de seu ombro o manto de linho, enrolava-me nele. "E tu,
Belém Efrata?"
Dinah Silveira de Queiroz - Sétima ocupante da Cadeira 7 da
ABL, eleita em 10 de julho de 1980, na sucessão de Pontes de Miranda e recebida
pelo Acadêmico Raymundo Magalhães Júnior em 7 de abril de 1981.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Mateus.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, Jesus disse aos sumos sacerdotes e aos
anciãos do povo: “Escutai esta outra parábola: Certo proprietário plantou
uma vinha, pôs uma cerca em volta, fez nela um lagar para esmagar as uvas, e
construiu uma torre de guarda. Depois, arrendou-a a vinhateiros, e viajou para
o estrangeiro. Quando chegou o tempo da colheita, o proprietário mandou
seus empregados aos vinhateiros para receber seus frutos. Os vinhateiros,
porém, agarraram os empregados, espancaram a um, mataram a outro, e ao terceiro
apedrejaram.
O proprietário mandou de novo outros empregados, em maior
número do que os primeiros. Mas eles os trataram da mesma
forma. Finalmente, o proprietário enviou-lhes o seu filho, pensando: ‘Ao
meu filho eles vão respeitar’.
Os vinhateiros, porém, ao verem o filho, disseram entre si:
‘Este é o herdeiro. Vinde, vamos matá-lo e tomar posse da sua
herança!’ Então agarraram o filho, jogaram-no para fora da vinha e o
mataram. Pois bem, quando o dono da vinha voltar, o que fará com esses
vinhateiros?”
Os sumos sacerdotes e os anciãos do povo responderam: “Com
certeza mandará matar de modo violento esses perversos e arrendará a vinha a
outros vinhateiros, que lhe entregarão os frutos no tempo certo”.
Então Jesus lhes disse: “Vós nunca lestes nas Escrituras: ‘A
pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; isto foi feito
pelo Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos?’
Por isso, eu vos digo: o Reino de Deus vos será tirado e
será entregue a um povo que produzirá frutos”.
“... arrendará a vinha a outros lavradores, que lhe
entregarão os frutos no tempo certo” (Mt 21,41)
Segundo o relato bíblico, o Criador, depois de plantado o
jardim, parou o seu trabalho para descansar e contemplar: “E viu que tudo
era muito bom”. Tudo o que Deus fez terminou num jardim. Mas o
jardim já existia no coração e nos desejos do Criador. Por isso, o jardim é
a revelação da bondade de Deus, a expressão nobre de suas entranhas. E Deus tem
prazer em passear pelas alamedas desse imenso jardim; não é preciso templos e
nem altares, pois tudo pode ser lugar de encontro com o Criador.
Mas, Deus quis compartilhar essa experiência indizível;
criou o ser humano a partir da argila, ou seja, com os mesmos elementos da
natureza, e o colocou no centro deste imenso jardim, para que, prolongando a
ação criativa do Grande Artista, pudesse “guardar e cuidar” da Grande Casa
Comum.
A literatura bíblica fala da Grande Vinha, lugar
onde os homens, as mulheres e as crianças, em sintonia com todas as criaturas,
convivem em harmonia e compartilham os frutos abundantes das videiras. Por
isso, a primeira vocação do ser humano é a de ser jardineiro, pois
recebeu do Criador a missão de cuidar e preservar a Sua “vinha”. Vinha
é paraíso prometido; a vinha é realidade presente e é “terra prometida”.
Existimos para receber a vinha em herança, para prepará-la,
para fertilizá-la, para cuidá-la, para torná-la bela. Mas, que coisas
horríveis fizemos com a vinha que herdamos!
Por sua atitude de arrogância e de autosuficiência, o ser
humano explorou exaustivamente a vinha herdada e a destruiu,
depredou, aniquilou, tomou posse dela... Assim, não foi respeitoso para com o
Criador que a ele reservou a missão de cuidar da sua vinha e de compartilhar os
seus frutos. Conquistou demais e cuidou de menos. A ameaça provém da
atividade humana altamente depredadora da obra da Criação a ele confiada;
perdeu o sentido da corrente única da vida e de sua imensa
bio-diversidade; esqueceu a teia das inter-dependências e da comunhão de todos
com a Fonte originária de tudo.
A crise ecológica, pela qual estamos passando, é a
crise do próprio ser humano. A “vinha” do Senhor está em ruínas,
devido a maneira como o ser humano a tratou, arrancando dela pedaços para
satisfazer seus interesses egoístas e não se dá conta que está destruindo seu
próprio espaço vital. As conseqüências trágicas estão presentes por toda
parte:
Buracos na camada de ozônio, mutações climáticas provocadas
pelo efeito estufa, enchentes diluvianas, secas prolongadas e devastadoras,
desertificação de imensas áreas, erosão de solos férteis, desaparecimento de
florestas devido ao desmatamento e às chuvas ácidas, rios assoreados e poluídos
devido ao esgoto doméstico e aos detritos industriais, ar irrespirável pela
presença de monóxido de carbono e outros gases venenosos, poluição sonora e visual
das grandes cidades, crescimento e acúmulo de lixo urbano e industrial,
esgotamento das fontes de energia não renováveis e dos lençóis freáticos de
água, extinção continuada e crescente de espécies vegetais e animais, pondo em
risco a biodiversidade e o equilíbrio dos ecossistemas, escassez de alimento,
proliferação de doenças, migrações forçadas... Enfim, o desequilíbrio dos
ecossistemas pode comprometer, de forma irreversível, todas as formas de vida
sobre a terra.
O drama do ser humano está em perder a memória de que é
parte do todo: seu instinto de posse e domínio o leva a romper a
relação cordial com todas as criaturas, caindo num devastador vazio
existencial.
A “centração em si mesmo”, sem levar em conta a rede
de relações que o envolve, provoca a quebra da “re-ligação” com
tudo e com todos. Este é o veneno que corrói o ser humano por dentro: a
petrificação de sua interioridade, o embrutecimento de sua sensibilidade, a
perda do gosto pela verdade, pelo bem e pelo belo, o extravio da ternura e da
transcendência, a atrofia da comunhão com o todo cósmico...
O ser humano se colocou num pedestal solitário a partir de
onde pretende dominar a Terra e os céus; como consequência dessa atitude, temos
a devastação da vinha.
Com isso ele rompeu com a solidariedade natural entre todos
os seres; contradisse o desígnio do Criador que quis o ser humano como
co-criador e que por sua colaboração conduzisse a Criação à sua plenitude. Mas
este colocou-se no lugar de Deus. Sentiu-se, pela força da inteligência e da
vontade, um pequeno “deus” que quer manipular e dominar tudo.
Do evangelho deste domingo (27o dom TC) podemos deduzir
claramente que o ser humano não é senhor da vinha e não pode fazer com ela e
com os outros seres aquilo que bem entender. A primeira relação do ser
humano com a Vinha, portanto, não é a da posse, mas a da acolhida,
por ela ser dada em herança. Todos os bens da Criação são recebidos por nós
deste modo, ou seja, como dons.
A Vinha, como realidade doada, convida à
compreensão de sua origem, não para ser dominada e manipulada, mas para se
tornar dom e uma benção fecunda para todos.
Isso significa que a realização mais profunda das pessoas e
da natureza está na gratuidade, não no seu aspecto utilitário.
A vinha aparece sempre como aliada do ser humano; ela nos ensina a
viver em harmonia com a água, com a terra e com todos os seres, uma relação de
aliança, não de dominação arbitrária e exploradora.
Os profetas sempre insistiram neste ponto: quando o povo
guarda a aliança com Deus e respeita a terra, esta fica fértil e generosa.
Quando as pessoas rompem a aliança com Deus e se afastam d’Ele, a vinha fica
estéril. (cf. Is. 5,1-7)
A vinha não é o lugar para a espoliação e a devastação, mas
o lugar do louvor e do serviço a Deus.
A vinha não foi dada em herança para o consumismo, mas para
a vida; não é para que uns poucos se apropriem dela como donos, mas para todos
abrigar e alimentar; ela não é campo para a guerra, mas para a convivência
fraterna, a solidariedade, a justiça e a paz. Somente a vivência dessa relação
do ser humano com a vinha possibilitará novas relações sociais e
ambientais, o novo tempo de paz e justiça.
Como seguidores(as) d’Aquele que veio “trazer Vida, e
vida em plenitude”, somos convocados a despertar uma consciência criatural, em que
a Criação deixa de ser vista como objeto de domínio. Ela é um dom de Deus que
deve ser acolhido com reverência, respeito e louvor.
Quem crê, é convidado(a) a olhar a Terra, com tudo o que ela
contém, como um grande corpo cósmico de Deus a nos abrigar e nos acolher em seu
colo maternal.
Somos todos “lavradores”, encarregados de tornar a vinha
fecunda. Quem sabe, um dia, ao contemplar a Vinha do Senhor com olhos
encantados, sofreremos ao vê-la violentada pelos vândalos que a estupram em
nome de um pretenso crescimento econômico, que só beneficia a uns poucos.
Somos a “Grande Vinha” do Senhor, uma rede de relações no
qual vivem, convivem, muitas outras pessoas e criaturas, e muitas delas
sobrevivendo em condições de grande penúria, escassez e violência. Cuidar da
Vinha supõe, portanto, cuidar da maneira como somos “vinha” cada um de nós,
como influímos nas vidas de outras pessoas, como contribuímos para que todos se
sintam acolhidas e acompanhadas em seu meio. E descobrir aí um desafio que vai
muito mais além do mero cuidado de algo externo: cuidamos de nós mesmos, de
nossa humanidade e da rede de relações que nos mantém vivos.
Textos bíblicos: Mt.
21,33-43
Na oração: Estamos vivendo o “Tempo da Criação”:
- tempo para entoar um hino de louvor e gratidão a Deus
pelos benefícios que recebe a cada dia da Criação;
- tempo para ter sempre presente que fomos criados para
viver uma relação de amor e de solidariedade com tudo e com todos;
- tempo para assumir gestos de cuidado para
com o meio ambiente: reduzir, reciclar, reutilizar, replantar...
* Você se sente afetado(a) por esta tragédia da destruição,
contaminação, poluição... do meio ambiente?
Quê atitudes você pode assumida, no nível
pessoal, familiar, social...?
Rigorosamente, quando o amável leitor e a encantadora
leitora lerem no jornal de hoje que algum fato se dará amanhã, estarão lendo
uma mentira, não importa a veracidade da notícia. A mentira se encontra na
feitura da matéria, porque o redator a escreve, por exemplo, na quinta, para
que ela seja publicada na sexta. Portanto, para ele é quinta, mas, como o
jornal sai na sexta, escreve “amanhã”, referindo-se ao sábado. Quando eu
escrevo “hoje” aqui, claro que não é o hoje do dia em que escrevi, mas o hoje
de hoje, domingo. Parece e é simples, mas, pelo menos no tempo em que não havia
escolas de comunicação e a profissão se aprendia no tapa, sob a orientação nem
sempre carinhosa de veteranos, muitos focas — ou seja, calouros — caíam nessa.
Eu mesmo, vergonha mate-me, caí e acho que o trauma da gozação subsequente
nunca foi inteiramente superado. Minha matéria tinha um “realizou-se hoje”, ou
equivalente, mas, para os leitores, seria “realizou-se ontem”.
Outro dia, esteve um técnico aqui em casa, para resolver uns
probleminhas de televisão. Muito simpático, fez questão de cumprimentar-me com
efusão. Pessoalmente, não era dado à leitura, mas na família dele havia vários
fãs meus, tinha realmente grande prazer em me conhecer, era uma honra. E aí,
com boa vontade e competência, ajeitou todos os pepinos encontrados. Muito
grato, resolvi pegar dois livros meus que estavam por aqui à toa, para dar de
presente a ele. Ele ficou comovido, pediu dedicatórias para o pessoal da
família. Enquanto eu fazia as dedicatórias, me perguntou, com admiração:
— O senhor leva mais de um dia para fazer um livro destes,
não é, não?
— Levo, levo — disse eu.
Portanto, concluo que haverá quem pense que, minutos antes
do fechamento da edição, me dirijo a este computador, encaro o teclado como um
pianista virtuose iniciando um concerto e, em poucos instantes, dedilho um
texto prontinho para ser publicado. Ai de mim, já se disse mais de uma vez que
escritor escreve com dificuldade, quem escreve com facilidade é orador. Além
disso, o fato de eu ser acadêmico me rende uma fiscalização zelosa e
irritadiça. Um dia, em 2012, eu me distraí e escrevi “asterisco” em vez de
“apóstrofo” e até hoje padeço por isso. Mas, mesmo que não fosse assim e eu
fosse o Flash, a triste situação em que me meteram os fados cruéis não seria
resolvida.
O primeiro clichê do jornal de domingo, como sabem os mais
impacientes, começa a chegar às bancas no fim da tarde do sábado. Ou seja,
praticamente tudo já estará pronto, quando acabar o jogo de ontem. Vejam que
frase esquisita acabo de escrever: quando acabar o jogo de ontem, estranhíssima
contradição em termos, pois é óbvio que o jogo de ontem só pode ter acabado,
tudo de ontem já acabou. Hoje (hoje hoje) já sabemos o resultado do jogo com o
Chile, mas hoje (o dia em que escrevo) isto não é possível. Não é possível nem
ter certeza absoluta de que o jogo de ontem realmente aconteceu. Situação diabólica,
isto não se faz.
Neste caso, por que não escrever sobre outro assunto que não
a Copa? Também não é possível. Ninguém, a começar por mim, está interessado em
outra coisa. Além disso, seria correr da raia sem explicação, já que venho
escrevendo sobre a Copa nas últimas semanas e, apesar de não entender nada de
futebol, sempre tive a fantasia de ser comentarista esportivo. Mas me sobra o
quê? Apesar de entender ainda menos de odontologia ou de canibalismo humano,
podia talvez discorrer sobre a mordidona aplicada pelo jogador Luis Suárez num
italiano. Baixei aquela tomada do “lance” em câmera lenta e a dentada em zoom,
já a vi diversas vezes e, de fato, foi uma dentada crocodilesca, capaz de
abocanhar um megahambúrguer num só golpe. Os dentes dele, enormes, parecem os
de um castor e creio que, se ele quisesse comer a bola literalmente, seria
proeza fácil. Não sei se vocês leram nos jornais, mas um norueguês apostou num
bolo que ia haver a mordida e ganhou uma graninha. O Suárez abre toda uma linha
nova de apostas, que deverá incluir não somente mordidas, mas vários outros
aspectos do futebol, tais como o número médio de cusparadas dadas pelos
jogadores de um determinado time.
Mas continuaria a transparecer que eu, por alguma razão,
estava evitando propositadamente falar no jogo contra o Chile. No desespero, é
sempre tentadora a ideia de antecipar temerariamente o resultado e depois rezar
para que tudo dê certo. Grande tentação. O Chile sempre foi freguês e não vejo
nada de excepcional no time deles. E todo mundo sabe que o futebol enfrenta
dificuldades no Chile, porque é só olhar no mapa para constatar que o país é
fininho demais para ter campos na direção leste-oeste, só pode na norte-sul, o
que constitui grave limitação para o preparo dos atletas. Enfim, bem que eu
podia escrever hoje (o dia em que escrevo) como se o jogo de ontem (o ontem
deste domingo) já tivesse sido ganho pelo Brasil. Mas os riscos são em demasia
e, além de tudo, sei que qualquer coisa que eu diga impensadamente poderá
render-me uma fama de pé-frio indelével.
E, assim abatido pelas circunstâncias ingratas, resolvi
ligar para velhos amigos, como Zecamunista, em quem, apesar de certas
diferenças ideológicas, sempre posso confiar. Mas ele me interrompeu assim que
mencionei o Chile.
— Eu sei — disse ele. — Esse jogo deve estar no papo, porque
o Chile é freguês, mas aconselho você a tomar as mesmas precauções que eu. Você
aposta no Chile, esquece, e continua torcendo pelo Brasil normalmente. Se o
Brasil ganhar, o dinheiro não foi em vão, foi sua contribuição para a vitória
nacional. Se perder, é como um seguro, pelo menos você embolsa algum e não
chora de barriga vazia, é tudo dialético.
João Ubaldo (Osório Pimentel) Ribeiro nasceu em Itaparica
(BA), em 23 de janeiro de 1941. Dos primeiros meses de idade até cerca de onze
anos, viveu com sua família em Sergipe, onde o pai era professor e político.
Passou um ano em Lisboa e um ano no Rio de Janeiro para, em seguida, fixar-se
em Itaparica, onde viveu aproximadamente sete anos.
Ilustre dama, no fim de dois meses, achou-se a mais
desgraçada das mulheres; caiu em profunda melancolia, ficou amarela, magra,
comia pouco e suspirava a cada canto. Não ousava fazer-lhe nenhuma queixa ou
reproche, porque respeitava nele o seu marido e senhor, mas padecia calada, e
definhava a olhos vistos. Um dia, ao jantar, como lhe perguntasse o marido o
que é que tinha, respondeu tristemente que nada; depois atreveu-se um pouco, e
foi ao ponto de dizer que se considerava tão viúva como dantes. E acrescentou:
— Quem diria nunca que meia dúzia de lunáticos...
Não acabou a frase; ou antes, acabou-a levantando os olhos
ao teto, — os olhos, que eram a sua feição mais insinuante, — negros, grandes,
lavados de uma luz úmida, como os da aurora. Quanto ao gesto, era o mesmo que
empregara no dia em que Simão Bacamarte a pediu em casamento. Não dizem as
crônicas se D. Evarista brandiu aquela arma com o perverso intuito de degolar
de uma vez a ciência, ou, pelo menos, decepar-lhe as mãos; mas a conjetura é
verossímil. Em todo caso, o alienista não lhe atribuiu intenção. E não se
irritou o grande homem, não ficou sequer consternado. O metal de seus olhos não
deixou de ser o mesmo metal, duro, liso, eterno, nem a menor prega veio quebrar
a superfície da fronte quieta como a água de Botafogo. Talvez um sorriso lhe
descerrou os lábios, por entre os quais filtrou esta palavra macia como o óleo
do Cântico:
— Consinto que vás dar um passeio ao Rio de Janeiro.
D. Evarista sentiu faltar-lhe o chão debaixo dos pés. Nunca
dos nuncas vira o Rio de Janeiro, que posto não fosse sequer uma pálida sombra
do que hoje é, todavia era alguma coisa mais do que Itaguaí, Ver o Rio de
Janeiro, para ela, equivalia ao sonho do hebreu cativo. Agora, principalmente,
que o marido assentara de vez naquela povoação interior, agora é que ela
perdera as últimas esperanças de respirar os ares da nossa boa cidade; e
justamente agora é que ele a convidava a realizar os seus desejos de menina e
moça. D. Evarista não pôde dissimular o gosto de semelhante proposta. Simão
Bacamarte pagou-lhe na mão e sorriu,—um sorriso tanto ou quanto filosófico,
além de conjugal, em que parecia traduzir-se este pensamento:
— "Não há remédio certo para as dores da alma; esta
senhora definha, porque lhe parece que a não amo; dou-lhe o Rio de Janeiro, e
consola-se". E porque era homem estudioso tomou nota da observação.
Mas um dardo
atravessou o coração de D. Evarista. Conteve-se, entretanto; limitou-se a dizer
ao marido que, se ele não ia, ela não iria também, porque não havia de meter-se
sozinha pelas estradas.
— Irá com sua tia, redarguiu o alienista.
Note-se que D. Evarista tinha pensado nisso mesmo; mas não
quisera pedi-lo nem insinuá-lo, em primeiro lugar porque seria impor grandes
despesas ao marido, em segundo lugar porque era melhor, mais metódico e
racional que a proposta viesse dele.
— Oh! mas o dinheiro que será preciso gastar! suspirou D.
Evarista sem convicção.
— Que importa? Temos ganho muito, disse o marido. Ainda ontem
o escriturário prestou-me contas. Queres ver?
E levou-a aos livros. D. Evarista ficou deslumbrada. Era uma
via-láctea de algarismos. E depois levou-a às arcas, onde estava o dinheiro.
Deus! eram montes de ouro, eram mil cruzados sobre mil
cruzados, dobrões sobre dobrões; era a opulência. Enquanto ela comia o ouro com
os seus olhos negros, o alienista fitava-a, e dizia-lhe ao ouvido com a mais
pérfida das alusões:
— Quem diria que meia dúzia de lunáticos...
D. Evarista compreendeu, sorriu e respondeu com muita
resignação:
— Deus sabe o que faz!
Três meses depois efetuava-se a jornada. D. Evarista, a tia,
a mulher do boticário, um sobrinho deste, um padre que o alienista conhecera em
Lisboa, e que de aventura achava-se em Itaguaí cinco ou seis pajens, quatro
mucamas, tal foi a comitiva que a população viu dali sair em certa manhã do mês
de maio. As despedidas foram tristes para todos, menos para o alienista.
Conquanto as lágrimas de D. Evarista fossem abundantes e sinceras, não chegaram
a abalá-lo. Homem de ciência, e só de ciência, nada o consternava fora da
ciência; e se alguma coisa o preocupava naquela ocasião, se ele deixava correr
pela multidão um olhar inquieto e policial, não era outra coisa mais do que a ideia
de que algum demente podia achar-se ali misturado com a gente de juízo.
— Adeus! soluçaram enfim as damas e o boticário.
E partiu a comitiva. Crispim Soares, ao tornar a casa,
trazia os olhos entre as duas orelhas da besta ruana em que vinha montado;
Simão Bacamarte alongava os seus pelo horizonte adiante, deixando ao cavalo a
responsabilidade do regresso. Imagem vivaz do gênio e do vulgo! Um fita o
presente, com todas as suas lágrimas e saudades, outro devassa o futuro com
todas as suas auroras.
Fonte:
MINISTÉRIO DA CULTURA
Fundação Biblioteca Nacional
Departamento Nacional do Livro
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Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis),
jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio
de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em
29 de setembro de 1908. É o fundador da cadeira nº. 23 da Academia Brasileira
de Letras.
A editora baiana Via Litterarum acaba de publicar a
antologia O Gigante e a Bicicleta e Outras Belas Crônicas, de Fernando Leite
Mendes, baiano de Ilhéus, com prefácio, notas e organização dos escritores Cyro
de Mattos e Ivo Korystowski.
Para o escritor e poeta Cyro de Mattos, Fernando
Leite Mendes, que nos deixou aos 48 anos, nada deve aos cronistas melhores de sua
época, década de 50 no Rio de Janeiro, como Carlinhos Oliveira, Paulo Mendes
Campos, Rubem Braga, Drummond, Carlos Heitor Cony, Stanislaw Ponte Preta,
Fernando Sabino e Rachel de Queiroz, dentre outros. A antologia O Gigante e a Bicicleta e Outras Belas Crônicas
é acrescida de prefácio, depoimentos e pesquisa iconográfica realizada pelos
organizadores.
Cyro de Mattos é autor de vasta obra, de vários gêneros, membro
das Academias de Letras da Bahia, de Ilhéus e de Itabuna, Doutor Honoris Causa
da Universidade Estadual de Santa Cruz, também editado no exterior, além de
detentor de prêmios importantes. Publica quinzenalmente uma crônica na revista
da crônica RUBEM, de Brasília.
A ilustração da capa é da artista plástica e
membro da Academia de Letras de Ilhéus, Jane Hilda Badaró.
Ivo Korytowskié jornalista, tradutor e romancista premiado
pela União Brasileira de Escritores (Rio). Reside em São Paulo. É o editor dos
conceituados blogs Literatura & Rio de Janeiro & São Paulo e Sopa no
Mel.
Para selecionar as crônicas que compõem esse livro póstumo, seus
organizadores fizeram ampla pesquisa na Hemeroteca Digital da Biblioteca
Nacional. Estão previstos lançamentos presenciais para 2021, nas cidades de
Salvador, Ilhéus e Itabuna.