Toda a Itália festeja este ano o centenário de um dos
maiores gênios do Séc. XX, o cineasta Federico Fellini, de tantas obras-primas,
patrimônios da Sétima Arte. São muitas as manifestações, e uma delas, talvez a
mais significativa, será a inauguração do Museu Internacional Fellini, em
Rimini, sua cidade natal, na costa adriática da bota italiana. E o mundo também
o homenageia: aqui em Salvador, a Editora da Universidade Federal da Bahia -
Edufba, dirigida por Flávia Goulart Rosa, acaba de lançar "Diálogos com
Fellini", organizado por Cássia Lopes e Paulo Henrique Alcântara. O livro
reúne textos deles, de Antonella Rita Roscilli (de Roma) e Mauro Porru, entre
outros, num total de 11 artigos.
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Ateliê francês
Um grupo de jornalistas internacionais da APE, que é a
Associação da Imprensa Estrangeira de Paris, já tem encontro marcado após as
férias de verão, na capital francesa: vão visitar o fantástico ateliê da
Reunião dos Museus Nacionais da França, e do Grand Palais que fica nos
Champs-Élysées. É onde técnicos e artistas moldam e fabricam cerca de seis mil
peças conhecidas mundialmente, a partir das obras-primas, e que ficam à venda
nas butiques desses museus. Será no dia 19 de setembro, e à frente da iniciativa
está a diretora de comunicação das butiques da RMN, Sophie Mestiri.
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Prosa e poesia
Membro das
Academias de Letras da Bahia, de Ilhéus e de Itabuna, publicado também
no exterior, Doutor Honoris Causa da Uesc - Universidade Estadual Santa
Cruz, autor de extensa obra, de vários gêneros, o escritor e poeta Cyro de
Mattos acaba de publicar pela editora baiana Via Litterarum o livro “Prosa e Poesia
no Sul da Bahia”, com capa do consagrado desenhista Juarez Paraís o,
também membro da Academia de letras da Bahia. Na obra, estuda autores que
enfocam em seus textos a civilização cacaueira ou mantém com ela laços de
origem, sintonizados na raiz com um contexto de natureza, cultural,
singular e importância histórica.
Segundo Cyro, esse
livro de ensaios, alguns escritos ao longo do tempo, reúne nomes
consagrados que ultrapassaram as fronteiras nacionais, outros que
são reconhecidos em nível nacional e alguns que são retirados
dos limites de seu município, onde se encontram, por certas
circunstâncias, fora de uma circulação literária mais abrangente, o
que nem sempre parece justo. A obra funciona como testamento crítico
valioso sobre a produção de uma região poderosa no campo das letras, que vem
contribuindo para a expansão do acervo cultural e literário da Bahia e do
Brasil.
No volume de
350 páginas, Cyro de Mattos estuda obras de 47 autores sulinos do Estado da
Bahia. Entre eles estão: Jorge Amado, Adonias Filho, Sosígenes Costa, Telmo
Padilha, Valdelice Soares Pinheiro, Sônia Coutinho, Ricardo Cruz, Lilia
Gramacho, Florisvaldo Mattos, Marcos Santarrita, Piligra, Abel Pereira,
Jorge Medauar, Ildázio Tavares, Euclides Neto, Afrânio Peixoto, Adelmo
Oliveira, Hélio Pólvora, Fernando Leite Mendes, Margarda Fahel,
Jorge Araújo e Minelvino, dentre outros.
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“Uma coisa admirável nos seus ensaios é o fato de não ficar
citando Roland Barthes, Deleuze, Derrida etc etc etc. Seus ensaios são
verdadeiros ensaios, como os compreendo, como José Paulo Paes compreendia.
Atualmente, os ensaístas se preocupam apenas em citar vários nomes que estão na
moda. Na verdade, não dizem nada, reproduzem os outros. Seus ensaios plasmam o
resultado de sua reflexão após a leitura e, como escritor que você é, oferece
ao leitor uma percepção aguda da leitura realizada.”
Gerana Damulakis, crítica com vários livros publicados,
durante dez anos assinou a coluna Leitura Crítica do Jornal A Tarde, pertence à
Academia de Letras da Bahia
Itabuna-Bahia. Praça Olinto Leone (ao fundo o antigo "Castelinho", propriedade do intendente Henrique Alves e a antiga Igreja Matriz, ambas as construções não existem mais.)
Fonte: http://historiadeitabuna.blogspot.com
Era Uma Vez
um Castelo
Helena
Borborema
Assim começam as histórias
infantis, assim também vou iniciar esta minha recordação de infância.
Era uma vez... muito tempo
atrás, bem no início da década de vinte, um rico senhor de terras e cacauais,
movido mais pelo seu espírito de esteta do que por ostentação, desejou dar a
uma de suas filhas noivas, como presente de casamento, uma bela mansão. Mas,
como realizar o seu sonho numa terra onde tudo faltava, onde as coisas belas do
espírito nem eram cogitadas, onde o homem vivia apenas em torno dos seus
imensos cacauais, seu império e horizonte? O homem rico, porém, sonhava alto,
tinha visão larga para o seu tempo e seu meio. Queria uma bonita vivenda, algo
que embelezasse a sua cidade, e para isso embarcou para Salvador em busca de um
arquiteto.
A planta de uma bela obra foi
traçada, um mini castelo moderno, estilizado, a ser erguido nessas terras
grapiúnas que ainda cheiravam a lama, e em pleno século XX. No meio de um
casario desprovido de quaisquer artifícios, surgiria uma bela construção. Para
tal obra, foram contratados os mais hábeis operários da cidade, entre os quais
se destacava um mestre-de-obras, o português seu Américo. Numa cidade onde o
comércio não chegara ainda a conhecer o requinte dos vidros coloridos, tintas
especiais, como levar avante obra tão exigente como o desenho da construção
requeria? Apesar de todas as dificuldades, inclusive o transporte de muito
material importado, a obra foi feita. A construção lembrava um castelo, com
pequenas ameias no alto adornando-o e simulação de uma torre num dos seus
lados. Elegante, com suas janelas adornadas de vidros coloridos, diferente dos
castelos medievais ou quatrocentistas da Europa, austeros e sombrios,
assemelhava-os, no entanto, em certas linhas e aspectos, dando um visual
diferente de tudo o que já se vira em terras grapiúnas.
Um pintor, verdadeiro artista, com
prática de trabalho no Rio de Janeiro e em Salvador, foi chamado para decorar o
sobrado interna e externamente. Suas salas e aposentos receberam linda pintura
na qual sobressaíam artísticos ramalhetes e guirlandas dispostas entre
delicados frisos dourados. Pintura suave, linda, nas paredes. Além desses
detalhes, estavam os lustres de irisação que só o puro cristal podia dar sob o
efeito das lâmpadas, pendentes no teto de madeira trabalhada, o piso de madeira
nobre formando bonitos desenhos, janelas elegantes ornadas de vidros
importados, portas e escada de madeira de lei trabalhada com arte. Tudo dava ao
castelinho, como passou a ser chamado, um ar de muita beleza e aristocracia.
Primitivamente, o castelinho
ostentou na sua fachada duas grandes sereias, não sei se esculpidas por seu Américo,
as quais sustentavam com os braços erguidos e dobrados para trás, uma grande
sacada. Anos mais tarde, foram elas demolidas e substituídas por outro
ornamento. Era o sobrado uma obra de arquitetura diferente de tudo o que já se
vira em Itabuna e nas demais cidades da região.
Pelos salões do bonito castelinho
circulou, nos tempos áureos, a aristocracia do cacau, representada pelos seus
proprietários, os Alves Brandão, e convidados que participavam das festas da
família.
Durante anos o castelo da Praça
Olinto Leone, como era também chamado, se destacou como lindo cartão-postal. Era
admiração para todos que perto dele passassem. Quem não o olhava curioso? Lá
estava ele, de frente para a praça, esguio, principescamente lindo, dando um
quê de nobreza a todo aquele pedaço de rua e de praça. Sobressaindo no meio do
tradicional casario, era aquela construção o testemunho de uma época
endinheirada, monumento de amor à terra que tanto prodigalizou as benesses aos
que a ela se dedicaram, nela fizeram fortuna e souberam retribuir a sua
dadivosidade. Era ele o símbolo, a expressão da crença de um homem, Firmino
Alves, no futuro de uma cidade.
O tempo foi passando, e com ele foi
embora uma parte daquela geração de homens suados pelo trabalho da terra, por
isso mesmo carregados de amor e apego ao chão de suas lutas e ideais. Novas gentes
chegaram a Itabuna, como chegam as folhas novas de uma árvore após o outono. O tronco
é o mesmo, não muda, mas as folhas são outras. Veio o desapego, o desamor à
tradição. Para que conservar o que nada significava de amor para elas? E num
triste dia, silenciosamente, na calada da noite, impiedosamente, sem protestos,
sem o menor respeito ao sentimento de um povo, sem nenhuma causa justificável,
o castelinho foi jogado abaixo, como se com ele jogassem no lixo as relíquias
do passado de um povo, de uma cidade.
Hoje, já não podemos mais ostentar aquela
obra de arte da Itabuna antiga, saída da destreza das mãos de artistas que a
ergueram. Apenas choramos o seu desaparecimento. Os jovens itabunenses vão
saber do Castelinho por ouvir contar: “era uma vez um castelo...”.
Fui mais feliz do que eles, pois
ainda guardo, como boa lembrança de infância, os momentos que olhei o lindo
castelo com prazer, e o encantamento que suas grandes sereias proporcionaram ao
meu espírito infantil. Recordo a sua entrada elegante, sua porta de madeira
lindamente trabalhada e a escadaria externa, diante da qual muitas vezes parei,
na volta da escola primária, na tentação de querer brincar de escorregar pelos
seus degraus abaixo, animada pelo convite que a magia do Castelinho fazia ao
meu espírito de criança, sob o olhar de pedra duro e frio das duas sereias.
(RETALHOS)
Helena
Borborema
...................
HELENA
BORBOREMA
Nasceu em Itabuna. Professora de Geografia lecionou
muitos anos no Colégio Divina Providência, na Ação Fraternal e no Colégio
Estadual de Itabuna. Formada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia de
Itabuna. Exerceu o cargo de Secretária de Educação e Cultura do
Município. (A autora)
....................
Conhecida
professora itabunense, filha do Dr. Lafayette Borborema, o primeiro advogado de
Itabuna. É autora de ‘Terras do Sul’, livro em que documento, memória e
imaginação se unem num discurso despretensioso para testemunhar o quadro social
e humano daqueles idos de Tabocas. Para a professora universitária Margarida
Fahel, ‘Terras do Sul’ são estórias simples, plenas de ‘emoção e humanidade,
querendo inscrever no tempo a história de uma gente, o caminho de um rio, a
esperança de uma professora que crê no homem e na terra’. (Cyro de Mattos
em ITABUNA, CHÃO DE MINHAS RAÍZES 1996)
À memória de meu filho, morto a 11 de dezembro de 1863.
Eras na vida a pomba predileta
Que sobre um mar de angústias conduzia
O ramo da esperança. — Eras a estrela
Que entre as névoas do inverno cintilava
Apontando o caminho ao pegureiro.
Eras a messe de um dourado estio.
Eras o idílio de um amor sublime.
Eras a glória, — a inspiração, — a pátria,
O porvir de teu pai! — Ah! no entanto,
Pomba, — varou-te a flecha do destino!
Astro, — engoliu-te o temporal do norte!
Teto, caíste! — Crença, já não vives!
Correi, correi, oh! lágrimas saudosas,
Legado acerbo da ventura extinta,
Dúbios archotes que a tremer clareiam
A lousa fria de um sonhar que é morto!
Correi! Um dia vos verei mais belas
Que os diamantes de Ofir e de Golgonda
Fulgurar na coroa de martírios
Que me circunda a fronte cismadora!
São mortos para mim da noite os fachos,
Mas Deus vos faz brilhar, lágrimas santas,
E à vossa luz caminharei nos ermos!
Estrelas do sofrer, — gotas de mágoa,
Brando orvalho do céu! — Sede benditas!
Oh! filho de minh’alma! Última rosa
Que neste solo ingrato vicejava!
Minha esperança amargamente doce!
Quando as garças vierem do ocidente
Buscando um novo clima onde pousarem,
Não mais te embalarei sobre os joelhos,
Nem de teus olhos no cerúleo brilho
Acharei um consolo a meus tormentos!
Não mais invocarei a musa errante
Nesses retiros onde cada folha
Era um polido espelho de esmeralda
Que refletia os fugitivos quadros
Dos suspirados tempos que se foram!
Não mais perdido em vaporosas cismas
Escutarei ao pôr do sol, nas serras,
Vibrar a trompa sonorosa e leda
Do caçador que aos lares se recolhe!
Não mais! A areia tem corrido, e o livro
De minha infanda história está completo!
Pouco tenho de ansiar! Um passo ainda
E o fruto de meus dias, negro, podre,
Do galho eivado rolará por terra!
Ainda um treno, e o vendaval sem freio
Ao soprar quebrará a última fibra
Da lira infausta que nas mãos sustento!
Tornei-me o eco das tristezas todas
Que entre os homens achei! O lago escuro
Onde ao clarão dos fogos da tormenta
Miram-se as larvas fúnebres do estrago!
Por toda a parte em que arrastei meu manto
Deixei um traço fundo de agonias! ...
Oh! quantas horas não gastei, sentado
Sobre as costas bravias do Oceano,
Esperando que a vida se esvaísse
Como um floco de espuma, ou como o friso
Que deixa n’água o lenho do barqueiro!
Quantos momentos de loucura e febre
Não consumi perdido nos desertos,
Escutando os rumores das florestas,
E procurando nessas vozes torvas
Distinguir o meu cântico de morte!
Quantas noites de angústias e delírios
Não velei, entre as sombras espreitando
A passagem veloz do gênio horrendo
Que o mundo abate ao galopar infrene
Do selvagem corcel? ... E tudo embalde!
A vida parecia ardente e douda
Agarrar-se a meu ser! ... E tu tão jovem,
Tão puro ainda, ainda n’alvorada,
Ave banhada em mares de esperança,
Rosa em botão, crisálida entre luzes,
Foste o escolhido na tremenda ceifa!
Ah! quando a vez primeira em meus cabelos
Senti bater teu hálito suave;
Quando em meus braços te cerrei, ouvindo
Pulsar-te o coração divino ainda;
Quando fitei teus olhos sossegados,
Abismos de inocência e de candura,
E baixo e a medo murmurei: meu filho!
Meu filho! frase imensa, inexplicável,
Grata como o chorar de Madalena
Aos pés do Redentor ... ah! pelas fibras
Senti rugir o vento incendiado
Desse amor infinito que eterniza
O consórcio dos orbes que se enredam
Dos mistérios do ser na teia augusta!
Que prende o céu à terra e a terra aos anjos!
Que se expande em torrentes inefáveis
Do seio imaculado de Maria!
Cegou-me tanta luz! Errei, fui homem!
E de meu erro a punição cruenta
Na mesma glória que elevou-me aos astros,
Chorando aos pés da cruz, hoje padeço!
O som da orquestra, o retumbar dos bronzes,
A voz mentida de rafeiros bardos,
Torpe alegria que circunda os berços
Quando a opulência doura-lhes as bordas,
Não te saudaram ao sorrir primeiro,
Clícia mimosa rebentada à sombra!
Mas ah! se pompas, esplendor faltaram-te,
Tiveste mais que os príncipes da terra!
Templos, altares de afeição sem termos!
Mundos de sentimento e de magia!
Cantos ditados pelo próprio Deus!
Oh! quantos reis que a humanidade aviltam,
E o gênio esmagam dos soberbos tronos,
Trocariam a púrpura romana
Por um verso, uma nota, um som apenas
Dos fecundos poemas que inspiraste!
Que belos sonhos! Que ilusões benditas!
Do cantor infeliz lançaste à vida,
Arco-íris de amor! Luz da aliança,
Calma e fulgente em meio da tormenta!
Do exílio escuro a cítara chorosa
Surgiu de novo e às virações errantes
Lançou dilúvios de harmonias! — O gozo
Ao pranto sucedeu. As férreas horas
Em desejos alados se mudaram.
Noites fugiam, madrugadas vinham,
Mas sepultado num prazer profundo
Não te deixava o berço descuidoso,
Nem de teu rosto meu olhar tirava,
Nem de outros sonhos que dos teus vivia!
Como eras lindo! Nas rosadas faces
Tinhas ainda o tépido vestígio
Dos beijos divinais, — nos olhos langues
Brilhava o brando raio que acendera
A bênção do Senhor quando o deixaste!
Sobre o teu corpo a chusma dos anjinhos,
Filhos do éter e da luz, voavam,
Riam-se alegres, das caçoilas níveas
Celeste aroma te vertendo ao corpo!
E eu dizia comigo: — teu destino
Será mais belo que o cantar das fadas
Que dançam no arrebol, — mais triunfante
Que o sol nascente derribando ao nada
Muralhas de negrume! ... Irás tão alto
Como o pássaro-rei do Novo Mundo!
Ai! doudo sonho! ... Uma estação passou-se,
E tantas glórias, tão risonhos planos
Desfizeram-se em pó! O gênio escuro
Abrasou com seu facho ensanguentado
Meus soberbos castelos. A desgraça
Sentou-se em meu solar, e a soberana
Dos sinistros impérios de além-mundo
Com seu dedo real selou-te a fronte!
Inda te vejo pelas noites minhas,
Em meus dias sem luz vejo-te ainda,
Creio-te vivo, e morto te pranteio! ...
Ouço o tanger monótono dos sinos,
E cada vibração contar parece
As ilusões que murcham-se contigo!
Escuto em meio de confusas vozes,
Cheias de frases pueris, estultas,
O linho mortuário que retalham
Para envolver teu corpo! Vejo esparsas
Saudades e perpétuas, — sinto o aroma
Do incenso das igrejas, — ouço os cantos
Dos ministros de Deus que me repetem
Que não és mais da terra!... E choro embalde.
Mas não! Tu dormes no infinito seio
Do Criador dos seres! Tu me falas
Na voz dos ventos, no chorar das aves,
Talvez das ondas no respiro flébil!
Tu me contemplas lá do céu, quem sabe,
No vulto solitário de uma estrela,
E são teus raios que meu estro aquecem!
Pois bem! Mostra-me as voltas do caminho!
Brilha e fulgura no azulado manto,
Mas não te arrojes, lágrima da noite,
Nas ondas nebulosas do ocidente!
Brilha e fulgura! Quando a morte fria
Sobre mim sacudir o pó das asas,
Escada de Jacó serão teus raios
Por onde asinha subirá minh’alma.
(Fonte: ABL)
......
Fagundes Varela (Luís Nicolau Fagundes Varela), poeta,
nasceu em São João Marcos, atualmente Rio Claro, RJ, em 17 de agosto de 1841, e
faleceu em Niterói, RJ, em 17 de fevereiro de 1875. É o patrono da cadeira n.
11, por escolha do fundador Lúcio de Mendonça. Era filho do Dr. Emiliano
Fagundes Varela e de Emília de Andrade, ambos de famílias fluminenses bem
situadas. Passou a infância na fazenda natal e na vila de São João Marcos, de
que o pai era juiz. Depois, residiu em vários locais. Primeiro em Catalão
Goiás, para onde o magistrado fora transferido em 1851 e onde Fagundes Varela
teria conhecido o juiz municipal Bernardo Guimarães. De volta à terra natal,
residiu em Angra dos Reis e Petrópolis, onde fez os estudos do primário e
secundário. Em 1859, foi terminar os preparatórios em São Paulo. Só em 1862
matricula-se na Faculdade de Direito, que nunca terminou, preferindo a
literatura e dissipando-se na boêmia. Em 1861, publicara o primeiro livro de
poesias, Noturnas.
“Se falei mal, diga em quê. Se falei bem, por que me
bates?”. Este simples argumento deixou evidenciada a flagrante contradição e
injustiça do agressor. [Jesus Cristo diante do Sinédrio – Alessandro Mantovani,
ca. 1860].
Paulo Henrique Américo de Araújo
De todos os sublimes episódios da vida de Nosso Senhor Jesus
Cristo, um em especial me veio à mente ao observar os absurdos e incongruências
em que vai afundando este nosso século.
A cena ocorre durante a Paixão, quando o Redentor se
encontrava diante do Sinédrio. Imputando-Lhe os juízes os crimes de sedição e
revolta, tentam forçá-Lo a uma confissão. Jesus responde que havia ensinado
publicamente, bastando inquirir quem O ouvira pregar no Templo e na sinagoga.
Nesse momento, um dos assistentes do conselho dá-Lhe uma bofetada,
dizendo: “Assim respondes ao Pontífice?”. E teve de ouvir contrafeito a
resposta magnífica, irretorquível: “Se falei mal, diga em quê. Se falei
bem, por que me bates?”. Este simples argumento deixou evidenciada a flagrante
contradição e injustiça do agressor. Uma denúncia direta, cortante, invencível.
Em alguns acontecimentos recentes registrados pelo
noticiário, sigamos o exemplo do Divino Mestre apontando neles a contradição.
Mas ressaltemos desde já que a posição contraditória, nesses eventos, não é de
uma pessoa em particular, mas sim a do mundo moderno neopaganizado, cujos
fundamentos e instituições decadentes nadam invariavelmente nas águas turvas da
incoerência.
* * *
O programa blasfemo “A primeira tentação de Cristo”, transmitido
no final de 2019, provocou a indignação dos católicos de todo o País. Dentre
seus múltiplos e deploráveis escárnios, Nosso Senhor é aí representado como
homossexual. Uma batalha judicial contra e a favor do filme travou-se desde
então até os fins de maio último, quando houve o arquivamento definitivo de
quatro representações que contestavam a exibição do programa.1
O Ministério Público Federal (MPF), favorecendo o grupo
“Porta dos Fundos”, criador do filme, assim se pronunciou: “O vídeo em
questão foi publicado por produtora de vídeos de comédia conhecida
nacionalmente e apresenta sátiras de personagens bíblicos, o que se enquadra na
liberdade de expressão de seus autores e atores, sendo que a mera intenção de
caçoar (animus jocandi) exclui o elemento subjetivo do escárnio”.
Em outras palavras, ninguém deve se sentir ofendido em seus
sentimentos cristãos, diante daquelas burlas proferidas contra o Redentor, pois
a intenção dos autores foi apenas “fazer brincadeira”. Consequentemente,
promover chacotas à Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo tornou-se algo
legitimado pelo MPF. Ainda conforme a decisão do Ministério Público, a
encenação do “Porta dos fundos” se reveste unicamente de “liberdade de
expressão”, não houve qualquer ato “malévolo” de escárnio.
Conforme a doutrina da Igreja Católica, o pecado de
homossexualidade “brada aos Céus e clama a Deus por vingança”. Porém, a
seguirmos a “lógica” do MPF, não há razões para tolher a “liberdade de
expressão” de eventuais galhofeiros, mesmo que os católicos se sintam
injuriados em sua “identidade de cristãos” quando alguém apresenta Nosso Senhor
como praticante de homossexualismo. No fundo, vislumbra-se na decisão do MPF
uma espécie de decreto impositivo: Calem-se, católicos, e ouçam
impassíveis as injúrias ao seu Deus! Apresentar ‘sátiras de personagens
bíblicos’ é normal, ninguém pode reclamar disso!
Passemos a outra sentença, também emitida no final de maio
de 2020. A Justiça obrigou a Fundação Palmares a retirar de seus canais de
comunicação alguns textos escritos contra a figura do líder negro Zumbi dos
Palmares.2
De acordo com a juíza Maria Cândida Carvalho Monteiro de
Almeida, “a permanência dos artigos questionados no sítio institucional da
Fundação Cultural Palmares ameaça o patrimônio histórico-cultural brasileiro e
viola o direito à identidade, ação e memória da comunidade negra e a sua
garantia a condições adequadas para a preservação, expressão e desenvolvimento
de sua identidade”.
Neste caso, como afirma a juíza, houve uma agressão à
“identidade”, ao “sentimento” da comunidade negra. No que se refere à imagem de
Zumbi dos Palmares, portanto, não há direito à “liberdade de expressão”. Se
aplicarmos as palavras da juíza ao programa blasfemo inventado pelo “Porta dos
Fundos”, podemos perguntar: Atingir, zombar, achincalhar a figura de Jesus
Cristo não representa “ameaça ao patrimônio histórico-cultural
brasileiro”?
A contradição das duas decisões é evidente: a comunidade
negra tem direito à preservação de sua identidade, e justifica-se proibir o
ataque à imagem de Zumbi dos Palmares, referência simbólica dessa mesma
identidade. Mas a pessoa de Jesus Cristo, símbolo máximo do sentimento cristão
e um poderoso alicerce da unidade nacional, pode ser escarnecida à vontade,
segundo o Ministério Público Federal. Não gozam os cristãos do direito de ter a
sua identidade preservada?
* * *
Passemos à análise de dois outros eventos. A pandemia
do coronavírus fez com que vozes oficiais e extraoficiais de todo o
mundo se unissem numa só meta: “salvemos vidas”. Qualquer determinação neste
sentido devia ser acatada, sem possibilidade de contestação ou ponderação.
Houve aplausos até para decisões as mais incongruentes, como a suspensão de
vacinas para crianças ou a obrigatoriedade do confinamento radical de populações
inteiras, com suas perigosas consequências.3
No Reino Unido, uma das regiões mais atingidas pelo
contágio, o governo tomou medidas drásticas, impondo quarentenas e pesadas
restrições, sob o pretexto de “salvar vidas”. Porém, como bem apontou o bispo
de Shrewsbury, Monsenhor Mark Davies,4 [foto ao lado] as autoridades
inglesas deveriam rever seu conceito de “valor da vida humana”. O prelado
denunciou que o Departamento de Saúde e Assistência Social do Reino Unido havia
decretado novas normas para facilitar o “aborto domiciliar” durante a crise da
pandemia. Com apenas um telefonema e uma receita médica, a gestante estaria
livre para autoinduzir o aborto.
A incoerência é gritante: ações das mais disparatadas para
“salvar vidas”, na luta contra a Covid-19; e ao mesmo tempo, favorecimento do
“extermínio da vida” dos bebês indefesos nos ventres maternos!
* * *
Voltemos ao episódio da Paixão de Nosso Senhor, lembrado no
início deste artigo. A Escritura não narra que atitude tomou aquele agressor após
a magnífica resposta de Jesus. Provavelmente esse ímpio reduziu-se ao silêncio,
pois lhe era impossível dar qualquer resposta de valor. Quando a contradição é
evidenciada, só há duas possibilidades para quem a proferiu: admitir seu erro
ou silenciar.
Se quisermos ser católicos verdadeiros, procuremos sempre
denunciar as contradições do nosso século, forçando desta maneira os agressores
a retratar-se ou a silenciar. Assim estaremos agindo como o Divino Mestre
diante da agressão injusta.
20º Domingo do Tempo Comum | Solenidade da Assunção de Maria
Anúncio do Evangelho (Lc 1,39-56)
— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós!
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Lucas.
— Glória a vós, Senhor!
Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa,
dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judeia. Entrou na casa de
Zacarias e cumprimentou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a
criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Com um
grande grito, exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do
teu ventre! Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? Logo
que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu
ventre. Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o
Senhor lhe prometeu”.
Então Maria disse: “A minha alma engrandece o Senhor, e
o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque olhou para a
humildade de sua serva. Doravante todas as gerações me chamarão
bem-aventurada, porque o Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor. O
seu nome é santo, e sua misericórdia se estende, de geração em geração, a
todos os que o respeitam. Ele mostrou a força de seu braço: dispersou os
soberbos de coração. Derrubou do trono os poderosos e elevou os
humildes. Encheu de bens os famintos, e despediu os ricos de mãos
vazias. Socorreu Israel, seu servo, lembrando-se de sua
misericórdia, conforme prometera aos nossos pais, em favor de Abraão e de
sua descendência, para sempre”. Maria ficou três meses com Isabel;
depois voltou para casa.
“Maria ficou três meses com Isabel; depois voltou para
casa” (Lc 1,56)
Descobrimos o sentido da Assunção de Maria não
tanto contemplando o céu, mas a terra. Na terra não veneramos a tumba de Maria,
nem celebramos funerais por ela, ou em sua memória. Embora possa parecer
estranho, os santuários onde se venera a memória de Maria são, para nós, não
lugares funerários, mas fontes de vida, espaços onde a sentimos vivente, mãe,
mulher do serviço, cuidadora nossa.
Ascenção, Assunção são dois nomes que damos a esta
experiência de presença transformadora. Em Jesus, e a partir de Jesus, Maria
também “é assunta” e se faz presente junto a seus filhos e filhas.
Sua bendita presença nos abençoa e nos enche de graça.
Maria “foi assumida por Deus” porque “desceu” ao mais
profundo da vida, comprometendo-se e sendo presença solidária. Ela viveu a
“assunção” em todos os momentos de sua vida, de maneira especial, quando se
deslocou em direção aos outros. Por isso, o Evangelho, indicado para a
festa de hoje, nos fala da “presença visitante” de Maria.
Maria fecha a porta de sua pequena casa em Nazaré e inicia,
apressada, o caminho para a montanha, onde vivia Isabel. O impulso do seu
coração movia velozmente seus pés. Este relato nos mostra o que é “visitar”.
Maria “saiu em visita” porque, antes, foi “visitada” pela
presença surpreendente de Deus. Ela entrou no fluxo do “Deus visitador”, prolongando
e visibilizando as visitas divinas. Ela foi “assunta” porque, nas suas
“visitas”, ela “subiu e desceu” em direção aos outros, numa atitude de serviço
gratuito.
Maria foi visitar; podia não ter ido. Isabel, com mais idade
e grávida, seguramente estava bem atendida. Mas, Maria foi... para estar,
escutar, partilhar, ajudar...
Visitar implica mover-se, para perto ou para longe, sair,
pôr-se em marcha; abandonar o espaço de conforto, adentrar-se na realidade
do(a) outro(a), na expectativa de que este(a) outro(a) abra a porta de seu
espaço e de sua vida, entrando em profunda sintonia com quem o(a) visita.
É uma ação pessoal, uma atitude aberta, um estar atentos aos
detalhes da vida próxima, do entorno. Visitar não conta nas estatísticas. É uma
ação muito silenciosa que não requer estruturas organizativas, nem contratuais.
Visitar exige irremediavelmente investir tempo, gratuitamente; quem tem tempo
hoje para presenteá-lo desinteressadamente?
A pessoa visitada tem também sua vida “expandida”, pois,
receber o(a) outro(a) implica mudar a rotina do seu cotidiano, acolher a nova
presença que vem, dedicar atenção e escuta...
Se re-lemos com atenção o relato de Lucas, encontraremos
Isabel, a prima de Maria, como protótipo de uma vida “visitada”, de uma
existência que poderia fechar-se na pequena felicidade de sua fecundidade
surpreendente; no entanto, ela abriu passagem a uma voz que vinha mais além
dela mesma. Isabel escutou aquela voz e soube reconhecer Maria como a nova Arca
da Aliança que carregava a salvação dentro dela. E Lucas realça o detalhe de
que “a criança pulou de alegria no ventre de Isabel”.
Vamos nos deixar conduzir por Maria e vamos com ela “de
visita” à casa de Isabel, para recuperar o sentido do “visitar” e “ser
visitado” no nosso contexto atual.
Deus visita a nós e visita através de nós, assim como Ele
nos visita por meio dos outros. Há uma infinidade de anjos mensageiros,
cruzando nossos espaços cotidianos, inspirando-nos, ajudando-nos, movendo
nossas vidas a saírem de seus lugares fechados, a romper muros, a ultrapassar
fronteiras... A intolerância, o medo do diferente, a suspeita, o preconceito...
são a morte de toda possibilidade de viver a “cultura da visita”.
Uma característica de nossa sociedade é o individualismo, o
fechamento narcisista que nos centra e nos concentra em nosso “ego” como lugar
preferencial de atenção, dedicação, cuidado e investimento de quase todas as
nossas energias disponíveis. Neste contexto social em que vivemos, cada vez
mais fragmentado e individualizado, as relações vão se tornando líquidas,
restando as manifestações muito superficiais, reduzi-das, talvez, a um mero
contato tecnológico através das redes sociais.
Temos a sensação de que, a partir de fora, tudo nos convida
a viver auto-referenciados e surdos às vozes que nos vem do mais além de nós
mesmos. Muitas forças externas a nós nos pressionam a reduzir nossa vida ao
tamanho de um “bonsai”, a atrofiar os desejos até reduzi-los aos pequenos bens
acessíveis e a conformar-nos com pequenas doses de prazer egoísta.
Mesmo numa vida fechada, também aí irrompem as “visitações”;
Maria, a “visitante” e Isabel, a “visitada”, podem nos ensinar a reconhecer
Aquele que nos visita e vem a nós escondido no humilde e
insignificante. Aquelas duas mulheres grávidas, Maria e Isabel, cheias e
fé e grandes expectativas, envolvidas no silêncio da promessa de Deus, se
encontram e no mesmo instante do abraço, a palavra se faz presente com a
intensidade da compreensão, da acolhida, da alegria e da intimidade partilhada.
A visita começa a dar fruto desde o primeiro instante se há
uma boa predisposição. A atitude de quem vai ao encontro e quem acolhe é
elemento primordial.
Elas estavam felizes. Isabel gritou de júbilo e “a criança
saltou de alegria em seu ventre”. E Maria proclamou, exultante, a oração de
louvor e agradecimento ao Deus da Vida. “O Magnificat recolhe a prece da
orante que se descobre, desde a humildade, fecundada por seu Senhor dentro
da História da Salvação” (Mari Paz Lopes).
O Magnificat é o grande resumo da experiência de
Maria; Magnificat não é um parêntese: supõe tudo o que Maria viveu. É
impossível conhecê-la sem saborear demoradamente estas palavras, que são a
tradução dos seus sentimentos íntimos diante da nobre missão de ser a mãe do
Salvador.
No Magnificat, Maria canta a sua própria história. E isso
nos desafia a fazer o mesmo. Ninguém vive uma vida espiritual fecunda enquanto
não for capaz de construir a relação com Deus como um diálogo vivo entre um
“eu” e um “Tu”. A oração de Maria não é feita de fórmulas. Ela expõe a sua vida
naquilo que diz.
Através do Magnificat Maria vai ter a oportunidade de
prolongar o seu “sim”, revelando que conhece bem as suas implicações
profundas. No Magnificat, Maria sai de seu silêncio e explica o que significa o
seu consentimento a Deus. E faz isso da forma mais simples e verdadeira,
interpretando primeiro a sua própria experiência de fé e ancorando-se, depois,
naquilo que a História da Salvação lhe ensina sobre a ação de Deus e sobre a
missão do Povo de Deus neste mundo.
Maria permaneceu em casa de Isabel “três meses e voltou para
sua casa”. Moveu-se, investiu seu tempo e podemos imaginar quê maravilhosos
três meses passaram juntas, vendo como a vida crescia dentro delas,
cuidando-se, rindo, partilhando.... Deixemo-nos inspirar por este “ícone da
Visitação”.
Texto bíblico: Lc 1,39-56
Na oração: Depois de empapar-se do evangelho deste
dia é preciso perguntar-se: “o que me inspira o ‘movimento’ de Maria
visitando Isabel? E se realmente, o fato de visitar, tem um significado em
minha vida.
- Diante da situação pandêmica, quê outras formas de visita
poderiam ser ativadas? São tantas as pessoas que estão esperando uma visita,
mesmo virtualmente. Há muitas carências de abraços e de afeto.
- Recorde aqui as obras de misericórdia: duas delas se referem
ao fato de “visitar” – “enfermos e presos”.
Dormição e Assunção da Virgem – Fra Angélico (1395-1455).
The Isabella Stewart Gardner Museum, Boston (EUA)
As dores da Santíssima Virgem são representadas por espadas
cravadas em seu Coração, e o dogma da Assunção evoca seu triunfo sobre tantos
sofrimentos. Na festa da Assunção, em 15 de agosto, uma renovação desse triunfo
foi a vitória da Polônia católica sobre os exércitos soviéticos, milagre cujo
centenário comemoramos neste ano.
Luis Dufaur
A Assunção de Nossa Senhora foi confirmada como dogma de Fé
pelo Papa Pio XII, na Constituição Apostólica Munificentissimus Deus,
no dia 1° de novembro de 1950.[1] Essa
verdade era professada desde os tempos dos Apóstolos, suas testemunhas
oculares, que a narraram a seus sucessores. O dogma coloca a Santa Mãe de Deus
acima de qualquer criatura, mesmo as canonizadas, justificando o culto de
hiperdulia que a Igreja lhe tributa.
Após uma morte suavíssima, qualificada de “dormição de Nossa
Senhora”, a Santíssima Virgem se ergueu como quem sai de um sono, numa
transição efetuada pelo poder de Deus, e subiu aos céus na presença dos
Apóstolos e fiéis reunidos em torno d’Ela. A glorificação e a alegria por este
privilégio, sem equivalentes até o fim do mundo, só foram inferiores às da
Ascensão triunfal de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Como figurar o esplendor da Assunção
Maria Santíssima foi elevada ao Céu, rodeada pelo respeito e
recolhimento dos presentes, diante dos quais se acentuava assim, cada vez mais,
sua semelhança com seu Filho Divino. O esplendor de Nosso Senhor transfigurado
se comunicava a Ela, fazendo-a refulgir cada vez mais como rainha e mãe, até
desaparecer dos olhos humanos. Ao mesmo tempo o Céu se transformava, porque sua
Rainha nele ingressava em triunfo.
Pouco depois, na Terra tudo voltava à sua rotina, mas os
primeiros católicos retornavam para suas casas com uma sensação parecida com a
que tiveram na Ascensão de Nosso Senhor. Maravilhados, com enorme saudade,
levando na retina algo que nem podiam ter imaginado a respeito de Nossa
Senhora.
No momento da Assunção transpareceu a alegria e a vitória
sobre as dores inenarráveis que Ela padeceu em vida, segundo lhe anunciara o
profeta Simeão: “Uma espada transpassará a tua alma” (Lc 2, 35). O
Prof. Plinio Corrêa de Oliveira se alegrava com essa arquitetonia da dor
transformada em alegria eterna: “Nossa Senhora é representada com o
coração circundado de gládios espirituais, que representam a alma d’Ela ferida
pela espada da dor, de que falou o profeta Simeão. Eu gostaria de ser pintor
para representar Nossa Senhora subindo ao Céu, com o coração ferido à mostra,
mas saindo dessa espada as mais belas luzes que se possa imaginar. Porque a sua
grande alegria era ter suportado os tormentos e ter vencido todas as batalhas.[2]
Glorificação no Céu e novos triunfos na Terra
Depois de ter passado por toda espécie de sofrimentos,
angústias, dilacerações e humilhações, a Santa Mãe de Deus foi honrada por seu
Divino Filho com a Assunção, um privilégio único na história do mundo. A
glorificação de Maria deixa eclipsada a dos Césares vitoriosos aclamados na Via
Triunfal de Roma, a dos exércitos aliados desfilando sob o Arco do Triunfo de
Paris, e a de qualquer outra exaltação humana. Por isso sua glória na ordem do
universo é o mais alto reflexo criado do resplendor supremo de Deus.
Em atenção a essa vitória, o católico deve levar ao último
extremo sua combatividade pela glorificação da Corredentora do gênero humano, e
lutar como um cruzado pelo seu reinado na Terra. São ainda de Plinio Corrêa de
Oliveira estes comentários: “Algo da luminosa magnificência da Assunção se
repetirá quando começar o Reino de Maria. Veremos então o mundo todo
transformado, e Nossa Senhora brilhando sobre a Terra; pois seu reinado estará
se efetivando, e estarão começando também dias maravilhosos de graças como
nunca houve antes”.[3]
Após a Assunção, a Santíssima Virgem nunca mais estaria
estavelmente na Terra, mas começava do Céu sua grande missão. Estabeleceu uma
misteriosa comunicação com os seus devotos, sobretudo os que se consagraram a
Ela com amor, coragem, constância e fé, virtudes recomendadas por São Luís
Maria Grignion de Montfort. São estas virtudes necessárias sobretudo diante do
neopaganismo moderno, monstro apocalíptico que tenta tiranizar os fiéis,
privando-os de apoios terrenos para arrastar consigo grande número de tíbios e
interesseiros.
O “milagre do Vístula” (agosto de 1920) – Jerzy Kossak,
1930.
O milagre do Vístula: vitória sobre o comunismo
Neste ano de 2020 a Igreja comemora o centenário de um
exemplo característico da ação de Nossa Senhora da Assunção em favor dos fiéis:
o “milagre do Vístula”, ocorrido em agosto de 1920 (trinta anos antes da
proclamação do dogma).
Quatro corpos de exército da URSS comunista avançavam contra
a capital da católica Polônia. Numa ordem dada a seus soldados em 4 de julho de
1920, o general bolchevista Mikhail Tukhachevsky foi lapidarmente claro: “No
caminho para a conflagração mundial comunista, tem-se que passar sobre o
cadáver da Polônia”.[4] Em
Moscou, Lenin exigia ferozmente a “revolução mundial” e a aniquilação do
“obstáculo polonês”. E os soldados comunistas cantavam: “Esta é nossa
batalha última e decisiva. Surgirá a nova raça humana”.
Cena de um filme representando a batalha
Revoluções marxistas explodiam na Europa ocidental arruinada
pela Primeira Guerra Mundial; a grande mídia anunciava falsamente que os russos
já eram donos de Varsóvia; os embaixadores ocidentais fugiram da capital (com
exceção do Núncio, que era o futuro Papa Pio XI); os especialistas militares
ocidentais davam a situação por perdida; e a confluência das hostes russas com
as massas subversivas europeias parecia um fato incontornável.
O Papa Bento XV enviou um apelo ao mundo católico, pedindo
orações a Nossa Senhora de Czestochowa (Padroeira da Polônia) e à Mãe do Bom
Conselho, por essa nação ameaçada de naufragar no próprio sangue, perseguida
pelo exército vermelho. E o jornal socialista italiano Avanti debochava
do Papa, espalhando sarcasticamente: “Fiquem tranquilos! O Pontífice
Romano acredita na eficácia da Virgem!”.[5]
Na Polônia, anciãos, mulheres, adolescentes e feridos,
prosternados em igrejas, ruas e praças, multiplicavam seus apelos ao Santíssimo
Sacramento e a Nossa Senhora. A desproporção das forças era evidente, e só um
milagre evitaria a catástrofe. Contudo, corria de boca em boca uma intuição,
sem se saber sua origem: no dia 15 de agosto, festa da Assunção de Nossa
Senhora, Ela faria o milagre.
Apesar das tendências socialistas do marechal Józef
Piłsudski (1867–1935) [foto ao lado], coube a ele conduzir a guerra contra os
soviéticos. Percebendo que na linha de ofensiva dos inimigos se abrira uma
brecha, empreendeu uma manobra desesperada e muito ousada: retirou de Varsóvia
as tropas habilitadas ao combate, que a defendiam, e preencheu as vagas das
trincheiras convocando todos os que podiam segurar uma arma, ainda que não
soubessem usá-la. Além de mulheres, velhos e feridos, destacaram-se nesse palco
da batalha os escoteiros, que ali morreram em grande número na luta corpo a
corpo contra soldados experimentados e cruéis.
Com o destacamento que conseguira em Varsóvia, o marechal
Pilsudski atravessou a brecha sem ser percebido. Talvez sem se lembrar do
significado daquele grande dia 15 de agosto, festa da Assunção, deu o golpe
decisivo contra os exércitos soviéticos. Após um giro perigoso, atacou-os de
surpresa, em manobra envolvente. A coincidência de datas empolgou os poloneses,
que infligiram aos comunistas uma derrota da qual jamais se recuperariam, e foi
completada por sucessivas batalhas posteriores. Narra-se que alguns soldados
soviéticos teriam visto Nossa Senhora de Czestochowa aparecer sobre as nuvens.
Os delegados soviéticos chegam para as negociações do
armistício depois da humilhante derrota comunista na Batalha do Vístula em 1920
A batalha é considerada uma das mais importantes da história
universal. Lenin, o tirânico pai da URSS, lamentou em Moscou a “enorme
derrota”, que reduziu a supremacia da revolução bolchevista a um único país, a
Rússia. O sonho da “revolução mundial” ficou espatifado, pois o próprio Lenin
considerava que, para a “experiência socialista” dar certo, deveria ser
universal. Em 24 de agosto o embaixador britânico SirHorace Rumbold (1869–1941)
chegou a Poznan, Alemanha, procedente de Varsóvia. Espantado com a inversão da
sorte das armas, comentou: “É uma repetição da derrota dos turcos sob os
muros de Viena, em 1683”.[6]
No enterro do marechal Pilsudski, em 12 de maio de 1935, o
Cardeal Primaz da Polônia August Hlond afirmou: “A vitória do heroico
exército polonês, chamada de ‘milagre do Vístula’, teve a importância de
Lepanto e Viena”.[7] O
Papa Pio XI, falando sobre a Mãe de Deus, referiu-se ao “milagre sobre o
Vístula”, resumindo-o com estas palavras: “O anjo das trevas empreendeu
uma gigantesca batalha contra o anjo da luz”.[8] As
forças armadas polonesas adotaram Nossa Senhora da Assunção como Padroeira
principal.
Assunção e a glorificação da Igreja
Finalizamos com mais um oportuno e valioso comentário do
Prof. Plinio Corrêa de Oliveira aos seus amigos e discípulos:
“Depois da Ascensão de Nosso Senhor, o fato mais
esplendorosamente glorioso da História humana foi quando Nossa Senhora subiu ao
Céu ante os olhos humanos. Por seu caráter ordenativo, ele é comparável apenas
ao dia do Juízo Final. A implantação do Reino de Maria — por assim dizer, a
assunção da Igreja Católica — é o que devemos desejar na festa da
Assunção. E desejar também que a tristeza e o gládio de dor que traspassou o
Imaculado Coração de Maria nos preparem para compreender a
alegria imensa dessa vitória, refulgindo com a maior formosura desde
os tempos apostólicos.
“Na festa da Assunção devemos pedir a Ela que olhe para
nossas falhas e nos conceda o perdão, para atravessarmos a nossa época com a
certeza de que, quanto mais profunda for a tristeza, maior ainda será a alegria
que teremos depois, na aurora do Reino de Maria Assunta aos Céus”.[9]