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segunda-feira, 13 de julho de 2020

MÁSCARA SE TRANSFORMA EM MORDAÇA – Marcos Luiz Garcia

13 de julho de 2020
                         
                                                                          Marcos Luiz Garcia


          No dia 1º de julho deu-se mais um passo da distensão gradual da quarentena em São Paulo, anunciada previamente pelo governador. Também foi anunciada a desmontagem do hospital de campanha do estádio do Pacaembu.

         Para quem sai às ruas, dir-se-ia que a vida está quase voltando ao normal. Inesperadamente, no momento mesmo de anunciar o relaxamento da querentena, o governador anunciou que o uso da máscara continuará obrigatório, penalizando com uma multa de 500 reais quem for flagrado sem ela. E se for dentro de um estabelecimento comercial, a multa será de 5.000 reais para o proprietário.

         Tudo isto se torna mais compreensivel se nos reportamos ao que foi anunciado pelo Reinformation TV no dia 15 de junho a propósito do Forum Econômico Mundial. Resumindo, pretendem que o mundo passe por um reset e tudo recomece seguindo a pista de um comunismo mundial sob o nome de globalismo.

O que diz a reportagem?

         “‘Nada mais será o mesmo’: quantas vezes ouvimos isso durante o auge da pandemia do COVID-19? O mundo ‘pós-COVID’, repetiu o establishment político da mídia, deveria encontrar um ‘novo normal’. E é de fato o que está ocorrendo: viagens fáceis, relacionamentos interpessoais calorosos, grandes encontros, liberdades individuais e até simples apertos de mão devem parecer dar lugar a um longo distanciamento social em última análise, regras exigentes e vigilância potencialmente drástica. Mas isso é apenas parte da imagem. O Fórum Econômico Mundial — o dos famosos encontros mundiais de Davos — em colaboração com o príncipe Charles da Inglaterra e o Fundo Monetário Internacional, lançou uma iniciativa reveladora que já mostra certos objetivos cuja realização é facilitada pelo grande medo do coronavírus chinês. Chamado ‘The Great Reset’, ele busca ‘reconstruir’ o sistema econômico e social global, a fim de torná-lo mais ‘sustentável’.

         “Essa convulsão de cima para baixo é apresentada como necessária devido ao colapso da economia mundial, ela própria consecutiva ao confinamento geral.

         “A ideia recebeu o apoio total do secretário-geral das Nações Unidas, Antonio Guterres, ex-presidente da Internacional Socialista de 1999 a 2005”. 

         A notícia continua, mas o parágrafo destacado confirma o que temos afirmado: o vírus chinês está servindo de pretexto para a criação de alavancas de controle das pessoas, rumo a uma futura ditadura globalista de caráter socialocomunista, exercida principalmente através da cibernética.

         Numerosos médicos desaconselham o uso ininterrupto das máscaras como as que estamos sendo obrigados a usar, por provocar o que a ciência chama de hipoxemia, que é a deficiência anormal de concentração de oxigênio no sangue e nos tecidos orgânicos.

         Essa exigência do uso das máscaras parece mais a imposição de uma doma, de um bridão, que a maioria das pessoas utiliza sem se dar conta de que estão sendo pouco a pouco “domadas” e acostumadas à perda de sua liberdade e personalidade.

         Sim, e isto já vem de longe: quem se acostumou a certos hábitos irracionais como o uso de roupas furadas ou mesmo pré-manchadas de fábrica, a usar adereços completamente extravagantes e antiestéticos, a ouvir músicas caóticas etc., acabará aceitando sem maior avaliação nem reação imposições dessas.         Incluo neste quadro o uso desequilibrado do smartfone, que concorre para essa dependência.

         Para que o processo de “doma” iniciado a pretexto da pandemia possa continuar é necessário encontrar justificativas.

         A observância das normas sanitárias nas igrejas, imposta pela CNBB, não se vê em nenhuma repartição. Como seria bom se a Lei de Deus e a moral fossem observadas com análogo rigor. Teríamos clero e fiéis em alto grau de santidade.

         Outra faceta dessa “doma” é a ditadura do Judiciário. Mas fica para outra ocasião.

         Uma coisa é certa: esse domínio do Estado sobre as pessoas, iniciado a partir do pânico com o coronavírus, é aquilo que o PT sempre tentou realizar.

         Assim, em vários aspectos da realidade, estamos vivendo um petismo sem PT… Falaram tanto contra a lei da mordaça, e agora petistas e aliados querem amordaçar todos os brasileiros sob a forma de uma máscara imposta pela China. É o primeiro passo para o estabelecimento uma ditadura férrea contra a qual devemos lutar!

         Nossa Senhora de Fátima tenha pena de nós e intervenha o quanto antes nos acontecimentos, conforme anunciou em 1917.


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domingo, 12 de julho de 2020

CERTA MANHÃ EM PISA, ITÁLIA - Ignácio de Loyola Brandão

Aproveitando o confinamento, estou há semanas tentando arrumar minha biblioteca que virou Babel, sem ser a de Borges. Ficava constrangido quando visitas olhavam para tudo e, educados, nada diziam. Fiquei aliviado quando vi nos jornais a biblioteca do Aldir Blanc, bagunça memorável, montes de livros empilhados, papéis, caixas, objetos. Do meio daquela mixórdia, todavia, saíram algumas das mais belas letras da música popular brasileira, comoventes, ríspidas. Mexo que mexo e do remelexo saiu um livrinho de capa marrom, levemente roída pelas traças. Ao ver aquele exemplar da segunda edição italiana de Un Amore, romance de Dino Buzzati, edição da Bompiani, Lucía Curia surgiu dentro do meu confinamento. Ao pronunciar seu nome, acentue o i, ela fazia questão. 

Gaúcha bela e sensual, seu nome inicial era Lucía Regina Tomasina Curia. Nos anos em que foi a mais bela e descolada e diferenciada modelo de moda, era apenas Lucía, eventualmente Curia. Mais tarde casou-se com o banqueiro milionário, diplomata e colecionador Walther Moreira Salles, do grand monde do universo, e tornou-se Lucia Moreira Salles, que ela abreviava para LMS. Assim, subitamente na manhã paulistana, nos vimos juntos em uma livraria de Pisa, Itália, em certa manhã de 1963. 

Era uma folga da caravana da moda brasileira da Rhodia, que andava pelo mundo fazendo desfiles com tecidos desenhados por artistas plásticos como Di Cavalcanti, Juarez Machado, Volpi, Darcy Penteado, Aldemir Martins, Carybé (argentino naturalizado baiano). Na noite anterior, tínhamos estado no Festival dos Dois Mundos, em Spoletto, e, quando Lucía atravessou a passarela, ouvi os aplausos de Luchino Visconti, esse mesmo, o diretor de Rocco e Seus Irmãos, Vagas Estrelas da Ursa, O Estrangeiro (baseado em Albert Camus), Morte em Veneza, O Leopardo, Senso, Os Deuses Malditos. Ele estava na minha frente. Tinha olho para as grandes coisas.

Foi Lucía quem, no café da manhã no hotel, me puxou e lá fomos, com o cineasta Fernando de Barros e o músico Sergio Mendes, para uma livraria, cada um em busca do seus interesses. Eu morava em Roma, na época, e me chamaram, acompanhava o grupo para fazer o texto de um documentário que seria exibido no Brasil. Em Roma, conheci Luis Carta que se tornaria amigo e grande amigo no futuro. Quando Thomas Soto Correa me levou para a Claudia, fiz um exame psicotécnico. Fui reprovado e Luis e Thomaz me contrataram assim mesmo, fiquei sete anos lá. 

De sete em sete, vim mudando de publicação. Na pequena, mas bem abastecida livrariazinha, eu estava fascinado com o roteiro do filme Oito e Meio, de Fellini, edição da Rizoli, quando Lucía me trouxe um livrinho. Vi o título, Un Amore. Cara irônica, ela era sempre pura malícia, me perguntou: “Conhece Buzzati?”. Disse que não, ela me entregou e esclareceu: “Comprei para você, ele é mais ou menos seu gênero, é jornalista, arredio, caladão, mas um belo escritor. Você não diz que vai escrever livros?”. Meu primeiro livro sairia dois anos depois. Naquele momento, pelas mãos daquela modelo, fiz a descoberta de um de meus autores favoritos. 

Acompanhei a carreira dele, o sucesso de O Deserto dos Tártaros, Um Amor e de O Segredo do Bosque Velho (circula no Brasil a versão portuguesa editada pela Cavalo de Ferro) e seus contos, peças teatrais, seus poemas. Morto em 1972, aos 66 anos, Buzzati foi contista, poeta, artista plástico, e seu mundo cheio de alegorias e beirando o fantástico forneceu faíscas em livros meus como Cadeiras Proibidas e mesmo Não Verás País Nenhum e Desta Terra Nada Vai Sobrar... Buzzati participou de uma geração italiana brilhante que teve nomes como Moravia, Pavese, Bassani, Natalia Ginsburg, Brancatti, Bonaviri, Silone, Vittorini, Elsa Morante.

A maioria teve suas obras adaptadas para o cinema, foram grandes filmes nas décadas de 1960 e 1970. Tenho uma edição brasileira de Un Amore, editada pela Nova Fronteira, tradução de Tizziana Giorgini. História do amor de Antonio Dorigo, um cinquentão, por uma prostituta, o livro causou furor e escândalo na época de seu lançamentos na Itália. Foi filme em 1965, com Agnés Spaak, filha do célebre roteirista Charles Spaak, autor de A Grande Ilusão, clássico de Jean Renoir, de 1937.

Lucía, que falava três línguas, sempre foi uma modelo diferenciada no mundo da moda brasileira. Pioneira de novas mentalidades e maneira de encarar e estruturar a carreira, embrião de Gisele Bündchen. Depois de desfilar para Dener, estilista must dos anos 1960, Lucía instalou-se em Paris, e tornou-se o braço direito de Chanel. Valentino adorava vê-la na passarela. Enfim, casou-se com Walther Moreira Salles. Viúva, desde 2001, pouco antes de morrer, aos 70 anos, ela produziu/patrocinou uma edição fac-similar preciosa, A Portrait of Oscar Wilde, com cartas, contos e poemas do autor de O Retrato de Dorian Gray. Moreira Salles tinha os originais em seus arquivos. Feito com um cuidado especial – as 185 páginas são costuradas à mão e encadernadas na Itália pela Legatoria Rigoldi, de Milão. Preciosidade para bibliófilos que foi celebrada nos meios literários dos Estados Unidos e da Inglaterra. Tudo isso me veio à mente saindo do montículo de livros empoeirados, esquecidos. Releio Buzzati.

O Estado de S. Paulo, 03/07/2020


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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.
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PALAVRA DA SALVAÇÃO (192)

15º Domingo do Tempo Comum – 12/07/2020

Anúncio do Evangelho (Mt 13,1-23)

 — O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele dia, Jesus saiu de casa e foi sentar-se às margens do mar da Galileia. Uma grande multidão reuniu-se em volta dele. Por isso, Jesus entrou numa barca e sentou-se, enquanto a multidão ficava de pé, na praia. E disse-lhes muitas coisas em parábolas: “O semeador saiu para semear. Enquanto semeava, algumas sementes caíram à beira do caminho, e os pássaros vieram e as comeram. Outras sementes caíram em terreno pedregoso, onde não havia muita terra. As sementes logo brotaram, porque a terra não era profunda. Mas, quando o sol apareceu, as plantas ficaram queimadas e secaram, porque não tinham raiz.
Outras sementes caíram no meio dos espinhos. Os espinhos cresceram e sufocaram as plantas.
Outras sementes, porém, caíram em terra boa, e produziram à base de cem, de sessenta e de trinta frutos por semente. Quem tem ouvidos, ouça!”
Os discípulos aproximaram-se e disseram a Jesus: “Por que falas ao povo em parábolas?” Jesus respondeu: “Porque a vós foi dado o conhecimento dos mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não é dado. Pois à pessoa que tem será dado ainda mais, e terá em abundância; mas à pessoa que não tem será tirado até o pouco que tem. É por isso que eu lhes falo em parábolas: porque olhando, eles não veem, e ouvindo, eles não escutam nem compreendem. Desse modo se cumpre neles a profecia de Isaías: ‘Havereis de ouvir, sem nada entender. Havereis de olhar, sem nada ver. Porque o coração deste povo se tornou insensível. Eles ouviram com má vontade e fecharam seus olhos, para não ver com os olhos, nem ouvir com os ouvidos, nem compreender com o coração, de modo que se convertam e eu os cure’.
Felizes sois vós, porque vossos olhos veem e vossos ouvidos ouvem. Em verdade vos digo, muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes, e não viram, desejaram ouvir o que ouvis, e não ouviram.
Ouvi, portanto, a parábola do semeador: Todo aquele que ouve a palavra do Reino e não a compreende, vem o Maligno e rouba o que foi semeado em seu coração. Este é o que foi semeado à beira do caminho.
A semente que caiu em terreno pedregoso é aquele que ouve a palavra e logo a recebe com alegria; mas ele não tem raiz em si mesmo, é de momento; quando chega o sofrimento ou a perseguição, por causa da palavra, ele desiste logo. A semente que caiu no meio dos espinhos é aquele que ouve a palavra, mas as preocupações do mundo e a ilusão da riqueza sufocam a palavra, e ele não dá fruto.
A semente que caiu em boa terra é aquele que ouve a palavra e a compreende. Esse produz fruto. Um dá cem, outro sessenta e outro trinta”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Padre Roger Araújo:

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“Mas, quando o sol apareceu as plantas, ficaram queimadas e secaram, porque não, não tinham raiz,” (Mt 13,6)

As parábolas são um relato provocativo e aberto, que envolvem o ouvinte ou o leitor; elas não exigem explicações, mas uma resposta pessoal, vital; move a assumir uma atitude frente a alternativa de vida que propõem. Se não toma uma decisão, é sinal que a pessoa já definiu sua postura: continuar com a própria maneira de ver e viver a realidade.

O objetivo das parábolas é substituir uma maneira de ver o mundo, míope e limitado, por outra, aberta a uma nova realidade, cheia de sentido e de esperança.

As imagens de sementes, árvores, terreno..., dão o que pensar; questionam nossa maneira de ser, nos convidam a descer ao nosso chão existencial, a olhar o mais profundo de nós mesmos e da realidade que nos cerca, e descobrir ali ricas possibilidades.

Cada planta procura seu chão. Não se desenvolve em qualquer lugar. Exige nossa atenção: é preciso conhecer o chão onde ela é plantada, observá-la, cuidá-la...

Cada chão tem uma palavra a nos dizer; o novo vem das raízes, vem de baixo, da base, do chão.  Na experiência espiritual, somos motivados a mergulhar no terreno da interioridade, como as raízes na obscuridade da terra, na presença do silêncio.

Aqui o caminho para Deus é “descer” ao nosso próprio chão e viver a comunhão universal. Subimos rumo ao Transcendente quando descemos ao nosso chão da vida. O movimento de enterrar profunda-mente as raízes possibilita alcançar a seiva, o pulsar da vida e o equilíbrio. 

Faz-se necessário, portanto, lançar raízes no mais profundo de nós mesmos e despertar todas as energias criativas, todas as grandes motivações adormecidas, toda bondade aí presente, toda decisão de assumir como cooperadores e artífices de um novo tempo.

Temos uma identidade que funda suas raízes na família, no povo, na cultura de origem. Outra, que provém das opções de nossa liberdade, de nossas decisões.  E um terceiro nível de identidade que nos vem da fé quando, progressivamente, como uma árvore, vamos “subindo” em direção a um novo sentido para nossa própria existência, deixando-nos conduzir pela força do Espírito presente no chão de nosso eu profundo. Desse enraizamento é que surgem os frutos surpreendentes, “à base de cem, de sessenta e de trinta por semente”.

Somos, portanto, seres de enraizamento e de abertura. “O ser humano é criado para...”, afirma S. Inácio. A raiz que nos limita é nossa encarnação na realidade. A abertura que nos faz romper barreiras e ultrapassar os limites, impulsionando-nos à busca permanente por novos mundos, é nossa transcendência. Ninguém segura os pensamentos, ninguém amarra as emoções, ninguém detém os sonhos... O desafio consiste, então, em manter juntos o enraizamento e a abertura. Encarnados, mas abertos à transcendência.

Nesse sentido, transcender não significa fugir da própria realidade, mas mergulhar na própria condição humana; “transcender é humanizar-se”.

A tradição judeu-cristã fala em “trans-descendência”. Somos convidados não apenas a superar e a voar para cima, mas, fundamentalmente, a descer e a buscar o chão. É a experiência da Encarnação: o Deus que envolve toda a realidade, emergiu do chão da realidade e da história. É o Amor que desce.

Ao entrar no “fluxo da descida” de Deus, somos desafiados a deixar a superfície banal e descer às dimensões profundas da nossa existência humana. Nessas águas, não nos afogamos; respiramos fundo e revitalizamo-nos. Por isso, somos chamados a superar ambiguidades, a escolher rumo construtivo, a definir nossa identidade pessoal e a optar por causas humanas que nos fazem transcender.

Somos impulsionados a mergulhar na própria existência humana “misteriosa”, e contar com a inteligência criadora, com a liberdade fecunda, com o coração ardente e com mãos mobilizadas para o serviço.

Na “parábola do semeador”, Jesus compara nosso interior com um campo dotado de diferentes “espécies” de terra, mas habitado por uma semente de vida. A semente é poderosa e eficaz. Mas estão em jogo nossa acolhida e nossa receptividade: podemos permanecer no nível da superfície; podemos nos deixar prender por outros interesses ou prioridades sensíveis; ou podemos nos abrir às dimensões mais  profundas de nós mesmos, à nossa “terra boa”, ao nosso “bom lugar”. Lida dessa perspectiva, a parábola não nos deixa indiferentes; motiva a nos questionar sobre a partir de onde nós estamos vivendo e, para chegar à resposta adequada, convida a nos fixar nos frutos que saem de nós.

A experiência espiritual cristã implica, portanto, “mergulhar os pés no chão da vida”.

É na obscuridade da terra que a planta vai buscar a força que a manterá viva, que lhe dará condição de expandir sua copa em direção à imensidão do céu. As raízes mergulham na terra de modo profundo, silencioso e lento. Expressões do nosso cotidiano como “pôr os pés no chão”, “estar com os pés na terra”, significam enraizar-nos e comprometer-nos com a realidade que nos afeta.

No “chão”, à primeira vista, estão todas as sujeiras, os detritos e as coisas em decomposição. Mas, para as raízes, tudo isso significa o alimento da vida.

Um “chão” é sempre mais do que um simples chão: cada “chão” revela lembranças, referências, ansiedades, medos, saudades...; cada “chão” guarda histórias, presenças e tem força de memória. Há vidas, pessoas, caminhos, acontecimentos, experiências...

Chão amplo é convite a sonhar alto, a pensar grande, a aventurar-se...; ousar ir além, lançar por terra o modo arcaico de proceder, romper com os espaços rotineiros e cansativos.

“Chão humano e humanizante”, porque carregado da presença divina.

É o ser humano mesmo o verdadeiro chão a partir do qual Deus se deixa encontrar e se dá a conhecer; cada pessoa é o autêntico chão da eterna presença de Deus.

Geralmente caímos na armadilha de acreditar que dar fruto é fazer obras grandes. A tarefa fundamental do ser humano não é fazer coisas, mas “fazer-se”. “Dar fruto” seria dar sentido à nossa existência de modo que, ao final dela, a criação inteira possa estar um pouco mais perto da meta, graças à nossa presença nela. Não se trata simplesmente de ativismo, mas de engendrar, de gestar algo novo, viver o Evangelho como novidade. Uma coisa é ter êxito e outra é ser fecundos, gerar vida.

Este é o desafio: gerar o novo a partir de dentro de nós mesmos, como se o sugássemos da terra com nossas raízes, para que nossas palavras e nossas ações sejam originais e criativas, e revelem uma força transformadora, com impacto na realidade onde nos encontramos.

Na fecundidade há espaço para o “mistério”. A fecundidade tem lugar no oculto, nas entranhas da terra. A fecundidade supõe confiança e abandono, uma atitude aberta e serena, sem ansiedade nem tensão, sem deixar-se desanimar pela insignificância dos primeiros resultados.

Viver em chave de fecundidade supõe aceitar ritmos, tempos longos como se dão na natureza. As plantas necessitam tempo para florescer e meses para crescer. Isto supõe excluir toda impaciência.

A fecundidade perdura e aumenta com os anos, embora as forças físicas se debilitem.

Texto bíblico:  Mt. 13,1-23 
Na oração:  “Pensamos e sentimos a partir do lugar onde nossos pés estão plantados”. Onde seus pés estão plantados? O seu “ter-reno cotidiano” tem facilitado ou dificultado o surgimento de novos frutos?
- Vivemos em um contexto marcado pela cultura da superficialidade, da aparência... Onde está enraizada sua vida? Ela tem se revelado como “terra boa”, verdadeira e fecunda, de onde brotam novidades surpreendentes?

Pe. Adroaldo Palaoro sj
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sábado, 11 de julho de 2020

A LEI DA INÉRCIA E O RETORNO À MISSA - Tom Hoopes


Miguel MEDINA | AFP

          A lei da inércia e o retorno à Missa

Tom Hoopes | Jul 09, 2020

Apesar de todo o seu poder, a inércia não é a maior força do universo. Nosso livre-arbítrio é mais forte. Por isso, precisamos vencer a inércia e voltarmos – com segurança – à Missa

Muitas paróquias estão, gradualmente, retomando as Missas com a presença dos fiéis. Mas muitos católicos não querem, por enquanto, retornar às igrejas (e não deveriam ser julgados por isso).

Todos deveriam compreender quão variadas são as circunstâncias das pessoas com familiares em grupos de risco, restrições de viagem, confusão sobre como se inscrever ou se poderão realmente participar da Missa por causa do número reduzido de fiéis.

Porém, penso que precisamos fazer grandes esforços para incentivar as pessoas a voltarem à Missa dominical, porque assim, estaremos enfrentando uma das mais poderosas forças do universo: a lei da inércia.

Os vendedores vêm falando sobre a lei da inércia há anos. Tudo começou com uma maçã caindo na cabeça de Isaac Newton. Ele se perguntou sobre isso, estudou e escreveu suas leis do movimento.

A primeira lei de Newton – a “lei da inércia” – diz que um objeto em repouso permanece em repouso e um objeto em movimento permanece em movimento, a menos que seja acionado por outra força.

Os vendedores sabem disso – e colocam esse princípio em prática. Eles sabem que ninguém quer agir por si só, então fazem com que você sinta que precisa do que eles estão vendendo para manter seu nível de conforto, prazer ou estilo de vida.

Na vida espiritual, temos a lei do hábito, que pode ser virtude ou vício. O Papa Francisco contou a história heróica dos católicos da Tunísia, cujo hábito de participar da Missa levou a um profundo encontro com Cristo. Quando o imperador Diocleciano tentou forçá-los a parar suas reuniões, um deles disse: “Não podemos viver sem o Domingo”. Os mártires de Abitene morreram na Missa.

Todos nós podemos conseguir isso. Como as virtudes “são adquiridas e fortalecidas pela repetição de bons atos morais” (Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, 378), precisamos apenas continuar fazendo a coisa certa.

Portanto, agora é a hora perfeita para a Igreja convidar fervorosamente as pessoas a voltarem, com segurança, à Missa.

Pense em quão perfeitas são as circunstâncias. A mensagem católica sempre foi: “Vá à Missa porque você precisa da Eucaristia”. Essa é uma mensagem poderosa, mas agora você não precisa ir à Missa. Então, por que você iria?

Volte à Missa porque o mundo está mais assustador do que nunca, e se você conseguiu manter sua paz de espírito sem Deus antes, certamente precisará dele agora, precisará de sua sabedoria, das Escrituras e de sua presença real na Comunhão.

Volte à Missa porque a pandemia varreu todos os ídolos. Tudo o que imaginávamos ser digno de esperança, agora sabemos que não é. Somente Deus traz esperança.

“Volte à Missa mesmo que isso pareça um risco”, diz meu arcebispo (mas viva primeiro a caridade, para si e para os outros). Ele ainda lembra que a Missa se tornou muito segura, mas apontou que os católicos se arriscam a receber Cristo há séculos.

Volte à Missa, mesmo que não queira. Talvez especialmente se você não quiser.

Eu poderia continuar com inúmeras razões para te convencer a volta à Missa de domingo. Mas minha esposa diz que a Igreja agora precisa de uma mensagem simples, como o lema “Just do it” da Nike.

Apesar de todo o seu poderoso poder, a inércia não é, em última análise, a maior força do mundo. Nosso livre-arbítrio é mais forte. Assim como basta dar um tapa em uma maçã para ela cair, você também pode ligar para a secretaria da paróquia para ver como a Missa funciona agora – ou ligar para as pessoas que ainda não viu na Missa, conversar com elas e convidá-las. Diga a elas que você ficará feliz em vê-las novamente na igreja.


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sexta-feira, 10 de julho de 2020

POR QUE NÃO ADOTAR O “ANTIGO NORMAL” DE SÓCRATES? - Hélio Brambilla

10 de julho de 2020

Estátua de Sócrates (470 a.C. – 399 a.C) na Academia de Atenas

Hélio Brambilla

Durante esta quarentena que vai se prolongando, além da indispensável oração e do trabalho, um dos meus passatempos são os livros. Sem querer ser erudito, sempre tive muita vontade de conhecer o pensamento de alguns filósofos gregos. A ocasião para isso me foi proporcionada por um religioso, que me obsequiou muitos de seus livros, entre os quais alguns desses filósofos. Comecei por Sófocles e Platão.

Sobre Sófocles, o meu inesquecível mestre Plinio Corrêa de Oliveira comentou certa vez que era um gênio, pois conseguia traduzir para o povo em geral, teatralmente e de outras formas acessíveis, aquilo que os filósofos elucubravam. Numa aula, para caracterizar a habilidade desse pensador, o Prof. Plinio chegou a criar o neologismo ‘sofoclizar’.

Sentindo-me meio ‘sofoclizado’, passei a ler Platão — discípulo de Sócrates, cujos diálogos escreveu, por considerá-lo o mais sábio e mais justo dos homens —, e pude perceber quanta coisa boa o grande Santo Agostinho havia haurido da sua filosofia. Na Carta 7, por exemplo, afirma: “Os males não cessarão para os humanos antes que a raça dos puros e autênticos filósofos chegue ao poder, ou antes que os chefes das cidades, por uma divina graça, ponham-se a filosofar verdadeiramente.”

Sempre tive no subconsciente que Sócrates, talvez em razão das calúnias que lhe eram feitas, tivesse sido condenado à morte por corromper a juventude. Mas, segundo Platão, a tal corrupção da juventude não era senão o fato de que ele contrariava os deuses atenienses, os quais, por sua vez, eram uma espécie de cúmplices dos pecados que grassavam em Atenas.

Platão aduzia que Sócrates foi condenado por ter praticamente chegado à conclusão de que só poderia existir um Deus verdadeiro, negando, portanto, a pluralidade dos deuses existentes ao seu redor. E foi além, pois o pensamento monoteísta o conduziu a crer na existência da alma, que a morte era o rompimento da alma com o corpo. Deduziu daí uma série de conclusões envolvendo a moral e a ética, o que o levou a viver como pensava e a combater os tiranos corruptos então detentores do poder.

Não querendo entrar na Ágora, sobretudo permanecer nela com discussões infindas, passo diretamente para um ponto que me interessa ressaltar hoje. Certa vez alguém perguntou a Sócrates como proceder para que o povo voltasse a ser feliz, ao que prontamente ele respondeu: “Volte a fazer aquilo que fazia quando era feliz!” Simples, não?

Nesse tremendo caos em que nos encontramos, vem-se repetindo à exaustão que a humanidade irá entrar num “novo normal”. Mas, afinal, o que é isso? Que tipo de coelho sairá da cartola do prestidigitador? Seria uma sociedade utópica, igualitária, em que os ricos ‘opressores’ dessem tudo aos pobres e passassem todos a viver numa igualdade completa, numa libertinagem total, sem Deus, sem ordem, sem moral, onde fosse proibido proibir?

Os ecologistas radicais, por exemplo, que pregam o fim da sociedade de consumo começam a dizer que em razão do Covid-19 os canais de Veneza ficaram mais limpos, a Baía da Guanabara e o Rio Tietê menos poluídos, o ar mais puro, as florestas mais verdes, as flores mais coloridas e o canto dos pássaros mais alegre etc. Haja paciência! Por que eles não interrogam os políticos de esquerda, seus irmãos siameses, sobre o que fizeram com os milhões de reais que desviaram, em vez de empregá-los na melhoria do meio ambiente?

Vamos nos ater, contudo, mais ao campo sócio econômico relacionado à agropecuária brasileira. Para isso, comecemos por analisar o significado da palavra normal.  Etimologicamente, é o que segue a norma. Mas segundo que critérios tais normas foram feitas nos últimos, digamos, cinco ou dez mil anos? Grosso modo, podemos afirmar que elas foram pautadas pela lei divina, pela lei natural, referendada depois pela lei positiva. Quanto à lei natural, ela é bem definida por São Paulo como a lei de Deus posta no coração dos homens.

Ora, o “novo normal” agora preconizado seria o quê? — Ao que tudo indica, a etapa final do processo revolucionário, como tratado pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em seu livro Revolução e Contra-Revolução. De um “novo normal” a outro essa Revolução abandonou a civilização cristã medieval e vem conduzindo a humanidade, por meios ora graduais e pacíficos, ora abertos e brutais, rumo a uma sociedade igualitária, ateia e tribal, sem tradição, família nem propriedade, controlada por mecanismos de controle facial e chips subcutâneos instalados no cérebro das pessoas.

O vírus proveniente da China vem para favorecer esse desígnio, causando danos a milhões de pessoas com o surgimento de problemas financeiros, morais e psicológicos de toda ordem. Com efeito, seu âmbito vai muito além dos horizontes de um Xi Jinping, pois visa abarcar a sociedade mundial como um todo. 

Quem promove mais esse grande passo rumo ao caos — em oposição à ordem cristã medieval — são os pósteros espirituais dos grandes revolucionários da História, tais como Lutero, Voltaire, Danton, Marat, Lenine, entre potentados, presentes na alta burguesia comunistóide, coadjuvados por parte da estrutura dominante do Vaticano, da alta intelectualidade e de expoentes da pseudo cultura presentes em muitas universidades. Esses são os verdadeiros agentes dessa manobra sorrateira. A China não passa de um palco em que é apresentado o teatrinho de onde as marionetes olham feio para os débeis expectadores.


O grande Papa São Pio X [foto ao lado] escreveu muito bem: “A Civilização não mais está para ser inventada, nem a Cidade nova para ser construída. Ela existiu, ela existe: é a Civilização cristã, é a Cidade católica. Trata-se apenas de instaurá-la e de restaurá-la sem cessar sobre os fundamentos naturais e divinos contra os ataques renascentes da utopia malsã, da revolta e da impiedade”.

Segundo economistas, o anunciado “novo normal” pós-pandemia encontrará um PIB 15% menor em âmbito mundial. Para especialistas do Bank of America, a economia brasileira deverá encolher 7,7%. (Valor, 23-6-20). Fake-óbitos ou não, no Brasil já ultrapassamos 60 mil mortes. De fato, uma tragédia irreparável, pois quem partiu para a eternidade não pode regressar ao nosso convívio. No entanto, nós já tivemos epidemias que mataram milhões de pessoas, sem contar as guerras.


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Pretendo tratar a partir daqui apenas do agronegócio, locomotiva de nossa economia, que além de produzir comida farta e barata para a população, ainda alimenta mais de um bilhão e meio de pessoas mundo afora. Teremos outra safra recorde de 250 milhões de toneladas de grãos. As exportações gerarão saldo positivo em torno de 100 bilhões de dólares. Nos quatro primeiros meses de pandemia o agronegócio não parou, juntamente com os valorosos caminhoneiros e transportadores, e bateu recorde de exportações.

O valor bruto da produção (VBP) — cálculo das riquezas que não existiam, mas que foram semeadas, cresceram, deram frutos e foram colhidas — renderá aos nossos cofres mais de 700 bilhões de reais, irrigando de modo acentuado a nossa economia. É bem verdade que,em razão da pandemia, o Governo deverá gastar entre 750 bilhões e 1 trilhão de reais com despesas extras. Mas a valorização do dólar ante o real trouxe ao Tesouro um ganho cambial de mais de 500 bilhões de reais.

O brasileiro ainda conseguiu tirar algum bem da situação em que se encontrava, e no mês de maio passado a poupança da população cresceu 38 bilhões de reais. As pessoas ficaram presas em casa, mas guardaram dinheiro na poupança. A dívida pública diminuiu quase 140 bilhões de reais (O Estado de S. Paulo, 9-6-20). Ela ainda é grande, mas precisa ser calculada em porcentagem do PIB, como mandam os economistas. Em muitos países essa taxa ultrapassa o dobro de nosso porcentual. Se governadores e políticos aloprados não frearem o ritmo da nossa economia, ela se recuperará organicamente.

O corpo social é muitas vezes comparado ao corpo humano. Os catastrofistas previam 1 milhão de mortos no Brasil, enquanto o governador de São Paulo previu 277 mil óbitos no Estado. Mas as pessoas foram infectadas, criaram resistência contra o vírus e estão voltando à vida do dia a dia anterior. No corpo social, a propriedade e a iniciativa privada são tão fortes que basta os governos não atrapalharem para elas voltarem logo aos patamares anteriores.

Depois desse alento, volto ao nosso Sócrates, mas sem recuar 2.300 anos! Apenas até meados do século passado, quando a incidência fiscal sobre os brasileiros era de apenas 10%. Não faltavam empregos, não havia fome e se andava nas ruas com tranquilidade. De lá para cá, à medida que o Estado foi se socializando, a carga tributária aumentando, muitos políticos se aproveitando do dinheiro fácil em detrimento da população cada vez mais escorchada.


Comecem a fazer como a ex-presidente da Croácia, Kolinda Grabbar [foto ao lado]. Ela diminuiu 50% do ordenado de todos os dirigentes políticos e do funcionalismo público, que auferiam exorbitâncias bem acima de um patamar razoável; vendeu cinco jatinhos de administrações anteriores e mais de 30 automóveis Mercedes Benz, herança maldita dos dirigentes comunistas que dominavam seu país.

Portanto, basta diminuir tamanho do Estado e a carga tributária para que as indústrias que foram para a China voltem para o Brasil. Aliando-as ao agronegócio mais pujante do mundo, seremos sem dúvida umas das primeiras potências mundiais, conforme desígnio da Providência Divina, que deseja para nós um progresso espiritual ainda muito maior do que o material.

Que Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil, vele por nós, a fim de que, com essa confiança que se identifica com certeza, possamos seguir a receita de Sócrates, e voltarmos novamente a ser felizes…




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quinta-feira, 9 de julho de 2020

NELLY NOVAES COELHO E OS ESCRITORES BRASILEIROS – Cyro de Mattos

Nelly Novaes Coelho e os 
Escritores Brasileiros

Cyro de Mattos



               Em sua contribuição enciclopédica e analítica da literatura, como os iluministas de ontem, Nelly Novaes Coelho, essa intelectual rara, desincumbe-se da jornada literária com erudição, consciência crítica e uma santa paciência de pesquisadora. Ela sempre está surpreendendo. Depois de enriquecer o corpo das letras brasileiras com volumes importantes como Literatura e Linguagem, Literatura Infantil, Dicionário Crítico de Escritoras BrasileirasDicionário Crítico de Literatura Infantil e Juvenil Brasileira, Panorama Histórico da Literatura Infantil/Juvenil,  na idade em que muitos já aposentaram suas ferramentas, eis que ela comparece com ensaios fecundos para brindar  seu  público leitor com a obra monumental Escritores Brasileiros do Século XX
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          O alentado volume é resultado de 50 anos de pesquisas, leituras e releituras de obras apresentadas em cursos universitários, congressos, seminários, colóquios, no Brasil, Portugal e Estados Unidos da América.

            São 81 escritores analisados neste precioso e extenso livro. Dos mais conhecidos, como Jorge Amado, Graciliano Ramos. Guimarães Rosa, Mário de Andrade, Oswaldo de Andrade, João Ubaldo Ribeiro, Ignácio de Loyola Brandão, passando por nomes expressivos que ficaram esquecidos pela crítica e do mercado editorial, como Cornélio Pena, Gustavo Corção, Adonias Filho, Murilo Rubião, Victor Giudice, Campos de Carvalho e   Alcides Pinto.
      
           E ainda outros que precisam de divulgação para que melhor sejam conhecidos:  Vicente Cecim, Olavo Pereira, Agripino de Paula, Fausto Antonio, Ricardo Guilherme Dicke, Mora Fuentes, Samuel Rawet e Alaor Barbosa. Todos esses autores, elencados nessa obra enciclopédica de ensaio, dão voo à razão e à emoção quando abordam a problemática existencial do ser humano e a crise de uma sociedade exaurida de valores e sentidos. Dão imaginação e transcendência ao mundo.
 
         A escritora admirável revela que foi a “Sorte ou o Acaso” que puseram em seu caminho os 81 escritores reunidos e analisados neste seu último livro. A generosidade, a humildade e a solidariedade são marcas da alma dessa grande ensaísta.   Os autores aqui analisados tiveram, sim, a sorte ou o acaso que foi posto em seus caminhos com uma analista literária da extensão de Nelly. Um autor para ser instituído como cânone precisa de um crítico dotado de instrumental teórico suficiente, que chame a atenção para as questões estéticas, seja capaz de revelar os elementos estruturantes que entraram na composição da forma e conteúdo da sua obra.

          No meu caso,  de autor baiano insulado em Itabuna,  no sul da Bahia, distante do eixo Rio e São Paulo,  que ainda hoje  funciona como tambor cultural desse país inculto, por mais que o mundo de uns tempos para cá tenha se tornado uma aldeia globalizada, nem sei como agradecer a minha inclusão  na relação desses escritores conceituados, selecionados e reunidos  no testemunho crítico da Nelly.

           Vale a pena repetir o que certa vez ela disse sobre a literatura: “Sem leitura e escrita a vida não tem emoção.”

            Essa Nelly Coelho Novais, que viveu para amar a literatura e que, em contrapartida, tanto demonstrou quanto a amava

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Cyro de Mattos é ficcionista, poeta, cronista, ensaísta e autor de literatura infantojuvenil. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da UESC (Bahia).  Possui prêmios importantes. Publicado no exterior.

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quarta-feira, 8 de julho de 2020

EM CHIQUINQUIRÁ, A SANTÍSSIMA VIRGEM RESSALTA A LUZ PRIMORDIAL DA COLÔMBIA

8 de julho de 2020
O quadro milagroso de Nossa Senhora de Chiquinquirá

Neste dia 8 de julho celebra-se a festividade de Nossa Senhora de Chiquinquirá — sobretudo na Colômbia, que A tem como principal Padroeira. A seguir matéria a respeito d´Ela, e sobre os estupendos milagres que seu miraculoso quadro tem operado, que foi publicada na revista Catolicismo deste mês.

 Luis Fernando Escobar Duque

Na década de 1560, o espanhol Antonio de Santana encomendou a Alonso de Narváez, morador na pequena Villa de Tunja, uma pintura da Santíssima Virgem para ser venerada na residência dos Padres Dominicanos em Sutamarchán. Desse lugar os heroicos missionários partiam para todos os rincões do novo e vasto país. Com seus incansáveis esforços para ensinar a Fé católica aos aborígines, batizando-os a fim de torná-los dignos dos méritos alcançados pelo divino Redentor na Cruz, os missionários transmitiam as graças fundadoras de uma grande nação católica, com a promessa de um não menos grandioso futuro.

Era época da Conquista, cheia de adversidades, e isso fez com que o primeiro centro fosse abandonado, deixando tudo à mercê das intempéries. Consequentemente a tela com a imagem da Virgem se deteriorou, suas cores desapareceram. Em 1578 esse tecido foi levado para Chiquinquirá, onde foi deixado de lado. Maltratado a ponto de ser utilizado para secar o trigo, já não se percebia nele a face celestial de Nossa Senhora, cercada por Santo Antônio e Santo André.

Sabendo que a Mãe de Deus havia sido pintada naquele tecido esmaecido, uma espanhola de nome Maria Ramos o colocou com dificuldade sobre um altar rústico, e pôs-se a suplicar fervorosamente que a Mãe de Deus voltasse a mostrar sua face.

O quadro de Nossa Senhora no altar principal
No dia 26 de dezembro de 1586 a indígena Isabel atravessava a fazenda com seu filho Miguel, de cinco anos, quando perceberam um grande brilho, como de fogo em meio a faíscas e raios. Os habitantes do local acorreram para apagar o “incêndio”, mas se surpreenderam pelo fato de ele não queimar. Só deixaram o local após admirar a pintura renovada, que se manteve brilhante por um dia inteiro. A face da imagem permaneceu restaurada apenas parcialmente.

Movida por tal prodígio, a piedade popular foi se ampliando, sendo recompensada por grandes milagres que não cessaram até hoje. Brotou no local um jorro de água cristalina, e a Ordem de São Domingos decidiu construir ali um templo, a Igreja da Renovação, para promover a veneração da tela milagrosa. Este novo santuário foi consagrado em 1823, e seis anos depois, em 1829, a Santíssima Virgem era ali coroada Padroeira da Colômbia por ordem do Papa Pio VII.

Do alto de seu altar privilegiado, onde sempre nos espera acolhedora e misericordiosa, a Santíssima Virgem reina serenamente desde então sobre todo o povo colombiano, que ali promove jubileus muito concorridos. As multidões que visitam a milagrosa pintura ao longo dos séculos nunca saem decepcionadas: sempre atendidas com magnanimidade.

Na sua prodigiosa renovação, a Santíssima Virgem se manifestou em meio ao fogo e aos raios. Pode-se ver aí uma relação com o caráter ardente e apaixonado de seu povo, que vai delineando gradualmente a sua vocação, a sua luz primordial. O povo colombiano quer a afirmação da verdade: “Seja a tua palavra: Sim, sim; não, não; pois o que não for isso procede do mal” (Mt 5, 37).

Homenagem à Padroeira numa de suas festas anuais

Na contemplação amorosa de sua fisionomia, sempre fica a pergunta: por que, apesar de permanecer intacta, a Santíssima Virgem quer mostrar-se parcialmente restaurada? Parece haver nela uma promessa de restauração total, uma garantia de que a nação se mostrará plenamente em um futuro grandioso, se corresponder às graças da sua Rainha. Unido a Ela, o povo colombiano pode escrever sua própria história, definindo com fé o seu caráter e identidade.

Na próxima festividade de Nossa Senhora do Rosário de Chiquinquirá, a realizar-se no dia 9 de julho, suplicar-lhe-emos com confiança que se manifeste inteiramente à nação da qual é Rainha e Padroeira, e ponha fim à terrível crise de fé em que vivemos.



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