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quarta-feira, 22 de abril de 2020

A POESIA MANSA DE CONCEIÇÃO NUNES BROOK – Cyro de Mattos


A Poesia Mansa de Conceição Nunes Brook
Cyro de Mattos

          Filha do pecuarista Isaac Nunes e Dona Rosalva, Conceição Nunes Brook nasceu em Ibicaraí onde viveu a infância, preenchida de brincadeiras e coisas naturais na música da inocência.   Mudou-se para Salvador onde a moça de beleza radiante foi eleita Miss Glamour Girl.  Quando morou no Rio mais tarde foi estudante da PUC.  Casada com um norte-americano, de quem teve três filhos, mudou-se para os Estados Unidos.

          Sempre se sentiu estranha nos Estados Unidos, a alma com seus bemóis líricos em compasso brasileiro não aceitava os sons de uma paisagem humana distante, permeada de cenas diferentes. Pouco lhe dizia no íntimo, que pulsava no Brasil.  Era ave presa na solidão dos vazios, sem plumagem, nem bondoso canto   nos caminhos da indiferença.   Tornou-se uma criatura estranha, sem ajuste no cenário que não lhe dizia respeito, sem conexão da alma, a  motivar o disfarce onde não havia tempo para renascer.  Era natural que o tempo fosse parado, “todo o ser disperso com medo do amanhã.”

          Avistava Nova York sem as substâncias que correm nas veias, vindas da infância e das lembranças fraternas, que viravam agora a mulher sozinha na difícil arte de camuflar. Via Nova York como serpente traiçoeira, de bote armado na esquina, a que fere, queima e cega, tritura e devora “inocentes e deslumbrados mortais.”  Separada do marido, voltou ao Brasil, vindo a falecer anos depois, vítima de doença cancerígena.

          Publicou dois livros de poesia, Teu rosto de bem-me-quer, pela Editora Itapuã, Salvador, 1978, e Me basta uma janela, Editora Record, Rio de Janeiro, 1984, com o desenho da capa e ilustrações internas do consagrado Carlos Bastos.  Chama a atenção   que poeta desconhecido, jovem, sem convívio na ambiência literária da época, em Salvador e no Rio, tenha conseguido a proeza de ter publicado seu segundo livro de poesia por uma editora importante, de circulação nacional, sediada na metrópole carioca. Naquela época Rio e São Paulo funcionavam como tambores culturais do Brasil. E até hoje com um lirismo valioso em forma de carícia, embora de legado pequeno, continue sua poesia nem sequer referenciada com o   seu nome no dicionário de autores baianos, nem em antologias da poesia na região sul baiana.

          Há poetas que fazem da vida uma canção de versos mansos, na qual a inspiração reveste-se de ternura, pulsa na transpiração leve até nos momentos difíceis. A poesia de Conceição Nunes Brook é dessa natureza doce, de tristeza bondosa, tecida com os fios do sonho que se abriga na palavra terna para falar da vida com suas falhas.  Risca o instante no eterno tocado de partituras sentimentais, que pulsam antigas e batem no agora ferido.

           Um dos poemas belos do livro, “Lamento da Esposa Esquecida”, versos que soam como gemidos do vento, que fere e não tem volta, a poeta diz do marido ausente, a quem gostaria de falar, como o ar que entra pela fresta. Lembrar “do ritmo manso da respiração do nosso filho a dormir” e mais, que ele visse “as duas borboletas tênues que há pouco pousaram em minha janela e voaram juntas num amor fugaz e eterno, pois são curtas as suas vidas”.

          Longe de ser uma poesia hermética, mas figurativa em sua estética definida com clareza, apoiada em unidades rítmicas leves, Conceição Nunes Brook faz de cada poema uma música, um leve sentido, tocado pela vida transformada no mais belo sonho. No encanto envolve com seus dizeres reveladores de segredos, angústia, confissões tristes, impressões alimentadas de esperança, como se fosse seu propósito final guardar esse transe transmitido pela musa mansa  no coração como um manual de delicadeza perfeito.  Até quando aparece em momento grave, a vida sobreposta na areia dos caminhos passageiros, emerge de uma luz, que leve e distante  esquecerá de quem se foi, mas apesar disso se conserva como suave nesta distância da alma.

          Ante a certeza que a vida é falha, limitada, contraditória, a gerar o medo e o amor, ruídos comuns da solidão,  imperfeições das ausências que não se explicam, essa poesia se basta quando enxerga  a vida através de uma janela. É desta janela que reparte os sentimentos, captura temas e momentos de acordes graves.  Para ler o que enxerga com o coração, em suas circunstâncias, basta essa janela aberta no imaginário, que aflora de dentro de si como densa e pungente fantasia.

          Dessa janela é que avista a vida a galopar em ágeis montarias no jóquei, o vermelho das flores nos galhos de esplêndido dia, o Cristo  de braços abertos para os espantos filtrados em máquinas fotográficas, a lembrança das vacas mansas e brancas a ruminar o tempo em mansidão nos  campos verdes  da fazenda paterna. Ali, nesta janela, sabe a sonho e choro como momentos essenciais da existência, ternuras e decepções inevitáveis, que deixam no final a harmonia perfeita do poema merecido.

          Leitora constante de Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Cesário Verde, Shakespeare e Walt Whitman, mostra-se em algumas epígrafes no poema nessa boa companhia. Cônscia de que, como Ann M. Lindberg, somos todos ilhas em um mar comum, essa baiana de Ibicaraí diz no verso as coisas mais simples e menos intencionais, pois nela o frágil é forte, alimenta-se da verde esperança.

          Sua poesia é necessidade vital, como dormir, comer, sonhar, habita o tempo intervalar entre viver e morrer.  Sempre mirando essa flor com desvelo, impressa no chão de bondade triste, diz no poema “Inevitável” de sua crença:


Uns morrem de amor
Eu faço poesia
Uns marcham em protesto
Meu lema é a poesia
Uns se suicidam
Ou são homicidas
Meu ópio é a poesia
Uns se desesperam
Meu grito é a poesia
Uns morrem no exílio
Meu país é a poesia
Uns dão volta ao mundo
Meu barco é a poesia
Uns trancam-se mudos
Meu silêncio é a poesia
Uns,  danças e festas
Meu canto é a poesia
Uns ganham medalhas
Meu prêmio é a poesia
Ou são condenados
Minha pena é a poesia
Uns pedem socorro
Meu amparo é a poesia,
Uns querem resposta
Quanto a mim:
Me basta a poesia.

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Cyro de Mattos é ficcionista e poeta. Publicado em inglês, francês, italiano, espanhol, alemão, dinamarquês, russo. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Membro titular da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. 

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terça-feira, 21 de abril de 2020

PREPARAR-SE PARA A GUERRA... - Carlos Alberto Nunes


Nem Sebastian Brant, advogado alemão que viveu nos anos 1500, autor da sátira “A Nau dos Insensatos”, seria capaz de imaginar o cenário de horror que começamos a viver no Brasil nestes tempos de Pandemia.

A exagerada ambição de alguns pelo poder e o caráter deletério de todos começam a arrastar o país para uma guerra civil ou para uma situação de total descontrole social e de falência das instituições democráticas.

Não, não exagero. É o cenário que enxergo com clareza caso o presidente da República seja afastado do cargo ou impedido de governar pelo que já é chamado de “Parlamentarismo Branco” ou algo que o valha.

RACIOCINEM, POR FAVOR

Ainda dá tempo de reverter esse processo, mas é preciso que os agentes dessa insensatez comecem logo a raciocinar:

- O Bolsonarismo é, caso queiram admitir ou não, a única força política viva, participativa, energizada, da Nação.

- Nada do que o presidente fez – ou deixou de fazer – desde que o Virus de Wuhan entrou no radar da Nação, abalou a base bolsonarista que tem crescido bastante com a recente adesão dos micro e pequenos empresários (mais de 30 milhões, ao todo) maltratados pelo confinamento irracional.

- A base de apoio ao presidente é bastante concentrada no Estado de São Paulo, no sul do Brasil, no Rio de Janeiro, Minas Gerais e têm-se expandido fortemente no Centro-Oeste, Norte e Nordeste do País, bastando ver as multidões que o tem cercado aos gritos de “Mito! Mito! Mito!” nas visitas que tem feito às regiões mais remotas do país.

NAU DA INSENSATEZ

Os governadores que assinaram a carta de protesto contra o presidente da República, por influência do ambicioso João Dória, embarcaram assim na Nau da Insensatez.

O exemplo mais gritante desses embarcados insanos é o neófito governador de Santa Catarina, Carlos Moises da Silva (PSL), um ilustre desconhecido até a campanha de 2018: só foi eleito por ter desfraldado a bandeira do bolsonarismo num estado em que nada menos de 75% dos eleitores votaram em Jair Bolsonaro.

Sua assinatura na carta de governadores contra o presidente corresponde a um salto do topo da Serra do Rio do Rastro sem paraquedas ou asa delta.

No Estado de São Paulo, onde em pleno confinamento tem-se repetido carreatas portentosas contra João Dória, a #ForaDoria já adquiriu duplo sentido: como numa democracia um governador democraticamente eleito não pode ser deposto, será com certeza impedido de governar caso se consume algum tipo de golpe contra o presidente da República.


Quem viver verá!

SEM DEMOCRACIA, SEM LIBERDADE E SEM MORAL - J.R. Guzzo


15 de abril de 2020

Por J.R. Guzzo

A democracia morreu no Brasil – se é que chegou a viver algum dia, pois qualquer exame clínico um pouco mais atento mostra que ela já nasceu morta em 22 de setembro de 1988, dia em que começou a valer a Constituição Federal que está em vigor e que é, em geral, considerado como seu marco zero.

Nasceu morta porque quem a escreveu pensou numa coisa só, com obsessão exemplar, desde a redação de sua primeira sílaba: como montar no Brasil um sistema de governo em que um grupo limitado de pessoas fica com 100% do direito legal de tomar decisões — sem ter de pagar jamais pelas consequências do que decide, é claro — e o resto da população fica sem influência prática nenhuma.

É exatamente o que vem acontecendo há quase 32 anos.

No papel, e nos tratados de ciência política, é o governo comandado pela vontade da maioria — e os votos da maioria podem perfeitamente colocar no governo, ou seja lá onde as decisões são tomadas, gente que não tem interesse algum em saber quanto você é livre ou não é.

Seu papel é unicamente obedecer às leis e regras que os donos do poder escrevem em benefício próprio, ou dos grupos a quem servem.

No Brasil de hoje não há uma coisa nem outra.

Não há democracia porque quem manda em tudo, faz mais de trinta anos, é uma minoria — a população só é chamada, de dois em dois anos, para votar em eleições nas quais um sistema viciado elege sempre os mesmos, com uma ou outra exceção que não muda nada.

Fechadas as urnas às 5 horas da tarde, todos são mandados de volta para casa e só voltam a abrir a boca dali a dois anos, para fazer a mesma coisa.

No meio-tempo, não mandam em absolutamente nada — sem crachá e autorização dos seguranças, não podem nem entrar nos lugares onde estão os que resolvem tudo.

Não há liberdade porque o cidadão só tem a opção de obedecer, esteja ou não de acordo com o que lhe mandam fazer.

O momento que o Brasil atravessa agora, com grande parte da população apavorada pelo medo de morrer por causa da covid-19, é exemplar dessa democracia que não vale nada.

Vamos aos testes práticos.

Passa pela cabeça de alguém, por exemplo, que as pessoas estejam de acordo que o Senado alugue por 350 mil reais por mês, sem concorrência, uma “sala VIP” no aeroporto de Brasília, para os senadores não correrem nenhum risco de ficar perto dos cidadãos?

É claro que ninguém está de acordo.

É claro, também, que ninguém pode fazer nada a respeito.

É tudo legal, porque eles escreveram leis dizendo que é legal — inclusive essa falta tão conveniente de concorrência pública, pois estamos num momento de “emergência” na saúde pública.

O que a maioria tem a dizer da recusa do Congresso em abrir mão de um centavo sequer dos bilhões que tem estocados nos fundos “Partidário e Eleitoral”, que roubaram legalmente dos impostos — através de leis que eles mesmos aprovaram?

E a liberdade, aí, como é que fica: alguém é livre, de verdade, para defender seu direito de opor-se a essa aberração?

Não se trata apenas de deputados e senadores.

Como pode haver democracia numa sociedade em que uma comunidade de talvez 25.000 indivíduos, os membros do Poder Judiciário em suas diversas camadas, tem direitos que os demais 200 milhões de brasileiros não têm — e se mantém, na vida real, acima das leis e da obrigação de cumpri-las?

É impossível, também, pensar em “estado de direito” quando a Justiça funciona como cúmplice integral em atos de delinquência do submundo político.

No caso dos “fundos”, é óbvio, deu razão ao Congresso — e proibiu seu uso em favor do combate à epidemia.

O país inteiro tem assistido, todos os dias, a demonstrações brutais de tirania por parte de 27 governadores, 5.500 prefeitos, suas polícias e seus fiscais.

Com o súbito poder que lhes foi conferido pela epidemia, e com a cumplicidade quase absoluta de juízes e integrantes do Ministério Público, puseram para fora todas as suas neuras ditatoriais.

É a lei que lhes permite isso — a lei que eles próprios, ou a classe política em geral, escreveram.

Os exemplos não acabam mais.

Todas as edições de Oeste (noticiário), até o fim dos tempos, não serão suficientes para mostrar a soma de desastres que está acontecendo com as liberdades neste país.

Todo o poder de decisão foi dado a grupos muito bem definidos, pela malícia e esperteza de uma Constituição na qual há um número ilimitado de boas intenções e nenhum meio de realizá-las na prática.

Ali o cidadão tem direito a tudo — menos o de influir na própria vida e controlar, mesmo por alguns minutos, os que mandam nele.

Todos sabem quem são esses grupos.

Os altos servidores do Estado, as corporações, os grupos de interesse privado, os sindicatos, os criminosos ricos, os saqueadores do Erário, os que desfrutam de direitos que os demais não têm, os políticos — e por aí afora.

As leis são escritas para eles.

Você só paga.

“Eu prefiro um ladrão a um deputado”, diz Walter E. Williams, o economista conservador americano que há décadas devasta a hipocrisia da vida política mundial.

“O ladrão, em geral, o rouba uma vez só e vai embora.”

Os políticos, porém, estão aí para sempre.

É esse, justamente, nosso problema: enquanto quem mandar no Brasil for o condomínio descrito acima, não haverá nem liberdade real nem democracia efetiva.

O que vale é a manipulação periódica da multidão em eleições que já estão decididas, pelos vícios deliberados do sistema eleitoral, antes de o primeiro voto ser colocado na primeira urna.

O resultado concreto disso tudo aparece nas decisões alucinadas que são tomadas aqui como resultado do “funcionamento normal” das chamadas instituições democráticas.

“Como alguma coisa que é imoral, quando feita em particular, se torna moral quando feita coletivamente?”, pergunta Williams.

“Por acaso a legalidade confere moralidade a alguma coisa? A escravidão era legal. O apartheid era legal. Os massacres feitos por Hitler, Stalin e Mao foram legais.”

No Brasil o Congresso é legal.

O STF é legal.

O aparelho do Estado é legal.

O que foi para o diabo é o senso moral — junto com a liberdade e a verdadeira democracia.



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José Roberto Guzzo, mais conhecido como J.R. Guzzo, é um jornalista brasileiro, colunista do Jornal O Estadão.


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segunda-feira, 20 de abril de 2020

ASSIM OPERA A MÁFIA QUE NÃO PARA DURANTE A PANDEMIA


20/04/2020
Os clãs do sul da Itália aproveitam a crise para ganhar apoio distribuindo comida e dinheiro, mas alguns moradores se organizam para evitar

Bairro napolitano de Santa Lucia.PAOLO MANZO / EL PAÍS

Um assassinato em Agrigento (Sicília). Um barco na Calábria com 600 quilos de coca. Um fugitivo capturado depois de uma longa fuga quando ia fazer compras usando máscara e luvas. Ninharias em comparação com o ritmo normal. Mas a principal atividade dos clãs mafiosos na Itália hoje em dia é se reposicionar, ganhar apoio e buscar novas formas de usar seu dinheiro, que retornará em abundância quando a crise sanitária acabar. Na Calábria e na Sicília, a polícia já surpreendeu mafiosos distribuindo sacolas de compras para alguns moradores. Enquanto não chegar a ajuda anunciada pelo Governo de Giuseppe Conte, as máfias se infiltrarão no tecido social, concordam as fontes judiciais e policiais consultadas. Também são abundantes os empréstimos a empresários com a corda no pescoço que precisam de dinheiro vivo. “Agora são só facilidades”, assinala um comandante dos carabinieri em Trapani. Os clãs têm liquidez. Quando a crise passar, vão cobrar a conta.

O confinamento tem alguns mestres que o praticavam muito antes que o mundo soubesse o que é um coronavírus. Nicola Gratteri, procurador-chefe de Catanzaro e provavelmente o maior especialista do mundo na ‘Ndrangheta − a máfia mais poderosa da Itália, com mais de 30.000 filiados só na Calábria e capaz de faturar 43 bilhões de euros (245 bilhões de reais) anuais −, teme o pior: “O objetivo da elite da ‘Ndrangheta não é só enriquecer, mas exercer o poder. No sul há milhares de pessoas que sempre trabalharam na informalidade e ganhavam no máximo 40 euros [228 reais] por dia. Esse dinheiro evaporou. O Estado está preparando uma injeção que chegará em poucos dias, mas muitas pessoas necessitadas aceitam encantadas as compras pagas pelo chefão da vez. Aceitam também ajudas de 300 ou 400 euros [1.710 ou 2.280 reais]. Para eles não é nada, para o pobre é tudo. Daí surge o modelo do homem poderoso, que poderá pedir que votem em seu candidato quando houver eleições”. É hora de semear.

As recessões são oportunidades perfeitas para as máfias, alertam o chefe da polícia nacional da Itália, Franco Gabrielli, e o procurador-geral antimáfia do país, Federico Cafiero de Raho. A crise acaba com o dinheiro em espécie, algo que organizações como a ‘Ndrangheta, cuja principal fonte de renda é o tráfico de drogas, têm em abundância, lembra Gratteri. “[Essas organizações] buscarão emprestar dinheiro com usura a empresários. A juros baixos, para competir com os bancos. As pessoas − hoteleiros, donos de restaurante − vão procurá-las. O objetivo do agiota mafioso é se apoderar dessa atividade comercial quando, pouco a pouco, forem aumentando os juros até o empresário não conseguir pagar. Depois que o negócio for roubado, o mafioso o usará para lavar dinheiro. É assim que funciona. Este período servirá para isso”, acrescenta o procurador.

Isso acontece na Calábria. Mas também na Sicília e nas vielas do centro de Nápoles. Quando o Estado dá um passo atrás, os clãs devoram o território. As três regiões estão no topo das estatísticas de pobreza e de economia informal, com cifras em torno de 20% de sua riqueza, segundo o Instituto de Estatística Italiano (Istat). São milhares de famílias sem nenhuma provisão neste momento. O Governo prometeu 400 milhões de euros (2,3 bilhões de reais) aos municípios para a concessão de vouchers, mas o sistema é lento e a burocracia, fatal para o tecido social. Em Palermo e Nápoles, multiplicam-se as denúncias de assaltos a supermercados.

Na moto, Vincenzo e Antonio, voluntários da ONG San Gennaro, distribuem alimentos aos necessitados no bairro de Sanità, em Nápoles.PAOLO MANZO / EL PAÍS

Alguns moradores, liderados pela associação Liberi di Volare (Livres para voar)e pela Fundação San Gennaro, organizaram-se para distribuir alimentos a famílias necessitadas em Nápoles. É outra forma de evitar a infiltração de clãs mafiosos. Davide Marotta faz parte do esquadrão que distribui 350 pacotes de comida semanais e vales-compra no bairro napolitano de Sanità. “Quem recebe ajuda, muitas vezes, não pensa se vem de alguém que mata ou vende drogas. Fome é fome. Nápoles já estava cheia de problemas antes do coronavírus. O Estado está ausente nessas áreas, e muitas vezes a Camorra o substitui. O único mercado que não para é o ilegal. E é usado o velho método do clientelismo político. O que nós fazemos é ocupar esse espaço”, diz Marotta, por telefone, no único dia de descanso dos voluntários.

O prefeito de Palermo, Leoluca Orlando, um dos primeiros a alertar sobre o incêndio social que estava chegando às ruas de sua cidade, resume assim: “Quando você está doente e o médico não chega, acaba indo ao curandeiro. Devemos evitar que esses falsos médicos batam à porta. Os mafiosos estão alimentando o mal-estar social para transformar aos novos pobres em transportadores de drogas, escravos. Só o dinheiro público é a alternativa ao dinheiro mafioso. E isso vale em toda a Itália, também no norte”. E hoje tudo acontece às escuras.

A pandemia complica o trabalho de investigação, explica um dos procuradores mais importantes da luta contra a máfia em Palermo, que pede anonimato. “Neste momento, os pontos de escuta, os lugares onde foram instalados microfones [pela polícia], os esconderijos, já não estão dando muitos frutos, porque não são frequentados. Os carros estão parados, e nas residências, estando em família, nem sempre é possível obter informações, porque há mais barulho e as conversas são de outro tipo. Quanto menor o movimento, menos visíveis são os encontros e menos informações obtemos”, diz ele. Um comandante policial especialista no combate à Cosa Nostra assinala: “É mais difícil para todos: para eles, que dão cobertura e logística para a distribuição de drogas, e para nós, que devemos segui-los e não podemos nos camuflar entre os carros e as pessoas”.

A Covid-19, no entanto, corrói a parte fraca da máfia. A que precisa do barulho para viver em silêncio. Para grandes fugitivos, como o chefe da Cosa Nostra Matteo Messina Denaro, foragido há 26 anos, hoje é mais difícil se esconder. “São como baleias. Vivem submersos e de vez em quando têm de vir à superfície para respirar. Vamos caçá-los quando fizerem isso… ou morrerão afogados.”

No Brasil o crime organizado se divide. Segundo o jornal O Globo, as milícias fluminenses pressionam comerciantes para que continuem trabalhando, uma vez que sem receita eles não tem como pagar os grupos criminosos que vivem da cobrança de taxas e extorsão. Por outro lado, traficantes de facções como Comando Vermelho e Amigo dos Amigos tem colocado faixas em algumas comunidades pedindo que todos fiquem em casa.



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POR QUE OS LAÇOS FAMILIARES SÃO TÃO IMPORTANTES? – John Horvat II


19 de abril de 2020

John Horvat II*

A importância das relações familiares pode também, entre diversas razões, ser constada nos benefícios para a saúde que advêm de laços afetivos entre parentes.

Em um estudo realizado nos anos cinquenta, a um grupo de estudantes da Universidade Harvard (na cidade de Cambridge – EUA), escolhidos aleatoriamente, foi solicitado aos alunos que descrevessem o nível de calor de seus relacionamentos com os pais. Cerca de 35 anos depois, foi feita uma verificação de seus registros médicos.

O psicólogo britânico Prof. David Halpern** [foto ao lado] destacou que: “Entre aqueles que classificaram os relacionamentos com os pais como calorosos e estreitos, um pouco menos da metade (47%) teve doenças graves diagnosticadas na meia-idade; mas entre aqueles que descreveram os relacionamentos com os pais como tensos e frios, todos (100%) tinham doenças graves diagnosticadas na meia-idade”.
___________
Fonte: David Halpern, Social Capital, Polity Press: Cambridge, 2005, p. 81).

* John Horvat II, é vice-presidente da TFP norte-americana, autor do best-seller “Return to Order”.
** David Halpern foi professor de ciências sociais humanas na Universidade de Cambridge. Atualmente ele supervisiona a resposta do governo do Reino Unido à pandemia de coronavírus como parte do Grupo Consultivo Científico para Emergências, concentrando-se em mudanças comportamentais.


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domingo, 19 de abril de 2020

ITABUNA CENTENÁRIA REFLETINDO: O Jumentinho Vaidoso


O Jumentinho Vaidoso


Um jumentinho chegou em casa todo contente e disse para sua mãe:

Mãe, você não sabe como sou querido!

Fui a Jerusalém e todo mundo me aplaudiu e gritava:

Viva, viva, salve, salve...

Então a mãe perguntou: "Quem você estava carregando?"

Ah mãe.. era um tal de Jesus Cristo!

Então a mãe disse:

"Amanhã volte lá, mas não carregue ninguém."

No outro dia o jumentinho foi para Jerusalém e voltou triste...

Mas, Mãe, como pode? As pessoas nem me olharam, passei despercebido entre as pessoas, e teve gente que até me enxotou.

É isso aí meu filho.

Você sem Jesus é apenas um Jumento!


Reflexão: Não somos nada sem Jesus!

Boa, né!?


(Recebi via WhatsApp, sem menção de autoria)

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PALAVRA DA SALVAÇÃO (179)


2º Domingo da Páscoa – 19/04/2020

Anúncio do Evangelho (Jo 20,19-31)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.
— Glória a vós, Senhor.

Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco”.

Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor.

Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. E, depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos”.

Tomé, chamado Dídimo, que era um dos doze, não estava com eles quando Jesus veio. Os outros discípulos contaram-lhe depois: “Vimos o Senhor!” Mas Tomé disse-lhes: “Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei”.

Oito dias depois, encontravam-se os discípulos novamente reunidos em casa, e Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”.
Depois disse a Tomé: “Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas fiel”. Tomé respondeu: “Meu Senhor e meu Deus!” Jesus lhe disse: “Acreditaste, porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem terem visto!”

Jesus realizou muitos outros sinais diante dos discípulos, que não estão escritos neste livro. Mas estes foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e, para que, crendo, tenhais a vida em seu nome.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Padre Roger Araújo:

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“...mostrou-lhes as mãos e o lado” (Jo 20,20)

No segundo domingo de Páscoa de cada ano, a liturgia nos apresenta o belíssimo relato que só se encontra no evangelho de João. Esta dupla aparição do Ressuscitado aos discípulos, primeiro na ausência de Tomé, e depois na sua presença, nos diz algo sobre a comunidade cristã primitiva, mas também traz luz sobre as nossas comunidades hoje.

Aí está constituída a nova comunidade pascal; uma comunidade em torno à presença de Jesus; uma comunidade chamada a viver da experiência do encontro com Aquele que consumou sua vida em favor da vida de todos; suas chagas serão, de agora em diante, a melhor expressão da identidade entre o Crucificado e o Ressuscitado. Uma comunidade animada pelo mesmo Espírito de Jesus; uma comunidade não fechada sobre si mesma, alienada das chagas da humanidade, mas aberta, como Ele, ao amor universal para com todas as pessoas. Uma comunidade de amor, capaz de viver o perdão e ser presença misericordiosa.

Somos já “seres ressuscitados” quando vivemos estes dons do Ressuscitado, comprometidos com o Seu projeto carregado de vida, para aliviar as dores e as feridas da humanidade.

A CF deste ano, com o tema “Vida: dom e missão”, nos faz tomar consciência que, aquele(a) que se experimenta a si mesmo como “Vida” é já uma pessoa “ressuscitada”. Pois a vida autêntica é a vida movida, iluminada, impulsionada pelo amor.

Quando acolhemos a presença do Ressuscitado, nossa vida se destrava e torna-se potencial de inovação criadora, expressão permanente de liberdade, consciência, amor, arte, alegria, compaixão.... É vida em movimento, gesto de ir além de nós mesmos; vida fecunda, potencial humano. Vida com fome e sede de significado, que busca o sentido... Vida que é encontro, interação, comunhão, solidariedade. Vida que é seduzida pelo amor, pela ternura. Vida que desperta o olhar para o vasto mundo e move à missão.

Chama-nos a atenção (sobretudo nos evangelhos de Lucas e de João) que Jesus ressuscitado tenha tanto interesse em mostrar a seus discípulos as chagas de suas mãos, seus pés e de seu lado aberto. Quê significa isto, um ressuscitado com chagas? Diante de um martirizado ressuscitado, qualquer um esperaria ver um corpo totalmente renovado, rejuvenescido, limpo, sem feridas e marcas do martírio.

E, no entanto, Jesus ressuscitado toma a iniciativa, deixa-se ver, faz-se presença, provoca um encontro. Os discípulos e discípulas buscam um cadáver, para lhe manifestar respeito e carinho. Jesus ressuscitado, como bom pedagogo, busca aqueles e aquelas que o tinham seguido desde a Galileia e, respeitando a liberdade e os tempos de cada um(a), os ressuscita também, reconstruindo-os em sua identidade ferida.

As chagas de Jesus ressuscitado são algo mais que um modo de dizer “sou eu mesmo”. Elas são expressão de identidade, ou seja, pertencem a seu novo ser de ressuscitado. Dito de outro modo: Jesus, vencedor da morte, não abandona o que é caduco e frágil da existência mortal. A fragilidade da carne foi assumida na glória do Corpo ressuscitado. Por isso, suas chagas são terapêuticas, pois curam as nossas chagas do fracasso, do medo, da tristeza, da solidão, da dor... São feridas que curam feridas

A ressurreição afeta todo o nosso ser: tudo é iluminado, re-significado, tudo adquire novo sentido.

Em meio à comunidade dos discípulos reunida, o evangelho de João destaca a figura de Tomé, elaborando em torno a ele um relado de muita densidade e com muita inspiração. Tomé é a expressão do ser humano a quem lhe custa crer na ressurreição do Jesus Histórico, do Jesus das chagas nas mãos e no lado, do Jesus da carne, do Jesus do povo crucificado.

Provavelmente, ele acreditava em Jesus, mas em um “Jesus espiritual”, puramente interior, sem necessidade de compromisso comunitário, sem chagas no seu corpo. Talvez, ele estivesse mais centrado no Cristo glorioso, desligado da história de Jesus, das mãos que tocaram os pobres e curaram os doentes, do coração que amou os excluídos da sociedade, dos pés que romperam barreiras e fronteiras...

Por meio de outros testemunhos da literatura cristã antiga, sabemos que Tomé queria tocar em Jesus só de um modo espiritual, criando um tipo de comunidade de feição “quase angelical”, distanciando-se da humanidade de Jesus e vivendo uma religião desumanizadora, centrada só em ritos, doutrinas, leis...

Contra isso, a comunidade lhe diz que é preciso “tocar nas chagas de Jesus”, que o Ressuscitado é o mesmo Jesus da História, Aquele que foi chagado pela violência e pela rejeição. O Senhor Ressuscitado continua sendo aquele que carrega em suas mãos e lado as feridas de sua entrega, os sinais de seu amor crucificado em favor de todos. Este Jesus pascal, continua estando presente nas chagas dos homens e mulheres de mãos quebradas, na ferida do lado dos homens e mulheres que sofrem.

As chagas de Jesus, em seu lado e em suas mãos, são as chagas de um perseguido e condenado pela “justiça” do mundo. Isso significa que o Jesus ressuscitado não é um “fantasma”, mas o mesmo Jesus que foi crucificado.

Ao mostrar suas chagas, Jesus ressuscitado revela que as chagas da humanidade continuam abertas, esperando que seus(suas) seguidores(as) prolonguem os gestos de cura e cuidado do mesmo Jesus. São estes e estas que hoje atestam a vitalidade do Ressuscitado.

No entanto, não há mais o Cristo visível para tocar. Os únicos traços para ver e tocar, que confirmam a realidade de sua presença, são as pessoas de cada tempo que lutam por uma terra onde os pobres e os excluídos terão seu lugar, onde o ódio não rege as relações, onde a bondade predomina sobre o desprezo, onde o respeito impede a violência capaz dos piores instintos, onde a acolhida impede o fechamento em si mesmo.

Portanto, crer na Ressurreição não é simples adesão a um dogma de fé, é compromisso com a vida.

O “toque pascal” de Tomé (“coloque tua mão em minha ferida...”) é o “toque das chagas”, é a experiência dos crucificados do mundo. Só podemos “tocar” em Jesus de verdade, e confessar sua Páscoa, “tocando” (ajudando) os enfermos e crucificados da história.

Não há experiência pascal se não descobrimos Jesus ressuscitado nas chagas dos pobres, doentes e excluídos de nosso mundo; “tocar” estas chagas vai além de um gesto físico; implica ser presença solidária, acompanhar, ajudar, alimentar uma sintonia e comunhão com aqueles(as) que clamam por uma presença consoladora, carregada de ternura.

Enfim, o evangelho deste domingo nos pede:

- Que abramos as portas e as janelas das comunidades cristãos, para que todos possam ver o quanto de vida há dentro dela, para que vejam quem somos, como vivemos..., de maneira que possamos oferecer e compartilhar espaço de perdão, de acolhida sem preconceitos, de amor oblativo...; é preciso afastar a pedra do dogmatismo, do legalismo, do ritualismo... que nos mantém sufocados ou respirando o ar fétido dos túmulos;

- Que vivamos em comunhão, que permitamos que Tomé retorne à comunidade. A transformação de Tomé implica também uma mudança da Igreja, que o acolhe e lhe oferece um lugar a partir do Jesus crucificado; que ela seja espaço aberto, integrador, acolhedor do diferente.

- Que sonhemos também com uma Igreja que rompa os túmulos do conservadorismo, do legalismo, da apatia, e se abra à desafiante situação de nosso mundo, “vivendo em saída” para “tocar” os chagados e lhes oferecer o dom da unção e do consolo. 

Texto bíblico:  Jo 20,19-31
Na oração: Nos Exercícios Espirituais, S. Inácio   nos convida a considerar como o Ressuscitado exerce o “ofício de consolar”. 
Somos, pois, consolados em nossas tribulações e dores para poder consolar os outros nas suas. Trata-se de uma experiência transbordante, expansiva, que nos impulsiona em direção aos outros.
Como seguidores(as) do Vivente, somos chamados(as) a exercer este “ofício de consolar”; a experiência da Ressurreição nos move a “descer” junto à realidade do outro (seus dramas, fracassos, enfermidades, perda de sentido da vida...) e exercer este ministério humanizador. “Ser vida ressuscitada que desperta outras vidas”: vida plenificada, iluminada, integrada... pela experiência de encontro com o Ressuscitado e que flui em direção às vidas bloqueadas, necrosadas... Assim como a consolação é o canal privilegiado pelo qual o Deus da Vida se comunica e atua em nós, o ofício do consolo é o canal por onde flui a vida.

- Como ser presença consoladora nestes tempos de pandemia?

Pe. Adroaldo Palaoro sj


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