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quinta-feira, 26 de setembro de 2019

MARIA CABOCLA – Catulo da Paixão Cearense


Maria Cabocla


Patroa: eu sou sertaneja
Vassuncê não me aconsêie
Prá tomar banho de ingrêja.
Crédo em cruz!... Nosso Sinhô!...
Eu sou curada do amô!

Vassuncê pode falá,
Póde mêmo me xingá
Cum tudo que é nome feio...
Me chama todos os nome,
Mas porém nunca me fale
No amô tinhoso dos hôme!

Meu pae que dênde criança
Era Passadô de Gado,
Só se cazou cum a mãezinha,
Pruquê, sá dôna, a mamãe
Era tão bela e fermosa
Que todo o hôme que via
A minha mãe, sá dôninha,
Ficava logo imbeiçado,


Meu avô, esse, sá dona,
Era um cabra tão safado,
Que despois de inchê de fio
A minha santa vozinha,
Se dizovou lá dos matto,
Prá vim sê gallo infeitado.

Meu padrinho apremetteu
Casamento a uma tapuia
Lá das banda do Páu Fundo,
E fartando uma sumana
Prô dia do casamento,
Fugiu prô ôco do mundo.

O Antonico da Favella,
Que era também meu êrmão,
Só se acuêirou cum a Rita,
A neta do Zé Pinguella,
Prá fazê fio na Rita
E se casá cum uma china,
Nascida no Tapadão.

Têve um hôme no sertão,
Um véio, um sinhô de Engenho,
Tão isturrado e crué,
Que se casou-se cum a Rosa,
(que era a branca mais fermosa...)
E tinha prá aquellas banda
Mais de oito ou dez muié!!!

O érmão do douto Jão Gôme,
Que fez tantas imbrêtada
Prá ajuntá cum a afiada
Do Bastião do Gerôme,
Sá dôna sabe o que fez!?

Matou a pobre de fome!!

Não ficava mais calada,
Se fosse fala de todas
As cafangada dos hôme!

Sá dona, a prêmêra vez
Que eu senti a navaiada
D`um disgraçado chamego
Pulo Reimundo Curúmba,
Um tocado de zabumba,
Nunca mais tive assucêgo!!!

Eu fui bonita, sá dôna!...

Sá dôna, eu já tive uns óio
Tão vivo, que parecia
Duas fulô de pôdóio!

Esta carinha enrugada
Já fez munto fôiaráda
Andá de reda no chão!

Mas porém, amô de véra,
Amô cá do coração,
Amô fixe, amô fié,
Eu só tive um só, sá dôna,
Cumo todas as muié.

Eu vi esse hôme mardicto
Tocando aquelle insturmento,
N'uma noite de Natá!

Era um, cabra chaboquêro,
Mas porém chorava tanto
No zabumba feiticêro,
Que o coração aqui dento
Se damnou-se a zabumbá!

Dênde essa noite mardicta
Nunca mais assuceguei!
O hôme jurava tanto,
Cum uma carinha de santo,
Que tudo que elle me disse,
Santamentes, crêditei.

Eu tinha vinte e dois anno
E não sabia, patrôa,
Que coisa era namorá,
Quando sujuguei minh`arma,
Sem arreceio e sobrôço,
Pulo cabôco que tinha
Os dente cumo caroço
De mio de mucunzá.

Deus Nosso Sinhô me váia!

Nem falando uma sumana,
Sem cumê e sem drumi,
Eu dizia o que suffri
Prú móde aquelle canáia!

Todo o mundo me dizia
Que o hôme era arreminado,
Máiscánga e marombadô!

Meus óio não via nada!...

Minhárma táva introzada!...

Eu tava zanza! Era o amô!

Suffri três anno puxado,
Inté que um dia o marvado
Me pediu-me em casamento,
Dizendo ä minha mãezinha
Que dênde aquele momento
Tudo tava apreparado.

Mas porém nesse intrevállo,
Vira, méxe, larga e péga,
Curumba fez um manzéga
E foi prezo... já se vê!

Três dia despois da briga,
Eu desandei cum as bexiga,
Que me botou n'uma cama
Dois mez intêro a soffrê!

Graça a Jesus, fiquei boa!

Mas porém minha patrôa
Já póde fazê indéa
Do que eu penei cum esta cara,
Que já deu tanto cavaco,
E tá cheia de buraco,
Que nem tronco de manguêra,
Quando tá podre de véia.

No intrévallo de dois anno,
Que ele teve na prisão,
Cozinhando prô mardicto,
Prá leva toda a minhã
A comida cum estas mão,
Eu suffri, eu suffri tanto,
Que nem sei lhe dizê, não,
Apois, tarvez, vassuncê,
Sá dôna, não me credite!

A mamãezinha (coitada!!)
Me vendo assim padecê,
Morreu de lerzão cardite!

Apois bem, vassuncê sabe
O que fez o goróróba,
Quando sahiu da taioba,
Que é o nome lá da prisão?
Abrindo os panno, sá dôna,
Deu de perna prô sertão,
E foi se casá cum a fia
Do LiopordoMarruá,
Um hôme que foi vaquêro
E é hoje um sinhô de Engenho
Nas varge de Pirauá.

Cahi ôtra vêis de cama
No dia que o marupâma
Sahiu de lá da prizura.

Quando aquelle mesquinhez
Me viu a primêra vez,
Cum a cara sarapintada
E cheia de quêmadura,
Já me ôiôu cum farsidez!...

Já não me ôiôu cum ternura!

Oiando prá minha cara,
Quêmada que nem coivara,
O marvadão se esquecia
Que dentro dárma eu trazia
Toda a minha fermuzura!!

O raio do mariola
Não me quis mais, pruquê eu tinha
Nesta cara uns pipocão!!

Sá dôna, o coisa mesquinha
Sabia que a varióla 
não bole cum o coração!

Ele é que era o bexiguento,
Pruquê se não tinha a cara
Quêmada como a coivara,
Seu coração táva negro...
Escuro como um cravão!

Aquelle não-sei-que-diga
Tinha a pió das bexiga
Que se chama... Ingratidão!!!

Nhá moça!... Todos os hôme,
Que tem tantos, tantos nome...
Têm, na verdade, um somentes...
Um só: - Reimundo Curúmba!

E esse nome dento d’árma
Eu sinto que, dia a dia,
Incha mais do que caxumba!

Mas porêm vancê são sabe 
Cumo as cabôca ficava,
Quando o cabra se esfoiava
Num coração d’um zabumba!

Nas festa de Santo Antonio,
Quando isturrava a embolada,
Cada ronco da pancada
Era cumo a trevuada,
Em noite de ventania!

Mas porêm, quando o zabumba
Tocava só prá samba,
Parecia um sabiá,
Chorando a morte do dia!

Crédo, em cruz!... Nosso Sinhô!...

Patrôa: é prú via disso
Que eu lhe disse, inda há pouquinho,
Que eu sou curada do amô.

Já tô véia!... A minha cara
Parece uma biboquêra!

Apois bem! Vancê tá vendo
Em riba daquela serra
Aquelle pé de manguêra?

Agora veje aqui perto
O cadáver quáge secco
Desta véia cajazêra.

Aquella é nova!... Tá moça,
Tá chêrando a mocidade!

Esta aqui já tem cem anno
E nem tem mais uma fôia
Prá de intêrtê cum a sôdade!

Aqui, no cadáver secco
Deste gaio ressequido,
Vancê não ouve um gemido
D’um passo, prú caridade!

Agora veje a manguêra,
Aquella manguêra moça,
Cumo té cheia de ninho!
Vancê vá vê cumo o vento
Abraça aquellas foiage
Cum amô e com carinho!

Carão, Serradô, Bicudo,
Sereno, Cardiá, Canáro,
Margarida, Solitáro,
Sovélla, Vim-Vim, Collêra,
Rabijunco, Jumará...
Tudo tá cantando lá
Na rucéga da manguêra.

Assim sêmo nós, sá dôna!

Os hôme só nos percura,
Quando nós, que sêmo as árve
Tâmo cheia de verdura.

Sá dôna, o hôme é um ladrão!

Esse cabra, esse inadão,
Só jura, quando não sente!

Cum as suas doce leréia,
Esse Dentão é que róba
A fermuzura da gente!

Se um dia eu ficasse doida,
Me casando cum um bárbacho,
Eu haverá de ingeitá
Todo o fio que eu parisse,
Se o fio fosse hôme macho.

Carregá na mãe do corpo
Um anno quáge, sá dôna,
O diabo do curerê!...

O hôme vêio do Inferno!!...

Não é fio de muié!!!

Eu gósto de uvi, sá dôna,
Uma viola chorada,
Quando saluça, maguada,
Nos seus saluço de amô!

Mas porêm, o que se sente,
O que sastifaz a gente,
É as dez corda da viola,
E não a mão do bengóla...
Do violêro... o tocadô.

Sem as dez corda, sá dona,
Póde cantá, cumo quêra,
cantá, inté fica louco,
Que aquelles dêdo, sá dona,
Há de batê n’um páo ôco.

Vancê vêje! O Serra d’Agua,
Um rascado de viola
Do sertão, onde eu nasci,
Quando reméxa na prima,
E canta n’uma peleja,
Desafia um bemtevi!

Benedicto Pereréca
Se adisfóia na rebéca
E geme cumo um cronqui!!

João Quirino da Liança,
Que é fio dp Aracaty,
Quando grogêia n’um samba,
N’um rialêjinho de boca,
Faz a gente fica louca,
Pruquê parece que o cabra
Aninhou dento da boca
Um bando de jurity!

Veja agora!... O Serra d’Agua.
O violêro famanado,
Dá pancada na Totônha!

Benedicto Pereréca,
Esse rei dos rebenquêro,
Prú via d’um comboêro,
Matou a Maria Antônha.

João Quirino da Liança
Dá n’um só dia seis piza
Na sua moça – a Luiza,
Que era gordinha e bonita,
Quando vivia cum os pae,
Tão contente e tão feliz!!...

Quirino só vae prá casa,
Quando cansou de bêbê
E já se póde acendê
Um phóspho no seu nariz.

Patrôa, vancê discurpe!

Vancê são vá se offendê,
Se eu préguntá prá vancê
Adonde véve a rézão
D’esses hôme,  d’esses músgo,
Que quêma o peito da gente,
Cumo se fosse um cravão?!

É que os hôme não têm árma!

Os instrumento, sá dôna,
É que tem um coração!

O amô dos hôme isbilita
As muié, quando é bonita,
Priquê o hôme é um aribú!...
A língua dele é frevente
E istrépa a honra da gente,
Cumo um jaremacurú.

Quando tá mamparriando,
Introviscando as muié,
O cabra chora e saluça,
Taliquá cumo um vim-vim!

Mas porêm, quando o marvado
Já não tá mais embeiçado,
O Capêta arrenegado
Fére as muié, sem piadade,
Cumo um cabacurumim!!!

Vancê veje o que assucéde
Cum as árve dos mattagá!...

As árve sofre de noite
As gambetada do açoite
Dos górpe do temporá!...

O vento passa berrando
E lá se vae truvejando,
De vez em quando aparando,
Prá se rí, prá gargaiá,.
E de novo hi gargaiando,
Vendo as árve se esfôiando,
Cabeceando, esgaiada,
No meio da foiarada,
As suas fôia chamando,
Cum os braço têzo prô á!!

Quando aminhéce, sá dona,
As árve té tão calada,
Tão serena e assucegada,
Bençoando a luz do dia,
Que inté parece que as árve,
Não tendo sofrido nada,
Nem se alembra das cornada
Da sarvage ventania!!

Ansim sêmo nós, sá dôna,
Sêmo todas as muié,
Quando o pampêro dos hôme
Entra cá dentro da gente,
Roncando, cumo um trovão,
Arrancando as fôia verde
Das rosa da mocidade,
Cum tanta sarvagidade,
Que adisfóia o coração!

E assim cumo os arvoredo,
Despois dos beijo da aráge,
Torna a se enchê de verdô,
Abasta um riso, um agrado,
Dos óio do arrenegado,
Prô coração, machucado,
Cobri-se outra vez de frô!!

O hôme, esse barimbé,
Não ama as muié, patrôa,
Ama todas as muié!!

Vassuncê vêje um terrêro,
Adonde um gallo, manhêro,
Tá todo a se gambeá,
No meio lá das galinha,
Das galinha mais bonita
E das franga mais catita
Que vassuncê maginá.

Veje agora vassuncê:
Se passá uma galinha
No terrêno da vizinha
D’alli, d’aquella molóca,
Vassuncê logo há de vê
O raio do coróróca,
O hôme de penna, o ingrato,
Se apinhoscá pulos matto,
Correndo que nem um doido,
Atraz da galinha chóca!!

É um cauzo que faz pensá!

Apois o bicho canáia
Nem prú disgraça arrespeita
A galinha rabugenta,
Que é uma mãe, que vai criá.

Esse bengóla-fuméga,
O pinga-fogo sovina,
Que anda lá fora cum as “china”
E vem prá casa impuiá,
Abasta que a gente fale
Cum um franguinho, sem pecado,
Pró gallo fica damnado
E logo querê mata!!!...

Vassuncê tem seu marido,
Hôme de munto valô
E eu não tôu falando ansim
Prá martratá seu doutô!

Mas porêm, ói, eu lhe falo,
Sem sobroço de peccado,
Que o hôme, sá dôna, é um gallo,
Munto disavregonhado!

Os hôme diz que as muié
Quando não mata, consome!...

Mas porêm, eu lhe pregunto:
Quem foi que vendeu Jesus?

Foi muié? Não! Foi um hôme!

Vassuncê não viu, sá dôna,
Quando o Fio do Sinhô
Desceu do céo cá prá terra,
O que foi que aconteceu?

Nosso Sinhô Jesu-Christo,
Duvidando d’elle inté,
Já tarde se arrependeu
De não tê vindo prô mundo
Cum o corpo d’uma muié!!!

Inté São Pedro, esse véio,
Que era um pobre pescadô
E foi apóstro do Christo,
Negou trez vez o Sinhô!

Os canáia, os miseráve,
Garrando o santo Jesus,
Aprégáro aquelle corpo,
Aquelle corpo sagrado,
Em riba d’uma montanha,
Curcificado na cruz.

Mas porêm, quando o Divino,
Cheio de fome e de sede,
Pulos ingrato morria,
Não têve uma só muié
Que não chorasse, de joêio,
Cum a Santa Virge Maria!

Emquanto as muié chorava
E os seus fiinho amostrava
Prá Deos, pedindo perdão,
Os desgraçado insurtava
O Deos, que soçorócava,
No meio de dois ladrão!!...

Inté mêmo Mardalena,
Cum quem os hôme, os canáia,
Sem piedade impilicava
E chamava de catráia
E vendedêra do amô,
No pé da cruz saluçava,
As ferida résfrescava
E cum os cabello enxugava
O sangue do Redemptô.

Os cão dos hôme, nhá moça,
Que apregáro, de mardade,
Naqueles dois páo cruzado
O Christo, o santo Jesus,
Anda agora trabaiando
Prá fazê Nosso Sinhô,
Que morreu prú nosso amô,
Descê de riba da cruz.

Sá dôna, eu sou sertaneja!

Eu já tôu munto madura,
Prá tomá banho de ingrêja!

Vassuncê póde falá,
Póde mêmo me xingá
Cum tudo que é nome feio...
Me chamá todos os nome,
Mas porêm, eu lhe supprico,
Pula luz desses seus óio,
Que nunca mais, sá patrôa,
Vancê me fale, brincando,
No amô tinhoso dos hôme!!!

Sá dôna! A estrella da tarde,
Que nós chama – Papa-Ceia,
Que Deos accende, piadoso,
E parece uma candeia
Na cabêcêra do dia,
Tá cuchichando cum o sino
D’aquella pobre ingrejinha,
Que tá mandando prá estrella
A Estrella da Ave-Maria.

Apois bem!... Prú Jesú Christo,
Pula sua dô sagrada,
Prá sempe amardiçoada
Sêje a raça disgraçada
Dos hôme... desses crué!

E em nome da Santa Virge,
Da Mãe de Deos adorada,
E tômbem da Madalena,
Da catráia apedrejada,
Que foi santa pula fé...
Sêje, apois, abençuada
Prá sempre e sempre as muié!!!!

                               Sá dôna!

Ansim cumo faz a abêia,
Essa cabôca lodassa,
Que o macho logo escurraça,
Despois da acuiêração,
As muié tômbêm devia,
Prá acabá cum o suffrimento,
Despois do acuiêramento,
Dá cabo desse Zangão.

(POEMAS BRAVIOS)
Catulo da Paixão Cearense

.........................
                                                                   Paris, 22 Junho 1919
            Meu Poeta e Amigo:

            “V. continua a afinar as suas cordas pelos motivos sentimentaes do Brasil brasileiro. Seu estro ganha alturas religiosas de um inspirado directo do Povo e da Terra. Seus poemas alimentam-se das raízes suculentas do sertão, florescem no espinhal do Sofrimento, do Trabalho e da Saudade, em que vibra a vida dos nossos desdenhados roceiros.
            Dizer-lhe como, da comoção que me causou a leitura de seu livro nas poeiras estivaes deste Paris atordoado e frenético pela Victória, pela Moda e pelo Tango? Respirei a farta os bons cheiros da agrestia do mato natal; rolei de cambulhada com os rudes pastores do Cariry; sambei com a caboclada nos ranchos; ponteei as violas chorosas dos cabras; suspirei, amei, vivi ao sol de minha terra, a centenas e centenas de léguas de quando a Pátria beija o mar.
            Tudo pelo prestígio do seu plectro, cuja espontaneidade e nacionalismo o impregnam de uma força simples e tocante.
            A’s suas justas vaidades de homem de poesia e coração não será de menos a confissão do exilado, enternecido pelo vigor dessas impressões, que V. faz despertar, encoivarando as redondilhas.
            A “Terra Caída” quanto ganhou de relevo e lirysmo no trespasse musical de suas rimas! Ás páginas desencantadas do “Inferno Verde” V. poz o sello de sua inspiração cândida e fremente”.
            Admirador, amigo, agradecido.
                                               
                                      Alberto Rangel (Carta a Catullo Cearense)

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quarta-feira, 25 de setembro de 2019

CHICLETE DE BOLA - Jorge Luiz Santos

Lembro-me, como se fosse hoje, do prazer lúdico que tinha ao comprar o chiclete de bola, para fazer a coleção das estórias do personagem chamado Bolinha. Naquela época, tornar-se o seu colecionador era a expectativa de toda a garotada. Não nos interessava pelo produto em si, mas pelas estórias inteligentes e pela beleza dos cenários, grafados em cores vivas que as figurinhas traziam.

Quantas vezes também não o fiz e nem vi jogarem o chiclete de bola fora, guardando com todo o carinho aquelas figurinhas coloridas que vinham na sua embalagem, impressas num pedaço de papel? Felizmente com isto a venda do produto não deixava de crescer e o seu consumo de fato não ocorria, livrando-se a meninada do grau de risco que o seu uso indiscriminado poderia representar. Por inteligência das partes, fabricante e consumidor passavam assim a ser beneficiados: o primeiro, com a alta margem de lucro dos produtos vendidos; o segundo, com a preservação da saúde e o prazer das estórias e das cenas mágicas, daquela poderosa arte literária e visual.

Nos locais dos jogos de futebol e de gude, houve uma repentina mudança de hábito, cuja frequência foi reduzida significativamente. A quantidade de crianças que jogavam bolas de borracha e de vidro passou a ser menor, diante da grande fascinação criada pelo marketing do novo lançamento do referido produto.

Os pais dos meninos o tempo todo eram cobrados, no sentido de liberarem recursos, para eles adquirirem a famosa goma de mascar. O custo de cada unidade era pequeno, mas a infinidade da oferta das figurinhas lançadas no mercado de todo o país, tornava este entretimento tanto lucrativo quanto oneroso.

A disputa pelas figurinhas era acirrada. A garotada não fazia a revenda, nem trocavam as figurinhas que lhes interessavam porque esse negócio poderia decidir, a favor do outro, o resultado da competição. Havia pressão na hora de comprar o chiclete de bola, ficando o atendimento das lojas que o vendiam congestionado, na luta pela aquisição da referida mercadoria. O problema era que cada menino comprava uma certa quantidade do produto e nela poderia estar a figurinha de que precisava, para se tornar o ganhador da disputa. De qualquer modo, sabia-se que a vitória dependia da sorte de cada um, mas havia sempre a preocupação de ser o primeiro da fila e de comprá-lo logo.

 - Eu sou o primeiro da fila; ninguém se atreva, passando na minha frente! – dizíamos.

Como é praxe de todo o entretimento, o fabricante do chiclete de bola também promovia eventos. O menino que adquirisse primeiro todas as figurinhas que encerrasse uma determinada estória, seria o vencedor, ganhando uma viagem no balão mágico da empresa, que o faria decolar, para o mundo encantado do seu garoto propaganda.

Livros do Autor:
- A Ruas das Amélias e outras crônicas. Ed. Viseu 2018.
- A Criação da Criatura. Ed. Viseu 2019


Jorge Luiz Santos.
Advogado e cronista. Itabuna - Bahia

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Setembro 2019


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terça-feira, 24 de setembro de 2019

EXCELENTE EXEMPLO PROVENIENTE DOS HÚNGAROS – Marcos Machado


24 de setembro de 2019
Hungria dá lições de Fé à Europa decadente

Marcos Machado

Com o expressivo título: Cidade húngara constrói igreja católica na antiga propriedade comunista, o site Churchmilitant.com levanta um tanto o véu sobre que ocorre no Leste europeu. As estatísticas nos mostram uma Europa Ocidental decadente em sua Fé: fechamento de igrejas por falta de fieis, diminuição do número de batismos, casamentos, praticas religiosas — frutos da relativização decorrente do Concílio Vaticano II.

Na Hungria, vemos pelo contrário um belo exemplo do que fez a Igreja dos primeiros séculos transformando antigos templos pagãos em lugares sagrados do culto católico.

Assim fez a Hungria neste ano com um antigo centro comunista transformado em igreja católica.

Um pouco de História

Em 1552, os turcos já haviam conquistado grande parte da Hungria, e a fortaleza de Eger tornou-se o baluarte de proteção das regiões do Norte.

Depois de Buda (a capital) ter sido dominada pelos turcos, esses tentaram estender seu domínio para o norte do país, a fim de realizar movimentos de flanquear para Viena os territórios do Sul da Polônia.

A fortaleza de Eger já era famosa por sua força, construída por especialistas italianos em fortificação, e protegeu o vale que era uma linha natural de avanço para o norte.

O capitão István Dobó liderou as forças húngaras compostas por soldados, homens e mulheres camponesas locais num total aproximado a duas mil pessoas.

Kara Ahmed Pasha comandou o ataque muçulmano com soldados estimados em mais de 35 mil combatentes. Assim, os otomanos esperavam uma vitória fácil. Entretanto, foram rechaçados.

“As mulheres de Eger”, obra de Bertalan Székely

As mulheres de Eger marcaram a história durante tal batalha. Algumas delas pegaram as espadas de seus maridos mortos, outras jogaram pedras ou caldeirões de água fervente e alcatrão nos soldados inimigos que subiam as escadas para invadir o forte.

O cerco de Eger é emblemático da defesa nacional húngara e do heroísmo patriótico em resistir aos turcos otomanos. A nova igreja em Eger é emblemática da resistência do povo húngaro e o triunfo sobre o regime soviético ateísta.

Lições ao Ocidente

O secretário de Estado húngaro Miklós Soltész disse que é significativo que a nova igreja seja construída em um conjunto habitacional da era comunista, projetado para formar as letras CCCP (abreviação russa para URSS) quando vistas do ar.

“Foi um grande esforço da União Soviética e do comunismo para erradicar completamente a fé, a religião e o cristianismo, e onde quer que novos conjuntos habitacionais fossem construídos […] igrejas não podiam ser construídas”, disse Soltész.

Soltész observou a corrida da Hungria na contramão da Europa Ocidental: “Estamos muito satisfeitos que, ao contrário da prática muito triste ocidental europeu de fechar igrejas e transformá-las em locais de entretenimento e ginásios, a Hungria está fazendo o oposto.”

Também é sintomático que o Estado húngaro financie a construção de igrejas, em feliz concórdia com o Episcopado, enquanto que no Brasil o Sínodo Pan Amazônia quer caminhar na contramão do Estado e chega ao absurdo de vetar a participação de políticos com mandato no evento.

Quem vai entender a má vontade expressa do Vaticano e do Sínodo em relação ao governo brasileiro? Só porque o Brasil desbancou o PT?

É o caso de concluir que também o Sínodo anda na contramão da História.

Nossa Senhora Aparecida, rainha do Brasil, apresse a vitória definitiva das forças do bem e fortaleça os brasileiros na defesa da Fé e da soberania nacional.
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Fonte:https://www.churchmilitant.com/news/article/hungarian-town-builds-catholic-church-on-former-communist-estate


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O discurso de Bolsonaro na ONU - Este é o PRESIDENTE DO BRASIL!...

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

O ESCRITOR JULIO LUDEMIR E O COMUNICADOR RENE SILVA SÃO OS CONVIDADOS DO SEMINÁRIO “BRASIL, BRASIS” DE SETEMBRO NA ABL


Academia Brasileira de Letras dá continuidade à sua série de Seminários “Brasil, brasis” de 2019 com o tema A Ação Cultural Emergente nas Comunidades coordenada pela Acadêmica Ana Maria Machado. Participam da palestra o comunicador Rene Silva e o escritor Julio Ludemir. O coordenador geral dos Seminários “Brasil, brasis” de 2019 é o Acadêmico e professor Domício Proença Filho.

O seminário está programado para o dia 24 de setembro, terça-feira, às 17h30, no Teatro R. Magalhães Jr., Avenida Presidente Wilson, 203 - Castelo, Rio de Janeiro. Entrada franca.
O Seminário “Brasil, brasis”, com entrada franca e transmissão ao vivo pelo Portal da ABL, tem o patrocínio do Bradesco.
Os convidados
Julio Bernardo Ludemir nasceu no Rio de Janeiro, mas foi criado em Olinda, Pernambuco. Estudou jornalismo, mas nunca concluiu o curso. Tem dez livros publicados, a maioria ambientados nas favelas cariocas. A reportagem “Rim por Rim” foi finalista do Prêmio Jabuti de 2008. É um dos roteiristas de “400 contra um”, que o cineasta Caco de Souza adaptou da autobiografia de William da Silva Lima, um dos criadores do Comando Vermelho.
É um dos idealizadores da FLUP, Festa Literária das Periferias, cuja principal característica é acontecer em favelas cariocas. A iniciativa ganhou o prêmio Faz Diferença de 2012 do jornal O Globo, o Excellence Awards de 2016 da London Book Fair e Retratos da Leitura de 2016 do Instituto Pró-Livro.
É também um dos idealizadores da Batalha do Passinho, que levou para Londres e Nova York. Com os dançarinos do Passinho, criou o espetáculo “Na Batalha”, primeiro grupo de funk a se apresentar no Teatro Municipal do Rio deJaneiro, tema de documentário que estreou em 2016.
Rene Silva, de 25 anos, nasceu na comunidade do Morro do Adeus, uma das 13 favelas que formam hoje o Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro.
Sua trajetória de empreendedor começou quando era criança. Aos 9 anos vendia doce na porta de sua casa. Com 10, reuniu amigos da escola e juntos decidiram fazer algo pela comunidade onde viviam. Entra para Escola Municipal com 11 anos, cursando a 5ª série, atual 6º ano. Logo se engaja em projetos diferentes no Grêmio Estudantil. Começa a fazer parte do Jornal escolar. Em pouco tempo, cursando a escola em um turno e colaborando com o jornal estudantil em outro, percebe que pode fazer mais. Sempre com olhar atendo para seu entorno, lança em 2005, mídia voltada para a comunidade. No início, no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, ainda como um jornal impresso.
Atualmente, Rene Silva dos Santos é presidente da ONG Voz das Comunidades e editor-chefe do Jornal Voz das Comunidades, veículo que circula mensalmente em 15 favelas do Rio de Janeiro. E ao longo de sua carreira, recebeu o prêmio Shorty Awards, considerado o Oscar do twitter pelo The New York Times e Prêmio FAZ DIFERENÇA, do Jornal O GLOBO, Orilaxé, do grupo cultural AfroReggae e o Prêmio ANU da Central Única das Favelas.
18/09/2019


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GOVERNAR PELO BOM EXEMPLO – Péricles Capanema


22 de setembro de 2019

·    Péricles Capanema

Como pai e mãe educam os filhos? Começo por um dos fundamentos, o que interessa no caso. A preparação para a vida entre os homens apresenta marcantes traços comuns com o modo de, por exemplo, a onça e outros animais prepararem os filhotes para a sobrevivência. Pela imitação, lei da natureza; outro jeito, pela força do exemplo. Gradualmente, ensina-os a se defender dos perigos, a caçar, a procurar abrigos. E o homem é mamífero, guiado pela razão.
De igual maneira, enorme papel tem a imitação na educação infantil. Forma o caráter o bom exemplo dos superiores, no caso, os mais naturais e imediatos, os pais. No ambiente da família, o filho em especial imita o pai, a filha em particular a mãe, ambos movidos fortemente pela admiração. Nada mais normal que, aperfeiçoando a imitação, buscando padrões de comportamento, o filho idealize os pais, para ele causa, modelos, mestres e regentes. E assim tantas vezes, para bem formar o filho, pais e mães ocultam vícios e má conduta — exemplo corrente, os fumantes. Se não são, pelo menos precisam ser visto como sendo modelos. A educação pela imitação admirativa repercute desde a mais tenra infância até a extrema ancianidade. Qualquer desarranjo em tal processo traumatiza, deixa sequelas vida afora. Depois na educação temos os ambientes familiares, sociais, rodas de amigos, a escola. E então se avulta o papel do professor.
Mas não pretendo falar de pedagogia do infante. Meu assunto é outro, governo — pedagogia adulta. Sei, uma tem relação com a outra. Vamos lá. O Estado existe para a promoção do bem comum (o bonum commune da Escolástica). João XXIII na “Pacem in Terris” lembrou esta verdade, hoje tão esquecida, em palavras precisas: [A] realização do bem comum constitui a própria razão de ser dos poderes públicos”. Emerge a pergunta: o que é o bem comum? Volto a João XXIII: “o conjunto de todas as condições de vida social que consintam e favoreçam o desenvolvimento integral da personalidade humana”.
Destaco o enunciado desenvolvimento integral da personalidade humana. Integral. Para tal crescimento, contam fatores materiais, contam sobretudo fatores morais. E aqui entra o papel de formador do governante. Na mais funda raiz, a obrigação do decoro, bem como a chamada liturgia do cargo e a sujeição ao cerimonial se assentam na contribuição ao bem comum advinda do bom exemplo do governante. Em decorrência, a lesão ao bem comum que seu mau exemplo acarreta. E a congruência da punição a tal conduta. Expressão de tal verdade temos no artigo 9º da lei 1079 de 10/4/1950 que tipifica como crime de responsabilidade “proceder de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo”. O que pode levar à perda do cargo.
Na vida de uma nação todo esse edifício se apoia na noção idônea de bem comum. A ideia de bem comum sem simplismos, rica, multifacetada, abarcando toda a realidade, que incorpora com discernimento os fatores morais, intelectuais, psicológicos e materiais é pressuposto da democracia autêntica, da saudável participação popular, do governo realmente voltado para os interesses populares e nacionais. Sem tal concepção, tornam-se desnaturadas as noções de democracia, participação e governo; funcionam mal as instituições e se escancaram as portas para a demagogia.

Fato ilustrativo, em 25 de agosto de 1928 o presidente Washington Luís [foto ao lado] inaugurou a Rio-Petrópolis, a primeira rodovia asfaltada no Brasil, e na ocasião pronunciou frase que se tornou célebre: “Governar é abrir estradas”. Parece, nem ele julgava que governar se reduz essencialmente a abrir estradas. Mas a afirmação simplista ficou no anedotário político. Exagerando, puxando a corda para o outro lado se poderia dizer: “Governar é dar bom exemplo”. Nem um, nem outro. Governar é promover o bem comum, simples assim, fazer estradas e dar bom exemplo forma parte do todo.

Também a ideia correta de representatividade tem relação com o bem comum. A promoção do bem comum supõe via de regra que a nação se faça representar pelo que tem de mais expressivo. É parte da exemplaridade própria às funções públicas — probidade, decoro, brilho. Nunca ali deveria estadear o extravagante, excêntrico e estapafúrdio. No Brasil, cada vez mais, pecamos aqui, todos sabem.

Por que tratei hoje do tema? As reflexões brotaram ao ler entrevista recente de Dom Rafael de Orleans e Bragança e ali o príncipe dizia: “Fomos ensinados desde pequenos a ser vistos como exemplos”. Amplio o tema na mesma direção e fecho com episódio talvez um tanto legendário, ligado ao que se poderia chamar com alguma liberdade o bem comum das almas (a salus animarum). São Francisco de Assis [quadro ao lado] certa vez convidou um jovem do convento para acompanhá-lo em pregação. Caminharam em conversa animada até o povoado. Percorreram as ruas, cumprimentaram pessoas, uma prosinha aqui e ali; para os transeuntes ensinamento vivo de simplicidade, desapego e espírito sobrenatural. Na tardinha retornaram à residência. O moço recordou a São Francisco, haviam esquecido a pregação. Respondeu o santo mais ou menos assim: “Enquanto andávamos, era uma pregação o que fazíamos. Nossas vestes, nosso porte, revelavam que servíamos a Deus. Pregamos sermão mais tocante do que se tivéssemos falado na praça, exortando o povo à santidade”.


Verba moventexempla trahunt (Palavras comovem, exemplos arrastam). Faz muita falta o arrastão do bom exemplo. Ajudaria o bem comum, facilitaria o apostolado.

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