“EIS O REGISTRO GRÁFICO DA ENTREVISTA EM K-7, QUE AINDA
GUARDO COMO TESTEMUNHO E DEPOIMENTO DE UM DOS MAIS VIGOROSOS TALENTOS
INSTINTIVOS COM QUEM CONVIVI”:
-Jorge de Souza Araújo
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Meu nome é Ariston
Ribeiro Caldas. Nasci num dia 15 de dezembro de 1926. Vim ao mundo numa fazenda de nome “Boa Sorte”,
situada no município de Alagoinhas. De mudança em mudança, permaneci naquela
região até os 8 anos, quando minha família transferiu-se para a localidade de Água
Preta, hoje cidade de Uruçuca. Mais tarde, mudei-me para Itabuna, onde passei as
maiores emoções de minha vida.
Atualmente trabalho
na “Tribuna da Bahia”, onde respondo por assuntos do interior. Enquadro-me na
poesia contemporânea com inquietação. Os novos valores revelam exagerada
preocupação com a forma e com o vocabulário, num esforço incontido à busca do
impressionismo e do exótico, dando a entender desinteresse pela mensagem, pelo
lírico, pelo heroico. Isto lembra o movimento parnasiano, que muito pouco
acrescentou à poesia brasileira em termos de mensagem, limitando-se a
transformações de estética e aproveitamento de vocábulos não considerados por
alguns cultores do Romantismo. Por outro lado, sinto que a poesia atual vem se
omitindo aos grandes acontecimentos, comportando-se alheia, limitada ou com apelações
inaceitáveis.
Ser poeta é
viver com plenitude a vida integral: o amor, o ódio, a dor, a mágoa, o tédio,
as desilusões, a saudade, a esperança, a fé, o desejo. Por isso acredito em
todos. O poeta é portador de todas as sensações do mundo. Todos os enfermos
repousam em sua alma, sente todas as ingratidões, ama desesperadamente e sofre
como ninguém jamais sofreu. Tem esperança imorredoura, o que não é simplesmente
uma esperança, mas o pressentimento do significado absoluto da vida universal.
Sobre minha
poesia, com exceções, considero-a espontânea e desvinculada de escolas literárias.
Não acredito haver recebido influências poéticas, baseado que minhas leituras foram
diversificadas. Li os principais poetas do mundo e na poesia brasileira, cheia
de valores, ainda me rendo a Castro Alves, de quem não encontro nenhum vestígio
nos versos por mim escritos, que revelam, de acordo com o meu poder criativo, somente
o que vai em minha alma, no meu interior.
Analisar
poesia é tarefa difícil, especialmente para os poetas. E muito mais ainda uma autocrítica.
Daí, sobre os poemas “Dissipação”, “Variante sobre o amor” e “História comum”,
eu prefiro deixá-los a critério dos leitores, o que me deixa mais à vontade.
A
série “Música de Câmara na ABL” de 2019 apresenta o Quarteto de Cordas da UFF
formado pelos instrumentistas Tomaz Soares, 1.º violino, Ubiratã Rodrigues, 2.°
violino, David Chew, violoncelo, e Jessé Pereira, violista convidado. O
concerto será realizado no dia 3 de setembro, terça-feira, às 12h30, no Teatro
R. Magalhães Jr. Entrada franca.
A
apresentação faz parte do acordo de cooperação entre ABL e UFF para a
realização de eventos musicais gratuitos e de alta qualidade nas instalações da
Academia Brasileira de Letras.
O Quarteto da UFF
A Universidade Federal Fluminense é a única
universidade pública brasileira a ter em seu quadro funcional um quarteto de
cordas com mais de 30 anos de existência, cuja finalidade é difundir obras de
repertório universal e brasileiro.
O Quarteto de Cordas da UFF foi criado em 1984 e,
desde então, a partir de suas várias formações, busca divulgar a música de
concerto e realizar um trabalho de pesquisa acerca dos repertórios para a
composição de público, integrando projetos na própria UFF, realizando oficinas
e master classes em outras universidades públicas, e se
apresentando em espaços culturais, salas de concerto e teatros em Niterói e no
Estado do Rio de Janeiro.
Sua formação atual conta com os músicos Tomaz
Soares, 1.º violino, Ubiratã Rodrigues, 2.º violino, David Chew, violoncelo, e
Jessé Pereira, violista convidado.
Programa
Blas
Rivera (1965) – Argentina
"Suite dos Monstros" para quarteto de cordas
Prelúdio I - Ojala que me escuche
Prelúdio II - Jaque Mate
Prelúdio III - Canción para conquistar a la Bailarina
Prelúdio IV - Valsa pro Chico
Prelúdio V - Valsa para King Kong
Radamés
Gnatalli (1906 - 1988) - Brasil
Quarteto Popular - Movido - Lento - Allegro Moderato
Heitor
Villa-Lobos (1887-1959) – Brasil (60 anos de falecimento)
Quarteto de Cordas n.º 1
"Cantilena" (Andante)
"Brincadeira" (Allegretto scherzando)
"Canto lírico" (Moderato)
Cançoneta (Andantino quasi allegretto)
"Melancolia" (Lento)
Astor
Piazzolla (1921-1992) - Argentina
Tango Ballet para quarteto de cordas
I. Titulos
II. La calle
III. Encuentro - Olvido
IV. Cabaret
V. Soledad
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INSCRIÇÕES
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esta sessão exclusiva. Lugares limitados.
Uma aula de história, de verdade, de brasilidade, que
encerra definitivamente a questão sobre os outros interesses escusos sobre a nossa
Amazônia.
......
“No contexto de uma campanha internacional movida contra o
Brasil, ressurgiu a antiga pretensão de relativizar, ou mesmo neutralizar, a
soberania brasileira sobre a parte da Região Amazônica que nos cabe, a nossa
Amazônia.
Acusações de maus-tratos a indígenas, uso indevido do solo,
desflorestamento descontrolado e inação governamental perante queimadas
sazonais compõem o leque da infâmia despejada sobre o País, a que se juntou a
nota diplomática do governo francês ofensiva ao presidente da República e aos
brasileiros.
O Brasil não mente. E tampouco seu presidente, seu governo e
suas instituições.
Em primeiro lugar, porque o Brasil tem a seu lado a
História, sobre a qual, em consideração à memória nacional, nos devemos
debruçar.
A Amazônia que nos pertence foi conquistada no tempo em que
só a ação intimorata garantia direitos. Depois da expulsão dos franceses de São
Luís (1615) e da fundação do forte do Presépio, a futura Belém (1616),
corsários ingleses e holandeses foram combatidos e expulsos da foz do Rio
Amazonas.
A União Ibérica (1580-1640) ofereceu oportunidade para que
bandeirantes e exploradores rompessem as Tordesilhas, um desenvolvimento
histórico que tem na primeira navegação da foz à nascente do Amazonas (1637),
façanha cometida por Pedro Teixeira, seu marco definitivo.
Foram fortalezas que prefiguraram a ocupação e a delimitação
da Amazônia brasileira. Foi a catequese que aglutinou os indígenas sob a
proteção da cruz, favorecendo a miscigenação que fomentou o povoamento da
região. A fundação do forte de São José do Rio Negro, na confluência do Rio
Negro com o Solimões (1663), reuniu em seu entorno índios barés, baniuas e
passés, dando origem à povoação que viria a se transformar na cidade de Manaus.
Após a Independência, em nossa primeira legislatura, quando
a pretensão estrangeira de impor um monopólio de navegação no Amazonas ousou
atribuir aos brasileiros a pecha de ignorantes, coube ao Senado devolvê-la,
lembrando que cabia aos brasileiros a primazia dos descobrimentos sobre a
região, conforme atestado pelo próprio Humbolt.
E no início do século 20, enquanto a Europa se dilacerava
nos campos de batalha da 1.ª Guerra Mundial, um dos nossos maiores soldados,
Cândido Mariano da Silva Rondon, completava sua campanha sertanista (1915-1919)
em Mato Grosso levantando cartograficamente os vales do Araguaia e as
cabeceiras do Xingu; descobrindo minas de sulfeto de ferro, ouro, diamantes,
manganês, gipsita, ferro e mica; e o mais importante, fazendo amigas as nações
nhambiquara, barbados, quepi-quepi-uats, pauatês, tacuatés, ipoti-uats, urumis,
ariquemes e urupás, que ao final da ciclópica empreitada apontavam para as
armas dos exploradores e diziam: “Enombô, paranã! Dorokói pendehê” (“joguem no
rio, a guerra acabou”).
Epopeia consumada, mas por concluir, na qual o Brasil jamais
prescindiu da cooperação das nações condôminas desse patrimônio reunidas no
Pacto Amazônico, que comemorou, no ano passado, 40 anos de sua assinatura, o
qual, pela sua finalidade e sua clareza de propósitos, dispensa protagonismos
de última hora movidos por interesses inconfessáveis. Se existisse algum
protagonismo nacional na Amazônia sul-americana compartilhada por nove países,
algo que o Brasil nunca avocou, ele seria, pelos números, pela presença e pela
História, brasileiro.
Se a História dá razão ao Brasil em qualquer debate sobre a
Amazônia, cabe colocar, em segundo lugar, que ele tem a seu favor os fatos.
Não há país que combine legislação ambiental, produtividade
agropecuária, segurança alimentar e preservação dos biomas com mais eficiência,
eficácia e efetividade do que o Brasil. Não bastassem todos os dados legais e
científicos, sobejamente conhecidos, que comprovam essa assertiva, tomem-se não
as palavras, mas os atos do governo brasileiro no sentido de combater queimadas
e apurar crimes de toda natureza praticados na Região Amazônica, o que
desqualifica as desproporcionais acusações e agressões desferidas contra o País
por causa do meio ambiente.
E se não bastassem a História e os fatos, cabe apontar o que
se revela nas declarações oficiais, nas confidências mal escondidas, nas entrelinhas
dos comunicados e no ecorradicalismo incensado pela imprensa: a velha ambição
disfarçada por filantropia de fachada.
É inacreditável que, num momento em que guerras comerciais e
protecionismos turvam o horizonte mundial, e são publicamente condenados em
todas as instâncias internacionais responsáveis, líderes de países europeus
venham, individualmente ou em conjunto, tomar iniciativas contra o
livre-comércio, procurando sabotar acordos históricos como o firmado entre a
União Europeia e o Mercosul e entre este e os países da Associação Europeia de
Livre-Comércio (Efta) – Noruega, Suíça, Islândia e Liechtenstein.
Como é inacreditável que pessoas que até há pouco tempo
ocupavam cargos públicos se esqueçam de uma das linhas mestras da diplomacia do
Brasil, a de preservar a liberdade de interpretar a realidade do País e de
encontrar soluções brasileiras para os problemas brasileiros, conforme
colocadas pelo chanceler Horácio Lafer em 1959.
Nada disso prevalecerá. O Brasil não tem tempo a perder. Com
trabalho, coragem e determinação ele encontrará o seu destino de grandeza: ser
a mais pujante e próspera democracia liberal do Hemisfério Sul.
E por qualquer perspectiva, da preservação ao
desenvolvimento, da defesa à segurança, da História ao Direito, a nossa Amazônia
continuará a ser brasileira.
E nada exprime melhor isso do que a canção do
internacionalmente reconhecido Centro de Instrução de Guerra na Selva: À
Amazônia inconquistável o nosso preito, / A nossa vida por tua integridade/ A
nossa luta pela força do direito/ Com o direito da força por validade.”
(Recebi via WhatsApp)
A mais alta das árvores gigantes da Amazônia está dentro de
uma unidade de conservação estadual de uso sustentável, a Floresta Estadual do
Parú (PA)Divulgação/Jhonathan dos Santos
Do lado de lá, nas terras longes, o homem irascível,
bigodinho nervoso. Acabava de instalar o império do medo. Desejava ser o dono
do mundo, montado na crença da supremacia da raça branca. Dos mais
sofisticados, em alta escala, os armamentos bélicos. Milhões de criaturas
indefesas reduzidas a cinzas nos fornos crematórios.
Anos de
fogo, sombras, pesadelos. O mal sem limites.Corpos usados para experiências absurdas. Mães separadas dos filhos,
maridos das mulheres. A terra virada no inferno. Milhões de inocentes
eliminados sem dó, na enchente a morte. A liberdade recuada para os
subterrâneos mais indignos.
Sirenes, bombas, torpedos. Explosões, crateras,
escombros.A fera ressurgia da antiga
caverna, assoberbada galopava nas trevas. Não concedia a trégua, bania a razão
para os confins inimagináveis do abismo mais profundo.A vida nutrida de fúria galopava na
engrenagem monstruosa do absurdo, o elogio de nadas, tudo sem sentido.
Orgulhoso o hominho irascível, inundado de prazer, sorrindo de contente com o holocausto,
rostos de penúria, estilhaços de gente por todos os cantos.
No final, o triunfo
do amor. Soldados uníssonos no campo da vitória. Retirada do estúpido abismo, de
forças dementesa razão açoitada no
gesto vil, a pobre coitada ainda resistia.Encerrada com os corpos de pessoas fuziladas, o tenebroso acúmulo de
ossatura, o teatro fétido nos odores da morte, empilhada nos canais enormes.
Grande
passeata pelas ruas do lado de cá, gente grande e pequena dando vivas à
liberdade.O sorriso que alarga o rosto
apareceu na rua de barro batido, os habitantes da cidade pequena em euforia
incontrolável.Bombas inimigas caladas
para sempre. Já não existem mais as horas do mundo cheio de grito e agonia. Os
sinos tocando sem parar a canção constante da paz, antiga, belíssima, irradiando
bondade e alegria.
Acreditava-se
nos dias promissores. O homem redimido agora, renascido da razão,nervos fraternos, sentimentos do amor.
Cânticos emanavam do peito o bem supremo da felicidade. Não mais o coração
esmagado sob as patas impassíveis de manadas enfurecidas. Nos ares libertos da
opressão, bemóis da cantiga geral da união como verdade.
A praça, um bloco
extenso de gente, comoventes olhos brilhavam na direção do homem fardado no
palanque. De volta da guerra, o rosto do herói numa máscara feita de tecidos
sólidos. O locutor chamou o guardador dos ramos da vitória.Entregou-lhe o microfone. “Comece, por favor,
estão ansiosos para ouvir seu relato sobre o horror.”O homem disse para o locutor, tinha oolhar imóvel diante da multidão, soltando
murmúrios, o vozear confuso, “não posso”.“Faça um esforço”, retornou o locutor, animando-o.“Não tenho palavras para descrever o terror.”
Acrescentou, mastigando as palavras, “é impossível”.O locutor ainda perguntou, “não tem
palavras?”O herói fez um esgar medonho,
deixou todos com a expressão no assombro diante do silêncio impassível.Com dificuldade, confirmou, “perdi as
palavras nos anos de fogo e bombardeio.”
A multidão
frustrada, gente triste rumo às suas casas, passos pesados, arrastados, em
silêncio, rostos para o chão. Uma procissão de almas penadas, visagens de outro
mundo.O herói havia ajudado esmagar uma
mulher diabólica, que arrasa os sonhos, bombardeia projetos, dizima a
maravilha, mata a esperança, tritura a ternura, no lugar põe o abismo, que
engole a razão sem remorso.Com sua
corrida desembestada, pisoteia tudo que nasce do amor.Era importante ouvi-lo. Inútil sua palavra
congelada. Imprestável para relatar o terror.Sua razão não tinha sã consciência para descrever a imensa desgraça que
viveu no pior abismo.
*CYRO DE MATTOS publicou mais de 50 livros, de diversos
gêneros. Autor com prêmios importantes.
Também editado no exterior. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia.
Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz (Bahia)
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Lucas.
— Glória a vós, Senhor.
Aconteceu que, num dia de sábado, Jesus foi comer na casa
de um dos chefes dos fariseus. E eles o observavam. Jesus notou como os
convidados escolhiam os primeiros lugares. Então contou-lhes uma parábola:
“Quando tu fores convidado para uma festa de casamento, não
ocupes o primeiro lugar. Pode ser que tenha sido convidado alguém mais
importante do que tu, e o dono da casa, que convidou os dois, venha te
dizer: ‘Dá o lugar a ele’. Então tu ficarás envergonhado e irás ocupar o último
lugar. Mas, quando tu fores convidado, vai sentar-te no último lugar.
Assim, quando chegar quem te convidou, te dirá: ‘Amigo, vem mais para cima’. E
isto vai ser uma honra para ti diante de todos os convidados. Porque
quem se eleva, será humilhado e quem se humilha, será elevado”.
E disse também a quem o tinha convidado: “Quando tu deres
um almoço ou um jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus
parentes, nem teus vizinhos ricos. Pois estes poderiam também convidar-te e
isto já seria a tua recompensa. Pelo contrário, quando deres uma festa,
convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos. Então tu serás
feliz! Porque eles não te podem retribuir. Tu receberás a recompensa na
ressurreição dos justos”.
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a encenação do Evangelho:
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HUMILDADE: deslocar-se
para o lugar do último
“Porque quem se eleva, será humilhado e quem se
humilha, será elevado” (Lc 14,11)
Jesus sempre se revelou muito livre, transitando por mesas
de diferentes pessoas. É muito inspirador ter em conta o contexto do evangelho
deste domingo. Ele nos revela, mais uma vez, Jesus participando de uma
refeição, convidado por “um dos chefes dos fariseus” da região. É uma refeição
especial de sábado, preparada desde a véspera com todo esmero. Como é costume,
os convidados são amigos do anfitrião, fariseus de grande prestígio, doutores
da lei, modelos de vivência religiosa para todo o povo.
Jesus já era uma pessoa muito conhecida e muito discutida.
Seguramente a intenção deste convite era comprometê-lo diante dos demais
convidados. Mas temos a impressão que Jesus não se sente cômodo neste
ambiente; sente falta de seus amigos, os pobres, aqueles que encontra
mendigando pelos caminhos, aqueles que nunca são convidados por ninguém,
aqueles que não contam: excluídos da convivência, esquecidos pela religião,
desprezados por quase todos.
Sabemos que Jesus sempre se fez presente no lugar onde se
encontravam aqueles que não tinham “lugar”, os “deslocados”, os socialmente
rejeitados e que eram a razão de seu amor e do seu cuidado; fez-se solidário
com os “sem lugares” e abriu para eles um “novo lugar” no Reino do Pai. Na
Galileia, Jesus teve suas preferências e escolheu o seu “lugar”, o lugar entre
os mais pobres, vítimas daqueles que se faziam donos dos lugares. Os
evangelhos destacam que Jesus, na sua vida e missão, sempre deu grande
importância às refeições em comum, mesas de partilha, mesas festivas... É neste
ambiente de comunhão que o Reino se visibiliza e antecipa o sentido da refeição
plena, preparada pelo Pai.
É a partir desse ato sagrado que podemos olhar o outro mais
de perto, escutá-lo mais de perto, senti-lo mais de perto... pois “a comida, o
alimento de nossas refeições, não é somente o que aparenta, mas, remete a algo
que está atrás de si, para além de si. Portanto, o gesto de sentar-se à mesa
para comer revela um tipo de relação social de um determinado grupo humano”
(Manuel Diaz Mateos).
O Reino de Deus, ao se fazer presente, desperta em nós a
mística da mesa que alimenta uma vida que se faz doação, como o pão que é
partilhado: a amizade, a convivência, a acolhida... Sentar-se à mesa com o
outro é descobrir-se vivo, corpo pulsante, latente, carente. Mas é também
descobrir um outro tipo de alimento, que só pode ser colhido na delicadeza da
inter-relação, da inter-comum-união com o outro. E a vida floresce em plenitude
quando está impregnada de amor e gratuidade, sem competição de “egos” e nem
desejos de protagonismo.
No texto do evangelho deste domingo, encontramos duas
pequenas parábolas. Uma se refere aos convidados; outra diz respeito ao
anfitrião. Em ambos os casos, Jesus nos propõe uma maneira diferente de
compreender as relações humanas. Ele quer deslocar comportamentos que
consideramos normais, para entrar em uma nova dinâmica, que nos leva a mudar a
escala de valores do mundo.
Na primeira imagem, não se trata de um simples ato de
educação para receber elogios. Jesus parte de um modo de proceder generalizado
(buscar os primeiros lugares) como ocasião para apresentar uma visão diferente
e mais profunda da humildade. Colocar-se no último lugar não deve ser uma
estratégia para conseguir maior admiração e honra. A frase “quem se eleva, será
humilhado e quem se humilha, será elevado”, pode levar-nos a uma falsa
interpretação. Jesus aconselha não buscar as honras e o prestígio diante
dos outros, como meio para fazer-se valer. Condena toda vanglória e vaidade
como contrárias à sua mensagem.
O convite a “sentar no último lugar” revela um enfoque nem
sempre percebido em seu sentido profundo. Ele revela aos participantes da
refeição um “novo ângulo” ou um novo modo de ver as coisas: não a partir do
lugar dos comensais, mas a partir da perspectiva de quem não está sentado à
mesa.
O gesto de Jesus convida a fazer um deslocamento, ou seja,
ocupar o lugar da pessoa que não participa da mesa. Quê novidade se percebe a
partir deste lugar? Portanto, olhar a refeição a partir do ângulo de quem
está no último lugar muda totalmente as perspectivas. Jesus revela, então, um
“novo ângulo” ou um novo modo de “olhar as pessoas”: não a partir do lugar do
poder, mas a partir da perspectiva dos fracos e indefesos.
Não é comum prestar atenção ao lugar ocupado pelo outro,
sobretudo o outro que pensa e sente diferente; é normal perceber, delimitar,
defender e fechar-se no próprio lugar. Isso se faz de maneira tão zelosa que
nem se vê aquilo que está para além do próprio lugar. São grandes os riscos de
se viver em horizontes tão estreitos. Tal estreiteza aprisiona a solidariedade
e dá margem à indiferença, à insensibilidade social, à falta de compromisso com
as mudanças que se fazem urgentes. O próprio lugar se torna uma couraça e o
sentido do serviço some do horizonte inspirador de tudo aquilo que se
faz. Para isso é preciso uma “mudança de lugar”, um deslocamento para
baixo, em direção aos pequenos. Quem “desce” encontra-se com Jesus. Quem acolhe
um “pequeno” está acolhendo o “maior”, o próprio Jesus.
A segunda parábola apresenta um matiz diferente. Antes de
despedir-se, Jesus se dirige àquele que o tinha convidado. Não é para
agradecer-lhe o banquete, mas para sacudir sua consciência e convidá-lo a
viver um estilo de vida menos convencional e mais humano. “Não convides
os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes, nem os teus vizinhos
ricos. Convida os pobres, aleijados, coxos, cegos...”. Mais uma vez Jesus
se esforça por humanizar a vida, rompendo esquemas e critérios de atuação que
nos podem parecer muitos respeitáveis, mas que, no fundo, estão indicando nossa
resistência a construir esse mundo mais humano e fraterno, querido por Deus.
Normalmente vivemos instalados em um círculo de relações
familiares, sociais, políticas ou religiosas com as quais nos ajudamos
mutuamente a cuidar de nossos interesses, deixando fora aqueles que nada podem
trazer. Convidamos para ter acesso à nossa vida àqueles que, por sua vez, podem
nos convidar.
Jesus não quer dizer que fazemos mal quando convidamos os
familiares e amigos para uma refeição. Ele quer dizer que estes convites não
vão mais além do egoísmo amplificado àqueles que são do nosso círculo. Essa
atitude para com os amigos não é sinal do amor evangélico. O amor que Jesus nos
pede precisa ir mais além do sentido comum, dos sentimentos ou do interesse
pessoal. A demonstração de que entramos na dinâmica do Reino está em que
buscamos o bem dos outros sem esperar nada em troca.
A gratuidade é a marca do Reino.
Texto bíblico: Lc 14,1.7-14
Na oração: Precisamos sair de nossos pequenos círculos
para criar vínculos com tantos grupos e organizações sociais, movimentos que
buscam outra cultura, a cultura da solidariedade, da interconexão responsável,
do encontro comprometido.
“Considerar” aqueles que não tem “lugar” em nossas
comunidades; colocar-se em seu lugar e sentir o que eles sentem.
Incontáveis indígenas anelam se inserir no mundo civilizado,
mas muitas ONGs e elementos da “esquerda católica” tentam impedi-los de
abandonar os seus costumes selvagens. Em 2018, no Mato Grosso os índios Parecis plantaram
12 mil hectares de soja, e como “prêmio” receberam 44 multas do IBAMA,
totalizando 129,2 milhões de reais. O motivo das multas? Castigo pelo fato de
os índios terem plantado e colhido!
Tempos novos, muito novos mesmo, pois agora os índios querem
produzir, empreender, sair do humilhante “zoológico” em que costumam ser
apresentados ao mundo, espécie de cobaias para antropólogos e missionários
inescrupulosos. Sem falar das ONGs que os rodeiam, gente com interesse pouco
claro, mas que deixa evidente a intenção de tirar proveito disso.
Tal trama revolucionária da esquerda, em que missionários da
igreja “progressista” se mostram contrários ao desenvolvimento espiritual e
material dos índios, negando-lhes ensinar o evangelho, foi denunciada em 1977
por Plinio Corrêa de Oliveira, em seu livro Tribalismo Indígena – Ideal
comuno-missionário para o Brasil no século XXI.
Nas suas pegadas, sempre empenhados em manter alto o
estandarte alçado por este ilustre brasileiro, e, sobretudo dada a atualidade
que o tema ganhou no Brasil em razão do Sínodo sobre a Amazônia, a ser
realizado em Roma proximamente, fomos a Campo Novo do Parecis (MT) [foto ao
lado] a fim de conhecer realidade sobre esses índios empreendedores que plantam
e colhem, progridem e se civilizam.
Em fevereiro último, estiveram lá para o encerramento de um
Encontro Nacional de Agricultores Indígenas, dois ministros de Estado. Na
ocasião, a Ministra Tereza Cristina, da Agricultura, que é mato-grossense,
declarou que a vontade dos índios é soberana, cabendo a eles decidirem o que
fazer ou deixar de fazer. Já o Ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente,
observou que os índios plantam e produzem com muita competência, demonstrando
aptidão para se integrarem ao agro sem perder suas origens.
No ensejo, os índios fizeram a ministra Tereza Cristina um
pedido no qual reivindicaram crédito para aquisição de insumos e maquinário,
além de mudanças na lei que os impede de comercializar o que vêm produzindo.
A ministra reafirmou a Ronaldo Paresi [foto ao lado],
presidente da Cooperativa Agropecuária dos Povos Indígenas – Coopihanama, que
eles merecem o mesmo apoio que os demais produtores rurais brasileiros. E
espera que o exemplo deles possa contribuir para “mudar a miséria e a
manipulação que existe hoje em torno dos povos indígenas do Brasil”.
Com efeito, eles vêm se destacando pela produção agrícola
mecanizada de soja, milho e feijão. Na atual safra, segundo informações dos
próprios indígenas, eles plantaram cerca de 19 mil hectares de grãos, produção
autorizada pelos órgãos competentes.
Para a ministra Tereza Cristina, a FUNAI deve trabalhar com
um novo olhar, cuidando dos direitos indígenas, sem considerá-los como
“coitadinhos”, dando-lhes todas as condições para que consigam a autonomia de
produzir, bem como possam desfrutar de boa qualidade de vida.
O Diretor Financeiro da Cooperativa, Adilson Paresi fez um
resumo da exploração agrícola que os índios vêm fazendo. Segundo ele, “são
nove terras indígenas totalizando 1.500.000 hectares, abrangendo cinco
municípios circunvizinhos”.
"Nessas terras há 63 aldeias com uma população de mais de
2.000 índios”. Área correspondente à metade da Bélgica, hoje habitada por
11 milhões de pessoas. Para Adilson, “sua etnia criou uma política de
autossustentação dentro do seu território”.
Tempos novos, muito novos! Chamou-nos a atenção nas aldeias,
cujas casas e mesmo as ocas ainda existentes possuem luz elétrica, geladeira,
freezer, televisão, sinal de internet, ventiladores… Todas as crianças de certa
idade já possuem o seu celular na palma da mão.