Total de visualizações de página

terça-feira, 3 de setembro de 2019

UM POEMA A SETEMBRO/ CANTO DE SETEMBRO – Ariston Caldas


Um Poema a Setembro


Uma rosa se abriu,
uma estrela passou,
os pássaros fugiram
para os laranjais.

Uma música tocou,
uma noiva partiu,
a chuva aos ninhos
não voltou mais.

Setembro chegou
com a primavera,
à tua espera
ainda estou.

Eu vi setembro
ainda em caminho,
mas vinha só
sem teu carinho.

................

Canto de setembro


Canto de setembro, de boninas,
a mesma ilusão de sonhos idos,
com teus olhos que não voltam mais.

Canto de setembro, de primavera
rodeado de segredos,
de palavras de mistério.

Canto de setembro, de saudade,
de tristeza por um amor que
sumiu levando a primavera.

-----------

“EIS O REGISTRO GRÁFICO DA ENTREVISTA EM K-7, QUE AINDA GUARDO COMO TESTEMUNHO E DEPOIMENTO DE UM DOS MAIS VIGOROSOS TALENTOS INSTINTIVOS COM QUEM CONVIVI”:
                                                                                                                                                                        - Jorge de Souza Araújo

 --------------

           Meu nome é Ariston Ribeiro Caldas. Nasci num dia 15 de dezembro de   1926. Vim ao mundo numa fazenda de nome “Boa Sorte”, situada no município de Alagoinhas. De mudança em mudança, permaneci naquela região até os 8 anos, quando minha família transferiu-se para a localidade de Água Preta, hoje cidade de Uruçuca. Mais tarde, mudei-me para Itabuna, onde passei as maiores emoções de minha vida.

            Atualmente trabalho na “Tribuna da Bahia”, onde respondo por assuntos do interior. Enquadro-me na poesia contemporânea com inquietação. Os novos valores revelam exagerada preocupação com a forma e com o vocabulário, num esforço incontido à busca do impressionismo e do exótico, dando a entender desinteresse pela mensagem, pelo lírico, pelo heroico. Isto lembra o movimento parnasiano, que muito pouco acrescentou à poesia brasileira em termos de mensagem, limitando-se a transformações de estética e aproveitamento de vocábulos não considerados por alguns cultores do Romantismo. Por outro lado, sinto que a poesia atual vem se omitindo aos grandes acontecimentos, comportando-se alheia, limitada ou com apelações inaceitáveis.

            Ser poeta é viver com plenitude a vida integral: o amor, o ódio, a dor, a mágoa, o tédio, as desilusões, a saudade, a esperança, a fé, o desejo. Por isso acredito em todos. O poeta é portador de todas as sensações do mundo. Todos os enfermos repousam em sua alma, sente todas as ingratidões, ama desesperadamente e sofre como ninguém jamais sofreu. Tem esperança imorredoura, o que não é simplesmente uma esperança, mas o pressentimento do significado absoluto da vida universal.

            Sobre minha poesia, com exceções, considero-a espontânea e desvinculada de escolas literárias. Não acredito haver recebido influências poéticas, baseado que minhas leituras foram diversificadas. Li os principais poetas do mundo e na poesia brasileira, cheia de valores, ainda me rendo a Castro Alves, de quem não encontro nenhum vestígio nos versos por mim escritos, que revelam, de acordo com o meu poder criativo, somente o que vai em minha alma, no meu interior.

            Analisar poesia é tarefa difícil, especialmente para os poetas. E muito mais ainda uma autocrítica. Daí, sobre os poemas “Dissipação”, “Variante sobre o amor” e “História comum”, eu prefiro deixá-los a critério dos leitores, o que me deixa mais à vontade.


(Obra reunida – 1ª Edição)
ARISTON CALDAS

* * *

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

MÚSICA DE CÂMARA NA ABL APRESENTA CONCERTO DO QUARTETO DE CORDAS DA UFF COM REPERTÓRIO ENALTECENDO A LATINIDADE


A série “Música de Câmara na ABL” de 2019 apresenta o Quarteto de Cordas da UFF formado pelos instrumentistas Tomaz Soares, 1.º violino, Ubiratã Rodrigues, 2.° violino, David Chew, violoncelo, e Jessé Pereira, violista convidado. O concerto será realizado no dia 3 de setembro, terça-feira, às 12h30, no Teatro R. Magalhães Jr. Entrada franca.
A apresentação faz parte do acordo de cooperação entre ABL e UFF para a realização de eventos musicais gratuitos e de alta qualidade nas instalações da Academia Brasileira de Letras.
O Quarteto da UFF
A Universidade Federal Fluminense é a única universidade pública brasileira a ter em seu quadro funcional um quarteto de cordas com mais de 30 anos de existência, cuja finalidade é difundir obras de repertório universal e brasileiro.

O Quarteto de Cordas da UFF foi criado em 1984 e, desde então, a partir de suas várias formações, busca divulgar a música de concerto e realizar um trabalho de pesquisa acerca dos repertórios para a composição de público, integrando projetos na própria UFF, realizando oficinas e master classes em outras universidades públicas, e se apresentando em espaços culturais, salas de concerto e teatros em Niterói e no Estado do Rio de Janeiro.

Sua formação atual conta com os músicos Tomaz Soares, 1.º violino, Ubiratã Rodrigues, 2.º violino, David Chew, violoncelo, e Jessé Pereira, violista convidado.
Programa
Blas Rivera (1965) – Argentina
"Suite dos Monstros" para quarteto de cordas
Prelúdio I - Ojala que me escuche
Prelúdio II - Jaque Mate
Prelúdio III - Canción para conquistar a la Bailarina
Prelúdio IV - Valsa pro Chico
Prelúdio V - Valsa para King Kong
Radamés Gnatalli (1906 - 1988) - Brasil
Quarteto Popular - Movido - Lento - Allegro Moderato
Heitor Villa-Lobos (1887-1959) – Brasil (60 anos de falecimento)
Quarteto de Cordas n.º 1
"Cantilena" (Andante)
"Brincadeira" (Allegretto scherzando)
"Canto lírico" (Moderato)
Cançoneta (Andantino quasi allegretto)
"Melancolia" (Lento)
Astor Piazzolla (1921-1992) - Argentina
Tango Ballet para quarteto de cordas
I. Titulos
II. La calle
III. Encuentro - Olvido
IV. Cabaret
V. Soledad
Faça sua reserva  para o evento abaixo!
INSCRIÇÕES
Garanta sua participação gratuita para esta sessão exclusiva. Lugares limitados.

22/08/2019



* * *

ARTIGO DO VICE-PRESIDENTE HAMILTON MOURÃO NO JORNAL ESTADÃO


Uma aula de história, de verdade, de brasilidade, que encerra definitivamente a questão sobre os outros interesses escusos sobre a nossa Amazônia.
 ......

“No contexto de uma campanha internacional movida contra o Brasil, ressurgiu a antiga pretensão de relativizar, ou mesmo neutralizar, a soberania brasileira sobre a parte da Região Amazônica que nos cabe, a nossa Amazônia.

Acusações de maus-tratos a indígenas, uso indevido do solo, desflorestamento descontrolado e inação governamental perante queimadas sazonais compõem o leque da infâmia despejada sobre o País, a que se juntou a nota diplomática do governo francês ofensiva ao presidente da República e aos brasileiros.

O Brasil não mente. E tampouco seu presidente, seu governo e suas instituições.

Em primeiro lugar, porque o Brasil tem a seu lado a História, sobre a qual, em consideração à memória nacional, nos devemos debruçar.

A Amazônia que nos pertence foi conquistada no tempo em que só a ação intimorata garantia direitos. Depois da expulsão dos franceses de São Luís (1615) e da fundação do forte do Presépio, a futura Belém (1616), corsários ingleses e holandeses foram combatidos e expulsos da foz do Rio Amazonas.

A União Ibérica (1580-1640) ofereceu oportunidade para que bandeirantes e exploradores rompessem as Tordesilhas, um desenvolvimento histórico que tem na primeira navegação da foz à nascente do Amazonas (1637), façanha cometida por Pedro Teixeira, seu marco definitivo.

Foram fortalezas que prefiguraram a ocupação e a delimitação da Amazônia brasileira. Foi a catequese que aglutinou os indígenas sob a proteção da cruz, favorecendo a miscigenação que fomentou o povoamento da região. A fundação do forte de São José do Rio Negro, na confluência do Rio Negro com o Solimões (1663), reuniu em seu entorno índios barés, baniuas e passés, dando origem à povoação que viria a se transformar na cidade de Manaus.

Após a Independência, em nossa primeira legislatura, quando a pretensão estrangeira de impor um monopólio de navegação no Amazonas ousou atribuir aos brasileiros a pecha de ignorantes, coube ao Senado devolvê-la, lembrando que cabia aos brasileiros a primazia dos descobrimentos sobre a região, conforme atestado pelo próprio Humbolt.

E no início do século 20, enquanto a Europa se dilacerava nos campos de batalha da 1.ª Guerra Mundial, um dos nossos maiores soldados, Cândido Mariano da Silva Rondon, completava sua campanha sertanista (1915-1919) em Mato Grosso levantando cartograficamente os vales do Araguaia e as cabeceiras do Xingu; descobrindo minas de sulfeto de ferro, ouro, diamantes, manganês, gipsita, ferro e mica; e o mais importante, fazendo amigas as nações nhambiquara, barbados, quepi-quepi-uats, pauatês, tacuatés, ipoti-uats, urumis, ariquemes e urupás, que ao final da ciclópica empreitada apontavam para as armas dos exploradores e diziam: “Enombô, paranã! Dorokói pendehê” (“joguem no rio, a guerra acabou”).

Epopeia consumada, mas por concluir, na qual o Brasil jamais prescindiu da cooperação das nações condôminas desse patrimônio reunidas no Pacto Amazônico, que comemorou, no ano passado, 40 anos de sua assinatura, o qual, pela sua finalidade e sua clareza de propósitos, dispensa protagonismos de última hora movidos por interesses inconfessáveis. Se existisse algum protagonismo nacional na Amazônia sul-americana compartilhada por nove países, algo que o Brasil nunca avocou, ele seria, pelos números, pela presença e pela História, brasileiro.

Se a História dá razão ao Brasil em qualquer debate sobre a Amazônia, cabe colocar, em segundo lugar, que ele tem a seu favor os fatos.

Não há país que combine legislação ambiental, produtividade agropecuária, segurança alimentar e preservação dos biomas com mais eficiência, eficácia e efetividade do que o Brasil. Não bastassem todos os dados legais e científicos, sobejamente conhecidos, que comprovam essa assertiva, tomem-se não as palavras, mas os atos do governo brasileiro no sentido de combater queimadas e apurar crimes de toda natureza praticados na Região Amazônica, o que desqualifica as desproporcionais acusações e agressões desferidas contra o País por causa do meio ambiente.

E se não bastassem a História e os fatos, cabe apontar o que se revela nas declarações oficiais, nas confidências mal escondidas, nas entrelinhas dos comunicados e no ecorradicalismo incensado pela imprensa: a velha ambição disfarçada por filantropia de fachada.

É inacreditável que, num momento em que guerras comerciais e protecionismos turvam o horizonte mundial, e são publicamente condenados em todas as instâncias internacionais responsáveis, líderes de países europeus venham, individualmente ou em conjunto, tomar iniciativas contra o livre-comércio, procurando sabotar acordos históricos como o firmado entre a União Europeia e o Mercosul e entre este e os países da Associação Europeia de Livre-Comércio (Efta) – Noruega, Suíça, Islândia e Liechtenstein.

Como é inacreditável que pessoas que até há pouco tempo ocupavam cargos públicos se esqueçam de uma das linhas mestras da diplomacia do Brasil, a de preservar a liberdade de interpretar a realidade do País e de encontrar soluções brasileiras para os problemas brasileiros, conforme colocadas pelo chanceler Horácio Lafer em 1959.

Nada disso prevalecerá. O Brasil não tem tempo a perder. Com trabalho, coragem e determinação ele encontrará o seu destino de grandeza: ser a mais pujante e próspera democracia liberal do Hemisfério Sul.

E por qualquer perspectiva, da preservação ao desenvolvimento, da defesa à segurança, da História ao Direito, a nossa Amazônia continuará a ser brasileira.

E nada exprime melhor isso do que a canção do internacionalmente reconhecido Centro de Instrução de Guerra na Selva: À Amazônia inconquistável o nosso preito, / A nossa vida por tua integridade/ A nossa luta pela força do direito/ Com o direito da força por validade.”


(Recebi via WhatsApp)


A mais alta das árvores gigantes da Amazônia está dentro de uma unidade de conservação estadual de uso sustentável, a Floresta Estadual do Parú (PA)Divulgação/Jhonathan dos Santos

* * *

domingo, 1 de setembro de 2019

ABISMO DA RAZÃO - Cyro de Mattos


Abismo da Razão
Cyro de Mattos*


            Do lado de lá, nas terras longes, o homem irascível, bigodinho nervoso. Acabava de instalar o império do medo. Desejava ser o dono do mundo, montado na crença da supremacia da raça branca. Dos mais sofisticados, em alta escala, os armamentos bélicos. Milhões de criaturas indefesas reduzidas a cinzas nos fornos crematórios.

           Anos de fogo, sombras, pesadelos. O mal sem limites.  Corpos usados para expe­riências absurdas. Mães separadas dos filhos, maridos das mulheres. A terra virada no inferno. Milhões de inocentes eliminados sem dó, na enchente a morte. A liberdade recuada para os subterrâneos mais indignos.

          Sirenes, bombas, torpedos. Explosões, cra­teras, escombros.  A fera ressurgia da antiga caverna, assoberbada galopava nas trevas. Não concedia a trégua, bania a razão para os confins inimagináveis do abismo mais profundo.  A vida nutrida de fúria galopava na engrenagem monstruosa do absurdo, o elogio de nadas, tudo sem sentido. Orgulhoso o hominho irascível, inundado de prazer, sorrindo de contente com o holocausto, rostos de penúria, estilhaços de gente por todos os cantos.

          No final, o triunfo do amor. Solda­dos uníssonos no campo da vitória. Retirada do estúpido abismo, de forças dementes   a razão açoitada no gesto vil, a pobre coitada ainda resistia.  Encerrada com os corpos de pessoas fuziladas, o tenebroso acúmulo de ossatura, o teatro fétido nos odores da morte, empilhada nos canais enormes.
  
         Grande passeata pelas ruas do lado de cá, gente grande e pequena dando vivas à liberdade.  O sorriso que alarga o rosto apareceu na rua de barro batido, os habitantes da cidade pequena em euforia incontrolável.  Bombas inimigas caladas para sempre. Já não existem mais as horas do mundo cheio de grito e agonia. Os sinos tocando sem parar a canção constante da paz, antiga, belíssima, irradiando bondade e alegria.
  
         Acreditava-se nos dias promissores. O homem redimido agora, renascido da razão,  nervos fraternos, sentimentos do amor. Cânticos emanavam do peito o bem supremo da felicidade. Não mais o coração esmagado sob as patas impassíveis de manadas enfurecidas. Nos ares libertos da opressão, bemóis da cantiga geral da união como verdade.

          A praça, um bloco extenso de gente, comoventes olhos brilhavam na direção do homem fardado no palanque. De volta da guerra, o rosto do herói numa máscara feita de tecidos sólidos. O locutor chamou o guardador dos ramos da vitória.  Entregou-lhe o microfone. “Comece, por favor, estão ansiosos para ouvir seu relato sobre o horror.”  O homem disse para o locutor, tinha o   olhar imóvel diante da multidão, soltando murmúrios, o vozear confuso, “não posso”.  “Faça um esforço”, retornou o locutor, animando-o.  “Não tenho palavras para descrever o terror.” Acrescentou, mastigando as palavras, “é impossível”.   O locutor ainda perguntou, “não tem palavras?”  O herói fez um esgar medonho, deixou todos com a expressão no assombro diante do silêncio impassível.  Com dificuldade, confirmou, “perdi as palavras nos anos de fogo e bombardeio.”  

           A multidão frustrada, gente triste rumo às suas casas, passos pesados, arrastados, em silêncio, rostos para o chão. Uma procissão de almas penadas, visagens de outro mundo.  O herói havia ajudado esmagar uma mulher diabólica, que arrasa os sonhos, bombardeia projetos, dizima a maravilha, mata a esperança, tritura a ternura, no lugar põe o abismo, que engole a razão sem remorso.  Com sua corrida desembestada, pisoteia tudo que nasce do amor.  Era importante ouvi-lo. Inútil sua palavra congelada. Imprestável para relatar o terror.  Sua razão não tinha sã consciência para descrever a imensa desgraça que viveu no pior abismo.
      

*CYRO DE MATTOS publicou mais de 50 livros, de diversos gêneros.  Autor com prêmios importantes. Também editado no exterior. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz (Bahia) 

* * *


PALAVRA DA SALVAÇÃO (146)


22º Domingo do Tempo Comum – 01/09/2019

Anúncio do Evangelho (Lc 14,1.7-14)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.
— Glória a vós, Senhor.

Aconteceu que, num dia de sábado, Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus. E eles o observavam. Jesus notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares. Então contou-lhes uma parábola:
“Quando tu fores convidado para uma festa de casamento, não ocupes o primeiro lugar. Pode ser que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu, e o dono da casa, que convidou os dois, venha te dizer: ‘Dá o lugar a ele’. Então tu ficarás envergonhado e irás ocupar o último lugar. Mas, quando tu fores convidado, vai sentar-te no último lugar. Assim, quando chegar quem te convidou, te dirá: ‘Amigo, vem mais para cima’. E isto vai ser uma honra para ti diante de todos os convidados. Porque quem se eleva, será humilhado e quem se humilha, será elevado”.
E disse também a quem o tinha convidado: “Quando tu deres um almoço ou um jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos. Pois estes poderiam também convidar-te e isto já seria a tua recompensa. Pelo contrário, quando deres uma festa, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos. Então tu serás feliz! Porque eles não te podem retribuir. Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.


----
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a encenação do Evangelho:
  ----
HUMILDADE: deslocar-se para o lugar do último

“Porque quem se eleva, será humilhado e quem se humilha, será elevado” (Lc 14,11) 

Jesus sempre se revelou muito livre, transitando por mesas de diferentes pessoas. É muito inspirador ter em conta o contexto do evangelho deste domingo. Ele nos revela, mais uma vez, Jesus participando de uma refeição, convidado por “um dos chefes dos fariseus” da região. É uma refeição especial de sábado, preparada desde a véspera com todo esmero. Como é costume, os convidados são amigos do anfitrião, fariseus de grande prestígio, doutores da lei, modelos de vivência religiosa para todo o povo.

Jesus já era uma pessoa muito conhecida e muito discutida. Seguramente a intenção deste convite era comprometê-lo diante dos demais convidados. Mas temos a impressão que Jesus não se sente cômodo neste ambiente; sente falta de seus amigos, os pobres, aqueles que encontra mendigando pelos caminhos, aqueles que nunca são convidados por ninguém, aqueles que não contam: excluídos da convivência, esquecidos pela religião, desprezados por quase todos.

Sabemos que Jesus sempre se fez presente no lugar onde se encontravam aqueles que não tinham “lugar”, os “deslocados”, os socialmente rejeitados e que eram a razão de seu amor e do seu cuidado; fez-se solidário com os “sem lugares” e abriu para eles um “novo lugar” no Reino do Pai. Na Galileia, Jesus teve suas preferências e escolheu o seu “lugar”, o lugar entre os mais pobres, vítimas daqueles que se faziam donos dos lugares. Os evangelhos destacam que Jesus, na sua vida e missão, sempre deu grande importância às refeições em comum, mesas de partilha, mesas festivas... É neste ambiente de comunhão que o Reino se visibiliza e antecipa o sentido da refeição plena, preparada pelo Pai.

É a partir desse ato sagrado que podemos olhar o outro mais de perto, escutá-lo mais de perto, senti-lo mais de perto... pois “a comida, o alimento de nossas refeições, não é somente o que aparenta, mas, remete a algo que está atrás de si, para além de si. Portanto, o gesto de sentar-se à mesa para comer revela um tipo de relação social de um determinado grupo humano” (Manuel Diaz Mateos).

O Reino de Deus, ao se fazer presente, desperta em nós a mística da mesa que alimenta uma vida que se faz doação, como o pão que é partilhado: a amizade, a convivência, a acolhida... Sentar-se à mesa com o outro é descobrir-se vivo, corpo pulsante, latente, carente. Mas é também descobrir um outro tipo de alimento, que só pode ser colhido na delicadeza da inter-relação, da inter-comum-união com o outro. E a vida floresce em plenitude quando está impregnada de amor e gratuidade, sem competição de “egos” e nem desejos de protagonismo. 

No texto do evangelho deste domingo, encontramos duas pequenas parábolas. Uma se refere aos convidados; outra diz respeito ao anfitrião. Em ambos os casos, Jesus nos propõe uma maneira diferente de compreender as relações humanas. Ele quer deslocar comportamentos que consideramos normais, para entrar em uma nova dinâmica, que nos leva a mudar a escala de valores do mundo.

Na primeira imagem, não se trata de um simples ato de educação para receber elogios. Jesus parte de um modo de proceder generalizado (buscar os primeiros lugares) como ocasião para apresentar uma visão diferente e mais profunda da humildade. Colocar-se no último lugar não deve ser uma estratégia para conseguir maior admiração e honra. A frase “quem se eleva, será humilhado e quem se humilha, será elevado”, pode levar-nos a uma falsa interpretação. Jesus aconselha não buscar as honras e o prestígio diante dos outros, como meio para fazer-se valer. Condena toda vanglória e vaidade como contrárias à sua mensagem. 

O convite a “sentar no último lugar” revela um enfoque nem sempre percebido em seu sentido profundo. Ele revela aos participantes da refeição um “novo ângulo” ou um novo modo de ver as coisas: não a partir do lugar dos comensais, mas a partir da perspectiva de quem não está sentado à mesa.

O gesto de Jesus convida a fazer um deslocamento, ou seja, ocupar o lugar da pessoa que não participa da mesa. Quê novidade se percebe a partir deste lugar? Portanto, olhar a refeição a partir do ângulo de quem está no último lugar muda totalmente as perspectivas. Jesus revela, então, um “novo ângulo” ou um novo modo de “olhar as pessoas”: não a partir do lugar do poder, mas a partir da perspectiva dos fracos e indefesos.

Não é comum prestar atenção ao lugar ocupado pelo outro, sobretudo o outro que pensa e sente diferente; é normal perceber, delimitar, defender e fechar-se no próprio lugar. Isso se faz de maneira tão zelosa que nem se vê aquilo que está para além do próprio lugar. São grandes os riscos de se viver em horizontes tão estreitos. Tal estreiteza aprisiona a solidariedade e dá margem à indiferença, à insensibilidade social, à falta de compromisso com as mudanças que se fazem urgentes. O próprio lugar se torna uma couraça e o sentido do serviço some do horizonte inspirador de tudo aquilo que se faz. Para isso é preciso uma “mudança de lugar”, um deslocamento para baixo, em direção aos pequenos. Quem “desce” encontra-se com Jesus. Quem acolhe um “pequeno” está acolhendo o “maior”, o próprio Jesus. 

A segunda parábola apresenta um matiz diferente. Antes de despedir-se, Jesus se dirige àquele que o tinha convidado. Não é para agradecer-lhe o banquete, mas para sacudir sua consciência e convidá-lo a viver  um estilo de vida menos convencional e mais humano. “Não convides os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes, nem os teus vizinhos ricos. Convida os pobres, aleijados, coxos, cegos...”. Mais uma vez Jesus se esforça por humanizar a vida, rompendo esquemas e critérios de atuação que nos podem parecer muitos respeitáveis, mas que, no fundo, estão indicando nossa resistência a construir esse mundo mais humano e fraterno, querido por Deus.

Normalmente vivemos instalados em um círculo de relações familiares, sociais, políticas ou religiosas com as quais nos ajudamos mutuamente a cuidar de nossos interesses, deixando fora aqueles que nada podem trazer. Convidamos para ter acesso à nossa vida àqueles que, por sua vez, podem nos convidar.

Jesus não quer dizer que fazemos mal quando convidamos os familiares e amigos para uma refeição. Ele quer dizer que estes convites não vão mais além do egoísmo amplificado àqueles que são do nosso círculo. Essa atitude para com os amigos não é sinal do amor evangélico. O amor que Jesus nos pede precisa ir mais além do sentido comum, dos sentimentos ou do interesse pessoal. A demonstração de que  entramos na dinâmica do Reino está em que buscamos o bem dos outros sem esperar nada em troca.

A gratuidade é a marca do Reino. 

Texto bíblico:  Lc 14,1.7-14
Na oração: Precisamos sair de nossos pequenos círculos para criar vínculos com tantos grupos e organizações sociais, movimentos que buscam outra cultura, a cultura da solidariedade, da interconexão responsável, do encontro comprometido.
 “Considerar” aqueles que não tem “lugar” em nossas comunidades; colocar-se em seu lugar e sentir o que eles sentem.

Pe. Adroaldo Palaoro sj

* * *


sábado, 31 de agosto de 2019

PALHAÇOS - Luiz Gonzaga Dias


Palhaços


Eu vos entendo bem pobre palhaços!
Meus irmãos na impotência e no fadário.
Vejo punhais agudos e estilhaços,
Detrás do vosso rir de mercenário.

Vossa amargura é pasto do sadismo,
Da heterogênea e torpe multidão
Que nesse esgar de trágico histerismo -
Não reconhece a vossa maldição.

Eu reconheço... E sofro esta tortura,
Dos corações iguais na afinidade.
Alma afeita aos remígios e segura,
Na terra pela vil necessidade.

Vos compreendo - Prometeus histriões!
No picadeiro - Rigoleto abjeto.
Escondendo o estoicismo de Epíteto,
detrás do alvaiade dos bufões.

............

Palhaços II


Fostes na velha Grécia o grande Homero,
Roto e faminto tateando a glória.
Fostes em Roma o matricida Nero,
Fantasma horrendo nas galés da história.

Savanarola!... O circo é muito vasto!
E tem por palco, o mundo milenar.
São palhaços, Junqueira, o velho Fausto
Para fazerem rir, de horror chorar...

- Ó César! Napoleão! Ó Macedônio!
Se o universo pra vos era uma tenda
A vossa fome enorme de demônio
É simples tema para a voz da lenda.

Califas! Faraó! Imperadores!
Tzares – espectros lá na antiguidade –
Sombras gigantes de conquistadores,
Sois os palhaços da posteridade!

............

Palhaços III


Representais sátiras e comédias,
O Gwenplayne de alma grande e nobre!
Cujas farsas são íntimas tragédias,
Dadas ao povo como chiste dobre.

Cambalhotas, trejeitos e piadas,
Malabarismos sem sair do chão...
Vossas vinganças são bem calculadas...
- Rires daqueles de quem sois truão!

Em cada chiste esconde-se um sarcasmo,
Lançado à turba - cimitarra oculta,
Que lacera sutil... Eu fico pasmo,
Dessa humildade que servil, insulta.

Palhaços meus irmãos, servis demonos,
A humanidade de quem rides? Ora!
Consolai-vos, porque nós todos somos
Heróis palhaços pela vida a fora!


(IMAGENS MUTILADAS - 1963)
Luiz Gonzaga Dias


* * *

TEMPOS NOVOS, MUITO NOVOS - Paulo Henrique Chaves


31 de agosto de 2019
Colheita de algodão em Campo Novo do Parecis (MT)

Paulo Henrique Chaves
 
Incontáveis indígenas anelam se inserir no mundo civilizado, mas muitas ONGs e elementos da “esquerda católica” tentam impedi-los de abandonar os seus costumes selvagens. Em 2018, no Mato Grosso os índios Parecis plantaram 12 mil hectares de soja, e como “prêmio” receberam 44 multas do IBAMA, totalizando 129,2 milhões de reais. O motivo das multas? Castigo pelo fato de os índios terem plantado e colhido!

Tempos novos, muito novos mesmo, pois agora os índios querem produzir, empreender, sair do humilhante “zoológico” em que costumam ser apresentados ao mundo, espécie de cobaias para antropólogos e missionários inescrupulosos. Sem falar das ONGs que os rodeiam, gente com interesse pouco claro, mas que deixa evidente a intenção de tirar proveito disso.

Tal trama revolucionária da esquerda, em que missionários da igreja “progressista” se mostram contrários ao desenvolvimento espiritual e material dos índios, negando-lhes ensinar o evangelho, foi denunciada em 1977 por Plinio Corrêa de Oliveira, em seu livro Tribalismo Indígena – Ideal comuno-missionário para o Brasil no século XXI.

Nas suas pegadas, sempre empenhados em manter alto o estandarte alçado por este ilustre brasileiro, e, sobretudo dada a atualidade que o tema ganhou no Brasil em razão do Sínodo sobre a Amazônia, a ser realizado em Roma proximamente, fomos a Campo Novo do Parecis (MT) [foto ao lado] a fim de conhecer realidade sobre esses índios empreendedores que plantam e colhem, progridem e se civilizam.

Em fevereiro último, estiveram lá para o encerramento de um Encontro Nacional de Agricultores Indígenas, dois ministros de Estado. Na ocasião, a Ministra Tereza Cristina, da Agricultura, que é mato-grossense, declarou que a vontade dos índios é soberana, cabendo a eles decidirem o que fazer ou deixar de fazer. Já o Ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, observou que os índios plantam e produzem com muita competência, demonstrando aptidão para se integrarem ao agro sem perder suas origens.

No ensejo, os índios fizeram a ministra Tereza Cristina um pedido no qual reivindicaram crédito para aquisição de insumos e maquinário, além de mudanças na lei que os impede de comercializar o que vêm produzindo.

A ministra reafirmou a Ronaldo Paresi [foto ao lado], presidente da Cooperativa Agropecuária dos Povos Indígenas – Coopihanama, que eles merecem o mesmo apoio que os demais produtores rurais brasileiros. E espera que o exemplo deles possa contribuir para “mudar a miséria e a manipulação que existe hoje em torno dos povos indígenas do Brasil”.

Com efeito, eles vêm se destacando pela produção agrícola mecanizada de soja, milho e feijão. Na atual safra, segundo informações dos próprios indígenas, eles plantaram cerca de 19 mil hectares de grãos, produção autorizada pelos órgãos competentes.

Para a ministra Tereza Cristina, a FUNAI deve trabalhar com um novo olhar, cuidando dos direitos indígenas, sem considerá-los como “coitadinhos”, dando-lhes todas as condições para que consigam a autonomia de produzir, bem como possam desfrutar de boa qualidade de vida.

O Diretor Financeiro da Cooperativa, Adilson Paresi fez um resumo da exploração agrícola que os índios vêm fazendo. Segundo ele, “são nove terras indígenas totalizando 1.500.000 hectares, abrangendo cinco municípios circunvizinhos”.

"Nessas terras há 63 aldeias com uma população de mais de 2.000 índios”. Área correspondente à metade da Bélgica, hoje habitada por 11 milhões de pessoas. Para Adilson, “sua etnia criou uma política de autossustentação dentro do seu território”.

Tempos novos, muito novos! Chamou-nos a atenção nas aldeias, cujas casas e mesmo as ocas ainda existentes possuem luz elétrica, geladeira, freezer, televisão, sinal de internet, ventiladores… Todas as crianças de certa idade já possuem o seu celular na palma da mão.



* * *