A luz constitui um dos maiores mistérios do
universo. Somente entendendo-a ao mesmo tempo como partícula material e
como onda energética podemos ter uma compreensão mais profunda das dimensões da
luz. Hoje sabemos que todos os seres vivos emitem luz, biofotons, a partir
das células da DNA. Por isso todos nós irradiamos uma bela e brilhante
aura.
Fazia-se e faz-se ainda hoje a impressionante
comparação com o Sol, com seus raios de luz, que nasce como uma
criança. Na medida em que o Sol sobe no firmamento, vai crescendo como um
adolescente até chegar à idade adulta ao meio-dia. Pela tarde vai
definhando até ficar velho e morrer atrás da linha do horizonte. Mas,
passada a noite, ele volta a nascer, limpo, brilhante, sorridente como uma
criança.
Como não o celebrar festivamente? Como não o entender
como sinal da realidade originadora de todas as coisas? Nós todos
somos seres de luz. Fomos formados originalmente no coração das
grandes estrelas vermelhas, há bilhões de anos. Carregamos luz dentro
de nós, no corpo, no coração e na mente. Especialmente a luz da mente nos
permite compreender os processos da natureza e penetrar no íntimo das
pessoas... E assim perceber a grandiosidade e o mistério luminoso do amor
de Deus.
Nas cercanias da cidade de Ronda Alta (RS), no acostamento
de uma estrada, aproximadamente 1000 famílias de sem-terra encontravam-se
acampadas.
Certo dia, nos idos de 1980, elas receberam a visita do
Coronel Sebastião Curió. Este militar perguntou-lhes: gostariam de ir para o
norte do Mato Grosso? Era terra promissora no centro-oeste do Brasil, ainda não
desbravada.
A proposta era tentadora: o governo bancava a mudança em
caminhão, oferecia grátis aos interessados viagem de ônibus, concedia 200
hectares para o plantio e cada família receberia, durante 18 meses, um salário
mínimo.
Assim, ambas as partes ganhavam: os sem-terra sairiam das
condições inumanas e degradantes do acampamento. O governo colonizaria o
interior do país, trazendo desenvolvimento, prosperidade e desinflaria a
agitação agrária nascente no agrupamento que se transformaria no MST (Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra).
Com a desaprovação do líder do acampamento, João Pedro
Stedile, Aquilino Sirtoli, de Tapejara, foi uma das 205 famílias que aceitaram
a benéfica e vantajosa proposta.
Com a esposa, Jurema e a filhinha de 6 anos foram para o
Mato Grosso, numa viagem de três dias, no final da qual recebeu, conforme
prometido, 200 hectares de terra.
Hoje, com 70 anos, Aquilino relembra as agruras que passou
no acampamento: “A gente era da roça, morávamos num barranco de beira de
estrada. Era como pegar uma favela e trazer para cá”, diz Aquilino, com seu
inseparável chimarrão. “O governo juntou nossos caquinhos, botou num
caminhão e viemos. Chegamos aqui era só terra e mosquito, a única coisa que
havia era um batalhão do Exército”, acrescenta.
No início foi difícil. — “Eu pensei em voltar, mas
a Jurema me impediu. Ela me disse: ‘Você não dizia que ia vir mesmo sem mim?
Agora, nós vamos ficar’. E graças a Deus nós ficamos” — afirma ele.
Após cinco meses morando debaixo de uma lona, ele conseguiu
construir sua primeira casa de madeira. Enfrentou também dificuldades com o
plantio. O Instituto Nacional para Colonização e Reforma Agrária (Incra),
proibia que se plantasse soja.
— “Queriam que a gente cultivasse só frutas e
hortaliças para subsistência, diziam que assim era a reforma agrária”, afirma.
Enfrentando toda espécie de problemas, Aquilino não
desistiu. No Banco do Brasil pegou seu primeiro empréstimo. Não
conseguiu pagá-lo. Ficou com o crédito bloqueado. Perseverou e em 1985
conseguiu comprar um trator, acrescentando que levou mais cinco anos para sair
do sufoco.
Em 1990, no Mato Grosso, com o boom da soja, Aquilino
conseguiu prosperar. Comprou mais terras. Aumentou a produção. Plantou soja e
milho. Emprega hoje, quatro famílias. Tem três filhos trabalhando na terra. Ele
diz ter uma admiração enorme pelos militares que o levaram para o
Centro-Oeste.
Ele não concorda com as táticas empregadas pelo MST,
movimento de cujo embrião ele, de uma certa forma, participou.
— “O MST é das piores coisas que existem. Invadir as
terras dos outros, queimar as coisas, fazer maldade, isso não funciona”, declarou
o Sr. Aquilino, acrescentando: “Eu nunca me envolvi com política. Eu só
queria plantar”.
Aquilino e sua família moram hoje em Lucas do Rio Verde,
cidade que enriqueceu com as culturas do milho e da soja, que cresce em ritmo
extraordinário. Com 65 mil habitantes, dobrou de tamanho nos últimos 10 anos.
Das 205 famílias pioneiras, 150 já tinham voltado para o Sul nos primeiros dois
anos.
Hoje o ex-sem-terra, Aquilino Sirtoli, é dono de fazenda com
dois mil hectares (10 vezes o lote original) no Mato Grosso e proprietário de
confortável casa no centro de Lucas do Rio Verde (350 km de Cuiabá).
O leitor não concorda, depois desse exemplo, que é melhor
ensinar a pescar do que dar o peixe? Deus Nosso Senhor deu ao homem
inteligência, saúde e outros dons, que, como sementes, devemos cultivar e fazer
prosperar. Assim procedeu o Sr. Aquilino, o ex-sem-terra e hoje próspero
fazendeiro.
A Academia Brasileira de Letras, por intermédio do Arquivo
Múcio Leão, será uma das instituições que participarão ativamente na III Semana
Nacional de Arquivos, de 3 a 6 de junho, em todo o Brasil.
Um dos pontos altos da participação da ABL será a palestra
“Entre o sigilo e o acesso – a regulação jurídica dos arquivos pessoais”,
proferida por Sérgio Branco (autor dos livros Direitos Autorais na
Internet e o Uso de Obras Alheia; O Domínio Público no Direito Autoral
Brasileiro – Uma Obra em Domínio Público; e O que é Creative Commons –
Novos Modelos de Direito Autoral em um Mundo Mais Criativo).
O Acadêmico e historiador José Murilo de Carvalho, diretor
do Arquivo Múcio Leão, fará a apresentação da Conferência programada para o dia
4 de junho, terça-feira, às 15h00, na Sala José de Alencar do Centro Cultural
do Brasil, Avenida Presidente Wilson, 203, 1.° andar, Castelo, Rio de Janeiro.
Entrada franca.
Por intermédio do Arquivo Múcio Leão e sua equipe técnica,
liderada pela arquivista Sra. Maria Oliveira, os participantes da Semana – e o
público em geral – conhecerão a Exposição “As casas da Casa” (mostra de fotos
dos prédios que a ABL ocupou ao longo dos 120 anos de fundação) e farão uma
visita ao acervo audiovisual do Arquivo da ABL.
Os inscritos na III Semana também poderão fazer uma visita
técnica ao Arquivo e ao Núcleo de Conservação e Restauração (basta enviar
um e-mail para arquivo@academia.org.br),
no dia 5 de junho, quarta-feira, das 14h às 15h30, e participar de Visita
Guiada ao Petit Trianon, sede da ABL (e-mail para visita.guiada@academia.org.br),
no dia 3 de junho, segunda-feira, das 14h às 15h. O Petit Trianon abriga as
sessões solenes, ordinárias e comemorativas, e os tradicionais chás das
quintas-feiras. A Visita Guiada conta com a participação de atores que
descrevem a História da Academia e de seus membros desde a sua fundação há 120
anos.
Um dia, o burro de um camponês caiu num poço. Não chegou a
se ferir, mas não podia sair dali por conta própria. Por isso o animal chorou
fortemente durante horas, enquanto o camponês pensava no que fazer.
Finalmente, o camponês tomou uma decisão cruel: concluiu que
já que o burro estava muito velho e que o poço estava mesmo seco, precisaria
ser tapado de alguma forma. Portanto, não valia a pena se esforçar para tirar o
burro de dentro do poço. Ao contrário, chamou seus vizinhos para ajudá-lo a
enterrar vivo o burro. Cada um deles pegou uma pá e começou a jogar terra
dentro do poço.
O burro não tardou a se dar conta do que estavam fazendo com
ele e chorou desesperadamente. Porém, para surpresa de todos, o burro
aquietou-se depois de umas quantas pás de terra que levou.
O camponês finalmente olhou para o fundo do poço e se
surpreendeu com o que viu. A cada pá de terra que caía sobre suas costas o
burro a sacudia, dando um passo sobre esta mesma terra que caía ao chão. Assim,
em pouco tempo, todos viram como o burro conseguiu chegar até a boca do poço,
passar por cima da borda e sair dali trotando.
A vida vai lhe jogar muita terra nas costas. Principalmente
se já estiver dentro de um poço. O segredo para sair do poço é sacudir a terra
que se leva nas costas e dar um passo sobre ela. Cada um de nossos problemas é
um degrau que nos conduz para cima. Podemos sair dos mais profundos buracos se
não nos dermos por vencidos. Use a terra que lhe jogam para seguir adiante.
Recorde-se das 5 regras para ser feliz:
1. Liberte o seu coração do ódio.
2. Liberte a sua mente das preocupações.
3. Simplifique a sua vida.
4. Dê mais e espere menos.
5. Ame-se mais e aceite a terra que lhe jogam. Ela pode ser
a solução, não o problema.
Solenidade da Ascensão do Senhor – Domingo, 02/06/2019
Anúncio do Evangelho (Lc 24,46-53)
— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Lucas.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: “Assim
está escrito: O Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia e
no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as
nações, começando por Jerusalém.
Vós sereis testemunhas de tudo isso. Eu enviarei sobre
vós aquele que meu Pai prometeu. Por isso, permanecei na cidade, até que sejais
revestidos da força do alto”.
Então Jesus levou-os para fora, até perto de Betânia. Ali
ergueu as mãos e abençoou-os. Enquanto os abençoava, afastou-se deles e
foi levado para o céu. Eles o adoraram. Em seguida voltaram para
Jerusalém, com grande alegria. E estavam sempre no Templo, bendizendo a
Deus.
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Roger
Araújo:
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Ascensão: benção que
se expande sobre a humanidade
Macha Chmakoff
“Então Jesus levou-os para fora, até perto de Betânia.
Ali ergueu as mãos e abençoou-os.
Enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi levado para o
céu” (Lc 24,50-51)
Agora que estamos chegando ao final do tempo pascal, vale a
pena notar que a Páscoa, chave, centro e ponto de partida da fé cristã, é
um acontecimento de uma riqueza tal que é impossível descrevê-lo com uma só
imagem. Por isso, celebramos o mistério pascal durante cinquenta dias, e logo
prolongamos esta celebração cada domingo. Trata-se de um acontecimento único,
embora nós, para entendê-lo melhor, o celebremos por etapas. Dito de outra
maneira: Paixão, Páscoa, Ascensão e Pentecostes são a mesma realidade. Pode-se
falar de quatro momentos, mas, na realidade são distintas perspectivas do mesmo
Mistério.
Quê estamos celebrando com a Ascensão? A Ascensão é mais um
aspecto da cristologia pascal.
Cristo alcançou, na Ascensão, uma situação e um estado de
infinitude que lhe permite preencher tudo com sua presença definitiva, e para
comunicar-nos sua presença divina. Portanto, não se trata de uma Ascensão para
um lugar físico que o afastaria para longe da humanidade.
A nuvem que o “oculta”, enquanto subia ao céu, não está nos
indicando sua “ausência”, mas uma forma distinta de sua presença. Daqui em
diante, Jesus estará presente entre nós através de seu Espírito, cuja missão é
ser memória permanente e dinâmica para que não nos esqueçamos do que Ele disse
e fez.
Precisamos recordar que, terminada a presença histórica de
Jesus, vivemos o “tempo do Espírito”, tempo de criatividade e de crescimento
responsável. O Espírito não nos proporciona a nós, seguidores(as) de Jesus,
“receitas eternas”. Mas nos dá luz e ânimo para buscar caminhos sempre novos a
fim de prolongar hoje o modo original de ser e de atuar de Jesus. Assim Ele nos
conduz para a verdade completa de Jesus.
Lucas, o único evangelista que fala de ascensão, termina seu
relato apresentando-nos os discípulos como que pasmados, olhando para o alto e
a alguns personagens vestidos de branco que lhes repreendem: “Homens da
Galileia, porque estás aí olhando ao céu?”
Como Jesus, a única maneira de alcançar a plenitude da vida
não é “subir”, mas é “descer” até o mais profundo de nosso ser. Aquele que mais
desceu é o que subiu mais alto.
Jesus deixou suas pegadas cravadas na terra, mas os
discípulos ficaram assombrados com o olhar fixo nas alturas. Ao céu só se chega
caminhando para as profundezas de nosso ser, pois só no mais profundo de cada
um (céu interior), podemos encontrar o divino.
Não causa estranheza que, ao narrar a despedida de Jesus
deste mundo, Lucas descreva de forma surpreendente: Jesus ergue as mãos e
“abençoa” seus discípulos. É seu último gesto. Jesus volta ao Pai levantando as
suas mãos e abençoando os seus seguidores. Ele entra no mistério insondável de
Deus e sobre o mundo faz descer sua benção. Jesus deixa atrás de si sua benção.
Os discípulos, envolvidos por sua benção, respondem ao gesto de Jesus indo ao
templo cheios de alegria. E estavam ali “bendizendo” a Deus.
Saboreando com mais profundidade a narrativa da Ascensão,
caímos na conta da insistência de Lucas no tema do bendizer de Jesus:
“levantando as mãos os abençoou e enquanto os abençoava, se afastou deles...”.
Ao fixar a atenção no seu “bendizer” e fazendo uma tradução
ao pé da letra do verbo grego “eu-logeo” (“eu”= bem; “logeo”= dizer), ficamos
surpresos de que Jesus sobe aos céus dizendo coisas boas de seus discípulos e
deixando um “informe final” sobre eles, claramente positivo.
É como se, antes de partir, Jesus tivesse redigido sua
avaliação para prestar contas ao Pai e, para alívio nosso, revela-se
satisfatória e elogiosa: somos boa gente, com pontos da vida a serem melhorados
com certeza, mas, no conjunto, estamos bem. Ele leva anotadas muitas coisas boas
de nossas vidas para contá-las ao Pai.
Vamos agora contemplar o gesto das mãos de Jesus que
abençoam.
Jesus sempre gostou de “abençoar”. Abençoou as crianças, os
pobres, os doentes e desventurados. Seu gesto era carregado de fé e de amor.
Ele desejava envolver aqueles que mais sofriam, com a compaixão, a proteção e a
benção de Deus.
A partir de então, seus(suas) seguidores(as) começam sua
caminhada, animados por aquela benção com a qual Jesus curava os doentes,
perdoava os pecadores e acariciava os pequenos.
Nós, seguidores(as) de Jesus, somos portadores(as) e
testemunhas de sua benção no mundo.
Como cristãos, esquecemo-nos que somos canais da bênção de
Jesus. A nossa primeira tarefa é ser testemunha da Bondade de Deus. Manter viva
a esperança, não nos rendermos diante de tanto “maldizer”.
Deus olha a humanidade com ternura e compaixão.
Já faz muito tempo que esquecemos isso, mas a Igreja deve
ser, no meio do mundo, uma fonte de benção. Num mundo onde é tão frequente
“maldizer”, condenar, prejudicar e difamar, é mais necessária do que nunca a
presença de seguidores(as) de Jesus que saibam “abençoar”, buscar o bem, dizer
bem, fazer o bem, atrair para o bem.
A benção é uma prática enraizada em quase todas as culturas
como o melhor desejo que podemos despertar para com os outros. O judaísmo, o
islamismo e o cristianismo lhe deram sempre grande importância. E, embora em
nossos dias tenha sido reduzida a um ritual quase em desuso, não são poucos os
que ainda destacam seu conteúdo profundo e a necessidade de recuperá-la.
Abençoar é, antes de mais nada, desejar o bem às pessoas que
encontramos em nosso caminho. Querer o bem de maneira incondicional e sem
reservas. Querer a saúde, o bem-estar, a alegria..., tudo o que pode ajudá-las
a viver com dignidade. Quanto mais desejamos o bem para todos, mais possível é
sua manifestação.
Abençoar é aprender a viver a partir de uma atitude básica
de amor à vida e às pessoas. Aquele que abençoa esvazia seu coração de outras
atitudes pouco sadias, como a agressividade, o medo, a hostilidade ou a
indiferença. Não é possível abençoar e ao mesmo tempo viver condenando,
rejeitando, odiando.
Abençoar é desejar a alguém o bem do mais profundo de nosso
ser, mesmo que nós não sejamos a fonte da benção, mas apenas suas testemunhas e
portadores. Aquele que abençoa não faz senão evocar, desejar e pedir a presença
bondosa do Criador, fonte de todo bem. Por isso, só se pode abençoar numa
atitude de agradecimento a Deus.
A benção faz bem a quem a recebe e a quem a pratica. Quem
abençoa os outros abençoa-se a si mesmo. A benção fica ressoando em seu
interior, como prece silenciosa que vai transformando seu coração, tornando-o
melhor e mais nobre. Ninguém pode sentir-se bem consigo mesmo enquanto continua
maldizendo o outro no fundo do seu ser. Não é possível ser canal de benção do
Criador se do próprio coração brotam palavras de intolerância, de preconceito e
julgamento. “Maldizer” o outro é maldizer-se a si mesmo.
Texto bíblico: Lc 24,46-53
Na oração: Fazer memória dos momentos em que você foi
canal de benção para muitas pessoas.
- Você usa as redes sociais para “bendizer” ou “mal-dizer”?
José Elói Ottoni foi um poeta e político brasileiro. Poeta,
político e professor, foi o primeiro filho do fundidor da Real Casa de Fundição
do Serro, Manuel Vieira Ottoni, de descendência genoveza, e da paulista D. Ana
Felizarda Pais Leme.
Quando uma amiga francesa me disse que tinha visto uma placa
alusiva à participação dos brasileiros na Primeira Guerra Mundial no jardim do
Hôpital de Vaugirard em Paris, franzi a testa e a corrigi com um sorriso
condescendente: “Segunda Guerra”. Ela me sorriu de volta: “Não, Primeira. Me
lembro de ter visto as datas 1914-1918. Tenho certeza.”
Oi? Como assim? Nós não participamos da Primeira Guerra
Mundial! Ou participamos? Vasculhei todos os cantos da minha memória procurando
uma referência sobre isso e não encontrei nenhuma. Só encontrei o sorriso dela
de certeza. Constrangida com minha ignorância, me fingi de morta, mas registrei
mentalmente que ia checar aquela informação.
Foi assim que desci na estação de metrô Convention (linha
12) e fui caminhando pela rue Vaugirad em direção à Porte de Versailles. Cinco
minutos de caminhada e cheguei ao Jardim do Hôpital de Vaugirard. O lugar é um
pequeno oásis verde com uma longa alameda ladeada por gramados verdinhos,
muitos bancos e árvores. Flanei pelo lugar a procura da placa e depois de
alguns minutos eu a encontrei. Sim, lá estava ela. Meu francês é bem meia-boca,
mas deu pra entender o que estava escrito: “Aqui se ergueu o hospital
franco-brasileiro dos feridos de guerra criados e mantidos pela colônia
brasileira de Paris como contribuição na causa aliada 1914-1918. Placa
inaugurada por ocasião do 80° aniversário da presença da Missão Médica
Brasileira Especial na França.”
Gelei. Uma Missão Médica Brasileira na França na Primeira
Guerra Mundial? Como eu nunca ouvi falar sobre isso? Como é que eu conheço toda
a história do American Field Service, uma organização voluntária de
norte-americanos para tratar os feridos durante a Primeira Guerra e nunca
sequer ouvi falar de uma Missão Médica do meu próprio país? Imperdoável!
Com a ajuda do meu incansável amigo Google, sentei em um dos
bancos e pesquisei sobre o assunto. Descobri uma história fantástica de
coragem, sacrifício e competência quando um navio brasileiro (La Plata) saiu do
porto do Rio de Janeiro em 1918 iniciando uma viagem que seria, difícil,
perigosa e trágica.
O perigo rondava os mares com a presença dos famigerados
U-boats alemães, submarinos de alta tecnologia que afundavam qualquer barco
(política da Guerra Submarina Irrestrita) militar, mercante ou de passageiros,
mesmo de países neutros. Inicialmente neutro, o Brasil só se declarou em estado
de guerra em outubro de 1917 posicionando-se com os Aliados (EUA, França,
Grã-Bretanha) por ter tido vários navios mercantes civis brasileiros afundados
pelos alemães. Sem uma marinha ou exército preparado para conflitos da
envergadura de potências belicosas como Alemanha, Rússia, EUA e Grã-Bretanha, a
ajuda do Brasil para o esforço de guerra foi muito mais voltada à causa
humanitária. É aí que entra a Missão Médica Militar Brasileira (MMMB).
O La Plata levava a bordo 168 brasileiros entre médicos,
cirurgiões, enfermeiros e farmacêuticos voluntariados para a missão, além de
alguns oficiais da marinha e exército, cujo objetivo era chegar a Marsellha e
de lá seguir para Paris para instalar e operar um hospital com capacidade para
500 leitos para cuidar dos feridos da guerra.
Os franceses cederam o belo prédio de um antigo convento
jesuíta na rue Vaugirard e o hospital brasileiro foi instalado ali recebendo
principalmente soldados franceses classificados como “grandes feridos”. Quando
a Guerra terminou no final de 1918, o hospital, considerado pelos franceses
como de ponta, ainda funcionou até 1919 atendendo a população civil francesa
que ainda lutava contra a pandemia da gripe espanhola que varreu a Europa
naquele ano. Com a desmobilização do hospital militar, alguns médicos foram
convidados a permanecer na França, mas a maioria retornou ao Brasil.
Os franceses jamais se esqueceram desse ato fraterno dos brasileiros e alí estava
eu diante da prova, em frente àquela placa. Fiquei envergonhada por desconhecer
essa história, que é muito mais emocionante que vocês possam imaginar. Fiquei
pensando: Por que não nos falam sobre isso na escola? Por que escondem de nós
os nossos heróis? Por que nos autodenominamos “terra do samba e futebol” quando
somos tão mais que isso?
Estou escrevendo esse post por duas razões: a primeira é
para mostrar como os franceses são gratos por nossa ajuda; a segunda é para
desafiar vc a ir além da nossa mediocridade escolar. Se estiver em Paris,
visite o Jardin Hôspital Vaugirard (metrô Convention), mas antes, para dar
significado à sua visita, conheça essa história em detalhes em http://www.revistanavigator.com.br/navig20/art/N20_art2.pdfe também no livro
“O Brasil na Primeira Guerra” de Carlos Darós (ed. Contexto).
Sim, nós também temos nossos heróis... e não são aqueles que
jogam bola ou participam de reality shows.