A pintura ‘A Verdade saindo do Poço’ (1896), [mostrada
acima], é de autoria de Jean-Léon Gérôme, escultor e pintor francês, e está
ligada a uma parábola do século XIX.
Segundo essa parábola, a Verdade e a Mentira se encontram um
dia. A Mentira diz à Verdade: ‘Hoje é um dia maravilhoso!’
A Verdade olha para os céus e suspira, pois, o dia era
realmente lindo.
Elas passaram muito tempo juntas, chegando finalmente ao lado
de um poço. A Mentira diz à Verdade: ‘A água está muito boa, vamos tomar um
banho juntas!’.
A Verdade, mais uma vez desconfiada, testa a água e descobre
que realmente está muito gostosa. Elas se despiram e começaram a tomar banho.
De repente, a Mentira sai da água, veste as roupas da
Verdade e foge.
A Verdade, furiosa, sai do poço e corre para encontrar a
Mentira e pegar suas roupas de volta.
O Mundo, vendo a Verdade nua, desvia o olhar, com desprezo e
raiva.
A pobre Verdade volta ao poço e desaparece para sempre,
escondendo nele sua vergonha.
Desde então, a Mentira viaja ao redor do Mundo, vestida como
a Verdade, satisfazendo as necessidades da sociedade, porque, em todo caso, o
Mundo não nutre nenhum desejo de encontrar a Verdade nua.
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O herói
Cyro de Mattos*
Feitos superiores, inacreditáveis, aclamado como herói,
inigualável.
Coragem digna dos heróis gregos. Cada proeza inspirava
histórias de cordel surpreendentes, os trovadores vendiam os folhetos na feira.
Certa vez enfrentara uma onça preta, a mais temida entre os
grandes felinos da Mata Atlântica. Fugira do circo, invadira a rua do comércio
em plena luz do dia, faminta, há oito dias não se alimentava.
Gente correu
para dentro das lojas, as portas imediatamente fechadas.
Menino lá dentro chorava, a mãe rezava, o pai se urinava.
Lá fora correu atrás da bichona, estava prestes a abocanhar
uma criança. Saltou no cangote da fera, deu um murro no ouvido, quebrou-lhe o
pescoço com um golpe.
Pessoas apavoradas deixaram as lojas, salvas pelo herói
Hércules,abraçavam-se, sorrindo. Mais
uma vez livres do perigo. Bateram palmas demoradas para o intrépido e audaz
herói da cidade com um comércio próspero.
Outro dia
venceu os assaltantes ao banco. Ali mesmo alvejou váriosdeles com os tiros certeiros deflagrados com
o revólver cano longo, calibre 38.Saiu
na motoem perseguição do último
assaltante, o carro do vilão fazendo ziguezague na disparada. Atirou no pneu
traseiro do carro em fuga,rodopiou,
capotou e bateu no poste.
Trêmulo, obandido
cabeludo, abarba crescida, tatuagem de
mulher nua no pescoço. A arma apontada na sua cabeça. Pedia com o rosto
choroso, tenha dó, seu Hércules,não vou
fazer mais isso, eu lhe prometo, não me dê uma surra, seja piedoso.
Recebido com palmas calorosas, vivas, assovios dos que
assistiram as cenas, pasmos. Todos sabiam outra vez que com o seu herói
infalível a cidade estava segura. Onde aquele homemde cara fechada conseguira tanta coragem?
Quando veio ao mundo, contam os mais antigos, ele foidizendo logo, aqui chegueiparaderrotar os malvados, proteger os injustiçados, não tenho medo de cara
feia, lobisomem, muito menos de almaserva do demônio.
O Prefeitobaixou
decreto honroso, considerando seus feitos altamente corajosos, cívicos,
exemplares. Seria condecorado com a Medalha Fundador Filinto Sabre, o homem que
penetrou amata hostil, pegoucobra com a mão, esmagou com o pé, afugentou
onça solteira ou acasalada,comeu
inseto, bebeu água de ribeirão com a concha da mão calosa.Depois dele tudo ficou mais fácil na selva
hostil e impenetrável.De todas as
partes os forasteiros chegavam, os acampamentos na mata viravam vilas, em
poucos anos eram cidades.
Foi chamado
ao palco no dia do centenário da cidade. Todos aplaudiram de pé. Antes que
fosse condecorado com a distinção cobiçada, a mais alta honraria do executivo
municipal, gaguejou com uma voz amedrontada diante do homem vermelhuço, rosto
flácido, narigudo, orelhasde abano, um
olho de vidro,em posição solene.
- Tire ela
daqui, está perto de meu pé; se não tirar, saio correndo.
Acrescentou o
herói, em pânico:
- Desde
pequeno tenho medo de barata!
*Cyro de Mattosé poeta e ficcionista. Possui prêmios
literários importantes. Publicado também em Portugal, Itália, França, Alemanha,
Estados Unidos, Rússia e Dinamarca. Membro efetivo da Academia de Letras da
Bahia e Pen clube do Brasil. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual
de Santa Cruz. Autor de mais de 50 livros de diversos gêneros.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Lucas.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, vieram algumas pessoas trazendo notícias a
Jesus a respeito dos galileus que Pilatos tinha matado, misturando seu sangue
com o dos sacrifícios que ofereciam. Jesus lhes respondeu: “Vós pensais
que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por
terem sofrido tal coisa? Eu vos digo que não. Mas se vós não vos
converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo.
E aqueles dezoito que morreram, quando a torre de Siloé caiu
sobre eles? Pensais que eram mais culpados do que todos os outros moradores de
Jerusalém? Eu vos digo que não. Mas, se não vos converterdes, ireis morrer
todos do mesmo modo”. E Jesus contou esta parábola: “Certo homem tinha uma
figueira plantada na sua vinha. Foi até ela procurar figos e não
encontrou. Então disse ao vinhateiro: ‘Já faz três anos que venho
procurando figos nesta figueira e nada encontro. Corta-a! Por que está ela
inutilizando a terra?’
Ele, porém, respondeu: ‘Senhor, deixa a figueira ainda este
ano. Vou cavar em volta dela e colocar adubo. Pode ser que venha a dar
fruto. Se não der, então tu a cortarás’”.
Ligue o vídeo abaixo e acompanha a reflexão do Pe. Roger
Araújo:
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O círculo infernal da culpa
James Tissot
“Pensais que eram mais culpados do que todos os outros
moradores de Jerusalém?” (Lc 13,4)
O evangelho deste domingo, exclusivo de Lucas, apresenta uma
reflexão sobre a conversão, em forma de parábola, a partir de dois
acontecimentos trágicos que causaram comoção no povo judeu. O relato traz à
tona este eterno problema: é o mal consequência de um pecado? Assim pensavam os
judeus no tempo de Jesus e assim continuam pensando a maioria dos cristãos
hoje. Ou seja, uma “visão distorcida” de Deus, leva a acreditar que tudo o que
acontece é manifestação de sua vontade. Os males são considerados castigos e os
bens são considerados prêmios.
Para entender a “novidade” da resposta de Jesus, é preciso
saber que, na mentalidade judaica, a enfermidade e o mal, em geral, eram
consequência do próprio pecado. A ausência do mal, pelo contrário, era
considerada sinal da benção divina. Por isso, aqueles que sofriam qualquer
calamidade ou enfermidade se convertiam automaticamente em objeto de juízo
condenatório por parte dos outros; diante do olhar preconceituoso e julgador,
eles se sentiam acuados por um angustiante sentimento de culpabilidade e
desesperança. A desgraça os limitava; a culpabilidade os afundava.
Jesus se declara completamente contra essa maneira de
pensar. Ele se distancia dessa ideia tradicional, desatando o nó “religioso”
entre sofrimento e pecado, entre culpa e o mal. Para Jesus, a relação de Deus
conosco se situa numa dimensão mais profunda. Devemos deixar de interpretar
como atuação de Deus aquilo que é próprio das forças da natureza ou
consequência da maldade e violência humana. Nenhuma desgraça que possa nos
alcançar devemos atribui-la a um castigo de Deus.
Devemos romper com essa ideia de Deus, senhor ou patrão
soberano que, a partir de fora nos vigia e exige seu tributo. De nada serve
camuflá-la com estas sutilezas: “Pode ser que Deus não castigue nesta vida, mas
castigará na outra vida”; “Deus nos castiga, mas é por amor e para salvar-nos”;
“Deus castiga só os maus”; “Merecemos o castigo, mas Cristo, com sua morte, nos
livrou dele”. Pensar que Deus nos trata à base de pancadas e prêmios, é
ridicularizar a Deus e ao ser humano.
Somos tecidos pela culpa desde o nascimento; somos
acompanhados por ela durante toda a vida. Ela nos prende facilmente em suas teias,
impedindo a manifestação da força vital que há em nós. Sabemos que o sentimento
de culpa pode ser paralisante, ameaçador, freio e obstáculo tanto para o
desenvolvimento de uma comunidade humana quanto para o crescimento de uma
pessoa; esta, centrada no próprio eu, fica “ruminando” seus limites e
fracassos, caindo no desespero e não percebendo nenhuma saída para sua
situação.
O sentimento de culpa causa sérios danos que acabam
afundando existencialmente as pessoas: isso gera a irresponsabilidade que infantiliza,
a passividade que leva ao fanatismo, a atrofia da criatividade, o medo
paralisante, o sentimento de indignidade... Também a imagem do Deus Amoroso, do
Deus vivo e prazeroso, do Deus livre e libertador, fica diminuída segundo o
tamanho de nossa consciência e inconsciência, marcadas pela
culpabilidade.
Por obra e força da culpa, “Deus” converte-se em “deus” de
morte, em “deus” oprimido e opressor, em “deus onivigilante”, que investiga
morbidamente nossa interioridade para captar e julgar qualquer desvio. A este
“deus” nada escapa: ele vê tudo, escuta tudo, controla tudo... A mensagem
alegre do Evangelho se perverte e a vivência cristã deixa-se invadir por um
mal-estar difuso, uma tristeza, uma angústia, um pesar... que muitas vezes
tornam difícil reconhecer no anúncio de Jesus uma mensagem da Boa Nova. “Assim
como Deus nos libertou do pecado... torna-se urgente libertar Deus da culpa”
(Dominguez Morano). Um “Deus de vida” nos foi revelado, mas nossa culpa o
transformou num “Deus de morte”. “Libertar Deus da culpa” significa “deixar
Deus ser Deus”, abrir espaço para que Ele manifeste sua presença providente e
amorosa.
A atitude sadia, portanto, é a da responsabilidade, como
sentimento maduro de quem entende a vida como “resposta” (essa é sua etimologia)
coerente com as diferentes situações que se apresentam. É a responsabilidade
que desperta pesar e dor nas ocasiões em que, afastando-nos da fidelidade ao
melhor de nós mesmos, provocamos dano aos outros ou ao nosso meio. Mas esse
pesar doloroso, diferente da culpabilidade, não paralisa nem afunda, senão que
mobiliza para a mudança.
A consciência responsável, de modo especial, nos move para a
cura, a reparação; ao longo da experiência, com a ajuda da Graça e em constante
discernimento, poderemos experimentar a contrição que leva à mudança, à
busca de alternativas melhores de comportamentos e atitudes, a assumir modos de
agir que tornem possível uma vida mais plena e amorosa. Só quando tomamos
consciência do dano feito é possível restaurar as condições que favoreçam logo
um viver mais feliz e pleno.
É esta responsabilidade que podemos associá-la com a
conversão, pedida pelo evangelho de hoje. Porque o “perecer” de que fala não
deve ser entendido em chave de ameaça nem castigo, mas simplesmente como a consequência
de uma atitude e um comportamento desajustados. “Se não vos converterdes, todos
perecereis”. A expressão não traduz adequadamente o grego “metanoia”, que
significa “mudar de mentalidade, ver a realidade a partir de outra
perspectiva”.
Jesus não diz que aqueles que morreram nas duas tragédias
não eram pecadores, mas que todos somos igualmente pecadores e precisamos mudar
de rumo. Sem uma tomada de consciência de que o caminho que fazemos nos leva ao
abismo, nunca estaremos motivados para evitar o desastre. Se somos nós que
vamos caminhando para o abismo, só nós podemos mudar de rumo.
Todos devem assumir a responsabilidade de suas ações. Não
somos marionetes nas mãos de Deus, mas pessoas, ou seja, seres autônomos que
devemos assumir nossa responsabilidade. A melhor tradução seria: “se não
aprendes, inclusive com os erros, perecerás”. Dizendo de um modo mais simples:
se não somos responsáveis, se não respondemos humanamente aos diferentes
desafios que a vida nos apresenta, estaremos fechando a saída, alimentando
infelicidade para nós mesmos, tornando a convivência impossível e destruindo o
planeta; ou seja, estamos provocando nosso próprio desastre.
Libertados do “círculo infernal da culpa”, agora sim,
podemos aderir à novidade do Reino, na plenitude da alegria e da festa. Temos
diante de nós a nobre missão de transformar a realidade em Reino, e isso não
será possível enquanto vivermos aprisionados nas malhas da culpa; enquanto a
lei, o pecado e a culpa nos enredarem, não será possível perceber a novidade do
Reino, que conduz à própria liberdade e à dos outros, à própria aceitação de si
mesmo e à aceitação e ao amor aos outros.
O “Deus de Jesus” é Aquele que nos descentra e nos lança à
realidade, com toda a dureza que esta pode nos apresentar em muitos momentos de
nossa existência; em lugar de solucionar os problemas, Ele prefere nos
dinamizar para que nós mesmos trabalhemos na busca de soluções. Deus é a
plenitude de todas as aspirações humanas. Não há porque temer o Deus de
Jesus.
Texto bíblico: Lc 13,1-9
Na oração: Examinar com cuidado a origem dos
sentimentos de culpa, pode produzir um grande avanço no caminho da saúde
interior e espiritual. Esclarecer, desmascarar a culpa, pode ser muito
libertador, pois fortalece nossa atitude esperançosa; nossa relação com Deus,
com o mundo e com os outros revela-se mais transparente e otimista.
- Sua relação com Deus tem a marca da confiança amorosa ou
está carregada de culpa paralisadora?
"Chega ao fim uma semana difícil marcada por tragédias
que comoveram muito. Felizmente, nem tudo são lágrimas. Essa semana também teve
quatro excelentes notícias sobre as quais você não deve ter lido muito, mas que
terão grande impacto sobre sua vida no futuro próximo:
1. O presidente assinou o decreto 9.723/19 que simplifica a
apresentação de documentos em processos federais. A partir de agora, ninguém
precisa mais ir ao banco, cartório, ou qualquer outra agência levando um
carrinho de mão cheio de papéis, basta o CPF.
2. Na quinta feira o presidente assinou decreto que extingue
21.000 cargos comissionados, funções, e gratificações na esfera federal,
gerando economia de 195 milhões de reais anuais ao Tesouro, dando um golpe
certeiro na prática de aparelhamento do governo.
3. Na sexta-feira foram arrecadados 2,377 bilhões de reais em
outorga no leilão de aeroportos, superando a expectativa, o que foi considerado
por especialistas um sucesso para a retomada de investimentos em infraestrutura
no país - setor essencial para o crescimento da economia brasileira.
4. Otimista com os rumos e as perspectivas da economia, na
sexta-feira o índice Bovespa subiu e atingiu nível recorde de 99 mil pontos
pela primeira vez em sua história.
Essas notícias, que deveriam ter virado manchetes de
primeira página em letras garrafais, foram relegadas a notas de rodapé porque
fazem parte de uma pauta proibida. Existe um pacto silencioso na grande
imprensa para desconstruir a reputação do novo governo com a promoção, difusão
e ampliação apenas de notícias ruins ou constrangedoras".
A recente visita oficial do presidente Bolsonaro
acompanhado de vários Ministros aos EUA, a distinção e acolhida norte-americana
proporcionada à delegação brasileira, os acordos estabelecidos ou em
andamento produziram desconcerto da esquerda nacional e internacional.
Uma esquerda míope e canhestra, antibrasileira antes de
tudo, procura desfocar um dos objetivos da viagem que é a aproximação de
dois gigantes de orientação antissocialista.
Comentou o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a conservadores
americanos que visitaram a TFP brasileira na década de 80: “desejamos
um certo teor de relação entre EUA e a América do Sul; nós achamos que esse
teor de relação está comprometido por duas péssimas manobras: no Brasil, uma
ação anti norte-americana, [que tomou toda a sua força hostil nos governos
petistas]; nos Estados Unidos, pela ignorância e pelo desinteresse em relação à
América do Sul”.
Soam nesse sentido as recentes palavras do Presidente e a do
Chanceler Ernesto Araújo: “a integração latino-americana era considerada
algo para blindar a América Latina da influência dos Estados Unidos.
Claramente, nós não queremos que o Mercosul se torne um instrumento contra
os Estados Unidos, como ocorreu em governos recentes no Brasil”*
Como acentuou o Prof. Plinio, auguramos também que
cesse, nos Estados Unidos, essa “ignorância e desinteresse em relação à América
do Sul”.
A pressão da China e da Rússia comunistas na América Latina,
lançando aqui seus tentáculos envenenados, só faz clamar por essa estreita
relação Brasil-EUA.
* * *
Não somos políticos, nem diplomatas, nem empresários. Nossa
especialização é cultural, nossas raízes são cristãs, nossa orientação
político-social é antissocialista e anticomunista baseada no ensinamento
tradicional dos Papas.
Vemos, pois, com o maior interesse essa nova aproximação
Brasil-EUA. Esse é o ponto de incidência que as esquerdas procuram
silenciar ou denegrir; nós, pelo contrário, vamos somar as qualidades e formar
um bloco coeso, tradicional e antissocialista. O que só engrandece nosso País!
A Virgem de Guadalupe, Padroeira das Américas ilumine,
abençoe e dê forças a nossos dirigentes rumo à nossa gloriosa missão.
O jurista Modesto Carvalhosa, na Veja, explica os nove
motivos para o impeachment de Gilmar Mendes:
“1. Gilmar telefonou espontaneamente a Silval Barbosa,
ex-governador de Mato Grosso, horas antes preso em flagrante na Operação
Ararath, hipotecando-lhe solidariedade e prometendo interceder a seu favor
junto ao ministro Toffoli, que relatava o inquérito. Silval Barbosa é, nas
palavras do ministro Luiz Fux, o protagonista de uma delação monstruosa.
2. Gilmar votou contra a prisão do secretário da Casa Civil
e da Fazenda desse mesmo ex-governador. Éder de Moraes Dias, segundo a Polícia
Federal, foi o principal operador do esquema de corrupção descoberto na
Ararath.
3. Gilmar teve inúmeros encontros privados com o presidente
Michel Temer, fora da agenda oficial, alegando velha amizade, e, ainda assim,
com voto de minerva no Tribunal Superior Eleitoral, absolveu a chapa
Dilma-Temer de abuso de poder político e econômico na última campanha, de
maneira a preservar o mandato do amigo. Nesse processo, a ex-mulher de Gilmar,
Samantha Ribeiro Meyer-Pflug, emitiu parecer favorável a Temer, que depois
viria a nomeá-la conselheira da Itaipu Binacional, sem contar que o presidente
ainda tornou um primo de Gilmar, Francisval Dias Mendes, diretor da Agência
Nacional de Transportes Aquaviários.
4. Gilmar, agindo como verdadeiro soldado do PSDB, a
despeito de ser o relator de quatro entre nove inquéritos contra Aécio Neves,
aceitou o pedido deste para convencer o senador Flexa Ribeiro a seguir
determinada orientação no tocante a projeto de lei de abuso de autoridade.
5. Gilmar, desprezando o fato de que sua atual mulher
trabalha no escritório que defendia os interesses do notório Eike Batista,
mandou libertá-lo da prisão.
6. Gilmar, por três vezes, livrou do cárcere Jacob Barata
Filho, milionário do setor de transportes do Rio de Janeiro, cuja filha se
casou com o sobrinho de Guiomar Mendes, mulher do ministro. Mais: Francisco
Feitosa, irmão de Guiomar, é sócio de Barata.
7. Gilmar mandou soltar o ex-presidente da Federação das
Empresas de Transporte de Passageiros do Rio Lélis Marcos Teixeira, cliente,
como Barata, do escritório de advocacia integrado pela esposa do ministro.
8. Gilmar votou no processo de anulação da delação premiada
dos proprietários do grupo J&F, a despeito de a JBS haver patrocinado com
2,1 milhões de reais eventos do Instituto de Direito Público (IDP), empresa da
qual o ministro é sócio.
9. Gilmar determinou a soltura do ex-presidente da
Assembleia Legislativa de Mato Grosso José Riva, conhecido como “o rei da ficha
suja no Brasil”, que foi defendido por Rodrigo Mudrovitsch, não só professor do
IDP mas também advogado do ministro em outra causa.”
Guerra se vence com soldados, canhões, estratégia, boas
alianças, propaganda, dinheiro. Repito aqui constatações conhecidas da
sabedoria convencional. Sob outro ângulo, no período da descolonização (o
pós-guerra) apareceu o dito: “A guerra nas colônias se ganha nas
metrópoles”. Não era só aquilo posto acima, havia mais. De outro modo, em
muitas ocasiões a guerra se vence sobretudo nos embates da opinião pública.
Assim foi com os Estados Unidos, perderam a guerra do Vietnam nas suas grandes
cidades. De quase nada adiantou o poderio técnico e o heroísmo dos soldados nos
campos de batalha do sudeste asiático. Assim foi com a França. Assim foi com a
Inglaterra.
Napoleão Bonaparte punha outro fator na dianteira: “Raramente
tirei a espada, porque ganhava as batalhas com os olhos e não com minhas armas”.
Era a presença do Corso, e nela o olhar, galvanizando as energias dos batalhões
que então se lançavam com frequência irresistivelmente ao ataque. Mudou a
história da Europa, até do mundo. Em geral para o mal, infelizmente.
Sun Tzu, quatro séculos antes de Cristo, ensinou em “A Arte
da Guerra”: “Os que conseguem que se rendam impotentes os exércitos
inimigos sem lutar, são os melhores mestres da arte da guerra. Um verdadeiro
mestre das artes marciais vence forças inimigas sem batalha, conquista cidades
sem assediá-las. A vitória completa se produz quando o exército não luta, a
cidade não é assediada”. Curto, a guerra se ganha ou se perde no dinamismo das
convicções e propensões interiores, antes que nas armas.
Presenciei fato que tem analogias com as realidades acima
ventiladas. Foi há uns 15 anos em sala festiva; não darei os nomes, pois as
pessoas estão por aí. Era comemoração, sentava-me distraído atrás de um
ex-presidente da República e de seu antigo ministro da Justiça. Falava o homenageado,
episódios da vida na empresa, plateia entretida. O antigo ministro da Justiça
sussurrou nos ouvidos do ex-presidente: “Está explicado o sucesso da
construtora, o homem tem estilo”. Para o político ladino, o grande êxito do
empresário não vinha do dinheiro, não vinha dos técnicos, não era
marketing: “o homem tem estilo”.
Pode parecer outro pulo, mas continuo no mesmo rumo. Corria
março de 1958 (três meses antes da Copa do Mundo), jogo simples entre o América
do Rio e o Santos. Pelé tinha 17 anos, relativamente pouco conhecido, era
apenas um entre vários no campo. Nelson Rodrigues, na crônica da partida,
intitulada “A realeza de Pelé”, comentou: “Anda em campo com uma dessas
autoridades irresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei. Do seu peito, parecem
pender mantos invisíveis. O que nós chamamos de realeza é, acima de tudo, um
estado de espírito. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem
considerável — a de se sentir rei, da cabeça aos pés. Com Pelé no time ninguém
irá para a Suécia com a alma dos vira-latas. Os outros é que tremerão diante de
nós”. O Brasil, três meses depois, pela primeira vez ganhou a Copa.
Existe, às vezes benéfica, por ocasiões maléfica,
indefinível força interior, constatada por todos ou, quando menos pelo que
sabem ver, impressionante, decisiva, que se exprime no estilo, atitude, olhar,
passo, conduta, porte, segurança, carisma. No jeitão. As vitórias e derrotas
humanas, mais que o dinheiro, os ótimos silogismos e a organização, devem-se a
fatores imponderáveis (ou muito dificilmente ponderáveis e explicitáveis), como
os relatados acima. O que são? Impulsos potentíssimos, não raro bafejados pela
graça ou pela tentação. Contra eles, quando aviventam o mal, existe reação
possível? É difícil, mas o começo está na temperança, cabeça fria e raciocínios
claros.
Pretendia falar sobre a situação do Brasil. O que estará nos
esperando na esquina, já agora maquinado debaixo de nossos narizes? Daqui a
quatro anos, o que supor que enfrentaremos? Pensando bem, tratei da situação
brasileira, ainda que tenha deixado de lado no momento a corrupção,
privatização, estatismo, reforma da Previdência, posição da alta magistratura,
Lava-Jato, articulação da esquerda (CNBB, PT, PSOL, sei lá mais o quê), avanço
da China, Venezuela, pingos ácidos de desmoralização sobre correntes antipetistas.
Reconheço, sem nenhuma reserva, são assuntos fundamentais, reclamam análise
urgente, embebida de discernimento. Mas ficam para próximo texto, meu espeço
acabou.
Guerra se vence com soldados, canhões, estratégia, boas
alianças, propaganda, dinheiro. Com olhos. Não nos esqueçamos, no panorama
podem estar atuando fatores pouco notados, enormemente importantes — fatos,
pessoas, modas, estímulos, proibições tácitas. Espero, o texto terá o condão de
atrair, ainda que brevemente, a atenção sobre eles. Dar-me-ia por satisfeito.