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domingo, 23 de setembro de 2018

PESQUISADOR ENCONTRA LETRA DO HINO NACIONAL INÉDITA ESCRITA POR MACHADO DE ASSIS


Versos inéditos foram escritos em 1867 para celebrar aniversário de dom Pedro 2º


Machado de Assis fotografado por Marc Ferrez – Divulgação

22.set.2018 – Ilustrada- Folha
Maurício Meireles
SÃO PAULO

Os velhos papéis, quando não são consumidos pelo fogo, às vezes acordam de seu sono para contar notícias do passado.

É assim que se descobre algo novo de um nome antigo, sobre o qual já se julgava saber tudo, como Machado de Assis.

Por exemplo, você provavelmente não sabe que o autor carioca, morto em 1908, escreveu uma letra do hino nacional em 1867 - e não poderia saber mesmo, porque os versos seguiam inéditos. Até hoje.

Essa letra acaba de ser descoberta, em um jornal antigo de Florianópolis, pelo pesquisador independente Felipe Rissato - o mesmo que, nos últimos anos, fez diversas descobertas sobre Machado de Assis e Euclydes da Cunha, incluindo fotos e textos desconhecidos dos autores.

“Das florestas em que habito/ Solto um canto varonil:/ Em honra e glória de Pedro/ O gigante do Brasil”, diz o começo do hino, composto de sete estrofes em redondilhas maiores, ou seja, versos de sete sílabas poéticas. O trecho também é o refrão da música.

O Pedro mencionado é o imperador dom Pedro 2º. O bruxo do Cosme Velho compôs a letra para o aniversário de 42 anos do monarca, em 2 de dezembro daquele ano—o hino seria apresentado naquele dia no teatro da cidade de Desterro, antigo nome de Florianópolis.

“As pesquisas que tenho feito comprovam que há muitas coisas [de Machado] sabidamente perdidas, como peças dramáticas, e várias outras coisas cuja existência era desconhecida, como uma crônica anônima [que descobri]”, afirma Rissato.


Edição do jornal O Constitucional, em 1867, com hino nacional escrito por Machado de Assis /Reprodução

Rissato sabia desde 2016 da existência desse hino, porque o jornal O Mercantil, guardado no acervo da Biblioteca Nacional, anunciava na véspera um “esplêndido espetáculo”.

“Ao levantar o pano ver-se-á em riquíssimo dossel, e, em ponto natural, a efígie de S. M. o Imperador, tal qual este Adorado Monarca se apresenta por ocasião da fala do trono e será cantado pela companhia o Hino Nacional sendo a letra apropriada a este dia, pelo distinto escritor brasileiro o Snr. Machado d’Assis”, dizia o anúncio.

Mas O Mercantil não publicou, nas edições seguintes, a transcrição da letra. A chave para o mistério estava num jornal catarinense chamado O Constitucional, em duas edições de 1867.

Em uma delas, a publicação avisa que o espetáculo do dia 2 foi adiado, porque dois músicos ficaram doentes. Em outra, de 11 de dezembro daquele ano, transcreve a letra—mas não cita o nome do autor dela.

“Enche o peito brasileiro/ Doce luz, almo fervor,/ Ante o dia abençoado/ Do seu grande Imperador”, escreve Machado em outro trecho.

As publicações foram preservadas no acervo da Biblioteca Pública de Santa Catarina. No Rio de Janeiro, a Biblioteca Nacional só tem edições de O Constitucional a partir de 1868 —ou seja, um ano após a execução do hino de Machado de Assis.

A descoberta de Rissato também se soma à história dos hinos imperiais brasileiros. O primeiro deles, “O Hino da Edição do jornal O Constitucional, de 1867, com hino nacional escrito por Machado de Assis /Reprodução Independência”, foi composto por dom Pedro 1º em 1822. Depois da abdicação do imperador em favor do filho, em 1831, surgiria mais um, escrito por Ovídio Saraiva de Carvalho e Silva.

Houve mais um hino imperial, de data incerta e autor desconhecido —a referência mais antiga aos versos é uma partitura publicada em 1869, mas provavelmente ele foi escrito para a coroação de dom Pedro 2º, em 1841.

Assim, o hino de Machado se torna o quarto conhecido do império, antes da chegada do atual, já na República, escrito por Osório Duque Estrada.

Os versos foram compostos pelo autor de “Dom Casmurro” em uma época em que ele era principalmente poeta. Seu primeiro romance, “Ressurreição”, só viria em 1872. Já “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, só em 1881.

A produção poética de Machado é pouco conhecida, mas ele se dedicou a versos de ocasião - e não era a primeira homenagem que ele fazia à família imperial.

No aniversário de 30 anos de Pedro 2º, ele já havia composto um soneto para o monarca: “Nesse trono, Senhor, onde esculpido/ Tem a destra do Eterno um nome amado,/ Vês nascer este dia abrilhantado/ Sorrindo a ti, Monarca esclarecido!”.

Os versos permitem ver uma simpatia de Machado pela monarquia. Em 2015, descobriu-se, na fotografia clássica da missa campal pela abolição da escravatura, o rosto de Machado entre as figuras próximas à princesa Isabel - o que denota prestígio na corte.

Em 1867, mesmo ano em que escreveu o hino, o escritor seria nomeado para seu primeiro emprego ligado ao sistema monárquico, de assistente do diretor do Diário Oficial. Em 1873, o autor virou primeiro oficial da secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas -  iniciando ali uma carreira de burocrata de toda a vida.

O achado se soma a outros realizados por Felipe Rissato nos últimos anos. O mais recente havia sido a descoberta do que agora é a última fotografia de Machado, feita meses antes de ele morrer. Antes disso, ele já havia encontrado a única imagem do autor presidindo uma sessão na Academia Brasileira de Letras e uma crônica anônima dele sobre a morte da mãe.

Machado ficou órfão em 1849, aos nove anos, e, no texto, contava como corria atrás de borboletas azuis e colhia flores para dar a ela. “Eu sem ti, sem o perfume da flor que me fazia feliz e crente, chorarei sempre sem consolação; porque uma mãe perde-se uma vez e nunca mais se encontra”, escreveu na ocasião.

Agora, o desejo de Rissato é encontrar um poema de Machado intitulado “À S. M. a Imperatriz”, dedicado à imperatriz Teresa Cristina e recitado nas festividades de 7 de setembro de 1889, a última comemoração da Independência antes de a República ser proclamada. Embora mencionado em publicações, o texto continua perdido.




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PALAVRA DA SALVAÇÃO (97)


25º Domingo do Tempo Comum – 23/09/2018

Anúncio do Evangelho (Mc 9,30-37)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Marcos.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, Jesus e seus discípulos atravessavam a Galileia. Ele não queria que ninguém soubesse disso, pois estava ensinando a seus discípulos. E dizia-lhes: “O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens, e eles o matarão. Mas, três dias após sua morte, ele ressuscitará”.
Os discípulos, porém, não compreendiam estas palavras e tinham medo de perguntar. Eles chegaram a Cafarnaum. Estando em casa, Jesus perguntou-lhes: “O que discutíeis pelo caminho?”
Eles, porém, ficaram calados, pois pelo caminho tinham discutido quem era o maior. Jesus sentou-se, chamou os doze e lhes disse: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!”
Em seguida, pegou uma criança, colocou-a no meio deles e, abraçando-a, disse: “Quem acolher em meu nome uma destas crianças, é a mim que estará acolhendo. E quem me acolher, está acolhendo, não a mim, mas àquele que me enviou”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz, OFM:

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Uma criança no centro


“Jesus tomou uma criança, colocou-a no meio deles e, abraçando-a..” (Mc 9,36) 

No evangelho de Marcos, o “caminho” representa o itinerário de formação do discipulado. Jesus não quer um grupo de fanático que lhe entoem vivas a seu nome, mas um grupo de pessoas responsáveis que sejam capazes de assumir Seu projeto, em favor da vida, ou seja, o Reino de Deus. Por esta razão, seus esforços se concentram no ensinamento de seus seguidores. Mas, a instrução parte dos desacertos e das incompreensões que eles vão revelando ao longo do trajeto para Jerusalém.

No evangelho deste domingo, Jesus utiliza uma estratégia pedagógica muito criativa: retoma a discussão dos discípulos que, no caminho, estavam concentrados não em Seu ensinamento, mas na partilha dos cargos burocráticos de um hipotético governo. Jesus reconduz a discussão mediante um exemplo tomado da vida diária: coloca uma criança no meio deles. Tal gesto revela como o presente e o futuro da comunidade dos seus seguidores(as) está em colocar no centro não as próprias ambições, mas as pessoas mais simples e excluídas. Só assim se reverte o sistema social de valores; e só assim, a comunidade torna-se uma alternativa inspirada frente ao mundo, que só sabe colocar no centro as pessoas ricas e poderosas. A novidade de Jesus consiste em tornar grande quem é pequeno, despojado de poder e prestígio. 

Os discípulos queriam construir a Nova Comunidade em bases de poder, a partir do maior e do primeiro. Mas Jesus não precisa de maiores nem primeiros, busca os últimos e servidores; quer pessoas que saibam se colocar no final, para ajudar os outros a partir desse espaço, superando a lógica do mando. Ao falar assim, não combateu um simples vício de egoísmo, mas inverteu as estruturas mesmas da velha sociedade, edificada a partir dos poderosos.

Ninguém briga para disputar o último lugar. Todos discutimos e buscamos o primeiro lugar. Essa foi também a conversação dos discípulos pelo caminho. Ninguém estava disposto a ser o último; todos queriam ser os primeiros. E isso porque Jesus acabara de anunciar, de novo, a entrega de sua vida em favor dos outros, em serviço de amor. Por isso, quando, em casa, lhes pergunta - “O que discutíeis pelo caminho?” -, todos ficaram mudos. Agora ninguém quer dar a cara; todos são inocentes. Com sua pergunta, Jesus quer que tragam à luz seus íntimos e perversos sentimentos, mas guardam silêncio porque sabem que não estão de acordo com o que Ele vinha lhes ensinando. Entre eles, continuam na dinâmica da busca do domínio e do poder.

Os discípulos haviam discutido sobre quem é (ou deve ser) o maior. Como todo grupo humano, também no grupo de Jesus surgiram invejas, desejos de liderança, disputas sobre privilégios. Mas Jesus não é um ditador, não impõe seu domínio pela força; Ele sabe que seu grupo de seguidores tenderá a dividir-se em grupinhos de influência ou prestígio; Ele tem consciência que onde predomina o poder, a vaidade, a força... alí não há possibilidade de uma verdadeira comunidade. 

Só superando a lógica do desejo de poder é que se pode edificar o reino da nova humanidade, um mundo onde os mais fracos e vulneráveis possam viver em amor e crescer em vida. Jesus já tinha apresentado seu projeto em chave de ruptura social e religiosa, investindo toda sua vida em favor dos outros. Ele desencadeou um “movimento humanizador”, onde não há lugar para o domínio, a imposição, mas espaços de gratuidade e de ajuda mútua, abertos aos mais necessitados, a partir de uma perspectiva de entrega da vida. Seu projeto revelou-se luminoso, mas, humanamente falando, parecia inviável, pois todo grupo humano busca organizar-se numa estrutura de poder, e os discípulos de Jesus pretendiam fazer isso, de maneira que alguns pudessem ocupar os lugares-chave da comunidade. Por isso, para inverter esse modelo e criar uma comunidade diferente, Jesus toma uma criança e realiza um gesto provocativo: coloca-a no centro e a abraça. 

Os discípulos conspiram, buscando poder e prestígio; no entanto, Jesus descobre e desmascara tal conspiração, oferecendo amor (abraçando) a uma criança. Dessa forma, a autoridade (colocá-la no meio) se torna ternura: a criança é importante porque está à mercê dos demais e necessita carinho. Jesus põe a criança no centro de todos. Os discípulos buscam o centro, mas o verdadeiro centro da Vida de Deus está já ocupado pela criança a quem Jesus a coloca de pé, em sinal de autoridade, no meio do círculo onde Ele mesmo havia se situado, convertendo-a em autoridade máxima.

Aqui aparece um Jesus escandaloso, messias de ternura que não só abraça as crianças, senão que propõe esse gesto como sinal de identidade de seu discipulado e reino. A mesma criança aparece assim como autoridade, sinal do messias (“quem a recebe, a mim me recebe”). 

No espaço central da Igreja, abraçada a Jesus, encontramos uma criança; a nova comunidade passa a ser lugar para o abraço. Ambos, Jesus e a criança, formam a verdade messiânica. Com esta imagem desaparecem os modelos de domínio e prestígio (ser maior, ser primeiro, ter mais poder). A criança é a maior e a primeira, não é preciso buscar mais. A partir daí se pode falar de igreja: quem acolhe a criança, oferecendo-lhe espaço para o abraço no centro da casa, esse, sim faz parte da comunidade cristã. 

Frente aos discípulos patriarcalistas que buscavam o domínio e o poder (ser grandes, conquistar com risco os primeiros lugares) Jesus elevou aqui o modelo de uma Igreja que é família, lar materno a serviço dos pequenos, lugar da acolhida e do crescimento das crianças. O Jesus de Marcos superou um modelo de família patriarcalista, entendida como hierarquia de poder; ao iniciar um movimento de vida nas casas, Jesus insiste na necessidade de que toda a comunidade de seus seguidores atue de um modo materno-paterno, acolhendo os mais necessitados, e de um modo especial as crianças, com um gesto de autoridade (a criança é o centro da comunidade) e de ternura (à criança oferece-se o calor da vida e o abraço).

Frente uma sociedade do “descarte”, onde as crianças são as primeiras vítimas da violência, o evangelho de hoje torna-se ocasião privilegiada para repensar a atitude dos cristãos frente à infância desamparada. Também a Igreja, quando está só focada no poder, no ritualismo, na doutrina, no legalismo, no moralismo, no dogmatismo..., deixa de ser mãe terna e carinhosa para com os mais frágeis, para deixar-se contaminar pela “mosca azul” do poder e prestígio. 

O que importa para a igreja é oferecer espaço humano à criança que já existe e que ocupa o seu centro. Não é questão de dogmas mais ou menos racionalizados, nem tampouco das grandes estruturas. A Igreja deve fazer-se lugar de vida para as crianças! 

A comunidade cristã não é (não deveria ser) um grupo dominado por sábios anciãos (uma gerontocracia), não é sociedade de sacerdotes poderosos ou influentes, um sindicado de burocratas do sagrado, funcionários que escalam passo a passo os degraus de sua grande pirâmide de influências, poderes, competências (e também incompetências). De acordo com o evangelho deste domingo, a Igreja é, antes de tudo, lar para as crianças, espaço onde encontram acolhida e ajuda para seu crescimento, humano e espiritual. 

Texto bíblico:  Mc 9,30-37
  
Na oração: Há gestos cotidianos que nos ajudam a descobrir em profundidade quem somos realmente. Um abraço, um beijo, uma mão estendida, um olhar sereno..., são gestos que quebram toda pretensão de poder e desmascaram o impulso de querer colocar-se acima dos outros. São gestos que nos recordam que somos seres amados.

Sem dúvida esta é a linguagem de Deus: Ele se desvela mais nos gestos, que dão conteúdo a tantas palavras já desgastadas.

- Prolongar, no seu cotidiano, o modo terno e carinhoso de ser e de agir de Jesus, sobretudo com os mais frágeis. 

Pe. Adroaldo Palaoro sj

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sábado, 22 de setembro de 2018

A QUESTÃO DA JUSTIÇA – Dom Ceslau Stanula


Falta menos de um mês das importantes eleições no Brasil.

Um dos  estudiosos da Bíblia , Pe.Luis Alonso Schokel, espanhol, na sua introdução ao Livro da Sabedoria, da Bíblia do Peregrino, (Edição Paulus) chama este livro como "Tratado da teologia política". Não deixa de ser. A questão da justiça dos governantes é o tema bastante meditado nos livros sapienciais a qual pertence o da Sabedoria.

O discurso sobre justiça está provocado pela  injustiça praticada por eles e os grupos influentes, (partidos na época). O livro aponta e lembra que qualquer pessoa que tem autoridades e governa tem como obrigação de exercer e garantir a justiça entre o povo. O poder que recebem, seja governantes ou reis, recebem de Deus a quem deverão prestar conta nesta vida e na outra. "Escutai Reis e entendei! Instruí-vos juízes  dos confins da terra! Prestar atenção vós que dominais a multidão  e vos orgulhais de ter muitos súditos. O domínio vos vem do Senhor é o poder,  do Altíssimo , que examina às vossas obras e sonda as vossas intenções, se pois não governareis retamente, não observastes a Lei (....) Ele cairá sobre vós, terrível, repentino....." Sab.6,1ss).

Como seria bom e proveitoso para os nossos candidatos para os postos chaves da nação,  lessem e refletissem sobre estes textos, e a nós também, para que tivéssemos a consciência a quem entregamos o poder.

Bom dia. Com a oração e a minha benção.

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Dom Ceslau Stanula - Bispo Emérito da Diocese de Itabuna-BA, escritor, Membro da Academia Grapiúna de Letras-AGRAL

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UMA VOZ LÍMPIDA - Marco Lucchesi



Uma voz límpida

A edição da poesia escolhida de Vera Duarte Pina não podia ser mais tempestiva. Primeiro porque recolhe, na forma de arquipélago, as partes dispersas das ilhas de Cabo Verde, apontando para um sentido de unidade, um rosto, com o desenho de suas próprias mãos.

Em segundo lugar, porque uma antologia pessoal produz nova leitura, mais que um déjà-vu, causada pela vizinhança dos poemas – que agora dialogam face a face, e produzem uma terceira impressão –, pelo balanço entre os conjuntos ausentes e reconvocados.

A reinvenção do mar traduz variados níveis de leitura, a poética luso-brasileira e cabo-verdiana, formando um sistema, ao mesmo tempo, expandido e concentrado, único e plural.  Contudo, é a navegação de cabotagem que importa, nas águas internas de seu mediterrâneo, lírico e lúcido, feito de remoinhos e águas calmosas. Há muita vida nessas páginas, sob uma perfeita economia de meios, que não perde a voz: a morabeza das palavras, esse tratado de armistício e cultura da paz, que não esconde, muito embora, as armas da denúncia:  
  
“Em África nasce uma rosa/ Uma rosa entre cadáveres/ E dela brota um sol de sangue. / Rosa única de dor e revolta
E dela queda o sol de sangue”.

Uma geografia como ponto de partida, não de chegada, rosa áspera, cujo Sol deita sangue, em sua vertente misteriosa, espelho de povos que aderem ao novo estado de coisas. Sinto algo de Corsino Fortes, meu saudoso amigo, as lições de Maiakovski e Nazim Hikmet, acerca da generosa disposição anímica, onde o animal político não diminui o animal poético.

Não podia ser diferente, pois sua vocação vem de longe, ao sul de tudo, como lemos em poema manifesto, em que Vera deixa as impressões digitais sobre a página onde apresenta uma filosofia da composição:

“Não morri jovem, nem poeta
Mas não quero que o meu sorriso se esvaia/ E o meu coração deixe de bater./ O fascínio vem-me de longe,
De tão longe que lhe perdi o começo”.

Perder o começo, pois esse mar é feito de abismos de sentido, distintas camadas de significação.  Como disse Jorge de Lima, “há sempre um copo de mar para um homem navegar”.  Eis a metáfora transversal de seu país, que também divide este livro, em que o leitor respira os ventos que varrem as ilhas, num copo de mar, onde flutuam versos afortunados.

Mas é também sabido que nenhuma ilha é apenas, e em si mesmo, uma ilha, um descontínuo fechado, perdida num tempo infinito que não passa. Toda ilha é latência, espera e destino.

Os poemas de Vera encarnam uma profunda solidariedade entre os fenômenos, um descortino de analogias. Uma parte que vai de si para o mundo, e me refiro a uma erótica política, espécie de corpo métrico voltado para as dores do mundo e aos tempos que se cruzam justamente entre micro e macrocosmos. O abraço que cria e protege o universo, diante da metáfora, humana e real, que uma vez mais aponta para a África, cujo futuro não cessa de crescer,  olhos abertos para o novo, Pasárgada latente e necessária. Aqui a grandeza de Vera, uma das vozes mais límpidas e claras da poesia em língua portuguesa:

“Neste momento em que te amo/ Na Namíbia e no Zimbábue,/ Violam-se a cor dos feitos nas capitais dos impérios.
Neste momento em que te amo/ Eu e tu, sentados na ilha, no banco da praça, olhando o mar,/ Saberemos ser amor e no nosso abraço aquecer o mundo”.

Comunità Italiana, 20/09/2018


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Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila , foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.

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sexta-feira, 21 de setembro de 2018

NOSSA IRMÃ ÁRVORE - Chico Alencar



Nossa irmã árvore

21 de setembro é, no Brasil, o Dia da Árvore. 

Às vésperas da primavera, a data relembra que a saúde do nosso planeta depende das florestas. E alerta para uma tragédia em curso: a cada 10 segundos, mil árvores são derrubadas na terra!

O Papa Francisco, na sua encíclica Laudato Si, lembrou que as árvores são nossas irmãs com raízes. Em encontro com movimentos populares, na Bolívia, anunciou, profético, que “dos brotos de ternura dos que lutam por subsistir na escuridão da exclusão crescerão grandes árvores, surgirão florestas para oxigenar este mundo”. Por sinal, quantas árvores você plantou?

Rubem Alves (1933-2014), poeta e educador, gostava de perguntar de quantas cuidamos, mesmo sem saber se aproveitaremos seus frutos e sua sombra...
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Chico Alencar, autor de Cânticos das criaturas, ecologia e juventude do mundo, Editora Vozes.

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ABL RETOMA PROGRAMA ‘MÚSICA DE CÂMARA NA ABL’ COM APRESENTAÇÃO DO GRUPO ‘MÚSICA ANTIGA DA UFF’



A Academia Brasileira de Letras reinicia seu programa “Música de Câmara na ABL” apresentando o grupo “Música Antiga da UFF”, composto pelos instrumentistas Lenora Pinto Mendes, Leandro Mendes, Márcio Paes Selles, Mário Orlando e Virginia Van der Linden. O evento está programado para o dia 25 de setembro, terça-feira, às 12h30, no Teatro R. Magalhães Jr. (Avenida Presidente Wilson, 203, 1º andar, Castelo, Rio de Janeiro). Entrada franca.

O Presidente da Academia, Professor Marco Lucchesi, fará a abertura do espetáculo, que marca o retorno dessa atividade oferecida pela ABL ao público, mediante um protocolo a ser firmado com a Universidade Federal Fluminense (UFF).

De acordo com seus integrantes, o conjunto apresenta músicas para cantar e dançar escritas por trovadores medievais, e os instrumentos tocados pelos integrantes do conjunto são todos da Idade Média e do Renascimento: viele de roda, rabeca, viele de arco, flautas, buzuk e percussão).

Atuante há três décadas, seus músicos são todos também pesquisadores. Em 2017, o Música Antiga da UFF lançou seu primeiro longa-metragem, o documentário Música do Tempo – Do Sonho do Império ao Império do Sonho, que conta a trajetória artística do grupo durante os mais de 30 anos de pesquisa e difusão da música.

PROGRAMA

TRIUNFOS DE MAXIMILIANO I
Michael Praetorius (1571-1621) - Courant
Heinrich Isaac (1445-1517) - Insbruck, ich muß dich lassen
Ludwig Senfl (1492-1555) - Ich weiß nit, was er ihr verhieß
Ludwig Senfl (1492-1555) - Es taget vor dem Walde
Michael Praetorius (1571-1621) - Ballet e Bourrés
Ludwig Senfl (1492-1555) - Im MaienLudwig
Ludwig Senfl (1492-1555) - Wann ich des Morgens früeh aufsteh
Ludwig Senfl (1492-1555) - Ach Elslein, liebes Elselein
Ludwig Senfl (1492-1555) - Es taget vor dem Walde/Ach Elslein
Ludwig Senfl (1492-1555) -  Es het ein biderman ein weib 


17/09/2018


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LIRISMO NA BELEZA E PERFUME DA FLOR - Expedita Maciel



Vibramos com a chegada de mais uma primavera!
Deus nos presenteia mais um ano com lindas rosas,
miosótis, perfumadas verbenas, lindas multicolores e de formas exóticas as lindas e perfumadas orquídeas, gérberas,
Apesar do tempo escasso das águas vindas do céu
nos perdoa e, mais uma vez nos mostra, que nos perdoou pelas atrocidades cometidas contra seu filho que sofreu e, deu a vida por nós;
É a Mãe natureza, que mesmo na dureza da escassez das águas,
O Poder de Deus, nos mostra para Ele que é Pai e que para Ele nada é impossível
Seja nesta primavera da vida uma flor, uma rosa,
um botão, que exala um perfume inebriante de Amor,
capaz de gerar o Bem e o Bom
para que a humanidade caminhe para Deus
construindo um mundo melhor, onde o Bem e a Felicidade são possíveis junto ao Amor.
Tudo para um mundo melhor.
Semeie flores,
Plante gratidão,
Ofereça as flores que você plantou e colheu no seu jardim do amor;
com certeza serão naturais como os bons sentimentos,
e terão o perfume doce da alegria de se viver Feliz
e irmanado com o seu próximo
porque é Deus que lhe fará Justiça.
Salve Deus do Amor!
Todas as flores nos convidam ao amor!
Com suas cores e seus perfumes.
É um lindo período colorido e perfumado com a branca
e linda dama da noite que nos dá sua beleza e nos inebria
com seu doce e suave perfume doce aroma da noite.

Ah! Como eu gosto de ti!
Minha mais alegre estação de beleza, criada por Deus,
com lindas pinceladas coloridas para nos encantar os olhos,
com suas cores, inebriar nossas almas com seus perfumes.
Só vós senhor, com tanto amor e sensibilidade,
terias este poder de criar tão bela estação.
Salve Deus!

Gloria a Deus pelas obras de suas mãos.
Obrigado Senhor por fazeres da natureza um capricho teu.
Obrigado Senhor, por me permitir, contemplar e viver mais esta linda primavera, que durante a mesma completarei mais uma vez uma primavera.

E Deus me abençoou são muitas primaveras.
Salve Deus da Vida e das Flores! 


Expedita Maciel
Autora do livro “Vim, Vi e Venci”

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