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quinta-feira, 2 de agosto de 2018

DIA DO PERDÃO DE ASSIS: 02 de agosto



Perdão de Assis: saiba o que é e como receber indulgência plenária


São Francisco de Assis pode ser considerado um dos santos mais conhecidos mundo afora.

Nesta terça-feira, 2, celebra-se o “Perdão de Assis”, na Festa de Nossa Senhora dos Anjos, também conhecida como “Porciúncula”. Essa é uma das datas mais importantes para a Família Franciscana e todos os fiéis que têm especial afeição pelo santo italiano.

Compreender o verdadeiro significado da Porciúncula também é importante para adentrar na essência desta data. Para os franciscanos, ela é muito mais que a igreja pobre e simples que os monges beneditinos concederam a Francisco e seus companheiros, que cresciam em número de forma significativa.

“Foi ali que São Francisco ouviu o Santo Evangelho do envio missionário dos 12 apóstolos e, após pedir explicações ao padre ao final da Missa, exclamou: ‘É isso que desejo e quero!’. É o local da grande descoberta da vocação, é também onde Santa Clara se consagrou e os frades se congregavam para tomar decisões, rezar, se encontrar. Ali nasceu a forma franciscana de vocação à vida evangélica. Quando falamos em Porciúncula, reunimos todos os elementos e valores da nossa espiritualidade; representa a essência do carisma”, explica.
Saiba mais

Para entender melhor o significado da data, é preciso remontar ao ano de 1216.

De acordo com as Fontes Franciscanas – conjunto de escritos que sintetizam os acontecimentos da vida do santo –, Francisco estava rezando na igrejinha da Porciúncula, próximo a Assis, quando o local ficou totalmente iluminado e o santo viu sobre o altar o Cristo e, à sua direita, Nossa Senhora, rodeados por uma multidão de anjos.


Perguntado sobre o que desejava para a salvação das almas, Francisco respondeu: “Santíssimo Pai, mesmo que eu seja um mísero pecador, te peço que, a todos quantos arrependidos e confessados, virão a visitar esta igreja, lhes conceda amplo e generoso perdão, com uma completa remissão de todas as culpas”.

O Senhor teria lhe respondido: “Ó Irmão Francisco, aquilo que pedes é grande, de coisas maiores és digno e coisas maiores tereis: acolho portanto o teu pedido, mas com a condição de que tu peças esta indulgência, da parte minha, ao meu Vigário na terra (o Papa)”.

Logo após, Francisco apresentou-se ao Santo Padre Honório III, partilhou a visão que teve e o Papa concedeu sua aprovação. “Não queres nenhum documento?”, teria perguntado o Pontífice. E Francisco respondeu: “Santo Pai, se é de Deus, Ele cuidará de manifestar a obra sua; eu não tenho necessidade de algum documento. Esta carta deve ser a Santíssima Virgem Maria, Cristo o Escrivão e os Anjos as testemunhas”.

Alguns dias após, junto aos Bispos da Úmbria, ao povo reunido na Porciúncula, Francisco anunciou a indulgência plenária e disse: “Irmãos meus, quero mandar-vos todos ao paraíso!”.
Indulgências

As indulgências têm o poder de apagar as consequências dos pecados (penas temporais) que já foram perdoados pelo sacramento da confissão (que perdoa a culpa). A indulgência pode ser parcial, que redime parcialmente dessa pena, ou plenária, que apaga totalmente a pena temporal dos pecados.

Para se receber a indulgência, os fiéis precisam da confissão sacramental para estar em graça de Deus (oito dias antes ou depois); participar da Missa e Comunhão Eucarística; visitar uma igreja paroquial, onde se reza o Credo e o Pai Nosso e rezar pelas intenções do Papa. A graça da indulgência pode ser pedida para si mesmo ou para um falecido.




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INSISTÊNCIA DE LULA É ESTÍMULO A BOLSONARO - Merval Pereira


O maior estímulo à candidatura à Presidência da República de Bolsonaro é a tentativa de Lula de se manter na disputa. A estratégia do ex-presidente é clara, embora seja uma missão quase impossível colocar sua fotografia na urna eletrônica para que seja real o slogan já escolhido: Fulano é Lula, Lula é Fulano.

Se sua foto aparecesse na urna, seu eleitorado teria a sensação de que estaria votando nele, e pouco importaria o nome que estivesse por trás daquela fotografia. Seria a indicação de que Lula é que governaria e, mais que isso, a possibilidade de o futuro presidente petista conseguir alguma maneira de tirá-lo da cadeia.

Para Bolsonaro, a pior coisa seria Lula ter um acesso de bom senso e organizar a campanha presidencial do PT, ou das esquerdas unidas, em torno de um dos nomes que estão na disputa, possivelmente o candidato do PDT, Ciro Gomes, bem cotado nas pesquisas eleitorais, embora seja suplantado sistematicamente pela candidata da Rede, Marina Silva.

Outra decisão do ex-presidente que só faz acirrar os ânimos e dar mais gás ao antilula que Bolsonaro encarna é a radicalização da disputa política, que ontem teve mais um episódio esdrúxulo: seis pobres coitados selecionados por João Pedro Stédile para fazer greve de fome em favor de Lula criaram uma balbúrdia em frente ao Supremo Tribunal Federal.

Ao assumirem, pela boca de Stédile, que não se fechará para a comida, que fazem a greve de fome para pressionar o STF a permitir que Lula — que também não adere à greve de fome — seja candidato à Presidência da República, levam a disputa para o campo em que Bolsonaro se dá melhor.

Assim como Lula espera ganhar politicamente ficando em evidência até o dia 20 de setembro, quando as urnas eletrônicas são “inseminadas”, processo de instalação dos programas nas urnas, com os nomes, números, fotos de candidatos, dados dos partidos e coligações, e a ordem de votação, também Bolsonaro ganha com a ampliação do prazo para se vender como o antilula.

O PT terá que tomar uma decisão durante esse processo, se o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não agir com firmeza e rapidez. Manter a candidatura de Lula até o final, mesmo correndo o risco de impugnação dos votos dados a ele, significa uma jogada de confrontação máxima da Justiça, criando uma instabilidade política perigosa.

Caso, por hipótese, Lula venha a ser um dos dois mais votados no primeiro turno, e o recurso contra sua inelegibilidade continuar em processo no STJ ou no STF, iria para o segundo turno ainda sub judice.

Se a inelegibilidade for confirmada antes da votação em 7 de outubro, os votos dados a ele serão considerados nulos, e seriam classificados os dois candidatos que terminassem o primeiro turno mais votados, além de Lula: ou o primeiro e o terceiro colocados, caso Lula termine em segundo, ou o segundo e terceiro, caso Lula chegue em primeiro.

Também os partidos coligados ao PT teriam que ir para uma candidatura “a todo risco”, sabendo que seus votos poderão ser anulados caso se confirme a inelegibilidade de Lula. Pela Lei da Ficha Limpa, o candidato pode perder o mandato até mesmo depois de eleito. Por isso, os partidos de esquerda têm cada um seu candidato próprio, e ninguém quer abrir mão dele para se coligar com um candidato que pode provocar a anulação de todos os votos dados à coligação.

Se o PT decidir não forçar uma crise institucional e trocar de candidato, pode fazê-lo até o dia 17 de setembro, 20 dias antes da eleição. Nesse caso, a foto e o nome do substituto estarão na urna eletrônica, obedecendo à legislação. A hipótese de Lula poder participar da campanha eleitoral é próxima de zero.

Em 15 de agosto termina o prazo para os partidos políticos e coligações registrarem seus candidatos. A propaganda eleitoral começa no dia seguinte, e 15 dias depois, a 31 de agosto, começa a propaganda eleitoral gratuita através do rádio e da televisão.

Tudo indica que Lula vai tentar manter a candidatura até a data limite, dando a seu substituto apenas 20 dias para fazer campanha. Para sorte do substituto, porém, esse timing imaginado pela cúpula petista vai ser atropelado pela Justiça Eleitoral, que deve não aceitar o registro de um candidato previamente inelegível devido à Lei da Ficha Limpa, incorporada à lei eleitoral.

Radicalização da disputa política é decisão do ex-presidente que só faz acirrar os ânimos e dar gás ao antilula.

O Globo, 01/08/2018


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Merval Pereira - Oitavo ocupante da cadeira nº 31 da ABL, eleito em 2 de junho de 2011, na sucessão de Moacyr Scliar, falecido em 27 de fevereiro de 2011, foi recebido em 23 de setembro de 2011, pelo Acadêmico Eduardo Portella.

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ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: A cidade perdida - Walker Luna



A cidade perdida 



Minha cidade estendeu-se
Alargou suas redondezas
Multiplicada em distância
Insatisfeita

Subiu
Buscando mais horizontes
e perdeu-se dentro dela.

Volto hoje a procurá-la.
Transfiguraram-se os jardins
E os encantos do seu rio
Tomaram novas feições.

Até o céu era outro,
ou eram outros os meus olhos?

Sob a ação de tanto tempo
Anoiteceu em si mesma
E confundiu seus vestígios
Entre as formas
De mais gritos.

Agora
É só pensamento
- minha cidade de outrora.


(“UM ÂNGULO ENTRE MONTANHAS”)

Walker Luna


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WALKER LUNA –
Baiano de Itabuna, Walker Luna nasceu no dia 6 de agosto de 1925. Publicou “Estes Seres em Mim”, “Companheiro” e “Estações dos Pés”, dentre outros livros. Lírico, dotado de uma linguagem fluente, move seu discurso num ritmo agudo dentro dos limites do existir. Expõe essa paisagem estranha e solitária que comporta o ser humano na dor do viver. Poesia vazada numa experiência humana vivida com intensidade, ora triste ora amarga, de insônia e sofrimento cúmplices ante o transitório e o inevitável. Poesia que possui homogeneidade temática e formal, seus poemas interligam-se como por um fio narrativo, um complementando o outro, atingindo níveis vertiginosos, compartilhando perplexidade, angústias, emoção que vibra o ontem e o hoje em sua dicção, solitária, ao mesmo tempo que mistifica imagens.
Homem de temperamento arredio nos dá com sua poesia um testemunho de resistência luminosa, testemunho corajoso de sofrimento suportado com dignidade e altivez. Mas em seus versos, de plena lucidez nas estações que comovem, trafegam acenos que nos descobrem livres: “Exaltam-se nos tons verdes/ insinuam-se como flores/ e em sumo vital convertem-se proliferando frutos”
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(Cyro de Mattos)

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VOLTA DO VELHO GUERREIRO! - Antonio Nunes de Souza



Volta do velho guerreiro

Logo depois do nascimento dos meus dois filhos (livros), já que não precisam de amamentação e o parto é mais mental do que físico, volto sorridente, alegre e realizado, depois de ter ‘folheado’ no colo meus endiabrados babys e sentir o ego pinotear de alegria e orgulho.

Essa volta que me refiro é, logicamente, dedilhar meu querido parceiro, o computador, para externar o vencimento de mais uma batalha, não esquecendo que a guerra continua firme e forte e não devemos nos esmorecer nunca, pois, somente assim conseguimos realizar nossos sonhos, desejos e projetos.

Em princípio estou apenas confessando minha alegria pós-parto, para depois começar a colocar a mente para trabalhar profundamente, criando as danadas e pecaminosas aventuras que, diabolicamente, costumo pôr para fora nos meus “meigos e deliciosos” textos!

Antes de começar essa confissão pensei em algumas coisas divertidas e debochadas, mas, vamos deixar para mais adiante, aproveitar o ensejo somente para dividir minha alegria e felicidade, deixando a mente descansar mais um pouco, como se fosse uma “licença paternidade”!

Assim, dado o meu recado de retorno, desejo a todos um mês de agosto sem complicações, pedindo a Deus que afaste os azares camuflados que sempre vem embutidos nele de conformidade com a crença popular!

Sai azar de agosto! Saravá meu Pai e Mangalô três vezes!


Antonio Nunes de Souza, escritor.
Membro da Academia Grapiúna de Letras-AGRAL

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A AMIZADE MADURA



A amizade madura


A amizade madura é bem diferente daquela que eu imaginava anos atrás.

Eu, na minha infantilidade, pensava que amizade era estar sempre próxima, falar com frequência, dividir todas as estações.

E que surpresa boa descobrir que não necessariamente é assim.

A amizade madura, por vezes, é justamente o oposto.

Ela é livre de cobranças, não tem o peso das obrigações da vida.

A amizade madura escuta "já te ligo, ocupadíssima agora."

E a ligação é retomada nove dias depois.

A amizade madura mantém contato diário ou some por anos.

Ela pode estar no reencontro inesperado "cara que saudades, casei, tive filhos e você?"

A amizade madura sabe que há épocas na vida onde você dá, dá, dá, e outras, onde você recebe, recebe, recebe.

Mas que no final das contas, na longa jornada, a balança se alinha.

Porque a amizade madura se entende. No consolo, na risada, na ausência, no abraço, no puxão de orelha.

Amizade madura é gostosa, fácil de levar.

A amizade madura está no "pô que sacanagem, por que você fez isso?"

E também no "desculpa, pisei na bola".

A amizade madura pode perdoar  instantaneamente ou precisar de alguns anos para sarar.

A amizade madura mora na mensagem depois de tempos sem se falar "ei, sonhei com você, tá tudo bem?"

A amizade madura respeita as diferentes fases da vida.

Há amigas com filhos, amigas solteiras, amigas focadas na carreira.

A amizade madura é aquela que revive recordações cada vez que se encontram:

"Lembra aquela vez quando a gente?"

E as risadas rolam soltas e viram lágrimas de riso.

A amizade madura pode ser reservada, mas pode atingir níveis  astronômicos de intimidade:
"Lembra quando fiquei sem grana até pra comprar pão?"

A amizade madura se entrelaça na sua história, se mistura com sua essência.

É especial porque é a mais livre dos arbítrios.

É escolher manter no coração alguém que se não fosse pela amizade, seria apenas mais um estranho destes que a gente vê no cruzamento.

Sim, a amizade madura é uma escolha, sem interesses, sem segundas intenções ou lengalenga.

É uma decisão nossa, íntima.

E é isso que faz dela tão forte que nem o tempo, nem a distância, e nem as curvas da vida conseguem apagar.


(Desconheço o autor)

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quarta-feira, 1 de agosto de 2018

INFÂNCIA DE POETA - Marco Lucchesi


Infância de Poeta


O mundo como espanto e admiração é a nossa primeira experiência com o ambiente que nos cerca. A voz da mãe, tão viva e contundente na memória ilumina partes secretas do labirinto de que somos feitos. Uma fina membrana nos separa da vida. Agrega e separa, como um sonho fugaz.

A infância profunda é um naufrágio delicado. O barco segue oculto no seio do mar primordial. Boiam alguns fragmentos, ideias rarefeitas, sentimentos em estado selvagem, antes da organização das palavras, da forma de entender o mar e de saber quem somos.

É certo que a infância não passa nunca, desafiadora, como um velho álbum, que, de quando em quando, é preciso rever, com tantas pessoas nas fotos, cujo nome ignoramos, se estão vivos ou não. Boa parte deixou de ser. A infância é um álbum povoado de fantasmas, para os adultos, cujas fotos manuseiam, emocionados ou indiferentes. 

Mas a infância do poeta não passa. A poesia é o estado permanente daquele menino impossível, de Jorge de Lima, cercado de brinquedos ou versos cheios de mistério e luz. O brincar como ensaio do que estávamos construindo para nós.

Desenho a locação das nuvens, condensadas ao longo de zonas celestes, distantes para os olhos de agora e de ontem, que desde cedo me deslumbram.

Minha infância incerta no mês de julho no Rio, com seus dias breves, feridos por uma espessa camada de melancolia, ainda mais sentida nos subúrbios da Leopoldina, sinuosa, como a linha de trem que avança nas entranhas fluminenses.

Como alcançar as feridas da memória, que chego apenas a sentir, quase impalpável, dor que a tudo se mostra rebelde e insubmissa nos primeiros anos?

Sob o líquido coral de nuvens, passa um menino, perdido, com seu cãozinho branco nos quintais. Seus olhos fosfatados de inocência trazem largas parcelas de futuro, como se estivesse ao abrigo dos deuses ferozes do mundo, dentro de uma esfera de pura vertigem. Inventa e sonha a linha do horizonte. Talvez fosse incluir um canário amarelo, com a gaiola, na parte dos fundos da casa, na pequena e infinita varanda, um cachorrinho branco, saltitante. Uma casa verde, cheia de bichos como a Arca de Noé.

No fim do mundo, posso apostar, “alguma coisa escapa do naufrágio das ilusões” e verei todos os meus animais.

Uma narrativa ou memória sem quantidade, feita de sentimentos dispersos é quanto me resta. Mas, e se tudo não passa de mera intuição, vida provisória, potência que se afoga no vazio das palavras?
Será apenas um salto no silêncio, a volta para a infância, algo que se nutre do nada em que se apoia e brilha, fugaz como um raio: sentimento que de súbito se exaure, na vida adulta, como num piscar de olhos?

Ao longe, e a muitos quintais de distância, reconheço uma farmácia. Não lembro como se chamava, onde se lia, em letras redondas, na vitrine, “agradecemos a preferência, volte sempre”.

Tão obscura me parece a relação do menino com as nuvens e os remédios da farmácia. Um fio da memória esgarçado em muitos pontos que deviam, mas não sabem, fazer um único nó.

Porque, a essa altura, o cachorro branco fugiu da coleira e perdeu-se. O menino deixou o quintal em busca de outros, mais incertos. A farmácia baixou as portas e não sei onde buscar novos remédios.
Como dizer uma história sem progressão? Fechada para o mundo como se a névoa lhe impedisse o passado.

Essa rememoração tem algo do canário que a tanto mundo não se atreve. Para Kafka, uma gaiola saiu para buscar um pássaro. Amarelo talvez, como aquele do menino, cujo canto dissipou-se na partitura dos dias.

Indago tão-somente a densidade das nuvens e a rarefação da história, que se passa no mês de julho, nos subúrbios do Rio e que reúne, sem motivos claros, a infância de um menino, o quintal onde armou alguns sonhos e as portas baixas da farmácia.

Um físico pergunta: Por que não nos lembramos do futuro?

O Globo, 31/07/2018


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Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.

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CANÇÃO PARA ACORDAR JORGE AMADO - Heribaldo de Assis


AGOSTO DE JORGE AMADO:

Canção para acordar Jorge Amado 


O escritor Jorge Amado, prestes a completar 90 anos, dormia profundamente em sua cadeira de balanço – suas mãos pendiam... Nelas os dedos calejados por uma antiga máquina de escrever mecânica.

Mas, há algum tempo, o velho Jorge Amado não escrevia, devido a um problema na visão – uma Degeneração Macular que estava retirando-lhe até o ânimo de viver, pois o impossibilitava de dedicar-se a sua maior paixão: a Literatura!

Inconformados com aquela situação, as personagens de Jorge Amado resolveram então sair das páginas dos romances e das novelas para tentarem despertar o escritor e reanimá-lo a enveredar-se pelas páginas da Literatura novamente, mesmo que com o auxílio visual de sua eterna companheira Zélia Gattai.

Mas, para não ocupar muito espaço na sala da casa do Rio Vermelho em Salvador – Bahia, somente algumas personagens de Jorge Amado receberam a permissão de saírem do mundo da imaginação e realizarem a tarefa de acordar o desanimado e sonolento escritor.

Então Gabriela, Tiêta, Tereza Batista (cansada de guerra), Dona Flor (sem seus dois maridos), Perpétua, Cinira, Amorzinho, o Negro Damião e Sinhozinho Badaró abandonaram temporariamente as páginas dos romances e do mundo imaginário para acordarem Jorge Amado...

E, num átimo, aportaram magicamente diante do escritor que havia lhes dado o sopro da vida e concedido-lhes destinos, sonhos, ideais, alegrias e sofrimentos. Por alguns instantes contemplaram emudecidos as marcas visíveis que quase um século de dedicação à Literatura e à luta pela Liberdade haviam deixado no corpo alquebrado do escritor octogenário: os cabelos brancos de preocupação com a miséria social da Bahia, as rugas que simbolizavam o testemunho de todo um passado, os calos nas mãos que extenuaram-se nas teclas da máquina de escrever, as pálpebras cansadas das romanescas noites em claro.

Ele parecia estar sonhando – mas com o que sonhava Jorge Amado: com um país no qual as crianças tivessem acesso a uma educação pública e gratuita de qualidade (e assim, no futuro, se tornassem cidadãs ao invés de se tornarem capitães de areia) ? Ou sonhava com um país no qual cavaleiros da Esperança e da Justiça finalmente triunfassem sobre a corrupção, a miséria e a violência?

Sim! Esse era Jorge Faria Amado – o filho do senhor João Amado e Dona Lalu: o menino grapiúna que nasceu em Ferradas (distrito de Itabuna-BA) em 10 de agosto de 1912 e que começou a publicar seus primeiros romances (No país do carnaval, Cacau, Suor) a partir de 1931. Logo depois vieram outras obras: Jubiabá (1935); Mar Morto (1936); Capitães de Areia (1937); Terras do Sem-fim (1942); Gabriela, Cravo e Canela (1958), dentre outros títulos que venderam milhões de exemplares, foram traduzidos para 54 idiomas e adaptados para a televisão, o teatro e o cinema. Uma carreira literária que o levou a ser eleito pela Academia Brasileira de Letras em 1959 e indicado ao Prêmio Nobel de Literatura por três vezes.

Nisso as personagens começaram a confabular sobre a melhor maneira de acordar o escritor – o Negro Damião (que estava com um clavinote na mão), propôs logo dar um tiro para o ar:

- Assim ele vai acordar mais rápido. Disse o Negro Damião.

Perpétua se contrapôs:

- Tá doido homem?! Assim ele vai é acordar assustado.

Tieta, indiferente à discussão das outras personagens, aproximou-se do escritor e sussurrou-lhe sensualmente no ouvido:

- Jorge, acorda. Sou eu, sua cabritinha: béé, béé, béé!

Dona Flor teve uma ideia e propôs:

- Por que não chamamos meu marido Teodoro para tocar fagote: assim, ao invés de acordar com barulho, Jorge vai acordar é com uma bela canção.

Tereza Batista comentou:

- Somente nove personagens tiveram permissão de vir até aqui, por que é que não teve essa ideia antes? Assim viriam 10 personagens ao invés de nove – se fosse permitido é claro.

Nisso alguém surge, mas não era Teodoro, era Vadinho (o primeiro marido de Dona Flor) – que (num passe de mágica) adentrara a sala completamente nu. Cinira e Amorzinho começaram a gritar e quase desmaiaram ao verem a nudez desavergonhada do defunto que abandonou as páginas do romance Dona Flor e seus dois maridos sem nenhuma permissão. Subitamente Vadinho aproximou-se de Dona Flor (que distraidamente confabulava com Gabriela a respeito de doces e quitutes) e então Vadinho apalpou as volumosas nádegas de Dona Flor que, acostumada com aquele gesto impetuoso, foi logo dizendo sem voltar-se para trás:

- Vadinho, deixe de vadiagem: aqui não né!

Gabriela também o censurou:

- Estamos em uma missão importante seu Vadinho, olha o respeito!

Vadinho limitou-se a dar um sorriso debochado para as duas e após acenar para a sua amada Dona Flor resolveu abandonar o recinto – não sem antes balançar as partes íntimas diante de Cinira e Amorzinho que, não desmaiaram porque foram amparadas por Perpétua. E Perpétua ameaçou:

- Volte logo para sua estória homem senão eu te dou umas bordoadas com meu guarda-chuva!

E, apesar de estar se divertindo com tudo aquilo, Vadinho resolveu retornar para o mundo da ficção para não criar mais balbúrdia ainda na sala da casa do Rio Vermelho. Sinhozinho Badaró, impaciente com toda aquela situação, tentou acordar mais uma vez Jorge Amado, mas não obteve sucesso.

Por fim, Gabriela fez mais uma tentativa: colocou as mãos no ombro de Jorge Amado, sem querer suas mãos macias e graciosas deslizaram no peito do escritor – mas o coração estava parado!

Quase aos prantos Gabriela cravo e canela exclamou para as demais personagens:

- Nenhuma música no coração de Jorge! Nenhuma música no coração de Jorge!

Todas as personagens imediatamente aproximaram-se para examinar o corpo desfalecido do escritor: a testa fria, as mãos geladas, o coração parado.

Então lágrimas escorreram dos olhos tristes de suas filhas mais famosas: Dona Flor, Tieta, Tereza Batista e... Gabriela. As demais personagens também ficaram inconsoláveis: O Negro Damião (homem acostumado a ver muitas mortes) tentou disfarçar a tristeza, Cinira, Amorzinho e Perpétua se amparavam – umas nos braços das outras. Sinhozinho Badaró contemplou o chão para não ter que encarar aquela cena.Todas as personagens, ao redor do corpo inerte de Jorge Amado, ficaram cabisbaixas e, inconscientemente, fizeram mais do que um minuto de silêncio. E em silêncio era até possível ouvir o bramido do mar nas praias do bairro Rio Vermelho:

"É doce morrer no mar, nas águas verdes do mar.
É doce morrer no mar, nas águas verdes do mar."

Por fim, disse Perpétua:

- Não há mais o que fazer aqui: vamos embora!

Instantaneamente quase todas as personagens desapareceram no ar e retornaram às paginas dos romances que encantavam e entretinham milhões de leitores no mundo inteiro.

Somente Gabriela ficou na sala, diante de Jorge Amado – aquele que lhe concedera fama e notoriedade. E, em um último esforço, Gabriela aproximou-se do corpo sem vida de Jorge Amado (que continuava na imóvel cadeira de balanço), sentou-se em seu colo e encostando a cabeça no peito dele sussurrou em prantos:

- Acorda painho, acorda!

Embalando a cadeira de balanço com suas coxas grossas, Gabriela fez o corpo inerte de Jorge Amado movimentar-se pela última vez – como se o embalasse para dormir junto com ela... E por fim ela também dormiu e desapareceu para entrar no coração sem vida do velho escritor. Amante e amada, escritor e personagem, criador e criatura fundiram-se finalmente para encerrarem o capítulo final de um dos maiores e bem-sucedidos escritores da Literatura Brasileira! Muito longe dali, à meia-noite, um jagunço – montando em um cavalo também espectral – galopou velozmente pelas ruas de Itabuna e Ilhéus bradando fantasmagoricamente a anunciar:

- Coronel Jorge Amado morreu! Coronel Jorge Amado morreu! Coronel Jorge Amado morreu!

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Heribaldo de Assis – Escritor, Poeta, Filósofo, Compositor, Redator-publicitário e Licenciado em Letras pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

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