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sexta-feira, 1 de junho de 2018

ANTÔNIO TORRES E SEU QUERIDO CANIBAL - Cyro de Mattos


Antonio Torres e seu Querido Canibal 
Cyro de Mattos

             Antes da chegada do branco europeu  por aqui, os nativos eram os donos desse  Brasil imenso.  Exerciam  um ritual próprio de vida, que aprenderam dos antepassados. Viviam na tribo, cercados pela natureza intacta.   Viviam em liberdade na Baía de Guanabara ou em qualquer praia do Rio de Janeiro, no século XVI, como de resto no vasto  território brasileiro. Na paisagem natural da Baía de Guanabara, as mulheres banhavam-se no rio Carioca,  preparavam uma bebida com o milho ou a mandioca,  o cauim, que a tribo apreciava.  Como os donos  da terra e das águas,  caçavam e pescavam.  Viviam em comunhão com a  natureza, daí serem vistos  no início pelo branco invasor como o modelo do bom homem em seu estado selvagem.

            Em outro momento foram observados como objeto de dupla finalidade da colonização europeia. O europeu colonizador queria tirar proveito econômico do estado selvagem do índio,  aproveitando-o como mão de obra gratuita e necessária, enquanto a catequese desejava  fazê-lo como o novo habitante do  reino cristão, libertando-o do paganismo. O índio servia assim como elemento de observação por gente que vinha de mares nunca antes navegados  e  de crítica no campo literário.

          Na sua famosa Carta de Achamento, o escrivão Pero Vaz  Caminha  inicia toda a série de crônicas e de literatura descritiva, tendo como abordagem um  Brasil nascente em estado primitivo.  Esse primeiro encontro através do  escrivão luso e os nativos   informa sobre uma gente de boa aparência, mansa e atraente  na sua pureza para a conversão.  Ao escrivão da esquadra de Pedro Álvares Cabral, seguiram-se outros cronistas tratando do assunto com  material mais amplo,    e,  entre eles, Gabriel Soares de Sousa, Pero de Magalhães Gandavo,  Pero Lopes de Sousa e Hans Staden.

          O tema do índio em  Meu querido canibal (2000), de Antonio Torres, tem novo significado  e representatividade romanesca  na  literatura brasileira. Se bem que em outro contexto, o texto que resulta deste  romancista consagrado, moderno, de técnica  modelar,  pende para o herói derrotado, e, nessa constatação, em que impera a linguagem acessível  para delinear   a crônica no espaço do descaso histórico com o drama e a   tragédia dos nativos,  mostra o índio como uma criatura  sem saída  em sua heróica atitude guerreira,  transformadora de  sua comunhão com a natureza.  Opera  como  um dos elementos de uma nova concepção de civilização, que resiste ao conquistador, mas que termina por ser exterminado.

          Em José de Alencar, as qualidades do nosso primeiro habitante são  idealizadas e executadas como compensação. Elege-se a exaltação romântica  das virtudes individuais e sociais, os sentimentos de orgulho,  lealdade,  amor à liberdade,   valentia, que o transformam no herói nacional, moldado assim com caracteres próprios, distantes das adaptações europeias.

          Com Adonias Filho, o assunto lembra até certo ponto o índio de José de Alencar no  que diz respeito ao tratamento digno que lhe é conferido, embora  as visões sobre o mesmo tema  se afastem no plano da elaboração e execução ficcionais do mundo porque nascidas em épocas diferentes, contextos distantes, ajustando-se  cada uma delas às suas peculiaridades e metas. No indianismo adoniano,   o herói trágico mostra-se na trama vinculada à selva,  na infância da região cacaueira baiana,  penetrada por forças obsessivas do destino, como elemento da ação ou que impulsiona o episódio. As determinantes coincidentes do  naturalismo situam esse herói à maneira de um percurso imutável, em que o trágico fixa suas garras de horror e infortúnio, tendo como proposta final a catarse, que chega impregnada do alívio. Ou encontra saída na ressurreição, naquela dimensão que não é desta vida.

           Em Antonio Torres,  a personalidade do índio Cunhambepe se faz conhecer através de  própria conduta marcada  no gesto primitivo, entre a naturalidade da existência e a oposição ante o invasor europeu.  Os nativos são vistos pelo autor  através de observações sensatas,  pesquisa ampla   nos estudiosos do assunto, em documentos, revistas e jornais.  A essência dessa personalidade do nativo chega de  zonas críticas,  que se vai formando nas  lembranças do rito,  rastros da desgraça,  nas vozes do embuste e da farsa histórica,  na repercussão  do som e da fúria, que, vinda do passado, está  como vestígios no presente.

          Desde a estreia em 1972,  com o romance  Um cão uivando para a Lua, o  baiano  Antônio Tores chamou a atenção da crítica e leitores do melhor ambiente  literário como um romancista  que chegava para ficar com destaque no corpo das letras brasileiras contemporâneas.  O  consagrado romancista, que nasceu no povoado do Junco, atual município de Sátiro Dias, na Bahia, no início foi jornalista  em São Paulo. Ao longo de sua carreira literária, produziu, entre outros,   os romances Os homens  dos pés redondos ( 1973), Essa Terra (1976), Balada da infância perdida ( 1986), Um táxi para Viena d’Áustria (1991),   O cachorro e o lobo (1997) e Meu querido canibal ((2000).

          Seus livros têm freqüentes reedições.  Um deles, Meu querido canibal ,  já alcança a décima segunda edição. Nestes tempos velozes da tecnologia,  apetência constante  dos  meios eletrônicos, primazia da imagem visual, em que se propala que o romance impresso tem seus dias contados, o caso de Antonio Torres desdiz  a afirmativa das posições unilaterais, precipitadas.   É o testemunho de que não é bem assim. Muda-se o suporte do livro, mas o romance impresso, de boas qualidades literárias,  visibilidade, densidade, rapidez, como quer Italo Calvino, precisão no que pretende dizer,  linguagem acessível, sem ser vulgar, conteúdo rico, imaginário esplêndido,  continua vivo.

            Em Meu querido canibal, numa sacada inteligente,  Antonio Torres reinventa-se em escritor-cronista moderno para, de peito aberto, como um neorromântico, mostrar-se indignado com a memória de um herói verdadeiro,  perdido no tempo, “mesmo tendo demarcado um território e inscrito nele a sua legenda”.   No capítulo 2, alerta que esse herói, de nome Cunhambepe, que quer dizer  homem de fala mansa, era  um guerreiro. Situado no tempo da pedra polida, viveu numa região paradisíaca batizada de Rio de Janeiro. Pertencia à nação tupinambá, que significa Filho do Pai Supremo, povo de Deus,  oriunda do grande tronco tupi-guarani.

       A leitura desse romance em que, desprovido do tom panfletário, gratuito e irresponsável,    denuncia o extermínio do índio brasileiro, eram cerca de seis milhões quando por aqui aportou o português aventureiro, ávido de riquezas, tendo como abono os jesuítas, melhor dizendo, a espada numa mão e a cruz na outra, permite, sem esforço, considerar que Cunhambepe é o primeiro herói de um país cujos rastros terríveis vieram das pegadas truculentas de aventureiros,  degredados, traficantes, corsários,  contrabandistas e corruptos.

     Fácil perceber que a história de Cunhambepe não é do edênico bom selvagem, dono das selvas e das águas,  dos sonhos advindos da natureza em estado puro, vivendo nu como quando se vem ao mundo, na era da pedra lascada,  contemplando-a e tentando adivinhá-la nos seus profundos e assombrosos  mistérios.  Não é a do herói dos brancos e traidor dos índios. É a de quem estava do lado de seu povo, levando-o a lutar  até o último gemido, porque era melhor sucumbir  do que ser submisso ao invasor escravagista. Nisso residia o sentido de quem estava numa guerra estupidamente desigual, entre o canhão avassalador do branco europeu e  a flecha banida  da taba para rolar na mancha das  águas, que  envergonha.

         Com sua biografia restrita a referências mínimas,  sua história reduzida a poucas linhas, mesmo assim entregue ao sabor das traças,  esse querido canibal herói encontra em Antonio Torres uma reconstituição brava e eficaz  resultante da motivação digna do imaginário e da transpiração eficiente na escrita comprometida com  a verdade. Colhida e corrigida  esta em estudiosos do assunto, tantas vezes equivocados, quando dotados    de preconceito e superficialidade   omitem  a figura nativa na galeria dos heróis autênticos da história desse país, porque   em   conluio com  o embuste no tratamento oficial do tema.

         Adorável canibal, esse guerreiro, herói verdadeiro,  encontrado por Antonio Torres para o bem da literatura brasileira,  retirado da nebulosa de nossa história com   traços firmes na escrita ágil e atraente. 
      
 REFERÊNCIAS

TORRES, Antônio. Meu querido canibal, Editora Record, Rio, 2016.
ALMEIDA, José Maurício de. A tradição regionalista no romance brasileiro. Editora Achiamé, Rio de janeiro, 1981.
CÂNDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1964, segundo volume.
MATTOS, Cyro de. As criações de Adonias Filho, Publicações da Academia Brasileira de Letras, Rio, 2017.
SODRÉ, Nelson Werneck. História da literatura brasileira.  José Olympio Editora, Rio,  1960.

*Cyro de Mattos é contista, poeta, cronista, ensaísta, romancista, organizador de antologia,  autor de livros para crianças e jovens. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia.  Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Tem livro publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha e Dinamarca. Conquistou o Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, em Gênova, Itália, o  Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras,   Associação Paulista de Críticos de Arte com “O Menino Camelô”, infantil,  e o Prêmio Nacional Pen Clube do Brasil com o romance “Os Ventos Gemedores.

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quinta-feira, 31 de maio de 2018

ADORAÇÃO - Eglê S machado

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Vídeo criado a partir de uma faixa do CD "Marcando Uma Época" gravado em out/2010. Ministério de Música Cristo Luz - Nações Unidas - Sabará - Minas Gerais Para Contatos: coral.cristoluz@gmail.com
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HOUVE UM TEMPO - Jose Admiral

Houve um tempo



Houve um tempo de um mundo mais colorido, mas com outros matizes. Eu e meus irmãos éramos crianças e tudo era muito diferente de hoje. E nele (naquele tempo), a minha mãe nos colocava no banho e dizia: "Vamos Sair." E então, ela caprichava escolhendo a roupa mais nova e mandava-nos pentear o cabelo. Geralmente era ao entardecer e íamos, a família inteira, visitar uma "casa de amigos". E COMO ERA CALOROSO aquele "chegar de surpresa". Como eu me sentia bem recebido...

E vale comentar aos mais novos, que nesse tempo que se chegava era de surpresa mesmo! Pois telefone só tinha fixo, era caro e praticamente não tinha em nenhuma casa. Carta avisando, só se fosse num local muito, muito longe. Foi um tempo que televisão era coisa da capital, e carro então, era um bem acessível a poucos. Mas isso não era problema. Toda a família ia a pé, alegre e ansiosa pra chegar. As visitas eram inesperadas, mas no final, tudo "funcionava feito um reloginho". Lembro-me de ouvir a frase mágica da satisfação pela visita: "O café está na mesa." E não era só café, tinha bolo, pão de queijo, queijo fresco, pão de sal, manteiga, doces e até suco de fruta colhida do pé.

Lembro-me de ouvir palavras que hoje estão em total desuso, como "Comadre e Compadre". Essas palavras acompanhavam o senso da felicidade das conversas animadas, e eram a solidez e a estabilidade que o ambiente exalava. Recordo também da alegria de recebermos visitas em nossa casa, de ver minha irmã mais velha preparando a mesa e café.

Bem, esse tempo simplesmente já não existe mais. Foi-se a época daquela cidadezinha pacata do interior, que todo mundo se conhecia e que as portas e janelas ficavam abertas o dia todo. Tenho a lamentar é que esse tempo passou... Foi-se a imagem da cidadezinha, das ruas, do coreto, da praça, dos jardins e do flamboyant enorme florido. Foi-se também a imagem da menina brejeira que se debruçava na janela, era ela que sonhei um dia namorar. Só resta a foto do passado esmaecido na memória de um tempo que no seu bojo traz uma infinita saudade, e que foi intensamente vivido e que jamais será esquecido.

Hoje sinto que o meio em que vivo está tentando me transformar em autodidata da solidão, com Cursos Intensivos de Televisão, DVD, Netflix, Mídias Sociais ou outros meios de comunicação.
Mas, solidão é, definitivamente, o que eu não quero pra minha vida. Eu prefiro mesmo é uma conversa "tete-à-tete", à uma mensagem do WhatsApp. Quero manter para o resto de minha vida, o espírito da "visita de Surpresa". Quero ser alguém que interaja e que seja capaz de tocar o coração das pessoas. Por isso, sei que bem do fundo do meu coração, eu tenho uma imensa fome e sede de gente e de vida.

 "Gotas de Crystal" <ppscrystal@yahoo.com.br>


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quarta-feira, 30 de maio de 2018

COTAS? OFICIALIZAÇÃO DA DISCRIMINAÇÃO! - Antonio Nunes de Souza


Cotas? Oficialização da discriminação


          Essa não é a primeira nem tão pouco a última vez que me referirei a esse assunto, pouco entendido, não só pelas ditas classes sociais, como também os representantes das etnias!

          Com relação aos órgão governamentais, esses estão se lixando em querer fazer o correto e merecido de direitos iguais. E, assim sendo, sempre fazem (quando fazem), apenas paliativos e leis retrogradas que, claramente, não atende as necessidades óbvias!

          Minha sólida e grande revolta é com essa forma simples e simplória usada de acalmar as solicitações principais de oportunizarem os negros, mestiços, mulatos, sararás, ou sejam, os afrodescendentes, indígenas e pobres de qualquer cor, utilizam o absurdo de “COTAS” que, com isso, estão nada mais nada menos, oficializando uma discriminação sórdida, demonstrando que essas pessoas são realmente inferiores e precisam de favores especiais para exercerem o que na verdade tem direitos como cidadãos!

          Pode-se até aceitar essa migalha, mas, com veemência continuar lutando para que, em vez de cotas de favorecimentos, sejam dadas oportunidades iguais, oferecendo boas escolas públicas, cursos qualificados, atender as necessidades básicas e, com esses itens, deixar que cada um aproveite as oportunidades e briguem com as mesmas armas para ocupar seus merecidos espaços.

          Sinto bastante que, na atualidade, as associações defensoras da etnia negra estejam exigindo mais negros nas TVs, nas publicidades, cinema, teatro, etc., como se isso fosse favores ou consolos. Nada disso representa uma verdade!

          O que se deve é dizer que os afro-brasileiros são tão humanos e competentes com qualificações para que sejam contratados e expostos dignamente.

          Por essas claras e evidentes razões que expus acima, creio que com justas lógicas,  não devem aceitar esses favores com características de mendicância!

          Jamais parar a luta achando que já ganharam ou estão ganhando, pois, somente quando houver igualdades de tratamentos é que veremos que, na verdade, as competências não estão nas cores ou origens humildes!

Antonio Nunes de Souza, escritor
Membro da Academia Grapiúna de Legras-AGRAL


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TRÊS IMAGENS QUE NÃO DÁ PARA ESQUECER - Bolívar Lamounier


25/maio/18
Três imagens me vieram hoje à memória, duas de uns 20 dias atrás e outra de há dez ou doze anos. As duas primeiras, se não me engano, apareceram na internet no mesmo dia. A primeira mostrava o ministro Gilmar Mendes descendo os degraus da saída do STF. A seu lado, uma moça (ou seria já uma senhora) cobria-lhe a cabeça com um guarda-chuva. Mas não chovia. A assistência que ela prestava ao ilustre ministro devia ser para proteger a avantajada área exposta que ele ostenta na superfície superior da cabeça. Muito sol nessa área talvez prejudique a atividade cerebral.

A segunda imagem veio de Lisboa. Numa rua comum, à sombra de uma árvore, sentado numa cadeira, um senhor de terno e gravata lia o jornal enquanto um engraxate lustrava-lhe os sapatos. Perguntei-me por que alguém decidira estampar uma imagem tão prosaica. Ao pé da foto, a explicação. Acontece que aquele pacato senhor era ninguém mais ninguém menos que o Dr. Marcelo Rabelo, presidente de nossa terra-irmã, a República Portuguesa.

A terceira cena, que presenciei de perto, ocorreu em Madri lá pelos idos de 2005 ou 2006. Desde 2001, na condição de membro da comissão de assessoria acadêmica, compareço às reuniões anuais do Clube de Madri, entidade criada por ex-presidentes e ex-primeiros ministros com o objetivo de apoiar internacionalmente os regimes democráticos. As reuniões são sempre excelentes. No ano a que me refiro, quando a sessão já se aproximava do fim, vários dos ex-mandatários demonstravam certa impaciência, pois tinham voos agendados para logo depois. Esperavam apenas a leitura e se necessário a discussão da declaração final da conferência. Tal discussão era geralmente pro forma, mas eis que, naquele caso, a comissão de redação não fora de todo feliz. Feita a leitura do documento, três ou quatro membros do Clube suscitaram objeções. Os sinais de impaciência aumentaram, claro. Eis senão quando o ex-presidente norte-americano, Sr. Bill Clinton, simplesmente tirou o paletó, foi ao computador, abriu o arquivo, reescreveu o documento, imprimiu-o e levou-o à mesa diretora dos trabalhos. Feita a leitura, o texto foi aprovado por aclamação, a sessão foi encerrada e os impacientes partiram apressadamente. 
A moral da história fica a critério de cada leitor.

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Bolívar Lamounier é um sociólogo e cientista político brasileiro que foi o primeiro diretor-presidente do IDESP, escrevendo frequentemente para os mais importantes veículos da imprensa brasileira.

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terça-feira, 29 de maio de 2018

DESALENTADOS E MULTIRRACIAIS - Ana Maria Machado


Artigo em jornal, na página de opinião, tem compromisso com fatos, notícias e acontecimentos. Ao menos, para refletir e analisá-los. É diferente de literatura. Nessa, a primazia absoluta é da linguagem, na exploração de suas possibilidades, para revelar seu poder latente na busca de sentido de se estar no mundo. Ou o encantamento e os impasses da dor diante dele. Carlos Drummond de Andrade, nosso poeta maior, já ensinou: “Não faças versos sobre acontecimentos./ Não há criação nem morte perante a poesia.”

É nas palavras que a poesia vai buscar sua força e poder. Sugere ainda o poeta: “Chega mais perto e contempla as palavras./ Cada uma/ tem mil faces secretas sob a face neutra.”

Mas jornal se faz com fatos. E eles se distribuem por todos os assuntos do mundo e do nosso tempo. Vão das dificuldades geradas pelo preço de combustíveis e protestos dos caminhoneiros à festa do casamento real em Windsor. Da revelação de novas frentes de corrupção no INSS ou na merenda escolar à escalada irrefreável da violência — da Rocinha à Cidade Universitária, da execução de Marielle Franco ao bebê baleado no colo da mãe. Fatos que parecem isolados se arrumam em constelações que lhes dão novos significados. Passam da pré-campanha eleitoral e das idas e vindas de recursos e embargos nos tribunais à divulgação dos mais recentes dados numéricos. Volta e meia, nesse processo, exigem palavras novas.

E elas surgem. Às vezes, em modismos artificiais, “lacrando” agora e destinados a durar pouco. Outras, na rica e original criação popular de potência duradoura. Os meios acadêmicos volta e meia trazem ou tentam impor artificialismos como “empoderamento” — criticado por tantos ouvidos sensíveis e já acusado de ser um “embutido” vocabular ou perversão linguística.

Estes últimos dias nos brindaram com duas contribuições interessantes nesse terreno de reapropriação léxica. Novas faces secretas reveladas sob a face neutra de que falava o poeta, de vocábulos “sós e mudos/ em estado de dicionário.”

Uma delas veio de um órgão que costumamos associar a números e não às letras. Rapidamente ganhou colunas de analistas e relatórios de economistas. Mas já o poeta ensinara que “sob a pele das palavras há cifras e códigos”. O IBGE amplifica o sentido de “desalentados” e mostra que, em quatro anos, subiu quase 200% o número de brasileiros que desistiram de procurar emprego porque chegaram à conclusão de que não vão mesmo encontrar nada. Dentro do estarrecedor descalabro nacional — com seu jovem e crescente contingente nem-nem, que nem estuda nem trabalha —, ganha visibilidade e nome uma imensa parcela de nossa população. É urgente buscarmos saídas racionais, num debate adulto, que não escamoteie os dados e fatos da realidade, nem fique tentando disfarçá-la com retórica oportunista e vazia, cuja única serventia talvez seja adiar soluções necessárias e perpetuar benefícios ou privilégios de quem tem poder.

Outra boa palavra surgida agora, a fazer pensar, brotou na cobertura do casamento na família real britânica. A noiva não se contenta em ser classificada como afrodescendente ou negra, como aconteceu com Barack Obama ao assumir a Presidência americana há alguns anos — sempre a inutilmente tentar lembrar que sua mãe era branca e seu pai, africano. Mezzo a mezzo... A nova duquesa de Sussex, intensamente ciente de cada indício simbólico nos mínimos detalhes da cerimônia, faz questão de se identificar como “birracial”, assumindo a mistura afro-caucasiana. No Brasil, talvez “multirracial” seja uma palavra mais verdadeira para nos descrever, ao incorporar indígenas — sem mistificação, como ainda Drummond aconselhava a recebermos as ordens da vida.

Já abandonamos o rico termo “favela” por “comunidade”, palavra que acentua laços importantes e força coletiva, mas traz perdas conceituais, ao relegar ao esquecimento uma série de conquistas culturais e um tecido histórico substancial, em prol de terminologia mais abstrata, mais ligada a uma classificação de capilaridade social americana. Já estamos fazendo campanhas para substituir a palavra “escravo” por “escravizado”, como se o número maior de sílabas e o aspecto de particípio passado, ao se afastar do substantivo concreto, mudasse o horror, o sofrimento e a vergonha do sistema escravocrata que nos fez como país e a que foram submetidos povos inteiros no correr da História. E assim seguimos, mesmo desalentados e multirraciais, a patrulhar palavras, discutindo o supérfluo e acessório, e deixando de encarar o essencial.

Pode parecer uma bobagem, mas acho que, se conseguirmos nos pensar como birraciais e multirraciais, estaremos mais próximos de ver quem somos e entender o imenso valor que tem essa identidade, os caminhos que ela pode nos abrir em meio às dobras do racismo persistente. Mais uma vez, com Drummond, podemos constatar que há calma e frescura na superfície intacta das palavras. “Com seu poder de palavra/ e seu poder de silêncio”.

O Globo, 26/05/2018

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Ana Maria Machado - Sexta ocupante da Cadeira nº 1 da ABL, eleita em 24 de abril de 2003, na sucessão de Evandro Lins e Silva e recebida em 29 de agosto de 2003 pelo acadêmico Tarcísio Padilha. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 2012 e 2013.

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TRÊS GRANDES PERDAS – Rodrigo Constantino


25/maio/18
No espaço de poucos dias tivemos três grandes perdas. No dia 14, morreu o escritor Tom Wolfe. Seu refinamento, visão conservadora e elegância, além da forma como retratava a hipocrisia e vaidade das elites “progressistas”, deixarão saudades. Seu radical chic foi influência direta em meu Esquerda Caviar, enquanto seus divertidos ataques aos modismos da “arte contemporânea me renderam boas risadas.

Um de seus últimos livros, Sangue nas Veias fala do caldeirão étnico e cultural repleto de latino-americanos e com poucos americanos “legítimos” em Miami. Morando há três anos nesse ambiente, tenho que constatar que Tom Wolfe é cruel na medida certa com nossas elites vaidosas e abobalhadas. Mesmo com todas as suas qualidades, de “América Latina que deu certo”, convenhamos: Miami, com uma das maiores quantidades de “breguice” por metro quadrado, é um prato cheio para o autor tripudiar dessa classe de nouveau riche, não é mesmo?

A segunda grande perda foi do historiador Richard Pipes, que faleceu no dia 17. Sua especialidade era a história russa, e isso lhe deu uma visão privilegiada do comunismo. Em Propriedade e Liberdade, Pipes resume bem o problema: “A história da Rússia oferece um excelente exemplo do papel que a propriedade desempenha no desenvolvimento dos direitos civis e políticos, demonstrando como a sua ausência torna possível a manutenção de um governo arbitrário e despótico”. Abolir a propriedade privada? Eis o caminho do inferno!

Richard Pipes conclui que “a experiência da Rússia indica que a liberdade não pode ser legislada; ela precisa crescer gradualmente, em forte associação com a propriedade e a lei”. Infelizmente para os russos, a propriedade privada nunca fincou suas raízes por lá, onde o poder sempre esteve arbitrariamente concentrado no Estado. Parece um país que conhecemos bem.

Por fim, morreu no dia 23 o escritor Philip Roth. Gosto muito de seu estilo, da força de suas palavras, sempre econômicas. Também sou atravessado pelo tema recorrente de seus livros: o poder de estrago do imprevisível, a mudança repentina na vida das pessoas por acontecimentos inesperados, o encontro com o “real”, como diria um psicanalista, as contingências do destino. Tudo parece certinho, ordenado, bem ao gosto de um típico obsessivo, quando de repente o mundo desaba, o chão desaparece, tudo fica nebuloso. É angustiante. Mas é realista. É a vida.

E por isso mesmo temos que valorizar a nossa, reconhecendo, com humildade, que não estamos em seu total controle, e que a precariedade de nossa existência é a norma, o que nos demanda coragem e fé. A morte, afinal, chega para todos, e quase sempre sem aviso. Importa, porém, aquilo que fica. No caso desses três gigantes, uma incrível obra como legado.


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