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sábado, 14 de abril de 2018

CURIOSAS SUPERSTIÇÕES! - Antonio Nunes de Souza


Curiosas superstições!

O ser humano, creio que desde o seu aparecimento no Paraíso, ou sua transformação de antigos símios como disse Darwin, provavelmente tem e carregam crenças sobre uma série de coisas que, graças a Deus, são, consistentemente, sem sentidos e sem maiores prejuízos!

Claro que, mesmo não carregando a pecha prejudicial diretamente, não deixa de causar transtornos para aqueles que creem literalmente nos seus efeitos, principalmente, quando trata-se efeitos negativos!

Esse meu preambulo foi para falar de uma superstição bastante respeitada, resguardada e, cuidadosamente olhada, que são as “sextas-feiras 13”!

Geralmente são encaradas como perigosas, carregadas de azares pecaminosos, atrapalhações nos planos, projetos, negócios e, logicamente, nas amizades e amores também!

Os mais fanáticos, ou fracos de personalidades, jamais fazem qualquer coisa de importante nessas datas, que geralmente estão presente em algumas ocasiões durante o calendário anual. Sendo que, se for no mês de agosto, para os supersticiosos, trata-se de um dia “perigosíssimo para qualquer atividade”, principalmente para viagens aéreas ou terrestres que são as mais comuns!

Infelizmente não sei a origem dessa superstição e nem de outras existentes, mas, como ser humano que sou, acompanho o respeito por essa data “fatídica”, misteriosamente azarenta!
Nada nos custa respeitar as crenças existentes tendo-se cautelas. Pois, se algo acontecer de errado, rigorosamente, a culpa foi da pobre data com fama de maligna. E, para evitar que isso aconteça, não custa nada deixar as coisas que nos são importantes para o dia seguinte, não dando chances de “azares” aos nossos interesses em todas as vertentes!

Com sinceridade, estou escrevendo essa crônica com todo cuidado, para que seja bem entendida, clara e cheia de lógicas, bastante preocupado com medo de estar sendo medíocre, sobre uma superstição tão respeitada e cultuada, por todos os brasileiros! Digo brasileiros por que desconheço se essa data também é execrada em outras fronteiras.

Se a sua significação é verídica ou não, nada custa deixar para amanhã as decisões que deveriam ser tomadas hoje. “Precaução e canja de galinha nunca fazem mal a ninguém”!

Desejo que hoje seja um dia lindo para todos e que, se fizerem algo de especial, essa terrível data esteja dormindo e que nada aconteça no sentido contrário!

Antonio Nunes de Souza, escritor
Membro da Academia Grapiúna de Letras-AGRAL

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sexta-feira, 13 de abril de 2018

PROFECIA EM PALAVRAS - Gillian Macbeth-Louthan


Nós profetizamos o futuro pelas palavras que falamos no presente. As nossas palavras são sempre uma profecia auto realizável. Não plantemos sementes negativas, profetizemos apenas o bem e a intenção do bem. Nós podemos cancelar os melhores planos estabelecidos do Universo através das nossas palavras negativas e devaneios negativos.

A morte e a vida são o poder das nossas palavras. Nós teremos aquilo que dizemos. As nossas palavras vão dar vida exatamente àquilo que dizemos. Quando falamos estamos dando vida ao que estamos dizendo, estamos plantando uma semente. Nós vamos obter exatamente aquilo que estamos falando. As palavras são como as sementes: elas têm poder criativo. Nós somos o que somos hoje por causa das palavras que dissemos no passado.Todas as nossas palavras se tornam uma profecia auto realizável.

Ouçamos o que dizemos sobre nós mesmos. Pensamentos negativos não precisam tornar-se palavras negativas. No momento em que se diz algo abertamente isso ganha todo um novo significado e toda uma nova energia. Se não gostamos do que estamos vivenciando, comecemos a mudar as nossas palavras. É melhor não dizer nada do que dizer algo negativo. As palavras negativas anulam os planos de Deus, estão praguejando contra o nosso futuro, estão praguejando contra a nossa vida. Podemos usar as palavras para praguejar contra a nossa vida ou podemos usar as palavras para abençoar a nossa vida.

Digamos palavras de fé; declaremos a proteção de Deus na nossa luz e no nosso coração. Mudemos a atmosfera de todos os lugares onde vamos com as nossas palavras!Clamemos o bem! Clamemos a luz! Clamemos o amor! Clamemos por ajuda divina! Não falemos de problemas, falemos de soluções. Não somos repórteres das nossas histórias, mas protagonistas das nossas vidas.Devíamos clamar o invisível como se ele fosse realmente visível. Clamemos aquilo que nós desejamos! Clamemos com palavras cheias de fé! Clamemos com luz!

Mudemos o mundo à nossa volta mudando nossas palavras. A morte e a vida estão no poder da nossa língua. Estamos gerando ou estamos destruindo? As circunstâncias alinham-se com cada palavra que dizemos. As nossas palavras são profecias auto realizáveis. Nós somos os criadores de nossas próprias circunstâncias. O que criarmos através de nossas palavras, nós podemos alterar. Quando reagimos negativamente a mudanças repentinas e ao caos na nossa vida estamos atrasando o propósito da criação. Se aceitarmos o caos como uma oportunidade para a elevação espiritual, então a dor desaparecerá. O nosso próprio comportamento determina em que universo entramos. A profecia é ver o futuro nas nossas ações presentes.

"Gotas de Crystal" gotasdecrystal@gmail..com


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CANSAÇO - Carlos Nejar

Cansaço 
Estamos num tempo cansado, tempo que não sabe mais o que fazer de si, como não sabemos mais o que fazer ou esperar da Justiça. Outro dia, houve o julgamento de um habeas corpus de um ex-presidente. E o nobilíssimo Supremo Tribunal Federal revelou quanto a Justiça se mostra exaurida. E para não julgar, com exceções, deve estar pronta para longas férias na República. Talvez por estresse, talvez por interesses ou pressões. Pois não vi antes um habeas esquecer provas e condenações de colegiados jurisdicionais. Todavia, recordo os versos de Gonçalves Dias: “Meninos, eu vi!”

Antes o Supremo era o último baluarte da cidadania, hoje tende a ser — salvo melhor juízo, e o juízo é sempre mutável —, por tal benesse, um baluarte dos poderosos. Diz a digna presidente do Egrégio Tribunal que o tratamento ao ex-presidente é igual a qualquer um. Mas jamais vislumbrei, qualquer um, de repente, receber o benefício do salvo-conduto até o próximo julgamento. E os ministros do Supremo Tribunal Federal deram à ministra Rosa Weber a tranquilidade de exercitar a incoerência. As posições do plenário vão mudando com as estações, ou ventos. Ou as águas das constantes chuvas de violência que alagam a nação.

É humano que o Supremo canse, é humano que ele mereça solenes e incessantes férias. E é previsível até que algum dos julgadores peça vista dos autos e prolongue infinitamente o julgamento, pois a incoerência nasce da exaustão e a exaustão, do peso de julgar, nada valendo as anteriores decisões. Talvez também por serem todos os julgadores míopes, e só o Supremo saiba, tenha a claridade bem-aventurada na retina. “Não vai a Roma quem quer, mas quem pode” — advertia Machado de Assis. Todo esse processamento desvela um aspecto, além do cansaço, dos que são mais iguais diante da lei e os menos iguais — o mais não passa de remendo velho em pano velho.

Muitos aguardavam que viesse um vinho novo, um resultado de equilibrada justiça, a certeza de que ninguém está acima da Constituição. Já o tal salvo-conduto nos deixou atônitos, por inexistir precedente. Agora assistimos ao que vier, tristes, sem laivo de esperança. Porque o cansaço do Supremo, com exceções, é o cansaço supremo da Justiça, o recuo, o desabar de mais altas tradições. Se não falta coragem, falta fôlego. Se não falta fôlego, falta a ousadia no presente, que é sem futuro.
O Globo, 02/04/2018

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Carlos Nejar - Quinto ocupante da cadeira nº 4 da ABL, eleito em 24 de novembro de 1988, na sucessão de Vianna Moog, foi recebido em 9 de maio de 1989 pelo Acadêmico Eduardo Portella.

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quinta-feira, 12 de abril de 2018

O DERRETIMENTO DE UM LÍDER POLÍTICO - Jairo José da Silva



Terminado o discurso de Lula não mais olhei pra TV, fui ao concerto, jantar com amigos, pensar em outras coisas. Levei 12 horas pra digerir o que vi.

Que espetáculo! Nem Fellini poderia ter dirigido aquilo! Esses dois dias passarão para a História, não tenham dúvidas.

Vimos hoje, em cima daquele caminhão, o derretimento de um líder político em repulsivo strip-tease moral, uma viagem alucinante ao passado, uma epifania de verdades sob véus de mentiras.

Um homem que ocupou o proscênio da política brasileira por quase quatro décadas, que presidiu o país por oito anos, reduzido ao seu eu mais profundo, um agitador barato de porta de fábrica, um líder estudantil senil, um agente provocador. Discursando embebido de cachaça e ódio, sedento de vingança, conclamando arruaceiros a queimar pneus, invadir propriedades, atacar adversários, num paroxismo autolaudatório de mitomania.

O homem que ocupou a mais alta magistratura na Nação atacando a imprensa e o judiciário como um vulgar porralouca, desrespeitando instituições da democracia que jurou respeitar e defender.

Todo o espetáculo oscilou entre o patético e o ridículo. Uma fauna incrível de puxa-sacos e ratos brigando pelo espólio enfeitada com padres paramentados. Tinha até um bispo. Se eu não tivesse visto não acreditaria. Uma paródia de missa em pretensa homenagem a uma morta, mas toda dedicada ao endeusamento de um muito vivo que mostrava seu sentimento religioso mamando cachaça de uma garrafinha de água (que tentavam tirar da mão dele antes que fosse muito tarde).

Sabendo que aquele era o seu ocaso, poderia ter tido um gesto de grandeza, ter ensaiado sua entrada na História de modo mais digno, mas preferiu mandar trazer cerveja e carvão para o churrasco. Inacreditável!

Lula foi um talento político como poucos, um homem de evidente inteligência prática, mas infelizmente completamente desprovido de princípios éticos. Ele nunca se deu conta de que foi uma marionete nas mãos de oligarquias corruptoras e arcaicas estruturas políticas que o manipularam como quiseram às custas de agrados, mimos, presentes, adulação.

Aliou desonestidade pessoal com a já consagrada desonestidade intelectual e moral das esquerdas. Roubar o Estado lhe parecia uma justa estratégia política, ainda que tivesse que entregá-lo a tubarões exploradores, desde que também pudesse usufruir pessoalmente de algumas migalhas desse banquete de ratos.

Lula terminou sua carreira como começou, como um líder sindicalista. Mas se aquele homem jovem dos anos 80 trazia consigo uma promessa de renovação, o velho fauno de hoje é só uma paródia de si mesmo.

Esse Lula de hoje é o mesmo Lula dos anos 80 e 90, o verdadeiro. O Lulinha paz e amor dos anos 00 e 10 foi uma invenção de Marcelo Odebrecht, que inclusive redigiu o infame Manifesto à Nação que tornou Lula palatável às classes médias. Lula Odebrecht acabou, sobrou um saco vazio recolhido a uma cela.

Lula foi preso e o país não parou, não houve comoção popular, não houve choro e ranger de dentes - o povo preferiu ir aos estádios de futebol - e na frente do sindicato só havia os mesmos fanáticos de sempre.

A montanha pariu um rato.


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OS ESTILHAÇOS DA REALIDADE - Antonio Carlos Secchin


Os estilhaços da realidade


Na capa de Exílio, de Lucas Guimaraens, uma imagem negra se adensa, depois se esvazia, até se configurar em pigmentos estilhaçados. Que melhor representação para o exílio, senão o estilhaço? Pontos nômades, sem centro, submersos no "lago das incertezas", subtítulo deste que é o terceiro livro de poemas do autor.

As 68 páginas do volume são atravessadas pela presença icônica de algumas linhas que menos costuram do que desfazem os nós de uma aventura na linguagem, espraiada em cinco seções que mesclam prosas e poemas. Pena que o volume, de 68 páginas, abertas por epígrafe de Silviano Santigo, e seguidas por arguto ensaio de Edmilson Pereira, não comporte sumário, para que o leitor se informe das etapas que o esperam nesse périplo: "das asas", "ponto", "histórias reais de um carnaval imaginário", "festival" e "do risoto ao Mar Morto".

Tais títulos já indiciam a resoluta opção por trilhas refratárias a compromissos "realistas", confessionais, em prol de uma elocução que investe na espessura da linguagem. A dicção de Lucas deseja-se intensamente poética, ainda que às expensas de maior grau de comunicabilidade. Daí, em algumas peças, a constituição de um mundo imerso no onírico ("se aros de bicicletas rangessem olhos"), em que as palavras, em vez de "explicar" a realidade, terminam por cifrá-la.

Num poema do livro de estreia. Onde (2011), declara Lucas: "poesia é alumbramento/... /é condensação de vertigens". Na segunda obra, 33,333-conexões bilaterais (2015), esmerada produção gráfica numa parceria com as imagens de Fernando Pacheco, o poeta permanece fiel a esse ideário, na busca de "palavras que trepam delírios". E em Exílio, não sem alguma ironia, declara: "você operária do verso coloquial/ permanecerei na órbita lunar/ .../ lerei seus posts ao contrário/ quem sabe me apaixono por você". Poeta lunar, na trilha de seu bisavô Alphonsus? Não exatamente, porque, se Alphonsus celebrava a luz da Lua refletida na Terra, Lucas prefere não aterrissar no planeta pedestre e "coloquial", optando por encetar viagens verbais que o lancem aos "brilhos das estrelas", território livre em que "feridas e sonhos remanejam o invisível".

Uma atmosfera sombria marca a primeira seção da obra. Em "das asas", tanto na prosa do texto inicial quanto nos versos da grande maioria das nove peças subsequentes o desencontro é a tônica, conforme se lê na forte imagem que arremata o poema "exílio": "corrimão de incertezas sob os dedos da saudade". A abertura em prosa, seguida de poemas, é, aliás, um procedimento que se reitera em todas as seções do livro. Um curioso mix de realidade e delírio perpassa os blocos quatro e cinco, em que textos inicialmente "referenciais" - um festival de poesia de que Lucas efetivamente participou, na Turquia, uma viagem à Europa e a Israel - sofrem gradativas interferências e estranhamentos, a ponto de desnortear as balizas de causa e efeito que o leitor, eventualmente, estivesse tentando erguer. Em Lucas, o real surge em fragmentos, e o resultado remete a um conjunto de peças díspares que não propiciam a tranquilidade apaziguadora de um espelho, mas, ao contrário, atiçam a percepção do desencaixe das coisas, afirmando que nada é exatamente o que supomos que seja. Mundo em contínuo deslizamento, espaço de fraturas expostas pelo verbo, eis a fabulação de uma poesia que não nos acalenta, mas provoca e desafia. Contra o bom senso e a previsibilidade, este "exílio", decididamente, nos faz mergulhar no "lago das incertezas".

Estado de Minas, 06/04/2018

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Antonio Carlos Secchin - Sétimo ocupante da Cadeira nº 19 da ABL, eleito em 3 de junho de 2004, na sucessão de Marcos Almir Madeira e recebido em 6 de agosto de 2004 pelo acadêmico Ivan Junqueira.

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quarta-feira, 11 de abril de 2018

CENAS DE UM DIA NA CORTE - Zuenir Ventura


Cenas de um dia na Corte

Foram quase 11 horas com apenas alguns intervalos, bem mais do que a peça de Ariane Mnouchkine “Rei do Camboja”, de oito horas, a que assisti em 1985 em Paris e que era o meu recorde de espectador. Só que o espetáculo do STF teve mais suspense, pois não se sabia o que iria acontecer com o protagonista.

O número exótico foi apresentado por Gilmar Mendes, vindo especialmente de Lisboa, para onde voltou após votar. Deu um show de interpretação com sua retórica teatral de caras e bocas. Exaltou-se, responsabilizou os petistas pela atual intolerância e jogou pedras na Geni, que é a imprensa hoje.

Disse que nunca viu uma “mídia opressiva” como a de agora. Acusou o “Jornal Nacional” de “neopunitivismo” por querer “provar minha incoerência” , deu um esbarrão no GLOBO e fez pior com a “Folha de S.Paulo”, chamando-a de “mídia chantagista. Queixou-se também dos que querem lhe dar lição sobre o sistema penitenciário. “É injusto ou indigno para comigo. Eu fui a Bangu e Pedrinhas, conheço esse sistema”. Ah, sim, e também votou, como esperado, a favor da concessão do habeas corpus.

O melhor momento foi proporcionado por Luís Roberto Barroso. Com um discurso claro, objetivo e convincente, ele deixou sem graça os que defendem o tal trânsito em julgado, ao exibir exemplos de condenados que, de recurso em recurso, passaram dez, 20 anos livres. Como “impactos devastadoramente negativos” de uma decisão proibindo a prisão após condenação em segunda instância, ele citou a impunidade de quem tem bons advogados e o descrédito do sistema penal. “Condenou-se a advocacia criminal ao papel de interpor recurso incabível atrás de recurso incabível para impedir a conclusão do processo e gerar artificialmente prescrições”.

Rosa Weber foi a quinta a votar, cercada da maior expectativa. Era aguardada como fiel da balança. Por cerca de uma hora fez uma apresentação técnica, hermética, coerente, sem concessões, de sua justificativa. Ela se baseou no “princípio da colegialidade”, que faz “as vozes da individualidade cederem em favor de uma voz institucional”.

Por fim, é triste lamentar o comportamento de Marco Aurélio (ajudado por Levandowski), que, inconformado com a derrota, foi deselegante e descortês com Cármen Lúcia e Rosa Weber, interrompendo-as enquanto falavam, lançando farpas e distribuindo ressentimentos e queixumes.

Marco Aurélio perdeu uma boa oportunidade de se mostrar um cavalheiro com duas das mais brilhantes e serenas representantes do empoderamento feminino na Justiça.

O Globo, 07/04/2018

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Zuenir Ventura - Sétimo ocupante da Cadeira n.º 32 da ABL, Zuenir Ventura foi eleito no dia 30 de outubro de 2014, na sucessão do Acadêmico Ariano Suassuna, e recebido no dia 6 de março de 2015, pela Acadêmica Cleonice Berardinelli.

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À MARGEM DA INTERVENÇÃO NO RIO: VALORES MORAIS (V) - Marcos Costa


11 de Abril de 2018
Marcos Costa

Recente pesquisa Datafolha assinala que 76% dos cariocas aprovam a intervenção federal. Não é nosso objetivo comentar o mérito desta, mas a adesão dos cariocas reforça a atualidade dos temas aqui tratados: Valores Morais.

As declarações do ministro Jungmann (“El País”, 27-2-18) sobre a perda dos valores e a contradição da juventude, que ao mesmo tempo em que clama contra a violência consome drogas, põem em foco o problema que aqui tratamos, um dos mais graves da nossa sociedade.

Ora, os valores morais são os fios com que se fabrica o tecido social de uma nação. Mostramos, no último artigo, a família como umas das pilastras-mestras do tecido social. Tradição e propriedade completam essa trilogia sobre a qual se edificaram as nações cristãs.

Tradição, família e propriedade são, pois, os pilares da nova ordem que, conscientemente ou não, as gigantescas manifestações públicas de 2016, nas principais cidades do País, cobravam de nossos homens públicos: “Queremos nosso Pais de volta”.

Os progressistas e a esquerda reconhecem a importância dessa trilogia

Como bem observou Max Delespesse, conhecido progressista belga, em livro com o significativo título Tradition, Famille, Propriété. Jésus et la triple contestation, “observadores superficiais poderiam surpreender-se diante da trilogia ´tradição-família-propriedade´ como se se tratasse de um amálgama artificial. Na realidade, a junção destes três termos não se deveu ao acaso. […] ‘Tradição-família-propriedade’ é um bloco coerente que se aceita ou se rejeita, mas cujos elementos não podem ser separados” (Max Delespesse, Tradition, Famille, Propriété. Jésus et la triple contestation, Fleurus, Paris, 1972, pp. 7, 8).

No mesmo sentido, é muito frequente a mídia de esquerda referir-se à trilogia tradição família propriedade como sendo a ponta de lança da reação conservadora em nosso Brasil.

O ensinamento dos Papas: valores morais são o alicerce

São Pio X, na Encíclica Il Fermo Proposito, de 11 de junho de 1905, insistiu em que “a civilização do mundo é a Civilização Cristã, tanto mais verdadeira, mais duradoura, mais fecunda em frutos preciosos, quanto é mais autenticamente cristã”1;

E na Carta Notre Charge Apostolique, de 25 de agosto de 1910, ele recordava: “Não se deve inventar a Civilização, nem se deve construir nas nuvens a nova sociedade. Ela existiu e existe: é a Civilização Cristã, é a sociedade católica. Não se trata senão de a instaurar e restaurar incessantemente nas suas bases naturais e divinas, contra os ataques sempre renascentes da utopia malsã, da revolta e da impiedade: ‘Omnia instaurare in Christo’ (Ef. I, 10)”2.

Por sua vez, Leão XIII ressalta o valor da propriedade privada:

“A teoria socialista da propriedade coletiva deve absolutamente repudiar-se como prejudicial àqueles mesmos a que se quer socorrer, contrária aos direitos naturais dos indivíduos, como desnaturando as funções do Estado e perturbando a tranqüilidade pública. Fique, pois, bem assente que o primeiro fundamento a estabelecer para todos aqueles que querem sinceramente o bem do povo é a inviolabilidade da propriedade particular” (grifos nossos).3

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Não pretendemos esgotar a fundamentação doutrinária da trilogia tradição família propriedade no âmbito de um artigo. Daremos apenas alguns traços essenciais que ajudem o brasileiro (aquele que saiu às ruas em 2016, em gigantescas manifestações) na busca da verdadeira solução dos nossos problemas.

Saber ver as raízes de uma crise como a nossa já representa 80% da solução e exclui as utopias da esquerda ou da pseudo-direita.

Resta-nos uma pincelada sobre a importância da tradição.

Face às contradições atuais: tradição, por que não?

A tradição não é só um passado. Pelo contrário, ela cabe no presente. Escreve o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, em artigo para a “Folha de S. Paulo”:

“A verdadeira tradição não é — em princípio — só pelo passado enquanto passado, nem só pelo presente enquanto presente. Ela pressupõe dois princípios:

a – que toda ordem de coisas autêntica e viva tem em si um impulso contínuo rumo ao aprimoramento e à perfeição;

b – que, por isto, o verdadeiro progresso não é destruir, mas somar; não é romper, mas continuar para o alto.

Em suma, a tradição é a soma do passado com um presente que lhe seja afim. O dia de hoje não deve ser a negação do de ontem, mas a harmônica continuação dele.

Em termos mais concretos, nossa tradição cristã é um valor incomparável que deve regular o que é hodierno. Ela atua, por exemplo, para que a igualdade não seja entendida como o arrasamento das elites e a apoteose da vulgaridade. Para que a liberdade não sirva de pretexto ao caos e à depravação. Para que o dinamismo não se transforme em delírio. Para que a técnica não escravize o homem. Numa palavra, ela visa impedir que o progresso se torne desumano, insuportável, odioso.4

Vejamos a sábia advertência de Nosso Senhor

“E ninguém deita remendo de pano cru em vestido velho, porque (este remendo) levaria consigo uma parte do vestido, e ficava pior o rasgão. Nem se deita vinho novo em odres velhos; doutro modo rebentam os odres, e derrama-se o vinho, e perdem-se os odres. Mas, deita-se vinho novo em odres novos; e assim ambas as coisas se conservam”. (Mt 9, 16-17).

Em outras palavras, o tecido velho representa aqui os erros liberais e petistas que nos têm governado. Saibamos, pois, edificar o novo Brasil, reconstruir o tecido social com os valores perenes da tradição família propriedade.

O alicerce de toda civilização é a moralidade: edificando o novo Brasil

“O alicerce de toda civilização é a moralidade. E quando uma civilização se edifica sobre os alicerces de uma moralidade frágil, quanto mais ela cresce, tanto mais se aproxima da ruína. É como uma torre que, assentando-se sobre alicerces insuficientes, ruirá desde que chegue a certa altura. Quanto mais se sobrepõem uns andares a outros, tanto mais está próxima sua ruína. […] O trabalho que a Humanidade tem efetuado desde o século XIV consistiu em enfraquecer os alicerces e aumentar o número de andares”.5

 Desafio à geração atual

Reconstruir o Brasil com base nos valores morais, esses são os fundamentos do tecido social. Os pilares são: tradição, família, propriedade.

Não à ideologia de gênero, que desonra a Família.

Não às invasões de propriedade pelo MST e assemelhados, guiados pela CPT (ramo da CNBB).
Não aos inimigos da tradição cristã brasileira, os quais, seguindo socialismos, bolivarianismos ou petismos, quiseram implantar aqui a ideologia igualitária da foice e do martelo.

Não ao esfarelamento da unidade nacional com a criação de “nações” indígenas e quilombolas como se estes não fossem partes integrantes de nosso Brasil.

Não àqueles que querem colocar um “remendo” nesse tecido social apodrecido pela revolução libertária, igualitária e sensual de nossos dias.

Confiantes em Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil, lutemos, rezemos e trabalhemos pelo nosso porvir.
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Notas:
São Pio X, Encíclica Il fermo proposito, in ASS, vol 37 (1905) p. 745
São Pio X, Carta Notre Charge Apostolique, de 25 de Agosto de 1910, cit., p. 612.
Leão XIII, Encíclica “Rerum Novarum”, de 15 de maio de 1891 – Editora Vozes Ltda., Petrópolis, pág.12.