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segunda-feira, 18 de setembro de 2017

DE MÃOS DADAS – Marília Benício dos Santos

De mãos dadas


            Ontem, à tardinha, encontrei um casal de velhos, de mãos dadas, passeando. Eu, como sempre, ia apressada, mas não deixei de olhar para aquele casal que transmitia paz, tranquilidade. Mas a minha sensação foi de dó. “Que pena! Naturalmente cada um está pensando: qual de nós dois vai partir primeiro? Que pena!” E fiquei triste. E lá me fui pegar o ônibus, planejando um dos velhos morrer. Naturalmente morrerá primeiro o velho; já está muito trôpego. Quando me sentei no ônibus pensei: “Que mania tenho de transferir para os outros aquilo que penso! E por que pensar em morte, se eles ainda estão vivos? Para que pensar no amanhã ao invés de viver o hoje?” Perguntaram a Chico Anísio:

            - E seu sonho hoje, poeta, qual é?

           -  Nesta etapa da vida, o meu sonho é ver amanhã.

            Não é viver o amanhã, mas esperar o amanhã vivendo o hoje. Cada dia tem seu encanto especial. Cada dia tem também a sua graça. Deus nos dá aquela graça do momento. De que adianta ficar pensando e sofrendo o amanhã?  Aqueles velhos vinham de mãos dadas. Isto é o importante: dar as mãos. Um ajudar o outro na caminhada. Agradecer a Deus ter chegado até aqui, dando um exemplo de amor. A atitude deles era a atitude de quem ama: tranquilos, passeavam dando a volta ao quarteirão. Na sua caminhada encontravam jovens, crianças e trabalhadores que voltavam para casa. E eles que não precisavam mais ter pressa, passeavam sem correr, sem mais se preocupar com o amanhã, com o futuro. O futuro já tinha chegado. Agora era olhar o céu e contemplá-lo; naquele fim de tarde, apesar da poluição, estava muito azul.

            Hoje, pela manhã, quando voltava do meu passeio matinal, encontrei-os e eles pareciam rir “como estão alegres!” pensei. Será que aquele casal estaria mesmo alegre ou eu é que tinha conseguido descobrir alegria neles, quando antes só via tristeza? Fiquei pensando: “a mesma coisa pode proporcionar alegria ou tristeza; depende muito do que está dentro da gente.”

            Aquele casal poderá, em seu passeio matinal transmitir alegria ou tristeza. Mas de uma coisa tenho certeza: ele transmitirá às pessoas que os veem tranquilidade ou amor. Com as mãos dadas eles comunicam união, compreensão, ternura. O mais lindo, porém, será que suas mãos estejam entrelaçadas nas mãos de Deus. Só assim á que na ausência de um, o outro não desfalecerá porque uma Mão amiga e poderosa, suavemente apertará a sua.


(ARCO-ÍRIS)

Marília Benício dos Santos

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FLIQUINHA 2017 TRAZ PROGRAMAÇÃO DIVERSIFICADA PENSADA PARA AS CRIANÇAS

O espaço voltado para o público infantil chega a sua 5ª edição


Desde 2013, as crianças têm lugar cativo dentro da programação da Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica), que este ano acontece entre os dias 05 e 08 de outubro em Cachoeira, cidade localizada a 130km de Salvador. A Fliquinha é o espaço da garotada, com contações de histórias, bate-papos e apresentações teatrais e musicais, com curadoria de Mira Silva e Lilia Gramacho.

Em 2017, como em todos os outros anos, a Fliquinha traz a literatura nas mais diversas plataformas, seja no cinema, no teatro e na música. Os autores e o livro possibilitarão às crianças revisitarem expressões narrativas como objetos de prazer, de ludicidade e de descoberta. Esta será a 5º edição do espaço que já faz parte da programação oficial da Flica.

“Quando pensamos a programação, o nosso compromisso é atiçar a natureza curiosa infantil através de uma programação que amplia o conceito do livro, para o campo das multlinguagens, tendo como premissa um fio narrativo que invoca aquilo que temos mais singular: a nossa capacidade de imaginar” explica a Mira Silva.

Este ano a Fliquinha apresenta o show Pé de Maravilha, projeto musical infantil do cantor Saulo, que mistura no repertório, clássicos infantis da música popular brasileira, aos cheiros e estímulos originários da floresta representada no palco por um jardim tropical. “É uma satisfação muito grande, ter um artista como Saulo na nossa programação, além de ele ser um grande nome da nossa música, no seu show, ele traz o universo da natureza e da música para as crianças, principalmente nesse mundo tão tecnológico”, completa a curadora.

Com mais de 20 atrações, nos quatro dias de evento, a criançada pode esperar muita contação de histórias, espetáculos teatrais e musicais, lançamento de livros, bate-papo com autores e muito mais. Orquestra Rumpilezzinho, Carolina Cunha, Antonio Moreno, Renato Moriconi, Iara Sydenstricker, Pablo Marutto, Renata Fernandes são alguns dos nomes nacionais e locais já confirmados para a programação.  Fliquinha acontece no Cine-Theatro Cachoeirano, prédio tombado pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Flica 2017 - A sétima edição, que acontece entre os dias 5 e 8 de outubro, traz para o Recôncavo Baiano influentes nomes da literatura nacional e internacional, com programação para adultos e crianças. Em 2017, estão programados debates literários, lançamento de livros, exposições, apresentações artísticas, contações de histórias e saraus.

Todos os anos, escritores de diversos matizes se reúnem para debater e interagir com o público, que tem acesso gratuito a todas as atrações do evento. A festa costuma atrair mais de 20 mil visitantes a Cachoeira.
Uma novidade deste ano será a curadoria. O escritor e jornalista Tom Correia assume a função ocupada, em 2016, por Emmanuel Mirdad, um dos idealizadores e coordenador geral da Flica.

O Governo do Estado da Bahia apresenta a Flica 2017. O projeto é realizado pela Cali e Icontent e tem patrocínio do Governo do Estado, por meio do Fazcultura, e apoio do Hiperideal, Coelba e da Prefeitura Municipal de Cachoeira.

Serviço
​Festa Literária Internacional de Cachoeira - Flica 2017
​Quando: ​5 a 8 de Outubro
Onde: Cachoeira/Ba


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Mais informações à imprensa: 
Laboratório da Notícia - 3272 4263

WhatsApp: (71) 98794-1251

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domingo, 17 de setembro de 2017

NOMES PRÓPRIOS, por Geraldo Carneiro


Nomes próprios

Sempre fui fascinado por nomes. Quando era criança, me lembro que os jornais e revistas volta e meia publicavam listas de nomes incomuns. E sempre constavam Um Dois Três de Oliveira Quatro, Rolando Escadabaixo de Andrade e Restos Mortais de Catarina, entre outros nomes, próprios ou impróprios.

Outro dia procurei na internet a lista do TSE e descobri outras pérolas, como Deusa do Amor Divino Tortieri, Danúbio Tarada Duarte, Esparadrapo Clemente de Sá, Felicidade do Lar Brasileiro, Faraó do Egito Souza, Fraternidade Nova York Rocha, Frankstein Júnior, Gêngis Khan Camargo e Graciosa Rodela.

Mas a capacidade de criar nomes não parou por aí. Na lista há outros eleitores também notáveis, como a Sra. Talvez Aberta Demais de Oliveira, o Sr. Ácido Acético Etílico da Silva, o Dr. Alfredo Prazeroso Texugueiro, Dr. Antônio Morrendo das Dores, Dona Defuntina de Souza Cruz, Dr. Himineu Casamentício das Dores Conjugais e a Dona Ambrísia Estilingue Morretes.

O curioso é que esses nomes raros surgem às vezes por acaso. Como muita gente sabe, meu amigo Millôr Fernandes foi batizado Milton Viola Fernandes. Só que o escrivão do Méier, por criatividade ou analfabetismo, deixou de grafar o tracinho horizontal da letra “t”, e, como se não bastasse, sapecou um circunflexo no “o”. Assim, o Milton virou Millôr. Só aos 16 anos Millôr descobriu sua nova velha identidade. Ficou felicíssimo.

Já a avó materna de minha musa e patroa chamava-se Violina — pelo menos até ser matriculada na escola e ouvir pela primeira vez a lista de chamada, quando descobriu que se chamava Deolinda. É que seu pai era português e, ao pronunciar o nome da filha no cartório, o escrivão confundiu alhos com bugalhos.

Há experiências ainda mais triviais. Meu filho mais velho, Joaquim Pedro, nasceu três dias depois de Alexandre, primogênito de Egberto Gismonti, meu parceiro de canções, em 1981. Fomos juntos batizá-los no <SW,26>cartório da Rua Djalma Ulrich, em Copacabana. Lá chegando, encontramos um admirador de música, que ficou feliz ao deparar conosco. Combinamos que cada um de nós seria testemunha no registro dos filhos dos outros. Para adiantar a burocracia, perguntei ao colega: “Qual é o nome do seu filho?” E ele me respondeu: “Raôni”, com acento no o.”

Com muito jeito, procurei esclarecer que havia um cacique indígena chamado Raoni, com acento no i. Mas o colega insistiu: “O meu é Raôni, com acento no o.”

Só então percebi que, em matéria de nomes, não há o que discutir: o que manda é a convicção dos pais. Se a cidadã ou cidadão quiser batizar o filho com outros nomes que constam da lista do TSE, como Colapso Cardíaco da Silva ou Maria Regina do Pinto Magro, tudo bem, tem todo o direito. Mas pode ter certeza de que vai fazer a festa dos cronistas do futuro.

O Globo, 10/09/2017

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Geraldo Carneiro - Sexto ocupante da Cadeira 24 da ABL, eleito em 27 de outubro de 2016, na sucessão de Sábato Magaldi e recebido em 31 de março de 2017 pelo Acadêmico Antonio Carlos Secchin.

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ITABUNA CENTENÁRIA: UM POEMA -Na boca do deserto, por Affonso Romano de Sant´Anna

Na boca do deserto


Estava indo, há muito, para o deserto
e não sabia.

Antes, ao revés, julgava caminhar
das pedras para o bosque
lugar de onde o mel e o vinho jorrariam.

Bastava fazer a travessia.

Em alguma parte passei por algum oásis
mas era para este destino de pedra
silêncio e pasmo
que me dirigia.

Os beduínos há muito compreenderam
o que eu não compreendia:
apenas nos movemos entre pedras, cabras e camelos
olhando ternamente o fim do dia.

A tenda é provisória.

Eterno só o áspero horizonte de pedra
e a poesia.


Affonso Romano de Sant´Anna

[In Sísifo desce a montanha, Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p. 52]

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PALAVRA DA SALVAÇÃO (44)

24º Domingo do Tempo Comum - 17/09/2017

Anúncio do Evangelho (Mt 18,21-35)
 — O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?”
Jesus respondeu: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Porque o Reino dos Céus é como um rei que resolveu acertar as contas com seus empregados. Quando começou o acerto, levaram-lhe um que lhe devia uma enorme fortuna. Como o empregado não tivesse com que pagar, o patrão mandou que fosse vendido como escravo, junto com a mulher e os filhos e tudo o que possuía, para que pagasse a dívida.
O empregado, porém, caiu aos pés do patrão e, prostrado, suplicava: ‘Dá-me um prazo, e eu te pagarei tudo!’ Diante disso, o patrão teve compaixão, soltou o empregado e perdoou-lhe a dívida.
Ao sair dali, aquele empregado encontrou um de seus companheiros que lhe devia apenas cem moedas. Ele o agarrou e começou a sufocá-lo, dizendo: ‘Paga o que me deves’.
O companheiro, caindo aos seus pés, suplicava: ‘Dá-me um prazo, e eu te pagarei!’ Mas o empregado não quis saber disso. Saiu e mandou jogá-lo na prisão, até que pagasse o que devia.
Vendo o que havia acontecido, os outros empregados ficaram muito tristes, procuraram o patrão e lhe contaram tudo.
Então o patrão mandou chamá-lo e lhe disse: ‘Empregado perverso, eu te perdoei toda a tua dívida, porque tu me suplicaste. Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?’
O patrão indignou-se e mandou entregar aquele empregado aos torturadores, até que pagasse toda a sua dívida.
É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.


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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Padre  Paulo Ricardo:
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O perdão atrevido e criativo
  
“Senhor, quantas vezes devo perdoar...?” (Mt 18,21)

Pouca gente, mesmo entre cristãos, compreende o sentido profundo do perdão. A maioria pensa que é forma de anistia do sentimento, esquecimento, ato interno capaz de compreender o ofensor e desculpá-lo no fundo do coração misericordioso; para uns o perdão significa passar por cima de um erro ou violência; para outros, o perdão é próprio das pessoas frágeis...

De fato, o perdão não se encaixa confortavelmente dentro dos padrões naturais do comportamento humano. Ele não nasce espontâneo dentro do coração do ser humano. A capacidade de perdoar a si mesmo ou aos outros é a marca registrada de uma personalidade madura. Representa considerável avanço em relação ao mais primitivo desejo de vingança, retaliação e revide.

O perdão ataca, com todo vigor, aquilo que parece ser uma lei de nossa história. Isso porque a lógica que regula as relações inter-humanas é regida pela lei do mais forte, ou, no melhor dos casos, pela lei da reciprocidade, da equivalência, como norma de justiça.

No perdão, assume-se uma atitude que não contabiliza mesquinhamente o que se fez; deve-se ter um gesto inovador, um gesto criativo. Caso contrário, fica-se prisioneiro da lógica repetitiva da violência. Perdoar é ir além do princípio de retaliação. Por isso é uma atitude atrevida e ousada.

O perdão representa a inovação: cria espaço onde já não impera mais a lógica da norma judiciária. Perdão não é esquecimento do passado, é o risco de um outro futuro que não aquele imposto pelo passado ou pela memória ferida. É convite à imaginação. É preciso aventurar-se no encontro com o outro.

Quem perdoa sabe estar correndo um risco, abandonando o ajuste de contas pela força ou então renunciando à força do direito. Mas sabe também que, sem esse risco, a história não terá nenhum futuro e a violência irá se repetindo indefinidamente.

Sabemos que a violência não tem regra em si mesma, é pura repetição. Já o perdão quebra a lógica do “olho por olho, dente por dente” e cancela o movimento repetitivo da violência. Quem perdoa sai fora desse jogo, arriscando a própria vida. O perdão quebra a cadeia lógica própria das  relações humanas, submetidas ao sistema de equivalência da justiça (cf. Mt. 5,38-42).

O seguidor de Jesus, ao entrar em sintonia com o Deus fonte do perdão, ultrapassa toda imposição da justiça legal e abre espaço a uma nova relação com o outro. Assim, o perdão, transformando as relações humanas, possui a capacidade para revelar o rosto original de Deus.

O perdão é um ato não-humano, parece mesmo ser um ato puramente divino. Joan Chittester chama o perdão “ o mais divino dos atributos divinos”. “Perdoar - ela afirma -é ser como Deus”. Mas este ato divino nos é revelado que ele está ao nosso alcance, porque Deus nos convida a ele. O perdão é divino porque, para o ser humano, ele é verdadeiramente divino em seus efeitos e em seu próprio processo.

Por isso, Jesus insiste fortemente sobre o perdão, porque este é uma necessidade vital quando a vida foi ferida. Como presença visível do perdão, Jesus se dirige a cada um com a força da torrente que jorra para a vida eterna e quer conduzir a todos para aquela Fonte de comunhão que o Pai deseja, a fim de que toda a vida esteja exposta ao Seu Amor.
Perdão é, em última análise, uma forma de amor, um amor que acolhe o outro na sua fragilidade. Vai ao encontro do causador da ofensa com uma compaixão que brota de uma consciência das próprias limitações, abrindo um novo tempo, sem o veneno do ressentimento e da amargura.

O perdão é superlativo do amor. Reinhold Niebuh descreveu o perdão como a “forma final do amor”. Perdão é amor que reconstrói o passado. Só quem doa amor ao ofensor dá-lhe as condições profundas de contrição, compunção, compaixão e arrependimento, as quatro vias através das quais o ser humano pode renascer de si mesmo e das trevas, trocando a morte pela vida.

Por ser o gesto mais difícil e elevado, o perdão é a única forma de permitir ao ofensor a entrada de amor no seu coração. Qualquer forma de cobrança, punição e vingança reforça a crueldade do ofensor e, de certa forma, vai fazê-lo sentir-se justificado. Por isso, a originalidade do cristianismo está na descoberta da grandeza do ser humano, no exercício da única força capaz de mudar o mundo: o amor real. Não há revolução maior.

O perdão, então, resitua as pessoas na grande corrente da vida; busca restabelecer um vínculo positivo entre vidas feridas, vidas que se ferem e a vida que as rodeia. O perdão é uma experiência forte que reconecta com a vida; ele quer abrir uma porta à vida, em um muro fechado de dores, de sentimentos feridos, de autoagressividade. O perdão busca estabelecer uma aposta pela vida. É um ato de realismo, em profundidade e a longo prazo.

Podemos falar, então, que o perdão ativo é terapêutico pois desencadeia um processo de conversão, mobiliza todas as dimensões da pessoa, reestrutura o universo relacional e abre a interioridade à alteridade.  O perdão reconstrutor, libera em nós as melhores possibilidades, riquezas escondidas, capacidades, intuições... e nos faz descobrir em nós, nossa verdade mais verdadeira de pessoas amadas, únicas, sagradas, responsáveis... É ele que “cava” no nosso coração o espaço amplo e profundo para desvelar nossa própria interioridade.

A força criativa do perdão põe em movimento os grandes dinamismos da vida; debaixo do modo paralisado e petrificado de viver, existe uma possibilidade de vida nova nunca ativada.  Por isso, o perdão é expansivo, ele abre um novo futuro e desata ricas possibilidades latentes em cada um. Ele não se limita ao erro, mas impulsiona cada um a ir além de si mesmo; ele destrava a vida, potencia o dinamismo do “mais” e o coloca em movimento em direção a um amplo horizonte de sentido. É gesto gratuito e positivo de encontro, de acolhida, de cordialidade, que se torna hábito de vida: até “setenta vezes sete”.

O perdão é aquele que melhor revela a natureza do Deus Pai e Mãe de infinita bondade. É a que revela igualmente o lado mais luminoso da natureza humana. Por isso é a que mais humaniza as relações entre as pessoas. Não apenas afetivo, mas efetivo. Não apenas implica mudança na disposição da pessoa que perdoa, mas leva também a modificar a situação da pessoa perdoada. O perdão liberta as pessoas para poderem cuidar de outras questões importantes na vida; é uma obra de amor para com o outro e para consigo mesmo.

O ser humano é quebradiço por dentro e por fora. Mas o perdão o redime, depositando nele algo que é maior que sua fragilidade. Trata-se de um dinamismo que o ressuscita, o vivifica e o resgata. O que era sucata, torna-se material para a construção do ser humano novo; o que era motivo de vergonha, agora é impulso confiante e esperançoso; o que era sinal de morte, agora ressurge para uma vida nova. A novidade interior se dinamiza para fora e configura, por sua vez, a modalidade do comportamento diante dos outros.

Em última análise, o perdão é um ato de fé na bondade fundamental do ser humano.

Texto bíblico:  Mt 18,21-35

Na oração: O caminho para a libertação, a conversão e a reconciliação conduz a uma nova identidade. Esta se revelará e será experimentada no “colóquio de misericórdia”, com os olhos fixos no Crucificado: que fiz? que faço? que farei por Cristo?

- Fazer “memória” dos momentos em que você experimentou a força criativa do perdão do outro, ou foi presença por onde fluiu o verdadeiro perdão.

Pe. Adroaldo Palaoro sj



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sábado, 16 de setembro de 2017

CHAMEGO: AFETO ANCESTRAL QUE CHEGOU COM OS POVOS BANTOS NO BRASIL

Por Davi Nunes

A transposição do sentimento africano para o Brasil ocorreu muito através das línguas que eles trouxeram para cá. A língua como revestimento sensível da nossa humanidade, transposição dos laços profundos do coração, da ancestralidade afetuosa que resistiu às atrocidades transatlânticas – absurdas ações que duraram séculos. Dois continentes e um mar tingido de sangue, não foram suficientes para destruir a beleza dos sentimentos originários dos diversos povos africanos que chegaram por essas terras.

Os povos bantos, assim, foram os primeiros a chegarem nesse país. De maneira que as línguas da raiz banto: Quimbundo, Quicongo, Umbundo, entre outras influíram de forma substancial na formação do  português brasileiro, conseguiram influenciar nas diversas estruturas do idioma e colocaram na vitrine da fala e escrita signos que nos religam a uma maneira de sentir e pensar africano, que permaneceu e permanece na nossa forma de demonstrar afeto e saber.

Assim, uma das palavras que está dentro dessa raiz estruturante na constituição do português, ou “pretoguês” brasileiro (a qual me atenho aqui) é a palavra “chamego”, ou mais africanamente escrita “xamego”.

O chamego é um sentimento de atração – repuxo civilizatório ancestral íntimo – de negrxs que veio com os povos bantos da África e ganhou campo fértil no Brasil. É lastro de afeto que compõe o ser, é o galanteio e o bem-querer que se bem feito se chega ao xodó para daí se construir o dengo.

Talvez pode se equiparar com a paixão, mas a paixão na cultura ocidental funciona mais como um desalinho dos sentidos, que pode pender para algo bom ou ruim. Entre a tragédia e a benevolência a linha é tênue. Diferente do chamego que é alinho manhoso dos sentidos. É sublimação positiva dos sentimentos. É alinhamento ancestral.

Estar de chamego com alguém é estar preocupado em encantar a pessoa do nosso desejo, há poesia e flerte libidinoso nisso, não é sentimento murcho, preenche a existência. O chamego é força propulsora de beleza, é o religamento dos continentes afastados, que se manifesta no frio que esquenta o espírito a eriçar os pelos.

Além disso, pensando de maneira mais macro, o chamego nas relações familiares e quilombolas é uma prática social de restabelecimento do ser. Se a escravidão e o racismo trouxeram e trazem o banzo – dor e resistência – o chamego cura, reestabelece, dar sentido onde tem desespero. Faz com que se vislumbre o dengo e resista às intempéries estruturais que nos assola no mundo.

Por isso, antes do dengo tem o chamego. Tem que saber “chamegar” para arar o terreno da afetividade na manha, assentar o xodó, fluir de peles, prazeres e fertilidades, entrelaçar corações para erguer de forma suprema o dengo.


Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil.    

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OS CEM SONETOS DE PILIGRA INSPIRADOS EM JORGE AMADO - Cyro de Mattos

Clique sobre a foto, para vê-la no tamanho original
Os Cem Sonetos de Piligra 
Inspirados em Jorge Amado

                      Cyro de Mattos


          O soneto é uma forma fixa  de poema  com quatorze versos,  dispostos em dois quartetos e dois tercetos.   O último verso é tido como “chave de ouro”,  devendo surpreender e encantar  com a sua revelação no desfecho.  Nessa condição de fechar o soneto com chave de ouro,  o último verso  sustenta a  ideia conduzida nos anteriores.
     
          A paternidade de sua criação é atribuída a Pier  della  Vigna (1197-1249), poeta siciliano,  embora a  primazia da invenção  seja atribuída a outros nomes, segundo os estudiosos. O soneto foi  introduzido em Portugal pelo poeta  Sá de Miranda, no século XVI. Atravessou  anos  na península ibérica com a sua magia e poder.

          O primeiro grande poeta a cultivar o soneto foi Dante, mas coube a Petrarca dar-lhe forma e conteúdo,  imprimindo-lhe uma fisionomia própria, autônoma na estrutura modelar. Combatido pelos vanguardistas, sua febre imperceptível  permanece até hoje,  sendo cultivado com fidelidade por poetas modernos,   com vistas a atingir o nível superior da alma,  como resultado do  micro que logra o máximo  na criação expressiva do poema, que dessa maneira, em breve espaço operacional da criatividade,  sustenta o ser em estado súbito da comoção.
   
          Essa forma de construção poética breve possui duas linhagens: a de Petrarca, composta de estrofes com  dois quartetos e dois tercetos, e a inglesa,  com três quartetos e um dístico.  A língua portuguesa ganhou em beleza e modulações rítmicas,  através do verso decassílabo usado no soneto, considerado  como o mais melodioso e harmonioso. Mas  não se pode esquecer  que há uma variação silábica na confecção dessa criatura minúscula,  chegando ao ponto de ser encontrada até mesmo   com um só verso na poesia modernista de  Cassiano Ricardo, que alia virtuosismo experimental à beleza.
  
          Nascem poetas que se tornam famosos com suas motivações expressas em poemas de fôlego, mas que não deixam de cultivar o soneto. Lembremos de  Dante e Gôngora ontem, Pablo Neruda mais recente.   Outros vates duram pouco tempo no mundo da poesia, saindo de cena cedo  com o timbre peculiar de seu discurso, levando  como pontuação de sua obra os sonetos.
 
          Na língua portuguesa, o soneto tem sido cultivado por poetas que se tornaram referência obrigatória  na arte difícil e delicada de armar a boa poesia, para celebrar a vida e a morte. Em Portugal são exemplos:  Camões, Bocage, Antero de Quental e Florbela Espanca.   No Brasil: Cláudio Manoel da Costa, Gregório de Mattos,  Bilac, Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos, Jorge de Lima,  Sosígenes Costa, Carlos Pena Filho, Vinicius de Moraes  e João Carlos Teixeira Gomes.

          Em  ensaio excelente,  que antecede aos não menos excelentes sonetos do livro O labirinto de Orfeu (2014), o  ensaísta e poeta João Carlos Teixeira Gomes refere-se aos dois epítetos   “sonetoso” e “sonetífero”, criados contra os sonetistas.  Registra uma série de expressões em desfavor das andanças do  rejeitado  poema de quatorze versos:  “refúgio da decadência”, “gaiola da inspiração”, “bestialógico acadêmico”, “muleta da má poesia”, “cabresto da criatividade”, “onanismo poético”, “barbitúrico para insônia”, “sucedâneo de palavras cruzadas”, “museu do bolor  formalista”, “chavão de segunda ordem”,  “formalismo oco e vazio”, “museu de velharias passadistas”.

          Não obstante o comportamento contundente dos que desfazem de  imbatível  criatura nanica,  sua garra  permite que continue de pé, ínfimo caminhante do  sol e da chuva   nos seus modestos quatorze versos,  buscando em sua peripécia métrica atingir o ponto máximo do prazer na alma. Segue  indiferente às acusações e atropelos da legião de fanáticos,  que não o aceitam, sob qualquer hipótese. Teima em habitar com seus lampejos líricos a floresta dos poemas maiores,  de  poetas célebres  com suas criações em versos longos,  vasta quantidade de  estrofes.

          É dado a formar uma sequência  quando  vários poemas são ligados entre si por um tema,  como se deu com os cento e cinquenta e quatro sonetos de Shakespeare. Outra de suas proezas quando escrito em sequência é formar a coroa de sonetos,  uma forma poética composta por 14 sonetos, que têm ligação entre si por um tema. Os  primeiros e últimos versos são versos de um outro (décimo quinto) soneto, denominado soneto-base, ou soneto-síntese.

          A proeza verbal dessa coisinha poética   chegou  agora ao Sul da Bahia através de  A odisséia de Jorge Amado (2015), de Piligra. Trata-se da  reunião de cem sonetos, que contam as veredas de vida percorridas pelo  grande romancista  e  falam dos seus livros  famosos. Retratando episódios de uma vida com maiúscula, incursionando pelos  livros do autor mais lido na língua portuguesa,  cheio de humanidade e  linguagem sensual, Piligra procura fixar  no encadeamento dos poemas, ao lado de sua fugacidade e beleza, momentos verdadeiros da alma do homem generoso e  consagrado romancista.
   
            Incorpora na estrutura da obra o ritmo de cordel, fácil de dizer,  fácil de ouvir, fácil de entender. Torna desenvolta a narrativa poética de seu estro derramado,  do qual    aos borbotões versos são dotados de  ênfase poética e terminações sonoras. Seus  cem sonetos,  encadeados  com incandescente ternura,   pulsam sentimentos e nervos   no discurso de  fôlego, que diz  à vontade  do amor e  dor, da alegria e  tristeza,  do sonho navegado  e ferimento do perseguido, da linguagem com cheiro de povo  e  pura emoção, enfim,  do encantamento no coração ardoroso, envolvido sempre por gestos  fraternos  na  aventura da vida.

            O eu do poeta Piligra  não está imune a essa mágica experiência do soneto com seus modos líricos,   que se manifestam em ritmo febricitante,  impulsionando o relato na linguagem específica para dizer, intenso, do mundo vivenciado pelo  renomado escritor Jorge Amado.  E, mesmo que críticos formalistas achem que o  poemário  que veicula os episódios e cenas de uma biografia não tem muita validade, tal a fragilidade na composição mista de sua estrutura,  na qual o autor fantasia  um discurso  informativo, que já encontrou antes  com o conteúdo pronto, resultando o objeto verbal da recriação da realidade em um produto híbrido, que não é nem biografia, nem poesia legítima;  como também acontece  na prosa com a biografia romanceada,  cujo discurso procura  fundamentar-se com motivações de um lastro encontrado perfeito e acabado, não se pode deixar de considerar que A odisseia de Jorge Amado reveste-se de uma base imaginativa  que transcende do texto, além do real circunstante.  Desgarra-se do produto híbrido literário, com seus clarões  atinge o que em si mesmo reverbera,  graças à competência e sensibilidade  do  autor da novidade, de sua habilidade para retirar os fatos  do real objetivo  e transfigurá-los como um outro mundo, trazido ao presente para junto dos nossos olhos.

            Vejamos esse exemplo na página 69:

           Lua vermelha, sangue bonito sobre a terra,
           Negro presságio se anuncia a toda gente,
           Quem busca glória e quer dinheiro, medo sente:
           Jagunço esperto o tiro certo jamais erra...
        Vem lá das “Terras do Sem Fim” cada semente
          D’ouro que mata, que maltrata e que desterra,
          Na noite escura o filho chora o pai que enterra:
         O coronel sabe da morte e ri contente...
         Na negra mata tudo é sombra, medo e dor,
        Desejo louco de abraçar toda a riqueza,
        Cega ambição no dedo frio do atirador,
        Bala sem alma produzindo a vil tristeza...
        - O velho Juca Badaró planta o terror
       Entre os “grileiros” que já vivem na pobreza...

            Ou nesse outro exemplo  da página 97:

          “Jardim de Inverno”  ganha forma e consistência,
           A dor do exílio toma conta do escritor,
          Zélia registra o tempo triste e a violência:
          Estar distante do País lhe causa dor...
          O mundo é visto pela voz da resistência
         De quem se mostra mais valente ou lutador;
         A velha Europa se transveste de aparência,
         Mulher da vida sem futuro promissor...
         “Cantos modernos de canhões surgem do nada;
         A terra treme, geme, sofre de agonia,
         A dor do mando sempre é coisa encomendada,
         Uma  outra guerra ganha espaço à luz dos dias...”
         - “Jardim de Inverno”, tradução desesperada,
        Texto que faz da dor sofrida,  poesia...”

            Os versos dos dois sonetos referidos mostram como  o poema pode surgir  da linguagem veemente, em sintonia com a figuração fácil,  e ser capaz  de fazer de tudo o acontecimento, inovando na própria índole do soneto com um ritmo ágil , que fornece  ao leitor os tons naturais  para uma boa escuta  e ao mesmo tempo um aprendizado útil sobre o que lhe é transmitido.  Não importa que seus elementos de composição emanem de  unidade poética com o feitio híbrido,  minimizado  pelos críticos e teóricos formalistas. Explicam tais versos que foi sonhando e acreditando que o poeta Piligra experimentou o soneto em vasto campo de celebração,  impregnando-o de sentimentos e emoções, sonoridades e sentidos, intuições e visibilidades,   numa curiosa extração de eventos e mensagens,  motivada  pelos gestos solidários de uma vida de criatura rara.

            O  poeta Piligra juntou assim os meios de diferentes composições poéticas,  mesclando  a forma fixa do soneto, de espaço operacional breve, com a manifestação rítmica  do cordel, sempre espontânea, agradável à escuta e leitura,  no intuito de  evidenciar  o trajeto notável  do escritor  que deu voz aos excluídos, quis a vida com mãos nas mãos para que se tornasse viável,  fosse acesa  com as chamas do amor e repercutisse perante a existência com as vozes da  liberdade.  E o poeta, que fundou a odisseia protagonizada pelo Ulisses nascido nas terras do cacau, amado cidadão do mundo,  tornou-se  prazeroso do verso com essa sacada.
 
            PILIGRA. Odisseia de Jorge Amado, EDITUS, Editora da UESC, Ilhéus, 2015.

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Cyro de Mattos é baiano de Itabuna. Escritor e poeta, Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Sul da Bahia). Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Autor premiado no Brasil, publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha,  Espanha e Dinamarca. Com Os Ventos Gemedores (EditoraLetraSelvagem),  ganhou o Prêmio Pen Clube do Brasil -2015.

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