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domingo, 13 de agosto de 2017

PALAVRA DA SALVAÇÃO (39)

19º Domingo do Tempo Comum - 13/08/2017


Anúncio do Evangelho (Mt 14,22-33)
— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor.

Depois da multiplicação dos pães, Jesus mandou que os discípulos entrassem na barca e seguissem, à sua frente, para o outro lado do mar, enquanto ele despediria as multidões. Depois de despedi-las, Jesus subiu ao monte, para orar a sós. A noite chegou, e Jesus continuava ali, sozinho.
A barca, porém, já longe da terra, era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário.
Pelas três horas da manhã, Jesus veio até os discípulos, andando sobre o mar.
Quando os discípulos o avistaram, andando sobre o mar, ficaram apavorados e disseram: “É um fantasma”. E gritaram de medo.
Jesus, porém, logo lhes disse: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!”
Então Pedro lhe disse: “Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água”.
E Jesus respondeu: “Vem!” Pedro desceu da barca e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus.
Mas, quando sentiu o vento, ficou com medo e, começando a afundar, gritou: “Senhor, salva-me!”
Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro, e lhe disse: “Homem fraco na fé, por que duvidaste?”
Assim que subiram no barco, o vento se acalmou.
Os que estavam no barco prostraram-se diante dele, dizendo: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!”


— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.


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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Leandro Lasera:

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 Assumir nossas tormentas

“A barca, já longe da terra, era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário” (Mt 14,24)

Poderíamos começar nossa reflexão sobre o Evangelho, indicado para a liturgia deste domingo, com estas inquietantes perguntas: “Que farias tu se não tivesses medo? Que fariamos nós, seguidores e seguidoras de Jesus, se não fôssemos afetados pelo medo?”

Chegamos à pós-modernidade com uma enorme carga de medo; somos atormentados o tempo todo pelo medo; um medo sem nome, um fantasma sem rosto, escuro como uma sombra e rápido como uma tempestade; medo cruel que afeta os corajosos e agride os ousados. Não existe depósito de munição mais potencialmente explosivo do que os estoques de medo guardados nas escuras profundezas do ser humano. Há um verdadeiro pânico permanente envolvendo grupos, pessoas e instituições.

Podemos afirmar que o centro dos evangelhos de Marcos e Mateus é uma espécie de relato de navegações e tormentas. Essa recordação de Jesus que acompanha seus amigos no barco e que “acalma” sua vida tormentosa (tormenta de dentro ou de fora?) está no fundo da tradição cristã. O medo, a angústia, a insegurança , o espanto dos apóstolos, o não saber quê fazer na tormenta, é parte de nossa condição humana. Isso não nos faz menos pessoas, mas nos faz mais próximos, se somos simples e humildes.

Quando lemos com um pouco mais de atenção os capítulos centrais do Evangelho de Mateus passamos a ter convicção de que Jesus está continuamente “passando para outra margem” e convidando seus discípulos a fazerem o mesmo. Poderíamos dizer que o seguimento implica permanente travessia de uma margem à outra. Isto nos move a pensar que esta passagem não é geográfica; nesse deslocamento há algo mais profundo, ao menos um convite à não instalação. Nenhuma margem pode se converter em lugar de “parada”, todas são lugares de passagem.

Mateus realça que Jesus “forçou” os seus discípulos a entrarem na barca. Isto indica que não queriam ir embora e foi necessário obriga-los a se retirarem dali. Por quê? Sem dúvida, porque ao verem a oportunidade de que o Mestre se convertesse em rei, não queriam perder a ocasião de ter algo de poder, de vaidade, de prestígio. Compreende-se, assim, o mandato de Jesus a passar para a “outra margem”, a deixar de lado as solicitações do ter, do poder... para buscar o caminho do despojamento e da partilha.

A atualidade do relato é patente: quando os discípulos de Jesus não se contentam em ser o que são, mas buscam poder e prestígio, “faz-se noite”, não avançam, a tormenta se amplia, vêem em Jesus um fantasma que lhes dá medo, Pedro se afunda... Seguir Jesus implica estar continuamente passando para a outra margem; passar para o outro diferente, não permanecer fechado em si mesmo. “Passar para o outro” como condição necessária para “passar para Deus”. Aquele que se instala, se perde, envolve-se na tormenta. É preciso buscar sempre novos espaços e novos horizontes. E toda travessia implica “correr riscos”.

Há momentos em que daríamos tudo por uma chance de pedir a Deus para não corrermos riscos. Mas o risco é necessário. É importante poder enfrentar as dificuldades, o desconhecido e o incerto. As experiências obscuras, as tribulações, as tempestades... são inerentes à fé cristã; estão presentes em todas as pessoas. Mas isso deve nos permitir renovar constantemente uma confiança e uma união com o Senhor na realidade mais cotidiana.

Percebemos que algumas pessoas fazem opção pelo porto seguro das falsas certezas e seguranças, mas outros preferem correr o risco do “mar agitado” e são capazes de construir o novo. As tempestades, o vento contrário, a escuridão da noite... “agitam a alma dentro de nós”.

Mas como enfrentar as turbulências que são frequentes no nosso processo de amadurecimento?  A sensibilidade, a criatividade, o espírito de iniciativa são nossos maiores aliados. Para desenvolver ao máximo nossas potencialidades, temos de enfrentar dilemas, encruzilhadas, perplexidades e responsabilidades. Isto nos faz mergulhar na vida, desenvolver nossas forças, ativar e despertar outras possibilidades escondidas no chão de nossa vida.
Na tradição inaciana “formar-se é provar-se”. Só aquele que é posto à prova em sua fé e em suas convicções, se forma, cresce e amadurece.

Com certeza, muitos de nós já tivemos a experiência de que, quando fomos capazes de superar nossos medos e tomar decisões audazes diante de um futuro incerto, então se despertaram, no nosso eu mais profundo, outros recursos e capacidades que ignorávamos ter;  no final, nossa vida se viu enriquecida de uma maneira tal que jamais poderíamos imaginar.

Do meio dos ventos contrários e do mar agitado brota um forte apelo: “Não tenhais medo”. Um apelo com força libertadora; é a força da voz de Alguém cuja presença alavanca o passo para a travessia: o passo da mudança, o passo da audácia de sonhar de novo, o passo para vislumbrar a outra margem...

Com o Senhor no barco de nossa vida, vamos além, fazemos a travessia... Ele é ao mesmo tempo: mestre, timoneiro, mastro, vela, horizonte, esperança, ar, mar, adorável presença...Salvador... Os conflitos mais profundos do nosso coração são pacificados com o atrevimento da coragem, com a força da fé, com a imaginação solta, com a criatividade livre e desimpedida... Por isso, é preciso rastrear, identificar, compreender e desterrar os medos de nossos corações.

É urgente substituir a cultura do medo pela cultura da coragem. A coragem desbloqueia energias, impulsiona decisões, levanta projetos, reacende a criatividade e o gosto por viver.

Sem a superação cotidiana desse medo, nossa missão estará comprometida; perderá sua força inovadora, garantida pela novidade do Projeto de Deus. O compromisso com o Reino requer de todos uma forte dose de coragem e uma alma ágil, animada e vivificada pelo sabor da aventura e da novidade. Esperança e dúvida, temor e coragem, criatividade e rotina, andam juntas. Tornamo-nos corajosos quando tomamos a decisão de arriscar. Vencido o medo, nós nos tornaremos autênticos(as), criativos(as) e audazes seguidores(as) de Jesus. “Quem for medroso e tímido volte para trás” (Jz. 7,3)

Texto bíblico:   Mt. 14,22-33

Na oração:
Para fazer a “travessia da vida” será necessário descobrir:
- quantos fantasmas há em sua vida que o paralisam, o impedem de avançar, o travam na hora de tomar decisões?
- Quantos fantasmas o impedem crescer, assumir os desafios, ser criativo...
- Numa dimensão mais ampla, quantos fantasmas há na igreja que não a deixam rejuvenescer-se, que a impedem viver um processo de contínua mudança, que a fazem suspeitar de tudo, que a fazem surda aos chamados de Deus no meio das tormentas da atualidade?

Pe. Adroaldo Palaoro sj
Campinas-SP


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MEU PAI... II – Eglê S Machado

Clique sobre a foto, para vê-la no tamanho original
Meu Pai... II


Um dos tesouros do mundo
Da minha alma não sai
É o carinho terno e profundo,
Do sorriso do meu pai!

Nas lembranças da minha alma
Seu terno amor sobressai,
No seu olhar, na sua calma,
Quanta doçura, papai!...

Esse grande dom persiste
Envolve, anima e atrai;
Ventura igual só existe
No amor do Grande Adonai!

Ficou gravado em meu peito,
Não me deixa não se esvai,
Tem a paz do amor perfeito
Seu perfeito amor de pai!

MINHA SAUDADE É SEM JEITO,
COM JEITO DE AMOR PERFEITO!

Eglê S Machado
Academia Grapiúna de Letras-AGRAL
Dia dos Pais

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sábado, 12 de agosto de 2017

PROFESSOR E HISTORIADOR ARNO WEHLING TOMA POSSE NA CADEIRA 37 DA ABL, NA SUCESSÃO DO ACADÊMICO E POETA FERREIRA GULLAR




“Com Arno Wehling, chega à Academia um historiador de altos saberes, um pensador da cultura, um cultor do direito. Sua presença amplia o contingente dos notáveis da inteligência brasileira que, ao lado dos escritores, integram, como estabeleceu a sabedoria dos fundadores, a Casa de Machado de Assis”, afirmou o Presidente da ABL, Acadêmico e professor Domício Proença Filho.

“Não se estranhe que um historiador como Arno Wehling suceda, nesta Academia, três poetas. A história é uma ciência, mas, quando bem escrita, pode ser uma obra de arte literária”, afirmou, em seu discurso de recepção, o Acadêmico e historiador Alberto da Costa e Silva.


O historiador e professor carioca Arno Weling, Presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), tomou posse na Cadeira 37 da Academia Brasileira de Letras, nesta sexta-feira, dia 11 de agosto, em solenidade no Salão Nobre do Petit Trianon. O novo Acadêmico foi eleito no dia 9 de março deste ano, na sucessão do Acadêmico e poeta Ferreira Gullar, falecido no dia 4 de dezembro de 2016.

Em nome da ABL, o Acadêmico, embaixador e historiador Alberto da Costa e Silva fez o discurso de recepção. Antes, Arno Wehling discursou na tribuna. A seguir, assinou o livro de posse. Logo após, o Presidente convidou o Acadêmico e professor Arnaldo Niskier (segundo a tradição, o decano presente) para entregar a espada (Eduarda Wehling de Toledo, neta do empossado, ficou responsável pela espada); o Acadêmico e historiador José Murilo de Carvalho para fazer a aposição do colar; e o Acadêmico e jornalista Cícero Sandroni, a entrega do diploma (Gabriela Wehling de Toledo guardou o diploma do Acadêmico avô). O Presidente, então, declarou empossado o novo Acadêmico.

Os ocupantes anteriores da cadeira 37 foram: Silva Ramos (fundador) – que escolheu como patrono Tomás Antônio Gonzaga –, Alcântara Machado, Getúlio Vargas, Assis Chateaubriand, João Cabral de Melo Neto e Ivan Junqueira.

DISCURSO DE POSSE

Em seu discurso de posse, Arno Wehling afirmou: “Ingresso na Academia Brasileira de Letras com uma convicção, a de seu significado intelectual, simbólico e ético como grande instituição brasileira. Vejo a Academia como uma grande irmandade espiritual no tempo e sei que dela participar implica estabelecer vínculos múltiplos, antes de tudo com ela própria e o que encarna em matéria de liberdade, diversidade, humanismo e compromisso com o Brasil.

“E que cadeira desafiadora, a cadeira 37! O patrono, Tomás Antonio Gonzaga; três poetas, João Cabral de Melo Neto, Ivã Junqueira e Ferreira Gullar; um filólogo que secundariamente poetou, o fundador Silva Ramos e três homens de ação, Alcântara Machado, Getúlio Vargas e Assis Chateaubriand, um dos quais deu rica contributo à interpretação do Brasil.

 “Os ocupantes da cadeira 37 foram limítrofes de mundos diversos, não só por terem optado por diferentes formas de expressão (poesia, ensaio, análise social, discurso político, texto jornalístico, até artes plásticas, como Ferreira Gullar) mas igualmente por terem sensibilidade para captar as tensões entre natureza e cultura (como Gullar e João Cabral) , fenômeno e essência (como Ivã Junqueira) ou entre o antigo e o moderno (como Alcântara Machado, Getúlio ou Chateaubriand). Particularmente pendular e tensional foi Ferreira Gullar, com polarizações como indivíduo/ser, Sol-fogo/morte, ninguém/todo mundo, pondera/delira, almoça e janta/se espanta, permanente/de repente.

“Tiveram igualmente a preocupação com o tempo, entre a ânsia de perenidade e a consciência da finitude, além da percepção de tempos diversos, mas coetâneos, como no Poema Sujo de Gullar ou ainda nas transformações da vida nordestina em Cão sem plumas e O Rio de João Cabral.

“Em todos os ocupantes da cadeira, uma unanimidade, a defesa da língua portuguesa como falada no Brasil, com suas características e particularidades. E um traço comum, a esperança dirigida a objetos diversos, conforme os valores e as intenções de cada um, mas sempre esperança.  Em Ferreira Gullar, a esperança de superar as limitações materiais do Brasil e as limitações do viver, sempre através da arte. Ivan Junqueira, a esperança dos valores eternos, suspeito que inspirado em algum tipo de socratismo cristão. João Cabral supera o ceticismo porque “celebra a solidariedade humana” e diz que “não há melhor resposta/que o espetáculo da vida”. Silva Ramos espera por um novo Brasil e pelo futuro da língua. Gonzaga, pela lira inspirada e pela lisura dos governantes. Alcântara Machado, que triunfe o espírito bandeirante em todo o país. Chateaubriand, que surja um novo país - moderno, industrial, culto. Getúlio Vargas... terá um suicida perdido a esperança, como no pórtico de Dante? Não creio. Comte ensinava que a eternidade era a presença na memória dos homens e o positivista Vargas expressou claramente que saía da vida para passar à história.

“Os 120 anos da Academia coincidem com a aceleração da história e com esta peculiar historicidade que não se explica pelas ilusões cientificistas do século XIX, com sua busca ingênua das leis históricas, mas pelo esforço por uma compreensão mais profunda dos atos humanos, do funcionamento das instituições e dos processos sociais.

“Instituições como a Academia, fóruns de convívio e de ideias, têm um papel a cumprir nesses desafios da historicidade contemporânea. E este papel, consubstanciado nas suas realizações intelectuais e simbólicas, possui significado transcendente se pensarmos que a Ética de Aristóteles nos recomenda viver de acordo com a melhor parte de nós mesmos: se assim for, a experiência da historicidade deve ser uma experiência de humanidade.”

DISCURSO DE RECEPÇÃO

Alberto da Costa e Silva afirmou, em seu discurso de recepção, que “desde cedo, Arno Wehling já tomara interesse pela historiografia, ou melhor, pela história da História e dos métodos de que ela se vale. Não fora assim e o seu primeiro livro, publicado aos 27 anos, não se chamaria Os níveis da objetividade histórica. Nos que se seguiram ─ como A invenção da história: estudos sobre o historicismo ─ e em incontáveis trabalhos impressos em revistas especializadas e obras coletivas, e em conferências, palestras e comunicações em simpósios, respiram a segurança e o entusiasmo do estudioso que se tornou íntimo das teorias que movimentam as ciências humanas e outros saberes.

“Destaque-se, entre suas obras, esse livro precioso, exemplo de concisão e claridade, que é Estado, história, memória: Varnhagen e a construção da identidade nacional, no qual se analisa o pensamento ultraconservador do Visconde de Porto Seguro, à luz das ideias prevalecentes no seu tempo, se descreve o seu apego intelectual e afetivo ao projeto centralizador da monarquia brasileira, e se mostra como esse pensamento marcou até mesmo o ensino da História do Brasil às crianças e aos adolescentes.

É esta a sua linhagem, Senhor Acadêmico Arno Wehling. A linhagem dos que podem dizer com Almeida Garrett: “Isto pensava, isto escrevo; isto tinha na alma, isto vai no papel: que doutro modo não sei escrever”. Saberia, se quisesse. Mas prefere fugir das formas barrocas e dedicar-se à busca dos termos exatos para expressar-se com nitidez e cuidada simplicidade. E não falta a muito de seus textos o bondoso e calmo sorriso com que acompanha o que ouve e diz. Por isso, ao trazê-lo para o nosso convívio, ganhamos, além de um grande historiador e homem de pensamento, alguém que nos transmite o gosto de ser feliz”.

O NOVO ACADÊMICO

Natural da cidade do Rio de Janeiro, onde nasceu em 1947, Arno Wehling formou-se em História pela Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil (atual UFRJ) e em Direito pela Universidade Santa Úrsula, sendo doutor em História e livre docente de História Ibérica pela USP e realizando pós-doutoramento na Universidade do Porto.

Desenvolveu toda a sua atividade profissional como professor e pesquisador na universidade, tornando-se professor titular por concurso de títulos, provas e defesa de tese na UFRJ (Teoria e Metodologia da História) e na Unirio (História do Direito e das Instituições). Foi professor visitante das Universidades Portucalense e de Lisboa e pesquisador do CNPq.

Na administração universitária foi chefe de departamento e decano da Unirio e diretor, decano e reitor da UGF. Participou da fundação ou atuou em vários programas de pós-graduação em História, Filosofia e Direito na UFRJ, Unirio e UGF. Atualmente, é professor de História do Direito do Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Veiga de Almeida. Sua atividade intelectual como historiador e ensaísta desenvolve-se preferencialmente nos campos da epistemologia das ciências humanas/história, da história das ideias políticas e jurídicas e da história do direito/instituições. Suas pesquisas concentram-se sobretudo no período colonial brasileiro, em especial do século XVIII às primeiras décadas do século XIX e nos fundamentos teóricos da produção historiográfica brasileira.

Wehling é Presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e membro de institutos históricos estaduais, academias ibero-americanas de História (Argentina, Uruguai, Paraguai, Colômbia, Venezuela, Portugal e Espanha) e da Academia das Ciências de Lisboa. Atuou e atua como parecerista de entidades de fomento (CNPq, Capes, Fundação Araucária, Fapesp, Faperj, Conicet), além de ser membro de conselhos editoriais do país e do exterior e conselheiro do Conselho Técnico da CNC e do IPHAN.

É autor de cerca de duzentos trabalhos nas suas áreas, entre artigos em periódicos especializados, verbetes em obras de referência, capítulos de livros, comunicações em anais e livros. Destes, tratam de questões teóricas e historiografia Os níveis da objetividade histórica (1974), A invenção da históriaestudos sobre o historicismo (1994 e 2001), Estado, história e memória – Varnhagen e a construção do estado nacional (1999) e De formigas, aranhas e abelhas – reflexões sobre o IHGB (2010 e 2017). Sobre estruturas de poder, em especial relacionadas ao direito e à justiça e às ideias políticas, Administração portuguesa no Brasil, 1777-1808 (1986), Pensamento político e elaboração constitucional (1994) e Direito e Justiça no Brasil Colonial – o Tribunal da Relação do Rio de Janeiro (2004), este em colaboração com Maria José Wehling. Publicou ainda dois livros de síntese, também com Maria José Wehling, Formação do Brasil colonial (1994; 5ª. edição 2012) e Documentos Históricos Brasileiros (2000).
11/08/2017



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NICODEMOS SENA LANÇA NOVO LIVRO EM SÃO PAULO

LETRASELVAGEM  e  ESPAÇO CULTURAL CORTEZ EDITORA convidam

para o lançamento do livro

“CHORO POR TI, BELTERRA!”


de Nicodemos Sena


Data: 24 de agosto de 2017 (quinta-feira), às 19 horas.
Local: Espaço Cultural Cortez Editora, Rua Bartira 317, Perdizes - São Paulo/SP – Brasil (ao lado do TUCA e da PUC).
Entrada Franca.


A OBRA

Em 19 episódios, Nicodemos Sena reconstitui o dia em que fez a viagem de retorno às origens, em companhia de seu pai, depois de um percurso de algumas horas pela rodovia Santarém-Cuiabá, até entrar numa estradinha de terra que leva à Estrada Um e, enfim, às ruínas da cidadezinha de Belterra, que na década de 1940 fora dirigida pela Ford Motor Company, empresa do magnata norte-americano Henry Ford (1863-1947), que, em plena Segunda Guerra Mundial (1939-1945), tentaria fazer da extração da borracha uma atividade lucrativa, fornecendo os pneumáticos necessários para movimentar os veículos militares.

Não se pode dizer que se trata de um romance nem tampouco de um conto que se tenha derramado por causa de uma prosa poética. Não é também uma simples reportagem, pois não constitui a mera literalização dos acontecimentos de um dia na estrada. Neste caso, cada encontro no caminho com esporádicos moradores perdidos naquelas paragens do Brasil profundo serve como motivo para um ou mais comentários, como aquele episódio em que o cronista se depara, em meio ao tórrido calor do meio-dia amazônico, dentro de um casebre em que não havia água encanada e muito menos tratada, com uma menina que não parava de manipular a tela de um telefone celular.

É, isso sim, um texto híbrido que se assume como uma crônica repassada de lirismo, uma narração das vicissitudes vividas pelo narrador em companhia do pai, que faz, com a ajuda do filho, uma viagem de retorno à infância para reencontrar todos os fantasmas que ainda assolam seus pensamentos.

Ou ainda uma narrativa poética que, ao reunir musicalidade e metaforização, faz com que o narrador desfie o novelo da memória, em tom de conversa com o leitor em que não dispensa nem mesmo citações de autores, como o português Fernando Pessoa (1888-1935), o colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014), o mexicano Juan Rulfo (1917-1986) e o norte-americano William Faulkner (1897-1962). Como se sabe, o que une esses autores de nacionalidades tão distintas é a construção metafórica de um lugar mítico, que existe só na alma do próprio autor, como “o rio da minha aldeia” do heterônimo pessoano Alberto Caeiro.

Em resumo, o texto dialoga com o mito do eterno retorno, ao praticar a intertextualidade com discursos canônicos, reconstruindo, dessa forma, metáforas da precária condição humana.

Autor de livros que já se tornaram referências obrigatórias dentro da Literatura Brasileira, como os romances A Espera do Nunca Mais (1999), A Noite é dos Pássaros (2003) e A Mulher, o Homem e o Cão (2009), trilogia que constitui uma saga amazônica, Nicodemos Sena mostra em Choro por ti, Belterra! que pode ser também considerado um cronista da estirpe de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Rubem Braga (1913-1990) ou Fernando Sabino (1923-2004).

A diferença é que, em vez da fugacidade dos registros do cotidiano das ruas do Rio de Janeiro que se leem nas crônicas daqueles grandes mestres, o que o leitor descobrirá nestes episódios é não só a Amazônia que é vista ainda como exuberante paraíso tropical, mas também aquela que governantes corruptos permitiram que continuasse a ser destruída, tomada por aventureiros “gananciosos e cruéis, os quais, sem escrúpulos, saqueiam e depredam os bens da terra, auxiliados por ‘mucamas’ e ‘mordomos’ (degenerados filhos da terra) que, a troco de migalhas e posições, passaram-se para o lado dos inimigos”. (Texto das orelhas do livro, de autoria de Adelto Gonçalves, escritor, jornalista, doutor em Literatura Portuguesa pela U SP-Universidade de São Paulo)

O AUTOR

Nicodemos (Neves) Sena nasceu no município de Santarém, em 08.07.1958, e passou a infância entre índios e caboclos do Rio Maró, região de fronteira entre os estados do Pará e Amazonas (Amazônia brasileira), experiência que marcaria para sempre a sensibilidade do escritor identificado com a terra e os povos da Amazônia.

Em 1977, vem para São Paulo e aí se forma em Jornalismo, pela Pontifícia Universidade Católica (PUC), e em Direito, pela Universidade de São Paulo (USP).

Faz a sua estreia literária em 1999, com o romance A Espera do Nunca Mais, uma saga amazônica de 876 páginas.

No Pará, proclamou o historiador, folclorista e crítico Vicente Salles:

“Com A Espera do Nunca Mais, pela primeira vez temos, na ficção, o caboclo como agente da história, o índio que se destribalizou, que vive entre dois universos que se opõem e se excluem.” (“O caboclo como agente da história”. A PROVÍNCIA DO PARÁ, Belém, PA, 15 mar. 2000)

No Rio de Janeiro, escreveu a poeta e crítica Olga Savary:

“É uma alegria quando nos deparamos com um livro como A Espera do Nunca Mais, esta extraordinária saga amazônica, narrada com sedução, seriedade, poesia. Forma e estilo são impecáveis nessa estreia, que nem estreia parece, de tão madura. Uma lição de literatura e de brasilidade.” (“Amazonense faz boa ficção com ‘anos de chumbo’ e choques entre culturas”. O GLOBO, Caderno Prosa & Verso, Rio de Janeiro, RJ, 3 mar.2001)

Em São Paulo, escreveu o jornalista, professor e crítico Oscar D’Ambrosio:

A Espera do Nunca Mais desafia e devora o leitor desde o início. Feito sucuriju, abre sua bocarra e obriga a penetrar num universo denso. Não adianta resistir. Uma vez dentro da boca deste livro-serpente, o destino é conhecer os seus interstícios plenos de um fazer artístico solidamente urdido, elaborado com mãos de mestre.” (“Uma extensa e densa aula de Amazônia”. JORNAL DA TARDE, Caderno de Sábado, São Paulo, SP, 20 maio 2000)

Em 2000, A Espera do Nunca Mais conquista o Prêmio Lima Barreto/Brasil 500 Anos, da União Brasileira de Escritores (UBE/Rio de Janeiro), ocasião em que conhece pessoalmente o escritor e crítico Antonio Olinto, da Academia Brasileira de Letras, que sobre A Espera do Nunca Mais escreveu:

“Eis um romance que invade a literatura brasileira com a força de um fenômeno da natureza. Trata-se de uma saga amazônica chamada A Espera do Nunca Mais. Seu autor, Nicodemos Sena, tem o domínio da narrativa de ação e o talento de criar gente. Seus personagens representam a Amazônia com sua largueza e sua mistura, caboclo e floresta unidos num ecossistema geográfico-humano que retrata a nossa mais desconhecidamente forte região em que o Brasil se firma e se revela. É romance que deve ser lido. Nele, realidade e lenda se juntam com naturalidade. As palavras formam um estilo ínsito à grandeza das paisagens que descreve.” (JORNAL DE LETRAS, Rio de Janeiro, RJ, jan. 2001)

Em 2002, Nicodemos Sena aparece no Dossier Amazónico publicado na revista literária portuguesa “Construções Portuárias” (nº01), no qual foi incluído um trecho do inédito A Noite é dos Pássaros, ao lado de importantes escritores da Amazônia, entre os quais Haroldo Maranhão, Max Martins, João de Jesus Paes Loureiro, Vicente Franz Cecim, Age de Carvalho, Jorge Henrique Bastos, Antônio Moura, Paulo Plínio Abreu, Benedicto Monteiro, Rosângela Darwich e Benedito Nunes.

De 3 de abril a 31 de julho de 2003, A Noite é dos Pássaros é publicado em forma de folhetim, em dezoito episódios semanais, no jornal “O Estado do Tapajós” (Santarém do Pará) e na revista eletrônica portuguesa “TriploV”. Ainda em 2003,A Noite é dos Pássarosé publicado em formato livro (Ed. Cejup). No mesmo ano, fragmento de A Noite é dos Pássaros é publicado nas revistas “Palavra em Mutação nº02” e “Storm-Magazine”, ambas de Portugal.

Ainda em 2003, A Noite é dos Pássaros conquista o prêmio Lúcio Cardoso, da Academia Mineira de Letras, e, em 2004, Menção Honrosa no prêmio José Lins do Rego, da União Brasileira de Escritores (UBE/Rio de Janeiro).

Nicodemos Sena é nome reconhecido dentro e fora da Amazônia, tornando-se verbete na “Enciclopédia de Literatura Brasileira”, direção de Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa (edição conjunta da Global Editora, Fundação Biblioteca Nacional, DNL, Academia Brasileira de Letras, 2ª edição, 2001). Carlos Nejar, da Academia Brasileira de Letras, incluiu Nicodemos Sena em sua História da Literatura Brasileira — da Carta de Caminha aos Contemporâneos, entre os “grandes nomes na ficção surgidos no Brasil após a década de 1970” (Cap. 35, pág. 900, Fundação Biblioteca Nacional, RJ).

Nicodemos Sena é um dos 81 escritores analisados pela professora Nelly Novaes Coelho, titular de Literatura da Universidade de São Paulo (USP), no livro Escritores Brasileiros do Século XX — Um Testamento Crítico(LetraSelvagem, SP, 2013).

Pelo estilo vigoroso e temática inspirada na vida das populações marginalizadas da Amazônia (indígenas e caboclos), Nicodemos Sena já foi comparado a grandes ficcionistas brasileiros, como Graciliano Ramos, João Ubaldo Ribeiro, Mário de Andrade e Érico Veríssimo, e a importantes ficcionistas latino-americanos, como o paraguaio Augusto Roa Bastos e o peruano José María Arguedas.

O terceiro romance de Nicodemos Sena, A Mulher, o Homem e o Cão (2009), foi incluído entre as “78 DICAS” do Guia da FOLHA, suplemento cultural do jornal “Folha de São Paulo” (29.05.2009).

Tendo nascido na Amazônia, região “periférica” em relação aos centros nervosos do capitalismo globalizado (Estados Unidos da América, Europa e, em termos de Brasil, o Sul-Sudeste do país), conviveu desde cedo com as injustiças praticadas pelas oligarquias locais contra indígenas e caboclos, do que resultou um sentimento de revolta, inicialmente vago e finalmente insuportável, que o compeliu a lançar-se contra os “homens injustos” e o Deus que parecia não se compadecer do sofrimento dos pobres.

Na cosmopolita e conflagrada São Paulo, em seu primeiro emprego na indústria têxtil no bairro do Ipiranga, conheceu gente desenraizada e “fora do lugar” como ele, fugitiva da seca do Nordeste ou da polícia, mas disposta a trabalhar e perseguir os seus ideais. No cortiço onde se recolhia após o trabalho diário e a escola noturna, conheceu “seres da noite” semelhantes aos que, mais tarde, povoariam os seus romances. Seres que se movem nas sombras (na selva amazônica ou na “selva” de asfalto) e não deixam rastro; variada e difusa fauna humana de mamelucos, cafuzos e brancos pobres, que, premidos pela necessidade e circunstâncias, veem-se convertidos em ladrões, prostitutas e, entre estes, um ou outro operário que não desiste de sonhar com o “futuro”.

Com tal bagagem existencial, filosófica e humana, extraída da Vida, e mais a vontade indomável de se elevar por meio do conhecimento e dos livros, Nicodemos Sena logrou entrar, em 1979, para o curso de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, onde, municiado pela literatura marxista-leninista, engaja-se no movimento estudantil e dos trabalhadores contra a miséria e a opressão impostas pelo grande capital em sua forma mais atroz (a ditadura militar implantada em 1964).

Em 1981/1982, participa da campanha de criação do Partido dos Trabalhadores (PT). Em 1993, ao resolver dedicar-se à sua vocação de escritor, desliga-se do PT e passa a defender uma literatura “universal, sim, compreensível a todos os homens do mundo, mas que não renegue as marcas da cultura brasileira”, como afirmou numa entrevista.

Como diretor da União Brasileira de Escritores (UBE/SP) participa, em 2011, da organização do Congresso Brasileiro de Escritores realizado em Ribeirão Preto (SP).

Com o golpe político das elites de 2016, que depôs a Presidenta Dilma Rousseff e ataca os direitos dos trabalhadores, Nicodemos Sena volta à militância política de esquerda, sem deixar de lado a literatura.

Mora, atualmente, em Pindamonhangaba-SP.

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 Título: “CHORO POR TI, BELTERRA!”
Autor: Nicodemos Sena
Editora: LETRASELVAGEM
ISBN 978-85-61123-23-9
Tamanho: 14 x 21 cm. (Brochura)
1ª edição
192 páginas
Preço: R$30,00

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LETRASELVAGEM: Caixa Postal 63, CEP 12.400-970, PINDAMONYHANGABA-SP/Brasil. Telefones: (12) 3635-3769 / (12) 992033836 (WhatsApp)
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sexta-feira, 11 de agosto de 2017

MEU PAI É O MÁXIMO! - Mírian Warttusch

Meu pai é o máximo!


Sabem aquele amigo que você espera que seu pai seja? Conselheiro, humano, sempre presente, um super-homem, um pai herói? Assim era meu pai e no dia em que ele se foi, me senti órfã em toda a acepção da palavra, pois desde menina sempre fomos tão ligados, que eu imaginava, nunca nos separaríamos.

Era incrível seu carisma! Me ensinou coisas maravilhosas que todos os pais deveriam ensinar aos seus filhos, o respeito, a honestidade, a integridade e a fé e foi quem primeiro me fez sentir amor pela natureza, pois minha infância foi ponteada de lindíssimos dias que passávamos na Mata Paula Souza e ele me contava histórias maravilhosas sobre aquela pequena floresta incrustada no coração do nosso bairro, e nesses passeios cantávamos felizes, e para chegarmos ao local meu pai me levava na garupa de sua bicicleta; um dia nos perdemos na mata e meu pai ficou realmente muito preocupado, mas recordo que não senti medo, pois ele me passava muita segurança, era o meu protetor - meu pai herói -  uma pessoa realmente iluminada!

Muitas vezes o Juca nosso amigo, nos acompanhava; tinha uma voz tão linda e privilegiada – havia ganho vários prêmios em concursos de calouros – que nos deixava embevecidos ao cantar e tocar violão e nós fazíamos verdadeiras serenatas ao ar livre e voltar para casa era sempre algo doloroso, tal a felicidade que sentíamos nesses contatos tão maravilhosos com a natureza.

Lembro-me bem dos animais e aves que muitas vezes vimos e nunca esqueço de um tatu bola que alguém matara e deixara ali, e nessas trilhas os caçadores dizimavam os tatus que então imperavam em nosso bairro e foi graças a eles que a região foi batizada de “Tatuapé”! Mas a magnífica floresta foi sendo aos poucos derrubada, tanto mais a população do bairro crescia e hoje, em seu lugar, se instalou o Morumbizinho de São Paulo, o luxuosíssimo Jardim Anália Franco.

Meu pai trabalhava muito para nos dar conforto e bem estar; era Gerente Industrial do Lanifício Santa Branca, situado à rua Almirante Calheiros no Tatuapé e durante a época – anos 50 - em que se instalou  no Brasil uma das mais graves crises energéticas, o então Presidente da empresa, sr Carlos Casnatti, um abastado e generoso imigrante italiano, que fez de sua indústria uma das mais renomadas, respeitadas  e conceituadas do ramo têxtil no país, via com desgosto sua fábrica parar pelos constantes cortes de energia que duravam bem de meia hora a quarenta minutos por dia.

Decidiu, assim, importar um gerador de força da Alemanha, que chegou ao porto do Rio de Janeiro em meados do ano de 1955, mas não pode ser desembarcado pois a planta com o croquis da máquina havia se extraviado na viagem e meu pai, por falar fluentemente o alemão e conhecer profundamente o ramo da mecânica e eletricidade, foi escalado para entrar no gerador, que tinha bem uns três metros de comprimento, verificar peça por peça, montar uma nova planta, que passou pela aprovação de dois engenheiros da alfândega e então pode desembarcar. São histórias que me orgulho de contar.

Entanto, apesar de seu trabalho exaustivo na tecelagem, dedicava grande parte do seu tempo, também para atender a comunidade “Bezerra de Menezes”, localizada à rua Omachá no Bairro da Penha – por 40 anos esteve ativo naquela entidade - cuidava das instalações elétricas, fazia todos os consertos hidráulicos e além disso saía todos os sábados com a perua do Abrigo para angariar alimentos no Ceasa e se tornou um verdadeiro ídolo, tão amigo era dos idosos! Ajudava-os a comer, lhes dava banho, confortando-os e lhes dando amor, e isto não denegria a sua imagem de homem de negócios, ao contrário, por sua irrestrita humildade, sempre o senti respeitado por todos que o  conheciam como “alemão”.

Fazia palestras no Auditório do Abrigo e  era um orador que emocionava pela profundidade dos seus discursos e sempre me lembrarei de meu pai como uma pessoa muito especial, que certamente viverá não somente no meu, mas no coração de quantos puderam conviver com ele, tal a grandiosidade do seu coração, e é graças a tudo que de melhor esse homem foi não somente para nós, sua família, quanto para seus amigos e aqueles de quem ele tão carinhosamente cuidou, que nesta semana dedicada aos pais, quero render-lhe minha filial homenagem e agradecer-lhe emocionada pela maravilhosa infância que me proporcionou, e quem lhe agradece, pai, é aquela menina que ainda vive dentro de mim, fazendo com que eu me sinta sempre jovem e cheia de amor pela vida, pois isto você me ensinou muito bem, encarar tudo com otimismo e jovialidade, não importando nossa idade biológica.

E quero dizer-te, pai, que mais ainda te admiro já que tua infância foi triste e desprotegida, pois ainda uma criança, viveste o drama de ter teus pais separados e nenhum dos dois te queria, e muitas vezes - nos contavas – chegaste a dormir no Mercado da Cantareira e comer as frutas que os comerciantes jogavam fora. Mas tiveste um anjo bom que te ajudou,  uma mulher grandiosa, a segunda esposa de vovô – ela viveu muito pouco, pois morreu ao dar à luz uma menina, tua única irmã, Ema -  que, com pena daquele lindo e loiro menininho que tu eras, conseguiu matricular-te no Colégio Alemão na Moóca. Ela te estimava, mas vovô não queria os vínculos do passado no seu novo lar, e cada vez que vovó te mandava lá da Penha, com uma moedinha na palma da mão, para que tu fosses ter com teu pai na Vila Prudente, e ela pudesse estar com seu novo companheiro, conhecido como Joanim, lá chegando, ele te dava outra moedinha e te mandava de volta; rejeitado, tu não tinhas para onde ir.

Albertina Mayer era o nome de vovó, de origem polonesa – nascera na fronteira entre a Rússia e a Polônia – conhecera  vovô José tão logo chegara ao Brasil, em 1903, indo para a colônia agrícola em Curitiba, e nada do que o governo prometera era real, pois as árvores que eles precisavam derrubar, podiam ser abraçadas por vários homens e assim, decidiram vir para São Paulo tentar a sorte, vovó como tecelã e vovô como eletricista, mas ele realmente não trabalhava, vivendo às custas de sua mulher e assim, corajosamente, ela optou pela separação, pois, além de beber demais, vovô era tão agressivo, que chegou a matar o segundo bebê que vovó esperava, chutando com violência sua barriga; após perder esse bebê, ela passou a ter sérios problemas de saúde, que se agravaram ao longo dos anos e depois do casamento de papai – ele estava então com 19 anos -  ficou por muito tempo internada na cidade de Santo Ângelo num Alojamento de quarentena para doenças infecto-contagiosas, para tratamento de hanseníase, e quem alertara papai sobre a doença dela, fora mamãe, que percebera algumas manchas brancas pelo corpo de vovó. Papai temia o contágio, pois eu e minha irmã éramos muito pequenas, e sofria as críticas da família pelo afastamento de vovó do seu convívio, mas ninguém queria ficar com ela em sua casa – todos moravam na rua Betari, próximo ao Colégio dos Padres e onde é hoje o Shopping Penha.

Vovô era mesmo muito violento, e mamãe conta que quando ela estava esperando minha irmã nascer – era a primeira filha – ele fez com que ela ficasse na rua, um dia inteiro, não a deixando entrar em casa, pois queria o violão de papai para vender e mamãe não queria dar, e ele esperou papai chegar e, numa tocaia, à frente de nossa casa, ele atacou papai com um canivete, nada grave, pois com medo, ele fugiu covardemente. Sumiu de verdade e apenas sabíamos que ele morava nos cortiços do Brás, jogado pelas calçadas, bêbado como um enjeitado e papai o procurava, dando-lhe dinheiro, penalizado por essa situação, mas ele não queria ajuda e meu pai chegou a conseguir algumas internações para tratamento do vício, mas ele sempre dava um jeito de fugir, muitas vezes vestindo apenas o camisolão do hospital e foi somente quando estava muito doente mesmo, com a perna gangrenada, que ficou em nossa casa por uns 15 dias, até morrer, e como não tinha um acompanhamento médico de sua doença, precisou ser autopsiado e o camburão da polícia veio retirá-lo  de madrugada em nossa casa, colocando-o num horrível caixão de alumínio, que jamais vou esquecer enquanto viver; nenhum médico amigo nosso quis fazer o laudo do óbito, pois temiam implicativas posteriores.

Assim, me pergunto, por que alguns se transformam em marginais, pois apesar de não ser tão simples, é possível ser um homem de bem, mesmo frente a tantas dificuldades. Meu pai  tinha tudo para seguir o mau caminho, mas foi um exemplo! E quanto me orgulho dele! Teus netos, que adoravas, Fábio, Maurício e Jairo (meus filhos) e Fernando, Cíntia e Mariana (filhos de meu irmão Gilberto) te guardarão para sempre em seus corações, como o avô inesquecível das horas mais queridas!

Nosso tributo eterno a você, meu grande e maravilhoso pai, Alfredo Wartusch!

Qualquer dia lhes conto outras lindas histórias sobre meu pai e eu.


TU ÉS MEU PAI!


Na cor azul do teu olhar cansado,
Doce remanso a espargir amor,
No brilho vítreo, desse olhar amado,
Leio-te a alma, meu pai, meu confessor!

Das tuas mãos, todo carinho tive;
Lembranças boas, lembranças preciosas.
Tão grandes mãos, amparo no declive,
Prontas pro trabalho - mãos laboriosas,

No teu semblante, vejo o meu semblante:
Os mesmos olhos, na mesma feição...
Se sou assim, de ti, tão semelhante,
É igual ao teu também meu coração.

Lembro-me ainda, quando era menina,
Nesta lembrança em que minh’alma pousa,
As belas tardes – que coisa divina!
Que nós passávamos no Paula Souza!

Tão pequenina era, mas, recordo,
Daquelas matas não tinha medo não...
Não tinha medo – com isto concordo -
Por estar segura pela tua mão.

Mas, que aflição! Um dia nos perdemos,
Naquelas matas tão acolhedoras...
Ah!... De repente, com o caminho demos.
Belas surpresas, tão encantadoras!

Lembro a varanda, sempre onde ecoava,
O acorde doce da nossa canção,
E “A Marambaia” eu então cantava,
Acompanhada por teu violão.

A minha vida era uma canção...
Eu te adorava, sem te dar descanso!
Se não estavas, eu brincava, então,
Voando, como os anjos, no balanço!

Me amavas muito, pai, e preferida,
Eu abusava, até, dos meus direitos.
Sabia ser amada, ser querida,
- Pra você eu não tinha defeitos –

Quando sorrias, com teu ar de monge,
Adivinhando tudo, muito esperta,
Sabia que tu, me levarias longe,
A passear em tua bicicleta.

Com tão pouco, feliz, eu exultava!
Estar contigo, pra mim era a glória.
O tempo, ligeiro, então passava,
Cada passeio era uma vitória!

Te orgulhavas de mim, meu pai querido!
Linda menina eu era... e muito prosa,
Mesmo metida num simples vestido,
Sabia ser pra ti a mais formosa!

Sei que também recordas com saudade,
Aquele tempo de encantamento!
Tempo feliz, de tua mocidade,
Que se esfumou, levado pelo vento!

Todos os sonhos, que juntos sonhamos,
Se perpetuam na nossa lembrança;
Outrora, tão felizes, olvidamos,
Que deixarias de ser jovem, e eu criança!

Nada nos resta, mais que esta lembrança,
Que esta saudade, que este triste apelo:
Se no passado, fui tua criança,
Hoje és meu velho, de branco cabelo!

São Paulo, 8 de agosto de 1971 (Dia dos Pais)


MÍRIAN WARTTUSCH

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ABL ELEGE O POETA E FILÓSOFO ANTONIO CÍCERO PARA A CADEIRA 27, NA SUCESSÃO DO ACADÊMICO E PROFESSOR EDUARDO PORTELLA

Por 30 votos, a Academia Brasileira de Letras elegeu, quinta-feira, dia 10 de agosto, o novo ocupante da Cadeira 27, na sucessão do Acadêmico e professor Eduardo Portella, falecido no dia 3 de maio deste ano. O vencedor foi o poeta, filósofo e compositor Antonio Cícero (Antonio Cícero Correia Lima). Participaram da eleição 22 Acadêmicos presentes e 12 por cartas. Os ocupantes anteriores da cadeira 27 foram: Joaquim Nabuco (fundador) – que escolheu como patrono Maciel Monteiro –, Dantas Barreto, Gregório da Fonseca, Levi Carneiro e Otávio de Faria.

Saiba mais
O NOVO ACADÊMICO

Formado em Filosofia, em 1972, pelo University College London, da Universidade de Londres, Antonio Cícero é autor, entre outros trabalhos, dos livros de poemas Guardar (Rio: Record, 1996), A cidade e os livros (Rio: Record, 2002), Porventura (Rio: Record, 2012) e, em parceria com o artista plástico Luciano Figueiredo, de O livro de sombras (Rio: +2 Editora, 2010). Também publicou as obras de ensaios filosóficos O mundo desde o fim (Rio: Francisco Alves, 1995), Finalidades sem fim (São Paulo: Companhia das Letras, 2005) e Poesia e filosofia (Rio: Civilização Brasileira, 2012). Além disso, suas entrevistas foram reunidas no livro de Arthur Nogueira, intitulado Encontros: Antonio Cícero (Rio: Azougue, 2013).

Organizou o livro de ensaios Forma e sentido contemporâneo: poesia (Rio: EdUERJ, 2012) e, em parceria com Waly Salomão, o volume de ensaios O relativismo enquanto visão do mundo (Rio: Francisco Alves, 1994). Em parceria com Eucanaã Ferraz, produziu a Nova antologia poética de Vinícius de Moraes (São Paulo: Companhia das Letras, 2003).

Em 1993, concebeu o projeto intitulado “Banco Nacional de Ideias”, através do qual, nesse ano e nos dois subsequentes, promoveu, em colaboração com o poeta Waly Salomão e com o patrocínio do Banco Nacional, ciclos de conferências e discussões de artistas e intelectuais de importância mundial, como João Cabral de Melo Neto, Richard Rorty, Tzvetan Todorov, Hans Magnus Enzensberger, Peter Sloterdijk, Bento Prado Jr. e Darcy Ribeiro, entre outros. É também autor de inúmeras letras de canções, tendo como parceiros compositores como Marina Lima, Adriana Calcanhotto e João Bosco.

Antonio Cícero foi agraciado, em 2012, com o “Prêmio Alceu Amoroso Lima – Poesia e Liberdade”, concedido pela Universidade Candido Mendes e pelo Centro Alceu Amoroso Lima pela Liberdade. 

10/08/2017



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