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sábado, 12 de agosto de 2017

NICODEMOS SENA LANÇA NOVO LIVRO EM SÃO PAULO

LETRASELVAGEM  e  ESPAÇO CULTURAL CORTEZ EDITORA convidam

para o lançamento do livro

“CHORO POR TI, BELTERRA!”


de Nicodemos Sena


Data: 24 de agosto de 2017 (quinta-feira), às 19 horas.
Local: Espaço Cultural Cortez Editora, Rua Bartira 317, Perdizes - São Paulo/SP – Brasil (ao lado do TUCA e da PUC).
Entrada Franca.


A OBRA

Em 19 episódios, Nicodemos Sena reconstitui o dia em que fez a viagem de retorno às origens, em companhia de seu pai, depois de um percurso de algumas horas pela rodovia Santarém-Cuiabá, até entrar numa estradinha de terra que leva à Estrada Um e, enfim, às ruínas da cidadezinha de Belterra, que na década de 1940 fora dirigida pela Ford Motor Company, empresa do magnata norte-americano Henry Ford (1863-1947), que, em plena Segunda Guerra Mundial (1939-1945), tentaria fazer da extração da borracha uma atividade lucrativa, fornecendo os pneumáticos necessários para movimentar os veículos militares.

Não se pode dizer que se trata de um romance nem tampouco de um conto que se tenha derramado por causa de uma prosa poética. Não é também uma simples reportagem, pois não constitui a mera literalização dos acontecimentos de um dia na estrada. Neste caso, cada encontro no caminho com esporádicos moradores perdidos naquelas paragens do Brasil profundo serve como motivo para um ou mais comentários, como aquele episódio em que o cronista se depara, em meio ao tórrido calor do meio-dia amazônico, dentro de um casebre em que não havia água encanada e muito menos tratada, com uma menina que não parava de manipular a tela de um telefone celular.

É, isso sim, um texto híbrido que se assume como uma crônica repassada de lirismo, uma narração das vicissitudes vividas pelo narrador em companhia do pai, que faz, com a ajuda do filho, uma viagem de retorno à infância para reencontrar todos os fantasmas que ainda assolam seus pensamentos.

Ou ainda uma narrativa poética que, ao reunir musicalidade e metaforização, faz com que o narrador desfie o novelo da memória, em tom de conversa com o leitor em que não dispensa nem mesmo citações de autores, como o português Fernando Pessoa (1888-1935), o colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014), o mexicano Juan Rulfo (1917-1986) e o norte-americano William Faulkner (1897-1962). Como se sabe, o que une esses autores de nacionalidades tão distintas é a construção metafórica de um lugar mítico, que existe só na alma do próprio autor, como “o rio da minha aldeia” do heterônimo pessoano Alberto Caeiro.

Em resumo, o texto dialoga com o mito do eterno retorno, ao praticar a intertextualidade com discursos canônicos, reconstruindo, dessa forma, metáforas da precária condição humana.

Autor de livros que já se tornaram referências obrigatórias dentro da Literatura Brasileira, como os romances A Espera do Nunca Mais (1999), A Noite é dos Pássaros (2003) e A Mulher, o Homem e o Cão (2009), trilogia que constitui uma saga amazônica, Nicodemos Sena mostra em Choro por ti, Belterra! que pode ser também considerado um cronista da estirpe de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Rubem Braga (1913-1990) ou Fernando Sabino (1923-2004).

A diferença é que, em vez da fugacidade dos registros do cotidiano das ruas do Rio de Janeiro que se leem nas crônicas daqueles grandes mestres, o que o leitor descobrirá nestes episódios é não só a Amazônia que é vista ainda como exuberante paraíso tropical, mas também aquela que governantes corruptos permitiram que continuasse a ser destruída, tomada por aventureiros “gananciosos e cruéis, os quais, sem escrúpulos, saqueiam e depredam os bens da terra, auxiliados por ‘mucamas’ e ‘mordomos’ (degenerados filhos da terra) que, a troco de migalhas e posições, passaram-se para o lado dos inimigos”. (Texto das orelhas do livro, de autoria de Adelto Gonçalves, escritor, jornalista, doutor em Literatura Portuguesa pela U SP-Universidade de São Paulo)

O AUTOR

Nicodemos (Neves) Sena nasceu no município de Santarém, em 08.07.1958, e passou a infância entre índios e caboclos do Rio Maró, região de fronteira entre os estados do Pará e Amazonas (Amazônia brasileira), experiência que marcaria para sempre a sensibilidade do escritor identificado com a terra e os povos da Amazônia.

Em 1977, vem para São Paulo e aí se forma em Jornalismo, pela Pontifícia Universidade Católica (PUC), e em Direito, pela Universidade de São Paulo (USP).

Faz a sua estreia literária em 1999, com o romance A Espera do Nunca Mais, uma saga amazônica de 876 páginas.

No Pará, proclamou o historiador, folclorista e crítico Vicente Salles:

“Com A Espera do Nunca Mais, pela primeira vez temos, na ficção, o caboclo como agente da história, o índio que se destribalizou, que vive entre dois universos que se opõem e se excluem.” (“O caboclo como agente da história”. A PROVÍNCIA DO PARÁ, Belém, PA, 15 mar. 2000)

No Rio de Janeiro, escreveu a poeta e crítica Olga Savary:

“É uma alegria quando nos deparamos com um livro como A Espera do Nunca Mais, esta extraordinária saga amazônica, narrada com sedução, seriedade, poesia. Forma e estilo são impecáveis nessa estreia, que nem estreia parece, de tão madura. Uma lição de literatura e de brasilidade.” (“Amazonense faz boa ficção com ‘anos de chumbo’ e choques entre culturas”. O GLOBO, Caderno Prosa & Verso, Rio de Janeiro, RJ, 3 mar.2001)

Em São Paulo, escreveu o jornalista, professor e crítico Oscar D’Ambrosio:

A Espera do Nunca Mais desafia e devora o leitor desde o início. Feito sucuriju, abre sua bocarra e obriga a penetrar num universo denso. Não adianta resistir. Uma vez dentro da boca deste livro-serpente, o destino é conhecer os seus interstícios plenos de um fazer artístico solidamente urdido, elaborado com mãos de mestre.” (“Uma extensa e densa aula de Amazônia”. JORNAL DA TARDE, Caderno de Sábado, São Paulo, SP, 20 maio 2000)

Em 2000, A Espera do Nunca Mais conquista o Prêmio Lima Barreto/Brasil 500 Anos, da União Brasileira de Escritores (UBE/Rio de Janeiro), ocasião em que conhece pessoalmente o escritor e crítico Antonio Olinto, da Academia Brasileira de Letras, que sobre A Espera do Nunca Mais escreveu:

“Eis um romance que invade a literatura brasileira com a força de um fenômeno da natureza. Trata-se de uma saga amazônica chamada A Espera do Nunca Mais. Seu autor, Nicodemos Sena, tem o domínio da narrativa de ação e o talento de criar gente. Seus personagens representam a Amazônia com sua largueza e sua mistura, caboclo e floresta unidos num ecossistema geográfico-humano que retrata a nossa mais desconhecidamente forte região em que o Brasil se firma e se revela. É romance que deve ser lido. Nele, realidade e lenda se juntam com naturalidade. As palavras formam um estilo ínsito à grandeza das paisagens que descreve.” (JORNAL DE LETRAS, Rio de Janeiro, RJ, jan. 2001)

Em 2002, Nicodemos Sena aparece no Dossier Amazónico publicado na revista literária portuguesa “Construções Portuárias” (nº01), no qual foi incluído um trecho do inédito A Noite é dos Pássaros, ao lado de importantes escritores da Amazônia, entre os quais Haroldo Maranhão, Max Martins, João de Jesus Paes Loureiro, Vicente Franz Cecim, Age de Carvalho, Jorge Henrique Bastos, Antônio Moura, Paulo Plínio Abreu, Benedicto Monteiro, Rosângela Darwich e Benedito Nunes.

De 3 de abril a 31 de julho de 2003, A Noite é dos Pássaros é publicado em forma de folhetim, em dezoito episódios semanais, no jornal “O Estado do Tapajós” (Santarém do Pará) e na revista eletrônica portuguesa “TriploV”. Ainda em 2003,A Noite é dos Pássarosé publicado em formato livro (Ed. Cejup). No mesmo ano, fragmento de A Noite é dos Pássaros é publicado nas revistas “Palavra em Mutação nº02” e “Storm-Magazine”, ambas de Portugal.

Ainda em 2003, A Noite é dos Pássaros conquista o prêmio Lúcio Cardoso, da Academia Mineira de Letras, e, em 2004, Menção Honrosa no prêmio José Lins do Rego, da União Brasileira de Escritores (UBE/Rio de Janeiro).

Nicodemos Sena é nome reconhecido dentro e fora da Amazônia, tornando-se verbete na “Enciclopédia de Literatura Brasileira”, direção de Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa (edição conjunta da Global Editora, Fundação Biblioteca Nacional, DNL, Academia Brasileira de Letras, 2ª edição, 2001). Carlos Nejar, da Academia Brasileira de Letras, incluiu Nicodemos Sena em sua História da Literatura Brasileira — da Carta de Caminha aos Contemporâneos, entre os “grandes nomes na ficção surgidos no Brasil após a década de 1970” (Cap. 35, pág. 900, Fundação Biblioteca Nacional, RJ).

Nicodemos Sena é um dos 81 escritores analisados pela professora Nelly Novaes Coelho, titular de Literatura da Universidade de São Paulo (USP), no livro Escritores Brasileiros do Século XX — Um Testamento Crítico(LetraSelvagem, SP, 2013).

Pelo estilo vigoroso e temática inspirada na vida das populações marginalizadas da Amazônia (indígenas e caboclos), Nicodemos Sena já foi comparado a grandes ficcionistas brasileiros, como Graciliano Ramos, João Ubaldo Ribeiro, Mário de Andrade e Érico Veríssimo, e a importantes ficcionistas latino-americanos, como o paraguaio Augusto Roa Bastos e o peruano José María Arguedas.

O terceiro romance de Nicodemos Sena, A Mulher, o Homem e o Cão (2009), foi incluído entre as “78 DICAS” do Guia da FOLHA, suplemento cultural do jornal “Folha de São Paulo” (29.05.2009).

Tendo nascido na Amazônia, região “periférica” em relação aos centros nervosos do capitalismo globalizado (Estados Unidos da América, Europa e, em termos de Brasil, o Sul-Sudeste do país), conviveu desde cedo com as injustiças praticadas pelas oligarquias locais contra indígenas e caboclos, do que resultou um sentimento de revolta, inicialmente vago e finalmente insuportável, que o compeliu a lançar-se contra os “homens injustos” e o Deus que parecia não se compadecer do sofrimento dos pobres.

Na cosmopolita e conflagrada São Paulo, em seu primeiro emprego na indústria têxtil no bairro do Ipiranga, conheceu gente desenraizada e “fora do lugar” como ele, fugitiva da seca do Nordeste ou da polícia, mas disposta a trabalhar e perseguir os seus ideais. No cortiço onde se recolhia após o trabalho diário e a escola noturna, conheceu “seres da noite” semelhantes aos que, mais tarde, povoariam os seus romances. Seres que se movem nas sombras (na selva amazônica ou na “selva” de asfalto) e não deixam rastro; variada e difusa fauna humana de mamelucos, cafuzos e brancos pobres, que, premidos pela necessidade e circunstâncias, veem-se convertidos em ladrões, prostitutas e, entre estes, um ou outro operário que não desiste de sonhar com o “futuro”.

Com tal bagagem existencial, filosófica e humana, extraída da Vida, e mais a vontade indomável de se elevar por meio do conhecimento e dos livros, Nicodemos Sena logrou entrar, em 1979, para o curso de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, onde, municiado pela literatura marxista-leninista, engaja-se no movimento estudantil e dos trabalhadores contra a miséria e a opressão impostas pelo grande capital em sua forma mais atroz (a ditadura militar implantada em 1964).

Em 1981/1982, participa da campanha de criação do Partido dos Trabalhadores (PT). Em 1993, ao resolver dedicar-se à sua vocação de escritor, desliga-se do PT e passa a defender uma literatura “universal, sim, compreensível a todos os homens do mundo, mas que não renegue as marcas da cultura brasileira”, como afirmou numa entrevista.

Como diretor da União Brasileira de Escritores (UBE/SP) participa, em 2011, da organização do Congresso Brasileiro de Escritores realizado em Ribeirão Preto (SP).

Com o golpe político das elites de 2016, que depôs a Presidenta Dilma Rousseff e ataca os direitos dos trabalhadores, Nicodemos Sena volta à militância política de esquerda, sem deixar de lado a literatura.

Mora, atualmente, em Pindamonhangaba-SP.

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 Título: “CHORO POR TI, BELTERRA!”
Autor: Nicodemos Sena
Editora: LETRASELVAGEM
ISBN 978-85-61123-23-9
Tamanho: 14 x 21 cm. (Brochura)
1ª edição
192 páginas
Preço: R$30,00

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LETRASELVAGEM: Caixa Postal 63, CEP 12.400-970, PINDAMONYHANGABA-SP/Brasil. Telefones: (12) 3635-3769 / (12) 992033836 (WhatsApp)
letraselvagem@uol.com.br


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sexta-feira, 11 de agosto de 2017

MEU PAI É O MÁXIMO! - Mírian Warttusch

Meu pai é o máximo!


Sabem aquele amigo que você espera que seu pai seja? Conselheiro, humano, sempre presente, um super-homem, um pai herói? Assim era meu pai e no dia em que ele se foi, me senti órfã em toda a acepção da palavra, pois desde menina sempre fomos tão ligados, que eu imaginava, nunca nos separaríamos.

Era incrível seu carisma! Me ensinou coisas maravilhosas que todos os pais deveriam ensinar aos seus filhos, o respeito, a honestidade, a integridade e a fé e foi quem primeiro me fez sentir amor pela natureza, pois minha infância foi ponteada de lindíssimos dias que passávamos na Mata Paula Souza e ele me contava histórias maravilhosas sobre aquela pequena floresta incrustada no coração do nosso bairro, e nesses passeios cantávamos felizes, e para chegarmos ao local meu pai me levava na garupa de sua bicicleta; um dia nos perdemos na mata e meu pai ficou realmente muito preocupado, mas recordo que não senti medo, pois ele me passava muita segurança, era o meu protetor - meu pai herói -  uma pessoa realmente iluminada!

Muitas vezes o Juca nosso amigo, nos acompanhava; tinha uma voz tão linda e privilegiada – havia ganho vários prêmios em concursos de calouros – que nos deixava embevecidos ao cantar e tocar violão e nós fazíamos verdadeiras serenatas ao ar livre e voltar para casa era sempre algo doloroso, tal a felicidade que sentíamos nesses contatos tão maravilhosos com a natureza.

Lembro-me bem dos animais e aves que muitas vezes vimos e nunca esqueço de um tatu bola que alguém matara e deixara ali, e nessas trilhas os caçadores dizimavam os tatus que então imperavam em nosso bairro e foi graças a eles que a região foi batizada de “Tatuapé”! Mas a magnífica floresta foi sendo aos poucos derrubada, tanto mais a população do bairro crescia e hoje, em seu lugar, se instalou o Morumbizinho de São Paulo, o luxuosíssimo Jardim Anália Franco.

Meu pai trabalhava muito para nos dar conforto e bem estar; era Gerente Industrial do Lanifício Santa Branca, situado à rua Almirante Calheiros no Tatuapé e durante a época – anos 50 - em que se instalou  no Brasil uma das mais graves crises energéticas, o então Presidente da empresa, sr Carlos Casnatti, um abastado e generoso imigrante italiano, que fez de sua indústria uma das mais renomadas, respeitadas  e conceituadas do ramo têxtil no país, via com desgosto sua fábrica parar pelos constantes cortes de energia que duravam bem de meia hora a quarenta minutos por dia.

Decidiu, assim, importar um gerador de força da Alemanha, que chegou ao porto do Rio de Janeiro em meados do ano de 1955, mas não pode ser desembarcado pois a planta com o croquis da máquina havia se extraviado na viagem e meu pai, por falar fluentemente o alemão e conhecer profundamente o ramo da mecânica e eletricidade, foi escalado para entrar no gerador, que tinha bem uns três metros de comprimento, verificar peça por peça, montar uma nova planta, que passou pela aprovação de dois engenheiros da alfândega e então pode desembarcar. São histórias que me orgulho de contar.

Entanto, apesar de seu trabalho exaustivo na tecelagem, dedicava grande parte do seu tempo, também para atender a comunidade “Bezerra de Menezes”, localizada à rua Omachá no Bairro da Penha – por 40 anos esteve ativo naquela entidade - cuidava das instalações elétricas, fazia todos os consertos hidráulicos e além disso saía todos os sábados com a perua do Abrigo para angariar alimentos no Ceasa e se tornou um verdadeiro ídolo, tão amigo era dos idosos! Ajudava-os a comer, lhes dava banho, confortando-os e lhes dando amor, e isto não denegria a sua imagem de homem de negócios, ao contrário, por sua irrestrita humildade, sempre o senti respeitado por todos que o  conheciam como “alemão”.

Fazia palestras no Auditório do Abrigo e  era um orador que emocionava pela profundidade dos seus discursos e sempre me lembrarei de meu pai como uma pessoa muito especial, que certamente viverá não somente no meu, mas no coração de quantos puderam conviver com ele, tal a grandiosidade do seu coração, e é graças a tudo que de melhor esse homem foi não somente para nós, sua família, quanto para seus amigos e aqueles de quem ele tão carinhosamente cuidou, que nesta semana dedicada aos pais, quero render-lhe minha filial homenagem e agradecer-lhe emocionada pela maravilhosa infância que me proporcionou, e quem lhe agradece, pai, é aquela menina que ainda vive dentro de mim, fazendo com que eu me sinta sempre jovem e cheia de amor pela vida, pois isto você me ensinou muito bem, encarar tudo com otimismo e jovialidade, não importando nossa idade biológica.

E quero dizer-te, pai, que mais ainda te admiro já que tua infância foi triste e desprotegida, pois ainda uma criança, viveste o drama de ter teus pais separados e nenhum dos dois te queria, e muitas vezes - nos contavas – chegaste a dormir no Mercado da Cantareira e comer as frutas que os comerciantes jogavam fora. Mas tiveste um anjo bom que te ajudou,  uma mulher grandiosa, a segunda esposa de vovô – ela viveu muito pouco, pois morreu ao dar à luz uma menina, tua única irmã, Ema -  que, com pena daquele lindo e loiro menininho que tu eras, conseguiu matricular-te no Colégio Alemão na Moóca. Ela te estimava, mas vovô não queria os vínculos do passado no seu novo lar, e cada vez que vovó te mandava lá da Penha, com uma moedinha na palma da mão, para que tu fosses ter com teu pai na Vila Prudente, e ela pudesse estar com seu novo companheiro, conhecido como Joanim, lá chegando, ele te dava outra moedinha e te mandava de volta; rejeitado, tu não tinhas para onde ir.

Albertina Mayer era o nome de vovó, de origem polonesa – nascera na fronteira entre a Rússia e a Polônia – conhecera  vovô José tão logo chegara ao Brasil, em 1903, indo para a colônia agrícola em Curitiba, e nada do que o governo prometera era real, pois as árvores que eles precisavam derrubar, podiam ser abraçadas por vários homens e assim, decidiram vir para São Paulo tentar a sorte, vovó como tecelã e vovô como eletricista, mas ele realmente não trabalhava, vivendo às custas de sua mulher e assim, corajosamente, ela optou pela separação, pois, além de beber demais, vovô era tão agressivo, que chegou a matar o segundo bebê que vovó esperava, chutando com violência sua barriga; após perder esse bebê, ela passou a ter sérios problemas de saúde, que se agravaram ao longo dos anos e depois do casamento de papai – ele estava então com 19 anos -  ficou por muito tempo internada na cidade de Santo Ângelo num Alojamento de quarentena para doenças infecto-contagiosas, para tratamento de hanseníase, e quem alertara papai sobre a doença dela, fora mamãe, que percebera algumas manchas brancas pelo corpo de vovó. Papai temia o contágio, pois eu e minha irmã éramos muito pequenas, e sofria as críticas da família pelo afastamento de vovó do seu convívio, mas ninguém queria ficar com ela em sua casa – todos moravam na rua Betari, próximo ao Colégio dos Padres e onde é hoje o Shopping Penha.

Vovô era mesmo muito violento, e mamãe conta que quando ela estava esperando minha irmã nascer – era a primeira filha – ele fez com que ela ficasse na rua, um dia inteiro, não a deixando entrar em casa, pois queria o violão de papai para vender e mamãe não queria dar, e ele esperou papai chegar e, numa tocaia, à frente de nossa casa, ele atacou papai com um canivete, nada grave, pois com medo, ele fugiu covardemente. Sumiu de verdade e apenas sabíamos que ele morava nos cortiços do Brás, jogado pelas calçadas, bêbado como um enjeitado e papai o procurava, dando-lhe dinheiro, penalizado por essa situação, mas ele não queria ajuda e meu pai chegou a conseguir algumas internações para tratamento do vício, mas ele sempre dava um jeito de fugir, muitas vezes vestindo apenas o camisolão do hospital e foi somente quando estava muito doente mesmo, com a perna gangrenada, que ficou em nossa casa por uns 15 dias, até morrer, e como não tinha um acompanhamento médico de sua doença, precisou ser autopsiado e o camburão da polícia veio retirá-lo  de madrugada em nossa casa, colocando-o num horrível caixão de alumínio, que jamais vou esquecer enquanto viver; nenhum médico amigo nosso quis fazer o laudo do óbito, pois temiam implicativas posteriores.

Assim, me pergunto, por que alguns se transformam em marginais, pois apesar de não ser tão simples, é possível ser um homem de bem, mesmo frente a tantas dificuldades. Meu pai  tinha tudo para seguir o mau caminho, mas foi um exemplo! E quanto me orgulho dele! Teus netos, que adoravas, Fábio, Maurício e Jairo (meus filhos) e Fernando, Cíntia e Mariana (filhos de meu irmão Gilberto) te guardarão para sempre em seus corações, como o avô inesquecível das horas mais queridas!

Nosso tributo eterno a você, meu grande e maravilhoso pai, Alfredo Wartusch!

Qualquer dia lhes conto outras lindas histórias sobre meu pai e eu.


TU ÉS MEU PAI!


Na cor azul do teu olhar cansado,
Doce remanso a espargir amor,
No brilho vítreo, desse olhar amado,
Leio-te a alma, meu pai, meu confessor!

Das tuas mãos, todo carinho tive;
Lembranças boas, lembranças preciosas.
Tão grandes mãos, amparo no declive,
Prontas pro trabalho - mãos laboriosas,

No teu semblante, vejo o meu semblante:
Os mesmos olhos, na mesma feição...
Se sou assim, de ti, tão semelhante,
É igual ao teu também meu coração.

Lembro-me ainda, quando era menina,
Nesta lembrança em que minh’alma pousa,
As belas tardes – que coisa divina!
Que nós passávamos no Paula Souza!

Tão pequenina era, mas, recordo,
Daquelas matas não tinha medo não...
Não tinha medo – com isto concordo -
Por estar segura pela tua mão.

Mas, que aflição! Um dia nos perdemos,
Naquelas matas tão acolhedoras...
Ah!... De repente, com o caminho demos.
Belas surpresas, tão encantadoras!

Lembro a varanda, sempre onde ecoava,
O acorde doce da nossa canção,
E “A Marambaia” eu então cantava,
Acompanhada por teu violão.

A minha vida era uma canção...
Eu te adorava, sem te dar descanso!
Se não estavas, eu brincava, então,
Voando, como os anjos, no balanço!

Me amavas muito, pai, e preferida,
Eu abusava, até, dos meus direitos.
Sabia ser amada, ser querida,
- Pra você eu não tinha defeitos –

Quando sorrias, com teu ar de monge,
Adivinhando tudo, muito esperta,
Sabia que tu, me levarias longe,
A passear em tua bicicleta.

Com tão pouco, feliz, eu exultava!
Estar contigo, pra mim era a glória.
O tempo, ligeiro, então passava,
Cada passeio era uma vitória!

Te orgulhavas de mim, meu pai querido!
Linda menina eu era... e muito prosa,
Mesmo metida num simples vestido,
Sabia ser pra ti a mais formosa!

Sei que também recordas com saudade,
Aquele tempo de encantamento!
Tempo feliz, de tua mocidade,
Que se esfumou, levado pelo vento!

Todos os sonhos, que juntos sonhamos,
Se perpetuam na nossa lembrança;
Outrora, tão felizes, olvidamos,
Que deixarias de ser jovem, e eu criança!

Nada nos resta, mais que esta lembrança,
Que esta saudade, que este triste apelo:
Se no passado, fui tua criança,
Hoje és meu velho, de branco cabelo!

São Paulo, 8 de agosto de 1971 (Dia dos Pais)


MÍRIAN WARTTUSCH

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ABL ELEGE O POETA E FILÓSOFO ANTONIO CÍCERO PARA A CADEIRA 27, NA SUCESSÃO DO ACADÊMICO E PROFESSOR EDUARDO PORTELLA

Por 30 votos, a Academia Brasileira de Letras elegeu, quinta-feira, dia 10 de agosto, o novo ocupante da Cadeira 27, na sucessão do Acadêmico e professor Eduardo Portella, falecido no dia 3 de maio deste ano. O vencedor foi o poeta, filósofo e compositor Antonio Cícero (Antonio Cícero Correia Lima). Participaram da eleição 22 Acadêmicos presentes e 12 por cartas. Os ocupantes anteriores da cadeira 27 foram: Joaquim Nabuco (fundador) – que escolheu como patrono Maciel Monteiro –, Dantas Barreto, Gregório da Fonseca, Levi Carneiro e Otávio de Faria.

Saiba mais
O NOVO ACADÊMICO

Formado em Filosofia, em 1972, pelo University College London, da Universidade de Londres, Antonio Cícero é autor, entre outros trabalhos, dos livros de poemas Guardar (Rio: Record, 1996), A cidade e os livros (Rio: Record, 2002), Porventura (Rio: Record, 2012) e, em parceria com o artista plástico Luciano Figueiredo, de O livro de sombras (Rio: +2 Editora, 2010). Também publicou as obras de ensaios filosóficos O mundo desde o fim (Rio: Francisco Alves, 1995), Finalidades sem fim (São Paulo: Companhia das Letras, 2005) e Poesia e filosofia (Rio: Civilização Brasileira, 2012). Além disso, suas entrevistas foram reunidas no livro de Arthur Nogueira, intitulado Encontros: Antonio Cícero (Rio: Azougue, 2013).

Organizou o livro de ensaios Forma e sentido contemporâneo: poesia (Rio: EdUERJ, 2012) e, em parceria com Waly Salomão, o volume de ensaios O relativismo enquanto visão do mundo (Rio: Francisco Alves, 1994). Em parceria com Eucanaã Ferraz, produziu a Nova antologia poética de Vinícius de Moraes (São Paulo: Companhia das Letras, 2003).

Em 1993, concebeu o projeto intitulado “Banco Nacional de Ideias”, através do qual, nesse ano e nos dois subsequentes, promoveu, em colaboração com o poeta Waly Salomão e com o patrocínio do Banco Nacional, ciclos de conferências e discussões de artistas e intelectuais de importância mundial, como João Cabral de Melo Neto, Richard Rorty, Tzvetan Todorov, Hans Magnus Enzensberger, Peter Sloterdijk, Bento Prado Jr. e Darcy Ribeiro, entre outros. É também autor de inúmeras letras de canções, tendo como parceiros compositores como Marina Lima, Adriana Calcanhotto e João Bosco.

Antonio Cícero foi agraciado, em 2012, com o “Prêmio Alceu Amoroso Lima – Poesia e Liberdade”, concedido pela Universidade Candido Mendes e pelo Centro Alceu Amoroso Lima pela Liberdade. 

10/08/2017



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quinta-feira, 10 de agosto de 2017

2ª RODADA CITADINO DE FUTEBOL AABB ITABUNA: 11 E 12/08

Aragão Plásticos abre a rodada sexta às 19h15.

Times de Buerarema, Ibicaraí e Itajuípe estreiam no Citadino da AABB


Segue o Campeonato Citadino de Futebol MiniCampo da AABB Itabuna neste fim de semana com as estreias de Thumy Gás (Buerarema), Pizzaria 1ª Opção (Ibicaraí) e Cingapura (Itajuípe), além de Hoop Confecções e Academia Prime, as duas de Itabuna. A 2ª rodada terá:

Sexta 11/08/2017
19h15: Aragão Plásticos x Hoop Confecções
20h25: Thumy Gás x Cães de Guerra

Sábado 12/08/2017
14h30: Alcif Mais x Academia Prime
15h40: Baraúna Consultoria x Drogarias Velanes
16h50: Cingapura x Pizzaria 1ª Opção

As equipes estão assim divididas:
Grupo A - Thumy Gás, Drogarias Velanes, Shopping Jequitibá, Madeireira Mauá, Extra Cal, Baraúna Consultoria e Cães de Guerra.
Grupo B - Clínica COTEF, Aragão Plásticos, Alcif Mais, Academia Prime, Cingapura, Hoop Confecções e Pizzaria 1ª Opção.

Na primeira fase as equipes jogam entre si dentro do grupo. Classificam-se os quatro primeiros colocados de cada grupo para as quartas de final, seguindo-se as semifinais e a grande final marcada no dia 18/11/2017.

As partidas são sempre sextas à noite (a partir de 19h15) e sábados à tarde (a partir das 14h30), com rodadas duplas e triplas nos campos de grama sintética e grama natural do clube. Nesses horários a entrada é livre para adultos e crianças, com direito a estacionar dentro do clube, brincar o parque infantil e se servir do bar e lanchonete da AABB.

   
Contatos – Rodrigo Xavier (Digão): (73) 9.8853-4607 (Oi) / Marcos Lima: (73) 9.9152-6360 (Tim)
Assessoria de Imprensa – Carlos Malluta: (73) 9.8877-7701 (Oi) / 9.9133-4523 (Tim)

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FLIPELÔ 2017: GRATUITA, FLIPELÔ TERÁ MAIS DE 50 ATIVIDADES EM RUAS E ESPAÇOS DO PELOURINHO

Flipelô coloca Salvador no roteiro de eventos literários nacionais (Foto: Divulgação)

Evento irá reunir grandes nomes da literatura como Antonio Torres, Aleilton Fonseca e Conceição Evaristo, mas também abre espaço para novos autores e artistas


A partir de quinta-feira (10), a Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô) deixa de ser um sonho antigo da Fundação Casa de Jorge Amado e ganha a sua primeira edição. Durante os quatro dias do evento, cerca de 50 atividades gratuitas tomam conta das ruas e espaços culturais do Centro Histórico. Saraus, debates, encontros, oficinas literárias, apresentações teatrais, shows, leituras dramáticas, exibições de vídeos e atividades que atendem aos públicos adulto e infantojuvenil integram a programação, que segue até domingo.

A iniciativa comemora os 30 anos da Fundação, que abre as portas gratuitamente durante todo o mês de agosto em homenagem aos escritores Jorge Amado, Zélia Gattai e Myriam Fraga, curadora do projeto, que faleceu em fevereiro de 2016.

"Teremos, além de tantos encontros, o A Voz Edita, que reúne novos e renomados poetas para recitais. O evento inteiro segue uma linha mais informal, com café e muita troca de ideias. Poderemos também abrir espaço para que pessoas do público mostrem a própria arte", afirma Angela Fraga Sá, atual diretora da fundação.

A expectativa é que o evento receba 30 mil pessoas, entre autores, pesquisadores, estudantes e apaixonados pelo mundo das palavras. A abertura oficial da Flipelô acontece na quarta-feira (9), com apresentação da cantora Maria Bethânia na Igreja de São Francisco. Restrito a convidados, o sarau Bethânia e as Palavras reúne músicas pouco usuais de repertório da cantora baiana e poemas de autores como Fernando Pessoa, Marília Gabriela Llansol e Manoel de Barros.

O rapper Emicida também marca presença no evento. O artista compõe, na quinta-feira, a mesa do projeto A Rua é Nóiz - Poesia e Protesto ao lado de João Jorge, presidente do Olodum, com mediação de Larissa Luz. O Grupo Concriz, da cidade de Maracás, é mais uma atração que levará literatura para o público. O coletivo cultural formado por crianças, adolescentes e adultos monta e apresenta performances poéticas há dez anos, geralmente com durações em torno de 45 minutos e enfoques em obras de poetas brasileiros.

No domingo de Dia dos Pais, a Flieplô promete ser uma boa pedida para toda a família. No Largo do Pelourinho, às 11h, a Orquestra Sinfônica da Bahia (Osba) estreia a série Myriam Fraga, na qual aproxima música e literatura, sempre em ambientes descontraídos. Haverá ainda lançamentos de livros infantis com contação de estórias na Festa dos Erês."Teremos muitas programações infantis no domingo e, como em todos os outros dias, artes para todas as idades. Esperamos famílias reunidas em um clima de leveza e abraços. O Pelô ficará ainda mais colorido", convida Angela Fraga. "Estamos realizando um sonho. Lutamos muito para conseguir patrocínios e esperamos que seja a primeira de muitas das edições", finaliza. Para conferir a programação completa da Flipelô, clique aqui.



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JORGE AMADO 105 ANOS – Salve Jorge, patrono da ICAL!

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SALVE JORGE!
105 anos de Jorge Amado

A cidade hoje traz flores
E o coração para te entregar,
Relembrar teu caminhar
Ditoso e afável,
Dizer que te ama,
Haurir bênçãos celestiais
E a tua memória exaltar! 

Vida, luzes, sonatas,
Grandes amores
E canções para ti,
Que seja a paz do céu
Teu doce encanto!
Jorge, amante da liberdade, 

Tua cidade quer
Festejar tua vida,
Teu amor. 

Amor tamanho do teu coração
Filho gentil, dileto amigo,
Tesouro que floriu na terra mãe
Espalhou mundo afora sua fama,
Partiu deixando um legado de amor,
Bênção de bondade,
Obra e saudade... 

SALVE JORGE!
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Eglê S Machado - Poetisa 
Academia Grapiúna de Letras - AGRAL


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10 DE AGOSTO: DIA DE JORGE AMADO - A história da mulher de seu Vieira

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A história da mulher de seu Vieira


            Aproveito para contar a história de mulher do senhor Vieira, tal como se deu, tintim por tintim, circulam versões desencontradas, cada qual conta o conto à sua maneira, a maioria ouviu o galo cocoricar, mas não sabe da música a metade.

            Estávamos Calasans Neto e Auta Rosa, Zélia e eu em Casablanca, hospedados em um dos melhores hotéis da cidade,  Auta descobriu uma barata no quarto, comunicou a Zélia, o hotel foi para a lista negra. Como viajaríamos naquele mesmo dia para Marrakech, decidimos visitar o outro melhor hotel, no lado oposto da praça, bisbilhotar conforto e limpeza, nele reservar acomodações para nossa volta, uma semana após, se valesse a pena.

            Na portaria buscávamos informações sobre os quartos quando um senhor ainda jovem, bem-posto, ar esportivo, que me fitava curioso, perguntou-me se era brasileiro, escritor e se meu nome era. Efusão patriótica, troca de gentilezas, o compatriota ao saber ao que vínhamos elogiou o hotel, limpíssimo, nem sombra de baratas, propôs mostrar-nos seu apartamento para que julgássemos. Tentei recusar, quem disse, dona Rosa e dona Zélia queriam comprovar as vantagens, aceitaram, impuseram, acompanhamos o senhor Vieira – Vieira de Santa Catarina, se apresentara – ao oitavo andar. Tomou a frente, bateu à porta, foi aberta por uma criança de seus cinco anos. Onde vai a corda vai a caçamba, disse o anfitrião, não sei por que a declaração me fez imaginá-lo viúvo a correr coxia com a filha órfã. Entramos às apalpadelas pelo corredor ao lado da casa de banho, o apartamento mergulhado na mais negra escuridão. Vieira adiantou-se quarto adentro direto para o janelão, eu atrás dele, os demais atrás de mim. Num repelão Vieira abre as cortinas, a luz matinal de Casablanca invade a habitação, ouve-se um grito de mulher: Vieira, o que é isso? É Jorge Amado, minha filha, explica o bom leitor no auge do contentamento, aponta-me com o dedo, em seguida me informa: essa aí é minha esposa. Olho e vejo essa aí estendida nua em pelo na cama de casal, êxtase, visão, como direi? Não direi nada, nada disse, apenas arregalei os olhos, essa aí ergueu o busto, a luz banhou-lhe os seios, aleluia! Dona de casa civilizada convidou-me a sentar na cama, convite que não estendeu aos demais, certamente por não lhe terem sido apresentados: o marido pronunciara apenas o meu nome.

            Sentei-me por um instante fugidio, pois Zélia já dava por visto e aprovado o apartamento, agradecia e se mandava, arrastando-nos na pressa de sair, ainda hoje não entendo o motivo de tanto açodamento: Vieira acompanhou-nos à porta, a criança pela mão, dissemos muito obrigado, despedimo-nos. A caminho do elevador comentei com Calasans, as senhoras iam à frente:

            - Lavaste os olhos, hein, Calá?

            - Lavei os olhos, como?

            - Ora, como! Com a nudez da mulher de seu Vieira.

            - Nudez? Que me contas, que história é essa?

            Ora, pois, após cruzar a porta, aturdido pela escuridão, Calasans Neto deixara-se ficar no corredor do apartamento, não chegara a entrar no quarto e eu não me dera conta. Ao saber do acontecido acometeu-lhe ataque de loucura, queria a pulso retornar com o pretexto de ter esquecido o boné, quem sabe a esposa do Vieira continuava nua como eu vira.

            - Teu boné está em tua cabeça, Calá. Dormiste no ponto, agora é tarde.

            Partimos para Marrakech, lá estivemos durante uma semana. Constatei quem nem as maravilhas da cidade, nem a Medina, nem sequer o top-less das suecas à beira da piscina no oásis, nada conseguia retirar a cabeça de Calá da mulher de seu Vieira que ele, ai, não vira nua por preguiça.

            Voltamos a Casablanca, fomos nos hospedar no hotel sem baratas onde havíamos reservado cômodos. Na recepção, antes mesmo de entregar o passaporte, Calá quis saber de seu Vieira.

            - Vieira? O senhor se refere ao brasileiro da mulher bonita? – com as mãos o funcionério traçava-lhe as formas do corpo: - Quelle femme, cher Monsieur! – estalou a língua, som concupiscente, informou: - Viajou ontem para o Rio de Janeiro.

            Aí fica a história verdadeira. O mais que contam, o artista armado de binóculo, trepado numa palmeira para brechar o quarto do casal Vieira, e outras estripulias, não passam de invenções a engrossar o folclore do mestre Calá, Rei de Itapuã, Imperador do Abaeté.

(NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM)
Jorge Amado

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JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.


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