Quando a paz for encontrada, irmãos, estarei convosco!
Serei espelho e raiz
Estrela e aragem
E trarei comigo o canto mais puro que descerá no mar
E cobrirá a terra
Unindo homens e flores
Peixes e aurora!
Serei luz e sorriso
Pássaro e melodia
E me deixarei diluir no tempo
Entre rosas e diamantes!
Serei trigo e evangelho,
Estandarte e lembrança
E mandarei ao infinito
A mensagem fraterna de todos os povos!
Serei nuvem e vinho
Poeta e amigo
Porque trarei a todos os homens
Dentro do coração!
Quando a paz for encontrada, irmãos, estarei convosco!
Serei operário e camponês,
Herói e sacerdote,
Serei Homem!
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Milton
Rosário, autodidata, tornou-se jornalista lendário no sul da Bahia, pela
inteligência, capacidade e integridade, componentes do seu comportamento. Escrevendo
com extrema facilidade e beleza, Milton sempre foi admirado e reconhecido,
chegando a comandar toda a área de comunicação social da Ceplac.
Com
segurança e simplicidade, ali era o responsável final pela edição do jornal O
Cacauicultor, da revista Theobroma, científica e bilíngue, reconhecida
internacionalmente, do Boletim Técnico e da Cacau Atualidades, além de outros
trabalhos, inclusive de vídeo e rádio, sem abdicar contudo de manifestações de
sua própria lavra. Ceplac de outros tempos.
No sul da
Bahia, Milton Rosário foi o mentor de uma geração de novos talentos, que hoje
se revelam na imprensa Baiana,
particularmente em Ilhéus e Itabuna.
O poema
ACALANTO DA PAZ foi escrito poucos dias antes da sua prematura morte, no auge
da sua lucidez, e nele Milton transmite a sua certeza de estar preparado para o
seu próximo encontro com DEUS.
Trago-o a
público, querido Milton, como lhe prometi.
(O AMIGO DO CACAU – BAÚ DE RECORDAÇÕES – Documentário)
O tempo constitui fundamentalmente uma espécie de
coreografia interior. Dir-se-ia que a própria vida nos solicita a que a
escutemos de um outro modo. É com este imperativo que cada um de nós é chamado
a confrontar-se: a irresistível necessidade de reencontrar a vida na sua forma
pura. Por exemplo: se a linha azul do mar nos seduz tanto, é também porque esta
imensidão nos recorda o nosso verdadeiro horizonte; se subimos às altas
montanhas, é porque na visão clara de cima se alcança do real, nessa visão
luminosa e sem cesuras reconhecemos uma parte importante de um apelo mais
íntimo; se vamos à procura de outras cidades (e, nessas cidades, de uma imagem,
de um fragmento de beleza, de um não sei quê...), é também porque estamos em
busca de uma geografia interior; se simplesmente nos concedemos uma experiência
do tempo dilatada (refeições tomadas sem pressa, conversas que se prolongam,
visitas e encontros), é porque a gratuidade, e só essa, nos dá o sabor
prolongado da própria existência.
Tomemos esse verbo cunhado por Rainer Maria Rilke que diz:
«Espero o verão como quem espera uma outra vida». Este verso não nos projeta
para fora de nós, antes inicia-nos na arte da imersão interior. Verdadeiramente
durante os longos invernos do tempo não é uma vida estranha e fantasiosa aquela
que devemos esperar (e para a qual trabalhar!), mas uma vida que realmente nos
pertença. É de um verão assim que Rilke fala, e que pode coincidir com qualquer
estação: uma necessária oportunidade para nos imergirmos mais a fundo, mais
dentro, mais alto, aceitando o risco de colher a vida integralmente e dela nos
espantarmos. Na escassez e na plenitude, na dolorosa imprevisibilidade como na
sabedoria confiante. Pensemos na proposta que, mais de uma vez, Jesus faz aos
discípulos: «Passemos à outra margem» (Marcos 4, 35). Passar à outra margem não
significa necessariamente a transferência para outro lugar, diferente daquele
em que nos encontramos.
Às vezes, tudo o que nos é preciso é habitar a vida de um outro
modo. É simplesmente caminhar com um outro passo nas estradas que já
percorremos a cada dia. É abrir a janela quotidiana, mas lentamente, nas
consciência de que estamos a abrir. É reaprender uma outra qualidade para uma
quotidianidade talvez demasiado abandonada às rotinas e aos seus automatismos.
É, no fundo, saborear o gosto das coisas mais simples. Podemos fazer uma viagem
inesquecível, fascinados pelo sabor do instante presente, pela contemplação da
paisagem que nos é mais próxima, da sabedoria de uma conversa, do silêncio de
um livro que já temos entre as mãos. Pensemos no que escreve Marcel Proust:
«Talvez não haja na nossa infância dias que tenhamos vivido tão plenamente como
aqueles que passamos com um livro predileto». Que desafio, esta noção de «dias
plenamente vividos», e como nos é necessário avizinharmo-nos dela! «Passemos à
outra margem.» As viagens não são só exteriores. Não é simplesmente na
cartografia do mundo que o homem viaja. Fazer uma deslocação comporta uma
mudança de posição, uma maturação do olhar, abertura ao novo, uma adaptação a
realidades e linguagens, um confronto, um diálogo, inquietante ou encantado,
que necessariamente deixa impressões muito profundas. A experiência da viagem é
experiência da fronteira e de novos espaços, de que o homem tem necessidade
para ser ele próprio. «Passemos à outra margem.»
A viagem é uma etapa fundamental na descoberta e na
construção de nós mesmos e do mundo. É a nossa consciência que caminha,
descobre cada detalhe do mundo e tudo olha de novo como se fosse a primeira
vez. A viagem é uma espécie de motor desse olhar novo. Por isso é capaz de
introduzir na nossa vida e nos seus esquemas, na sua organização, elementos
sempre inéditos que podem operar essa recontextualização radical que, com um vocabulário
cristão, chamamos "conversão". Muitas mudanças de paradigma epocais
(também eclesiais) tiveram a ver precisamente com a aceitação de um olhar
viajante sobre o nosso mundo habitual e as suas convenções. O escritor Bruce
Chatwin utiliza, a esse respeito, a expressão «alternativa nómada», expressão
secularizada mas que pode bem ser reconduzida ao campo teológico e bíblico.
Abraão é um errante. Moisés descobre a sua vocação e missão
como mandato de itinerância. Muitos dos profetas de Israel, de Elias a Jonas,
viveram como exilados e proscritos. Jesus não tinha onde pousar a cabeça e
habitava, dando-lhe sentido, um trânsito permanente. Os seus discípulos são
convidados aos quatros cantos da Terra. O cristianismo define-se assim através
de uma extraterritorialidade simbólica, sem cidade e sem morada, que permite a
fenda, a abertura à revelação de um sentido maior. «Passemos à outra margem»,
propõe-nos Jesus.
José Tolentino Mendonça
In "Avvenire"
Trad.: SNPC
Publicado em 06.06.2017 no SNPC(Portugal)
São Pedro e São Paulo, apóstolos - Domingo 02/07/2017
Evangelho (Mt 16,13-19)
— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Mateus.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, Jesus foi à região de Cesareia de Filipe
e ali perguntou aos seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do
Homem?”Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias;
outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas”. Então Jesus lhes
perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?”Simão Pedro respondeu: “Tu és o
Messias, o Filho do Deus vivo”. Respondendo, Jesus lhe disse: “Feliz és
tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso,
mas o meu Pai que está no céu. Por isso eu te digo que tu és Pedro, e
sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá
vencê-la. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares
na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado
nos céus”.
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Paulo
Ricardo:
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Identidade des-velada a serviço
da vida
“Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que tu
ligares na terra...” (Mt. 16,19)
Neste domingo celebramos a festa de duas grandes
figuras-chave na Igreja: Pedro e Paulo; fortes personalidades que fizeram uma
impactante experiência de encontro com o peregrino da Galileia. E foram
profundamente transformados, a ponto de terem seus nomes mudados pelo próprio
Jesus Cristo.
Diante das maravilhadas que serão proclamadas de um e de
outro, podemos apresentar uma pergunta que pode nos parecer estranha. “Quê fica
de Simão em Pedro?” , “Quê fica de Saulo em Paulo?”. Porque Pedro, primeiro foi
Simão; Paulo foi Saulo. E Jesus chamou Simão e chamou Saulo. Em seguida, mudou
o nome deles para Pedro e Paulo. Simão, o homem do lago e da barca de pesca;
Saulo, o zeloso fariseu, fiel seguidor da lei e perseguidor da Igreja. Pedro, o
homem da Igreja, a rocha sobre a qual Jesus assenta sua nova comunidade. E
todos nós o recordamos como o homem das “chaves”. Paulo, o apóstolo dos
gentios, fundador de novas comunidades cristãs para além do território judaico.
Mas, retornemos às perguntas: o que permaneceu de Simão,
aquele do lago, no Pedro da Igreja? Desapareceu o verdadeiro Simão e ficou
somente o Pedro? Ou teríamos de dizer que há nele uma mescla de Simão e de
Pedro? O que permaneceu de Saulo, fariseu e filho de fariseu, no Paulo que
alargou as fronteiras da primitiva Igreja?
O Pedro, rocha firma, não deixa de ser o Simão do lago.
Apesar de Jesus ter mudado seu nome, no entanto, em diferentes ocasiões aflora
o Simão que não consegue entender Jesus e quer desviar o mestre de seus planos
e projetos. Continua vivo o Simão que busca o triunfalismo messiânico de Jesus
e revela resistência em seguir Aquele que vai ser crucificado. Continua sendo o
Simão que compete com os outros sobre a primazia no novo Reino, e crê que é ele
quem vai dar a vida por Jesus. Continua sendo o Simão covarde e com medo que
nega Jesus na noite da Paixão. O mesmo poderíamos dizer de Saulo. Muitos traços
seus continuam presentes na nova identidade: Paulo.
No evangelho de hoje, Jesus deixa transparecer sua
identidade através da confissão de Pedro: “Tu és o Messias, o Filho do Deus
vivo”; e, ao mesmo tempo, Jesus desvela a identidade de Pedro: “Tu és “petros”
(pedregulho) e sobre esta “petra”(rocha) edificarei minha igreja”. Pedro se
torna rocha firme (“petra”) quando se apoia na identidade de Jesus (a
verdadeira Rocha).
Pedro, que era “petros” (pedra de tropeço no caminho, frágil,
limitado...), foi sendo transformado, através da identificação com Jesus, em
“petra”, rocha firme da primitiva comunidade cristã. Dessa forma, o Simão que
era “petros”/pedra lentamente vai fazendo a travessia para “Petra”/rocha firme,
porque o mestre desvelou a nobreza que estava escondida no coração dele, ou
seja, sua verdadeira identidade sobre a qual o mesmo Jesus iria edificar sua
igreja.
Diante dos dois personagens, Pedro e Paulo, vamos intuindo
que a questão não é trocar simplesmente de nome. A Graça não destrói a natureza
humana, mas a plenifica e a torna expansiva. Em Pedro, a graça não destrói o
Simão, em Paulo não destrói o Saulo. Eles procurarão conservar a fidelidade a
Jesus e à comunidade dos seus seguidores, mas cada um imprimirá sua própria
personalidade.
A graça do seguimento de Jesus não apaga nossa condição
humana, nossa herança genética, nossa personalidade, nossa psicologia, nossa
sensibilidade e nosso mundo afetivo; carregamos conosco nossa cultura e nossa
própria história humana.
O desafio é este: que permanece de nossa herança biológica e
cultural na experiência do seguimento de Jesus? É possível que em todos nós, em
“Pedro”, permaneça latente muito de “Simão”; em “Paulo”, permaneça muito de
“Saulo”. E como distinguir o Simão de Pedro que todos carregamos dentro de nós?
Não é fácil a Pedro desprender-se do Simão de antes, nem a Paulo desprender-se
do Saulo de antes. Só a identificação com Jesus possibilita fazer a travessia
para o “novo nome”, integrando e pacificando
as “marcas humanas” do antigo nome.
O Evangelho da festa de hoje nos ajuda a ler nossa vida. Ali
afirma-se nossa identidade; e a identidade de uma pessoa é dada por aquilo que
é sólido, consistente... no seu interior, que não se desfaz com as adversidades
do mundo no qual vivemos (crises, fracassos, fragilidades, incoerências...).
Toda pessoa possui dentro de si uma profundidade que é seu mistério íntimo e
pessoal.
“Viver em profundidade” significa “entrar” no âmago da
própria vida, “descer” até às fontes do próprio ser, até às raízes mais
profundas. A própria interioridade é a rocha consistente e firme, bem talhada e
preciosa que cada pessoa tem, para encontrar segurança e caminhar na vida
superando as dificuldades e os inevitáveis golpes da luta pela vida. Com
confiança em si e na rocha do próprio ser, todas as forças vitais se acham
disponíveis para ajudar a pessoa a crescer dia-a-dia, tornando-a aquilo que
originalmente é chamada a ser.
Para isso temos em nossas mãos as chaves da vida. O que
fazemos com elas? Podemos abrir ou fechar, ligar ou desligar, atar ou
desatar.... Ter a chave da vida como Pedro e Paulo ou como Simão e Saulo: abrir
ou fechar as portas do futuro, das relações, dos sonhos, da missão... Dar
amplitude à vida ou atrofiá-la. Atar ou desatar os nós da vida.... Aqui está o
grande desafio: abrir-se ou fechar-se: abrir-se à vida, ao novo, ao outro, ao
desafiante ou diferente... ou retrair-se ao próprio ego.
Ter identidade é assentar nossa vida sobre a rocha interior
(Pedro) que nos sustenta e nos faz sair da prisão do ego (Simão). Nossa
identidade é sempre dinâmica, histórica, fecunda, aventureira... Nossa vida é
uma contínua travessia do Simão/Saulo para Pedro/Paulo, porque ela está
centrada n’Aquele que tudo sustenta. Nossa identidade profunda está a serviço
de quem? – do próprio “ego” como Simão ou Saulo, ou do Reino, como Pedro e
Paulo.
Texto bíblico: Mt. 16,13-19
Na oração: Muitos caminhos conduzem à própria interioridade.
A oração é a chave de acesso; ela é esse silencioso exercício de deixar que
Deus me habite para que eu possa abrir as portas do coração e janelas da mente
àqueles com quem me encontro.
Onde a Graça de Deus tem liberdade de atuar, ali afloram o
Pedro e o Paulo que tenho atrofiados dentro de mim.
- O que prevalece nas minhas relações cotidianas:
Simão/Saulo ou Pedro/Paulo?
No meu refúgio deste 18° andar, o maior conforto é a falta
deliberada de televisão. Aqui se lê, se conversa, se estuda, se pensa, e nada
disso é interrompido ou prejudicado pela caixa de Pandora.
O leitor ainda se lembra da caixa de Pandora? Muitos
certamente já a terão esquecido, pois um dos efeitos da televisão é que hoje as
pessoas não se lembram mais das coisas. Das importantes, é claro, pois a
própria TV se incumbe de evitar que esqueçam as baboseiras e imundícies.
Apenas um rápido esclarecimento, para podermos prosseguir.
Na mitologia grega, Pandora abriu a caixa onde Zeus havia guardado todos os
males, e assim eles se espalharam pela Terra.
Sendo a TV o equivalente moderno – não mitológico, mas bem
real – daquela caixa funesta, isso já bastaria para eu mantê-la longe de mim.
Mas o principal motivo é ainda mais profundo: ela degenera nas pessoas a
capacidade de pensar, deduzir, comparar, encadear logicamente o pensamento,
memorizar, conversar.
Muito teórico isso aí? Vamos então aos exemplos práticos.
No meu refúgio, como já disse, não entrou a babá
eletrônica.
Quando preciso refrescar a cabeça, após algum trabalho mental
especialmente árduo, às vezes recorro à janela. Muito mais interessante, a
perder de vista.
Mas parece que eu continuo teórico, pois grande número de
pessoas consideram a janela apenas um pedaço de vidro encaixado num furo
retangular da parede, sem a utilidade específica de olhar para fora. Ou para o
alto, de acordo com o título poético Janelas para o infinito. A
constatação que faço é de fundo estatístico: Sempre que olho pela janela, não
vejo ninguém olhando pela janela. E são várias centenas delas, nos caixotões de
concreto armado ao meu redor.
Nessa distração de olhar pela janela (que não significa
bisbilhotice), observei em janelas vizinhas um fenômeno interessante. Em certas
horas, através de muitas delas se nota um pisca-pisca bem rápido, de luzes que
mudam de cor, mais intensas ou menos, numa sucessão aleatória. Na primeira vez
que notei isso, pensei por instantes que houvesse lá dentro uma festa, no
estilo que julgo ser o das discotecas. Mas logo constatei que em todas se
repetia o mesmo ritmo e o mesmo padrão de pisca-pisca. Não precisei pensar
muito para concluir que por trás de cada janela, numa sala em penumbra, uma TV
exibia o mesmo filme, propaganda, novela, ou seja lá o que for. E o pisca-pisca
multicolorido provinha dos cortes que se sucedem, nas mudanças de cena ou em
tomadas dentro da mesma cena. E os intervalos são cada vez mais rápidos,
segundo me consta.
Não o imagino, caro leitor, perdendo seu tempo diante da
pandorinha, mas entenderá as consequências de bombardeios como o desta
propaganda:
Um bonitão pilotando uma moto. [corte] O bonitão surfando
numa onda. [corte] O bonitão jogando futsal. [corte] O bonitão em voo de asa
delta. [corte] O bonitão escalando um pico. [corte] O bonitão sorridente entre
bonitonas sorridentes, bebendo o refrigerante Tô-em-todas. [corte]
Musiquinha: Tô-em-todas é legal! [corte]
Tudo isso em quinze segundos (afinal, tempo é dinheiro). E a
mesma coisa se repete em noticiários, filmes, entrevistas, esportes, shows.
Nesse bombardeio contínuo, a atenção é bruscamente desviada de um assunto para
outro, de uma imagem para outra, de um ângulo para outro na mesma cena, sem
conexão lógica e não deixando tempo para pensar, analisar, comparar, concluir.
Ao fim de duas horas disso em programas de diversos tipos, o quadro será extremamente
negativo:
Não lembro onde se deu um fato ou outro;
Não sei que importância tem cada fato;
Não comentei com ninguém os vários assuntos apresentados;
Não sei para que me serve ter visto aquilo tudo;
Não sou capaz de narrar com lógica o que foi mostrado;
Não relacionei nenhum comentário ou fato com outros;
Não avaliei nem julguei nada do que vi.
Qual o resultado no longo prazo? Ninguém precisa ser muito
perspicaz para perceber que a burrificação é consequência inevitável dessa
metralhadora visual e mental. Lógica, coerência, precisão, continuidade,
deduções, conclusões – cada um desses elementos é necessário para enriquecer a
inteligência, a cultura, a civilização. Mas não espere nada disso quando entra
em cena a TV pandorizadora.
Nunca me arrependi da decisão de manter muito longe da minha
residência a caixa maldita. E é o que recomendo a cada um dos meus leitores.
Jacinto Flecha, médico, cronista e colaborador da Agência
Boa Imprensa.
Um jovem recém-casado estava sentado num sofá, num dia quente e úmido,
bebericando chá gelado, durante uma visita ao seu pai. Ao conversarem sobre a
vida, o casamento, as responsabilidades da vida, as obrigações da pessoa
adulta, o pai remexia pensativamente os cubos de gelo no seu copo e lançou um
olhar claro e sóbrio para seu filho.
- Nunca se esqueça de seus amigos! - aconselhou. Serão mais importantes à
medida que você envelhecer. Independentemente do quanto você ame sua família,
os filhos que porventura venham a ter, você sempre precisará de amigos.
Lembre-se de ocasionalmente ir a lugares com eles; faça coisas com eles;
telefone para eles...
Que estranho conselho (pensou o jovem). Acabo de ingressar no mundo dos
casados. Sou adulto. Com certeza, minha esposa e a família que iniciaremos
serão tudo de que necessito para dar sentido à minha vida!
Contudo, ele obedeceu ao pai. Manteve contato com seus amigos e anualmente
aumentava o número de amigos. À medida que os anos se passavam, ele foi
compreendendo que seu pai sabia do que falava. À medida que o tempo e a
natureza realizam suas mudanças e seus mistérios sobre um homem, amigos são
baluartes de sua vida.
Passados 50 anos, eis o que aprendi:
O Tempo passa.
A vida acontece.
A distância separa.
As crianças crescem.
Os empregos vão e vêm.
O amor fica mais frouxo.
As pessoas não fazem o que deveriam fazer.
O coração se rompe.
Os pais morrem.
Os colegas esquecem os favores.
As carreiras terminam.
Os filhos seguem a sua vida como você tão bem ensinou.
Mas os verdadeiros amigos estão lá, não importa quanto tempo e quantos
quilômetros estão entre vocês.
Um amigo nunca está mais distante do que o alcance de uma necessidade, torcendo
por você, intervindo em seu favor e esperando você de braços abertos, e
abençoando sua vida!
E quando a velhice chega, não existe papo mais gostoso do que o dos velhos
amigos... As histórias e recordações dos tempos vividos juntos, das viagens,
das férias, das noitadas, das paqueras... Ah! Tempo bom que não volta mais...
Não volta, mas pode ser lembrado numa boa conversa debaixo da sombra de uma
árvore, deitado na rede de uma varanda confortável ou à mesa de um restaurante,
regada a um bom vinho, não com um desconhecido, mas com os velhos amigos.
Quando iniciamos esta aventura chamada VIDA, não sabíamos das incríveis
alegrias ou tristezas que estavam adiante, nem sabíamos o quanto precisaríamos
uns dos outros.
Trinta
dias tinham-se passado da visita de Carlos Sousa ao distrito de Ferradas.
Como
andava o arraial em decadência! Ferradas, que em 1856 possuía cacau e café, que
se fundou antes de Tabocas e que teve visitas ilustres, como a de Martius, de
Maximiliano e daquele Guilherme Frederico, Barão Von Den Bussche, estava
parada...
Parou como
vila, acabaria como um simples arraial ou mesmo como uma rua comprida,
acompanhando o rio Cachoeira.
Ferradas
de frei Ludovico não existia mais. Ferradas agora era dos lavradores de cacau,
dos boiadeiros que passavam.
Mas os
cacauais de Ferradas lá estavam belos, frondosos, frutíferos, multiplicando as
rendas em todas as safras, atestando a pujança das suas terras e dos seus
proprietários.
Carlos
Sousa gostou da fazenda que foi correr, na encosta da serra. Uma baixada
magnífica plantada de cacau e um pé de serra de terras colossais. Os cacaueiros
novos e frutíferos, com o tronco preto, Sinal do terreno excelente. A
dificuldade estava em realizar o negócio muito alto para as suas posses. Suas
economias eram pequenas, ganhas na especulação de negócios de cacau, como
intermediário. Um capitalista prontificou-se a emprestar-lhe o dinheiro. Mas o
capitalista exigia juros altos e hipoteca da propriedade. E que capitalista!
Que fama que possuía! Homem frio, sem entranhas. Era preferível não comprar a
fazenda e continuar a dormir o seu sono sossegado. Não faltariam roças para
adquirir, mais baratas, mais longe, lá
para o lado do Ribeirão de Lama, de Una. Era melhor assim do quem cair nas
garras do usurário capitalista. Também, que infeliz era esse capitalista! Vivia
sozinho, isolado, jurado, malquisto, odiado, comia de pensão, vestia mescla,
brim ruim, sapatos ordinários, mas se vingava cobrando juros altos, acionando,
penhorando, espalhando a miséria.
Não
compraria a fazenda, esperaria outra oportunidade. Em Itabuna, na terra do
cacau, as oportunidades não faltavam, se repetiam, apareciam como as chuvas do
seu inverno, diariamente, constantemente, não era como no sertão de Sergipe,
que chovia uma vez por ano, quando chovia.
Até o
padre que tinha chegado pobre, estava rico, fazendeiro, sem fazer esforços, sem
furtar, porque em Itabuna, com as suas terras maravilhosas, seus vales férteis,
seus negócios fáceis, o homem ativo acabaria rico com o cacau, que é um “pé de
dinheiro”.
Em
Sergipe, terra dos seus avós, na Vila Cristina, que dificuldade para um homem
melhorar de sorte! Tinha de roer as unhas, guardar tostão por tostão, e, no
final, amealhar alguma coisa. Em Itabuna era diferente: bastava comprar um
pedaço de terra boa ou uma roça de cacau, e pronto, anos depois, deixava de ser
fulano ou beltrano para ser chamado de “coronel” fulano ou beltrano, patente de
riqueza, de fortuna, de abastança.
Isto é que
era lugar. Não devia ter pressa, “a sua vez chegaria, nas asas de um anjo bom”,
como dizia o anúncio da loja dos irmãos Maron.
Victor Hugo ou Victor-Marie Hugo foi um famoso poeta,
estadista e ativista dos direitos humanos nascido a 26 de fevereiro de 1802
na commune de Besançon, no Doubs, leste da então prestes a ser
dissolvida Primeira República Francesa.
Considerado já na altura um menino precoce, ainda muito
jovem se tornou escritor, tendo em 1817, ainda com apenas 15 anos, sido
premiado pela Academia Francesa por um de seus poemas. Ainda não tinha
completado os seus 30 anos, e Victor Hugo já era um prestigiado poeta,
dramaturgo, artista e romancista.
O doodle de
30 de Junho de 2017 é dedicado a homenagear algumas das suas obras mais
conhecidas, incluindo O Corcunda de Notre-Dame (1831) e a
coleção de poesias As Contemplações (1856). Mas sobretudo destacar a
obra mais concisa de Victor Hugo, a lendária novela Os Miseráveis,
que se desenrola com base na injustiça social, redenção e revolução.
Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconsequentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga "Isso é meu",
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.
Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.
Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar ".