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domingo, 2 de julho de 2017

ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: Acalanto da Paz, Milton Rosário

Acalanto da Paz
Milton Rosário

Quando a paz for encontrada, irmãos, estarei convosco!
Serei espelho e raiz
Estrela e aragem
E trarei comigo o canto mais puro que descerá no mar
E cobrirá a terra
Unindo homens e flores
Peixes e aurora!

Serei luz e sorriso
Pássaro e melodia
E me deixarei diluir no tempo
Entre rosas e diamantes!

Serei trigo e evangelho,
Estandarte e lembrança
E mandarei ao infinito
A mensagem fraterna de todos os povos!

Serei nuvem e vinho
Poeta e amigo
Porque trarei a todos os homens
Dentro do coração!

Quando a paz for encontrada, irmãos, estarei convosco!
Serei operário e camponês,
Herói e sacerdote,
Serei Homem!
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            Milton Rosário, autodidata, tornou-se jornalista lendário no sul da Bahia, pela inteligência, capacidade e integridade, componentes do seu comportamento. Escrevendo com extrema facilidade e beleza, Milton sempre foi admirado e reconhecido, chegando a comandar toda a área de comunicação social da Ceplac.

            Com segurança e simplicidade, ali era o responsável final pela edição do jornal O Cacauicultor, da revista Theobroma, científica e bilíngue, reconhecida internacionalmente, do Boletim Técnico e da Cacau Atualidades, além de outros trabalhos, inclusive de vídeo e rádio, sem abdicar contudo de manifestações de sua própria lavra. Ceplac de outros tempos.

            No sul da Bahia, Milton Rosário foi o mentor de uma geração de novos talentos, que hoje se revelam na imprensa Baiana,  particularmente em Ilhéus e Itabuna.

            O poema ACALANTO DA PAZ foi escrito poucos dias antes da sua prematura morte, no auge da sua lucidez, e nele Milton transmite a sua certeza de estar preparado para o seu próximo encontro com DEUS.

            Trago-o a público, querido Milton, como lhe prometi.

(O AMIGO DO CACAU – BAÚ DE RECORDAÇÕES – Documentário)
Edições GRD São Paulo, 1999

José Haroldo Castro Vieira

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ITABUNA CENTENÁRIA REFLETINDO: A viagem, síntese da vida cristã

A viagem, síntese da vida cristã


O tempo constitui fundamentalmente uma espécie de coreografia interior. Dir-se-ia que a própria vida nos solicita a que a escutemos de um outro modo. É com este imperativo que cada um de nós é chamado a confrontar-se: a irresistível necessidade de reencontrar a vida na sua forma pura. Por exemplo: se a linha azul do mar nos seduz tanto, é também porque esta imensidão nos recorda o nosso verdadeiro horizonte; se subimos às altas montanhas, é porque na visão clara de cima se alcança do real, nessa visão luminosa e sem cesuras reconhecemos uma parte importante de um apelo mais íntimo; se vamos à procura de outras cidades (e, nessas cidades, de uma imagem, de um fragmento de beleza, de um não sei quê...), é também porque estamos em busca de uma geografia interior; se simplesmente nos concedemos uma experiência do tempo dilatada (refeições tomadas sem pressa, conversas que se prolongam, visitas e encontros), é porque a gratuidade, e só essa, nos dá o sabor prolongado da própria existência.

 Tomemos esse verbo cunhado por Rainer Maria Rilke que diz: «Espero o verão como quem espera uma outra vida». Este verso não nos projeta para fora de nós, antes inicia-nos na arte da imersão interior. Verdadeiramente durante os longos invernos do tempo não é uma vida estranha e fantasiosa aquela que devemos esperar (e para a qual trabalhar!), mas uma vida que realmente nos pertença. É de um verão assim que Rilke fala, e que pode coincidir com qualquer estação: uma necessária oportunidade para nos imergirmos mais a fundo, mais dentro, mais alto, aceitando o risco de colher a vida integralmente e dela nos espantarmos. Na escassez e na plenitude, na dolorosa imprevisibilidade como na sabedoria confiante. Pensemos na proposta que, mais de uma vez, Jesus faz aos discípulos: «Passemos à outra margem» (Marcos 4, 35). Passar à outra margem não significa necessariamente a transferência para outro lugar, diferente daquele em que nos encontramos.

 Às vezes, tudo o que nos é preciso é habitar a vida de um outro modo. É simplesmente caminhar com um outro passo nas estradas que já percorremos a cada dia. É abrir a janela quotidiana, mas lentamente, nas consciência de que estamos a abrir. É reaprender uma outra qualidade para uma quotidianidade talvez demasiado abandonada às rotinas e aos seus automatismos. É, no fundo, saborear o gosto das coisas mais simples. Podemos fazer uma viagem inesquecível, fascinados pelo sabor do instante presente, pela contemplação da paisagem que nos é mais próxima, da sabedoria de uma conversa, do silêncio de um livro que já temos entre as mãos. Pensemos no que escreve Marcel Proust: «Talvez não haja na nossa infância dias que tenhamos vivido tão plenamente como aqueles que passamos com um livro predileto». Que desafio, esta noção de «dias plenamente vividos», e como nos é necessário avizinharmo-nos dela! «Passemos à outra margem.» As viagens não são só exteriores. Não é simplesmente na cartografia do mundo que o homem viaja. Fazer uma deslocação comporta uma mudança de posição, uma maturação do olhar, abertura ao novo, uma adaptação a realidades e linguagens, um confronto, um diálogo, inquietante ou encantado, que necessariamente deixa impressões muito profundas. A experiência da viagem é experiência da fronteira e de novos espaços, de que o homem tem necessidade para ser ele próprio. «Passemos à outra margem.»

A viagem é uma etapa fundamental na descoberta e na construção de nós mesmos e do mundo. É a nossa consciência que caminha, descobre cada detalhe do mundo e tudo olha de novo como se fosse a primeira vez. A viagem é uma espécie de motor desse olhar novo. Por isso é capaz de introduzir na nossa vida e nos seus esquemas, na sua organização, elementos sempre inéditos que podem operar essa recontextualização radical que, com um vocabulário cristão, chamamos "conversão". Muitas mudanças de paradigma epocais (também eclesiais) tiveram a ver precisamente com a aceitação de um olhar viajante sobre o nosso mundo habitual e as suas convenções. O escritor Bruce Chatwin utiliza, a esse respeito, a expressão «alternativa nómada», expressão secularizada mas que pode bem ser reconduzida ao campo teológico e bíblico.

Abraão é um errante. Moisés descobre a sua vocação e missão como mandato de itinerância. Muitos dos profetas de Israel, de Elias a Jonas, viveram como exilados e proscritos. Jesus não tinha onde pousar a cabeça e habitava, dando-lhe sentido, um trânsito permanente. Os seus discípulos são convidados aos quatros cantos da Terra. O cristianismo define-se assim através de uma extraterritorialidade simbólica, sem cidade e sem morada, que permite a fenda, a abertura à revelação de um sentido maior. «Passemos à outra margem», propõe-nos Jesus.


José Tolentino Mendonça 
In "Avvenire"
Trad.: SNPC
Publicado em 06.06.2017 no SNPC(Portugal)



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PALAVRA DA SALVAÇÃO (33)

São Pedro e São Paulo, apóstolos - Domingo 02/07/2017

Evangelho (Mt 16,13-19)
— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, Jesus foi à região de Cesareia de Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas”. Então Jesus lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?”Simão Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Respondendo, Jesus lhe disse: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus”.


— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Paulo Ricardo:
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Identidade des-velada a serviço da vida

“Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que tu ligares na terra...” (Mt. 16,19)

Neste domingo celebramos a festa de duas grandes figuras-chave na Igreja: Pedro e Paulo; fortes personalidades que fizeram uma impactante experiência de encontro com o peregrino da Galileia. E foram profundamente transformados, a ponto de terem seus nomes mudados pelo próprio Jesus Cristo.

Diante das maravilhadas que serão proclamadas de um e de outro, podemos apresentar uma pergunta que pode nos parecer estranha. “Quê fica de Simão em Pedro?” , “Quê fica de Saulo em Paulo?”. Porque Pedro, primeiro foi Simão; Paulo foi Saulo. E Jesus chamou Simão e chamou Saulo. Em seguida, mudou o nome deles para Pedro e Paulo. Simão, o homem do lago e da barca de pesca; Saulo, o zeloso fariseu, fiel seguidor da lei e perseguidor da Igreja. Pedro, o homem da Igreja, a rocha sobre a qual Jesus assenta sua nova comunidade. E todos nós o recordamos como o homem das “chaves”. Paulo, o apóstolo dos gentios, fundador de novas comunidades cristãs para além do território judaico.

Mas, retornemos às perguntas: o que permaneceu de Simão, aquele do lago, no Pedro da Igreja? Desapareceu o verdadeiro Simão e ficou somente o Pedro? Ou teríamos de dizer que há nele uma mescla de Simão e de Pedro? O que permaneceu de Saulo, fariseu e filho de fariseu, no Paulo que alargou as fronteiras da primitiva Igreja?

O Pedro, rocha firma, não deixa de ser o Simão do lago. Apesar de Jesus ter mudado seu nome, no entanto, em diferentes ocasiões aflora o Simão que não consegue entender Jesus e quer desviar o mestre de seus planos e projetos. Continua vivo o Simão que busca o triunfalismo messiânico de Jesus e revela resistência em seguir Aquele que vai ser crucificado. Continua sendo o Simão que compete com os outros sobre a primazia no novo Reino, e crê que é ele quem vai dar a vida por Jesus. Continua sendo o Simão covarde e com medo que nega Jesus na noite da Paixão. O mesmo poderíamos dizer de Saulo. Muitos traços seus continuam presentes na nova identidade: Paulo.

No evangelho de hoje, Jesus deixa transparecer sua identidade através da confissão de Pedro: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”; e, ao mesmo tempo, Jesus desvela a identidade de Pedro: “Tu és “petros” (pedregulho) e sobre esta “petra”(rocha) edificarei minha igreja”. Pedro se torna rocha firme (“petra”) quando se apoia na identidade de Jesus (a verdadeira Rocha).

Pedro, que era “petros” (pedra de tropeço no caminho, frágil, limitado...), foi sendo transformado, através da identificação com Jesus, em “petra”, rocha firme da primitiva comunidade cristã. Dessa forma, o Simão que era “petros”/pedra lentamente vai fazendo a travessia para “Petra”/rocha firme, porque o mestre desvelou a nobreza que estava escondida no coração dele, ou seja, sua verdadeira identidade sobre a qual o mesmo Jesus iria edificar sua igreja.

Diante dos dois personagens, Pedro e Paulo, vamos intuindo que a questão não é trocar simplesmente de nome. A Graça não destrói a natureza humana, mas a plenifica e a torna expansiva. Em Pedro, a graça não destrói o Simão, em Paulo não destrói o Saulo. Eles procurarão conservar a fidelidade a Jesus e à comunidade dos seus seguidores, mas cada um imprimirá sua própria personalidade.

A graça do seguimento de Jesus não apaga nossa condição humana, nossa herança genética, nossa personalidade, nossa psicologia, nossa sensibilidade e nosso mundo afetivo; carregamos conosco nossa cultura e nossa própria história humana.

O desafio é este: que permanece de nossa herança biológica e cultural na experiência do seguimento de Jesus? É possível que em todos nós, em “Pedro”, permaneça latente muito de “Simão”; em “Paulo”, permaneça muito de “Saulo”. E como distinguir o Simão de Pedro que todos carregamos dentro de nós? Não é fácil a Pedro desprender-se do Simão de antes, nem a Paulo desprender-se do Saulo de antes. Só a identificação com Jesus possibilita fazer a travessia para o “novo nome”, integrando e pacificando
as “marcas humanas” do antigo nome.

O Evangelho da festa de hoje nos ajuda a ler nossa vida. Ali afirma-se nossa identidade; e a identidade de uma pessoa é dada por aquilo que é sólido, consistente... no seu interior, que não se desfaz com as adversidades do mundo no qual vivemos (crises, fracassos, fragilidades, incoerências...). Toda pessoa possui dentro de si uma profundidade que é seu mistério íntimo e pessoal.

 “Viver em profundidade” significa “entrar” no âmago da própria vida, “descer” até às fontes do próprio ser, até às raízes mais profundas. A própria interioridade é a rocha consistente e firme, bem talhada e preciosa que cada pessoa tem, para encontrar segurança e caminhar na vida superando as dificuldades e os inevitáveis golpes da luta pela vida. Com confiança em si e na rocha do próprio ser, todas as forças vitais se acham disponíveis para ajudar a pessoa a crescer dia-a-dia, tornando-a aquilo que originalmente é chamada a ser.

Para isso temos em nossas mãos as chaves da vida. O que fazemos com elas? Podemos abrir ou fechar, ligar ou desligar, atar ou desatar.... Ter a chave da vida como Pedro e Paulo ou como Simão e Saulo: abrir ou fechar as portas do futuro, das relações, dos sonhos, da missão... Dar amplitude à vida ou atrofiá-la. Atar ou desatar os nós da vida.... Aqui está o grande desafio: abrir-se ou fechar-se: abrir-se à vida, ao novo, ao outro, ao desafiante ou diferente... ou retrair-se ao próprio ego.

Ter identidade é assentar nossa vida sobre a rocha interior (Pedro) que nos sustenta e nos faz sair da prisão do ego (Simão). Nossa identidade é sempre dinâmica, histórica, fecunda, aventureira... Nossa vida é uma contínua travessia do Simão/Saulo para Pedro/Paulo, porque ela está centrada n’Aquele que tudo sustenta. Nossa identidade profunda está a serviço de quem? – do próprio “ego” como Simão ou Saulo, ou do Reino, como Pedro e Paulo.

Texto bíblico:  Mt. 16,13-19

Na oração: Muitos caminhos conduzem à própria interioridade. A oração é a chave de acesso; ela é esse silencioso exercício de deixar que Deus me habite para que eu possa abrir as portas do coração e janelas da mente àqueles com quem me encontro.
Onde a Graça de Deus tem liberdade de atuar, ali afloram o Pedro e o Paulo que tenho atrofiados dentro de mim.
- O que prevalece nas minhas relações cotidianas: Simão/Saulo ou Pedro/Paulo?

Pe. Adroaldo Palaoro sj
Itaici-SP


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sábado, 1 de julho de 2017

CAIXA DE PANDORA - Por Jacinto Flecha

Caixa de pandora


No meu refúgio deste 18° andar, o maior conforto é a falta deliberada de televisão. Aqui se lê, se conversa, se estuda, se pensa, e nada disso é interrompido ou prejudicado pela caixa de Pandora.

O leitor ainda se lembra da caixa de Pandora? Muitos certamente já a terão esquecido, pois um dos efeitos da televisão é que hoje as pessoas não se lembram mais das coisas. Das importantes, é claro, pois a própria TV se incumbe de evitar que esqueçam as baboseiras e imundícies.

Apenas um rápido esclarecimento, para podermos prosseguir. Na mitologia grega, Pandora abriu a caixa onde Zeus havia guardado todos os males, e assim eles se espalharam pela Terra.

Sendo a TV o equivalente moderno – não mitológico, mas bem real – daquela caixa funesta, isso já bastaria para eu mantê-la longe de mim. Mas o principal motivo é ainda mais profundo: ela degenera nas pessoas a capacidade de pensar, deduzir, comparar, encadear logicamente o pensamento, memorizar, conversar.

Muito teórico isso aí? Vamos então aos exemplos práticos.
No meu refúgio, como já disse, não entrou a babá eletrônica.
Quando preciso refrescar a cabeça, após algum trabalho mental especialmente árduo, às vezes recorro à janela. Muito mais interessante, a perder de vista.

Mas parece que eu continuo teórico, pois grande número de pessoas consideram a janela apenas um pedaço de vidro encaixado num furo retangular da parede, sem a utilidade específica de olhar para fora. Ou para o alto, de acordo com o título poético Janelas para o infinito. A constatação que faço é de fundo estatístico: Sempre que olho pela janela, não vejo ninguém olhando pela janela. E são várias centenas delas, nos caixotões de concreto armado ao meu redor.

Nessa distração de olhar pela janela (que não significa bisbilhotice), observei em janelas vizinhas um fenômeno interessante. Em certas horas, através de muitas delas se nota um pisca-pisca bem rápido, de luzes que mudam de cor, mais intensas ou menos, numa sucessão aleatória. Na primeira vez que notei isso, pensei por instantes que houvesse lá dentro uma festa, no estilo que julgo ser o das discotecas. Mas logo constatei que em todas se repetia o mesmo ritmo e o mesmo padrão de pisca-pisca. Não precisei pensar muito para concluir que por trás de cada janela, numa sala em penumbra, uma TV exibia o mesmo filme, propaganda, novela, ou seja lá o que for. E o pisca-pisca multicolorido provinha dos cortes que se sucedem, nas mudanças de cena ou em tomadas dentro da mesma cena. E os intervalos são cada vez mais rápidos, segundo me consta.

Não o imagino, caro leitor, perdendo seu tempo diante da pandorinha, mas entenderá as consequências de bombardeios como o desta propaganda:

Um bonitão pilotando uma moto. [corte] O bonitão surfando numa onda. [corte] O bonitão jogando futsal. [corte] O bonitão em voo de asa delta. [corte] O bonitão escalando um pico. [corte] O bonitão sorridente entre bonitonas sorridentes, bebendo o refrigerante Tô-em-todas. [corte] Musiquinha: Tô-em-todas é legal! [corte]
Tudo isso em quinze segundos (afinal, tempo é dinheiro). E a mesma coisa se repete em noticiários, filmes, entrevistas, esportes, shows. Nesse bombardeio contínuo, a atenção é bruscamente desviada de um assunto para outro, de uma imagem para outra, de um ângulo para outro na mesma cena, sem conexão lógica e não deixando tempo para pensar, analisar, comparar, concluir. Ao fim de duas horas disso em programas de diversos tipos, o quadro será extremamente negativo:

Não lembro onde se deu um fato ou outro;
Não sei que importância tem cada fato;
Não comentei com ninguém os vários assuntos apresentados;
Não sei para que me serve ter visto aquilo tudo;
Não sou capaz de narrar com lógica o que foi mostrado;
Não relacionei nenhum comentário ou fato com outros;
Não avaliei nem julguei nada do que vi.

Qual o resultado no longo prazo? Ninguém precisa ser muito perspicaz para perceber que a burrificação é consequência inevitável dessa metralhadora visual e mental. Lógica, coerência, precisão, continuidade, deduções, conclusões – cada um desses elementos é necessário para enriquecer a inteligência, a cultura, a civilização. Mas não espere nada disso quando entra em cena a TV pandorizadora.

Nunca me arrependi da decisão de manter muito longe da minha residência a caixa maldita. E é o que recomendo a cada um dos meus leitores.


 Jacinto Flecha, médico, cronista e colaborador da Agência Boa Imprensa.

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ITABUNA CENTENÁRIA REFLETINDO - Os Amigos

Os Amigos


Um jovem recém-casado estava sentado num sofá, num dia quente e úmido, bebericando chá gelado, durante uma visita ao seu pai. Ao conversarem sobre a vida, o casamento, as responsabilidades da vida, as obrigações da pessoa adulta, o pai remexia pensativamente os cubos de gelo no seu copo e lançou um olhar claro e sóbrio para seu filho.

- Nunca se esqueça de seus amigos! - aconselhou. Serão mais importantes à medida que você envelhecer. Independentemente do quanto você ame sua família, os filhos que porventura venham a ter, você sempre precisará de amigos.

Lembre-se de ocasionalmente ir a lugares com eles; faça coisas com eles; telefone para eles...

Que estranho conselho (pensou o jovem). Acabo de ingressar no mundo dos casados. Sou adulto. Com certeza, minha esposa e a família que iniciaremos serão tudo de que necessito para dar sentido à minha vida!

Contudo, ele obedeceu ao pai. Manteve contato com seus amigos e anualmente aumentava o número de amigos. À medida que os anos se passavam, ele foi compreendendo que seu pai sabia do que falava. À medida que o tempo e a natureza realizam suas mudanças e seus mistérios sobre um homem, amigos são baluartes de sua vida.

Passados 50 anos, eis o que aprendi:

O Tempo passa.
A vida acontece.
A distância separa.
As crianças crescem.
Os empregos vão e vêm.
O amor fica mais frouxo.
As pessoas não fazem o que deveriam fazer.
O coração se rompe.
Os pais morrem.
Os colegas esquecem os favores.
As carreiras terminam.


Os filhos seguem a sua vida como você tão bem ensinou.

Mas os verdadeiros amigos estão lá, não importa quanto tempo e quantos quilômetros estão entre vocês.

Um amigo nunca está mais distante do que o alcance de uma necessidade, torcendo por você, intervindo em seu favor e esperando você de braços abertos, e abençoando sua vida!

E quando a velhice chega, não existe papo mais gostoso do que o dos velhos amigos... As histórias e recordações dos tempos vividos juntos, das viagens, das férias, das noitadas, das paqueras... Ah! Tempo bom que não volta mais... Não volta, mas pode ser lembrado numa boa conversa debaixo da sombra de uma árvore, deitado na rede de uma varanda confortável ou à mesa de um restaurante, regada a um bom vinho, não com um desconhecido, mas com os velhos amigos.

Quando iniciamos esta aventura chamada VIDA, não sabíamos das incríveis alegrias ou tristezas que estavam adiante, nem sabíamos o quanto precisaríamos uns dos outros.

Enviado do meu smartphone Samsung Galaxy.

(Autor não mencionado)

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TERRAS DE ITABUNA - Oportunidades não faltavam

Oportunidades não faltavam


            Trinta dias tinham-se passado da visita de Carlos Sousa ao distrito de Ferradas.

            Como andava o arraial em decadência! Ferradas, que em 1856 possuía cacau e café, que se fundou antes de Tabocas e que teve visitas ilustres, como a de Martius, de Maximiliano e daquele Guilherme Frederico, Barão Von Den Bussche, estava parada...

            Parou como vila, acabaria como um simples arraial ou mesmo como uma rua comprida, acompanhando o rio Cachoeira.

            Ferradas de frei Ludovico não existia mais. Ferradas agora era dos lavradores de cacau, dos boiadeiros que passavam.
           
            Mas os cacauais de Ferradas lá estavam belos, frondosos, frutíferos, multiplicando as rendas em todas as safras, atestando a pujança das suas terras e dos seus proprietários.

            Carlos Sousa gostou da fazenda que foi correr, na encosta da serra. Uma baixada magnífica plantada de cacau e um pé de serra de terras colossais. Os cacaueiros novos e frutíferos, com o tronco preto, Sinal do terreno excelente. A dificuldade estava em realizar o negócio muito alto para as suas posses. Suas economias eram pequenas, ganhas na especulação de negócios de cacau, como intermediário. Um capitalista prontificou-se a emprestar-lhe o dinheiro. Mas o capitalista exigia juros altos e hipoteca da propriedade. E que capitalista! Que fama que possuía! Homem frio, sem entranhas. Era preferível não comprar a fazenda e continuar a dormir o seu sono sossegado. Não faltariam roças para adquirir, mais baratas,  mais longe, lá para o lado do Ribeirão de Lama, de Una. Era melhor assim do quem cair nas garras do usurário capitalista. Também, que infeliz era esse capitalista! Vivia sozinho, isolado, jurado, malquisto, odiado, comia de pensão, vestia mescla, brim ruim, sapatos ordinários, mas se vingava cobrando juros altos, acionando, penhorando, espalhando a miséria.

            Não compraria a fazenda, esperaria outra oportunidade. Em Itabuna, na terra do cacau, as oportunidades não faltavam, se repetiam, apareciam como as chuvas do seu inverno, diariamente, constantemente, não era como no sertão de Sergipe, que chovia uma vez por ano, quando chovia.

            Até o padre que tinha chegado pobre, estava rico, fazendeiro, sem fazer esforços, sem furtar, porque em Itabuna, com as suas terras maravilhosas, seus vales férteis, seus negócios fáceis, o homem ativo acabaria rico com o cacau, que é um “pé de dinheiro”.

            Em Sergipe, terra dos seus avós, na Vila Cristina, que dificuldade para um homem melhorar de sorte! Tinha de roer as unhas, guardar tostão por tostão, e, no final, amealhar alguma coisa. Em Itabuna era diferente: bastava comprar um pedaço de terra boa ou uma roça de cacau, e pronto, anos depois, deixava de ser fulano ou beltrano para ser chamado de “coronel” fulano ou beltrano, patente de riqueza, de fortuna, de abastança.

            Isto é que era lugar. Não devia ter pressa, “a sua vez chegaria, nas asas de um anjo bom”, como dizia o anúncio da loja dos irmãos Maron.


(Capítulo IV do livro TERRAS de ITABUNA)
 Carlos Pereira Filho

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sexta-feira, 30 de junho de 2017

QUEM FOI VICTOR HUGO E PORQUE A GOOGLE DEDICA UM DOODLE

29.06.17

Victor Hugo ou Victor-Marie Hugo foi um famoso poeta, estadista e ativista dos direitos humanos nascido a 26 de fevereiro de 1802 na commune de Besançon, no Doubs, leste da então prestes a ser dissolvida Primeira República Francesa.

Considerado já na altura um menino precoce, ainda muito jovem se tornou escritor, tendo em 1817, ainda com apenas 15 anos, sido premiado pela Academia Francesa por um de seus poemas. Ainda não tinha completado os seus 30 anos, e Victor Hugo já era um prestigiado poeta, dramaturgo, artista e romancista.

doodle de 30 de Junho de 2017 é dedicado a homenagear algumas das suas obras mais conhecidas, incluindo O Corcunda de Notre-Dame (1831) e a coleção de poesias As Contemplações (1856). Mas sobretudo destacar a obra mais concisa de Victor Hugo, a lendária novela Os Miseráveis, que se desenrola com base na injustiça social, redenção e revolução.



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Desejo 

Vítor Hugo


Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconsequentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.

Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga "Isso é meu",
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar ".

Abaixo a música de Frejat:



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