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sábado, 3 de junho de 2017

DIOGUINHO, O MATADOR DE ALUGUEL QUE FOI OFICIAL DE JUSTIÇA E VIROU LENDA NO INTERIOR PAULISTA -Rodrigo Casarin

02/06/2017
Rodrigo Casarin


Depois que um dono de circo agrediu Joãozinho, seu irmão menor, que Dioguinho, então com cerca de 20 anos, entrou para o mundo do crime. Foi tirar satisfações e, durante a discussão, deu uma facada no peito do homem, que logo morreu... Na justiça, alegou que tinha agido em legítima defesa, falou que o rival havia sacado uma arma de fogo e, por isso, foi obrigado a esfaqueá-lo antes de ser baleado. A história colou.

Diogo da Rocha Figueira nasceu no mês de outubro de 1863, em Botucatu, cidade do interior de São Paulo, região que transformaria o seu nome em uma lenda do final do século 19. Na ficha de Dioguinho constam ao menos 24 assassinatos... mas há quem especule que a quantidade de pessoas mortas pelo homem ultrapasse a centena. Alternando acertos de contas pessoais e crimes sob encomenda, a fama do bandido se espalhou rapidamente pelos campos paulistas.

 Mas Dioguinho não era um simples assassino. Agrimensor, também trabalhava em fazendas de café e por isso lidava com alguns dos homens mais poderosos do país. Os bons contatos lhe garantiam tanto encomendas de serviços macabros quanto a garantia de que a justiça não lhe colocaria atrás das grades.

Matava usando porretes, facões ou armas de fogo, compôs um grupo de bandidos para garantir o sucesso das ações e, após cada aniquilação, arrancava a orelha da vítima, pedaço do corpo que servia para provar que o serviço encomendado do tinha sido executado. Dessas ironias típicas da história brasileira, o contato com gente influente fez com quem Dioguinho chegasse a ser nomeado oficial de justiça.

Somente quando abraçou uma tramoia que envolvia os próprios poderosos que o mundo criminoso de Dioguinho ruiu. Após cometer mais um assassinato, seu grupo violentou uma mulher, que acabou viajando para São Paulo para dar queixa contra os bandidos. Tinham ido longe demais. Policiais da capital partiram em busca daqueles meliantes caipiras. Era final de abril de 1897.

Encontraram o grupo próximo ao rio Mogi Guaçu, trocaram tiros, mataram alguns e viram Dioguinho fugindo em uma canoa. Por mais que tenham alvejado a embarcação, não conseguiram acertar o principal alvo, que pulou na água e sumiu. Os policiais garantiram que mesmo assim Dioguinho estava morto, mas jamais acharam seu corpo. Histórias dão conta de que muitas pessoas o viram depois disso em diversos lugares do país.
 
HQ inspirada no matador de aluguel
A história do lendário bandido já inspirou filmes e livros, como “Dioguinho – O Matador de Punhos de Renda” (Casa Amarela), do jornalista João Garcia, que passou cinco anos investigando os passos do assassino. Agora, uma nova representação da trajetória do matador de aluguel chega às livrarias: “Cão”, graphic novel de Breno Ferreira publicada pela Mino.

“Desde de pequeno escuto relatos sobre o tal do Dioguinho e outras histórias parecidas com a dele nos encontros da família no interior. Esses causos sempre me interessaram, são daqueles contos que te prendem na cadeira do começo ao fim, algo mágico da narrativa oral”, diz o autor que, ao se aproximar das passagens relacionadas ao bandido, percebeu que poderia ser uma boa desenhá-las. “De um certo modo, eram bem pitorescas as atrocidades que o cara cometia.

“Cão” é a primeira HQ longa produzida por Breno, que nasceu e foi criado no interior de São Paulo – primeiro em São José dos Campos, depois em Limeira. Desde 2012 ele atua como quadrinista, publicando tiras da websérie “Cabuloso “Cabuloso Suco Gástrico” – que também já saiu em livro pela editora Elefante – e atuando junto ao coletivo Miolo Frito.

Para escrever e desenhar a história de Dioguinho, o artista conta que desde as primeiras pesquisas ficou claro que tudo relacionado ao assassino é uma espécie de mistura entre a realidade e as lendas que foram criadas com seu nome. “Isso acontecia em quase todos os materiais que encontrei, e era o que mais me interessava. Tem a ver, acho, com essa questão de ser uma história antiga e com poucos documentos disponíveis, o boca a boca substituiu as escrituras. Ainda bem, porque a coisa toda ganha muito com essa dualidade entre ficção e realidade”.





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sexta-feira, 2 de junho de 2017

MEU QUERIDO RIO – Antonio Nunes de Souza

Meu querido rio! 


Como ele era tão caudaloso 
Hoje olho muito curioso 
Sua triste transformação. 
Transformou-se bem decadente 
Nem parece aquela linda vertente 
Orgulho de uma região! 


Enfeitava nossa amada Itabuna 
Como se fosse uma grande laguna 
Uma paisagem inesquecível. 
Hoje um filete imundo 
Nem um pouquinho profundo 
Que pior seria impossível! 


Pobre do meu rio Cachoeira 
Virou uma triste besteira 
Com baronesas, pacas e garças. 
Todos nós somos culpados 
Sempre fomos descuidados 
Transformando o mundo em desgraças! 


Antonio Nunes de Souza, escritor
Membro da Academia Grapiúna de Letras – AGRAL


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PRECISA-SE - Isaac Libermann

Precisa-se



De pessoas que tenham os pés na terra e a cabeça nas estrelas.

Capazes de sonhar, sem medo dos sonhos.

Tão idealistas que transformem seus sonhos em metas.

Pessoas tão práticas que sejam capazes de transformar suas metas em realidade.

Pessoas determinadas que nunca abram mão de construir seus destinos e arquitetar suas vidas.

Que não temam mudanças e saibam tirar proveito delas.

Que tornem seu trabalho objeto de prazer e uma porção substancial de realização pessoal.

Que percebam, na visão e na missão de suas vidas profissionais, de suas dedicações humanistas em prol da humanidade, um forte impulso para sua própria motivação.

Pessoas com dignidade, que se conduzam com coerência em seus discursos, seus atos, suas crenças e seus valores.


Precisa-se de pessoas que questionem, não pela simples contestação, mas pela necessidade íntima de só aplicar as melhores ideias.

Pessoas que mostrem sua face de parceiros legais. Sem se mostrarem superiores nem inferiores. Mas... Iguais.

Precisa-se de pessoas ávidas por aprender e que se orgulhem de absorver o novo.

Pessoas de coragem para abrir caminhos, enfrentar desafios, criar soluções, correr riscos calculados. Sem medo de errar.


Precisa-se de pessoas que construam suas equipes e se integrem nelas.

Que não tomem para si o poder, mas saibam compartilhá-lo.

Pessoas que não se empolguem com seu próprio brilho. Mas com o brilho do resultado alcançado em conjunto.

Precisa-se de pessoas que enxerguem as árvores. Mas também prestem atenção na magia das florestas.

Que tenham percepção do todo e da parte.

Seres humanos justos, que inspirem confiança e demonstrem confiança nos parceiros.

Estimulando-os, energizando-os, sem receio que lhe façam sombra, mas sim se orgulhando deles.


Precisa-se de pessoas que criem em torno de si um ambiente de entusiasmo

De liberdade, de responsabilidade, de determinação,

De respeito e de amizade.

Precisa-se de seres racionais. Tão racionais que compreendam que sua realização pessoal está atrelada à vazão de suas emoções.


É na emoção que encontramos a razão de viver.

Precisa-se de gente que saiba administrar coisas e liderar pessoas.

Precisa-se urgentemente de um novo ser.



Isaac Libermann


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HÁ PRECISAMENTE 80 ANOS - Por José Carlos Sepúlveda da Fonseca

Há precisamente 80 anos

2 de junho de 2017
José Carlos Sepúlveda da Fonseca

A confusão é a nota predominante na presente situação nacional, delicada e incerta.

Os desvãos corruptos e sujos do projeto de poder lulo-petista estão hoje escancarados diante da Nação.

Cifras bilionárias foram desviadas do erário público, em sofisticados esquemas, com a colaboração de empresários inescrupulosos, que viram seus negócios florescerem numa relação espúria e umbilical com o poder político.

Em nome da “defesa dos pobres”, essas somas irrigaram, aqui e no exterior, os mecanismos de imposição e consolidação do chamado “socialismo do século XXI”, além de terem comprado consciências e subvencionado oportunistas de todos os calibres.

Cumplicidades e complacências
Mas o lulo-petismo contou para seus intentos malignos com a complacência e até a cumplicidade de boa parte do mundo político(inclusive com elementos destacados da chamada “oposição”); não foram apenas parlamentares comprados, mas partidos inteiros “adquiridos”; parte substantiva da imprensa deu seu contributo também ao projeto de poder lulista; inúmeros eclesiásticos (por vezes na surdina) o inspiraram e sustentaram; e a manipulação inescrupulosa da propaganda conquistou muitos desavisados.

As instituições, inclusive a Justiça em seus mais altos órgãos, foram vilipendiadas; foi prostituída a representatividade do regime dito democrático; e a legítima prosperidade econômica, prejudicada.

Abalo sísmico salutar
Um sobressalto salutar, de dimensões imprevistas, levou às ruas de todo o País, por mais de uma vez, milhões de brasileiros. Em manifestações multitudinárias e pacíficas, eles pediam seu País de volta e proclamavam que sua bandeira jamais seria vermelha.

Esse lento mas convicto despertar causou um abalo sísmico e derrubou parte considerável do edifício político-institucional, com destaque para o lulo-petismo, inclusive com o impeachment. Mas a derrocada prossegue.

Nessa derrocada todas as forças parecem querer amparar-se e preocupam-se apenas com o “salve-se quem puder”.

Qual o rumo das presentes encenações?

No momento em que os acontecimentos parecem encaminhar o País para uma eleição indireta para um mandato presidencial tampão — mais um fator complicador da crise — os conchavos são públicos e desavergonhados: forças opostas se conluiam; nos tribunais superiores a aplicação das leis é anunciada à medida do freguês (do réu); os cálculos políticos parecem só visar o livramento dos malfeitores; os que mataram a democracia representativa, como Lula, são chamados por gurus, como FHC, para “salvar” a política; os diversos nomes que circulam para um novo governo parecem ter como única credencial ser inimigos da Lava-Jato; e os “movimentos sociais”, gozando de estranha impunidade, alimentados por clérigos de esquerda, milícias sindicais e políticos inescrupulosos, parecem estar dispostos a “incendiar o País”.

Com estas encenações, para que novos rumos pretendem levar o Brasil os atores da tragicomédia oficial?

E os espectadores? Estes parecem estar com um profundo asco diante de tudo o que se passa e se trama. Desconfiados, eles procuram meios de reagir a tanta incoerência.

Ontem, hoje e sempre

Nos dias que correm, alguns jactam-se de ter antevisto uma situação complexa com uma ou duas semanas de antecedência; outros, com um dois meses; e alguns outros, com um ou dois anos.

E o que dizer de um artigo escrito, há precisamente 80 anos, que parece descrever na sua essência a crise presente? (*)

Quem é capaz de discernir as sinuosidades da alma humana, dissecar as entranhas do jogo político, perscrutar os bastidores do mundo dirigente, este sabe guiar-se na confusão, ontem, hoje e sempre

Convido-os, pois, a ler um artigo publicado por Plinio Corrêa de Oliveira, no jornal “O Legionário”, precisamente em 30 de maio de 1937, sob o título “A solução Mariana”. Notar-se-á que seu texto parece uma descrição dos dias que correm. Ele encontra-se disponível no seguinte link:




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quinta-feira, 1 de junho de 2017

ADEUS, EDUARDO - Marco Lucchesi

Adeus, Eduardo


Não direi de minha amizade por Eduardo Portella. Não encontro forças, abalado pela sua partida. Direi apenas do crítico, do pensador, que vivo permanece, como um dos maiores poetas do ensaio em língua portuguesa.

Eduardo Portella poderia figurar nas páginas de Walter Benjamin como um anjo em meio às ruínas, levado pelos ventos da História, quando começa a reunir as partes de um todo disperso. Poderia flanar igualmente nos versos de Baudelaire no limes de uma cidade infinita, um Wanderer na espessura da superfície. Portella fez de sua condição peregrina uma autêntica forma mentis, congenial ao tempo que nos desafia, para lidar com a astúcia da incerteza, na genealogia do fragmento. Sua leitura passa de um regime vertical para um trâmite radial, como um saber que se move a contrapelo das formas transitivas. Não aceita horizonte prévio, como a euclidiana geometria de Kant, mas segue uma perene reinvenção dos sistemas, como queria Sloterdijk, cuja trilogia mais de uma vez discutimos, à sombra das estantes da Biblioteca Nacional, levando à cena o jogo da Parte e do Todo, dramatis personae do repertório ocidental.

Portella desistiu de escrever uma história de para exorcizar uma rima conceitual que considerou perigosa, de um todo totalitário, mais inclinado, muito embora, a um todo totalizável, no corte do fragmento, como Wittgenstein, para atingir uma história em. Portella optou por um percurso intensivo mais que extensivo, denso, rarefeito. A qualidade do pensamento não se mede por léguas de sesmaria ou latifúndio, sua métrica não se quantifica por testadas, mas de acordo com a potência qualitativa de expansão conceitual, no conteúdo crescente de Popper, ou na leitura de Heidegger sobre Hölderlin.

Eduardo Portella sente a demanda do sistema que elabora em horizonte fértil. Como quem parte de uma norma fractal. Como quem reclama a vastidão da parte sobre o todo, assim como da síntese sob suspeita, como desejo de futuro, sem veleidades sintáticas, alquimista que não se limita à busca da pedra, uma enciclopédia que indaga as malhas de um verbete inacabado, onde lateja uma sinergia multidirecional.

Nesse drama da parte com o todo, movem-se as máquinas do ensaio de Portella, que coincide com o círculo hermenêutico, sem um deus ex machina. Sob a estética do risco, o ensaio patrocina uma fratura, um elemento descontínuo. Portella não admite as tautologias, os determinismos sublimados e escondidos. Imerso nos desafios da “baixa modernidade”, Portella optou nos últimos anos pela dissonância, distanciando-se da síntese hegeliana, acolhendo a paralaxe de Žižek. Falamos do céu astronômico, de quanto meu corajoso telescópio captura nas noites de Itacoatiara.

A partir daí o sentido e a regra, a demanda e o percurso, o fluxo e a permanência operam, cada qual a seu modo, como instrumentos de abordagem do real. Portella segue um processo livre e vigoroso, ao mesmo tempo ficcionista e poeta, elemento-chave de sua obra esse hibridismo, como quem flutua, com Claudio Magris, sobre um Danúbio de conceitos convergentes da política e da poética, que se nutre de uma terceira margem. Portella é um nômade do pensamento sem endereço fixo para não se aprisionar dentro de uma província. É inquilino da complexidade de Morin e do pensamento fractal de Mandelbrot, contradança da parte com o todo.

Nos últimos anos, o baricentro de Eduardo Portella migrou da crítica para a metacrítica e a novos pontos de fuga. Suas páginas se tornaram espantosamente híbridas e abertas, como um hermeneuta da suspeita, de quem realiza uma biografia indireta, a partir de sua intensa noosfera. Uma memória futura, bem entendido, atravessada por um tempo que não fecha.

Jornal de Letras (Lisboa), 26/05/2017


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Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha.

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“CHEGA DE IGUALDADE! MULHER NÃO DÁ PARA SOLDADO!” – DIZ CAPITÃ DOS MARINES



“Chega disso! Nós não fomos criados todos iguais”

“Chega de igualdade! Mulher não dá para soldado!” – diz capitã dos Marines
 24 May 2017 


“Mulher nunca deveria ser soldado de infantaria”, escreveu a capitã dos Marines Katie Petrônio na revista “Marine Corps Gazette”, segundo informou a agência LifeSiteNews.

No artigo intitulado “Chega disso! Nós não fomos criados todos iguais”, a capitã defende que a anatomia feminina não é capaz de resistir às asperezas de uma longa carreira militar que envolve operações de infantaria.

Ela adverte que os Fuzileiros Navais (Marines) vão sofrer “um aumento colossal no número de mulheres incapacitadas e obrigadas a concluir sua carreira por causas médicas”.

Katie Petronio se baseia na experiência pessoal, adquirida em situação de combate. Esta acabou lhe causando sérios danos físicos, malgrado um promissor começo na elite da oficialidade da arma.

A capitã escreveu que “preenchia todas as condições” para ser uma mulher-soldado ideal quando começou a carreira.
“Eu era uma estrela no hóquei sobre gelo no Bowdoin College, pequena escola de elite em Maine, com um título em Direito e Administração”.

“Cinco anos depois, eu não sou a mulher que uma vez fui”

Ela também tirou resultados “de longe acima da média em todos os testes físicos de capacidade para mulheres”, embora não completasse todo o treino prévio.
“Cinco anos depois, eu não sou fisicamente a mulher que uma vez fui, e meus pontos de vista a respeito de a mulher ser bem sucedida numa carreira duradoura na infantaria mudaram muito”, escreveu Petronio.

“Eu posso dizer, com base na minha experiência pessoal direta no Iraque e no Afeganistão, e não é apenas uma impressão, que nós ainda não começamos a analisar e a compreender as questões específicas de saúde do gênero e os danos físicos nas mulheres por causa de contínuas operações de combate”.

Corpo da mulher não aguenta o esforço que homem pode fazer

Petronio “participou em numerosas operações de combate” que por vezes duravam semanas, sofrendo stress e falta de sono.

Suas pernas começaram a se atrofiar, perdeu a mobilidade, perdeu peso, parou de produzir estrógeno e desenvolveu uma síndrome no ovário que a deixou estéril.

Ela completou seu período com bons resultados, mas percebeu que lhe seria impossível aguentar o esforço que um homem é capaz de fazer e pediu para se retirar por motivos de saúde.

Petronio manifestou sua preocupação diante da pressão dos grupos que impulsionam a integração de mulheres no corpo de infantaria.
Dinamitando árvore, foto de Katie Petronio

“Quem está promovendo essa agenda? Eu pessoalmente não vejo Marines femininas, recrutas ou oficiais, batendo às portas do Congresso, queixando-se de que sua impotência para servir na infantaria viola o direito à igualdade” escreve ela.

Kate diz que essa pressão está sendo aplicada pelo “pequeno comitê de civis nomeado pelo Secretário de Defesa” denominado Comitê Consultivo em Defesa para as Mulheres em Serviço (Defense Advisory Committee on Women in the Service – DACOWITS).

Embora alguns deles tenham experiência militar, nenhum de seus membros “estão no serviço ativo ou têm qualquer tipo de experiência recente em combate ou em operações relevantes sobre as realidades que eles estão tentando modificar”, observou Petronio.


Luís Dufaur
Escritor, jornalista, conferencista de política internacional,
sócio do IPCO, webmaster de diversos blogs

NA ESCOLA - Francisco Benício dos Santos


Na escola


            Ao completar o meu quarto aniversário, morando com minha madrinha Olímpia, fui mandado à escola do professor João da Matta, em Cristina, onde nada aprendi, nem as letras do alfabeto.

            Passava o tempo todo na aula de boca aberta chupando o dedo, despreocupado e indiferente ao ABC, cuja carta, um suplício para mim, vivia amarrotada entre as minhas mãos sujas e suadas.

            Deixavam-me crescer os cabelos e sobre eles, davam um laço de fita adornando-os. Isto me valeu a alcunha de “Chico Muié”, com a qual eu ficava furioso.

            Um dia, estava na escola sentado no banco de lado da parede, de costas para a rua, com a boca aberta, como de costume, e com a terrível carta de ABC machucada entre os dedos das mãos suadas, quando uma mosca vadia e malandra, sem mais cerimônia, encontrando-a escancarada, embarafustou por ela adentro, e lá se foi ao estômago. Vomitei a valer.

            O professor mandou-me, por um dos colegas, à casa, onde recebi tremenda vaia, e me crismaram com um novo apelido: “boca aberta”.

            Prometi a mim mesmo corrigir-me. Nessa escola nada aprendi, e dela guardo breves recordações, apenas traços da minha passagem.

            Com a minha saída da escola do professor Matta, mandaram-me para o professor Juvenal José de Souza, onde já estavam os irmãos Pio e Manoel, como alunos internos.

            Nessa fase da minha vida, minha avó Justina tinha se mudado de Chapada e morava no caminho, no Engenho D’água, em casa feita para ela especialmente, por meu pai. Olímpia, porém, residia com minha família.

            Na escola do professor Juvenal  também fiz muito pouco progresso. Era péssimo estudante, e, quando recriminavam a minha moleza e falta de inteligência, Olímpia tomava a minha defesa dizendo:

            - Os sentenciados são os que Deus favorece.

            O futuro ia confirmar a profecia do refrão.

            Nessa escola, deu-se um fato que provocou reprovações: num dia de aulas, o professor exasperou-se com Pio, e batendo-lhe com a palmatória nas mãos, também o fez nas nádegas, dando lugar ao protesto imediato de Manoel, que se achava presente, e já era rapaz.

            Meu pai soube do ocorrido, ficou furioso e se não fosse a intervenção de pessoas amigas e prestigiosas, o casa teria degenerado em sério conflito.

            Saímos os três da escola e fomos para a de dona Amância Francisca da Paixão, Manoel, Pio e eu, porque era muito pequeno, fui para a escola de dona Adelina Freire de Melo.

            Ali passei dois anos sem fazer nenhum progresso, a professora, muito carola, passava a maioria do tempo em rezas e na igreja. Todos os dias,  ia com os alunos internos à missa da manhã.

            Frequentando missa, cheguei a aprender trechos inteiros do latim.

            Era vigário o meu padrinho, Antonio Marcelino de Souza Leal, velhinho muito simpático e limpo, acumulava funções de pároco e de delegado escolar, instrutor  das crianças da escola, que lhe tinham um respeito real.

            Era aluno interno desse colégio, quando se deu a revolução do coronel Valadão, que assumindo o governo de Sergipe, derrubou a facção política do padre  Olímpio de Campos, chefe supremo da política sergipana, que gozava, em Vila Cristina, de real e indiscutível prestígio.

            Meu pai era seu correligionário e, com ele, a maioria dos senhores de engenho, inclusive, o célebre caudilho “Guinô da Furada”, em cujos limites soldados não penetravam sem a sua prévia licença.

            O major Ernesto, pai do meu amigo Zacarias, era o chefe político de Itabaianinha, cabeça da comarca, da qual dependia Cristina.

            O Valadão, coronel do Exército, para lá mandou cem praças, a fim de, pelo terror, manter a sua própria política, e liquidar a do Padre Olímpio.

            O principal visado era o major Ernesto, chefe político e irmão do padre, que se viu na contingência de fugir à perseguição da tropa, exilando-se em Vila Cristina, sob a proteção de Guinô, seu amigo político e com real influência na política da Bahia.

            Data dessa época o meu conhecimento com o amigo Zacarias Freire, por se haver hospedado na casa do professor Adelino Freire, de quem a mãe de Zacarias era parente, o major Ernesto com toda a família.

            Serenados os ânimos, volta para Itabaianinha, deixando três filhos internos no colégio.

            Daí saí, coma volta da minha avó Justina e de Olímpia, para Cristina, onde retomaram a sua casa.

            Passei, como aluno externo, para a escola de dona Amância, de onde já se haviam retirado, prontos e aptos das primeiras letras, Pio e Manoel.

            Pio empregou-se em Alagoinhas, onde foi residir, e Manoel foi cursar as aulas do seminário em Salvador.

            As esperanças de meu a vô paterno, que o criara, cresceram, e, de novo queria ter o segundo padre na família.

            Neste colégio, afamado merecidamente, a professora dona Amância dedicava-se, de corpo e alma, à educação dos seus alunos. A fama já tinha transposto os limites do estado, tendo vindo da Bahia, inúmeros meninos ali cursar aulas.

            Fiz muito e rápido progresso nesse colégio, a ponto de ser considerado um dos melhores dos seus alunos.

            Todavia, de vez em quando, fazia má criação.

            De uma feita não sei por que fui castigado e preso, e, iludindo a vigilância, fugi.

            De outra, (o país estava autorizando os comerciantes a emitirem “ficha”, espécie de vale, moeda papel particular, nos valores de cem, duzentos, trezentos e quinhentos réis, as quais eram resgatadas, em moeda, a quem as apresentasse), achei no barracão da feira, uma delas de trezentos réis, emissão de Joaquim Amâncio, Monte Alegre. Foi uma alegria. Embrulhei-a num papel atado com linha, e escrevi, por fora do invólucro, o valor do conteúdo. Encerrei-a numa caixa de presente vazia, que também foi embrulhada com o mesmo cuidado e precaução, e, como se fosse um relógio, prendi-a numa corrente de barbante, amarrando-a na casa do botão do casaco, depositando-a no bolso de cima.

            Esses cuidados despertaram a atenção dos colegas de classe, avisados ainda pela notícia que lhes dera do meu tesouro (o dinheiro nosso era vinte e quarenta réis, no máximo). Trezentos réis equivale, hoje, a cinquenta contos.

            Os colegas ficaram lívidos e invejosos, era dinheiro demais e sorte imensa.

            Precisando ir fazer necessidades fisiológicas, tomei a “pedra-licença” e, com receio de perder o tesouro, ocultamente guardei-o no baú de flandres, onde trazia os livros escolares, e, por baixo deles, escondi,  com mil precauções, a caixa com os trezentos réis.

            De volta, com o coração a sair-me pela boca, fui desenterrar o tesouro.

            Oh! Céus! Lá não estava!

            Um suor frio percorreu-me o corpo, a vista escureceu-se-me.

            Ao recobrar os sentidos, lancei a vista e descobri o ladrão.

            Fui-lhe às goelas e, aos murros na luta em que me empenhava, caímos sobre o banco, fazendo um barulho enorme.

            A professora interveio escandalizada.

            Fomos chamados ao inquérito e o resultado foi que tomamos bolos e ambos ficamos presos. Eu, por que fui insubordinado, e ele por que foi gatuno.

            De outra vez, levei à escola os bolsos cheio de pipoca, e ao distribuí-la com a classe inteira, daí a pouco, só se ouvia o matraquear dos dentes no milho.

            Toda a classe foi castigada, e eu preso.

            Em dois anos de estágio neste magnífico colégio, verdadeira academia de bom proceder, aprendi o que sei, que nada é, e, ao término, a mestra disse ao meu pai:

            - O Chiquinho está prontinho para ingressar na vida prática, ou para ir cursar escola mais adiantada...


(MEMÓRIAS DE CHICO BENÍCIO)

Francisco Benício dos Santos

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