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domingo, 12 de novembro de 2017

A TELEVISÃO ME DEIXOU BURRO, MUITO BURRO DEMAIS!

10 abril 2011


Não, eu não vou escrever contra a televisão. Não é este meu propósito quando sentei aqui para redigir este texto.

Esta semana falou-se muito sobre terrorismo, sobre demências, psicopatas e principalmente sobre a violência. Quem toma sempre a frente para discutir assuntos dessa estirpe é a mídia. Não vou fazer uma apologia anti-mídia, pois seria hipócrita e desnecessário, mas queria expor alguns pontos que noto de incoerência e sensacionalismo.

Um garoto de 23 anos invade uma escola carioca armado com muita munição, dispara e mata onze crianças, deixa outras tantas feridas e depois de ser atingido por um disparo de um policial, ele supostamente se mata na escadaria da escola.

Pessoas se desesperam com a cena. É trágico, é triste e acima de tudo é novo! Não é comum neste país tropical abençoado por Deus, fatos como este. Isso é coisa de gringo, aqui a gente tem CPI de tudo quanto é coisa, aqui a gente tem dinheiro na cueca, morro que desaba, guerra civil do tráfico de drogas e armas (ainda voltamos a este assunto), contudo não estamos acostumados a noticiar transtornos sociais que resultam em assassinatos em massa.

Ouvi muita m.... essa semana, muitos entendidos de segurança pública, muitos mímicos do Freud, muitos alarmistas, enfim, todos precisam entender ou tentar explicar algo que por si só já é claro o suficiente. O garoto chegou ao limite dele e surtou, se está certo ou não como podemos saber? Os assassinatos são crimes, isso é fato, é o que a lei nos diz, os crimes devem ser julgados e sentenciados. Todavia tantos julgamentos já foram feitos, inclusive por pessoas públicas formadoras de opinião e muitos nomes já foram atribuídos ao jovem sem ao menos tentar entender todo o cenário deste drama com final trágico!

Naquela manhã eu confesso que estava tomando café e assistindo (a aspirante a Ophra do Brasil) Ana Maria Braga. Mais uma vez ela estava falando de Bullying para a dona de casa entender. Eu pensei: - Porra, essa m.... de novo, parece que ela quer é promover o bullying e não tentar entendê-lo e discutir sobre.

O pensamento mal acabou de ser formulado e já entra uma repórter desesperada salivando o acontecimento na escola. Ela estava com várias notícias desencontradas, no começo era o pai de um aluno que estava armado, depois disse ser traficante, depois um ex-namorado. Foi um tiroteio de informações e dali por diante se você quisesse ver televisão aberta nacional, estava condenado ao vômito de informações não depuradas, a jornalistas histéricos, a plantões segundo a segundo cheios de pleonasmos e redundâncias.

Eu fiquei mal com as primeiras reportagens, mas depois comecei a prestar atenção no desenho que se fazia ali. Eles estavam se alimentando do caso, não informando. Chegou ao cúmulo de uma tia da prima do vizinho de alguma das crianças vítimas do atentado, dar entrevista. E eu vou querer saber o que a tia da prima do vizinho tem a dizer? Fui saindo do estado de telespectador para estado de observadora do trabalho midiático.

Dois dias após o acontecimento, até o carteiro que passava na rua após o incidente era entrevistado:

- Ficou triste agora de entregar cartas, né? Você conhecia as crianças?

Deprimente!

Hoje domingo, vejo um programa desses que não tem formato definido e no meio de tudo que empurram goela abaixo do pobre telespectador, eles querem ser agente de notícias também. Ora, entre mulheres seminuas e provas com torta na cara, há sempre espaço para a seriedade do jornalismo, não é mesmo?!

A âncora (ou apresentador ou macaco de auditório, como preferir) dizia que se as crianças notassem comportamentos estranhos dos “coleguinhas” que deveriam denunciar, pois ele pode estar escondendo um transtorno psicológico ou algo do tipo. Eu assistia com a minha mãe que é uma vítima perfeita dessa mídia maldita e afetada e soltei um puta que pariu bem sonoro, ela se virou e me perguntou o porquê da blasfêmia, daí começou o interesse em escrever e desabafar minha angustia e minha tristeza para com essa fanfarra que fazem em cima das tragédias.

Eu não sou jornalista, alias tenho um respeito enorme pela profissão. Porém acredito que como profissional você TEM que ser imparcial, ou então seria um comentarista, um colunista, qualquer coisa que termine com “ista”, incluindo fascista!

Não vou defender o garoto que entrou atirando na escola. Não preciso defendê-lo, até porque ele já está morto e o pobre coitado corre o risco de ser enterrado como indigente. Muitas pessoas comemoram essa situação, o fato dele não ter ninguém para reconhecê-lo no IML e eu lamento isso percebendo aí o começo de todo o desastre, esse garoto é tão vítima do verdadeiro assassino quanto qualquer criança que tenha morrido através das balas de seu revolver.

As armas que ele tinha em mãos, ele não comprou no supermercado, ele não ganhou do papai-noel. Essas armas são oriundas do trafico e do contrabando, vendo esses apresentadores de TV, gritando aos quatro ventos que o moleque é assassino, covarde e o pior dos seres humanos, indago: será que este cidadão que é uma figura pública lembra-se disso quando acende seu baseado ou encara aquela carreira?

Pura demagogia maldita. No fundo todos sustentam o tráfico e o pior, nós que giramos a manivela que faz a maquina funcionar. Somos todos escravos das coisas que nos falam via televisão, internet e rádio, fora as mídias impressas. O garoto era um garoto qualquer, se ele sofreu abusos psicológicos e físicos, se era gay, se era verde, se roubava, cheirava ou amava, agora não faz mais diferença, pois não irá trazer nem ele e nem as crianças que ele matou de volta. Todos os dias crianças morrem, mas talvez porque sua TV não dê importância para elas, você também não dá.

O que é inaceitável é o estado critico que se forma com relação ao assassino e o perigo da generalização. Uma figura publica dizer que as crianças devem se atentar para comportamentos estranhos dos “coleguinhas” é aterrorizante. Não tem como classificar um comportamento estranho, o que seria este comportamento estranho? Com discursos imbecis só se licita mais a intolerância com o diferente, promove o preconceito (o que é normal para mim pode ser estranho para você) e faz com que andemos para trás.

A mídia vampiresca, esta que está aí, mais interessada em entreter dona de casa do que informar. Esta mídia que julga e joga um jovem como principal culpado de um atentado sem precedentes como este, essa mídia covarde que não assume a sua culpa dentro deste caos, ela sim deveria ser julgada e condenada...

Não quero soar como anti-mídia, mesmo soando, de fato mesmo sendo, não quero cair nessa armadilha que é se posicionar oficialmente contra algo que é elementar para a construção da comunicação social e com o risco claro e certo de ser chamada de hipócrita, este é um pequeno manifesto individual de alguém cansada de ser chamada de burra!
Tenho um compromisso comigo de ser a mudança que eu quero ver, interminavelmente caminhando para atingir uma comunicação plena, sem ruídos, de promover um telespectador mais critico, uma mídia mais responsável e não tão circense.

No momento sinto vergonha e decepção por tudo que leio e assisto, ao me deparar com esta avalanche de bobagem penso que não há espaço para verdade enquanto todos se esconderem da responsabilidade que é ter sua própria opinião, ter realmente uma própria opinião e não uma opinião própria alienada.

Muitas crianças ainda vão morrer se continuarmos focando no problema errado, se não for diagnosticado agora o estado psicológico que estamos vivendo, se não nos atentarmos para as coisas que escutamos e fizermos uma triagem de informações, seremos como gados conduzidos para o abate!

Parafraseando Howard Beale em Network de 1976:
"I am a HUMAN BEING, God damn it! My life has VALUE!"
 O valor da sua vida é você quem determina!

(Autor não mencionado)



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sexta-feira, 21 de julho de 2017

ESCLARECIMENTO AO MEU FILHO

Amado filho, 


Ontem, por ocasião da apresentação da novela das oito, você perguntou sobre o motivo da minha indignação quando eu vi a “idolatria midiática” aos bailes funks onde criminosos ostentavam fuzis cantando e pulando, estando rodeados por belas jovens no ritmo das melhores músicas e bebidas fartas. Você, com seus quatorze anos de idade, achou estranho eu não gostar daquelas cenas e tentarei explicar o porquê:

1) só quem pode usar fuzil são as forças de segurança do governo, que fazem algumas concessões às forças auxiliares. Fuzil é armamento de guerra;

2) O funk verdadeiro não pode ser associado à rodas de bandidos armados, pois é um estilo de música rico e com sua importância cultural;

3) aquelas lindas jovens exuberantes que ostentam joias e roupas da moda em corpos esculturais serão escravas dos traficantes que as presenteiam e, geralmente, não passam dos vinte anos de vida ou são presas antes disso;

4)
aqueles jovens imponentes e cheios de si empunhando fuzis não chegarão aos vinte anos de vida, na maioria, ou serão presos antes disso;

5) aquelas bebidas e músicas 'maneiras' são financiadas pela morte de inúmeros usuários de drogas ou vítimas da violência urbana que busca dinheiro para patrocinar aquele baile feliz que a novela mostrou;

6) a bela atriz principal no papel de esposa de bandido começou a ficar deslumbrada pelo “poder paralelo” que ostenta luxo e caras felizes. Contudo, quem associa-se ao tráfico não tem passe livre na sociedade, só no submundo;

7) milhares de pessoas morrem sem assistência médica porque o dinheiro que deveria ser alocado para a melhoria da saúde tem que ser redirecionado às forças policiais para combater aqueles bandidos felizes que a novela mostrou...

Por fim, eu poderia listar muitos outros motivos para que eu não tenha ficado contente com a apologia ao crime apresentada na TV, mas disfarçada de crítica social, porém já me basta apenas dizer-lhe no auge dos seus quatorze anos que jamais a ilicitude trará 'beneses' e que o caminho dos homens honrados dar-se-á sempre pela via dos estudos, da compaixão em comunidade e da Fé em Deus.

Filho, não se deixe enganar por essa máquina de alienação de massa, pois, no fundo, ela também financia aqueles bailes 'maneiros' e regados a gente bonita e a fuzis.

Seu Pai


Enviado do meu smartphone Samsung Galaxy.


(Autor não mencionado)

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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

ITABUNA VIVE IMERSA NUM ETERNO VELÓRIO – Braulino Santana

Itabuna vive imersa num eterno velório


          O cortejo dos desesperados, uma leva de gatos pingados e mulambentos, calçados de sandália de dedo de feira, arrasta-se conduzindo o defunto ladeira acima. Repousa no caixão, olhos cerrados e boca em agonia, mais um garoto de 16 anos, apunhalado a facadas na periferia de Itabuna. O velório, numa noite longa, é interrompido vez ou outra por um choro em desconforto. A sensação de abandono sufoca o ambiente, e flagra a ausência de qualquer autoridade pública – um delegado, o prefeito, um promotor, um vereador, nada nem ninguém que ouça aquela história e não a deixe esvair-se em vão.
          Aquela história termina em melancolia, como a de centenas de outras e codifica a falência completa de organização social mínima. É o décimo sexto rapaz assassinado, em menos de dois meses, na cidade que ostenta a macabra cifra de mais violenta da Bahia – a Nigéria do Boko Haram é aqui. Um dilúvio ou uma bola de fogo vinda de um céu com aquelas nuvens de fumaça enegrecida de campos de concentração resolveriam a inação da classe média da outrora ‘capital do cacau’: Itabuna precisa morrer de uma certa forma (na verdade, já está morta, pois lidera o macabro ranking no Brasil com o maior índice de assassinato de jovens em cidades com mais de 200 mil habitantes – a Bahia ocupa o posto de segundo estado no país nesse ranking) para que as suas cinzas modelem um novo começo, novas consciências – a frieza de conviver com índices de violência atormentadores e se fechar num silêncio cúmplice é atitude de gente-defunta. A violência se intensifica e se cronifica por incidir sobre as classes mais desassistidas e periféricas, entregues à própria sorte.
          A bola de fogo poderia começar abatendo certeira, rápida e lancinante as ideias ensinadas nos Departamentos de Direito e de Filosofia da UESC. Aliás, o governo do Estado deveria interditar a UESC – ou lacrar aquilo ali, emulando o fechamento da tampa do caixão de dezenas de jovens que morrem a faca, a bala, a marteladas. Como é possível uma cidade estampar números obscenos de violência e uma faculdade de Direito – lugar onde a noção de Justiça deve ser ensinada e aprendida – sair impune? Para que serve investir tanto dinheiro público em um ambiente narcisista e simbolicamente violento ele mesmo? Quando vociferam por aqueles corredores a demagógica manutenção do “estado de direito”, “estado de direito” é traduzido aqui como a manutenção dos privilégios da classe média calculista no poder ali.
          Se uma universidade não consegue apresentar estudos e alternativas de políticas que combatam aberrações como a violência, ela é defunta por si mesma, e já passou da hora de ser enterrada junto com o banho de sangue com o qual lava as mãos e as enxuga com seus currículos duvidosos. Desconfia-se, portanto, de que onde há violência ou miséria, isso é ensinado e aprendido por gerações, e desconfia-se de que a própria universidade eduque para a morte, já que ela não consegue ensinar a conviver pacificamente ou a estabelecer discussões políticas mínimas que combatam os problemas que suas comunidades pagam para ela ajudar a resolver.
          Sequências de ocupantes daquela reitoria (a atual reitora aparece vestida de vermelho na internet e maquiada na imprensa pedindo ao DNIT, socorro!, uma lombada em frente à UESC) disputam a gestão da universidade sem ser capaz de escrever uma linha sequer sobre os graves problemas da região. Não atuam como intelectuais. Estão ali para ostentar seus carros, maquiagens, perfumes caros, e não apresentam estratégias para refletir sobre o que quer que seja. A reitoria da UESC deveria promover a criação de um núcleo permanente de estudos e pesquisas sobre a violência na região. Estimular e obrigar sociólogos, pesquisadores do direito, pedagogos, economistas, filósofos, cientistas políticos a responder para a sociedade por que ganham salários públicos e se escondem em suas casas de praia, no conforto de suas vidas vazias, deixando a sociedade assolada por problemas sociais inadmissíveis, como a ausência de saneamento e a incidência de violência há décadas.
          Há décadas Itabuna vive imersa em esgotos (o canal do São Caetano e o do bairro Santo Antônio são dois exemplos horripilantes) como se fossem bocas com todos os dentes podres. Carnes são vendidas a poucos metros de fezes naquelas feiras livres – se as autoridades públicas abandonam as populações a comprar víveres ao lado de fezes, isso estimula e justifica a violência numa outra ponta, já que homens e mulheres vão devolver uns para os outros o que receberam. Os investimentos públicos que conseguem escapar da gatunagem do superfaturamento e da corrupção se concentram nos bairros do centro e da classe média. A reforma da Avenida do Cinquentenário – rua central – e o calçamento de bairros como o Jardim Vitória (onde mora boa parte da gente rica) é prova da valorização dos lugares dos endinheirados.
          No ano de 2834, quando essa história for contada como ela de fato ocorreu, Itabuna será lembrada como a cidade do esgoto e dos assassinatos abertos contra pretos pobres da periferia. E suas memórias serão reconstruídas a partir das histórias de diplomados funcionais em direito, economia, pedagogia e filosofia da UESC, reconhecida, então, como a universidade que promovia a morte ou, no mínimo, deixava a morte acontecer.



Braulino Pereira de Santana, doutor em Linguística pela UFBA 


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