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sexta-feira, 17 de março de 2017

LUZIA - Marília Benício dos Santos (Parte Final)

Luzia



... a conversa do vigário com seu pai deu em nada. Severino, o pai de Luzia, ficou furioso e disse para o vigário:

            - Me admira o senhor dar ouvido a uma maluqueira desta.

            - Severino, as coisas mudaram, não são mais com o nosso tempo.

            - Para mim, não. Enquanto for vivo ela não sai da minha casa.

            - Ela ia ficar trabalhando em casa de minha irmã. Ia ganhar mais do que aqui e ter um trabalho mais suave.

            - Ela tem que trabaiar é comigo no roçado.

            Depois deste dia, o relacionamento de Luzia com os pais ficou muito difícil. Não deixaram mais ela ir à vila. Começaram a pressioná-la para aceitar o Antonio como namorado. Luzia, para voltar a ter a liberdade que tinha antes, resolveu enfrentar o namoro. O Antonio era apaixonado por ela. Ela, porém, não lhe dava confiança. Apenas tinha um pouco de carinho por ele. Não desistiu da idéia de ir morar no Rio. Estava planejando sua fuga. Alice, uma companheira sua, ia voltar para lá por aqueles dias a fim de reassumir o emprego. Combinou de ir com ela. Acertaram tudo. Luzia tinha algum dinheiro e providenciou para comprar a passagem, deveria viajar na terça feira. Naquele sábado, depois de ajudar a mãe, chegou até a porta, olhou para o céu, olhou para o rio que passava em frente, viu as baronesas enfeitando as águas. As galinhas d’água passeando por cima daquele tapete lindo que mão nenhuma é capaz de bordar. Elas pulavam de folha em folha. Com muito cuidado para não machucar as flores que estavam desabrochando. Sentiu-se culpada. Foi até a beira do rio. Sentou-se em uma pedra. Chorou muito. Quase que se arrependeu. Mas foi apenas por alguns segundos. Saiu andando por dentro do rio. Parecia dar adeus e despedir-se daquela água tão gostosa. Criou-se na beira daquele rio, ora com um anzol tentando pescar alguma piaba, ora com o gererê a cata de camarão. Seu coração parecia partir-se ao meio. Realmente era assim que se encontrava naquele momento. Dividida. Uma parte dela ansiosa para partir. Sair para bem longe. Conhecer o Rio de Janeiro. Conhecer o Pão de Açúcar, os artistas do rádio. Namorar com os rapazes da Cidade Maravilhosa. Ganhar dinheiro. Outra parte dela estava presa àquela região. Seus irmãos, seus pais, principalmente sua mãe. Chorou mais uma vez.

            O céu tão bonito, tão azul! O sol tão forte com os raios dourados confundia-se com os seus cabelos, como se quisesse presenteá-la na sua despedida. Ela passou as mãos pelos cabelos e os sentiu muito quentes. Pensou: como estão quentes os meus cabelos! Vou molhá-los. Sentou-se em uma pedra, passou a mão molhada no rosto e depois nos cabelos. Voltou para casa mais tranquila. No caminho, encontrou Antonio que voltava do roçado. Ficou assustada ao vê-lo, parecia que ele estava adivinhando o seu pensamento.

            - Luzia, você por aqui?

            - Fui até a beira do rio. Tava muito quente.

            - É, Tá um calor danado. Hoje é lua cheia. Vamos dar um passeio hoje à noite? Vamos ver a lua dentro do rio? É uma beleza.

            - Tá certo. Passe lá em casa pro me pegar. Antonio estava ansioso. Luzia nunca tinha ido a um passeio à noite com ele. Sempre arranjava uma desculpa. Mas naquele momento, Luzia achou que devia compensá-lo. Era uma maneira de descarregar a sua culpa. Na hora combinada, lá estava Antonio, com a camisa mais nova. O cabelo encharcado de brilhantina, muito usada naquela época. Só que dado ao entusiasmo de parecer mais bonito, exagerou. Luzia também se fez bonita para agradar Antonio. Este quando a viu, exclamou:

           - Que boniteza! Como você está linda!

            - Vamos, senão fica tarde. O pai não quer que eu chegue tarde.

            Saíram abraçados. Luzia queria ao menos, naquela noite, fazê-lo feliz. Parece que conseguiu. Passearam ao longo do rio. A lua parecia ter sido encomendada. Com todo o seu encanto, derramava raios de luz sobre aqueles jovens. Tentava assim fazer um milagre. Um milagre de amor: encantar Antonio aos olhos de Luzia. Fazer dele o seu amado. Mas, coitada da lua! Não pôde realizar o milagre.

            - Não sei como tu pensou em deixar a nossa terrinha, disse Antonio, olhando com muito amor para sua amada, que não lhe correspondia.

            Luzia, pela primeira vez, se emocionou. Pôde constatar naquele momento, quanto ia maltratar o pobre coitado. Mas, nem assim, se arrependeu do que havia planejado. Ficou firme. Desmanchou-se em ternura. Sentados em uma pedra, próximo ao rio, ela colocou a cabeça dele no colo. Com muito carinho, passava as mãos pelos cabelos encharcados de brilhantina. Nem se preocupava de lambuzar as mãos. Trocaram beijos. Ela percebendo que as manifestações de carinho estavam aumentando, tratou de fugir.

            - Vamo nego, o pai deve está com o olho na estrada. Deixaram o rio. A lua, porém, os acompanhou, tentando mais uma vez abrandar o coração de Luzia. No meio da estrada, Antonio deu um abraço cheio de paixão que foi correspondido pela sua amada. Continuaram abraçados até em casa. Severino estava na porta esperando pelos noivos. Não ficou nada satisfeito. Não reclamou. Disse apenas para Luzia:

            - Entra pra dentro, menina, sua mãe e seus irmãos já estão dormindo. Boa noite, Antonio. Amanhã nós tá lhe esperando.

            - Inté manhã, seu Severino.

            - Inté amanhã, meu fio. Vá com Deus.

            Antonio foi para casa muito contente. Luzia, pelo menos, naquela noite, fizera-o feliz. Ela, no entanto, estava triste. Não conseguiu dormir. Estava muito ansiosa.

            Naquele domingo, Antonio foi almoçar em casa da noiva. Durante o almoço, marcaram o casamento. Deveria ser daí a dois meses. Antonio saiu da casa de Luzia muito contente. O pobre não podia avaliar o que lhe aguardava. Luzia foi dormir cedo. No outro dia, iria à cidade, já havia avisado ao Antonio. Desta vez, levou uma sacola cheia de roupa. Ficou o tempo necessário para tomar conhecimento de tudo sobre a viagem. Deveria ser daí a dois dias. Voltou o mais rápido possível. Na hora que Antonio chegou do campo, Luzia foi esperá-lo. Voltaram conversando e ela avisou-o que precisaria voltar à cidade. Ele concordou, pois confiava na noiva. Não podia imaginar nunca o que ela estava planejando. Na véspera, ela quase não dormiu. Mesmo assim levantou cedo. Antes de sair, fez o café e encheu os potes d’água. Sua mãe perguntou-lhe:

            - Pruquê este madrugueiro, menina?

            - Tenho que chegar bem cedo, vou voltar cedo.

            - É mesmo, fia. Faz bem, mode não aborrecer Antonio.

            Chegou rápido em casa de Alice. Antes da hora, as duas já estavam na parada do ônibus. Apesar de estar realizando um desejo muito antigo, ia com o coração despedaçado.. Chorou a viagem toda. Sua amiga reclamava:

            Não sei por que motivo você chora tanto.

            - Estou com pena da mãe. Fui muito má. Não sei como pode fazer tanta maldade. E o pobre do Antonio?

            - Agora não adianta mais. Vamos pra diante. Foi isto que fizeram. Seguiram em frente. Rumo à Cidade Maravilhosa. Chegaram às 12 horas. Nesta época, a Rodoviária era na praça Mauá. Luzia, nesta altura, já não chorava. Os olhos muito abertos assombrados, admirava aquele cinema ao vivo em sua frente.

            - Vamos, muié, pegue a sacola. Vamos pegar o ônibus.

            - Outro ônibus? ! Já tô cansada de tanto andar de ônibus.

             - Você quer ir de pé? É longe, disse Alice, rindo de sua amiga. Depois de Alice ter chegado a seu destino, tratou de levar sua amiga na casa onde Luzia ia trabalhar. Deixou-a aí, e foi cuidar da vida. Luzia, depois de ter conversado com sua patroa, entrou para o quarto onde deveria dormir. Enfrentou a realidade. Chorou. Sentiu saudades do quarto onde dormia. Pobrezinho, mas muito melhor do que aquele. Era bem maior. Tinha uma janela que vivia sempre aberta. Olhou para as paredes daquele pequeno cubículo, não tinha janela. Tinha um basculante que ela não conhecia. Subiu na cama para descobrir o que havia em frente. Deu com a parede cinzenta do prédio vizinho. Sentou-se na cama e chorou.

            - Meu Deus, que arrependimento! Se meu pai me perdoasse, voltaria para casa. O que vai ser de mim?

            Resolveu arrumar a roupa no pequeno armário do quarto. Ainda com a porta fechada, deitou-se e adormeceu. Acordou com a patroa chamando:

            - Você não quer tomar banho? Tome banho e depois coma alguma coisa. Deve estar muito cansada. Hoje não, precisa fazer nada. Amanhã a gente conversa. Temos tempo bastante.

           Luzia ficou animada. Tomou banho. Era a primeira vez que tomava banho de chuveiro. Mas não disse nada. A patroa mostrou-lhe como abrir a bica. Não quis comer. Deitou-se e dormiu profundamente.

            Enquanto isso, os seus pais depois de procurarem em todos os lugares, foram até a delegacia. Deram queixa. Queriam que o delegado providenciasse a volta de Luzia. Nada conseguiram, Luzia era maior de idade. Severino quis culpar o vigário. Saiu reclamando da Igreja:

            - Se o senhor não tivesse dado atenção, ela não tinha feito o que fez. É isto que dá muita leitura. Não pensei que minha fia fizesse uma coisa desta com nós. Nunca mais quero botar os óio nela.

            Quem mais sofreu foi o Antonio. Fazia pena vê-lo. Não falava com ninguém. Cabisbaixo. Fumando o seu cigarrinho de palha, olhava para o céu, como se este pudesse informar alguma coisa. Se fosse hoje, diríamos que estava deprimido. Naquela época, não se falava em depressão. E Antonio não tinha tempo para isto. Cedo, com a foice no ombro, seguia para o campo. Chorava às escondidas. Era feio um homem chorar. Nas noites de luar, ia sozinho para a beira do rio. Ali sentado onde tinha estado com Luzia algum tempo atrás, tendo como companhia a lua, curtia a sua dor. A lua também chorava com ele. Mas ele não via as lágrimas dela. Ela estava muito distante. Antonio, porém, compreendia que os seus sentimentos eram percebidos pela rainha da noite. Consolava-se ao pensar nisto. Não sabia fazer poesia. Mas dentro dele havia muita poesia. Naquele momento, olhava para a lua refletindo sua luz dentro da água. Lembrava-se da última noite, quando com Luzia admirava aquela mesma lua. Não havia ninguém ali, por isso pôde dar vazão aos seus sentimentos. Chorou muito. Chorou como uma criança. Como foi bom chorar. Sentiu-se leve. Voltou para casa bem melhor. Triste, mas confortado.

            O tempo passou. Antonio aos poucos foi superando o sofrimento. Casou-se, teve filhos. Tentava ser feliz e fazer sua companheira feliz. Mas sempre tinha a lembrança de Luzia presente em sua memória, e naquele dia esta lembrança estava mais viva.

            Luzia ao enfrentar a morte não teve medo. Não estava só. Um grupo de pessoas conhecidas veio visitá-la naquela madrugada: seu pai, seus avós e alguns amigos. Pôde perceber que estava partindo para bem longe dali.

            Nos momentos de lucidez, rezava muito. Lembrava daquilo que aprendera nas aulas de catecismo, em sua terra, quando menina. No seu encontro com a morte sentiu-se lúcida. Rezou. Apesar de ter perdido a voz e não pronunciar nenhuma palavra, em seu pensamento veio as palavras pronunciadas pelo Cristo na hora da morte. “Em vossas mãos entrego o meu espírito”.

            Deus, que é Pai e justo, recebeu realmente o seu espírito. Naquele momento, ela foi escolhida pelo Criador. Quando as suas vizinhas chegaram, há muito não estava ali, apenas o seu corpo deformado pela fome e sofrimento estava ali presente.

            Enquanto as pessoas discutiam e planejavam o que fazer, Luzia resolveu dar um passeio, rever as amigas. Foi até a sua terra. Todas com filhos já crescidos. Luzia sentou-se na pedra em que costumava ficar. Teve vontade de comunicar-se com elas, mas não foi possível. Pensou tanto que conseguiu transmitir a uma das amigas o seu desejo.

            - Gente parece que vi Luzia ali, sentada naquela pedra. Quem sabe não morreu! ? Luzia saiu dali e foi até a sua casa. Avistou sua mãe bastante envelhecida, cheia de netos. Ficou feliz em saber que ela estava bem. Depois resolveu procurar Antonio. Ele ia saindo para o roçado. Achou graça quando o viu com uma mulher e os filhos. Resolveu puxar-lhe os cabelos como costumava fazer.

           - Maria, você puxou meu cabelo?

           - Tá doido? Eu não. Tô tão longe de você.

            - Credo. Senti o cheiro de Luzia. Será que morreu? Resolveu voltar para o Rio. Ria e ria muito ao constatar a confusão que todos faziam em torno de sua morte. As suas amigas lamentavam:

            - Coitada! Morreu tão só! Como vamos enterrá-la? Josefa lembrou-se de avisar ao antigo vigário que, durante alguns anos, pagara sua luz, todas as vezes, que era cortada. Atualmente Luzia vivia no escuro. Nunca mais achou quem lhe pagasse a conta de luz.

            O padre assim que soube do ocorrido providenciou o enterro. Ali, junto ao corpo, celebrou a missa em sua memória. Na homilia foi muito feliz. Em sua mensagem disse:

            - Meus amigos tenho certeza que a nossa amiga descansa junto ao Pai. Aquela, que viveu durante 6 anos sem a luz dos homens está sendo iluminada pela luz divina. Peço-lhe, Luzia, que me perdoe e, aí junto a Deus, peça perdão também por mim. Pela minha omissão. Nunca mais a procurei. Não sabia o que era feito de você. Interceda junto ao Pai por todos nós. Que sejamos iluminados pela luz da fé. Que a luz elétrica não atrapalhe a luz interior. – “Vós sois a luz do mundo”, diz o Cristo. Esta luz da qual o Cristo fala é a luz interior, é a luz que está dentro de nós. Precisamos mantê-la acesa. Os homens não podem cortá-la. Não custa dinheiro.             Luzia, apesar da loucura, não deixou que ela se apagasse. Esta missa é por ação de graça. Ela não precisa mais de nossas orações. Peça, Luzia, que os homens que ainda não conseguiram ter esta luz acesa em seu interior, que a tenham agora. Que sejam iluminados. Só assim, poderão aliviar o sofrimento de nossos irmãos. Quantas ‘Luzias’ existem precisando de um pouco de conforto. Dê-lhes um pedaço de pão.

            Luzia, ironizando, disse: - Precisei morrer pra ser lembrada.

            Você ainda depois de morta foi lembrada, Luzia. Há aqueles que morrem como viveram, no anonimato.

            - “Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”.

            Mas, voltando à terra de Luzia. Sua visita, depois de morta, causou confusão. Pensando no que acontecera naquela manhã, Antonio foi até a casa de D. Antonia, mãe de Luzia.

            - Tarde, D. Antonia.

            - Tarde, meu fio. Vamos cume um feijãozinho?

            - Não, brigado. Maria tá me esperando. Vim té aqui porque aconteceu umas coisas esquisitas comigo.

            - Que foi, meu fio? Conte logo.

            - Quando ia pra o roçado, senti alguém puxá meu cabelo. Acho que era Luzia. Era como fazia pra me assustar. Penso que morreu e veio-me avisá.

            - Sabe que hoje de manhã, parecia que tava aqui em casa. As menina, no rio, também parecia que viram mia fia. Vieram té qui me contá. Agora vem você com esta conversa. Acho que morreu memo. Agora só vou vê mia fia depois que morrê.

            Ficou triste. Pensativa por alguns minutos. Depois olhou para o céu e disse:

            - Deus lhe dê o céu!

            - Amém! Respondeu Antonio.


(O CORAÇÃO NÃO ENVELHECE)
Marília Benício dos Santos

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Clique nos links abaixo e leia as partes I e II

Parte II:



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sexta-feira, 10 de março de 2017

LUZIA – Marília Benício dos Santos (Parte II)

Foto: arquivo ICAL
Luzia 

            João ficou decepcionado. Era demais para ele aceitar o ocorrido. Luzia desatou a chorar. Ele não se condoeu. Casar com uma moça que não era mais virgem, não aceitava em hipótese nenhuma. Depois de algum tempo disse:

            - Casá não. A gente pode morar junto. Depois nós casa.

            Luzia muito triste constatou que não tinha outra saída. Dois meses depois estavam morando juntos, num barraco na Praia do Pinto. Luzia tinha um sentimento de culpa muito grande. Pensava nos seus, principalmente em sua mãe. Passou a trabalhar como diarista. Toda a noite ia para casa. Esperava João sempre com muito carinho, uma comidinha caprichada. Tinha esperança de um dia vir a casar-se com ele. Nunca mais tinha tido notícias de sua terra. Chorava sem que João percebesse. Tinha medo que ele se aborrecesse. Há muito não tinha notícias de Alice, sua amiga, com quem viera de Maceió. Apesar dos pesares eram felizes. Quando construíram a Cruzada São Sebastião, eles conseguiram uma kitchinete. Luzia vibrou. Arrumou-a com muito carinho. Tinha esperança de que nesta ocasião saísse o casamento. Ela chegou a falar com João que lhe deu alguma esperança. Chegou até ir à igreja para falar com o padre. Ficou de voltar outro dia com João e os documentos. Mas este dia não chegou. João trabalhava numa construtora. Ganhava um salário que dava para viver. Um dia, houve um acidente na construtora. Despencou um andaime com João em cima. Ele e os companheiros feridos foram para o Hospital Miguel Couto. Mas João, por ser o mais atingido, fraturou o crânio. Precisou operar. Morreu na mesa de operação. Luzia foi avisada. Veio com uma vizinha. Quando chegou, ele estava sendo operado. Muito nervosa, esperava o resultado da operação. Quando o médico chegou ao corredor, ela muito aflita olhou para ele. Não perguntou nada. Não foi preciso. Ele logo lhe foi dizendo:

            - Infelizmente, minha senhora, aconteceu o pior.

            - Como, o que o doutor quer dizer?

            - Ele morreu minha filha. Foi melhor assim. Ia ficar sem condições para viver.

            Luzia caiu ali mesmo sem sentidos. Foi atendida pelo próprio médico. Luzia, amparada pelas amigas, acompanhou o corpo de João, depois de liberado, para o cemitério São João Batista, onde foi enterrado. A construtora pagou o enterro e deu uma indenização para Luzia, que, logo depois caiu numa depressão muito forte. As vizinhas fizeram de tudo para ela superar a crise. Não adiantou nada. Nem banho tomava. Levaram-na ao médico. Este não teve alternativa. Luzia foi internada. Naquela época, o tratamento era o eletro choque. Saiu rápido daquele estado. Depois de algum tempo, voltou para casa. Muito eufórica. As vizinhas ficaram admiradas de seu comportamento estranho. Era uma alegria forçada. Tinha aprendido com as companheiras do Hospital as músicas de carnaval. Amanhecia cantando muito alto. Resolveu tomar parte ativa no carnaval, entrando para um bloco da Cruzada. “Pintou e bordou”. Bebeu, sambou e namorou. Aquele não era o seu comportamento. Acabou o carnaval, acabou a euforia. Luzia caiu novamente em depressão. Tinha vergonha do que tinha feito... Dos porres que tinha tomado com os vizinhos. Os companheiros do carnaval procuravam-na, mas não eram recebidos. Não entendia nada. As vizinhas chamaram-na para levá-la ao médico. Não quis ir. Passados alguns dias, teve um acesso de loucura. Gritava e jogava os objetos pela janela. Foi levada à força ao hospital. Desta vez demorou mais. Luzia nunca mais teve saúde. Fazia pena vê-la em seu delírio. Ria sozinha. Chamava por João, outras vezes xingava o Armando. Contava sua estória e chorava muito. Pedia aos vizinhos para irem com ela comprar a passagem de volta para Alagoas. No dia seguinte, já não se lembrava daquilo que havia combinado. O tempo foi passando. A indenização acabando. Josefa, sua vizinha levou o caso ao conhecimento das assistentes sociais. Tentaram levá-la de volta para sua terra. Mas não conseguiram. Passaram a dar uma ajuda a Luzia. Com o tempo, esta ajuda também desapareceu. O vigário pagava a luz, pois já havia sido cortada diversas vezes.

            Luzia, antes de vir morar no Rio, morava no interior de Alagoas. Levava uma vida muito dura. Por ser a mais velha, a carga era maior. Além de ajudar a mãe nos trabalhos caseiros, trabalhava também no campo. Não gostava daquela vida. Como vivia com os ouvidos colados em seu radinho de pilha, estava sempre em dia com o que se passava no Rio. Era também muito bem informada pelas moças que trabalhavam lá. Vivia sonhando com a Cidade Maravilhosa. Um dia disse em casa: - Quando ficar moça vou trabalhar no Rio.

            - Que maluquice é esta menina, fia minha não sai das minhas vistas. Só quando casá. Aí, sim, passa para o domínio do marido.

            Luzia cresceu com esta ideia na cabeça. Com muita dificuldade aprendeu a ler. Distinguiu-se de suas companheiras. Era uma moça ambiciosa. Almejava uma vida diferente daquela que levava sua mãe. Não namorava os rapazes da roça. Procurava namorar os da vila. Não conseguia prendê-los. Via-os apenas aos domingos na hora da missa. Sempre era passada para trás por outra que morava na cidade. Insistia, porém, em seus objetivos. Dizia:

            - Só me caso com um homem da cidade, ou então, vou para o Rio.

            Sua mãe ansiosa, pois via o tempo passar e Luzia não se decidir, dizia: Você escolhe, escolhe, termina ficando no barricão.

            Luzia pouco ligava para o que a sua mãe pensava. Sabia que era bonita. Ouvia muitos galanteios da rapaziada. O seu companheiro inseparável, o rádio a estimulava a uma vida diferente. – Vou morar no Rio. Vou falar com o vigário para me ajudar. Um domingo, depois da missa falou com o padre. Pediu que ele falasse com o seu pai.

           - Pois não, minha filha. Na próxima semana vou lá e falo com ele. Minha irmã escreveu-me, pedindo que arranjasse uma moça de confiança para fazer-lhe companhia. Luzia voltou para casa muito contente. Mas, infelizmente, sua alegria durou pouco...

(aguarde a parte final...)


(O CORAÇÃO NÃO ENVELHECE)
Marília Benício dos Santos

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quinta-feira, 2 de março de 2017

LUZIA – Marília Benício dos Santos (Parte I)

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Luzia


      Luzia raramente abria a porta. Vivia sempre trancada. Os vizinhos, quando queriam falar-lhe ou levar comida, batiam ou chamavam-na pelo nome. Muitas vezes ela respondia com agressividade.

      - Luzia, abra a porta! Sou eu, Josefa. Venho trazer o almoço. Luzia, porém, parecia não ouvir as pancadas que, insistentemente, sua vizinha dava em sua porta, chamando-a.
       
      Os moradores daquele andar, curiosos, chegaram até Josefa para saber do que se tratava.

      - Será que Luzia saiu? Já faz tempo que bato. Não é possível que esteja aí dentro.

      - Vamos chamar D. Sebastiana. Talvez ela informe alguma coisa.

      D. Sebastiana veio solícita e informou que Luzia não havia saído.

      - Ela raramente sai. Vou arrombar a porta. Talvez ela tenha tido um ataque. Por isso não pode atender.

      Com muita habilidade, D. Sebastiana arrombou a porta. Que surpresa desagradável. Num canto do quarto, junto à cama,  estava o corpo da pobre Luzia. Sem vida. Com rigidez Cadavérica, parecia rir para as pessoas que apavoradas a fitavam.

      Coitadinha! Diziam os vizinhos. – Morreu sozinha. Como se nós todos não morrêssemos sozinhos. A morte vem sempre de surpresa. É uma realidade que temos de enfrentar. Pode até ser que estejamos cercados de muita gente. Mas na hora H, é apenas cada um de per si que vai encará-la. Quando? Não sabemos. Somente o Criador sabe.

      - Chame a polícia. Ninguém toque no corpo, disse D. Sebastiana.

      Imediatamente o local se encheu de gente. A polícia não demorou. Perto havia um posto policial. O corpo foi para o necrotério.

      - A família precisa ser avisada. Disse um dos policiais. Mas ninguém sabia informar nada sobre a família de Luzia. Sabia-se que ela era de  Alagoas e que morava aqui há 30 anos. Conheceram também o seu companheiro José e podiam testemunhar o quanto eram felizes.

        Quando Luzia conheceu José estava sofrendo muito. Tinha passado por uma grande decepção com Armando, o seu namorado, que conhecera assim que chegara ao Rio. Pensava que era correspondida no grande amor que dedicava ao Armando. Mas, infelizmente, não era esta a realidade. Juras de amor e beijos apaixonados faziam a jovem recém-chegada muito feliz. Uma noite, o seu querido ofereceu-lhe uma aliança. Luzia vibrou de alegria. Sentiu-se a moça mais feliz do mundo. Armando aproveitando-se deste clima de euforia, depois de troca de beijos apaixonados, propôs-lhe:

      - Vamos passar a noite juntos?

      - Não. Só depois de casados. Depois de abençoados.

      - Que é isso, querida? Você não confia em mim?

      A coitada da Luzia foi  na onda. Dormiram juntos. Aos poucos foi desaparecendo até que deu no pé. Luzia caiu num desespero enorme. Chorava muito. Sua patroa, tentando ajudá-la, insistia para que ele desabafasse.

      - Conte para mim. Sei que está sofrendo. Seu namorado não tem aparecido. O que houve? Vocês terminaram? Luzia, depois de muito choro, desabafou. Contou tudo para Vilma. Esta com muita pena procurou apoiá-la.

      - D. Vilma, agora não posso mais casar de véu e grinalda.

      - Não pense nisto. Guarde segredo. Peça a Deus que não esteja grávida.

      - Estou tão triste! Se pudesse desaparecia. Imagine se minha mãe sabe de uma desgraça desta.

      - Agora precisa ser mais cuidadosa. Outro namorado que tiver, não conte para ele.

      - Vou casar enganando ele?

      - Não. Tudo tem o seu tempo certo. Não precisa ter pressa.

      - Não quero mais saber de homem. Acho que Deus me castigou pelo que fiz com o pobre do Antonio.

      Depois do ocorrido, Vilma passou a tratar Luzia com muito carinho. Saía com os filhos para passear de carro e Luzia os acompanhava. Sérgio, o marido de Vilma, com muita pena, dava-lhe muito apoio. Presenteava-a com frequência. Por sua vez, Luzia procurava corresponder ao carinho que lhe era dispensado, desdobrando-se em seu serviço. Cuidava das crianças. Lavava e passava toda a roupa da casa. Aquela família não possuía máquina de lavar. Assim com o seu trabalho e o tratamento que lhe era dispensado, sua dor tornou-se mais amena.

      Uma noite, Luzia foi surpreendida com a presença de Sérgio em seu quarto. Admirada, sentou-se rápido na cama e perguntou-lhe:

      - Dr. Sérgio, aqui!? Está precisando de alguma coisa?

      - Sim, Luzia. Preciso de seu amor.

      Ao dizer isto, foi se aproximando dela, que muito assustada foi-se levantando e gritando: - pelo amor de Deus, não de aproxime de mim.

      - Não grite para não acordar Vilma e as crianças.

      Ela o empurrou e começou a gritar alucinadamente. Ele apavorado saiu do quarto. Encontrou-se com Vilma que tinha acordado e vinha ver o que tinha acontecido. Ele, descaradamente, disse: - Luzia teve um pesadelo. Eu também vim ver o que se passava.

       Vilma foi até o quarto da empregada, encontrou-a chorando muito. Estava trêmula.

      - Que pesadelo foi este, minha filha?

      - Sonhei que minha mãe tinha morrido.

      - Vá dormir. Vou dar-lhe um calmante.

       Deu o calmante e foi dormir ao lado do marido, que, em baixo do cobertor, fingia dormir. No quarto dos fundos, a pobre Luzia continuava chorando sem conseguir dormir. Pensava como resolver mais este problema. A solução não podia ser outra. Partiu para outro emprego. Foi trabalhar no Leblon. Vilma nunca entendeu a atitude da sua empregada. Principalmente, porque ela chorava muito ao despedir-se.

        O tempo passou. Luzia sofrendo muito pensava em voltar para casa. Mas não sabia como ia ser recebida pelos pais. Nunca mais tinha tido notícias da companheira Alice, com quem viera para o Rio. Muito bonita cheia de admiradores, não namorava. Tinha muito poucas amigas. O faxineiro do prédio vinha insistindo para namorá-la . Depois de algum tempo cedeu e iniciaram o namoro. Luzia começou a ter dias melhores. Passeavam muito. Ele era de Pernambuco. Parecia querer algo sério. Um dia, propôs-lhe casamento. Ela, então, sentiu-se na obrigação de confessar o seu pecado.

  
(aguarde a segunda parte...)


(O CORAÇÃO NÃO ENVELHECE)

Marília Benício dos Santos

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