Total de visualizações de página

Mostrando postagens com marcador artigo. Gregorio Vivanco Lopes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador artigo. Gregorio Vivanco Lopes. Mostrar todas as postagens

sábado, 8 de abril de 2017

A PROPÓSITO DO VELHO DEITADO Por Gregorio Vivanco Lopes

Gaetano Chierici (1838-1920) – Amor de mãe


O fato se passou na sala de espera de um consultório médico. Várias pessoas aguardavam sua vez de serem atendidas, entre elas eu.

Chamou-me a atenção uma senhora, ainda jovem, com seu filhinho. Ela se portava com muita dignidade e distinção.
Vestido caindo abaixo dos joelhos, bem composta, olhar recatado. O menino estava nessa fase da existência em que se descobre a alegria de viver, de falar, de andar. Serelepe, ele corria de um lado para outro dentro da sala, mas sempre voltando a um ponto fixo, a mãe.

Ela o vigiava com o olhar, parecia comprazida com a movimentação do pimpolho, mas não lhe dizia nada. Em certo momento, porém, ele começou a mexer no abajur da sala. Temerosa talvez de que ele provocasse um pequeno desastre, o que não era de se excluir, ela o chamou.

— Luizinho, vem cá. Meu filho, não mexa no abajur. Diz um velho ditado que um menino prevenido vale por dois. É arriscado o abajur cair e o médico ficará zangado com você.

— Sim senhora, mamãe, disse ele, continuando suas andanças pela sala, sem mexer mais no abajur.

Em certo momento, voltando para onde estava sua mãe e pondo as pequenas mãos sobre os joelhos dela, perguntou, numa atitude inocente de intimidade e confiança:
— Mamãe, o que é mesmo que disse o velho deitado?

Todos na sala esboçaram um sorriso. Menos a mãe, que com toda a seriedade respondeu.

— Não, meu filho, não é o velho deitado, é um velho ditado.

— E qual a diferença, mamãe?


Eva Soares (1964-2010) – Pintura acrílica

Foi aí que, junto com todos os presentes, pude apreciar uma cena delicada e admirável a uma só vez. A senhora se inclinou ligeiramente para o menino e, acariciando-o, explicou-lhe detalhadamente, em linguagem acessível àquela mente infantil, com numerosas imagens e comparações, a diferença existente entre um velho deitado e um velho ditado.

Entretanto não eram apenas as palavras. Enquanto falava, ela fazia sentir ao menino tanto afeto, tanta proteção, tanto carinho, tanto esmero no que dizia, sem dar a entender em nada o quanto sua pergunta era cômica e até extravagante, que o garoto olhava para ela encantado e embevecido. Ao mesmo tempo, ela falava com autoridade, seu tom de voz era o de quem ensina e quer ser compreendida, mas sem qualquer aspereza nem acidez.

O menino sentia bem, embora de modo incipiente, tanto quanto a uma criança é dado sentir, que se andasse no bom caminho, teria sempre a seu lado a proteção materna a ampará-lo nas dificuldades e agruras da vida. Sentia também, por contraste, que caso viesse a rolar por descaminhos, causaria uma dor incomensurável à sua mãe e não teria seu apoio nem seu beneplácito.

Na sala, o silêncio se fez. Ninguém sequer se mexia. Todos estavam emocionados diante daquela cena tão singela, mas que tocava ao sublime.

Lembrei-me então de outra senhora que tive a dita de conhecer – eu ainda jovem, e ela já na extrema velhice. Era a mãe do Dr. Plinio Corrêa de Oliveira, a tradicional dama paulista Da. Lucilia Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira.
Era aquela bondade, aquela afabilidade, aquela firmeza de princípios morais e religiosos, transmitidos com inabalável certeza e incomparável suavidade!

Chegara a vez de o menino ser atendido no consultório. Sua mãe o tomou com delicadeza pela mão — “Vamos meu filho” — e passou pela porta divisória. Pensei: “Qual! Esta senhora só pode ser católica!” Só o espírito católico é capaz de, com tanta certeza e determinação, transmitir uma seriedade tão afável, de modo tão aprazível e com tanta ternura. Lembrei-me da Virgem Maria e do Menino Jesus.





Gregorio Vivanco Lopes
Advogado, formado na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Autor dos livros "Pastoral da Terra e MST incendeiam o Brasil" e, em colaboração, "A Pretexto do Combate Á Globalização Renasce a Luta de Classes".

Links Sociais


* * *

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

DA PREGUIÇA MENTAL À LOUCURA- Gregorio Vivanco Lopes



Da preguiça mental à loucura 

  

   Existem dois tipos de loucos. Um é o pobre coitado que, por uma deformidade cerebral, congênita ou adquirida, ou mesmo pela idade avançada, perde a capacidade de se autogovernar. Merece ele nossa compaixão e ajuda em toda medida do possível.
             Mas há outro tipo de louco, este culposo. É aquele que, sem padecer de nenhuma anomalia cerebral, viciou-se em agir de modo contrário à razão e ao bom senso. Peca contra a sabedoria, em geral porque se entregou a alguma paixão desvairada que o tiraniza e lhe impede o reto agir e pensar.
           As subespécies deste tipo de loucura são infindas. Exemplifiquemos.
           Logo se poderá pensar na paixão da sensualidade, com sua variante romântica, que cega o indivíduo e o faz transgredir todas as normas da prudência e do bom senso, e por vezes também da justiça, podendo facilmente chegar até o crime. Tudo para satisfazer um impulso irracional que o escraviza e arrasta. É um louco.
          Mas a sensualidade é apenas uma das paixões que enlouquecem o homem. Poderíamos falar da ambição, do orgulho, da inveja etc.
            Pode parecer surpreendente, mas talvez a preguiça, sobretudo a mental, seja a paixão mais frequente em produzir mentecaptos. Habituando-se a não fazer esforço, a não querer enfrentar o ambiente hostil que o rodeia, a nunca lutar — “dá trabalho”… “dá preocupação”… “exige empenho”… “não é comigo”… — a pessoa acaba ficando meio abobada e se deixa levar pela televisão, pela moda, pela opinião dos outros, como uma folha seca que o vento carrega para qualquer lado e acaba por ser pisada como inútil e desprezível. É um néscio, um idiota, um imbecil com o qual não se pode contar para nada de sério ou racional.
            A preguiça mental costuma exercer forte tirania em relação aos seus escravos, a ponto de estes preferirem qualquer coisa a terem que lutar ou fazer algum esforço.   Disseram-me que o colesterol é produzido por gorduras que aderem às faces internas das veias e impedem o sangue de circular normalmente. A imagem me é muito cômoda para exprimir esse “engorduramento” das veias do pensamento, que impede a irrigação do cérebro pelo sangue vivo e borbulhante da reflexão bem feita, da observação precisa, da análise objetiva da realidade. E, tudo isso, porque pensar pode levar a conclusões desagradáveis, pode ser um convite à luta, ao esforço, em suma, obriga a sair de entre os lençóis mentalmente “engordurados” da preguiça para o campo de batalha. Se as evidências furam os olhos, o melhor é fechá-los para não ver e não ter que sair das prazerosas comodidades interiores da moleza.
          Esse gosto mórbido da inação mental explica que tenha sido possível aos arautos da esquerda ir introduzindo no convívio social das nações, sem oposição proporcionada, as maiores aberrações intelectuais, como a Ideologia de     Gênero, a generalização da matança de inocentes no ventre materno, os horrores da arte moderna; e, na Igreja, a contestação de doutrinas evidentes, a demolição de cerimônias ancestrais belíssimas, de costumes tocantes. São máquinas de opinião pública que vêm despejando sobre as pessoas esses e outros horrores, como certos tubos enormes despejam asfalto numa via de terra para se constituir ali uma estrada, enquanto o “louco” olha para isso com olhar desagradado, mas aparvalhado.
            Alguém dirá: mas muitas pessoas não estiveram de acordo com essas novidades malsãs!
         
         O problema é exatamente esse! A grande maioria dos que não estavam de acordo não quis lutar, limitou-se a um choramingo, a exprimir um desagrado. Preferia que não houvesse essas mudanças, mas deixar suas comodidades interiores para entrar no campo de batalha ideológico, muitas vezes psicológico, isso não! Ante tal omissão, as muralhas da civilização cristã foram sendo derrubadas uma a uma, sem que os habitantes da cidade de Deus se levantassem em denodadamente para impedir a entrada dos inimigos. Hoje estes dominam.
             Tudo isso é verdade, pode-se ponderar, mas agora já é tarde, o mundo está entregue e muitos pastores se transformaram em lobos. O que fazer?
            Nossa Senhora prometeu em Fátima que ao final de todo esse processo de horror e de pecado o seu Coração Imaculado triunfaria. Comecemos nós a rezar e a lutar para que, quando esse triunfo se der, ele encontre almas prontas a recebê-lo e a entusiasmar-se com ele. E não almas modorrentas que só servem como palha para o fogo.

      Triunfarão com a Santíssima Virgem aqueles que agora, in extremis, se levantarem e lutarem por Ela. Surrexerunt fili ejus, et beatissimam praedicaverunt (Prov 31,28) — Seus filhos se levantaram e A proclamaram bem-aventurada.

                      Gregorio Vivanco Lopes é advogado e colaborador da ABIM





Fonte: Agência Boa Imprensa – (ABIM)

* * *