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domingo, 17 de maio de 2020

PALAVRA DA SALVAÇÃO (183)

6º Domingo da Páscoa – 17/05/2020

Anúncio do Evangelho (Jo 14,15-21)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Se me amais, guardareis os meus mandamentos, e eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor, para que permaneça sempre convosco: o Espírito da Verdade, que o mundo não é capaz de receber, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós e estará dentro de vós. Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós. Pouco tempo ainda, e o mundo não mais me verá, mas vós me vereis, porque eu vivo e vós vivereis. Naquele dia sabereis que eu estou no meu Pai e vós em mim e eu em vós. Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama. Ora, quem me ama, será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.


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Ligue o vídeo abaixo a acompanha a reflexão do Padre Roger Araújo:

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A arte de cinzelar palavras de vida através da conversa

  
“O Espírito da Verdade..., vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós e está em vós” (15,17)

O Evangelho deste domingo faz parte de uma longa conversa de Jesus com os seus amigos, durante a Última Ceia, e que João recolhe nos capítulos 13 a 17.

Era uma conversa amiga, que ficou na memória do discípulo amado. Jesus, assim parece, queria prolongar ao máximo esse último encontro, momento de muita intimidade. Para João, a conversa de Jesus tem uma conotação de profundidade e trato, de certa familiaridade e ternura.

Nesta interação Jesus-discípulos, tanto os conteúdos expressos como os aspectos relacionais ganham uma grande importância: as palavras, os gestos, o olhar, a maneira de falar, o tom da voz, os silêncios, o contexto onde acontece a conversação...; tudo isso forma parte da diversidade e riqueza da revelação de Jesus aos seus mais íntimos. Jesus extrai palavras significativas, previamente cinzeladas e incorporadas no seu interior, onde elas revelam dinamismo, sentido e alteridade; sua conversa brota de uma vida interior fecunda e conduz a uma vida comprometida. Trata-se de um verdadeiro “testamento espiritual” 

conversação constitui, portanto, o núcleo diferencial de qualidade de trato próximo e fraterno daqueles(as) que, além de viverem juntos, compartilham a vida com um projeto comum.

No entanto, há conversa e conversa. Há conversa superficial que gasta palavras à toa e revela o vazio das pessoas. E há conversa que toca fundo no coração e fica na memória. Todos nós, de vez em quando, temos esses momentos de convivência amiga, que dilatam o coração e vão ser força na hora das dificuldades. Ajudam a ter confiança e a vencer o medo.

Conversar constitui uma das experiências humanas mais antigas e configuradoras de nosso ser. Ela não se reduz a um mero intercâmbio de palavras; é um processo essencialmente ativo, inerente à nossa natureza relacional, cuja finalidade última é viver a experiência do encontro.

Conversar é uma das aprendizagens vitais que não tem data de vencimento.

A arte da conversação é um caminho pedagógico, um processo gradual que requer uma capacidade de escuta, de acolher e deixar-se afetar pelo que o outro é, não só pelo que diz; uma capacidade de olhar com profundidade para reconhecer uma história santa, um caminho de salvação. É reconhecer no outro o que há de verdadeiro, bom e belo e descobrir como o dinamismo de Deus atua no coração dele. É ajudá-lo a descobrir, na trama de sua vida, as motivações profundas que o levam a ser e a agir de uma maneira muito pessoal.

conversação é uma experiência profundamente humana de proximidade, de conhecimento, de inter-câmbio, de ternura..., um encontro entre pessoas que vão compartilhando histórias de vida, esperanças e frustrações, vontade de construir e sonhar... Na conversação, o que importa é a pessoa do outro e não os problemas que apresenta...; ela é o lugar privilegiado de encontro e descoberta misteriosa do Outro (Deus).

“Conversar” e “converter”, etimologicamente, vem da mesma raiz. Em seu sentido mais radical e profundo “conversar” é “converter-se” ao mistério do outro, é converter-se à alteridade. A conversação reforça os laços, criando a comunidade de “amigos no Senhor”.

Sair dos corredores do próprio claustro interior e de seus mecanismos de defesa para converter-se em um servidor do outro, com a mediação mais humana, mais sutil, mais imediata e universal, mais iluminadora e mais reveladora da própria maturidade: a palavra.

Mesmo “isolados socialmente” devido à pandemia, a conversação nos liberta da solidão e do fechamento, fazendo-nos crescer na transparência. As inúmeras possibilidades de conversar são encontros que nos reconciliam com a vida, nos movem a crescer e a sair de nosso isolamento. Ela nos permite sentir que formamos parte da vida de outros e nos ajuda a levantar-nos quando as perdas, os fracassos, as enfermidades... tornam difícil nosso caminhar.

Para chegar a conversações mais profundas e íntimas precisamos percorrer o caminho que se inicia no cotidiano e no aparentemente superficial. Encontrar-nos com os outros é uma experiência que requer seu tempo, seu espaço, seu ritmo. Nossa natureza relacional continuamente nos oferece oportunidades para conversar; depende de nós fazê-las banais ou convertê-las em experiência de vida. 

Segundo Jesus, o protagonista principal da conversação é o Espírito, que gera em nosso interior palavras de vida e criatividade. Numa conversação profunda deixamos transparecer nossa verdadeira identidade, nossa verdade original. Mas é o Espírito, que nos habita, Aquele que cava em nós palavras de vida.

Quando Ele encontra liberdade para atuar em nós, faz brotar das entranhas das palavras sua riqueza escondida. Por isso, Ele é o “Espírito da Verdade”: não a verdade racional, dogmática, doutrinária...

Refere-se à “verdade profunda” que nos diz que fomos criados para uma Vida plena e para contribuir a que cada ser humano participe de tal Vida. Ele é a “verdade íntima” que nos diz que, no mais profundo de nós mesmos, não só pulsa um coração, mas também um Deus que inspira em todos nós uma maneira original de ser mais humano. Ele é a “verdade autêntica”: somos filhos(as), irmãos(ãs) e somos chamados(as) a viver como tais.

Mais ainda: o “Espírito da verdade” nos convida a viver na “verdade” de Jesus em meio a uma sociedade onde a mentira é considerada estratégia, a manipulação é vista como bom negócio, a irresponsabilidade é confundida com a tolerância, a injustiça é identificada com a ordem estabelecida, a arbitrariedade é propagada como ato de liberdade, a falta de respeito e a violência verbal como expressões de sinceridade...

Para além das imagens e símbolos, é decisivo re-descobrir a presença do Espírito de Deus que, dentro de cada um de nós, provoca movimentos, ativa as brasas escondidas no coração, nos faz fortes, alegres, valentes, apaixonados(as), audazes e sábios(as). Devemos acolhê-lo com coração simples e confiado, abrindo espaço para que Ele atue com liberdade, inspirando-nos e fazendo-nos mais criativos. É Ele que dá sabor e sentido à nossa existência e nos enraíza no modo de ser e de viver de Jesus.

Conduzidos(as) pelo Espírito de Jesus, mergulhamos em nosso mundo com os olhos abertos, com os ouvidos atentos, com o coração sensível para ter acesso à verdade profunda de toda a realidade. Tudo é perpassado por essa presença alentadora, que “faz novas todas as coisas”.

Este Espírito de Vida subsiste em tudo e em todos, embora muitas vezes nos tornamos traidores(as)  do Seu sopro com nossos exclusivismos, condenações e rejeição do pluralismo fomentado pelo mesmo Espírito.
Nenhuma espiritualidade e nenhuma igreja tem o monopólio do Espírito de Cristo, que sopra onde quer, como e quando quer, sem que o controlemos; para o Sopro, não há barreiras e nem fronteiras.
Todos e todas estamos em caminho, envolvidos no dinamismo contínuo desse Espírito Pascal.

Texto bíblico:  Jo 14,15-21 
Na oração: Pela conversa a pessoa manifesta quem ela é.  “Onde está   sua conversa, aí está seu coração”.
Quais são suas conversas? Elas animam os outros, eleva-os, “aquecem seus corações?...
Aguce seus sentidos, abra o coração; há tantos que não podem mais esperar, pois ansiosos aguardam uma presença que acolha e uma palavra que os anime.

Pe. Adroaldo Palaoro sj


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sábado, 20 de maio de 2017

PALAVRA DA SALVAÇÃO (27)

6º Domingo da Páscoa - 21/05/2017


Anúncio do Evangelho (Jo 14,15-21)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Se me amais, guardareis os meus mandamentos, e eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor, para que permaneça sempre convosco: o Espírito da Verdade, que o mundo não é capaz de receber, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós e estará dentro de vós. Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós. Pouco tempo ainda, e o mundo não mais me verá, mas vós me vereis, porque eu vivo e vós vivereis. Naquele dia sabereis que eu estou no meu Pai e vós em mim e eu em vós.

Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama. Ora, quem me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele.


— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.


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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Paulo Ricardo:

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ESPÍRITO SANTO: "desbloqueador" de interioridades


“Vós o conheceis, porque Ele permanece junto de vós e estará dentro de vós” (Jo 14,17)

O evangelho de João nos oferece diversas imagens de Páscoa: vida, pastor e porta, morada de Deus… O evangelho deste domingo(6º Dom Páscoa) nos apresenta a Páscoa como promessa e esperança do Espírito Santo, o “Paráclito” (defensor/consolador) dos(as) seguidores(as) de Jesus. Jesus mesmo tinha sido o Paráclito de seus discípulos, mas agora envia seu Espírito para que seja presença interior e companhia.

A Páscoa apresenta-se, assim, como experiência de Presença, Deus em nós. Esta é a grande promessa que sustenta o caminho do seguimento na história, tantas vezes obscuro e angustiante para o ser humano. Presença que desvela nossa identidade e nossa verdade mais profunda: filhos(as) amados(as) do Pai.

O Evangelho de João é uma verdadeira catequese do Espírito, que se revela como “Espírito da verdade”, pois atua justamente na intimidade das pessoas, desvelando sua originalidade interior e comunicando-lhes luz e força para expandir suas vidas na direção do serviço aos outros.

Este “Espírito da verdade” não deve ser confundido com uma doutrina. Esta “verdade” não deve ser buscada nos livros dos teólogos nem nos documentos da hierarquia. É algo muito mais profundo. Jesus diz que “ela vive conosco e está dentro de nós”. É alento, força, luz, amor... que nos chega do mistério último de Deus. Devemos acolhê-la com um coração simples e confiante.

Este “Espírito da verdade” está no interior de cada um de nós, defendendo-nos de tudo o que nos pode afastar de Jesus. Convida a nos abrir com simplicidade ao mistério de um Deus, Amigo da vida. Quem busca a este Deus com honradez e verdade não está longe dele.

A sociedade pós-moderna apostou pelo “exterior” e se distanciou da dimensão essencial da vida humana: a interioridade. Tudo nos convida a viver a partir de fora; tudo nos pressiona a mover-nos com pressa, sem nos deter em nada nem em ninguém; a paz já não encontra espaços para morar em nosso coração; vivemos quase sempre na superfície da vida; estamos esquecendo o que significa saborear a vida a partir de dentro. Vivemos a globalização da dispersão e da superficialidade.

E o ser humano “disperso e superficial” é um ser “desordenado”, ou seja, vive seduzido por estímulos ambientais, envolvido por apelos vindos de fora, cativado pela mídia, pelas inovações rápidas, magnetizado por ofertas alucinantes...  E então, ele se esvazia, se dilui, perde a interioridade e... se desumaniza.

A exterioridade absorve a interioridade humana. A pessoa foge de si mesma, tem medo de encontrar-se. Por isso, acompanha o ritmo dos outros, repete a linguagem dos outros, adota os critérios dos outros..., e acaba sendo influenciada e dominada por pressões e hábitos externos.

Quê pode dizer a espiritualidade do Evangelho ao ser humano deste 3º. milênio? Um aspecto decisivo que emerge, entre tantos outros, é este: o valor do interior, ou seja, tudo o que se refere à dimensão do coração, das intenções profundas, das decisões que partem das raízes internas.

Para “desbloquear” nosso interior, fechado e petrificado, Jesus Cristo promete o envio do Espírito Santo, presença que examina e purifica as trilhas do coração humano, pois nosso interior é lugar da intimidade com Deus, espaço de contemplação, ambiente de discernimento e construção de decisões.

Nesse sentido, ser seguidor(a) de Jesus significa ser um aprendiz do Espírito, deixando-nos conduzir por Ele em direção à fronteira da interioridade, do nosso próprio “eu profundo”. Presença que desvela regiões não contaminadas em nosso coração, onde tudo começa a ser percebido como novo, de onde brotam esperanças adormecidas e desejos ocultos.

É próprio do ser humano mergulhar e experimentar sua interioridade-profundidade. Auscultando a si mesmo, percebe que brotam de seu “eu profundo” apelos de compaixão, de amorização e de identificação com os outros e com o grande Outro (Deus). Dá-se conta de uma Presença que sempre o acompanha, de um Centro ao redor do qual se organiza a vida interior e a partir do qual se elaboram os grandes sonhos e as significações últimas da vida.

Essa interioridade é um modo de ser, uma atitude de base a ser vivida em cada momento e em todas as circunstâncias. Mesmo nas atividades cotidianas mais simples, a pessoa que criou espaço para a profundidade e para a interioridade mostra-se centrada, serena e cumulada de paz, caminhando junto com os outros na mesma direção que aponta para a Fonte de vida e de eternidade.

Sabe-se e sente-se habitada por um Maior que é uma Fonte irradiante de ternura e de amor. Irradia vitalidade e entusiasmo, porque carrega Deus dentro de si, carrega o Sentido do universo, de cada coisa. Acolhe e interioriza experiencialmente esse Mistério sem nome e permite que Ele ilumine sua vida; dialoga e entra em comunhão com Ele, pois o detecta e o sente em cada detalhe da realidade.

Toda experiência espiritual significa um encontro com um rosto novo e desafiador de Deus, que emerge dos grandes desafios da realidade histórica. Esta “vida interior” é, ao mesmo tempo, a terra onde a pessoa planta suas raízes e a fonte onde ela pode apagar sua sede.

A partir da interioridade, tudo se transfigura, tudo tem sentido, tudo vem carregado de veneração e sacralidade. Viver a interioridade é desenvolver a nossa capacidade de contemplação, de compaixão, de assombro, escuta das mensagens e dos valores presentes no mundo à nossa volta.

Sem interioridade, Deus parece distante, o Cristo permanece no passado, o Evangelho torna-se lei, a Igreja uma simples organização, a autoridade transforma-se em poder, a missão em propaganda, o seguimento se burocratiza, a liturgia vira ritualismo...

É triste perceber que as comunidades cristãs não sabem cuidar e promover a vida interior. Muitos não sabem o que é o silêncio do coração, não se ensina a viver a fé a partir de dentro. Privados de experiência interior, sobrevive-se esquecendo essa dimensão mais original: escuta-se palavras com os ouvidos e pronuncia-se orações com os lábios, enquanto o coração está ausente.

Com isso, no coração de muitos cristãos está se apagando a experiência interior de Deus.
Quê sentido pode ter a Igreja de Jesus se deixamos que se perca em nossas comunidades o “Espírito da verdade”? Quem poderá salvá-la do auto-engano, dos desvios e da mediocridade? Quem anunciará a Boa Notícia de Jesus em uma sociedade tão necessitada de alento e esperança?

Texto bíblico:  Jo 14,15-21

Na oração: A oração é o caminho interior que nos faz chegar até o nosso próprio “eu original”, aquele lugar santo, intocável...; este é o nível da graça, da gratuidade, da abundância, onde mergulhamos no silêncio, à escuta de todo o nosso ser.

Se a nossa oração for um autêntico “deixar-nos conduzir pelo Espírito”, ela deverá fazer emergir à nossa consciência as profundidades desconhecidas do nosso ser. O Espírito liberará em nós as melhores possibilidades, recursos desconhecidos, capacidades, intuições... e nos fará descobrir em nós mesmos(as), nossa verdade mais verdadeira de pessoas amadas, únicas, sagradas, responsáveis...

Das raízes profundas brotarão as respostas mais criativas e duradouras que terão impacto na realidade onde nos encontramos, desencadeando um movimento de profundas mudanças.
- Busque, na oração, cavar mais profundamente, até atingir as raízes de seu ser, o núcleo original de sua personalidade, a verdade de sua vida.

Pe. Adroaldo Palaoro sj



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