— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
João.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, disse Jesus: “Eu sou o bom pastor. O bom
pastor dá a vida por suas ovelhas. O mercenário, que não é pastor e não é
dono das ovelhas, vê o lobo chegar, abandona as ovelhas e foge, e o lobo as
ataca e dispersa. Pois ele é apenas um mercenário que não se importa com as
ovelhas.
Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas me
conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai. Eu dou minha
vida pelas ovelhas.
Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: também a
elas devo conduzir; elas escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só
pastor.
É por isso que meu Pai me ama, porque dou a minha vida, para
depois recebê-la novamente. Ninguém tira a minha vida, eu a dou por mim
mesmo; tenho poder de entregá-la e tenho poder de recebê-la novamente; essa é a
ordem que recebi de meu Pai”.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
João.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, disse Jesus: 1“Em verdade, em verdade
vos digo, quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas sobe por outro
lugar, é ladrão e assaltante. Quem entra pela porta é o pastor das
ovelhas. A esse o porteiro abre, e as ovelhas escutam a sua voz; ele chama
as ovelhas pelo nome e as conduz para fora. E, depois de fazer sair todas
as que são suas, caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a
sua voz. Mas não seguem um estranho, antes fogem dele, porque não conhecem
a voz dos estranhos”.
Jesus contou-lhes esta parábola, mas eles não entenderam o
que ele queria dizer. Então Jesus continuou: “Em verdade, em verdade vos
digo, eu sou a porta das ovelhas. Todos aqueles que vieram antes de mim
são ladrões e assaltantes, mas as ovelhas não os escutaram. Eu sou a
porta. Quem entrar por mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará
pastagem. O ladrão só vem para roubar, matar e destruir. Eu vim para que
tenham vida e a tenham em abundância”.
“Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo
10,10)
Todo 4º. domingo de Páscoa é dedicado ao tema do Bom Pastor. Embora o
Evangelho de hoje não fale de “aparições” do Ressuscitado, não nos afastamos do
tema pascal: a “Vida” é
o verdadeiro tema pascal.
A fé pascal é isso: crer na vida. E quando dizemos “crer na vida”, não
estamos falando em professar crenças, dogmas, doutrinas... Dizemos viver; dizemos
confiar no potencial de vida em nós mesmos e nos outros; dizemos rebelar-nos
contra todos os poderes que asfixiam a vida; dizemos fazer-nos presentes junto
àqueles cujas vidas estão feridas; dizemos ser humilde fermento que transforma
e levanta a história; dizemos respirar em paz e continuar caminhando cada dia,
apesar do fracasso, da doença e da morte...
Crer na
Páscoa é uma maneira original de ser e de viver.
Para crer n’Aquele que
é o Vivente, não é necessário sepulcros vazios, nem anjos e nem aparições
milagrosas, pois tudo está “animado”(inspirado) pelo Anjo da Vida, tudo é
milagre, todos os sepulcros estão vazios de ausência, mas cheios de boa
presença, da Graça de ser que Jesus viveu. Só é preciso que abramos o
coração e os olhos para apalpar a Vida em todas as mãos e pés feridos, em tudo
o que é e palpita: o caminhante anônimo, o imigrante expulso, os índios
invadidos, o ancião solitário, a criança abandonada, os enfermos esquecidos, os
sem teto-pão-trabalho...
A presença do Pastor Ressuscitado, que vem ao nosso encontro em
cada passo, nos chama pelo nosso nome e nos diz no segredo do coração: “amigo(a), não temas; confia e
vive!”.
O Evangelho é um contínuo chamado à Vida. Não qualquer
vida, mas a Vida verdadeira, a Vida que deseja ser despertada para romper com
tudo aquilo que a limita. Por isso, o relato do Bom Pastor é uma verdadeira catequese sobre o
encontro com Aquele que é Vida e que é fonte de Vida em crescente amplitude.
Jesus não vem
prolongar a vida biológica, vem comunicar a Vida de Deus que Ele mesmo possui
pelo Espírito e da qual pode dispor. Ao mesmo tempo, vem ativar em todos nós as
potencialidades de vida que ainda não encontraram possibilidades de expressão.
Somos um manancial de vida que se visibiliza na criatividade, na capacidade de
sonhar, no encontro compassivo com os outros, na comunhão com todas as
manifestações de vida.
Em Jesus acontece algo
totalmente novo; Ele traz uma nova maneira de viver e de comunicar vida que não
cabe nos nossos esquemas. É justamente isso o que mais atrai em sua pessoa.
Quem entra em comunhão de vida com Ele, conhece uma vida diferente, de
qualidade nova, expansiva...
Nesse sentido, a experiência do Seguimento de Jesus é uma
verdadeira “escola de
vida”, cujo aprendizado nos leva ao âmago do nosso ser, para
enraizar nossa vida no
coração da Trindade, dele haurir a seiva da vida divina e deixar-nos plenificar
pela graça transbordante de Deus.
Pois, em nossa vida
flui a plenitude da Vida, e nossa vida flui para sua plenitude, em passagem ou
páscoa permanente. Nada mais contrário ao espírito do Evangelho que a vida
instalada e uma existência estabilizada de uma vez para sempre, tendo pontos de
referência fixos, definitivos, tranquilizadores...
Jesus de Nazaré “passou fazendo o bem”, não de qualquer modo. Aquele
homem que movia multidões em toda a Galileia, por sua pregação e milagres, não
era um revolucionário violento. E, no entanto, nem por isso, deixou de ser inquietante
e perigoso. Como Bom
Pastor, aproximou-se e cuidou, de forma preferencial, dos mais
fracos, pequenos, necessitados..., deixando-se “tocar” e “tocando” as situações
humanas mais rejeitadas, mais quebradas, mais dolorosas, mais sofredoras e
marginalizadas...
Como Bom Pastor, Jesus transbordou ternura sobre nossa
humanidade ferida, despertando a vida atrofiada e escondida no interior de cada
um(a).
Para o evangelista João, a “vida” é uma totalidade, ou seja, a vida presente,
a vida atual, possui tal plenitude que, com toda razão, podemos chamá-la de
“vida eterna”; uma vida com tal força que nem a morte mesma terá poder sobre
ela. A vida eterna, então,
não é um prolongamento ao infinito de nossa vida biológica. É a dimensão
inesgotável e decisiva de nossa existência. Ela torna-se “eterna” desde já.
Precisamos adquirir uma consciência mais profunda da vida
enquanto “seres já ressuscitados”, perceber as pulsações desta vida eterna que
está em nós, do mesmo modo que, prestando atenção, percebemos as batidas do
coração de toda a criação. Nesse sentido, a vida tem a dimensão do milagre e até na morte
anuncia o início de algo novo; ela carrega no seu interior o destino da
ressurreição. “Minha vida
é uma sucessão de milagres interiores” (Etty Hillesum). Vida plena prometida
por Jesus.
Nem sempre sabemos viver de maneira intensa: conformamo-nos com
uma vida estreita, estéril, fechada ao novo, carregada de “murmurações”, presa
ao cotidiano repetitivo e “normótico”. O dinamismo do Seguimento de Jesus, no
entanto, é gerar vida, possibilitar
que o(a) discípulo(a) viva a partir da verdade mais profunda de si mesmo(a); ou
seja, viver a partir do coração, do “ser profundo”.
A imagem de Jesus “Bom Pastor”, conduzindo e abrindo novos espaços
para suas ovelhas, nos ajuda a conhecer nossa própria interioridade (redil) e
despertar nossa vida, arrancando-a
de seu fatal “ponto morto”, de seus limites estreitos e constituindo-a como
vida que se desloca em direção a novos horizontes.
O seguimento proporciona vigor inesgotável, nossa vida se destrava e
torna-se potencial de inovação criadora, expressão permanente de liberdade,
consciência, amor, arte, alegria, compaixão.... É vida em movimento, gesto de
ir além de nós mesmos; vida fecunda, potencial humano. Vida com fome e sede de
significado, que busca o sentido... Vida que é encontro, interação, comunhão,
solidariedade. Vida que é seduzida pelo amor, pela ternura. Vida que desperta o
olhar para o vasto mundo. Vida que é voz, é canto, é dança, é festa, é convocação...
Somos Vida, não há
lugar para o temor!
Na Igreja de hoje,
assim como naquela de São João, devemos ser presenças de compreensão, de
abertura, de acolhida, de compaixão, de tolerância e de perdão, caso queiramos
multiplicar a vida em abundância e semear a esperança. Se nós asfixiamos as
pessoas, se recusamos a acolhê-las como são, se as condenamos, não podemos
pretender querer alimentar a vida em abundância n’aqueles(as) que nos são
confiados. Todos nós temos esta responsabilidade de abrir espaços para que a
vida vá se expandindo. É a mais bela das vocações e é a única maneira de ser
fiel ao Cristo Bom Pastor.
Na vivência pascal somos tomados de uma “moção à vida”, que
nos impulsiona a prolongar o ministério do Bom Pastor, sempre em favor da vida.
Texto bíblico: Jo
10,1-10
Na
oração: Para quem vive uma “passagem” autêntica (Páscoa) é
impossível não ser movido a viver mais intensamente, a valorizar a vida
e a colocar-se a serviço dela; porque, neste percurso litúrgico, cada pessoa
experimenta a paixão eterna de Jesus pela vida e por todas as manifestações de
vida na face da terra. No tempo pascal, cada seguidor(a) do Bom Pastor revisa
sua própria vida à
luz do amor criador e redentor de Deus; percebe o dom da vida na sua origem e
alimenta a gratidão para expandir este dom como presença criativa e original.
- Jesus continua
exercendo seu “pastoreio” através de seus(suas) seguidores(as); que ações
concretas, você pode ativar no dia-a-dia, para que nelas transpareça o coração
do Bom Pastor?
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
João.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, disse Jesus: "As minhas ovelhas
escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem. Eu dou-lhes a vida
eterna e elas jamais se perderão. E ninguém vai arrancá-las de minha mão.
Meu Pai, que me deu estas ovelhas, é maior que todos, e ninguém
pode arrebatá-las da mão do Pai. Eu e o Pai somos um”.
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. André
Teles:
---
Uma voz que move
“As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço
e elas me seguem” (Jo 10,27)
Todo quarto domingo de Páscoa é dedicado ao tema do “Bom
Pastor”; a liturgia não apresenta outros relatos de aparições, mas continuamos
com mais um texto profundamente pascal. No relato deste domingo, a alegoria do
Pastor fala de “escuta”, “conhecimento”, “seguimento” e “vida eterna”, que é a
chave do tempo pascal; ao mesmo tempo, num aprofundamento progressivo, o texto
remete ao Pai e culmina na Unidade, como Fonte de onde tudo procede e para onde
tudo retorna. São estas realidades que nos permitem conectar com o sentido
originário da imagem do Pastor, sem cair na literalidade pastor/ovelhas,
paternalismo/cordeirinho, poder/submissão..., que acabam provocando uma
justificada resistência e rejeição.
Jesus quer estabelecer com seus(suas) amigos(as) uma relação
que seja o reflexo daquela que Ele mesmo tem para com o Pai: uma relação de
pertença recíproca, na confiança plena, na íntima comunhão. Para expressar esta
realidade profunda, esta relação de amizade, Jesus utiliza a imagem do pastor
com suas ovelhas: ele as chama e elas reconhecem sua voz, respondem a seu
chamado e o seguem.
Esta parábola é muito instigante. O mistério da voz é
sugestivo: desde o ventre de nossa mãe aprendemos a reconhecer sua voz e,
quando nascemos, vamos reconhecendo outras vozes. Pelo tom de uma voz
percebemos o amor ou o desprezo, o afeto ou a frieza, a acolhida ou a rejeição.
A voz de Jesus é única! Se aprendemos a distingui-la de outras vozes, Ele nos
guiará pelo caminho da vida, um caminho que supera também o abismo da
morte.
O contexto do relato deste domingo é o embate de Jesus com
as autoridades religiosas judaicas. Depois de dizer que elas não são suas
ovelhas, Jesus descreve com todo detalhe o que significa ser dos seus. Destaca
dois traços, os mais essenciais e imprescindíveis: “Minhas ovelhas escutam
minha voz... e elas me seguem”. Não se trata só de ouvir a Jesus, mas de
escutá-lo. Muitas vezes só ouvimos e aceitamos somente o que está de acordo com
nossos interesses. Escutá-lo significa aproximar-nos sem pré-juízos e acolher o
que Ele nos diz, mesmo que isso implique mudar nossas convicções; escutar é pôr
toda nossa atenção para tratar de compreender.
“E elas me seguem”. Não basta escutar, é preciso colocar-nos
em movimento e entrar na nova dinâmica da vida. Escutar tem ressonância interna
e ativa todas as nossas potencialidades ali presentes. A boa notícia de Jesus
consiste em manifestar que há uma nova maneira de assumir a existência humana,
uma maneira de viver que esteja mais de acordo com as exigências profundas do
nosso ser. Quando alguém é capaz de escutar esse chamado interior e de viver
conforme ele, vive uma existência feliz. Vive de acordo com seu mais íntimo e
esta adequação entre a vida exterior e a vida interior é a felicidade.
Em um mundo onde há tanto ruído, discursos ocos e palavreado
intolerante, não é fácil prestar atenção a alguma voz em especial. O fato é que
às vezes vivemos em bolhas onde raramente entram vozes que nos comovam de
verdade. E, no entanto, debaixo de gritos, ruídos, músicas estridentes,
anúncios, peças publicitárias e frases que apelam ao conservadorismo, continua
brotando palavras cheias de verdade. Palavras que valem a pena escutá-las.
Talvez, detrás de muitos gestos petrificados, palavras sem sentido, falsas
seguranças, estarão vozes que clamam por ajuda, ou simplesmente expressam dor,
desejo de paz, de consolo.
O verdadeiro desafio é aprender a escutar, por debaixo
desses discursos, a palavra profunda, o canto tranquilo ou a voz que põe em
movimento.
Saber escutar o outro é uma simples, mas profunda acolhida
humana; trata-se de um ato de hospitalidade, pois consiste em abrir espaço para
a presença do outro, sem preconceito. Porque quem escuta de verdade recebe toda
palavra como nova e ativa a sensibilidade para deixar-se “tocar” pela voz que
alarga a vida.
Vivemos mergulhados num mundo de vozes; um “vozerio” nos
cerca: vozes que nos levam à morte, vozes que nos chamam à vida; vozes
contaminadas pelo egoísmo, adulteradas pelo medo, deturpadas pela impureza, e
vozes que são o eco do paraíso convidando para a festa, comunicando paz,
convocando à comunhão... É possível que as vozes do egoísmo, do orgulho e da
ambição tentem se disfarçar em voz de Cristo, a fim de arrastar-nos para o
vazio e a ruína. Mas o Pastor verdadeiro não fala por ruídos, e sim pelo
silêncio; não fala pela força dos pulmões, e sim pelo vento suave de seu
Espírito...
Para escutá-la requer-se interioridade e atenção aos sinais
de sua presença: pode ser a voz de um irmão pedindo socorro; pode ser a
linguagem de um acontecimento alegre ou triste; pode ser uma palavra lida ou
proclamada; pode ser uma inspiração misteriosa captada no silêncio...
Na arte do discernimento das vozes, o importante é, através
da escuta interior, perceber de onde vem e para onde nos conduz cada voz que
ressoa em nós. Se ela nos conduz para o outro, para o Reino...é clara
manifestação da voz do Pastor.
Depois de mais vinte séculos, nós seguidores(as) precisamos
recordar de novo que o essencial para ser a Igreja de Jesus é escutar sua voz e
seguir seus passos. Primeiramente, é preciso despertar a capacidade de escutar
Jesus; ativar muito mais em nossas comunidades essa sensibilidade, que está
viva em muitos cristãos simples que sabem captar a Palavra que vem de Jesus em
todo seu dinamismo e sintonizar com sua Boa Notícia de Deus.
Mas não basta escutar sua voz. É necessário seguir a Jesus.
Chegou o momento de decidir-nos entre contentar-nos com uma “religião burguesa”
que tranquiliza as consciências mas afoga nossa alegria, ou aprender a viver a
fé cristã como uma aventura apaixonante de seguir a Jesus. Parece óbvio afirmar
isso: somos seguidores de uma Pessoa (Jesus Cristo) e não seguidores de uma
religião, de uma doutrina, de uma moral... Estas são mediações que deveriam nos
ajudar a crescer na identificação e vida d’Aquele é o Bom Pastor.
A aventura cristã consiste em crer naquilo que Ele
acreditou, dar importância àquilo que Ele deu, defender a causa do ser humano como
Ele a defendeu, aproximar-nos dos indefesos e desvalidos como Ele se fez
presente, ser livres para fazer o bem como Ele, confiar no Pai como Ele confiou
e enfrentar a vida e a morte com a esperança com que Ele enfrentou.
Se, aqueles que vivem perdidos, sozinhos e desorientados
podem encontrar na comunidade cristã um lugar onde se aprende a viver juntos de
maneira mais digna, solidária e libre, seguindo a Jesus, a Igreja estará
oferecendo ao mundo de hoje um de seus melhores serviços.
Texto bíblico: Jo 10,27-30
Na oração: minha voz, está a serviço de quem? Da vida
ou da morte? Como ela se expressa: com intolerância, julgamento, preconceito?
Sou canal através do qual a Voz de Vida chega até os últimos..., ou coloco
minha voz à disposição daqueles que estão a serviço da violência e da morte?
Sei distinguir as diferentes vozes que se fazem ouvir ao meu redor? Purifico
minha voz no fogo do silêncio ou ela é expressão do ruído da
superficialidade?
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
João.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, disse Jesus: “Eu sou o bom pastor. O
bom pastor dá a vida por suas ovelhas. O mercenário, que não é pastor e
não é dono das ovelhas, vê o lobo chegar, abandona as ovelhas e foge, e o lobo
as ataca e dispersa. Pois ele é apenas um mercenário que não se importa
com as ovelhas.
Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas me
conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai. Eu dou minha
vida pelas ovelhas.
Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: também
a elas devo conduzir; elas escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um
só pastor. É por isso que o Pai me ama, porque dou a minha vida, para
depois recebê-la novamente. Ninguém tira a minha vida, eu a dou por mim
mesmo; tenho poder de entregá-la e tenho poder de recebê-la novamente; essa é a
ordem que recebi do meu Pai”.
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Frei Alvaci
Mendes da Luz, OFM:
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Bom Pastor: Jesus,
"homem de cuidado"
Sieger Koder
“Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas
ovelhas” (Jo 10,11)
A partir deste 4º. Dom de Páscoa, a liturgia se afasta dos
relatos das aparições do Ressuscitado, mas não sai do tema pascal. Como Bom
Pastor, o mandato que Jesus recebeu do Pai é “dar a Vida” e a disposição em
“dar a Vida” está profundamente sintonizada com o tempo de Páscoa que estamos
celebrando.
A raiz da experiência pascal é que Jesus está vivo e
comunica Vida à comunidade. Como os primeiros cristãos, também nós temos o
mesmo privilégio de fazer nossa essa Vida. Trata-se da mesma Vida de Deus, de
seu Amor que se entrega a nós incondicionalmente.
Crer e anunciar a Ressurreição é confiar na vida que morre,
para dar lugar a mais vida, a Vida maiúscula. É crer vivencialmente que a morte
é necessária para que a corrente da vida flua, e nos comunique suas maiores
riquezas. A vida (minúscula) morre; para sermos fiéis ao chamado à Vida,
devemos ser capazes de abandonar o que já não serve, o que é caduco, o que
precisa morrer, para que a vida siga seu curso em direção à plenitude.
Somos também chamados a proclamar que a Vida é possível, que
há algo mais além da vida limitada e frágil; somos movidos a gritar pelos
caminhos que a morte foi vencida, que o ser humano é e continua sendo filho
amado de Deus, chamado à vida maior e à liberdade.
Viver a Páscoa significa apostar pela qualidade de vida,
fugindo da mediocridade sonífera na qual muita gente se instala, vivendo uma
existência rotineira e normótica, sem cor e sem sabor, correndo sem saber para
onde, sem entusiasmo, sem dinamismo e sem poder dar cor à própria vida, à
família, ao trabalho, ao descanso, às relações, à fé...
O sintoma mais doloroso, já constatado por sérios analistas
e pensadores contemporâneos, é um difuso mal-estar que afeta a humanidade
inteira. No fundo, essa crise generalizada revela seu rosto desfigurado no
fenômeno do “descuido”, do descaso e do abandono, numa palavra, da falta de
cuidado com que são tratadas realidades importantes da vida.
Tudo o que existe e vive precisa ser cuidado para continuar
a existir e a viver: uma planta, um animal, uma criança, um idoso, o planeta
Terra... É urgente uma práxis de cuidado, de re-ligação, de benevolência, de
paz perene para com a Terra, para com a vida, para com a sociedade e para com o
destino das pessoas, especialmente das grandes maiorias empobrecidas e
condenadas da Terra.
Jesus foi um “homem-de-cuidado” e deixou aos seus seguidores
um estilo de vida fundado no cuidado. A imagem do “Bom Pastor” revela esse modo
de ser e proceder de Jesus. Trata-se de uma imagem que, para os nossos
contemporâneos, revela-se, ao mesmo tempo, anacrônica e perigosa. Anacrônica,
porque as cenas do pastor cuidando do rebanho desapareceu do universo
majoritariamente urbano e desenvolvido. Perigosa, porque a imagem do rebanho
apresenta resquícios de passividade que a consciência moderna rejeita
visceralmente, por evocar o binômio poder/submissão.
Embora a imagem tenha ficado esvaziada, seu conteúdo
continua sendo plenamente atual, quando realçamos a atitude pascal da
“mística do cuidado”, ou seja, quando proclamamos a atitude de entrega aos
outros até o final. Jesus, em seu ministério “cuidador” transformou a
vulnerabilidade em possibilidade, a fraqueza em força, a dor em alegria... O
evangelista Marcos diz com extrema finura: “Ele fez bem todas as coisas; fez
surdos ouvir e mudos falar” (Mc. 7,37).
Sua presença e sua intervenção nos revelam o compromisso com
a vida, a afirmação da dignidade e da sacralidade de cada pessoa, bem como a
reintegração dos excluídos na comunidade humana. Jesus é um biófilo (amigo da
vida), pois revela uma especial atenção e zelo pela vida, seja da natureza,
seja do ser humano. Cada vida é um cenário de manifestação do Pai. Tudo lhe
causava admiração e encantamento.
Para Jesus, a cada dia o Pai chama as criaturas pelo nome e
as convoca à vida: as águas fluem, os animais procriam, os astros retomam seu
curso e o ser humano acorda para o louvor de Deus e o cumprimento de suas
tarefas. Pela ação providente e cuidadosa do Pai, a Criação inteira se refaz de
crepúsculo em crepúsculo e de aurora em aurora.
Nesse tempo pascal, o cuidado serve de crítica à nossa
civilização agonizante e também de princípio inspirador para um novo tempo de
convivialidade. Diante das realidades vulneráveis faz-se necessário despertar
as consciências para a prática do cuidado. O cuidado é algo mais que um ato ou
uma virtude entre outras; ele se encontra na raiz primeira do ser humano, é um
“modo-de-ser essencial” do ser humano.
É uma dimensão fontal, originária, primária, impossível de
ser totalmente esvaziada.
É o cuidado que nos faz sensíveis e nos compromete com quem
está à nossa volta.
É o cuidado que nos une às criaturas e nos envolve com as
pessoas.
É o cuidado que desperta encantamento face à grandeza do
firmamento, suscita veneração diante da complexidade da Mãe-Terra e alimenta
enternecimento face à fragilidade de um recém-nascido.
Pelo cuidado, o ser humano se religa ao mundo afetivamente,
responsabilizando-se por ele.
Jesus de Nazaré foi aquele que mais encarnou o
“modo-de-ser-cuidado”. Revelou à humanidade o “Deus-Cuidado”, experimentando-o
como Pai/Mãe que cuida de cada um(a) de seus(suas) filhos(as), do alimento dos
pássaros, do sol e da chuva para todos. Jesus resgatou a centralidade do
cuidado e da ternura para com todas as manifestações da vida. Ele mostrou
cuidado especial com os pobres, os famintos, os discriminados e os doentes.
Pelo cuidado, Jesus maravilhou-se diante do milagre da vida e solidarizou-se
com os humanos fragilizados e excluídos. As parábolas do bom samaritano, que
mostra a compaixão pelo caído na estrada, a do filho pródigo acolhido e perdoado
pelo pai, e, sobretudo, a do Bom Pastor, são expressões exemplares de cuidado e
de plena humanidade.
Cuidar é dar atenção com ternura, isto é, descentrar-nos de
nós mesmos e sair em direção ao outro, sentir o outro como outro, participando
da sua existência; cuidar é mais que um ato; é uma atitude “kenótica”, porque
exige o esvaziamento de nós mesmos para deixar o mistério do outro encontrar
abrigo em nosso coração. “Não temos cuidado; somos cuidado”. Sem cuidado
deixamos de ser humanos.
É a partir do cuidado que colocamos limite a toda voracidade
neurótica de ter e poder; a partir do cuidado acontece a passagem da lógica da
conquista para a lógica da gratuidade, da imposição para a interação-comunhão,
da exploração para a sintonia-cordialidade, do poder-produção para a
atenção-respeitosa.
O amor é a expressão mais alta do cuidado, porque tudo o que
amamos também cuidamos. E tudo o que cuidamos é um sinal de que também amamos.
Texto bíblico: Jo 10,11-18
Na oração: pedir a graça de sentir a ternura, o carinho, a
proteção e a cura das mãos benditas e providentes de nosso Deus;
- alargar o coração, para que aí a ternura de Deus possa
fazer morada.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
João.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, disse Jesus: “Em verdade, em verdade vos
digo, quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar,
é ladrão e assaltante. Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas. A
esse o porteiro abre, e as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo
nome e as conduz para fora. E, depois de fazer sair todas as que são suas,
caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz. Mas
não seguem um estranho, antes fogem dele, porque não conhecem a voz dos
estranhos”. Jesus contou-lhes esta parábola, mas eles não entenderam o que
ele queria dizer. Então Jesus continuou: “Em verdade, em verdade vos digo,
eu sou a porta das ovelhas. Todos aqueles que vieram antes de mim são
ladrões e assaltantes, mas as ovelhas não os escutaram. Eu sou a porta.
Quem entrar por mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem. O
ladrão só vem para roubar, matar e destruir. Eu vim para que tenham vida e a
tenham em abundância”.
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Paulo
Ricardo:
***
Bendita porta de saída para a vida
“Eu sou a Porta das ovelhas” (Jo 10,7)
Todos os anos, o 4º. Domingo de Páscoa inspira-se na imagem
do “Bom Pastor”. Embora o Evangelho deste domingo não fale de “aparições” do
Ressuscitado, não nos afastamos do tema pascal, pois Jesus afirma
expressamente: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”. A “Vida”
é o verdadeiro tema pascal.
E imagem pascal deste 4º. Domingo da Páscoa é a Porta da
Liberdade, que possibilita uma vida sempre expansiva. A Vida verdadeira implica
saída de nossos espaços, muitas vezes atrofiados e de curto horizonte: por isso
precisamos de uma porta, de uma saída. Não podemos, não devemos permanecer
fechados, pois isso atrofia nossas possibilidades de vida, sobretudo se estamos
reclusos no egocentrismo.
Equivocadamente distraídos por alguma complacência ou
comodidade interna, nem sempre caímos na conta de que vivemos fechados; não
percebemos o perigo letal da asfixia existencial; não sentimos as amarras da
dependência ou os vícios que a vontade fragilizada já não consegue
romper.
Nesse sentido, podemos entender a imagem da “Porta” enquanto
espaço aberto que permite a vida fluir. Porque vida é, antes de mais nada,
espaçosa, amplitude ilimitada que tudo abarca e que se expressa em infinidade
de formas, todas elas habitadas pela mesma e única Vida.
Precisamos nos libertar, nos desatar, sair; precisamos de
uma porta!
Escutemos Jesus que diz “Eu sou a Porta”. E é verdade,
porque Jesus, “ressuscitado dentre os mortos”, abriu um espaço no hermético
ventre da morte. Com seu próprio corpo e sua vida Jesus se transformou em Porta
da Vida verdadeira e com a força do seu Espírito Ele nos liberta, nos desata
para sair dos espaços atrofiados e passar para a vida ampla do amor, para a
vida com os outros.
“Eu sou a porta”: aqui Jesus não se refere àquela peça de
madeira que gira para fechar ou abrir, mas ao espaço por onde se tem acesso a
um recinto. Por isso Ele diz que é a porta das ovelhas, não do redil. Todos
aqueles que vieram antes dele não deram liberdade e asfixiaram a verdadeira
vida.
Em Jesus, todo(a) seguidor(a) pode alcançar a verdadeira
liberdade; “poderá entrar e sair”, terá liberdade de movimento. Jesus não busca
seu próprio proveito nem o de Deus. Seu único interesse está em que cada ovelha
alcance sua própria plenitude e viva intensamente.
A característica do Bom Pastor é que põe toda sua vida a
serviço das ovelhas para que vivam, sem limitação alguma. Ao fazer isto, põe em
evidência a qualidade de Vida que possui e abre a possibilidade para que todos
os que lhe seguem tenham acesso a essa mesma Vida.
Uma porta aberta. Jesus se compara a uma porta... aberta!
Somos impactados pela luz que vem de fora e pelo ar vivificante. Nós ouvimos
sua voz. Ele se dirige a cada um e à sua voz nos colocamos em marcha. O
oxigênio que aí respiramos é o Sopro do próprio Deus.
Jesus é uma Porta grande e aberta que favorece a circulação
com toda a liberdade Entrar por essa Porta é o mesmo que “aproximar-nos d’Ele”,
“escutar sua voz”, “identificar-nos com Ele”. Passar pela Porta implica também
desvelar nossa verdadeira identidade enquanto “portas abertas”.Cada um de nós é
um mundo, dentro do Mundo. Este contato se estabelece pelos sentidos: saímos ao
Mundo e entramos em nosso mundo através dessas cinco portas.
Por essas portas dos sentidos saímos de nós mesmos para o
Mundo, ao mesmo tempo que o Mundo entra em nós. Tomar consciência do como
transitamos por estas portas é essencial para crescer em um modo transparente
de existir. Porque há um modo de entrar e sair por elas que pode ser feita de
maneira autocentrada e depredadora ou de maneira agradecida e geradora de comunhão.
Há um modo de ver, ouvir, saborear, tocar, sentir... que nos
atrofia e nos isola em nosso pequeno mundo opaco e estreito, enquanto há outro
modo que nos abre e nos expande em direção ao Mundo, e que vai se revelando
como presença e transparência de Deus.
Expandir os cinco sentidos nos capacita sentir Deus como
Presença primeira e constitutiva da Realidade, pulsando em todas as coisas.
Porque, em definitiva, o que nossos olhos querem ver, o que nossos ouvidos
querem ouvir, o que nosso tato quer apalpar... é o Rosto-mais-além-dos-rostos
que se manifesta através dos outros. Assim, os sentidos não são somente portas
entre nosso mundo interno e o Mundo exterior, mas umbrais que abrem ao
Transcendente, que pulsa no mundo e ao qual só se pode chegar através do mesmo
mundo.
O contexto social no qual vivemos nos revela que há uma
doença que nos afeta praticamente a todos: em nossas vidas, há muito mais
espelhos que nos isolam do que portas que nos universalizam.
No espelho nós nos vemos; e o que vemos não é o que somos,
mas o que aparentamos ser. Desta percepção não saímos. A contemplação
narcisista de nosso rosto atrofia o horizonte de nossa vida; o horizonte
perceptivo é mínimo. O espelho é incapaz de revelar a verdade de nosso ser e de
ampliar nosso mundo afetivo e relacional, não facilita a acolhida, o
encontro... O centro do espelho somos nós mesmos.
As portas abertas, por sua vez, permitem ampliar nosso
horizonte. Através delas purifica-se o ar denso e irrespirável do nosso
interior, que geramos quando nos fechados em nós mesmos. Elas nos abrem à
comunhão com a natureza, com os outros, com a realidade que nos cerca. Elas nos
humanizam, pois servem para nos revelar aos outros quem somos, que eles fazem
parte de nossa casa e que, abertas, indicam que eles podem entrar e sair
livremente em nossas vidas.
Como seguidores(as) de Jesus, habitando em casas construídas
sobre a rocha do Evangelho, deveríamos nos preocupar mais com as portas e
janelas e menos com os espelhos. Outros rostos precisamos descobrir:
concretamente, rostos feridos, excluídos, carentes de proximidade e abraço.
Muitas vezes, as portas nos protegem da diversidade, blindam
nossa individualidade e parecem itens indispensáveis à sobrevivência. Assim,
seremos prisioneiros de nossa estreita visão de mundo e faremos de nossa casa
uma couraça que enclausura. Melhor a viagem que nos faz vulneráveis do
que a segurança que nos rouba o horizonte. Melhor enfrentar o impacto do
diferente e usufruir da liberdade do que inventar portas seguras que nos fazem
cativos e solitários.
Texto bíblico: Jo 10,1-10
Na oração: Seja uma porta sempre
aberta: “entradafranca”.
- Nada de “cachorros” que atemorizem o visitante: seu
orgulho, seu egoísmo, sua inveja, sua ironia, sua rudeza, seu
preconceito.
- Nada de longas esperas que desanimam: esteja sempre
atento, nem que seja para um cumprimento, um sorriso, um aperto de mãos, caso
você não tenha tempo para uma conversa.
Uns instantes de intensa atenção bastam para acolher o
outro.
- Nada de móveis que impeçam a circulação; mantenha sua casa
disponível. Não imponha seus gostos, suas ideias, seus pontos de vista. Nada de
retribuições que custam caro: se você oferece alguma coisa, faça-o
gratuitamente e nada espere em troca.