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quarta-feira, 15 de agosto de 2018

LANÇAMENTO: A COMUNICAÇÃO SOCIAL NA REVOLUÇÃO DOS ALFAIATES, DE FLORISVALDO MATTOS


Revolta dos Búzios, 220 anos   

Boletins sediciosos, o embrião do
Jornal impresso na Bahia de 1798


Pelos 220 anos da também chamada Revolta dos Búzios, que abalou o morno cenário colonial-urbano da então Cidade da Bahia, em agosto de 1798, a Assembleia Legislativa da Bahia lançará no próximo dia 24, às 18 horas, em segunda edição, no Instituto
Geográfico da Bahia, o livro intitulado A comunicação social na Revolução dos Alfaiates, de Florisvaldo Mattos, em que, deixando aos historiadores a parte essencialmente histórica, o autor aborda o que considerou ponto crucial, o papel da comunicação social na dita insurreição, que visava libertar o Brasil-Colônia do jugo colonizador de Portugal sob o primado de múltiplas bandeiras, tais como independência da Capitania, implantação da república, abolição da escravatura, igualdade para todos, livre comércio com as nações do mundo, interrupção de vínculo com a Igreja do Vaticano, instituição do trabalho remunerado, melhoria do soldo militar e garantias para os plantadores de cana, fumo e mandioca, assim como para comerciantes.

Calcula-se que centenas de pessoas estivessem engajadas no pretendido levante, todos em sua maioria pertencentes à mais reduzida condição social, mas, segundo os estudiosos, apenas 33 deles foram processados, sendo 11 escravos, seis soldados da tropa paga, cinco alfaiates, três oficiais militares, dois ourives, um pequeno negociante, um bordador, um pedreiro, um professor, um cirurgião e um carpinteiro, e, desses, desbaratado o movimento, como exemplo máximo de sofrimento, crueldade e tragédia, somente sobre quatro recaíram as penas de 
enforcamento, seguido de esquartejamento e exposição de despojos fixados em postes e espalhados por vários pontos da cidade, dois deles soldados (Luiz Gonzaga das Virgens e Lucas Dantas do Amorim Torres) e dois artesãos (João de Deus do Nascimento, mestre alfaiate, e Manoel Faustino dos Santos Lira, então oficial alfaiate, mas ex-escravo), livrando-se da punição severa um quinto personagem, Luiz Pires, também artesão, porque desaparecera, sem deixar rastros, numa Bahia colonial, cuja estrutura social se assentava no patriarcalismo e na economia escrava, com uma população estimada em menos de 200 mil habitantes, sendo 50 mil para o Recôncavo, menos de 60 mil para a Capital e menos de 100 mil para o resto da Capitania.

Baseado em fontes primárias e secundárias, em seu livro, o autor preferiu focar as suas lentes nas relações de comunicação que permitiram, seja no nível interpessoal, pela via oral, com predominância da conversa e do recado, seja no da comunicação manuscrita, com cartas, bilhetes e avisos, os revoltosos atuarem em dois planos: o da formação da consciência política e revolucionária e o da preparação para o levante, praticamente se esgotando nelas toda a engrenagem conspiratória, havendo, no entanto, um momento determinante que levou à frustração e ao fim trágico do movimento.

Foi quando, superando repentinamente as limitações da comunicação em círculo privado, na madrugada de 12 de agosto de 1798, a população foi surpreendida com uma série de textos manuscritos, em número de dez, afixados em locais públicos, para onde convergia grande número de pessoas, tais como portas de igreja, os chamados cantos do peixe, açougues, feiras de frutas e legumes, cais do porto, portas de quartéis, tendas de alfaiates e oficinas de artesãos, veiculando mensagens de conteúdo basicamente político-ideológico, em prol de uma reforma social. Deveu-se ao uso de um búzio de Angola, às vezes até preso na lapela, como uma das formas de identificação de conjurados, no trânsito diário por esses pontos, a opção posterior de se dar ao movimento a designação de Revolta dos Búzios, a preferida na atualidade.

A partir daí, deflagrada a perseguição, instalaram-se dois processos regidos por dois desembargadores fiéis à Corte de Portugal, um para investigação do que se passou a chamar "boletins sediciosos", espalhados pela cidade, e outro voltado para a reunião de preparação para o levante, que fora convocada para o dia 25 seguinte, no então chamado Dique do Desterro, naquele tempo um lugar afastado e ermo.

Foi sobre tal nova forma de comunicação que Florisvaldo Mattos centrou a sua análise, considerando que esses dez “boletins sediciosos”, apesar de manuscritos, foram para os revolucionários e para o movimento “o seu jornal, seu instrumento de divulgação de ideias e definições para um público mais amplo, que extrapolava o circuito da conspiração até aquele momento” e assim, tendo em vista esse aspecto, tomou-os como a mais expressiva e inovadora forma de comunicação indireta utilizada pelos participantes da conjuração, desempenhando, para a época, o legítimo papel de jornal manuscrito, por meio do qual os conjurados difundiram as suas ideias e projetos de reforma social, com sublevação da ordem constituída, para um público indeterminado - chamado por eles de Povo Bahiense -, com características de comunicação pública, unilateral e indeterminada, como seriam alguns anos depois - no Brasil e na Bahia - os jornais impressos, a Gazeta do Rio de Janeiro, em 1908, autorizada por carta-régia de dom João VI, e Idade D´Ouro do Brazil, em 1811, na Bahia.

Motivos de uma das devassas que apuraram a conspiração, segundo ele, esses dez boletins sediciosos visavam, em essência, alcançar um público, uma coletividade de pessoas, em apoio do movimento. Dirigidos ao Povo Bahiense, cinco eram encabeçados como Aviso, um como Nota e quatro como Prelo, palavra que sintomaticamente fazia ressoar a técnica de impressão inaugurada por Gutenberg, que deu origem a toda a uma consagrada cultura editorial e gráfica no Ocidente.  Sob o título de Aviso ao Povo Bahiense, eis uma dessas conclamações:

Ó vós Homens Cidadãos, ó vós Povos curvados e abandonados pelo Rei, pelos seus ministros.
Ó vós Povos que estais para serdes Livres, e para gozardes dos bons efeitos da Liberdade; Ó vós Povos que viveis flagelados com o pleno poder do Indigno coroado, esse mesmo Rei que vós criastes; esse mesmo rei tirano é quem se firma no trono para vos vexar, para vos roubar e para vos maltratar.
Homens, o tempo é chegado para a vossa Ressurreição, sim para ressuscitardes do abismo da escravidão, para levantardes a Sagrada Bandeira da Liberdade.
A liberdade consiste no estado feliz, no estado livre do abatimento; a liberdade é a doçura da vida, o descanso do homem com igual paralelo de uns para outros, finalmente a liberdade é o repouso, e bem-aventurança do mundo.
A França está cada vez mais exaltada, a Alemanha já lhe dobrou o joelho, Castela só aspira a sua aliança, Roma já vive anexa, o Pontífice já está abandonado, e desterrado; o rei da Prússia está preso pelo seu próprio povo: as nações do mundo todas têm seus olhos fixos na França, a liberdade é agradável para vós defenderdes a vossa Liberdade, o dia da nossa revolução, da nossa Liberdade e da nossa felicidade está para chegar, animai-vos que sereis felizes para sempre.

Na verdade, para o autor, esses boletins constituíram-se no mais vigoroso instrumento de divulgação dos revolucionários de 1798, como nítida compensação à inexistência de meios impressos, sustentando que, em face das precariedades técnicas da época, devem ser comemorados, senão como ato legítimo de imprensa, como seu alvissareiro embrião e prova coletiva de vontade redentora e modernizadora da Colônia do Brasil, 220 anos depois.
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FLORISVALDO MATTOS:

Nascido em Uruçuca, antiga Água Preta do Mocambo, na Região do Cacau da Bahia, quando ainda distrito de Ilhéus, residindo depois em Itabuna, onde cursou no Ginásio da Divina Providência, e transferindo-se depois para Salvador, Florisvaldo Mattos diplomou-se em Direito, em 1958, mas optou pelo exercício do jornalismo, no mesmo ano, integrando inicialmente a equipe fundadora do Jornal da Bahia, como extensão da militância cultural de parcela do grupo nuclear da Geração Mapa, atuante, nos anos 1960, sob a liderança do cineasta Glauber Rocha.

Foi professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde ministrou disciplinas e ocupou cargos na Faculdade de Comunicação, e foi presidente da Fundação Cultural do Estado da Bahia, de 1987 a 1989; jornalista, escritor e poeta, desde 1995 ocupa a Cadeira 31, da Academia de Letras da Bahia.
Atuação em jornais: Jornal da Bahia, Estado da Bahia, Diário de Notícias, Jornal do Brasil (RJ); afastou-se do jornalismo em 2011, no cargo de Diretor de Redação do jornal A Tarde, de Salvador, onde antes editou por quase 14 anos o caderno “A Tarde Cultural”, premiado em 1995 pela Associação Paulista de Críticos de Arte – APCA, na categoria de Divulgação Cultural.

É autor dos seguintes livros: Reverdor, 1965, Fábula Civil, 1975, A Caligrafia do Soluço & Poesia Anterior, 1996 (Prêmio Ribeiro Couto, da União Brasileira de Escritores), Mares Anoitecidos, 2000, Galope Amarelo e outros poemas, 2001, Poesia Reunida e Inéditos, 2011, Sonetos elementais, 2012, Estuário dos dias e outros poemas, 2016, e Antologia Poética e Inéditos, 2017 (todos de poesia); Estação de Prosa & Diversos, (coletânea de ensaios, ficção e teatro, 1997); A Comunicação Social na Revolução dos Alfaiates, 1998 (1ª edição), e Travessia de oásis - A sensualidade na poesia de Sosígenes Costa, 2004, ambos de ensaio.
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LANÇAMENTO: Assembleia Legislativa da Bahia
LIVRO:  A Comunicação na Revolução dos Alfaiates
2ª Edição. Salvador: ALBA, 2018, 208, p.
AUTOR: Florisvaldo Mattos
LOCAL: Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB)
DATA: 24/08/2018
HORÁRIO: 18 horas

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segunda-feira, 6 de agosto de 2018

REVOLTA DOS BÚZIOS, 1798 – (PALESTRA) Por Florisvaldo Mattos


Clique sobre a foto, para vê-la no tamanho Original

Dia 31/07/2018, a convite do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB), gentilmente intermediado pelo jornalista Jorginho Ramos, o poeta Florisvaldo Mattos proferiu palestra,  no auditório do Instituto, em seminário pelo transcurso dos 220 anos do movimento denominado Revolta dos Búzios. Nesse evento comemorativo de significativo fato histórico da Bahia, Florisvaldo Mattos dividiu o palco com as também palestrantes, professoras e historiadoras Antonieta D´Aguiar Nunes e Patrícia Valim [foto acima]. 
Sobre o movimento Revolta dos Búzios Florisvaldo Mattos escreveu o livro "A Comunicação Social na Revolução dos Alfaiates", que a Assembleia Legislativa da Bahia lançará no próximo dia 24/08/2018, às 18 horas, no próprio IGHB.
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Boa tarde a todos.

A minha participação nesta sessão especial decorre do transcurso de redondos 220 anos de um agosto sombrio em que um terremoto sociopolítico abalou o morno cenário colonial-urbano da então Cidade da Bahia, com a eclosão e consequente dizimação do que a memória hoje celebra sob o rótulo de Revolta dos Búzios, que me inspirou um livro a ser lançado no próximo dia 24, às 18 horas, em segunda edição, pela Assembleia Legislativa da Bahia, nesta mesma consagrada casa de cultura em que ora nos reunimos, mas anteriormente fruto de uma dissertação de Mestrado em Ciências Sociais na Universidade Federal da Bahia, na qual foi meu orientador um dos altos luminares dos estudos históricos baianos o saudoso professor e folclorista José Calasans.

Nesta obra intitulada A comunicação social na Revolução dos Alfaiates, deixando a parte essencialmente histórica à reconhecida competência dos historiadores, entre eles o professor Luiz Henrique Dias Tavares, a meu ver, seu mais destacado estudioso, preferi abordar, talvez pioneiramente, um ponto crucial que consistia em definir o papel da comunicação social na dita insurreição, optando pela designação mais repetida entre os seus estudiosos, hoje mais popularmente chamada de Revolta dos Búzios, que ocorreu na última década do século XVIII, quando um grupo de pessoas preponderantemente da mais reduzida condição social intentou promover na Bahia um levante, visando libertar o Brasil-Colônia do jugo colonizador de Portugal sob o primado de múltiplas bandeiras, tais como independência da Capitania, implantação da república, abolição da escravatura, igualdade para todos, livre comércio com as nações do mundo, interrupção do vínculo com a Igreja do Vaticano, instituição do trabalho remunerado, melhoria do soldo militar e garantias para os plantadores de cana, fumo e mandioca, assim como para comerciantes.

No que se refere às ideias dos que estiveram engajados no movimento de libertação, esse caldeirão efervescente pressupõe um vasto campo de procedimentos para obtenção de consenso em torno dos propósitos da intentada revolta, em que predominavam as relações de comunicação. No entanto, desbaratada a revolta, o resultado de tão elevada aspiração ficou na história como exemplo máximo de sofrimento, crueldade e tragédia, recaindo as penas de enforcamento, seguido de esquartejamento e exposição de despojos fixados em postes e espalhados por vários pontos da cidade, sobre quatro dos envolvidos, dois deles soldados (Luiz Gonzaga das Virgens e Lucas Dantas do Amorim Torres) e dois artesãos (João de Deus do Nascimento, mestre alfaiate, e Manoel Faustino dos Santos Lira, então oficial alfaiate, mas ex-escravo), livrando-se da punição severa um quinto personagem, Luiz Pires, também artesão, porque fugira, sem deixar rastros.

Tem-se uma ligeira noção desse quadro com a descrição do que era Capital da Bahia em 1798, ano da erupção e derrocada do movimento. Enquadrava-se no que a sociologia costuma definir como típica sociedade de vizinhança, aquela em que a relação entre as pessoas se estabelece por via basicamente oral, isto é, por canais diretos de comunicação, com a escrita (canal indireto) funcionando como forma subsidiária, sujeita a graus de instrução e, por isso mesmo, constituindo-se patrimônio e exercício de poucos.

Predominava neste específico momento baiano do século XVIII uma vasta rede de contatos interpessoais, envolvendo diversas camadas da população, escorados em múltiplas formas de transmissão direta de conteúdos e atitudes, tais como conversas, relatos orais, gestos, cantos, símbolos óticos, pregões de rua, boatos, festas, lamentos, banzos, gírias, apelidos, jogos, hábitos, serões, desfiles, vestuário, comidas, vadiagem, erotismo, maledicências, obscenidades, violências, rixas, desordens, algazarras, ritos, missas, sermões, procissões, anedotas, versos, epigramas, discursos, convenções, casamentos, bodas, enterros, e formas outras, a percorrer a vasta teia de signos icônicos, indiciais e simbólicos, conjeturada por Charles Sanders Peirce (1839-1914), num verdadeiro espetáculo sensorial, urbano e rural.
A estrutura social baiana da época assentava-se no patriarcalismo e na economia escrava, em que pontificavam os senhores de escravos, dos engenhos, das terras, das minas e dos currais de gado, e os chamados lavradores proprietários, que só se distinguiam daqueles por não possuírem engenhos. Distribuía-se pelo intermédio, entre o senhor patriarcal e o escravo, um certo número de categorias: clero, magistrados, comerciantes, servidores da administração colonial, o chamado povo livre, os artesãos e os que ostentavam profissões qualificadas, além dos marginalizados da economia, como os mendigos, os desocupados e as prostitutas.

Em uma de suas célebres Cartas Soteropolitanas, Luiz dos Santos Vilhena descrevia, produto de observação visivelmente empírica, o quadro de classes em que se dividia a população da cidade: “corpo de magistratura, e finanças; corporação eclesiástica; corporação militar, (...) corpo dos comerciantes, (...) povo nobre, mecânico e escravos”. Supõe-se que o segmento dos artesãos se inseria na designação de povo mecânico, omitindo-se também os servidores da administração colonial.

A educação formal se limitava ao ensino imposto e administrado pela Igreja, isto é, pelos jesuítas, reduzindo-se o estudo às disciplinas da chamada Ratio Studiorum, ministradas em suas escolas de “ler, escrever e contar”, a que poucos tinham acesso. Não havia universidade, tampouco bibliotecas, livrarias e imprensa devido às rigorosas proibições impostas pela Coroa portuguesa, desde o início da ocupação do território. Segundo o historiador Luís Henrique Dias Tavares, os livros e outros escritos chegavam da Europa “nas cabeças, em baús amarrados, de jovens brasileiros estudantes em Coimbra”, enquanto Nelson Werneck Sodré, mirando o Brasil-Colônia como um todo, garantia que vinham de contrabando, totalmente às escondidas, e outro historiador, P. Pereira dos Reis, sustentava que, pela falta de tipografias, proibidas por um alvará de 20 de março de 1720, “livros só chegavam por contrabando, vendendo-se na colônia, em todo o século, apenas catecismos tabuadas e cartilhas”, embora a proibição acerbasse o gosto pela leitura de obras de enciclopedistas e filósofos franceses, “importadas clandestinamente”.

E quanto à população? O mesmo Santos Vilhena situava a Capitania em menos de 200 mil habitantes, estimando 50 mil para o Recôncavo, menos de 60 mil para a Capital e menos de 100 mil para o resto da Capitania, o que praticamente iria se confirmar no censo realizado pelo Conde da Ponte, em 1807, com 51 mil para a Capital, compondo-se a população em 28% de brancos e 72% de pretos e pardos. Desses últimos sairia a esmagadora maioria dos participantes da planejada sedição, formada por escravos, artesãos, soldados e alforriados, mas também, embora poucos, por profissionais qualificados e religiosos, como o Padre Agostinho Gomes, que municiava com livros de sua biblioteca o ideário dos descontentes com o statu quo da Colônia então identificados com os princípios dos revolucionários franceses de 1789.

O essencial desses princípios reflete-se no poema revolucionário intitulado "Décimas sobre a Igualdade e Liberdade", de criação atribuída a Salvador Pires de Carvalho e Albuquerque e, também, a Francisco Moniz Barreto, cuja existência o conjurado Manuel Faustino dos Santos Lira confirmou, em depoimento ao Juiz do Feito, repetindo oralmente o que decorara. É este que agora leio, em versão crítica de ortografia atualizada.


DÉCIMAS SOBRE A LIBERDADE E IGUALDADE


Letra

Igualdade e Liberdade

No Sacrário da Razão

Ao lado da sã Justiça

Preenchem meu coração.

Décimas 
Se a causa motriz dos entes
Tem as mesmas sensações
Mesmos órgãos, e precisões,
Dados a todos os viventes,
Se a qualquer suficientes
Meios da necessidade
Remir com equidade;
Logo são imperecíveis
E de Deus Leis infalíveis,
Igualdade e Liberdade.

Se este dogma for seguido,
E de todos respeitado,
Fará bem aventurado
Ao povo rude, e polido,
E assim que florescido
Tem da América a Nação
Assim flutue o Pendão
Dos franceses que a imitaram
Depois que afoitas entraram
No Sacrário da Razão.

Estes povos venturosos
Levantando soltos os braços
Desfeitos em mil pedaços
Feros grilhões vergonhosos,
Juraram viver ditosos,
Isentos da vil cobiça,
Da impostura, e da preguiça,
Respeitando os seus Direitos,
Alegres, e satisfeitos,
Ao lado da sã Justiça.

Quando os olhos dos Baianos
Estes quadros divisarem,
E longe de si lançarem
Mil despóticos Tiranos
Quão felizes, e soberanos,
Nas suas terras serão!
Oh! Que doce comoção
Experimentam estas venturas,
Só elas, bem que futuras,
Preenchem o meu coração.

Na minha análise do movimento, baseada em fontes primárias e secundárias, interessaram-me fundamentalmente as relações de comunicação que permitiram, seja no nível interpessoal, pela via oral, com predominância da conversa e do recado, seja no da comunicação manuscrita, com cartas, bilhetes e avisos, atuando em dois planos: o da formação da consciência política e revolucionária e o da preparação para o levante. E pude observar que todo o processo, toda a engrenagem conspiratória, claramente se consumira em atos de comunicação, havendo, no entanto, um momento de evolução nessas relações, determinante para a frustração e o fim trágico do movimento.

Além de mensagens por via oral ou escrita, os conjurados de 1798 estabeleceram formas de comunicação por sinais convencionais, com estruturas simbólicas que permitiam identificarem-se e comunicarem filiação ao movimento de revolta, protegidos por linguagem especial, tanto sonora quanto visual, com garantia de sigilo apoiada em simbologias próprias.
Luís Henrique Dias Tavares registra que os conspiradores “conversavam, trocavam livros, organizavam banquetes pela liberdade” (...) “e se reconheciam por um búzio, uma espécie de distintivo ou senha”. Mas é o historiador Braz do Amaral quem mais especificamente se refere a tais comportamentos coletivos, em suas memórias históricas e políticas da Província da Bahia.

“Haviam os conjurados combinado reconhecerem-se por certos distintivos entre os quais se sabe o que consistia em uma argolinha numa das orelhas, barba crescida até o meio do queixo, um búzio de Angola na cadeia do relógio, conhecendo-se assim uns aos outros os franceses, ou mais propriamente, os partidários das ideias novas. Costumavam empregar palavras especiais, em lugar das comumente usadas para designar certas coisas, sendo uma delas entes, em vez de homens, dietas, em vez de assembleias, compativelmente, em vez de compatibilidade etc., o que denota tendência para uma linguagem convencional, o que já se tinha visto na revolução francesa”.

Deveu-se ao uso de um búzio de Angola, às vezes até preso na lapela, como uma das formas de identificação de conjurados, no trânsito diário por pontos de afluência pública, a opção por historiadores de dar ao movimento a designação de Revolta dos Búzios, a preferida na atualidade, e não Revolução dos Alfaiates ou Conjuração Baiana. Porém, o mais decisivo estava por vir.

Por meio de técnica mais aperfeiçoada do uso da escrita, os rebeldes repentinamente conseguiram superar as limitações da comunicação de círculo privado entre pessoas, evoluindo para um nível mais amplo - o da comunicação pública, de caráter unilateral e indeterminado, mesmo em manuscrito. Foi o que aconteceu a partir da madrugada de 12 de agosto de 1798, ao ser a população surpreendida com uma série de textos manuscritos, em número de dez, afixados em locais públicos, para onde convergia grande número de pessoas, tais como portas de igreja, os chamados cantos do peixe, os açougues e mercados outros, como os de frutas e legumes, cais do porto, portas de quartéis, tendas de alfaiates e oficinas de artesãos - onde se operava um cotidiano de forte afluência -, veiculando mensagens de conteúdo basicamente político-ideológico, em prol de uma reforma social, embora expresso de forma genérica. Essa forma de difusão encontrada pelos conspiradores levou Braz do Amaral a afirmar que “a sua qualidade de comunicação formada no seio do povo indica como a propaganda das ideias ia ganhando terreno em todas as camadas sociais”. Representava inegavelmente um claro avanço, com a comunicação almejando um grau mais amplo de audiência.

Com base em depoimento do condenado Luiz Gonzaga das Virgens, apontado como autor da escrita dos boletins, Braz do Amaral acusa a ação de imprudência, por ter sido a causa da descoberta da conspiração, desde que “afixara escritos pelas paredes e pusera as cartas revolucionárias nas igrejas pensando fazer com isto proveitosa propaganda, para que mais depressa chegassem ao povo os princípios que professava”.
 
A partir daí, deflagrada a perseguição, que já vinha sendo cogitada em razão de denúncias levadas ao governador e até à Coroa em Portugal, 49 foram os presos acusados de conspiração, 40 deles distribuídos por ofícios de baixa qualificação ou simplesmente escravos, instalando-se, por consequência, dois processos regidos por dois desembargadores fiéis à Corte: um, Manoel Pinto de Avelar Barbedo, então Ouvidor Geral do Crime, para investigação do que se passou a chamar "boletins sediciosos", espalhados pela cidade, e outro, Francisco Sabino Álvares da Costa Pinto, voltado para a reunião de preparação para o levante, que fora convocada para o então chamado Dique do Desterro, naquele tempo um lugar afastado e ermo.

Aqui reside o ponto crucial, a presença desses boletins sediciosos, que foram, para os revolucionários, como digo no livro, “o seu jornal, seu instrumento de divulgação de ideias e definições para um público mais amplo, que extrapolava o circuito da conspiração até aquele momento”.

Tendo em vista esse aspecto, sem fazer praça de originalidade, tomei os dez boletins sediciosos que se espalharam pela cidade como a mais expressiva e inovadora forma de comunicação indireta utilizada pelos participantes da conjuração, desempenhando, para a época, o legítimo papel de jornal manuscrito, por meio do qual os conjurados difundiram as suas ideias e projetos de reforma social, com sublevação da ordem constituída, para um público indeterminado - chamado por eles de Povo Bahiense -, com características de comunicação pública, unilateral e indeterminada, como seriam pouco depois - no Brasil e na Bahia - os jornais impressos, até neles repetindo slogans, seja com vibração ética, “Ó vós Homens Cidadãos”, ou emotiva sugestão lírica, “a Liberdade é a doçura da vida”.


Começando, primeiro, pela Gazeta do Rio de Janeiro, autorizada por carta régia de Dom João VI, dez anos depois, em 1808, a prática do jornalismo surgiria na Bahia, em 1811, com o pioneiro Idade d´Ouro do Brazil, publicação quinzenária de linha claramente submissa aos ditames do poder colonial, embora trouxesse inscritos em seu cabeçalho, com presumível toque de ironia, estes dois versos do poeta quinhentista português, Sá de Miranda;


"Falai em tudo verdades

A quem em tudo as deveis." 

Só que, no Brasil-Colônia, as verdades proclamadas e aparentemente aceitas eram as do regime absolutista colonizador.

Motivos de uma das devassas que apuraram a conspiração, esses dez boletins sediciosos visavam, em essência, alcançar um público, uma coletividade de pessoas, em apoio do movimento. Dirigidos ao Povo Bahiense, cinco eram encabeçados como Aviso, um como Nota e quatro como Prelo, palavra que sintomaticamente fazia ressoar a técnica de impressão inaugurada por Gutenberg, que deu origem a toda a uma consagrada cultura editorial e gráfica no Ocidente. O primeiro deles traduzia-se numa entusiástica injeção de alento, ao dirigir-se a seu pretendido público: “Animai-vos Povo Bahiense que está para chegar o tempo em que todos seremos irmãos, o tempo em que todos seremos iguais”.

Escolhi para ler dois desses boletins escritos na versão crítica de ortografia atualizada, um intitulado Aviso ao Povo Bahiense, o outro, Prelo.


Aviso ao Povo Bahiense

Ó vós Homens Cidadãos, ó vós Povos curvados e abandonados pelo Rei, pelos seus ministros.

Ó vós Povos que estais para serdes Livres, e para gozardes dos bons efeitos da Liberdade; Ó vós Povos que viveis flagelados com o pleno poder do Indigno coroado, esse mesmo Rei que vós criastes; esse mesmo rei tirano é quem se firma no trono para vos vexar, para vos roubar e para vos maltratar.
Homens, o tempo é chegado para a vossa Ressurreição, sim para ressuscitardes do abismo da escravidão, para levantardes a Sagrada Bandeira da Liberdade.
A liberdade consiste no estado feliz, no estado livre do abatimento; a liberdade é a doçura da vida, o descanso do homem com igual paralelo de uns para outros, finalmente a liberdade é o repouso, e bem-aventurança do mundo.
A França está cada vez mais exaltada, a Alemanha já lhe dobrou o joelho, Castela só aspira a sua aliança, Roma já vive anexa, o Pontífice já está abandonado, e desterrado; o rei da Prússia está preso pelo seu próprio povo: as nações do mundo todas têm seus olhos fixos na França, a liberdade é agradável para vós defenderdes a vossa Liberdade, o dia da nossa revolução, da nossa Liberdade e da nossa felicidade está para chegar, animai-vos que sereis felizes para sempre.

Prelo

O Povo Bahiense e Republicano ordena, manda e quer que para o futuro seja feita nesta Cidade esse seu termo a sua revolução; portanto manda que seja punido com pena de morte natural para sempre todo aquele e qualquer que no púlpito, confessionário, exortação, conversação; por qualquer modo, forma e maneira se atreva a persuadir aos ignorantes, e fanáticos com o que for contra a liberdade, igualdade e fraternidade do Povo; outrossim, manda o Povo que seja reputado Concidadão aquele Padre que trabalhar para o fim da Liberdade Popular.
Quer que cada um soldado tenha de soldo dois tostões cada dia de soldo.
Os Deputados da Liberdade frequentarão todos os atos da igreja para que seja tomado inteiro conhecimento dos delinquentes: assim seja entendido aliás...
O Povo

Entes da Liberdade

Na verdade, esses boletins constituíram-se no mais vigoroso instrumento de divulgação dos revolucionários de 1798, como nítida compensação à inexistência de meios impressos. O professor Luiz Henrique Dias Tavares crava justamente neste ponto.

“Na época não existia imprensa no Brasil. A porta da colônia estava fechada a Gutemberg; Portugal, absolutista e clerical, proibia a menor publicação, a existência mesmo de um simples prelo. Por isso, a publicidade do movimento tinha de se fazer com boletins manuscritos - e tinha de se fazer, inclusive, porque os revolucionários estavam certos das adesões e apoios de homens de destaque, como eram alguns dos Cavalheiros da Luz”. (Espécie de clube maçônico que se supõe fundado em 1794).
 
Por isso é que, como sustentei, esses chamados boletins sediciosos, como classificados pelo poder colonial e sua Justiça, que os revoltosos espalharam por locais de afluência pública na Bahia de 1798, embora manuscritos, devem ser reconhecidos, 220 anos depois, senão como ato legítimo de imprensa, em face das precariedades técnicas da época, mas como dela alvissareiro embrião e prova coletiva de vontade redentora e modernizadora, para o Brasil, ainda injustamente desconhecida. Como reforço, basta-me mais esta iluminada conclusão do historiador Luís Henrique: “Sem ter, assim, grandes episódios, sem ter, assim, chegado a eclodir a revolução, é pelo seu corpo de ideias que o movimento baiano de 1798 alteia a sua importância em nossa História”.

Não poderia encerrar essas palavras sem uma referência especial aos atos de enforcamento e esquartejamento dos quatro condenados, na Praça da Piedade, por sinal, pena hedionda semelhante à imposta, somente sete anos antes, a Tiradentes, no Rio de Janeiro, por ordem da rainha D. Maria I, chamada a Louca, e mais ainda, à de passados 173 anos, no Largo do Pelourinho, em imposta aos condenados da infeliz ocupação holandesa, em 1625, nesta própria Cidade da Bahia, todas em frente a igrejas ou próximas delas, a que dediquei um poema de recorte dramático, inspirado em relato do alemão J. G. Aldenburgk (1961), que consta de meu livro Poesia Reunida e Inédito, p. 226, de 2011, que pode muito bem, guardadas as proporções de época e motivações, ajustar-se ao cenário tétrico da tragédia punitiva de 8 de novembro de 1799, que agora leio.  

ODORES, Ó DORES

Fastígio de sinistra geometria,
ainda estão lá os patíbulos severos,
fadados a povoar os ares fétidos
como o odor que supura de sentenças
tão comuns aos exércitos que vencem
e perpetuam tenebrosos códigos.
Há vento e frio. Há medo. Corpos pendem,
vários, em brancos hábitos de frade,
para que se compraza um deus distante
da sorte que os levou à perdição.

Não é o mesmo que ao capitão Francisco
e ao pelotão de pretos valorosos
reserva o mesmo deus no seu julgado:
logo após pronunciar-se o cadafalso,
no pretório repleto de olhos ávidos,
seguem-se os ritos de esquartejamento,
os pedaços saudando os ares pálidos,
estrepados em postes o bastante
como exemplo tão vivo quanto bárbaro,
que se agrupará ao tempo sucessivo
e aos homens restará como relíquia
de formas primitivas de viver.

Tremor de peito e lua: deserta praça,
onde solene impera o cadafalso –
e sua sombra. Sentinelas dormem,
recolhidos também os vencedores,
armas ensarilhadas, chão lavado.
Cães esquecem o balouçar dos corpos
e vigiam a irresistível dádiva
que deriva dos postes punitivos.
Na luz vaga da noite, sobre pedras,
onde reflexos de recente chuva
lampejam, a vasta sombra do templo
alcovita a outra unânime da morte.

Carpinteiros da náusea em cada canto,
redatores de acórdãos para corvos,
se postam nas esquinas, provedores
árduos de matadouros e carniças,
nas primícias das tardes e das noites,
afeitos ao perfume dos morgados,
enquanto o odor trafega pela aurora
e invade casas, palacetes, adros,
as preces da manhã molhada em sangue
da face retalhada do Evangelho.


Muito obrigado.


* * *

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

OS HERÓIS - Florisvaldo Mattos

ITABUNA, TERRA AMADA!

(Infinita memória de Tabocas) 

A Cyro de Mattos e em memória de saudosos amigos itabunenses: Agostinho, Carlito Barreto, Dedé, Edson Cordier, Eraldo Cerqueira Gomes, Fernando Menezes Dantas, Dr. Gervásio Santos, Hélio Nunes, Hélio Pólvora, Manoel Leal de Oliveira, Raleu Baracate, Ruy Cedar Fontes, Telmo Padilha, Vidal, os irmãos Vitório e Zequinha Carmo.

Florisvaldo Mattos


Ao redor de um jequitibá 

A mata vai gemendo, e a terra estremece...
                                            E o matagal cortado em fúria desfalece.
                                         Nataniel Ruben Ribeiro Gonçalves (1960)

Com as flores de mil novecentos e onze,
Saúda-se uma construção dos homens,
Primeiro trem-de-ferro em Itabuna.
Estação branca e verde, vigamentos
E colunas fundidos na Inglaterra.
Logo se juntam ventos mensageiros.
Plataforma apinhada de murmúrios,
Espargem-se no ar gestos que meu pai
Fazia, quando moço, certamente, 
E amargara na terra em que buscava
Tolhido fruto ao sonho retirante.
Lá, de gravata e colarinho duro,
O Intendente rodeado de comparsas
Bufa contentamento sob o fraque
E manda um telegrama ao Presidente
Alcovitando o feito dos ingleses.

Aprumando o Latim das Escrituras,
O Padre vem benzer o prédio novo.
Ajusta os paramentos de seu culto
E fala aos fiéis do bem que é o Progresso,
Quando mansa a alma se volta para os céus.
Discute-se o futuro dos transportes,
O quanto servirão a safra e ganhos.
O Juiz exalta a força do vapor,
A do carvão e da eletricidade. 
Especula-se a sorte do aeroplano,
Ou do que irão chamar de zepelim,
Maior glória não há por entre nuvens.

A fé republicana abrasa as mentes.
Lábios estrugem matinal vanglória
De batalhas vencidas, que devolvem
Trajetos de remotas aventuras,
Apegadas ao nome do arraial.
No ardor de lúbricas fruições, desfraldam
Firmamento de audazes fundadores:
Firmes rostos e nomes que até rimam
(Félix Severino do Amor Divino,
Constantino, José Firmino), e passos
De claro curso que celebrizaram
Valentias e força de trabalho.

Hálito de matas e aldeias índias,
As sílabas percorrem de Tabocas
Mágico som jorrado de uma física
Tertúlia de músculos e pulsos
Contra espesso e imperial jequitibá,
Regência de machado em fortes mãos, 
Espelhadas em pedregoso rio.
Embora calem pássaros e ramos,
Abençoa-as um céu de cores grandes
E corpos vibram de tenacidade.

Teve também os seus Eneias essa 
Laboriosa extensão de apenas terra,
Que se atribui nascida pátria da honra,
Isenta de alegrias musicais,
Sem artes de alma e ardências, sem violões,
Sem canções que não as da natureza;
Somente árvore e sombra, em dura faina,
E o cabedal de lutas intestinas.
Uns ridentes, outros compenetrados,
Entretém-se, conversam e confabulam.
Há um novo sol no século que se abre,
Vozes em eco, unânimes, consagram
Passado que resume um sonho plástico:
Charcos que foram e serão depois
Ruas e praças, casas e sobrados,
Matas vencendo, derrubando cercas,
Auras que são tributo da coragem.

A estação miram com olhos do presente.
O trem-de-ferro logo chegará.
“Para cá virão tropas e tropeiros,
Os que passam agora e passarão
Outros que sejam por manhãs e tardes”.
Dali saem e vão jogar bilhar,
Ou simplesmente ao coito com donzelas,
Um conhaque talvez no Elite Bar.
Ruge o inverno nas roças de cacau,
Esplende a lama cevando jatiuns.


II
Aurora com Zé Nik

                        CONTRA NATURAM
                        Trouxeram putas para Elêusis
                        Meteram cadáveres no banquete
                        A mando da usura.
                                                                   (Ezra Pound, Canto XLV)

José Nik a este mundo não pertence.
Jamais seria alferes dessas hostes;
Era mais personagem que um ser físico.
Vinha de pai honrado fazendeiro,
Gozou de lar e escola, tinha letras,
Mas como herança de satyricons,
Pela trama dos dias e das noites, 
Ganhou fama de mestre em diabruras.
De onde vem como fauno endinheirado,
Ilhéus lhe impôs coroa de valente.
Dispensa o trem-de-ferro e, em montaria,
Tabocas é o destino, a terra nova
De áulicos e de belas raparigas, 
E vai se divertir no Ponto Chic,
Áureo templo de bródios camaradas.
Todos esperam que chegue o endiabrado.

Acendendo relâmpagos nas pedras,
Por uma dessas portas chegará
O cavaleiro de rosto amorenado.
Conhaque de alcatrão e Vinho do Porto,
Gim e aguardente espalham-se nas mesas.
Envolto em lumes, ele enfim chegou,
Com seu chapéu de feltro e aba larga, 
Camisa em listras, largo cinturão;
O revólver de cabo madrepérola,
O punhal e o rebenque encastoado. 
Pisara em flores sobre lama e lodo.
O punho forte segurando as rédeas,
Apeia-se da mula e entra no bar.
Pede conhaque com açucena e, sério,
Bebe de um gole um quarto de garrafa.
Já veio bambo e, após os cumprimentos, 
Senta-se. Logo se levanta e brada:
“A canalha está em festa, a raça espúria.
Quero que morra a nata apodrecida,
Que nem mesmo vale um tostão furado”.
Da audiência refletida nos espelhos,
Tanto quanto as garrafas de bebidas,
Abre-se o riso em luz de acetileno,
Sobre as pedras de silenciosa rua.
Entre um gole e outro, a frase aguda,
Os olhos presos no mármore da mesa,
Sabe-se que vem ébrio; entanto, todos
Querem ouvir o oráculo das matas.

Vivas estalam em rolhas de champanhe,
Entre os cristais do bar estrelejado.
Logo debulha os vícios da República,
Que homizia um rosário de maldades.
E, ante ávida plateia, alinhavava:
Os deputados a bico de pena,
A moral de rapina, o chão de ratos,
Astúcias no silêncio dos cartórios, 
De notários e fátuos advogados,
Venalidades e querências surdas;
Os enfatuados donos do dinheiro,
Nas casas compradoras de cacau,
Com estrangeiros de rosto avermelhado,
Tramam revoltas e terras ocupam,
Expulsando posseiros a chicote;
Os caxixes, o exército de agiotas
(A usura participa do cenário),
Balas e assassinatos de tocaia.
Transpiram calma e cálculo, astros são
De um conservadorismo abençoado,
Cujas filhas fornicam nos quintais.
Divertem-se liberando ansiedades.

À noite nas sessões de jogatina,
Entorpecidos, jogam bacará
E sete-e-meio e pôquer apostado.
Privam também com suas concubinas,
Em bordéis e mansões; arreiam tropas
E transportam cacau pela alvorada.
Tensas mulheres em lençóis de seda
Libertam-se de sexo reprimido,
Entre cortinas de um amor furtivo,
Vezes muitas por trás de um naipe de ouros.

Olhos vívidos miram os cristais,
Um gole a mais, o cálice no ar.
(Escrevente Manoel Fogueira observa 
Ovações e estridências do espetáculo).
Todos lembram o instante em que Zé Nik
Destratara um Juiz em calma rua
E a noite em que, em pleno Quartel Velho, 
Tonto, se defrontou com três maçons;
Mandou que abrisse o bolso cada um,
Enfiando neles moedas de um vintém.
Chovera. O céu de estrelas semelhava
Um lago que espelhasse pedrarias.


III
Noite com Zé Nik

                        Na cinquentenária avenida
cinquenta anos te espero:
foste herói impossível de um dia
que não vingou nos anos vindouros.
                                    (Telmo Padilha)

Horas havia, à noite, em que o peito arfava,
O coração media em derredor.
Destravando as amarras do pensar,
Cogitava outro passo, outro caminho.
Sonhava que estivesse num jardim,
Entre flores e amigos, num coreto,
A dizer-lhes que o mundo é bem diverso
Do que ruminam eles, do que sonham,
Como talvez lutar no Contestado, 
Soldado ser no Rio de Janeiro,
Viver na terra como um desastrado.
Rugas na testa evocam movimentos,
Em paragens longínquas, alistado,
Araucárias e verdes pinheirais,
De árduo escudeiro, de anjo protetor.

Tarde de sol venal e de cansaço,
Na hora em que búzios desertam o dia, 
Entre nuvens de excesso e perdição,
Olhos de azeite e voz tonitruante,
O desastrado irrompe no terreiro
De uma fazenda calma e preguiçosa. 
Aguardente de cana na mão trêmula,
Com todos grita, acusa, execra e xinga.
Depois arruma alforjes nos arreios,
Emborca um gole a mais, apruma o corpo
E deita, despedindo-se do dia.
Entre restos de selva e serrania,
O Rio Almada exaure-se em canções,
Prenunciando auroras e crepúsculos
De uma saga que nasce nele próprio.
Zé Nik dorme o sono da inocência.
É quando, alma que veio do Nordeste,
Para sumir nos eitos do cacau,
Colecionando injúrias, lavrando ódios,
Arreando tropas, o Amarelo espreita.
Com a mesma mão que arreia as alimárias,
Doa a um machado os sonhos de Zé Nik
E ao Juiz disse que matou sem cúmplices,

Na tarde de incógnitas infinitas.
Foi-se sem um rugido, mesmo um sopro.
Fechados olhos como que de ausência, 
Do corpo pendem-lhe mãos de escultura,
Da boca e queixo, um terno e rubro líquido,
Sangue que peito cobre e alaga o chão.
Arreado está, arreado ficará.
“Ai! Que anjos o levem, jamais Caronte”,
Imploram os varões do Ponto Chic.
Astros e deuses logo o levarão
Pelo moroso céu do que se finda.
Adiante passam burros, passam tropas,
Verdes matas prosseguem expectantes,
Talvez nos ramos pássaros gorjeiem.
Ansiosa desde sempre a terra vibra,
Em pouco alegre chuva a encharcará.
O outono vem com nuvens de cetim.
(O rio Almada corre silencioso,
No seu fado de eterna testemunha).
Já pelo ar calmos ventos anunciam:
Por milagre talvez ou santas mãos,
Sobe na Bolsa o preço do cacau.
Gritos se ouvem, nas águas, nos caminhos,
Em mil novecentos e vinte e sete.
Personagem de conto fin-de-siècle,
Aqui se finda a história de Zé Nik,
Em nada parecido com um ser físico.


IV
Alvorada renascida


Ah! Como eu sou feliz e me sinto orgulhoso
De um dia ter nascido em teu seio faustoso,
Sob o esplendor de um céu de beleza tão rara!
                                                           José Bastos (1905-1937)


A luz que escorre sobre um rio morto
Ainda derrama cores e nos alerta
Que o passado vivido que passou 
É passado lembrado que não passa.
(Ó sonoro Guillén, disseste-o bem,
Ecoando suados rastros de conquistas,
Com voz de bardo hispano-americano:
“O passado passado não passou”).*
O tempo foge, gasta e desconcerta.
Os caminhos da vida têm cancelas,
Que se abrem, quando emergem na memória
Com os ecos de machados retumbantes,
Força e fervor de braços sergipanos.
Não só de sóis a letra é devedora,
Das estrelas menores é também.
Sumiu Tabocas, o arraial primeiro,
Matas de cedros e maçarandubas.
(Só não sumiu o amor pelo cacau).
As noites moldam novas alvoradas,
Enquanto nuvens pelos céus bendizem
Terras heroicas sobre as quais ainda hoje
O vento sopra despejando flores,
Saudando todas as criações e luzes,
Os caminhos acesos de Tabocas,
Que ainda fosforescem e cintilam,
Em chão de orvalho e lidas que retornam
A esperanças vividas e sentidas.
Dessas auras, contrito, me despeço.
Itabuna venera seus Eneias,
Que dialogavam com jequitibás.
Tabocas nunca esquecerá Zé Nik,
Que foi seu outro lado incandescente.

(Florisvaldo Mattos, Estuário dos dias e outros poemas, 2017) 


*Oh aurora dos tempos, incendida!
Oh mar de sangue, mar que desbordou!
O passado passado não passou.
A nova vida espera nova vida.

(Nicolás Guillén, in “Elegia a Jacques Roumain, tradução de Manuel Bandeira).
...

FLORISVALDO MATTOS
Nascido em Uruçuca, antiga Água Preta do Mocambo, na Região do Cacau da Bahia, quando ainda distrito de Ilhéus, residindo depois em Itabuna, onde cursou no Ginásio da Divina Providência, e transferindo-se depois para Salvador, Florisvaldo Mattos diplomou-se em Direito, em 1958, mas optou pelo exercício do jornalismo, no mesmo ano, integrando inicialmente a equipe fundadora do Jornal da Bahia, como extensão da militância cultural de parcela do grupo nuclear da Geração Mapa, atuante, nos anos 1960, sob a liderança do cineasta Glauber Rocha. Foi professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde ministrou disciplinas e ocupou cargos na Faculdade de Comunicação e foi presidente da Fundação Cultural do Estado da Bahia, de 1987 a 1989; jornalista, escritor e poeta, desde 1995 ocupa a Cadeira 31, da Academia de Letras da Bahia; afastou-se do jornalismo em 2011, no cargo de Diretor de Redação do jornal A Tarde, de Salvador, onde antes editou por quase 14 anos o caderno “A Tarde Cultural”, premiado em 1995 pela Associação Paulista de Críticos de Arte - APCA. É autor dos seguintes livros: Reverdor, 1965, Fábula Civil, 1975, A Caligrafia do Soluço & Poesia Anterior, 1996 (Prêmio Ribeiro Couto, da União Brasileira de Escritores), Mares Anoitecidos, 2000, Galope Amarelo e outros poemas, 2001, Poesia Reunida e Inéditos, 2011, Sonetos elementais, 2012, Estuário dos dias e outros poemas, 2016, e Antologia Poética e Inéditos, 2017 (todos de poesia); Estação de Prosa & Diversos, (coletânea de ensaios, ficção e teatro, 1997); A Comunicação Social na Revolução dos Alfaiates, 1998, e Travessia de oásis - A sensualidade na poesia de Sosígenes Costa, 2004, ambos de ensaio.


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