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segunda-feira, 31 de julho de 2017

PROFESSORA APOSENTADA QUE EMOCIONOU LÁZARO RAMOS E O FEZ CHORAR NA FLIP DIZ: 'FALEI AOS MEUS ANTEPASSADOS'

Nascida no interior do Paraná e neta de escravos, Diva relatou uma vida de dificuldades impostas pelo preconceito. Ela participou de entrevista coletiva neste sábado (29).

Por Luís Filipe Pereira, G1, Paraty
29/07/2017
Diva Guimarães discursa em mesa com Lázaro Ramos e Joana Gorjão (Foto: Reprodução/YouTube/Flip - Festa Literária Internacional de Paraty)

Diva Guimarães, a professora aposentada de 77 anos que roubou a cena na 15ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) ao emocionar e fazer chorar o ator Lázaro Ramos, disse que quis "falar aos antepassados". Neste sábado (29), ela participou de uma entrevista coletiva na qual falou sobre o seu comovente discurso. A escritora mineira Conceição Evaristo também estava presente.

 "Como que o Brasil é conhecido lá fora? Não é somente pelo traseiro das negras, mas principalmente. Nós não somos esse país, os negros não são isso. A gente tem força. Falei exclusivamente para os meus antepassados, à minha mãe", contou Diva.

"Eu a enxergava uma mulher imensa. Faz cinco anos que descobri pela fotografia que minha mãe era baixinha, minha mãe tinha um metro e quarenta e oito, mas para mim era enorme", afirmou ela.
A mesa "Pele que habito", em que Diva discursou, ocorreu na sexta-feira (28) com a participação de Lázaro Ramos e a jornalista portuguesa Joana Gorjão Henriques. Em dado momento, encerrada a primeira parte do debate, a professora aposentada, que estava na plateia, pegou o microfone. Nascida no interior do Paraná e neta de escravos, Diva relatou uma vida de dificuldades impostas pelo preconceito.

"As pessoas não têm noção do quanto é doloroso ser sentenciado só por ter a tez mais escura. Vejo que as pessoas não se escutam mais. Quando estão incomodadas, começam a criar argumentos para silenciar os outros. Não devemos dar respostas, as perguntas que estabelecem o diálogo devem vir à frente", disse Lázaro.
Joana Gorjão Henriques e Lázaro Ramos participam de mesa com o tema 'A pele que habito' e ouvem relato de Diva Guimarães (Foto: Reprodução/YouTube/Flip - Festa Literária Internacional de Paraty)



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sábado, 29 de julho de 2017

FLIP: ANDERSON FRANÇA PARTICIPA POR VÍDEO E MESA TEM REFORÇO NA SEGURANÇA APÓS AMEAÇA DE MORTE

Auditório passou por varredura da polícia. Debate na programação paralela nesta sexta tratou da expansão da leitura em novos meios e público jovem.

Por Luís Filipe Pereira, G1, Paraty
28/07/2017
Anderson França participa por videoconferência de mesa na programação paralela na Flip 2017; ele recebeu ameaça de morte e cancelou sua vinda (Foto: Luís Filipe Pereira/G1)

Misturando analógico e digital, a mesa "Literatura em todas as plataformas" foi realizada nesta sexta-feira (28), em programação paralela à Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

Presencialmente, participaram Cássio Aguiar, criador da TRENDR no Medium e a escritora Chris Salles, mas as atenções do público que compareceu ao auditório da Casa da Cultura estavam voltadas ao escritor e empreendedor social Anderson França, o Dinho, que participou por videoconferência. Ele cancelou sua vinda à Paraty após receber ameaça de morte.

O risco à segurança preocupou a organização da Flip. Fontes ouvidas pelo G1 disseram que o auditório da Casa da Cultura passou por uma varredura feita por policiais e equipes de segurança privada.

A assessoria do evento não confirmou a medida, informando que não poderia dar detalhes sobre as medidas tomadas. No hall de entrada do prédio, além dos seguranças contratados, havia dois policiais militares.

Em nota divulgada nesta quinta-feira (27) pela assessoria do evento e pela Globo, que promovem em parceria os debates na Casa de Cultura de Paraty, foi informado que “a presença está confirmada através da entrada, ao vivo, por videoconferência".

“A decisão foi tomada em comum acordo com o escritor a fim de garantir a sua participação e o diálogo com o público presente", dizia o texto (leia a íntegra abaixo).

O debate

"Antes da internet, quem propagava o discurso de ódio precisava usar um capuz. A internet dá esse capuz nos dias de hoje, é o IP", afirmou França durante o debate, mediado pelo jornalista do G1 Cauê Fabiano.

"Os odiadores também fizeram um upgrade no seu modo de agir e eu me questiono se o próprio Lima Barreto se estivesse vivo, estaria na Flip, pelos temas que defendia, como o discurso da pluralidade e diversidade. Não me preocupo se as pessoas se preocupam com a minha vida ou com a morte. Porque eu vou passar e os temas a serem debatidos vão ficar."

O autor de "Triste fim de Policarpo Quaresma" é o homenageado da Flip 2017.

O encontro tratou da expansão da leitura em novos meios e o envolvimento com o público jovem, oferecendo exemplos de outros formatos de literatura.

No entanto, a conexão esteve instável em alguns momentos, prejudicando algumas falas de Anderson, que começou respondendo um questionamento sobre o "fetiche" da juventude pelos livros fisicos, o que traria certa resistência aos meios digitais.

"Antes de entrar nessa questão, é preciso esclarecer que boa parte da juventude brasileira não teve acesso ao fetiche pelo livro porque ainda é pobre e sofre com a violência nas cidades. No mês de maio, a integralidade das escolas municipais só funcionou por seis dias", disse.

"O jovem está na escola e pode ser alvejado e há uma questão econômica a ser resolvida. Sem isso não dá para ter acesso a livro." Foi aplaudido.

Analógico e digital

A integração entre analógico e digital permeou boa parte da conversa. "A literatura traz esse canal democratizador. Ela é uma só e aí vem os formatos. Com as redes sociais, chega um novo processo, um novo modelo que está em constante construção. A grande questão é produzir e ser relevante", afirmou Cássio.

Chris Salles lembrou a influência do público e das redes sociais na construção do seu trabalho como autora e o desenvolvimento de um novo modelo de criação, capaz de cativar o leitor de uma maneira incomum.

"Conforme vão comentando, você tem percepção daquilo que escreveu. Com isso, a gente vê novas formas dar fluência àquela história, mas isso não significa que o leitor é o grande ditador. Isso é feito em caráter colaborativo e no geral tenta seguir uma linha, a partir do que o público está sentindo".

No encerramento da mesa, o jornalista Edney Silvestre foi chamado ao palco, depois de ser citado por Anderson.

Ameaças estão sendo investigadas

A Delegacia de Repressão a Crimes de Informática (DRCI) está investigando ofensas e ameaças recebidas por Anderson França. Ele afirma que recebeu e-mail e ameaças de perfis falsos em redes sociais.

Em uma das mensagens, uma pessoa não identificada dizia que pagaria R$ 30 mil para que Anderson fosse morto na Festa Literária Internacional de Paraty. França registrou o caso na DRCI durante esta semana.

Post no Facebook

Em 19 de julho, Anderson havia publicado em seu perfil no Facebook a imagem de anúncio anônimo com ofensas racistas em que eram oferecidos R$ 15 mil a quem assassinasse o escritor.

No post, França escreveu: "Gente, tô divulgando aí, mandando um jobs, caso alguém precise. 15 conto pra me matar na Flip. Acho digno. Sei de gente que faria isso de graça".

Em sua página, ele tem tem mais de 100 mil seguidores, que acompanham suas crônicas e textos sobre o cotidiano do Rio e o combate ao racismo.

Leia a nota sobre o cancelamento da vinda de Anderson França:

Atendendo a uma orientação da Flip, a Globo redefiniu a participação do escritor Anderson França na mesa "Literatura em todas as plataformas", realizada em parceria pelas duas instituições e prevista na programação da FlipZona. A sua presença está confirmada através da entrada, ao vivo, por videoconferência. A decisão foi tomada em comum acordo com o escritor a fim de garantir a sua participação e o diálogo com o público presente.




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sexta-feira, 28 de julho de 2017

FLIP: 3º DIA TEM SURFISTA GANHADOR DO PULITZER E MESA SOBRE SUBÚRBIO DO RIO

Jornalista William Finnegan levou prêmio por obra que fala do esporte. Pilar del Río, que preside Fundação José Saramago, também participa.


Por G1, Paraty
28/07/2017
O jornalista, escritor e surfista americano William Finnegan; ele ganhou o Pulitzer de autobiografia por obra sobre surfe (Foto: Divulgação/Flip)


Um debate sobre o subúrbio do Rio e um encontro do qual participa um jornalista-surfista ganhador do Prêmio Pulitzer, um dos principais da literatura internacional, devem ser alguns dos destaques da 15ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) nesta sexta-feira (28).

A mesa "Subúrbio" tem título autoexplicativo. Inspira-se, na descrição da programação, nos lugares por onde Lima Barreto (1881-1922) circulou no Rio, "seguindo a linha do trem". A proposta é tratar da "poética das ruas".

Marcado para as 15h, o encontro tem dois participantes: a crítica e professora Beatriz Resende e o historiador e escritor Luiz Antonio Simas, personagem conhecido por "retratar as ruas cariocas".

Já no fim do dia, entra em cena o americano William Finnegan, jornalista da revistas "The New Yorker" conhecido por cobrir zonas de conflito e guerra. Também já escreveu sobre narcotráfico mexicano e se infiltrou numa gangue de neonazistas durante uma apuração.

Ele é autor de "Dias bárbaros: Uma vida no surfe" (Intrínseca), que ganhou o Pulitzer de autobiografia. Aos 65 anos, ainda pratica o esporte (ou "estilo de vida", como prefere). Finnegan vai estar na mesa "Por que escrevo" com a escritora nascida na África do Sul Deborah Levy, autora de duas obras que foram finalistas do Man Booker Prize: "Nadando de volta para casa" (Rocco) e de "Hot milk".

Pilar del Río + Diamela Eltit

A sexta abre com novo debate sobre o homenageado da Flip 2017. Ao meio-dia, acontece o encontro "Moderno antes dos modernistas", em que Antonio Arnoni Prado e Luciana Hidalgo discutem a linguagem de Lima Barreto.

Às 17h15, é a vez da jornalista espanhola Pilar del Río, em momento solo na Flip 2017. O programa prevê que ela relembre sua trajetória de "resistência feminina" e sua atuação na presidência da Fundação José Saramago. Ela é viúva do Nobel português. Na pauta, está seu trabalho em defesa dos direitos humanos e de divulgação da língua portuguesa.

Outro debate do dia, "A contrapelo", tem a escritora chilena Diamela Eltit e o documentarista Carlos Nader. A autora é conhecida por seu traballho experimental. Já o diretor fez trabalhos sobre Waly Salomão e o artista plástico Leonilson.

Veja a programação restante da Flip 2017:
Sexta-feira (28)
12h: Mesa 7 – "Moderno antes dos modernistas". Com Antonio Arnoni Prado e Luciana Hidalgo.
15h: Mesa 8 – "Subúrbio". Com Beatriz Resende e Luiz Antonio Simas.
17h15: Mesa 9 – "Na contracorrente". Com Pilar del Río e Niéde Guidon.
19h15: Mesa 10 – "A contrapelo". Com Carlos Nader e Diamela Eltit.
21h30: Mesa 11 – "Por que escrevo". Com Deborah Levy e William Finnegan.
Sábado (29)
12h: Mesa 12 – "Foras de série". Com Ana Miranda e João José Reis.
15h: Mesa 13 – "Kanguei no maiki – Peguei no microfone". Com Luaty Beirão e Maria Valéria Rezende.
17h15: Mesa 14 – "Mar de histórias". Com Alberto Mussa e Sjón.
19h15: Mesa 15 – "Trótski e os trópicos". Com Leila Guerriero e Patrick Deville.
21h30: Mesa 16 – "O grande romance americano". Com Marlon James e Paul Beatty.
Domingo (30)
12h: Mesa 17 – "Amadas". Com Ana Maria Gonçalves e Conceição Evaristo.
15h: Mesa 18 – "Livro de cabeceira". Autores convidados leem trechos de suas obras favoritas. Com Alberto Mussa, Ana Miranda, Djaimilia Pereira de Almeida, Patrick Deville, Paul Beatty, Scholastique Mukasonga e William Finnegan.

Flip 2017

Quando: de 26 a 30 de julho

Onde: Paraty (RJ)

Ingressos: R$ 55 para cada mesa (com meia-entrada);

Onde comprar: durante a Flip, entre 26 e 30 de julho, a venda aocntece só em Paraty, na bilheteria oficial localizada em local próximo à Praça da Matriz, no Centro Histórico; nos dias 26 a 29 de julho, das 10h às21h30, e em 30 de julho, das 10h às 15h30.

Vendas exclusivas para moradores de Paraty: 28 e 29 de junho, das 10h às 18h, na Agência Paraty Tours: Avenida Roberto Silveira, 479. Pagamento somente em dinheiro e mediante apresentação de comprovante de residência e documento de identidade. Sem taxas de conveniência.




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quinta-feira, 27 de julho de 2017

FLIP 2017: 1º DEBATE EXALTA LITERATURA AFRODESCEDENTE E ESCRITOR SAÚDA ESCRAVOS

Poeta e ensaísta, Edimilson de Almeida Pereira lembrou 'ancestrais' que construíram a Igreja Matriz de Paraty. Obra de Lima Barreto foi tema do encontro.


Por Cauê Muraro, G1, Paraty
27/07/2017
O poeta, ensaísta e professor Edimilson de Almeida Pereira e a crítica e professora Beatriz Resende no primeiro debate da Flip 2017, nesta quinta-feira (27) (Foto: Divulgação/Flip)

Ao saudar e pedir licença aos escravos que "construíram este templo" (no caso, a Igreja Matriz de Paraty) e exaltar a literatura afrodescendente, o poeta, ensaísta e professor Edimilson de Almeida Pereira foi aplaudido no primeiro debate da 15ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

Já em sua primeira fala, Pereira afirmou que o espaço que recebe a programação principal do evento "remete a trabalhos de escravos do século XVII", a quem se referiu como "ancestrais".

Mais tarde, ao falar sobre o cânone afrodescendente (ou afro-brasileiro) – que difere do cânone brasileiro convencional, estruturado "a partir da Europa" – , afirmou que ele "não é novo, já está aqui desde que o primeiro escravo pisou nesta terra".

Concluiu dizendo, sob novos aplausos: "O que esse cânone tem de fundamental é uma proposta crítica na qual as vozes dos excluídos demonstram o que elas têm a dizer em relação as várias esferas da vida social". Nomeou como exemplo de "excluídos" os descendentes de indígenas.

E falou ainda que "o cânone afrodescendente pressupõe um espaço importantíssimo para a autoria feminina – de modo geral, o cânone [convencional] exclui mulheres".

"É essa literatura que chamo de estrangeira", disse, citando que ela "tem chegado pouquíssimo na universidade", "o silêncio pesado do racismo e a herança escravocrata". "A questão é: estamos preparados para a sua emergência?"

Homenagem (meio vazia) a Lima Barreto

O tema da mesa foi o homenageado da edição, Lima Barreto. Na noite anterior, ele já havia sido "protagonista" da abertura, em perfomance emocionada do ator Lázaro Ramos e "aula biográfica" da historiadora e escritora Lilia Scwharcz.

Chamado de "Arqueologia de um autor", o encontro reuniu, além de Edimilson Pereira de Almeida, outros dois convidados: a crítica literária e professora Beatriz Resende e o professor de literatura Felipe Botelho Corrêa.

Este primeiro debate da Flip 2017 não estava cheio. No interior da Igreja Matriz, que sedia a programação principal do evento, dava para contar pelo menos 50 cadeiras vazias, das 450 disponíveis. Na fila de entrada, minutos antes de a conversa começar, uma frequentadora gritava ofecerendo um ingresso que tinha sobrando nas mãos.

Lima Barreto militante

Beatriz Resende disse que "custou para vir a homenagem" a Lima Barreto na Flip. "Este é o momento ideal. Estamos precisndo, hoje no Brasil retomar, as críticas de Lima Barreto", afirmou, especificando textos do autor que condenavam "a República, o Congresso incompetente e omisso, os deputados que praticam nepotismo com a maior facilidade".

Professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foi aplaudida lembrar "colegas meus da Uerj [Universidade Estadual do Rio de Janeiro] que há quatro meses não recebem salário". "Essa é penalizada por ser a primeira a abrir vagas de cotas e dar bolsas a cotistas. Porque costistas, como precisam de passagem para sair de lugares distantes, como Lima Precisava."

Já Felipe Botelho Corrêa comentou a "literatura militante" do homenageado, que escreveu numa época em que "a literatura começa a ser mais popular aos recém alfabetizados". "Ele tinha um projeto literário muito claro de falar para o maior número possível de gente."

Para o professor, a militância de Lima Barreto era "muito mais desse lado intelectual de usar esse meio de comunicação de massa para levar a literatura a um novo público". Ao se dirigir àquela nova classe, em geral ocupante do subúrbio do Rio, o escritor passou a "falar de uma coisa mais leve, clara, oral".




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domingo, 25 de junho de 2017

FESTA LITERÁRIA INTERNACIONAL DE PARATY FLIP 2017: Lima Barreto

FLIP 2017: Lima Barreto

A obra do escritor carioca Lima Barreto estará em discussão na 15ª Flip, que acontece de 26 a 30 de julho de 2017.

 A edição resgatará a trajetória de um homem que estabeleceu-se como escritor no Rio de Janeiro, capital da Primeira República e da cultura literária do país. Em um meio marcado pela divisão de classes e pela influência das belas letras europeias, era difícil para um autor brasileiro com as suas origens afirmar seu valor. Foram necessárias várias gerações para que se consolidasse o nome do criador de uma das obras mais plurais e inovadoras da literatura brasileira, que permite tanto o apreço do leitor quanto reflexões nos campos da literatura, da história e das ciências sociais.

Sobre o autor

Afonso Henriques de Lima Barreto nasce no Rio de Janeiro em 13 de maio de 1881. Perde a mãe, Amália Augusta, escrava liberta e professora, quando tinha seis anos, ficando sob os cuidados do pai, o tipógrafo João Henrique, que, poucos anos depois, é diagnosticado como neurastênico, o que o levaria a ficar recolhido pelo resto da vida. A doença do pai o obriga a deixar a Politécnica para sustentar a família como Amanuense do Ministério da Guerra.

Inicia sua colaboração regular para a imprensa em 1905, no Correio da Manhã. O jornal, extinto em 1974, serviu de inspiração para a criação de Recordações do Escrivão Isaías Caminha, publicado em 1909. Pelas críticas à imprensa no livro, Lima Barreto é retirado do quadro de colaboradores do Correio da Manhã e tem proibida qualquer citação ao seu nome nas páginas do diário, mesmo trinta anos depois de sua morte. Passa a colaborar, sob pseudônimo, para revistas como a Fon-Fon e Revista da Época, fazendo uma crítica social e política do Rio de Janeiro e o Brasil.

Em 1911, escreve e publica Triste fim de Policarpo Quaresma em folhetim do Jornal do Comércio. O livro seria editado em livro quatro anos depois.

Lima, devido ao alcoolismo, é internado pela primeira vez no hospício em agosto de 1914, repetindo a tragédia pessoal de seu pai. A primeira internação serve, contudo, de inspiração para sua obra a posteriori.

Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, livro que dialoga com o gênero biográfico, é publicado em 1919. No dia 25 de dezembro deste ano, o autor é internado pela segunda vez.

Lima Barreto morre, aos 41 anos, em 1º de novembro de 1922, Dia de Todos os Santos. No dia 3 de novembro, morre seu pai.

Clara dos Anjos, livro que foi escrito e reescrito durante quase toda a vida de Lima, é publicado em livro no mesmo ano de sua morte.

A obra de Lima Barreto passa por um resgate e uma refundação a partir da biografia publicada por Francisco de Assis Barbosa, A vida de Lima Barreto, e da recuperação de seus escritos, feita a partir do acervo pessoal catalogado pelo próprio autor.

O autor torna-se objeto de estudo de intelectuais de referência em diversas áreas da inteligência brasileira, como Antonio Candido, Nicolau Sevcenko, Osman Lins, Alfredo Bosi, Antonio Arnoni Prado, Beatriz Resende e Lilia Schwarcz.

“Por muito tempo Lima Barreto ficou na ‘aba’ de literatura social, e sua obra e trajetória possibilitaram muitos debates sobre a sociedade brasileira. O que eu gostaria, mesmo, é que a Flip contribuísse para revelar o grande autor que ele é. Para além das questões importantíssimas sobre o país que ajuda a levantar, tem uma expressão literária inventiva e interessante, à frente de sua época em termos formais, capaz de inspirar toda uma linhagem da literatura em língua portuguesa”, afirma Joselia Aguiar, curadora da Flip 2017.

“O Lima é o autor de um território. O universo literário dele é determinado pela criação da Avenida Central, do Rio de Janeiro, que estabelece os diferentes graus de distância dos subúrbios com a Zona Sul e o Centro da Cidade”, afirma Mauro Munhoz, diretor-geral da Flip. “O olhar do Lima sobre a variedade de personagens brasileiros – seja nos subúrbios, seja nas regiões centrais – é determinado pela experiência do território onde viveu por quase toda a vida. Desse modo, sendo um grande autor, ele fez valer a máxima ‘Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia’, do Tolstói.”



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Flip 2017 terá mais vozes femininas e negras participando dos debates, conta curadora

Será a primeira vez que haverá mais mulheres compondo as mesas da festa que, este ano, homenageia Lima Barreto

Norna Odara
Brasil de Fato | São Paulo (SP)

23 de Junho de 2017

Festa Literária de Paraty de 2009 / Monica/ Flickr

Com um autor negro como homenageado, Lima Barreto, e tendo, pela primeira vez na história, mais vozes femininas do que masculinas participando dos debates — serão 24 mulheres e 22 homens na composição das mesas — a já tradicional Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) chega a sua 15ª edição com mais representatividade de gênero e raça.

O evento, que ocorrerá do dia 26 a 30 de julho, na cidade de Paraty, no Rio de Janeiro, reunirá autoras e autores nacionais e internacionais, como a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, a mineira Conceição Evaristo, a gaúcha Eliane Brum e o pernambucano Marcelino Freire, entre muitos outros.


"O que a gente está propondo com essa Flip é um recorte que não é, de maneira nenhuma, o espelho do que existe no mercado editorial. Trata-se de um novo recorte, uma nova proposta de representação", comenta a curadora da Flip e pesquisadora Josélia Aguiar.

A inspiração para a edição deste ano, segundo Josélia, veio de campanhas como "Leia Mulheres" (read women), fomentada pela britânica Joanna Walsh, em 2014, no Reino Unido, que buscava incentivar a leitura de obras de mulheres, em contraposição ao mercado editorial, que não lhes proporcionava visibilidade. Outra iniciativa inspiradora para a edição da feira foi o "Vidas Negras Importam" [Black Lives Metter], que surgiu nos Estados Unidos com o intuito de se contrapor à violência policial e hostilidade sofrida contra negros e negras e para ressaltar fato de que as vidas negras têm valor.

Homenageado do ano e grandes autores

"Não há muito tempo, em dias de carnaval, um rapaz atirou sobre a ex-noiva, lá pelas bandas do Estácio, matando-se em seguida. A moça com a bala na espinha, veio morrer, dias após, entre sofrimentos atrozes". Esse trecho é de uma crônica de 1915 escrita por Lima Barreto, o homenageado na Festa Literária de Paraty (FLIP) deste ano, abordando o tema do feminicídio no início do século 19.  A crônica intitulada "Não as matem" é parte da publicação "Vida Urbana", uma coletânea de crônicas e artigos do autor publicada em 1953.

A curadora da Flip, Josélia Aguiar, explica sobre a escolha deste autor, que "escreveu sobre diversos gêneros" e mantinha uma "visão da sociedade brasileira que é muito atual".

"Lima Barreto me interessa há uns cinco anos por causa do projeto de um livro, que já está praticamente pra ser lançado, que é a biografia do Jorge Amado. Ele muito jovem adorava o Lima Barreto. Então, eu tive que ler Lima Barreto e as conexões entre eles", conta Josélia.

Josélia reforça que a expectativa para o evento é grande e ressalta a importância de trazer cada vez mais autores e autoras de diversos países, gêneros e abordagens para um evento da magnitude da Festa: "A história da Flip é muito bonita, de uma festa literária que ajuda a pautar a literatura, que trouxe grandes autores e autoras, inclusive grandes autores negros e negras, como a escritora [estadunidense] Toni Morrison e, no ano passado, Svetlana Aleksiévitch, prêmio Nobel".

Edição: Vanessa Martina Silva




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