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quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

O HOMEM EGOCÊNTRICO E O PRESENTE DE NATAL, por Paulo Henrique Américo de Araújo

23 de dezembro de 2020


Paulo Henrique Américo de Araújo

 

Quando o solitário dono da casa se levantou da cama, em decorrência da insônia, o fogo da lareira ainda persistia aceso, apesar da hora avançada naquela noite fria. A cabeça dele doía, ao aproximar-se das últimas brasas fumegantes. Algumas pressões no fole bastariam, para manter o calor por mais alguns minutos; e o sono voltaria logo — pensou ele. E sentou-se na poltrona da sala.


Aquele homem de meia idade costumava sentar-se na macia poltrona da sala, durante a noite, e entregar-se aos seus pensamentos. Realmente entretinha-se enquanto pensava, sobretudo porque o objeto de suas intermináveis reflexões era… ele mesmo! Aliás, nada fazia na vida, além dessa atividade: pensar em si.

Não trabalhava, pois as magras rendas herdadas do pai proporcionavam-lhe alimento suficiente e teto. Servia-lhe muito bem a casa pequena, porém confortável. Desde muito jovem havia rejeitado a ideia de constituir família. Quantas preocupações isso lhe traria… Mudara-se para uma cidadezinha do interior — a menor da região — precisamente para fugir dos vizinhos barulhentos, pedintes e vendedores, que enxameavam na capital. Mas nos últimos dias, uma movimentação anormal nas ruas causava-lhe alguns incômodos de cidade grande, dos quais fugira.

Entretanto, uma vida tão medíocre e vazia não o deixava tranquilo, pois tinha uma ambição intimamente ligada à atração por pensar em si: “Como sair deste apagamento? Como quebrar este anonimato letárgico e me tornar importante, famoso, alguém conhecido no mundo inteiro? Como fazer com que meu nome se torne célebre?” Seus devaneios conduziam-no sempre ao mesmo impasse, todas as noites, durante suas insônias, pois esse vazio lhe causava remorsos.

Havia um paradoxo intrigante entre seu modo de vida, feito de inação preguiçosa, e seus pensamentos dominados por ânsias egocêntricas. Seus sonhos voavam longe nas noites mal dormidas: a fama mundial poderia iluminá-lo depois de um grande feito de armas, ou talvez uma expressiva obra artística ou intelectual… mas não dispunha de talentos para tanto. Chegou mesmo ao delírio de planejar o assassinato de um governante qualquer, mas repelia-o a ideia de entrar para a história como um criminoso. Não queria chegar a tais extremos, e até a preguiça contribuía para não enveredar por aí. Difícil de explicar, mas assim são as paranóias das mentalidades incoerentes.

O homem remoía-se nessas cogitações, quando ouviu batidas na porta. Fingiu que não as escutava, e pensou indignado: Quem poderá ser a esta hora? Como pode alguém me atormentar tão tarde da noite?

As batidas se repetiram. Enraivecido, ergueu-se da poltrona, dirigiu-se à porta, e após destrancá-la abriu-a bruscamente:

— Que é?! — perguntou ao homem parado à entrada. Este, surpreso, explicou-se:

— Desculpe o incômodo, senhor. Vi a luz acesa, e venho lhe pedir ajuda.



“Temos viajado durante dias, minha esposa e eu. Chegamos tarde à vila, e não há hospedaria disponível onde possamos passar a noite”.

— Ajuda?! Sabe que horas são? Está me interrompendo num assunto muito importante, no qual tenho despendido muito tempo.

O homem à porta era um viajante. Pobre, mas digno e alinhado em seu porte; roupas simples, mas limpas. E insistiu:

— Peço perdão, mais uma vez. Temos viajado durante dias, minha esposa e eu. Chegamos tarde à vila, e não há hospedaria disponível onde possamos passar a noite.

Enquanto o viajante falava, o homem apertava os olhos para enxergar através da escuridão. Vendo mais atrás a jovem esposa do viajante, discerniu nela a apreensão no semblante. Tudo nela refletia delicadeza e respeito, e uma luz fugidia revelou sua gestação em estado avançado.

Um movimento de compaixão perpassou a alma daquele homem: esses não são andarilhos inconsequentes. Parece apenas boa gente em dificuldades.

Infelizmente, anos inteiros vivendo sob o jugo da autocontemplação e do ‘voltar-se para si mesmo’ bloqueavam nele a compaixão devida ao desafortunado casal. A gestação da jovem contribuía para a percepção de mais um fardo que lhe cairia nos ombros. Disse então asperamente:

— Irresponsável! Viajar assim com sua mulher gestante, sem previdência alguma! Tenho que resolver um problema, e não posso lhes dar atenção.

— Mas, senhor, apenas por esta noite… — insistiu o viajante, antes de ser interrompido pelo dono da casa.

— É minha última palavra. Se quiserem, procurem uma gruta ali mais adiante. Podem se alojar junto com os animais presos lá. Mas não digam a ninguém que lhes indiquei o local. Não quero me envolver em assuntos dos outros, os meus já me tomam muito tempo.

Vendo aquela resolução impiedosa, o viajante fez um gesto de despedida e caminhou em direção à esposa. Desatou seu burrinho de carga, que estava atrás de alguns arbustos, e caminharam em direção à gruta indicada pelo homem.

O infeliz egoísta fechou-se novamente em sua casa, sentou-se na poltrona, diante da lareira, e voltou à sua obsessão: tornar-se famoso em todo mundo.1

Mal sabia ele que ali perto, na pobre gruta que indicou, ocorreria o fato mais extraordinário de toda a História: o nascimento de Jesus Cristo Nosso Senhor. Quanta glória para esse homem, se ele tivesse recebido São José e a Santíssima Virgem em sua casa. Hoje seria reverenciado em todo o mundo nas festividades do Natal. Seu nome estaria gravado na eternidade, vinculado ao de quem recebeu em sua casa o Menino Deus que iria nascer.


Adoração dos Pastores – Philippe de Champaigne, 1640. The Portland Art Museum.

O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira comentou, durante as festividades de um Natal, como Nosso Senhor procura atrair os homens para si nesse período abençoado: “Ele vai atrás de todos, meninos ou velhos, grandes ou pequenos, sábios ou ignorantes. Seja quem for, Ele vai atrás de todos. Pecadores, e às vezes pecadores imundos, Ele vai atrás deles e toca-lhes o coração, dizendo: ‘Meu filho, não queres vir a Mim? Nem agora queres vir a Mim? Pelo menos desta vez, pelo menos neste instante, deixa-te comover um pouco. Aqui estou Eu à tua procura, no interior de tua alma’”.2

Não sejamos como o egocêntrico do conto, que rejeitou o maior dos presentes de Natal. Abramos a morada de nosso coração ao Menino Jesus e à sua Mãe. Sobretudo, evitemos o pecado e estejamos atentos ao triste abandono por que passa a Santa Igreja Católica em nossos dias. Eis um símbolo cogente do abandono sofrido pela Sagrada Família.

Durante a noite sombria deste nosso século, temos obrigação, como católicos, de fazer atos de reparação e amor à Esposa Mística de Cristo — a Santa Igreja. Não deixemos que um exagerado ‘voltarmo-nos para nós mesmos’ provoque eventualmente nossa rejeição a Jesus, Maria e José, que batem à nossa porta.

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Notas

1.Anos atrás, o autor deste artigo ouviu este conto de um professor durante uma aula na faculdade. A história foi ligeiramente adaptada.

2.Trecho de conferência em 22 de dezembro de 1984. Sem revisão do autor.

3.Fonte: Revista Catolicismo, Nº 840, Dezembro/2020.

 

https://www.abim.inf.br/o-homem-egocentrico-e-o-presente-de-natal/

 

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segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

OS REIS MAGOS E A ESTRELA DE BELÉM


Quem foram os santos reis magos? A providencial e esplendorosa estrela foi um novo astro vindo do Oriente? Ou seria um anjo para anunciar a vinda do Rei dos Judeus, o Messias Redentor de todos os homens?

Tradução, resumo e adaptações: Renato Murta de Vasconcelos*
Fonte: Revista Catolicismo, Nº 828, Dezembro/2019

Os varões privilegiados, conhecidos pela Cristandade como Três Reis Magos, foram escolhidos para estar entre os primeiros — depois de Nossa Senhora, São José e os pastores — a adorar o Divino Infante na gruta de Belém. Quem foram eles? E o que foi propriamente a radiosa estrela que os conduziu pelas áridas montanhas da Judéia, para se colocarem junto ao Salvador?

Cornélio a Lapide (1567-1637) no-lo explica em seus comentários sobre o trecho do Evangelho de São Mateus onde o episódio é narrado: “Tendo, pois, nascido Jesus em Belém de Judá, nos dias do rei Herodes, eis que uns magos vieram do Oriente a Jerusalém, dizendo: ‘Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Porque nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo’”(Mt 21, 12).

Nasceu Jesus em Belém de Judá, nos dias do rei Herodes

Adoração dos Reis Magos – Corrado Giaquinto (1690-1765). Coleção Particular

Judá significa aqui a tribo de Judá, à qual a tribo de Benjamim aderiu após o cisma das dez tribos, provocado pelo rei Jeroboão. Essas duas tribos formaram o reino de Judá. São Mateus acrescenta a referência a Judá para distinguir Belém da cidade de mesmo nome situada na tribo de Zebulão, na Galileia (cf. Josué, 19, 15). Assim também comenta São Jerônimo.

Este Herodes, aqui citado por São Mateus, era o Antipas, filho de Herodes o Grande, idumeu de raça, que o Senado estabeleceu, por recomendação de Antônio, como primeiro rei da Judéia conquistada pelos romanos (cf. Flávio Josefo, livro 14, Ant. cap. 18). São Mateus faz menção a Herodes para deixar claro que o cetro fora transferido de Judá para um alienígena, como o era Herodes. Portanto havia chegado o tempo do Messias ou Cristo, pois o patriarca Jacó havia predito que esse deveria ser o sinal de seu advento (Gen. 49, 10). Assim comentam São João Crisóstomo e Teofilato. Herodes, o Grande, ciente dessa profecia, aplicou o oráculo a si mesmo para fortalecer seu reino. Queria ser aceito como Messias, e por isso construiu um templo magnífico para os judeus e o dedicou no aniversário do dia em que iniciou seu reinado (Cf. Josefo, livro 15, Ant. c. 14 e livro 20, c. 8).

Herodes Antipas foi quem mandou decapitar São João Batista e revestiu Nosso Senhor com a túnica branca e zombou d’Ele em sua paixão. Seu filho, Herodes Agripa, matou São Tiago, irmão de São João, e morreu ferido por um anjo. E o filho deste Agripa foi Herodes Agripa II, diante de quem pleiteou São Paulo quando prisioneiro (Atos 25, 23).

Magos vieram do Oriente a Jerusalém

Adoração dos Reis – José Juárez (1617-1661). Museu Nacional de Arte, México.

A palavra magos era comum entre os persas, donde a tradução persa de São Mateus trazer aqui magusan — magos ou sábios, astrólogos ou filósofos. A palavra parece derivar do hebraico, oriunda do radical haga, meditar; daí magim, aqueles que meditam. Com efeito, a meditação é a chave da sabedoria, como diz Ptolomeu. Portanto, aqueles que meditam são ou se tornam sábios. De acordo com São Jerônimo, os caldeus chamavam seus filósofos de magos, seguindo os hebreus. Daí os árabes, sírios, persas, etíopes e outros orientais — cujas línguas são derivadas do hebraico, ou a ele semelhantes — chamarem seus sábios e astrólogos de magos, segundo asseveram Plinio e Tertuliano.

A expressão correspondente em grego (α̉πό α̉νατολών) significa das partes orientais, indicando que esses Magos vieram de várias regiões ou províncias do leste. A opinião comum dos fiéis é que eles eram reis, régulos ou príncipes. Esta crença é claramente defendida por São Cipriano, São Basílio, São Crisóstomo, São Jerônimo, Santo Hilário, Santo Isidoro, São Beda e Tertuliano, todos citados por Maldonado, Barônio e Barradio. No entanto, São Mateus não os chama de reis, e sim de magos, porque coube a eles reconhecer Cristo por meio da estrela. Daí também que eles sejam chamados de reis de Tarsis e Reis da Arábia e de Sabá (Salmo 71, 10).

Como afirma São Leão, os Magos pensavam que o rei dos judeus deveria ser procurado em Jerusalém, pois na cidade real estavam os sumos sacerdotes, escribas e doutores da lei, os quais, pelos oráculos proféticos, provavelmente sabiam onde e quando Cristo deveria nascer. E de fato eles informaram que o Messias nasceria em Belém. Os Magos, embora tivessem a orientação da estrela, prudentemente desejavam consultar também os intérpretes vivos da vontade de Deus. E foi assim que a estrela se retirou por um tempo, como que obrigando-os a procurar os escribas. Pois é vontade de Deus que os homens sejam ensinados a encontrar o caminho da salvação por meio dos homens e doutores que Ele próprio indica.

O número de Magos

 Adoração dos Reis Magos (iluminura) – Georges Trubert (1469-1508).

Seriam três, de acordo com as três espécies de presentes que ofereciam: ouro, incenso e mirra (Santo Agostinho, Serm. 29 e 33, de tempore). A tradição piedosa dos fiéis favorece a mesma opinião, e a Igreja a introduz no ofício da Epifania. São Beda, no início de sua Collectanea, assim os nomeia e descreve: “O primeiro foi Melchior, ancião de cabelos grisalhos, barba longa e abundante, que ofereceu ouro ao Rei Senhor. O segundo foi Gaspar, jovem, imberbe e rubicundo, que honrou a Deus pelo incenso, uma oblação digna da divindade. E o terceiro Baltasar, de pele escura e barba cerrada, que pela mirra significou que o Filho do Homem deveria morrer para a salvação dos homens”.

Os magos foram homenagear o rei dos judeus que acabara de nascer


É preciso ressaltar a fé e a grandeza da alma dos Magos, que em uma cidade real procuravam outro rei, em vez do monarca reinante, sem temer a ira e o poder de Herodes, porque confiavam em Deus.

É provável que alguns outros, além dos Magos, tenham visto a estrela. Pois, se ela era grande, brilhante e visível para eles, por que não o seria para outros? Deus quis que Cristo fosse conhecido por todo o mundo. Ainda assim, ninguém seguiu a estrela com os Magos, tanto por não lhe entenderem o mistério, quanto por causa dos cuidados mundanos. Aprendemos assim quão necessária é a graça poderosa e eficaz para buscar a Cristo. A respeito disso nos admoesta São João: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o atrair” (Jo. 6, 44). O eclipse do sol, que ocorreu durante a Paixão de Cristo, foi visto em Atenas por São Dionísio Areopagita, e ele se converteu posteriormente ao saber que o eclipse fora no mesmo dia e hora da crucifixão de Nosso Senhor.

O autor da Obra imperfeita sobre São Mateus, citado por São João Crisóstomo, afirma que, depois da Ressurreição de Cristo, o Apóstolo São Tomé foi ao país desses Magos, batizou-os e os associou à obra da pregação do Evangelho. Não poucos exegetas afirmam que esses Magos, enquanto pregavam a Cristo, foram mortos pelos idólatras e ganharam a coroa do martírio. Eles se ofereceram a si mesmos em holocausto a Cristo, como ouro, incenso e mirra. Em sua Crônica, L. Dexter diz que “na Arábia Feliz, na cidade de Sessânia, ocorreu o martírio dos três santos Reis Magos, Gaspar, Melchior e Baltasar”. De Sessânia seus restos sagrados foram trazidos para Constantinopla, de lá para Milão, e de Milão para Colônia, onde são venerados por grande concurso de fiéis.

A estrela que era do Rei dos judeus

A estrela era do Rei dos judeus, isto é, de Cristo ou Messias recém-nascido. Parece que daí essa estrela estendeu seus raios com maior comprimento e brilho na direção de Judéia — da mesma maneira que os cometas alongam suas caudas em direção a tal ou tal país — para que os magos entendessem que deveriam ir em direção da Judéia, onde o Messias nasceria. Sabiamente diz São Gregório: “Todos os elementos testemunharam que seu Criador havia chegado. Os céus O reconheceram como Deus, e assim enviaram sua estrela. O mar O reconheceu, sentindo-O andar sobre suas ondas. Quando de sua morte, a Terra O reconheceu pelos terremotos. O sol O reconheceu ocultando seus raios. E também as rochas e as pedras ao se romperem. O inferno O reconheceu, ejetando os mortos que continha. Contudo, Aquele a quem os elementos inanimados sentiram ser o Senhor não foi reconhecido como Deus pelos corações dos judeus incrédulos” (Hom. 10).

Os Magos, ao verem a estrela, souberam que Cristo havia nascido

Balaão havia profetizado a respeito: “Nascerá uma estrela de Jacó” (Num. 24, 17). Mas os Magos eram sucessores de Balaão, e também sabiam por meio da Sibila que essa estrela era precursora de Cristo. Essa é a opinião de São Basílio, São Jerônimo, Orígenes, São Leão, Eusébio, Próspero, São Cipriano, Procópio e outros. Donde Suetônio (De vita Caesarum, Vespasianus) e Cícero (lib. 2, de Divinat., e Orosio, lib. 6, c. 6) dizerem que era então uma crença geral que um rei surgiria da Judéia e teria um domínio universal.

Provavelmente por um instinto e uma revelação divina, inspirados por um dom celestial, “eles ouviram uma língua do céu dizer-lhes que Cristo nascera na Judéia. E assim seguiram a estrela até Belém e o berço de Cristo” (Santo Agostinho, Serm. 2 de Epiph.). Com efeito, o brilho e a majestade da estrela de tal modo eram grandes, que os Magos entenderam que ela pressagiava algo divino, isto é, a vinda de Deus encarnado, como lhes inspirou o Espírito Santo.

O semblante divino de Cristo menino lançava um raio de luz celestial que iluminava os olhos, mas sobretudo a mente dos Magos, de modo que eles percebessem que aquele recém-nascido não era um mero homem, mas o Deus verdadeiro. Pois, como diz São Jerônimo comentando o nono capítulo de São Mateus: “O esplendor e a majestade da divindade oculta, que brilhava mesmo em seu rosto humano, foram capazes de atrair imediatamente aqueles que O contemplavam”.

A estrela de Belém seria um novo astro? Um anjo?

Nada mais apropriado do que uma estrela para conduzir os três Reis Magos a Cristo, o Rei dos reis, pois uma estrela tem a aparência de uma coroa real, com seus raios resplandecentes. Portanto, uma estrela é um emblema de um rei e de um reino, donde Deus prometer a Abraão: “Olha para o céu; e conta, se podes, as estrelas”. Depois acrescentou: “Assim será a tua descendência” (Gen. 15, 5). Aqui Deus designou os reis de Israel e Judá que deveriam brotar de Abraão, mas especialmente a Cristo Rei. Por isso Deus diz a Abraão explicitamente: “E de ti sairão Reis” (Gen. 17, 6). Assim diz São Fulgêncio: “Quem é esse Rei dos judeus? Pobre e rico, humilde e exaltado, carregado como um recém-nascido e adorado como um Deus; pequeno na manjedoura, imenso no céu, indigente entre panos, precioso entre as estrelas” (Serm. in Epiph. 5).

Pode-se perguntar de que tipo e quão grande foi essa estrela. Era da mesma natureza das demais? Ou era peculiar e diversa delas? O autor de De mirabil. S. Script. sustenta que essa estrela era o Espírito Santo, que desceu sobre Cristo como uma pomba, e por meio de uma estrela guiou os Magos (livro 3, c. 40). Orígenes, Teofilato, São Crisóstomo e Maldonado pensam que se tratava de um anjo; porque, de fato, um anjo era motor e, por assim dizer, condutor da estrela. Outros defendem que era um astro real semelhante ao que apareceu na Constelação de Cassiopeia no ano de 1572 d.C. Ainda outros pensam que era um cometa. Mas eu respondo que era uma estrela nova e desconhecida, inteiramente diferente de outras estrelas, formada pelos anjos para arrebatar a admiração dos Magos e levá-los à certeza do presságio de algo novo e divino.

Era superior às outras estrelas em nove privilégios e portentos:

1.       Quanto à sua criação, esta estrela superou todas as demais, que foram produzidas no quarto dia da Criação (Gen. 1, 14), enquanto aquela foi produzida na própria noite da Natividade de Cristo. Era, portanto, uma nova estrela, nunca vista antes nem depois desse período. Assim comenta Santo Agostinho (liv. 2, Contra Faustum, c. 5).

2. Quanto à matéria, os anjos formaram-na a partir do ar condensado, infundindo-lhe seu esplendor.

3. Quanto ao local, as demais estrelas estão no firmamento, mas essa estava na atmosfera. E precedeu os três Reis Magos em sua viagem da Arábia à Judéia.

4. Quanto ao movimento, as estrelas se movem em círculos, mas essa de modo linear. Com efeito, ela procedeu em uma linha reta do Oriente para o Ocidente.

5. Quanto ao tempo, as estrelas brilham apenas à noite, e a luz do sol as obscurece durante o dia. Mas essa era claríssima, tanto de dia quando brilha o sol, quanto de noite.

6. Quanto à duração, as estrelas brilham continuamente, mas essa brilhou de modo temporário, apenas durante o período da viagem dos Magos, desaparecendo depois.

7. Quanto ao tamanho, as estrelas são maiores que a Terra e a Lua, mas essa foi menor. No entanto, parecia maior porque estava mais próxima da Terra. Assim como a Lua parece maior que as estrelas fixas, porque está mais próxima de nós, embora na realidade seja muito menor.

8. Quanto à mobilidade, essa estrela às vezes se escondia, como em Jerusalém, outras vezes se mostrava visível e era guia da viagem. Quando os Magos avançavam, ela avançava; quando descansavam, ela descansava. Por fim, pairou sobre a casa onde estava o Menino Jesus. Realizada sua missão, ela desapareceu. As outras estrelas não têm essa propriedade.

9. Quanto ao esplendor, ela superou todas as demais estrelas. Santo Inácio, que viveu pouco tempo depois de Cristo, assim escreveu em sua Epístola aos Efésios: “A estrela brilhou para superar em brilho tudo o que havia antes. Sua luz era indescritível e impressionou a todos que a viram”. E Prudêncio, em seu hino para a Epifania: “Aquela estrela que ultrapassa o sol em beleza e esplendor”. São João Crisóstomo diz a mesma coisa. Donde São Leão dizer no Sermão de Epiphania“Uma nova estrela apareceu na região do Oriente aos três Reis Magos. Era mais brilhante e mais bela que todas as outras estrelas. Atraiu para si os olhos e a mente dos que a contemplavam, de modo que se percebeu imediatamente que essa visão estranha não era sem propósito”.

Vimos sua estrela no Oriente

Suárez acrescenta que a estrela só brilhava durante o dia em locais próximos aos Reis Magos, mas estava mais alta durante a noite e era menos visível. Os Magos eram astrônomos, e foram chamados de modo muito adequado por uma estrela. Por isso mesmo sabiam que essa não era uma estrela comum, mas um prodígio que anunciava um acontecimento divino. Assim entenderam que havia nascido o Criador e Senhor das estrelas, a Quem todas as demais obedecem. Por isso a Igreja celebra com tanta solenidade a Festa da Epifania, na qual os Magos foram chamados a adorar Cristo, porque neles e por eles começou o chamado e a salvação dos gentios.

No sermão de Epiphania, diz São Leão: “Diletíssimos irmãos, reconheçamos nos Magos, que adoraram Cristo, as primícias de nossa vocação e de nossa fé. E com a alma exultante celebremos o início da bem-aventurada esperança, pois começamos a entrar na posse de nossa herança eterna”. E Santo Agostinho confirma: “Os Magos foram as primícias dos gentios, e nós somos o povo dos gentios. Isso nos foi anunciado pela língua dos apóstolos, mas aos Magos o foi pela estrela, como uma língua do céu. E os apóstolos, como outros céus, nos narraram a glória de Deus” (Serm. 2 de Epiph.).
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* Fonte: Cornelius a Lapide, Commentaria in Scripturam Sacram, in Matthaeum, Cap. II, Ludovicus Vives, Paris, 1860, vol. 15, pp. 70-78.


Cornélio a Lapide

Exegeta belga, nasceu em Bocholt, no Limburgo flamengo, no dia 18 de dezembro de 1567; morreu em Roma, a 12 de março de 1637. Estudou humanidades e filosofia nos colégios jesuítas de Maastricht e Colônia. Cursou teologia durante um semestre na Universidade de Douai, e depois, por quatro anos, em Louvain. Entrou para a Companhia de Jesus em 11 de junho de 1592. Após dois anos de noviciado, e mais um de teologia, foi ordenado sacerdote em 24 de dezembro de 1595. Ensinou filosofia durante seis meses, e em 1596 foi nomeado professor de Sagrada Escritura em Louvain; no ano seguinte, professor de hebraico. Vinte anos depois, na mesma qualidade de professor, seus superiores o enviaram a Roma, onde granjeou grande fama no exercício do magistério. Nos últimos anos de sua vida, devotou-se exclusivamente a terminar e corrigir seus famosos comentários.



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