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sábado, 4 de novembro de 2017

A FAMÍLIA AMADO - José Pereira da Costa

A família Amado


            O progresso da região cacaueira e sua fama deram lugar aos comentários, promovendo a presença de várias famílias de outros estados, de linhagem, porém empobrecidas, a virem residir nessa região, tal como vieram os flagelados da seca nordestina, e da Guerra de Canudos. Dentre outras está a família Amado, com cerca de 18 membros. Os primeiros aqui aportados foram os srs. João e Álvaro Amado, os quais passaram a residir em Ferradas, onde começaram a vida com o ramo de vendagem de leite adquirido nos produtores  dos distritos e vendido em Itabuna. Mais tarde tornaram-se  conhecidos pela alcunha de “Leite com Água”. Desta ou daquela maneira, não tardou que “Leite com Água” se tornassem senhores do mercado do produto.

            Quando em 9 de abril de 1909, o estudante Gileno Amado aqui chegou, já foi recebido por seus tios, não mais como simples homens do povo, e sim por dois caudilhos políticos, pertencentes ao grupo Leonista, tanto assim que deles nasceu sua acolhida  junto a Olintho Leone sendo aproveitado através de sua inteligência para servir no seu júri, como promotor “ad-hoc”, em vista da falta  do promotor de Ilhéus. Leone absolvido, em sinal de gratidão lhe nomeou secretário da Intendência de Itabuna, da qual era o atual intendente. Dali saiu em 1910, para o Rio de Janeiro, para concluir seus estudos à custa da Intendência de Itabuna, onde formou-se em fins de 1911, voltando a Itabuna.

            Graças ao prestígio político de Olintho foi eleito, em 1912, deputado estadual. Com a morte do Dr. Olintho e do Cel. Fernando Dourado, seu sucessor, a estrela do Dr. Gileno apagou um pouco, mas teve tempo de trazer de Itaporanga, em Sergipe, todos os restantes da sua família. Voltando a política novamente para suas mãos,  nomeou logo o Cel. Melquisedeque, seu pai, como 2º Tabelião de Notas de Itabuna, e seus irmãos em cargos diversos. Em 1918, elegeu-se deputado federal e, em 22, intendente de Itabuna, onde montou sua máquina na política, que só o acaso lhe levou ao chão. Isto porque não se conformando com as atitudes do Dr. Seabra quando escolheu  Dr. Calmon para lhe suceder no governo do Estado, daí seu rompimento com aquele governador e seu afastamento imediato das posições políticas de Itabuna, passando a residir no Rio de Janeiro, em verdadeiro ostracismo.

            Mesmo assim precisou voltar a residir em Itabuna, para estar ao lado de seus amigos, daí sua volta à política onde após a vitória da Revolução de 1930, foi ele aproveitado pelo interventor Juracy Magalhães assumindo as diretrizes políticas de Itabuna, com seus amigos chegando a ser secretário da Fazenda, e mais tarde, no governo constituído do Sr. Juracy Magalhães, em 1958, foi escolhido para o cargo de secretário sem pasta, no quatriênio (1958 a 1961) e distinguiu-se nesta região, através dos seus atos.

            O mais admirado em tudo isso é que tendo o Dr. Gileno e todos os seus parentes residido em Itabuna, tendo a melhor acolhida, deles até se capitalizando como João, Álvaro e Gileno Amado, não existe ninguém que aponte qualquer pedra assentada em Itabuna por alguém desta família quando era dirigente. Dirá o adágio: “Aí está a ação fraternal!...” Puro engano. A Ação Fraternal é obra de dona Amélia. Dona Amélia Amado, apesar de ter nascido do lado do Cel. Misael e casada com um Gileno Amado, deu notícia ao mundo que pertence a qualquer casa da divindade, daí sua obra, Ação Fraternal. Não quero com isso dizer que eles fossem indesejáveis, falo apenas que foram pessoas ingratas e que viveram para  a vida lucrativa, haja vista que se ouviu falar por muito tempo que quando Misael morreu seus parentes pagaram a várias pessoas para chorar a sua morte. Na morte de Dr. Gileno, nem mesmo pago pelo Alcântara, seu parceiro, o povo conseguiu chorar e levá-lo a sua última morada.


               Por falar em José de Almeida Alcântara, preciso também relatar este fenômeno. Foi nos idos de 1930, que aqui chegou esse moço de boa aparência, procedente da cidade de Caravelas, neste estado, nomeado coletor estadual da vila de Itaúna, hoje cidade de Itapé, tornando-se em pouco tempo estimado, dado à sua popularidade. Pôde por em prática a sua intenção. Alcântara foi um daqueles que desejava ser grande e para isto ele teve um plano – ser útil à humanidade. Como coletor, tudo fazia em favor do cliente, desprezando muitas vezes até seu interesse e do Estado para facilitá-lo. Sua mão sempre se encontrava estendida a todos os necessitados. Neste dilema constituiu família, desprezando muitas vezes suas necessidades para atender ao próximo. Sem outros recursos  para atender a falanges de precisados foi lançando mão do dinheiro da coletoria sob sua guarda, até que caiu em insolvência. Foi surpreendido por uma denúncia do seu próprio escrivão ao Tesouro do Estado. Com a denúncia, veio a fiscalização e esta apurou os desvios de cerca de 700 contos de réis, e, como ele não tivesse esse dinheiro em mãos para cobrir os desvios, foi afastado do cargo e lhe dado um prazo de 30 dias para recolher aquela importância, sob pena de ser demitido e processado por peculato. Nesta altura, dizem que o seu sogro lhe emprestou a importância e ele pagou ao Estado e voltou ao seu lugar. Acontece que Alcântara, em vez de se abster daquele modo de proceder, continuou a mesma vida e quanto mais os dias se passavam mais aumentava o número de pedintes e sua fama crescia. Foi ameaçado de ser afastado do cargo, por mais outro desfalque de cerca de 3.000 contos de réis, e como não tivesse dinheiro para pagar ao Tesouro do Estado, fora demitido e processado, passando a viver nos esconderijos e perseguido pelos políticos para lhe tirarem a fama e o prestígio popular. Acontece que mesmo processado e perseguido. Acontece que mesmo processado e perseguido, o eleitorado lhe dava preferência para os seus apresentados. Daí os políticos lhe temerem. Certa feita, houve um derrame de selos falsificados do Tesouro do Estado, Alcântara foi caluniado em ser conivente, sendo pedida a sua prisão vivo ou morto. Sendo preso e posto na geladeira por 12 horas, e solto sob fiança pessoal do Dr. Vieira de Melo. Apurado o ‘derrame’ Alcântara nada tinha com aquele caso. Deste modo passou ele 10 anos vivendo dias e noites sem muito sossego, quando certo político lhe procurou e disse: “Trabalhe por minha candidatura e se for eleito lhe absolverei”, efetivamente aquele candidato foi eleito com estrondosa votação pelo município de Itabuna, e a promessa de Alcântara foi cumprida. Alcântara no próximo quatriênio se candidatara a prefeito de Itabuna levando a melhor, fruto de seus trabalhos e de sua perseverança, tornando-se um ídolo do povo de Itabuna. Após seu mandato de prefeito, foi eleito deputado estadual, onde se distinguiu, sendo novamente eleito prefeito de Itabuna em cujo cargo, após dois anos de governo, viera a falecer. Se isto não tivesse acontecido era de se esperar sua votação novamente na câmara Estadual ou Federal, e talvez até ao governo do Estado.

            O sul do estado da Bahia deu o maior líder político já visto. Sonho realizado de um gênio que atravessando os maiores impasses de sua vida através do sofrimento, tornou-se o maior líder popular de todo o estado da Bahia. Após sua morte, seu prestígio político conseguiu eleger mais dois prefeitos em Itabuna, o primeiro em sua substituição para o término do seu mandato e o segundo o Dr. Simão Fitermann  para completar sua obra.

Alcântara levava milhares à praça em seus comícios, passeatas, etc. seu lema era De colher.


(TERRA, SUOR E SANGUE – HISTÓRIA DA REGIÃO CACAUEIRA, Cap. XX)

José Pereira da Costa

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