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sexta-feira, 8 de março de 2024

8 de Março – Dia Internacional da Mulher


Sione Porto

Advogada e membro da Academia de Letras de Itabuna-BA

 

A comemoração da data destaca a importância das mulheres na sociedade e a história da luta pelos seus direitos: como combate ao preconceito, à desvalorização e ao desrespeito, exigindo-se, ainda, igualdade de condições de trabalho e liberdade.

Esta data importante de 8 de março não foi aleatoriamente escolhida, haja vista ser uma homenagem às operárias grevistas de uma fábrica têxtil na cidade de Nova Iorque, as quais reivindicavam carga horária de 10 horas de trabalho, das 16 trabalhadas. Nessa ocupação, a fábrica foi fechada e 130 grevistas teriam morrido carbonizadas no ano de 1857.

Temos outras datas significativas pleiteadas pelas mulheres, por exemplo, em 1691, mulheres do estado de Massachussetts também fizeram suas reivindicações por direitos iguais, como o voto, inobstante, em 1789, venham a perdê-lo.

Em 1788, o político, filósofo e revolucionário francês Jean Antoine Nicolas de Caritat, marquês de Condorcet, reclamou para as mulheres os direitos à educação e participação na vida política, além do acesso ao emprego. Quatro anos depois, em 1792, no Reino Unido, a feminista inglesa Mary Wollstonecraft publicou um texto a respeito das desigualdades femininas: “Direito das Mulheres, injustiças dos Homens”.

Poderíamos citar inúmeros artigos pela luta das mulheres e sua pressão espalhada pelo mundo reivindicando direitos e liberdade. O Dia Internacional da Mulher, em 8 de março e em todos outros dias, deveu-se, como comprovou a história, ao fato das desigualdades femininas em relação aos homens, que se julgavam superiores, seja no setor político, direito de votar, empregos e salários.

No ano de 1840, nos Estados Unidos, Lucretia Mott lança os alicerces da Equal Rights Association, igualmente pleiteando direitos iguais para mulheres e negros.

Na América do Sul, Brasil e Argentina se movimentaram no combate às desigualdades contra as mulheres, posto que, através dos séculos, as mulheres eram vistas como um ser inferior, consideradas mera reprodutoras pelos maridos para lhes permitirem somente o prazer. Porém, com a evolução dos tempos e denúncias, a igualdade foi em parte alcançada.

Em 1908, operárias americanas de Nova Iorque, que trabalhavam na fábrica de camisas Triangle Shirtwaist, também reivindicaram seus direitos e redução de carga horária.

Três anos depois, em 1911, cerca de 145 trabalhadores (mulheres em sua maioria) morreram num incêndio ocorrido numa fábrica de tecidos novaiorquina.

No ano de 8 de março de 1917, após o fim da Primeira Guerra Mundial, 90 operárias russas promoveram um protesto por melhorias de trabalho e contra as ações do Czar Nicolau II, que ficou conhecido como Pão e Paz.

Na II Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, ocorrida na Dinamarca em 1910, Clara Zetkin, marxista alemã, propôs a criação de um dia para as mulheres, levando em consideração o evento russo de 8 de março de 1917. Porém, somente em 1975, a ONU instituiu o 8 de março como o Dia Internacional da Mulher.

Ilustres mulheres feministas se posicionaram a favor dos direitos e igualdades das mulheres, como a já citada escritora, filósofa e defensora dos diretos das mulheres Mary Wollstonecraft; a escritora francesa Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir, mais conhecida como Simone de Beauvoir; as brasileiras Maria Guilhermina Loureiro de Andrade, educadora e intelectual, a feminista, escritora e abolicionista Nísia Floresta, a cientista Bertha Lutz e a ativista Maria da Penha Maia Fernandes, que deu nome à Lei 1.340/06 – Lei Maria da Penha, que veio proteger as mulheres contra qualquer tipo de violência, física, moral, patrimonial e psicológica contra ela.

quinta-feira, 7 de março de 2024

Um Pouco da Vida do Pai

Cyro de Mattos



          A mãe contou ao filho um pouco da vida do pai quando era rapaz. Nunca teve ajuda de ninguém para sobreviver na dura lei da vida. Chegar ao que chegou como homem dono de um patrimônio respeitável, sem nunca ter cursado uma escola, aprendendo a ler, escrever e fazer conta com esforço próprio, era para aplaudi-lo sem economizar as palmas. Fizera o patrimônio com esforço, muito trabalho e esperteza nos negócios. Era por isso que pessoas na cidade não hesitavam em dizer que o pai era um homem admirável, exemplo de vida que deveria ser seguido por outras pessoas, que quisessem fazer fortuna.

          O pai trabalhou na roça de fazendeiro rico quando rapazinho, o buço sombreando o lábio. Roçou pasto de plantas daninhas com foice e facão afiados, limpou chácaras e represas com água no pescoço. Derrubou com o machado árvore grande que servisse para fazer tábua, estaca, ripa, peça para esteio, cancela e cumeeira de casa.

          Fez calo nas mãos, de tanto derrubar a árvore com o machado. Veio para a cidade e passou a ser balconista numa loja da rua do comércio, que vendia artigos para campo e cidade. O dono da loja deixava que o pai dormisse embaixo do balcão. Acordava cedo, perto de clarear o dia. Fazia o café num pequeno cômodo, nos fundos da loja. Bebia sem um pingo de leite, acompanhado do pão amanteigado. Usava para fazer o asseio do corpo o pequeno banheiro da loja, com uma pia, chuveiro e vaso sanitário. Era ele quem cedo abria a loja para o movimento do dia.

          Juntou dinheiro com parte do ordenado que ia ganhando a cada mês e se afastou do emprego de balconista na loja. Comprou uma vendola de beira de estrada, nos arredores da cidade. Acordava de madrugada, fazia a refeição do café da manhã, a seguir abria a porta da frente da vendola. Morava num cômodo estreito, ele mesmo lavava sua roupa no riacho que passava nos fundos da vendola. Ensaboava, enxaguava, botava para secar no varal. Com a roupa seca e limpa, usava o ferro de passar para deixá-la pronta de ser usada na semana. De segunda a sábado, atendia na vendola os que passavam para o trabalho na cidade e ali paravam para comprar alguma coisa ou os que voltavam das compras que faziam no comércio e se dirigiam para as roças com os burros carregados de mantimentos.

          A vendola fora o começo de tudo para o pai fazer o patrimônio. Foi dela que teve umas rendas miúdas, mas frequentes, dando para juntar o dinheiro que ganhava, guardado no baú. Foi assim que com trabalho e tirocínio construiu a primeira avenida de casinhas no outro lado do rio. Quando isso aconteceu, ele mesmo era o pedreiro, às vezes fazia o papel de servente da obra, mexendo com a enxada a massa de cimento, misturando-a com areia e um pouco de água, derramada na lata, até que desse no ponto para levantar e rebocar a parede de tijolo.

          Tempos depois deu para comprar terrenos baldios nos bairros e centro da cidade. Comprava casas velhas, reformava-as para que fossem alugadas. Um dia adquiriu uma pequena fazenda de cacau naquela região que tinha a fama de possuir a terra fértil, onde tudo que se plantava dava com fartura. Como as estações eram temperadas de sol e chuva, o que se plantava vingava na hora certa.


(Capítulo do romance Do Menino Se Fez o Homem, em andamento para ser impresso, com o selo editorial da Fundação Casa de Jorge Amado, de Salvador.)

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Cyro de Mattos é escritor e poeta. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Publicado nos Estados Unidos, Dinamarca, Rússia, Portugal, Espanha, Itália, França e Alemanha. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor  Honoris Causa pela UESC.

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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

 

Um Marujo na Folia

    Cyro de Mattos

 


Os amigos resolveram organizar um bloco para brincar pela primeira vez o Carnaval nas matinês do Clube Social e Recreativo de Itabuna. A fantasia era simples, toda branca. Sapato preto, meias de cano longo, calça curta de brim, camisa de algodão, a manga curta, colar colorido de papel crepom ao redor do pescoço e boné de marinheiro.  O bloco ia se chamar “Os Marujos na Folia”. Beto, que era o mais velho de todos, falou que o bloco teria onze componentes, como num time de futebol, adiantando logo que eu não podia ficar de fora, já que participava de todas as aventuras e brincadeiras dos meninos lá da Rua do Quartel Velho.

O menino só podia brincar o Carnaval nas duas matinês que o clube social oferecia, no domingo e terça-feira, se o pai fosse um dos integrantes do quadro dos associados. Beto sabia que meu pai não era associado do clube, mas me prometeu que ia pedir ao pai dele que falasse com o meu para contornar o problema. Soube depois que meu pai se negou a se tornar sócio do clube. 

A recusa de meu pai deixou-me triste e preocupado. Ficava sem sair no bloco “Os Marujos na Folia”, e, por isso mesmo, não ia brincar com os amigos o Carnaval nas duas matinês que o clube oferecia todos os anos. E uma das coisas que qualquer menino mais desejava era brincar o carnaval nas matinês do único clube social da cidade. Ali estava a grande oportunidade para conquistar uma namorada.  Mesmo que o namoro durasse apenas aquelas duas animadas tardes de carnaval no salão do clube. Consistisse em pegar na mão da menina, de vez em quando passar o braço no ombro dela, trocar olhares ingênuos e sair cantando com a eleita, dando voltas e voltas pelo salão.

Nas matinês animadas, os foliões mirins jogavam serpentina para o alto, confete e lança-perfume uns nos outros. Cantavam as marchas ou sambas que eram tocados pela orquestra “Bambas da Alegria”.

Minha mãe pediu ao pai, insistentemente, que se tornasse sócio do clube. Adiantou-lhe que a fantasia ela mesmo fazia para o filho. Ele ficou irredutível, alegando que quando fosse pagar a mensalidade do clube podia não ter o dinheiro, ia passar vergonha. Não queria também sacrificar coisas mais importantes que a vida exigia para comprar, como comida, roupa, remédio e escola do filho, em razão de ter de saldar esse tipo de compromisso em todo mês com o clube.

- Eu é que sei o quanto me custa arranjar dinheiro para sustentar a família – dizia meu pai com o rosto sério. – Não quero falar mais sobre esse assunto – concluía, sem querer saber dos argumentos que a mãe alegava para fazer com que ele mudasse de atitude e desse aquele prazer ao filho – o de brincar pela primeira vez o Carnaval no clube com os amigos.

Quando parecia que tudo estava perdido, chegou-me não sei de onde aquela ideia como que acesa por uma pequena luz, que de repente passava a iluminar o caminho para que eu fosse brincar o carnaval no clube. Lembrei-me do porão da casa abandonada, vizinha do prédio do clube social. Era ali que fazia meu esconderijo quando brincava de mocinho e bandido com a turma. Havia no esconderijo aquele quadrado vazio na parede lateral, deixado provavelmente com a retirada duma janela carcomida pelos cupins. Sabia que por ali qualquer pessoa podia passar e, em poucos minutos, estava na quadra de basquete do clube. Tinha feito isso várias vezes, deixando os amigos a ver navios, quando eu era o mocinho perseguido por um bando de bandidos perigosos.

Falei com Beto sobre meu plano. Dez minutos antes de começar o baile, a turma do bloco “Os Marujos na Folia” devia estar na quadra de basquete do clube. Ficaria ali em frente ao buraco grande na parede lateral do porão da casa abandonada, como se estivesse tapando-o. Formaria um tapume humano, protegendo-me quando eu passasse pelo buraco e adentrasse naquela parte do clube. O plano era simples e seguro. Tinha tudo para dar certo.

Disse no outro dia à minha mãe que fizesse minha fantasia de marujo, tinha resolvido ir ver o Carnaval de rua com as caretas, os blocos, as batucadas e os afoxés de caboclo.  Era melhor do que ficar em casa zangado porque não estava com os amigos lá no clube, caindo na folia. Ela fez a fantasia no mesmo dia em que lhe dei aquela notícia na segunda semana de fevereiro. Estava satisfeita, o dia inteiro dera vida à máquina de costura com as mãos e pernas ativas, enquanto fazia a minha fantasia. Cantava alegre, sabendo que o filho caçula não ia chorar nem tampouco ficar triste porque não ia brincar  o Carnaval no clube com os amigos, fantasiado  de  marujo.

Ela sorriu quando soube pela mãe de Beto, na Quarta-Feira de Cinzas, como foi que eu tinha entrado no clube para brincar o Carnaval no bloco “Os Marujos na Folia”. Ficou sabendo ainda que o filho tinha sido o único dos meninos do bloco que namorou Glorinha, a filha de doutor Barreto, o médico que era diretor do Hospital da Santa Casa de Misericórdia. Ela era a menina mais bonita da cidade, a mais cobiçada pelos meninos filhos das famílias ricas, revelou a mãe de Beto.

No namoro com a Glorinha, dava várias voltas de mãos dadas com a eleita pelo salão, cantando a todo pulmão, entre outras marchas, “Linda Lourinha”, “As Pastorinhas“, “Pirata da Perna de Pau”,  “Chiquita Bacana”, “Jardineira” e a do  gafanhoto,  que era a minha preferida.

 

 

Gafanhoto

deu na minha roça,

comeu, comeu

 toda minha plantação,

xô gafanhoto, xô, xô,

deixa um pé de agrião

 para o meu pulmão,

 gafanhoto, isso não se faz,

deixa minha roça em paz...

 

(Do livro Nada Era Melhor, infância romanceada) 


 Cyro de Mattos é escritor e poeta. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Publicado nos Estados Unidos, Dinamarca, Rússia, Portugal, Espanha, Itália, França e Alemanha. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor  Honoris Causa pela UESC.

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segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

Salve Yemanjá!

Sione Porto

 


Celebrado no dia 2 de fevereiro dia de nossa Senhora dos Navegantes, Yemanjá rainha do mar generosa protetora dos pescadores e da fertilidade, recebe vários nomes, como : Janaína, Dandalunda, Princesa do mar e sereia, dentre outros nomes. 

A Magnifica senhora das águas, mar, rios e lagoas em todo o Estado da Bahia e capital tem a maior festa popular comemorada em 2 de fevereiro. 

Temos no Rio de Janeiro, sua maior comemoração na passagem do ano.

Citada como vaidosa a deusa do mar recebe muitas oferendas, como flores, joias preciosas, perfumes, sabonetes, bijuteria, bonecas e até comida, cuja grande comemoração em Salvador ocorre no largo do Rio Vermelho. 

Além desta comemoração do dia 2 de fevereiro, comemora-se também em 8 de dezembro, 31 de dezembro e 15 de agosto. 

Diz ainda a lenda que Yemanjá filha de Olokum, soberano dos mares recebeu uma porção mágica do pai para fugir dos perigos.

Se casou várias vezes, o primeiro marido Orumilá era conhecido como orixás dos segredos não teve filhos. 

Casando com Olofim – Oduduá teve 10 filhos que se tornaram Orixás.

Salve Yemanjá e sua prole! 

Devido após os partos, ter ficado com os seios grandes, foi caçoada  por Olofim, assim fugiu  e veio a se apaixonar pelo Rei Okerê.

Okerê, da mesma forma que Olofim veio a caçoar dos seios grandes de Yemanjá, então novamente ela fugiu usando a porção que o pai lhe dera. 

Com medo de perder Yemanjá Okerê se transformou em uma grande montanha para impedir que ela conseguisse fugir. 

A magnifica Yemanjá com ajuda do filho Xangô, encontrou o oceano e se tornou Rainha do mar. 

Salve Sereia das Águas e do mar – Mãe dos Orixás. 

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Sione Maria Porto de Oliveira.

Membro da Academia de Letras de Itabuna (Alita)


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