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quinta-feira, 14 de setembro de 2023
A propósito do conto machadiano Pílades e Orestes (ou casadinhos de fresco)
O colega fazia
conferência no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, no centro do
Rio, no belo prédio construído nas primeiras décadas do século XIX, onde
funcionou a Academia Real Militar. O IFCS vai tremer, me confidenciou ele, que
chegou ao local junto comigo. Ele faria a conferência ao lado de um professor
da Universidade de Berlim, um dos maiores militantes da causa gay na Europa, o
colega precisou. Gênero, identidades e política o tema. O professor brasileiro
abriu a conferência. Leu umas frase que me soaram conhecidas.
- "A união dos
dois era tal que uma senhora chamava-lhes casadinhos de fresco". Me
lembrei das frases no conto Pílades e Orestes, do Machado . Nunca pensara em
Quintanilha e Gonçalves (os personagens do conto) desse prisma. Mas me
assustei. Alguém da plateia interrompeu brutalmente a exposição gritando "
você não vai nos dizer que Machado de Assis escreveu texto com esse viés de
gênero!"
Outros levantaram a
voz criticando o exaltadinho, pedindo silêncio. A coisa logo degringolou.
Choveram acusações, houve quem cuspisse em vizinhos de cadeira na plateia. E é
aí que eu entro. O que que o professor da Letras acha? Gelei. Tinha tido um
pesadelo horrível à noite e ainda estava sonolento. Meu professor de Latim do
Colégio Santo Antônio de Blumenau, Frei Odorico Durieux, me passava um sabão:
quer dizer que o meu aluno preferido, que consegue passar para o Português
trechos inteiros da Eneida e verter para o Latim trechos mal traduzidos para o
português, o maior latinista discente que tive até hoje, gosta, como me
disseram, de ouvir música profana que elogia belzebu e a devassidão em pura
blasfêmia?
- É só brincadeira,
respondi. É carnavalização.
Como reação, meus
dois ouvidos doeram com as palmadas tipo telefone desferidas pelo amado
professor. A pergunta da plateia do IFICS doeu igual.
Respondi
academicamente: As pulsões do personagem tornam o pecado uma realidade, mas o
leitor não é o pecador - se existisse pecado aí.
O texto alforria o
leitor . Fez-se silêncio na plateia. Também achei confusa a minha resposta, mas
me abriu espaço para sair e pegar o ônibus em direção ao Fundão. Esqueci de
precisar que madame K. estava comigo no evento - você lacrou, ela disse baixinho.
Até hoje não entendi bem o sentido de lacrou. Fui, através das janelas
embaçadas do busão, apreciando a paisagem carioca saudoso do frei Odorico. Os
ouvidos doíam.
Facebook/ Redes
Sociais, 14/09/2023
______
Godofredo de Oliveira Neto - Sexto ocupante da Cadeira nº
35, eleito em 9 de junho de 2022, na sucessão de Candido Mendes de Almeida e
recebido em 2 de setembro de 2022 pela Acadêmica Ana Maria Machado.
* * *
segunda-feira, 4 de setembro de 2023
CARTA DA NAÇÃO ÀS FORÇAS ARMADAS BRASILEIRAS
Se acham que pediremos mais uma vez, inutilmente, que intercedam pelo Brasil, estão redondamente enganados.
Vocês venceram a sociedade pelo cansaço e pela traição. No
entanto, trata-se de uma vitória amarga, constrangedora. Vocês se lembram de
quando Rubinho Barrichello parou o carro a poucos metros da linha de chegada
para que Schumacher vencesse a prova? O alemão subiu ao pódio sob vaias, e
aquela “vitória” desonrosa manchou as dezenas de outras vitórias que ele obteve
durante sua carreira. Pagou um alto preço pela covardia.
Esse deve ser o provável sentimento de todos os militares
incluindo os que ainda gozam de um mínimo de decência, de vergonha na cara, por
vossa culpa, generais de araques e sem valor. Para esses comandantes, merecem
as mesmas vaias e desprezo que o piloto de Fórmula 1 recebeu na ocasião. A
diferença é que serão vaias muito mais duradouras e que respingarão,
infelizmente, nas pessoas com as quais convivem. Até seus filhos e netos se
envergonharão de vocês.
Deve ser difícil agora levantar cedo e ter que vestir uma
farda diante da esposa e dos filhos. A farda se tornou agora um sinal de
covardia, de submissão, de decadência moral, de vergonha, de conivência com
tudo que há de repugnante. Permitam-nos um trocadilho: convenhamos que,
literalmente, sentirão, mais do que nunca, o peso do fardo, pois nunca tiveram
o respeito de quem agora os governa e perderam o respeito de quem sempre os
defendeu.
Essas medalhas que carregam no peito jamais foram por atos
de bravura, porque de bravos vocês não têm nada, mas de covardia. É uma mistura
de burrice com traição.
Se acham que os anos pós-governos militares foram difíceis
(pelas críticas que receberam da esquerda), não imaginam o que virá pela
frente, pois agora estão sozinhos e sob ordens de quem sempre os odiou e que os
eliminará aos poucos ou os trocarão por cidadãos indignos. Vocês extrapolaram o
limite da indecência ao preferir prestar continência a um ladrão condenado que
a um colega de farda - seu presidente e a autoridade máxima da nação - num ato
de insubordinação, cometendo crime de lesa-pátria e traição previsto no artigo
55 do Código Penal Militar, que prevê fuzilamento por tais atos. É o que de
fato vocês merecem, a pena de morte.
A gota d’água da conduta vergonhosa dos senhores foi o de
ainda conduzirem manifestantes indefesos para um campo de concentração
comunista. Isso chegou às raias da bizarrice. Cena digna de um Gulag de Stalin.
Vocês não perceberam que haviam ali mulheres, idosos e crianças? Pessoas
incapazes de destruir o patrimônio público!
Vocês são mesmo tão ignorantes a ponto de não perceberem que
o quebra-quebra foi articulado por militantes petistas infiltrados? É sério?
Há duas possibilidades: vocês já se venderam à proposta
autoritária deste governo criminoso ou vocês foram feitos de trouxas mesmo.
Qualquer resposta representa a desmoralização final das tropas brasileiras, uma
instituição que gozava do mais alto grau de nossa confiança. Não há
justificativa plausível para aceitarem o estado de absurdos da conjuntura
brasileira com tantos gatunos no comando para causar o caos e dominar o povo
como fez Hitler. Acham mesmo que isso não lhes afetará e que poderão continuar
indo a todos os lugares livremente como antes? Vocês já viraram chacota nas
redes sociais e em breve essa instituição será desmantelada, sucateada por
aqueles a quem se venderam e serão execrados publicamente.
Judiciário opressor, eleições extremamente burladas, um
bandido na presidência, presos políticos, jornalistas censurados, laços com
ditaduras e narcotraficantes refeitos, uma armadilha que cedo ou tarde pegará
vocês também e suas famílias.
Registra-se, neste momento, a página mais vergonhosa e
constrangedora da história das Forças Armadas do Brasil. Os soldados, como os
da gloriosa FEB, que outrora enfrentavam nazistas em prol da liberdade, agora
prestam continência para um bandido comunista, corrupto, que possui estreitas
relações com narcotraficantes, terroristas e ditadores.
Os senhores, por gerações, farão parte da história do dia em
que protagonizaram o enterro do Brasil na lama, desviando-o do caminho que
trilhava para o primeiro mundo e se livrar das ratazanas que sempre o
destruíram.
Quando a velhice vos alcançar, fazemos votos para que o
remorso da covardia devore vossas consciências por todo mal causado a 220
milhões de pessoas por mera vaidade. Um inferno para vocês é muito pouco para a
covardia e desonra causada à nossa Pátria! REPÚDIO E VERGONHA!
A NAÇÃO BRASILEIRA
(Recebi via WhatsApp – autoria não mencionada)
* * *
domingo, 3 de setembro de 2023
De primeiro foi o abecê
Cyro de Mattos
Sem esconder uma certa alegria na voz, a mãe disse:
- Segunda-feira você vai aprender o abecê na Escola Montepio
dos Artistas.
Ela finalizou dizendo que primeiro o menino aprende o abecê,
que são as letras do alfabeto. Depois vai começar a soletrar as palavras para
aos poucos aprender a ler o nome das coisas.
Na pequena pasta de couro havia sido guardado o abecê, o
caderno de caligrafia, outro para os primeiros exercícios de aritmética, um
lápis, uma caneta esferográfica, uma caixa de lápis de cor e uma borracha. A
merenda, pão com queijo, fora embrulhada com papel brilhante comprado na
livraria. Foi posta na sacolinha com a garrafa plástica contendo o suco de uva.
A mãe disse que todos os dias que fosse à escola ia levar a
pasta de couro com os objetos escolares e a merenda escolar. Além disso levaria
também a sacolinha com a garrafa de plástico contendo o suco de uva, uns
palitos e dois guardanapos de papel.
As aulas começavam às 8 horas e encerravam às 11, 30. Havia
um intervalo de meia hora para os alunos merendarem no pátio da escola.
Acontecia às 10 horas.
Entre assustado e receoso tentou se aproximar daquele grupo de meninos da sua mesma idade, talvez cada um com seis anos. Sentou em uma das carteiras que formavam a primeira fileira no salão grande, ventilado e iluminado. No primeiro dia não quis ficar sozinho. Começou a chorar quando ouviu a mãe dizer para ele que viria buscá-lo perto de 11,30 horas quando então voltaria com ela para casa. Pensou inconformado, era muito tempo ficar à espera que a manhã passasse até que a mãe viesse buscá-lo na escola quando encerrasse o dia de aula para os alunos das primeiras lições escolares. Abriu a boca no berreiro quando viu a mãe saindo pelo corredor para deixar a escola pela porta larga da entrada. Todos ficaram assustados com o berreiro dele, nunca havia acontecido isso antes. A professora pediu que a mãe ficasse aqueles primeiros dias com o filho na escola até que ele se acostumasse com os novos colegas num ambiente que lhe era estranho, estava conhecendo pela primeira vez.
Ela só ficou com ele apenas nos dois primeiros dias. Fez
logo novos amigos nos últimos dias da primeira semana de aula, entre os meninos
do seu tamanho. Se esforçou para aprender o abecê o mais depressa. Aprendeu em
boa hora a soletrar os nomes. Não precisava dizer o quanto sorriu de contente
quando começou a soletrar um bocado de palavras, que a professora ia soletrando,
repetindo com paciência, uma a uma.
Na primeira vez em que foi ler um texto pequeno, que falava
do amanhecer numa fazenda, não gaguejou. Foi seguro e rápido. Arrancou aplausos
dos colegas. Em casa contou à mãe que já estava começando a aprender a ler. Era
uma questão de tempo agora para folhear o almanaque do Biotônico Fontoura ou
até mesmo o jornal diário. E então começasse a saber o que acontecia na cidade,
já pensando um dia em conversar com o pai sobre o fato que mais lhe chamasse
atenção.
Tempos depois pensaria que se não fosse o abecê jamais se
tornaria um leitor desejoso de saber mais acerca da vida, cujos movimentos se
manifestavam com o seu modo continuado de acontecer por entre os seres humanos,
em cada dia.
Nem saberia, nos seus detalhes, da importância das coisas criadas por Deus para que existisse o reino perfeito da natureza, com o sol e a chuva, a claridade e a noite, a nuvem e a árvore, o peixe e a água, o pássaro e o canto, enfim, o pai com o trabalho e a mãe como a companheira na construção de uma família com bases no amor e honradez.
Cyro de Mattos é baiano de Itabuna. Escritor e poeta, Doutor
Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Sul da Bahia). Membro
efetivo da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil, Academia de Letras
de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna.
* * *
quarta-feira, 30 de agosto de 2023
Cheiro de bicho na serragem do circo
Céu plúmbeo, o
centro do Rio sombrio e úmido neste sábado, a Academia Brasileira de Letras
impávida. Muitas mortes, poetas, pensadores e prosadores voando. Resta o livro
nas mãos. Ao reler Cruz e Sousa e pensar em Mallarmé e Baudelaire, desponta
inevitável a figura do palhaço, esse bufão tão presente desde o Renascimento
que ora exige risos hiperbólicos, ora cobre de melancolia a plateia
hipnotizada.
As quedas do nosso
simbolista maior das sulistas terras açorianas relembram a fragilidade da
condição humana, a derrota, a impotência, o palhaço esticado no picadeiro após
espalhafatoso passo mal traçado. O rosto enfiado na serragem molhada com cheiro
de elefante é o seu fado.
ACROBATA DA DOR
(Cruz e Sousa)
Gargalha, ri, num
riso de tormenta,
Como um palhaço,
que desengonçado,
Nervoso, ri, num
riso absurdo, inflado
De uma ironia e de
uma dor violenta
Da gargalhada
atroz, sanguinolenta,
Agita os guizos, e
convulsionado
Salta, gavroche,
salta clown, varado
Pelo estertor dessa
agonia lenta...
Pedem-te bis e um
bis não se despreza!
Vamos! reteza os
músculos, reteza
Nessas macabras
piruetas d'aço...
E embora caias
sobre o chão, fremente,
Afogado em teu
sangue estuoso e quente,
Ri! Coração,
tristíssimo palhaço.
Como o poeta sem
lar, abandonado, achincalhado por seu público, sem carinho, sem calor, o
excluído, o desmancha-prazeres. Mas que revela ao mundo a imagem de quem o olha
e lê: palhaço somos nós!
O palhaço zombado e
apedrejado é o avesso do Cristo ultrajado, segundo, se bem me lembro, uma frase
de Starobinski. À seriedade de nossas certezas, o palhaço vibra e desfralda o
escárnio, a derrota e a impotência. Nossa dignidade passa muito por brandir
esse dístico. Um raiozinho de sol acaricia o Rio de Janeiro e a ABL.
Redes Sociais,
29/08/2023
https://www.academia.org.br/artigos/cheiro-de-bicho-na-serragem-do-circo
Godofredo
de Oliveira Neto - Sexto ocupante da Cadeira nº 35, eleito em 9 de
junho de 2022, na sucessão de Candido Mendes de Almeida e recebido em 2 de
setembro de 2022 pela Acadêmica Ana Maria Machado.
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segunda-feira, 21 de agosto de 2023
A saudação de Arno Wehling a José Murilo
O Acadêmico Arno Wehling, titular da cadeira 37, foi o orador oficial da Sessão da Saudade de Jose Murilo de Carvalho, realizada na última quinta-feira, dia 17 de agosto
Leia abaixo, o
discurso proferido:
A homenagem que
hoje a Academia Brasileira de Letras presta a José Murilo de Carvalho é,
contrariamente ao senso comum, também um ritual de passagem. Ritual de
passagem, porque o acadêmico se afasta de nosso quotidiano e ingressa na grande
comunidade que constitui a vida intemporal da Casa. Se a ABL reúne em si
passado, presente e futuro, é porque os que se foram continuam presentes,
independentemente de épocas, estilos, formas de expressão e visões de mundo.
José Murilo de
Carvalho viveu, e viveu intensamente, essa percepção. Ao pesquisar a história
da Academia, deixando-nos os “Subsídios”, com o habitual aparato estatístico
que manejava habilmente, e ao cuidar com desvelo de seu Arquivo, não o fazia
apenas por dever do ofício de historiador, mas pela preocupação em deixar
sempre desperto o espírito acadêmico. Sem isso - conforme entendia - a
instituição não seria capaz de se manter. Sabia, por outro lado, não ser com o
antiquarismo, mas pelo vibrar da vida cultural, que ela continuaria existindo,
geração após geração.
Nessa despedida,
senhor presidente, familiares de José Murilo, querida Norma Cortes, caros
colegas, sei que não devo traçar o itinerário intelectual nem destacar as
vitórias conquistadas. De certa forma já o fiz, com ele presente, nos 70 e nos
80 anos.
Gostaria de
sublinhar a dimensão humana de José Murilo de Carvalho, particularmente
importante numa instituição em que o convívio de pessoas absolutamente díspares
é não só boa prática social como necessidade de realização do próprio ethos da
Casa.
Creio que em abono
dessa pretensão posso invocar alguma experiência. A profissional, sem dúvida,
pois nessa corporação poliédrica de historiadores e cientistas sociais tínhamos
várias afinidades – pertencíamos, afinal, à mesma tribo, como gostava de dizer.
A valorização das instituições, como pude atestar quando de seu ingresso no
Instituto Histórico, na Academia Brasileira de Ciências e na própria ABL. E as
mais prosaicas: éramos vizinhos de bancada nesta sala de sessões – a bancada da
“montanha”, como dizia em alusão à assembleia francesa – colaborávamos
permanentemente na direção do arquivo e das bibliotecas e voltávamos para casa
quase sempre juntos, pois José Murilo alternava minha carona com a de Edmar
Bacha.
A Academia se
despede de alguém cujas qualidades são fáceis de identificar e creio que meus
colegas compartilharão a percepção.
Desde logo, a
seriedade com que considerava tudo, o que se traduzia em cuidado minucioso na
elaboração de juízos e na enunciação das opiniões. Em consequência, muito
equilíbrio e ponderação, presentes em análises percucientes e eventualmente
audaciosas, a que não faltava a elegância na exposição. Como também
eventualmente não estava ausente algum humor crítico, leve ou ácido, em
especial nas exposições orais – atitude que revelava, penso eu, impaciência com
a falta de entendimento para o que lhe pareciam, à cartesiana, “ideias claras e
distintas”.
Esse breve bosquejo
do intelectual, porém, só se completa se lembrarmos o forte perfil ético de
José Murilo de Carvalho. Não é pouco, quando sabemos como na vida em sociedade
são fortes as cavilações, invejas, tergiversações e duplas faces. O homem e a
obra, ao contrário, são íntegros, solares, translúcidos. E arriscaria dizer, lembrando
Joaquim Nabuco, objeto de sua admiração, que este perfil ético é, nele, “o
traço todo da vida”.
Com esses
instrumentos morais e intelectuais José Murilo foi à luta. Impregnado de
racionalidade, mas uma racionalidade que não se confinava ao gabinete de
trabalho ou ao arquivo, antes se apoiava na vida. Certa vez convidou-me para
falar na Academia sobre a ideia de História em Ortega y Gasset, num dos ciclos
promovidos pela Casa. Até hoje não sei o grau de proximidade que tinha com o
pensamento ortegueano – Norma talvez possa elucidar este ponto. Mas creio que a
ele se aplica muito bem não só a orientação raciovitalista como sua motivação.
Diz Ortega:
“O que me é dado ao
ser-me dada a vida é a inexorável necessidade de ter que fazer algo, sob pena
de deixar de viver... Vida é, pois, sempre, queira-se ou não, um que hacer
algo.”
José Murilo dava a
impressão de estar sempre prestes a “fazer algo”. Não, me expresso mal: dava-me
a certeza de que sempre tinha algo a fazer. Mesmo em nossa última conversa, ao
telefone, a despeito do evidente esforço para falar, era o futuro, “o que
tínhamos a fazer”, que importava.
Esse
raciovitalismo, ou essa racionalidade vital, foi canalizada para compreender
seu país. Sabemos que deixa uma das obras mais importantes para a compreensão
do Brasil. Sabemos que há temas da história do Império e da República, como a
atuação das elites, a cultura política, o papel das forças armadas e a
cidadania para os quais deu contribuições que se incorporaram, definitivamente,
à nossa maneira de ver a formação brasileira. Sabemos que foi um pesquisador
para quem, além dos trabalhos individuais, era relevante atuar em equipe, e
liderava exemplarmente.
Não se pode
conhecer o significado das elites oitocentistas e a própria existência do
Império sem passar por seus estudos sobre a escola de minas de Ouro Preto e a
sofisticada caracterização, inclusive estatística, como era seu gosto, que fez
a propósito da “construção da ordem” estatal.
Sobre a cultura
política são indispensáveis, os bestializados, desenhando a dicotomia povo –
República e a visão do “bolchevismo de classe média” do Apostolado Positivista
e seu legado para intelectuais e militares messiânicos e tantos ricos insights
mais.
O livro sobre as
forças armadas termina com uma relação de perguntas instigadoras e um
comentário entre irônico e profético: “por falta de vontade política, de
competência, de capacidade de antecipação, de virtu, como dizia Maquiavel,
podemos ser novamente atropelados pelas rodas da fortuna.”
Seu estudo sobre a
cidadania, aplicando ao Brasil procedimentos de Marshall sublinha outra
dicotomia, a que existe historicamente entre o sistema eleitoral e a efetiva
prática democrática.
Isso, e muito mais,
sabemos e devemos a José Murilo de Carvalho.
O que não sabemos,
excluindo as motivações estritamente acadêmicas, é o porquê dessas escolhas.
Arrisquei uma explicação na comemoração de seus 70 anos: fazia história, como
dizia Goethe, para se livrar do passado. Qual passado? O colonial: dependente,
escravagista, clientelista, patrimonialista, mandonista. Nem por isso caiu em
anacronismos ou juízos de valor intempestivos, antes utilizou seu racionalismo
crítico para compreender sem justificar, e para concluir apontando caminhos.
Disse-me, mais
tarde, que eu tinha sido bastante fiel à sua trajetória e a seus objetivos.
Trajetória, aliás,
que começa com a esperança do jovem dos anos cinquenta, impregnado de
desenvolvimentismo, que esperava ver o país arrancado de seu passado imóvel e
chega ao intelectual da terceira década do século XXI com certo desencanto.
Digo certo desencanto, porque talvez essa percepção esteja mais perto da
visualização de circunstâncias conjunturais do que de uma convicção profunda.
O subtítulo de um
de seus livros mais bem sucedidos, “Cidadania no Brasil – o longo caminho”
talvez explique a razão do desencanto e de certa maneira o relativize. Há um
longo caminho, porque as etapas de construção da cidadania foram, estão sendo,
muito mais demoradas do que todos nós – José Murilo sobretudo – esperávamos.
Entre o jovem Murilo dos anos 50 e o maduro intelectual de setenta anos depois
há duas gerações – ou quatro, para Ortega – que não viram a plena superação do
passado. E tenho a impressão de que o acadêmico de 2023 não se desencantou das
expectativas do jovem mineiro que ele foi; apenas, mais uma vez se impacientou
com a lentidão do processo.
De toda forma, pelo
que representou para a interpretação do Brasil – portanto, para a cultura e a
ciência do país – e para a Academia Brasileira de Letras, José Murilo de Carvalho
será sempre uma referência maior.
18/08/2023
https://www.academia.org.br/noticias/saudacao-de-arno-wehling-jose-murilo
Arno Wehling - Oitavo ocupante de cadeira 37, eleito em 9 de março de 2017, na sucessão de Ferreira Gullar e recebido em 11 de agosto de 2017 pelo Acadêmico Alberto da Costa e Silva.
* * *
sábado, 19 de agosto de 2023
Alexandre Cachorro
Cyro de Mattos
Os meninos de minha rua gostavam muito dos beijus que o
Alexandre Cachorro fabricava. O vendedor de beiju era um homem magro, alto, a
cara com marcas da bexiga, que quase o levou para a cova. Tinha poucos dentes
na parte superior e inferior da boca, as gengivas empretecidas, devido ao vício
que tinha de fumar o cigarro Yolanda Azul.
O cigarro quase não saía de sua boca.
Seu Isaías, um homem
de bigode cheio, cabeça sem um fio de cabelo, o melhor consertador de bicicleta
na cidade, era um dos fregueses do Alexandre Cachorro. Sempre comprava o seu
beiju quando ele passava vendendo no beco onde ficava a oficina de consertar
bicicleta. Certa vez, Seu Isaías disse que Alexandre Cachorro passou a ter esse
apelido depois que ficou sem o seu cão de estimação.
Sansão era um amigo
fiel que acompanhava seu dono quando cedo vinha vender beiju no balaio pelas
ruas principais da cidade. Era um cão grande, pelo negro brilhante, que não
fazia mal a ninguém. Tinha a mania de correr atrás do carro, latindo seguidas
vezes, quando pressentia que o veículo passava na rua sacolejando, buzinando,
como se fosse um bicho de outro mundo prestes a fazer algum dano ao vendedor de
beiju. A cena provocava riso entre algum menino que tinha a sorte de
presenciá-la, vendo naquele cão o melhor amigo do dono, tendo o melhor salto,
sendo o melhor abraço e o melhor guardião. Qual o menino na cidade que não
gostaria de possuir um cão como aquele, um protetor fiel de seu dono?
Quando chegava perto do dono, tinha olhos de bicho pidão, o
rabo inquieto. Então Seu Alexandre jogava o beiju para cima, sorrindo assim que
via que no salto preciso a guloseima era abocanhada pelo cão. Tinha a mania de
correr latindo atrás do carro, que passava em velocidade normal pela rua,
tentando morder nessa hora uma das rodas do veículo. Um dia, disparou atrás de
um carro latindo mais que de costume, tentando morder desesperado uma das rodas
dianteiras do veículo. Foi pego pela roda traseira. O motorista não teve tempo
de frear o carro e evitar a colisão com o animal, que com o impacto desferido
pela roda traseira foi lançado para o passeio. Ficou com a cabeça fendida, a
boca emborcada na poça de sangue. Horrorizado, não querendo acreditar no que
seus olhos estavam vendo, o dono do animal ficou com a expressão cabisbaixa no
rosto triste. Sabia que daquele momento em diante Sansão não seria mais o amigo
que o acompanhava quando descia com o balaio cheio de beiju para ser vendido de
porta em porta.
Morava no casebre de paredes de adobe, cobertura de folha de
flandres velho, erguido perto do matagal onde descia um córrego de águas
escuras. No fogão a lenha, sem pressa, costumava preparar os beijus arrumados
na frigideira em forma de um tabuleiro grande.
Sansão quieto em um dos cantos da sala, atento aos movimentos do dono no
casebre acanhado. Ele fazia todos os dias o beiju seco e o molinho com um gosto
adocicado, que era enrolado na palha de banana.
Dava água na boca do menino só de pensar no beiju molinho e doce
produzido por Alexandre Cachorro. Nem no
céu havia outro igual àquele que ele fazia na frigideira quadrada sob o calor
do forno.
Na refeição matinal,
o menino tinha os olhos de gula em cima das iguarias que a mãe trazia nas
tigelas, postas com cuidado à mesa: cuscuz, requeijão assado, banana fritada,
batata doce cozida, mugunzá, pão de milho amanteigado, quentinho, aipim
molinho. Entre essas guloseimas prazerosas, nenhuma ganhava do beiju molinho e
doce que o Alexandre Cachorro produzia.
Passou uma semana, duas, mais outra, um mês. De repente
Alexandre Cachorro deixara de aparecer nas ruas da cidade para vender seu beiju
apreciado pela freguesia enorme, sem que alguém conseguisse explicar o que
havia acontecido com ele. Estaria doente lá no seu casebre onde vivia sozinho,
desde que a mulher falecera de uma doença perigosa, que lhe atacou o pulmão?
Onde às vezes se dizia que ele latia, rosnava e uivava igual a um cachorro
perdido no mundo, à procura do dono, mas que nunca achava? Toda a cidade logo
passou a saber que ele dera para imitar os latidos de cachorro quando ia vender
seu beiju pelas ruas principais desde que ficou sem a companhia do amigo
Sansão.
Um dia, sua ausência demorada pelas ruas principais quando
vendia seu beiju anunciado por ele mesmo como o melhor do mundo foi esclarecida
por seu Isaías. O consertador de bicicleta informou que soube da notícia da
morte de Alexandre Cachorro pelo carteiro. Os vizinhos estranharam que o
casebre onde ele morava ficasse durante três dias com portas e janelas
fechadas. Ele tinha o costume de abrir cedo a porta e janela da frente, mal o
sol despontava no horizonte com sua flor luminosa. Chamaram por ele vezes seguidas. Bateram com
força na porta. Até que encontraram seu corpo estirado no piso de cimento
esburacado, todo duro.
Estava agora dormindo
o sono sem sonho na cidade dos pés juntos, naquele lugar onde todos chegam um
dia para não mais acordar para esse mundo de cá cheio de momentos alegres e
tristes.
Não precisava mais vender beiju pelas ruas e becos, dando
latidos igual a um cachorro.
Cyro de Mattos é escritor e poeta. Premiado no Brasil,
Portugal, Itália e México. Publicado nos Estados Unidos, Dinamarca, Rússia,
Portugal, Espanha, Itália, França e Alemanha. Membro efetivo da Academia de
Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de
Santa Cruz - UESC.
* * *






