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domingo, 2 de abril de 2023

'Leve'?

José Paulo Cavalcanti

 


Lula, segundo Kalil, se apresentava com 'pneumonia leve'. Ninguém perguntou a razão de não ter sido, esse diagnóstico, dado pelo médico que o atendeu em Brasília, cabendo isso a um amigo íntimo que sempre o acompanhou. Sem que se entenda como declarou ser 'leve', a tal pneumonia, sem ter sequer auscultado o pulmão do paciente. Pelo visto, Kalil é mais amigo de Lula do que da verdade?

Janeiro de 2010. Lula, presidente da República, estava indo a Davos ? onde receberia, no dia 29, o prêmio Estadista Global do Fórum Econômico Mundial. Mas seu avião fez parada, no Recife, para que inaugurasse uma UPA. Dá para acreditar? Problema foi ter, aqui, passado mal. O médico da presidência, destacado para a caravana oficial, era ortopedista e não conseguia definir o que tinha. Razão pela qual o levaram ao Hospital Português. Eduardo Campos, então governador de Pernambuco, estava preocupado. Que a imprensa entendia ser, aquele mal-estar, decorrente de uma discussão que tivera com o presidente. Pediu, então, que fosse atendido pelo doutor Murilinho Guimarães. Esse diminutivo, no nome pelo qual é conhecido, se deve a ser filho do grande advogado, e Reitor da UFPE, Murilo Guimarães (o mesmo acontece comigo; que, para os mais velhos, continuo sendo Zé Paulinho).

Murilinho Guimarães é consagrado (internacionalmente) especialista em pulmão. E, só para constar, estava em uma degustação de vinhos (norte-americanos), outra de suas muitas especialidades. Foi, correndo, ver de que se tratava. E, depois dos exames, o diagnóstico que deu foi 'pneumonia, associada a hipertensão e dispneia como manifestações de uma sepsis se instalando'. Os da comitiva afirmaram que teria que viajar, naquela mesma noite, para a Europa. E Murilinho 'vai morrer'; por não ser capaz de suportar, naquele estado, as grandes altitudes de um voo sobre o Oceano Atlântico. Lula falou com o médico Roberto Kalil. Decidiram que melhor seria ir até São Paulo, onde ficaria sob os cuidados do Sírio Libanês. E que o avião voaria, para lá, abaixo dos mil metros. Evitando os riscos da pressurização. Assim deve ter se dado, que chegou a seu destino sem maiores problemas. E Celso Amorim foi designado para representá-lo, naquele prêmio.

Entram em cena Franklin Martins e Dilma Roussef, ponderando que a versão de uma hipertensão leve seria melhor, politicamente. 'A verdade é um cachorro que tem que ficar preso num canil', dizia Shakepeare (Rei Lear). Pediram que Murilinho desse, nas televisões, esse diagnóstico. 'Perdão, mas o que ele tem é pneumonia'. E recusou se prestar a esse papel subalterno. O médico do presidente, mesmo não sendo especialista, foi encarregado de dar a versão falsa (enquanto Murilinho ficou retido, numa sala, até que o último repórter se fosse do local). Tudo correu bem. O público acreditou. E a história seguiu seu curso. Pouco depois Dilma acabou presidente(a); Lula condenado (por Juiz, TRF do RGS, STJ) e preso por corrupção, descondenado e solto pelo ministro Fachin (do Supremo), para em seguida voltar a ser presidente; e Franklin, ano passado, lançou um muito interessante (e grosso) livro sobre músicas de campanhas políticas.

'A história se repete', dizia Maquiavel em O Principe. Enquanto Marx respondeu 'só como farsa', em 18 Brumário. No caso, vale considerar que 'a prática é o critério da verdade'. Uma frase comumente atribuída ao dito Marx, quando está mais alinhada ao pensamento leninista ? ver Berger, Guérin, Korsch e Pannekoek (que, depois da Revolução Russa, rompeu com o leninismo). E se assim for basta ver o que aconteceu, agora, para definir qual dos dois pensadores tem razão. Lula, segundo Kalil, se apresentava com 'pneumonia leve'. Ninguém perguntou a razão de não ter sido, esse diagnóstico, dado pelo médico que o atendeu em Brasília, cabendo isso a um amigo íntimo que sempre o acompanhou. Sem que se entenda como declarou ser 'leve', a tal pneumonia, sem ter sequer auscultado o pulmão do paciente. Pelo visto, Kalil é mais amigo de Lula do que da verdade ? perdão, caro leitor, trata-se apenas de uma brincadeira com a famosa frase de Aristóteles Amicus Plato (sed) magis amica veritas (Platão é amigo mas ainda mais amiga deve ser a verdade). Como a viagem à China foi cancelada, apesar de sua enorme importância, o cenário sugere não ter sido tão 'leve', assim, a tal 'pneumonia'. O diagnóstico sugerido, pelo Palácio do Planalto, foi claramente falso. De novo. Como antes. Prova de ter mais razão o florentino, que o prussiano. A história se repetiu mesmo, e não como farsa.

Essa introdução, mais longa talvez de que deveria, tem só a intenção de questionar a Grande Mídia do Sul. O Globo estampou em primeira página (edição do sábado passado), o que os demais grandes jornais de lá também deram, 'Com pneumonia leve Lula adia viagem à China em um dia'. Depois se veria ser (bem) mais que um dia. Quase dois meses. Só detalhe, para eles. E seguiram, no mesmo caminho, para conforto e alegria do Palácio do Planalto. Parecendo sócios em um projeto de poder. Mas essa notícia está jornalisticamente correta?, eis a questão. Pelos manuais de redação o certo seria dizer 'Segundo o médico Roberto Kalil, tem pneumonia'. Ou 'pneumonia leve' se quisessem. E jamais o que saiu. Caberia então perguntar, ao ministro Alexandre de Moraes, não considera isso fake News? Se for mídia social, contra esse governo, o cidadão se arrisca a ser preso. Mas se forem grandes jornais do Sul, a favor desse governo, e mesmo sendo uma notícia claramente falsa, isso parece não incomodar o famoso ministro. Como se todos os envolvidos, inclusive o ministro, fossem jogadores de um mesmo time. Parceiros. Juntos. Só mesmo rindo.

Para encerrar, apenas lembrar que Deus deve ser brasileiro. Como dizia o pai de Fernando Sabino, 'no fim tudo acaba bem'. A saúde de nosso presidente está em ordem e respiramos aliviados. A Grande Mídia, nos dias de hoje, continua se pautando por interesses (muito) discutíveis.

E a única pergunta é: será essa a imprensa que precisamos, e desejamos, em nossa pobre Democracia?

Chumbo Gordo, 31/03/2023

 https://www.academia.org.br/artigos/leve

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José Paulo Cavalcanti - Nono ocupante da Cadeira nº 39 da ABL, eleito em 25 de novembro de 2021, na sucessão de Marco Maciel e recebido em 10 de junho de 2022 pelo Acadêmico Domício Proença Filho.

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sábado, 1 de abril de 2023

 


 

RECEITA DO ALÍVIO 

 

1. O inventor da esteira morreu aos 54 anos;

2. O inventor da ginástica morreu aos 57 anos;

3. O campeão mundial de fisiculturismo morreu aos 41 anos;

4. Maradona, grande jogador de futebol, faleceu aos 60 anos;

5 . Mark Huggues fundador da Herbalife morreu aos 44 anos.

 

JÁ:

5. O criador do frango frito KFC (lanche nada saudável) morreu aos 94 anos;

6. O criador da Nutella morreu aos 88;

7. Imagine, o dono dos cigarros Winston morreu aos 102 anos;

8. Aquele que se encarregou de industrializar o ópio? Morreu aos 116 anos em um terremoto;

9. O fundador dos conhaques Hennessy morreu aos 98 anos;

10. Antônio Delfim Neto, ex-ministro da Fazenda, que pesa 122 quilos e jamais fez qualquer exercício segundo ele mesmo conta, tem atualmente 93 anos e goza de excelente saúde.

 

Como os médicos concluíram que o exercício prolonga a vida?

O coelho está sempre pulando, mas vive apenas 2 anos e a tartaruga, que não faz nenhum exercício, vive 100 anos.

Então vá com calma, descanse um pouco, relaxe, mantenha a calma, ame muito, coma bem, tome seu vinho, sua cervejinha.

Beba um whisky ou uma caninha de vez em quando e aproveite a sua vida com prazer!!!

 

PS.:  Esqueceram do Hugh Hefner (criador da Playboy)?  

Morreu aos 91 rodeado de garotas 70 anos mais novasMas não exagere!

 

25 MANEIRAS PARA ENVELHECER BEM

01- Não se meta na vida dos filhos.

02- Não interfira na educação dos netos.

03- Ame seu genro e Nora, foi seu filho(a) quem fez a escolha.

04- Nunca tome partido ou opine no casamento deles. 

05- Não fique um idoso reclamão.

06- Não seja um idoso com pena de si mesmo.

07- Não fique falando "No Meu Tempo", ele já passou.

08- Tenha planos pro futuro.

09- Não fique falando de doenças. Tenha a certeza de que ninguém quer saber. 

10- Não importa quanto ganhe, poupe todo mês uma quantia.

11- Não faça prestação, idoso não deve pagar carnê.

12- Tenha um plano de saúde ou guarde dinheiro  para despesas médicas.

13- Guarde dinheiro pro funeral ou tenha um plano.

14- Não deixe "problemas" para os filhos. 

15- Não fique ligado em noticiário ou política, afinal você não resolverá nada mesmo.

16- Só veja TV para se divertir, não pra ficar nervoso.

17- Se gostar tenha um bichinho de estimação pra te ocupar.

18- Ao se levantar, invente moda: caminhe, cozinhe, costure, faça horta, mas não fique parado esperando a morte.

19- Seja um idoso limpinho e cheiroso. Idoso sim, fedido jamais.

20- Tenha alegria por ter ficado idoso, muitos já ficaram pelo caminho.

21- Tenha uma casa e um modo de vida onde todos queiram ir e não evitar. Isso só depende de  hoje você.

22- Use a idade como uma ponte para o futuro e, jamais, uma escada para o passado. Para a ponte do futuro sempre terá companhia.

23- Lembre-se: é melhor ir deixando saudades do que deixando alívio.

24- Não deixe "aquele bom vinho" (idosos não devem beber vinho ruim) e nem a cerveja para amanhã, pode ser tarde!

25 -  Ame você mesmo como ninguém 

 SEJA FELIZ!

 

(Recebi via WhatsApp, sem menção de autoria)

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segunda-feira, 27 de março de 2023

Os olhos de ontem

 José Sarney

 


Sempre tive uma boa memória. Quando falha fico preocupado. Pois não é que esta semana ela me fez uma que quase me leva ao pânico? Felizmente para lembrar tive a ajuda de Tereza Cruvinel, brilhante jornalista a quem nos ligam laços de afeição desde que ela chegou a Brasília.

Era o dia 15 destes idos de março. Eu curtindo uma dor lombar destas que nos levam a só pensar em analgésico. O telefone toca. Atendo. Era Tereza, com toda a sua delicadeza a parabenizar-me: - 'Sarney, depois de outros que tivemos, só ouço falar bem do seu governo. Paz e tranquilidade, crescemos cinco por cento ao ano e nosso salário aumentava todo mês com a maldita da correção monetária. Você trouxe a democracia de volta para nosso País, a transição democrática, a Constituição de 88 - a que mais durou no Brasil sem rupturas?'

Eu respondi: - 'Obrigado, minha querida amiga, mas por que está relembrando coisas passadas?'

- 'Sarney, hoje é quinze de março, faz 38 anos do seu governo?'

Eu nem me lembrava mais e a data ia passando em branco na minha famosa memória. Quase caí de costas.

Passei um raio-X sobre o passado. Logo apareceu a frase que se tornou ensinamento: 'O poder é solitário'. Eu acho que há um exagero, porque o poder não permite solidão. É dia e noite de trabalho, todos carregados de preocupações, avaliações de políticas públicas e perda de amigos. É um terreno movediço de intrigas, uma disputa pessoal a cada metro quadrado, é terreno de ocultas batalhas, das quais o Presidente é o último a desconfiar e saber. E nele há um monstro invisível, escondido na claridade, onipresente em todo espaço: a traição. Lidar com tudo isso é o inferno que permeia o poder, onde transitam os devotos do mandar, dos autoritários e da força. (Não é minha praia).

Quando assumi a Presidência estávamos no mundo do desconhecido e o destino colocava à minha frente o desafio que estava guardado para mim. O General Leônidas fora encarregado de comunicar-me o resultado da dramática noite da cirurgia de Tancredo Neves. Minha resposta foi a mesma que lhe tinha dado antes: - 'Quero assumir junto com o Tancredo que estará restabelecido na próxima semana.' Ele retrucou: - 'Sarney, não crie dificuldades. Foi difícil chegar até aqui. Você assumirá às dez horas da manhã. Boa noite, Presidente!'

Não dormi o resto da noite. Ao dar posse aos ministros comecei dizendo: - 'Estou com os olhos de ontem!' Preso a uma emoção que tinha tudo da visão de uma responsabilidade imensa.

Fazendo uma síntese do governo, tenho o orgulho da oportunidade que o povo me deu de ajudar o meu País, o Continente da América do Sul e o povo brasileiro. Não vou contar espigas de milho, mas o que é fundamental e fica na História.

Para o mundo, eu e Alfonsín, grande estadista e amigo do Brasil, acabamos com a corrida nuclear Brasil e Argentina e fizemos que o nosso Continente fosse o único no mundo livre de armas nucleares. Isso é um exemplo que até hoje não foi seguido. Por proposta minha o Atlântico Sul entre América e África foi declarado Zona de Paz pela ONU. Acabamos com os conflitos regionais na América do Sul. Lançamos as bases do Mercosul.

Para o Brasil, a Democracia, a nova Constituição, o 'Tudo pelo social': seguro-desemprego, programas contra a fome - o do leite, considerado pela Unesco como o melhor programa mundial de combate à fome infantil -; vale-transporte e vale-alimentação; farmácia básica; universalização da saúde com o SUD, transformado em SUS pela Constituinte. Tivemos um crescimento de 99% do PIB. Criei o Ministério da Cultura e a Lei de Incentivo à Cultura; o da Reforma Agrária; o da Irrigação; o da Ciência e Tecnologia - demos mais bolsas de ensino superior do que já tinha sido dado até então -; o Programa Nossa Natureza e o IBAMA. Demarcamos 32 milhões de hectares de terras indígenas. Atingimos, pela primeira vez, o sétimo lugar entre as economias mundiais. Criei a Secretaria do Tesouro, o Siafi, extingui a Conta-Movimento do Banco do Brasil e unifiquei os orçamentos da União.

As Forças Armadas voltaram aos quartéis, com o programa de modernização comandado pelo melhor Ministro do Exército que já tivemos, Leônidas Pires Gonçalves, um dos grandes chefes militares do País. Não tivemos nenhuma crise militar.

Fizemos, sobretudo, a transição para democracia.

Obrigado, Tereza Cruvinel, pela lembrança.

Os Divergentes, 21/03/2023

 

https://www.academia.org.br/artigos/os-olhos-de-ontem

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José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38 da ABL, eleito em 17 de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6 de novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.

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domingo, 26 de março de 2023

Rui Barbosa, no centenário do seu falecimento

Celso Lafer



Há cem anos falecia Rui Barbosa. Merece destaque a atualidade de seu legado, que se notabiliza por um fio condutor: 'a formação da esfera pública e a construção institucional da democracia no Brasil', como certeiramente realçou Bolívar Lamounier.

A Oração aos Moços foi seu discurso de paraninfo da turma de 1920 da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, onde se formou. Foi o seu balanço de 50 anos de trabalho na jurisprudência e de serviços à Nação. Enfatizou que não atuou como 'político fértil em meios e manhas'. Empenhou-se em 'inculcar ao povo os costumes de liberdade e à República as leis do bom governo', que fazem prosperar os Estados, moralizar a sociedade e honrar as nações.

Rui é um paradigma da atuação dos advogados que souberam valer-se do Direito como instrumento da ação política, como observou Afonso Arinos. Na sua práxis, viveu o Direito não como abstração, mas em função do agir. A autonomia de jurista em relação ao poder é um traço marcante da personalidade de Rui, que não colocou o seu saber para acomodar impulsos arbitrários do pragmatismo de governantes ou justificativas de 'razão de estado'.

No início da sua caminhada, teve ativa participação, em parceria com Joaquim Nabuco, na campanha abolicionista. Fulminou 'a legalidade caduca do cativeiro'. Realçou que a questão da escravidão era a questão das questões, a que todas as outras se subordinavam, pois 'encarna em si o começo da solução de todas as demais'. Certeira colocação ainda pendente de encaminhamento, pois a herança da escravidão persiste com a agenda do racismo estrutural.

Lembro os inovadores pareceres sobre o ensino, apresentados na Câmara dos Deputados do Império. Lastreiam-se no papel da educação para o desenvolvimento material e moral do nosso país e dão ênfase à ciência e ao método experimental.

Foi a República que deu a Rui espaço público para, como jurista, senador e nas suas duas campanhas presidenciais, defender a verdade eleitoral, enfrentar a questão social e sustentar o civilismo: 'Civilismo quer dizer ordem civil, ordem jurídica, a saber: governo das leis contraposto ao governo de arbítrio, ao governo da força, ao governo da espada'.

O papel de Rui na feitura da Constituição de 1891 é parte dos seus grandes serviços à Nação. A ele se deve o federalismo, que contrapôs à monarquia unitária e centralizadora.

Devem-se a Rui a criação do Supremo Tribunal Federal e seu papel de guarda da Constituição, com a sustentação de seu 'direito-dever' de conter atos usurpatórios do governo e do Congresso mediante a afirmação da 'lei das leis', que está acima da legislação ordinária.

Rui promoveu a separação da Igreja do Estado e a laicidade consagrada na Constituição de 1891 e nas subsequentes. A laicidade significa que o Estado se dessolidariza de toda e qualquer religião, em função de um muro de separação entre o que cabe a ele e o que cabe à sociedade civil como esfera autônoma para o exercício da liberdade religiosa e de consciência. Num Estado laico, as normas religiosas são conselhos e orientações no âmbito da sociedade civil aos fiéis, e não comandos para toda a sociedade.

Rui, na Oração aos Moços, englobou na missão do advogado a magistratura de uma justiça militante. Protótipo do exercício desta missão foi a pioneira defesa, em 1895, da inocência de Dreyfus, um grande exemplo na França de quebra da 'verdade ante o poder', com a flagrante denegação da justiça, por meio de um processo operado no segredo de um tribunal militar. Entreviu que a verdadeira causa de condenação de Dreyfus foi o antissemitismo, que na França daquele momento vivia 'o espasmo do ódio insaciável'.

O texto de Rui foi escrito na Inglaterra, publicado no Brasil e data de seu período de exílio, a que se viu forçado pelo arbítrio da presidência Floriano Peixoto. Foi, depois, vertido para o francês e circulou na Europa.

Baptista Pereira, seu genro e próximo colaborador, identificou no texto de Rui 'uma autópsia de militarismo', válido para o Brasil de Floriano, que postergou na experiência de vida de Rui a vigência das garantias legais, às quais se dedicou na implantação da República, almejando a construção institucional da democracia em nosso país.

O texto de Rui sobre Dreyfus corrobora a defesa que fez em 1920 sobre o dever da verdade - nos debates, nos atos, no governo, na tribuna, na imprensa - e da transparência do espaço público, pois 'o poder não é um antro, é um tablado. A autoridade não é uma capa, mas um farol. A política não é uma maçonaria, e sim uma liça'. Daí a inaceitabilidade da falsificação e da mentira nas instituições. Desnecessário destacar a vigência da sua mensagem.

Em 1949 Oswald de Andrade sublinhou que Rui tinha a capacidade do sacrifício e sempre soube perder. Por isso, 'como a semente do Evangelho que precisa morrer para frutificar, ele sempre soube morrer pelo dia seguinte do Brasil'. À árvore da liberdade e a construção institucional da democracia estão subjacentes à atualidade do seu legado.

Jornal O Estado de S. Paulo, 19/03/2023

 

 https://www.academia.org.br/artigos/rui-barbosa-no-centenario-do-seu-falecimento

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Celso Lafer - Quinto ocupante da cadeira 14, eleito em 21 de julho de 2006, na sucessão de Miguel Reale, e recebido em 1º de dezembro de 2006 pelo acadêmico Alberto Venancio Filho.

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sábado, 25 de março de 2023

 

Considerações sobre o conto brasileiro           

Cyro de Mattos



Críticos brasileiros e estrangeiros vêm contribuindo com estudos e juízos para definir o conto, mas sua variedade dificulta uma definição satisfatória, bem como a sua expressão que se funde com outras manifestações literárias, como a poesia e o drama. O conto moderno incorpora à estrutura elementos de outras áreas artísticas, recorrendo ao cinema, o teatro, às artes plásticas e à música. Forma de prosa de ficção em páginas breves intercomunica-se com outras manifestações culturais. Convém lembrar que a imprensa e a mídia eletrônica vêm afetando os códigos e os cânones da literatura brasileira nos tempos atuais.

O conto como uma forma de narrar histórias procede de tempos primitivos. A mais antiga expressão da literatura de ficção atravessou séculos para tornar-se leitura prazerosa e/ou crítica do mundo na forma escrita. O interesse insaciável do homem pelas histórias sempre o acompanhou, antes mesmo que ele fizesse armas de pedra como extensão da mão para se defender e sobreviver.

Entre nós, não a narrativa oral, o conto começou a ser cultivado como entidade literária durante o Romantismo. Impregnado dessa escola, estilo ou tendência, foi que surgiu uma vocação autêntica para expressar o conto em textos autônomos, elevando-o à categoria de gênero importante, em sua composição e arte.

Pesquisar a presença e evolução do conto no Brasil terá como momento maior o de encontro com Machado de Assis no século dezenove. O autor de Papéis Avulsos, Páginas Recolhidas e Histórias sem Data praticou a prosa de ficção curta com a mesma mestria dos romances, a narrativa tradicional absorveu o corte vertical na  estrutura para a  interpelação do destino humano,  permitindo a criação de um clima na sondagem da alma em seu instante agudo.

No fim do século dezenove e no princípio do vinte, o conto brasileiro buscou os elementos necessários para representar a vida no espaço geográfico: linguagem, personagens, ação, cenas e costumes, elementos capazes de fixar a paisagem humana e física de um país telúrico. Ao desdobrar na história os elementos do espaço geográfico, o conto dessa época credenciou-se através de uma vertente regional, em que se destacam o paulista Valdomiro Silveira, o gaúcho João Simões Lopes Neto, o mineiro Afonso Arinos e o goiano Hugo de Carvalho Ramos.

Com o Modernismo, que se mostrou primeiro com a poesia e depois com o romance, nacionalizando nossos temas, autores sensíveis e criativos introduziram modificações nos elementos tradicionais do conto. A linguagem deixou de ser convencional, desprezou-se a fabulação acadêmica que fazia com que o ficcionista escondesse o imaginário, mascarando-se em seu relacionamento interior com o mundo. Nesse momento do conto brasileiro, em que a fabulação deixou de acontecer linearmente, sobressaem Mário de Andrade, com a valorização da nota lírica justaposta à dispersão do enredo, e Antônio de Alcântara Machado, transpondo o popular ao nível literário, introduzindo um novo personagem à literatura brasileira, o ítalo-brasileiro. Cabe lembrar antes o impressionista Adelino Magalhães, com o seu jeito de flagrar a vida, focando-a no instante que se esgota em si mesmo, documentando-a numa cena para deixar no leitor aquela impressão que causa pena, solidariedade e riso.

Na evolução do nosso conto, dois caminhos divergentes, próprios da literatura, podem ser visualizados: o do elogio da linguagem com o seu fetichismo e o da economia dos meios expressionais com a linguagem descarnada. Por esses caminhos o Brasil tornou-se, de uns tempos para cá, um país de admiráveis contistas. Lembrando alguns nomes dessa contística maior, na fatura psicológica encontramos Lígia Fagundes Telles, Samuel Rawet, Tânia Faillace; nas localizações geográficas com apelos universalistas, João Guimarães Rosa, Adonias Filho, Bernardo Elis, Caio Porfírio Carneiro  e Ricardo Ramos (na primeira fase), assim como nas aculturações humanísticas dessa tendência, Juarez Barroso, Flávio José Cardozo e João Ubaldo Ribeiro; na propensão alegórica, através de espaços atemporais  intercomunicantes, José J. Veiga, Murilo Rubião e Maria Lysia Corrêa de Araújo; no real captando pedaços de vida, com o autor participando e julgando o mundo no cotidiano violento, de solidão, miséria, medo, sonhos incabíveis, sentimentos perversos, humor de cenas ordinárias que causam espanto, riso e/ou pena, Rubem Fonseca, João Antônio, Dalton Trevisan, Luís Vilela, José Edson Gomes e Wander Piroli; na experimentação da linguagem poética como mergulho na situação existencial do indivíduo, criando a atmosfera no lugar do enredo, Clarice Lispector, Walmir Ayala, Maura Lopes Cançado, Nélida Piñon, Helena Parente Cunha e Elias José.

Alegórico, documental, psicológico, impressionista, supra real, regional de alcance universal, de antecipação na corrente de ficção científica, o conto no Brasil circula hoje em sua dimensão própria, convincente, não como aprendizado para o autor dar o passo mais largo e definitivo de romancista, como muitos concebiam. Críticos apontam que há nesse conto emancipado feito entre nós hoje a inevitável influência de latino-americanos no caminho de ficcionistas jovens, porém, nossos contistas não são mais situados com referências a escritores estrangeiros: Maupassant, Tchecov, Kafka e Mansfield. Consolidado na trajetória ficcional que ilude na síntese, o conto brasileiro contemporâneo circula com a sua marca própria, seu legítimo acento, sua feição eficaz e dinâmica atraente.

Acham os clássicos que conto é aquilo que conta alguma coisa, desenvolvendo-se a história nos momentos tradicionais de princípio, meio e fim. Síntese de emoção aguda, acidente de vida, tensão e concisão no espaço que prevalece sobre o tempo, acham os modernos. Seja como for, encontrará o leitor nas breves páginas do conto atual no Brasil um feixe de observações, o dizer sobre coisas agudas em informações lúcidas. Pelo imaginário, temática pessoal, densidade, linguagem tradicional ou ligada à vanguarda as gradações e variações da condição humana: ternura, sentimentos baixos, humor, conflitos, a máquina do sistema na crueldade de seu absurdo, o dilema da razão a gerar insegurança, abandono, contradições e perplexidades.

Na sensação de que o mundo é falho, participará, enfim, do mistério do viver sob o trânsito dos humanos, o qual alcança hoje ritmo veloz, que cada vez mais assusta, subversão constante dos valores como premonição do caos, a que o conto como instante de reflexão, testemunho fragmentário do real ou em sua visão metaforizada do mundo, dilatando o micro no macro, tão bem se ajusta. Ainda assim, visto esse estar crítico do ser humano na trama, acena das fissuras a esperança como possibilidade do amor, vocação que o indivíduo é possuidor em sua problemática existencial para aflorar das rupturas e reconstruir o mundo.

A literatura brasileira detém hoje a eficiente autonomia de um gênero que possui joias insuperáveis. Uma das grandes invenções dessa entidade literária no discurso que combina, harmoniosamente, o a forma e o fundo,  a que assistimos hoje, foi levada no Brasil por Dalton Trevisan. Esse mestre da ficção breve na prosa enxuta e atraente, com mais de uma vintena de livros publicados, possui uma maneira de dizer histórias originalíssima   no encalço de fixar os encontros e desencontros de todos os Joões e Marias, de uma Curitiba descida ao chão das pequenas misérias, frustrações, devassidões, fetichismos inúteis.

Nessa causticante comédia humana, povoada de desastres e ressentimentos, temos a expressão admirável de como se pode reconhecer o máximo no mínimo, identificando-o tocado daquelas verdades essenciais que fazem da vida comoção de ínfimos universos corroídos de duro lirismo.

 

Cyro de Mattos é ficcionista e poeta, publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha, Dinamarca e Estados Unidos. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Membro das Academias de Letra da Bahia, de Ilhéus e de Itabuna. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz.

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