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terça-feira, 18 de outubro de 2022

O PAÍS VAI VIVER



O país vai morrer?


Se você não vê crime na atitude de um candidato a presidente da República, ao desfilar em carreata cercado por traficantes carregando armas pesadas, desista de sua família, de seus valores, de sua identidade e do seu país. Você não é um cidadão, nem pai de família. Você é apenas um covarde, desprovido de princípios, que enxerga apenas conveniências e vantagens na sua convivência e relações do dia a dia.

O que o ex-presidiário fez no Complexo do Alemão (RJ), na última quarta-feira (12), foi perturbador e desmoralizante. Foi agressivo e altamente nocivo. Mostrou que aquele verme imundo deveria estar preso, se o STF não fosse, hoje, instituição voltada à proteção do crime e ao acobertamento dos atos mais vis e facinorosos de que se tem registro na história nacional. Fazer o quê, com tal STF cheio de degenerados morais?

O ex-presidiário mostrou quem é o chefe do crime organizado no país. Que vergonha, que tristeza, que avacalhação, que podridão, que depravação! Como é que indivíduo de tamanha periculosidade pode encontrar quem o suporte e o apoie, fora do círculo criminoso do qual é membro? Ele se expôs, mostrou quem é, exibiu por inteiro o seu caráter, ou a sua falta.

Vejam as fotos do ex-presidente e ex-presidiário, usando chapéu do Comando Vermelho e a abreviatura CPX, que quer dizer “cupincha”. Que dizem os senhores ministros do TSE? Que diz o ministro Benedito Gonçalves, que responde a inquérito sobre propina recebida da Odebrecht? Nosso país está sendo dominado pelos piores bandidos. É isso que você deseja para os seus filhos? É esse o futuro com o qual você sonha? Deus, ó Deus, imploremos aos céus!

 

(Recebi por e-mail sem menção de autoria)

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sábado, 15 de outubro de 2022

Escritor Cyro de Mattos Participa da Feira Literária de Joinville

 


             A EDUEM, editora da Universidade Estadual de Maringá, no Paraná, participará da feira de livros de Joinville, a ser realizada em Santa Catarina, de 17 a 21/10/22, quando então irá divulgar no evento alguns autores do seu catálogo, através de vídeos de lançamentos recentes de seus livros. Entre as obras que serão apresentadas na Feira está Kafka, Faulkner, Borges e Outras Solidões Imaginadas, de Cyro de Mattos, cuja apresentação da obra foi gravada pelo autor em vídeo para ser exibido durante o evento.  O livro tem capa do consagrado artista plástico Juarez Paraíso e prefácio de Gerana Damulakis.

               Em Kafka, Faulkner, Borges e Outras Solidões Imaginadas, temos quinze textos que funcionam como incursões prazerosas sobre o tema da criação literária motivada pela solidão. O desenvolvimento temático em quinze autores clássicos universais mostra que interessa ao escritor baiano Cyro de Mattos usar o pensamento reflexivo para sentir com intensidade o que as páginas desses ficcionistas abordados dizem da arte literária como forma de conhecimento da vida.

                Aldous Huxley, Anton Tchekhov, Fernando Pessoa, Fiódor Dostoiévski, Franz Kafka, F. Scott Fitzgerald, Gabriel García Márquez, James Joyce, Jorge Luís Borges, José Saramago, Julio Cortázar, Miguel Torga, Sherwood Anderson, Sophia de Mello Breyner Andresen   e William Faulkner formam aqui um conjunto de autores, que nas visões de mundo convidam-nos a habitar o imaginário por meio da contemplação dos sonhos. Nos vícios da solidão, remete-nos à impossibilidade da fuga no drama, à perda de identificação sob o domínio do ilógico, aos labirintos no curso sem saída, à convivência das neuroses, à catarse na dor, simbolizando o real pior do que ele é. Às vezes possibilitam a observação de tipos de convivência inusitada em que o ser humano se vê esmagado sem perspectiva de horizonte. Em Kafka, Faulkner, Borges e Outras Solidões Imaginadas, autores geniais remetem o leitor ao ser ambíguo e limitado, contraditório e falho, que, em seu destino gregário de animal social, elege a vida submissa ou além dos padrões materiais.

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quinta-feira, 13 de outubro de 2022

Recordações

Antônio  Baracho



A viagem à fazenda foi interessante.

Seguíamos enfileirados, o dono da propriedade, minha prima e eu.

O vaqueiro ia na frente, na sua montaria.

Contornamos íngreme boqueirão,  

de onde se contemplava do alto uma cachoeira que deslizava.

O trote era lento, devido ao terreno acidentado.

O importante era quem nos guiava: jovem muito calmo,

com a experiência e conhecimento do local.

A vista era muito bonita com a mata verdejante, altos jequitibás,

Maçarandubas frondosas, ipês e muitas jaqueiras.

Os animais estavam devidamente selados e ajustados para não haver surpresa.

Atravessamos dois córregos sem oferecer algum perigo.

Antes do pôr do sol

chegamos na casa humilde do trabalhador que já nos esperava

com a esposa e suas três filhas. A mais velha chamava-se Iara.

Depois que houve a apresentação e cumprimentos dos moradores

fomos tomar banho no riacho que ficava próximo da residência.

E assim pudemos nos refazer após a viagem cansativa.

Após ter servido o jantar

e o céu completamente estrelado com a presença definitiva da noite,

Iara contou a estória da caipora que mora na mata,

com o seu lindo olhar de menina da roça.

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Antônio Baracho, membro da Academia Grapiúna de Letras-AGRAL, ocupante da cadeira nº 11. 

E-mail: antoniobaracho@hotmail.com.


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BOLSONARO em APARECIDA: Clero de ESQUERDA ENVERGONHA CATÓLICOS - O que h...

terça-feira, 11 de outubro de 2022

O bebê que me salvou

Ignácio de Loyola Brandão



Terminada a apuração, fiquei prostrado. Vai começar tudo de novo, pensei. Os anos passados entre ameaças, ódio, chantagens, polarização, violência, mentiras, enganos. A vida é cheia de rudes despertares. Frase do criador do Peanuts, HQ, que havia na sala de Thomaz Souto Correa, diretor da revista Claudia em 1966, quando lá entrei.

Depois me ergui e fui para a cama com uma ideia fixa. Não podia beber, a diabetes recém-descoberta me impede. Enfrentei com tranquilidade a ideia de verificar se no Brasil existe morte assistida, aquela que liberou Godard em seu desânimo. Mas Godard morava na Suíça. Liguei para um dos maiores advogados que conheço, o Mariz de Oliveira, e pedi: como conseguir, como tantos fazem? E ele: 'Não conte comigo para isso, sou a favor da vida. Posso sentar-me ao seu lado e segurar sua mão até que isso passe, porque vai passar. Escreva, isso ajuda'.

Não morrer assistido. No Brasil, não me dão esta escolha. A lei diz: aguente o tranco! Sofra o que tem de sofrer! Vá a um terapeuta! Liguei, todos estavam com agendas fechadas por cem anos. Houve quem dissesse: peça ao seu médico antidepressivos fortes, que aliás estão faltando nas farmácias, que só nos oferecem Omega 3 e pílulas virilizantes às toneladas. Aguente sua cruz! Dizia minha mãe piedosa, quando o catolicismo existia - enfrente as dores que te arrasam, a melancolia que te abate. As crenças de Maria do Rosário, minha mãe, sofreriam duríssimo abalo ao ver como há sacerdotes de fancaria. Ninguém acredita que aquele padre Kelmon surgido do nada seja real, tão absurdo em seu surrealismo e sua fala de caça às bruxas. Ah, as feiticeiras de Salem, lembram-se? E dos macarthistas dos anos 50?

Escrever outro livro. Mas acabei de lançar um, não se começa outro, sob pena de repetir tudo, as histórias demoram para sair da cabeça, do coração, do inconsciente. Tinha coisas a fazer na segunda-feira, fui ao correio mandar um Sedex 10 para o Bexiga, ou Bela Vista, São Paulo, descobri que não existe Sedex 10 para aquele bairro central. Tão louco quanto a existência do padre candidato. Voltava para casa pela rua Lisboa, vi uma mulher vindo com um bebê no colo. Quando ela se aproximou, percebi que dava de mamar. Ao se aproximar, automaticamente ela cobriu o seio com a mão, percebi e disse: 'A senhora faz uma das coisa mais belas, amamenta, dá vida a essa criança.' E ela: 'Eu precisava sair, era hora do mamar, vim com ele, quero que este menino cresça e um dia vote, como eu e o pai dele votamos ontem. E ele foi conosco até a cabine, sorriu com os barulhinhos da urna'. Segui, imaginando: será que um dia posso cruzar com este bebê, então um jovem, em uma seção eleitoral, ambos acreditando que se possa mudar as coisas? Melhor esperar.

O Estado de S. Paulo, 09/10/2022

 https://www.academia.org.br/artigos/o-bebe-que-me-salvou

 

Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Arte como esperança: Cyro de Mattos

                                Oscar D’Ambrosio*

 


          Prêmio Jorge Portugal de Literatura da Secretaria de Cultura da Bahia (SECULTBA) de 2020, “Canto até hoje” é uma Edição Comemorativa dos Sessenta Anos de Atividades Literárias de Cyro de Mattos. O conjunto de obras, já publicadas e inéditas, constitui um painel da criação de um artista a favor da liberdade e contra qualquer tipo de suplício.

          Explico melhor lembrando de três sofrimentos célebres impostos pelas divindades gregas. Tântalo, por exemplo, sofreu eternamente sem poder comer ou beber. Mesmo rodeado de água até o pescoço, ele não podia alcançá-la, pois, quando tentava beber, ela baixava o nível e, ao tentar pegar frutos, os galhos das árvores estendiam-se para além dos seus braços.

          Íxion, por sua vez, foi amarrado a uma roda em chamas. Em lugar de cordas, foram utilizadas serpentes; e ele recebeu como punição girar no calor do inferno. Assim como no Tântalo, a dor é eterna e sem possibilidade aparente de escapatória, pois as punições divinas são justamente assim: terríveis e permanentes.

          E temos ainda Sísifo, que recebeu como castigo empurrar uma pedra até o topo de uma montanha. Toda vez que estava chegando ao alto, a rocha rolava novamente ao ponto de partida, tornando, assim, a atividade um labor eterno, que se torna uma metáfora, do mesmo modo que os casos anteriores, da estagnação do ser humano.

          A poesia de Cyro de Mattos é uma resposta aos suplícios. Contra a dor de Tântalo, que não consegue atingir o que deseja, melhor ler o poema abaixo:


Árvore dos Frutos Dourados

O cacaueiro
é sedução
da aurora
ao crepúsculo.
Cílios,
impressões
de folhas,
a fio e prumo
segredo.

          Os versos apresentam aquilo que o universal artista da palavra baiano tem de melhor: a observação poética do cotidiano para construir um lirismo em que as árvores de Tântalo se tornam objeto de sutil sedução e de esperança, pois “da aurora ao crepúsculo” existem as “impressões de folhas” nunca iguais, sempre repletas de segredos.

          Os “frutos dourados” da árvore da arte também auxiliam Íxion. Para enfrentar o seu eterno rodar marcado pelas víboras e pelo calor do mundo subterrâneo, aponto o dístico “O Jabuti” e o haicai “Varal”, de Cyro de Mattos:

 

O Jabuti
Geológicas passadas
quem tem pressa tropeça


Varal
Manhã colorida.
Voz desse mundo sem mancha.
Sonhar é preciso. 

          A sabedoria simbolizada pelo animal, que administra o tempo de sua maneira toda especial, caracterizada por um vagar sem desespero pela existência, encontra um paralelo na manutenção do sonho, que se renova a cada manhã por mais improvável que isso possa parecer nas mais variadas situações.

          Acreditar em algum tipo de futuro também é mentalmente saudável para Sísifo. Saber que seu esforço aparentemente inútil não é só dele, mas é de toda a humanidade, pode ser um consolo, uma pílula de realismo, como aponta o poema...


A Relva e a Foice

Aventura solitária
humano destino ter
entre estar e ir
basta vir para sair
renascer sem fim
como um talo de capim?
Ai de mim na relva,
ais que doem na lâmina, 
eu que vislumbro estrelas,
indiferentes perscrutam-me.

          A aventura solitária de todo ser humano é, no fundo, a de todo e qualquer ser vivo. Nascer é morrer em um ciclo interno, no qual o trabalho é uma das facetas de uma caminhada existencial que muitas vezes pode parecer não ter sentido algum, pois as estrelas indiferentes tudo olham, mas sem se manifestar, ao menos aparentemente.

           As palavras de Carlos Drummond de Andrade a Cyro de Mattos, escritas no Rio de Janeiro, em 1980, parecem resumir bem como o poeta combate, com suas criações, o suplício da vida:


Drummond a Cyro

Uma notícia irrompe desta árvore
e ganha o mundo: verde anúncio eterno
Certo invisível pássaro presente
murmura uma esperança a teu ouvido.

          As visões (“notícias”) que surgem da existência (“árvore”), na voz poética de Cyro de Mattos, se espalham permeadas pela natureza e pela esperança anunciada pelos célebres olhos verdes de Pandora, a primeira mulher do mito grego que, como o próprio nome indica, tinha todos os dons, mas também carregava em sua célebre caixinha todos os males que nos preenchem internamente e nos rodeiam para sempre.

          O pássaro a murmurar esperanças é o poeta. O canto que Cyro de Mattos faz até hoje é o seu dizer individual que se conecta com a sociedade e o mundo. A obra reunida do artista da palavra é um delicado grito de crença e de esperança no futuro que serve como bálsamo para as dores internas e externas de Tântalo, Íxion e Sísifo, cujas agruras, em última análise, são as de todos nós.


*Oscar D'Ambrosio é jornalista, graduado em Letras (Português/Inglês), com especialização em Literatura Dramática (ECA-USP), mestrado em Artes Visuais (Unesp) e doutorado e pós-doutorado no Programa de Educação Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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