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quinta-feira, 13 de outubro de 2022

Recordações

Antônio  Baracho



A viagem à fazenda foi interessante.

Seguíamos enfileirados, o dono da propriedade, minha prima e eu.

O vaqueiro ia na frente, na sua montaria.

Contornamos íngreme boqueirão,  

de onde se contemplava do alto uma cachoeira que deslizava.

O trote era lento, devido ao terreno acidentado.

O importante era quem nos guiava: jovem muito calmo,

com a experiência e conhecimento do local.

A vista era muito bonita com a mata verdejante, altos jequitibás,

Maçarandubas frondosas, ipês e muitas jaqueiras.

Os animais estavam devidamente selados e ajustados para não haver surpresa.

Atravessamos dois córregos sem oferecer algum perigo.

Antes do pôr do sol

chegamos na casa humilde do trabalhador que já nos esperava

com a esposa e suas três filhas. A mais velha chamava-se Iara.

Depois que houve a apresentação e cumprimentos dos moradores

fomos tomar banho no riacho que ficava próximo da residência.

E assim pudemos nos refazer após a viagem cansativa.

Após ter servido o jantar

e o céu completamente estrelado com a presença definitiva da noite,

Iara contou a estória da caipora que mora na mata,

com o seu lindo olhar de menina da roça.

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Antônio Baracho, membro da Academia Grapiúna de Letras-AGRAL, ocupante da cadeira nº 11. 

E-mail: antoniobaracho@hotmail.com.


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BOLSONARO em APARECIDA: Clero de ESQUERDA ENVERGONHA CATÓLICOS - O que h...

terça-feira, 11 de outubro de 2022

O bebê que me salvou

Ignácio de Loyola Brandão



Terminada a apuração, fiquei prostrado. Vai começar tudo de novo, pensei. Os anos passados entre ameaças, ódio, chantagens, polarização, violência, mentiras, enganos. A vida é cheia de rudes despertares. Frase do criador do Peanuts, HQ, que havia na sala de Thomaz Souto Correa, diretor da revista Claudia em 1966, quando lá entrei.

Depois me ergui e fui para a cama com uma ideia fixa. Não podia beber, a diabetes recém-descoberta me impede. Enfrentei com tranquilidade a ideia de verificar se no Brasil existe morte assistida, aquela que liberou Godard em seu desânimo. Mas Godard morava na Suíça. Liguei para um dos maiores advogados que conheço, o Mariz de Oliveira, e pedi: como conseguir, como tantos fazem? E ele: 'Não conte comigo para isso, sou a favor da vida. Posso sentar-me ao seu lado e segurar sua mão até que isso passe, porque vai passar. Escreva, isso ajuda'.

Não morrer assistido. No Brasil, não me dão esta escolha. A lei diz: aguente o tranco! Sofra o que tem de sofrer! Vá a um terapeuta! Liguei, todos estavam com agendas fechadas por cem anos. Houve quem dissesse: peça ao seu médico antidepressivos fortes, que aliás estão faltando nas farmácias, que só nos oferecem Omega 3 e pílulas virilizantes às toneladas. Aguente sua cruz! Dizia minha mãe piedosa, quando o catolicismo existia - enfrente as dores que te arrasam, a melancolia que te abate. As crenças de Maria do Rosário, minha mãe, sofreriam duríssimo abalo ao ver como há sacerdotes de fancaria. Ninguém acredita que aquele padre Kelmon surgido do nada seja real, tão absurdo em seu surrealismo e sua fala de caça às bruxas. Ah, as feiticeiras de Salem, lembram-se? E dos macarthistas dos anos 50?

Escrever outro livro. Mas acabei de lançar um, não se começa outro, sob pena de repetir tudo, as histórias demoram para sair da cabeça, do coração, do inconsciente. Tinha coisas a fazer na segunda-feira, fui ao correio mandar um Sedex 10 para o Bexiga, ou Bela Vista, São Paulo, descobri que não existe Sedex 10 para aquele bairro central. Tão louco quanto a existência do padre candidato. Voltava para casa pela rua Lisboa, vi uma mulher vindo com um bebê no colo. Quando ela se aproximou, percebi que dava de mamar. Ao se aproximar, automaticamente ela cobriu o seio com a mão, percebi e disse: 'A senhora faz uma das coisa mais belas, amamenta, dá vida a essa criança.' E ela: 'Eu precisava sair, era hora do mamar, vim com ele, quero que este menino cresça e um dia vote, como eu e o pai dele votamos ontem. E ele foi conosco até a cabine, sorriu com os barulhinhos da urna'. Segui, imaginando: será que um dia posso cruzar com este bebê, então um jovem, em uma seção eleitoral, ambos acreditando que se possa mudar as coisas? Melhor esperar.

O Estado de S. Paulo, 09/10/2022

 https://www.academia.org.br/artigos/o-bebe-que-me-salvou

 

Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Arte como esperança: Cyro de Mattos

                                Oscar D’Ambrosio*

 


          Prêmio Jorge Portugal de Literatura da Secretaria de Cultura da Bahia (SECULTBA) de 2020, “Canto até hoje” é uma Edição Comemorativa dos Sessenta Anos de Atividades Literárias de Cyro de Mattos. O conjunto de obras, já publicadas e inéditas, constitui um painel da criação de um artista a favor da liberdade e contra qualquer tipo de suplício.

          Explico melhor lembrando de três sofrimentos célebres impostos pelas divindades gregas. Tântalo, por exemplo, sofreu eternamente sem poder comer ou beber. Mesmo rodeado de água até o pescoço, ele não podia alcançá-la, pois, quando tentava beber, ela baixava o nível e, ao tentar pegar frutos, os galhos das árvores estendiam-se para além dos seus braços.

          Íxion, por sua vez, foi amarrado a uma roda em chamas. Em lugar de cordas, foram utilizadas serpentes; e ele recebeu como punição girar no calor do inferno. Assim como no Tântalo, a dor é eterna e sem possibilidade aparente de escapatória, pois as punições divinas são justamente assim: terríveis e permanentes.

          E temos ainda Sísifo, que recebeu como castigo empurrar uma pedra até o topo de uma montanha. Toda vez que estava chegando ao alto, a rocha rolava novamente ao ponto de partida, tornando, assim, a atividade um labor eterno, que se torna uma metáfora, do mesmo modo que os casos anteriores, da estagnação do ser humano.

          A poesia de Cyro de Mattos é uma resposta aos suplícios. Contra a dor de Tântalo, que não consegue atingir o que deseja, melhor ler o poema abaixo:


Árvore dos Frutos Dourados

O cacaueiro
é sedução
da aurora
ao crepúsculo.
Cílios,
impressões
de folhas,
a fio e prumo
segredo.

          Os versos apresentam aquilo que o universal artista da palavra baiano tem de melhor: a observação poética do cotidiano para construir um lirismo em que as árvores de Tântalo se tornam objeto de sutil sedução e de esperança, pois “da aurora ao crepúsculo” existem as “impressões de folhas” nunca iguais, sempre repletas de segredos.

          Os “frutos dourados” da árvore da arte também auxiliam Íxion. Para enfrentar o seu eterno rodar marcado pelas víboras e pelo calor do mundo subterrâneo, aponto o dístico “O Jabuti” e o haicai “Varal”, de Cyro de Mattos:

 

O Jabuti
Geológicas passadas
quem tem pressa tropeça


Varal
Manhã colorida.
Voz desse mundo sem mancha.
Sonhar é preciso. 

          A sabedoria simbolizada pelo animal, que administra o tempo de sua maneira toda especial, caracterizada por um vagar sem desespero pela existência, encontra um paralelo na manutenção do sonho, que se renova a cada manhã por mais improvável que isso possa parecer nas mais variadas situações.

          Acreditar em algum tipo de futuro também é mentalmente saudável para Sísifo. Saber que seu esforço aparentemente inútil não é só dele, mas é de toda a humanidade, pode ser um consolo, uma pílula de realismo, como aponta o poema...


A Relva e a Foice

Aventura solitária
humano destino ter
entre estar e ir
basta vir para sair
renascer sem fim
como um talo de capim?
Ai de mim na relva,
ais que doem na lâmina, 
eu que vislumbro estrelas,
indiferentes perscrutam-me.

          A aventura solitária de todo ser humano é, no fundo, a de todo e qualquer ser vivo. Nascer é morrer em um ciclo interno, no qual o trabalho é uma das facetas de uma caminhada existencial que muitas vezes pode parecer não ter sentido algum, pois as estrelas indiferentes tudo olham, mas sem se manifestar, ao menos aparentemente.

           As palavras de Carlos Drummond de Andrade a Cyro de Mattos, escritas no Rio de Janeiro, em 1980, parecem resumir bem como o poeta combate, com suas criações, o suplício da vida:


Drummond a Cyro

Uma notícia irrompe desta árvore
e ganha o mundo: verde anúncio eterno
Certo invisível pássaro presente
murmura uma esperança a teu ouvido.

          As visões (“notícias”) que surgem da existência (“árvore”), na voz poética de Cyro de Mattos, se espalham permeadas pela natureza e pela esperança anunciada pelos célebres olhos verdes de Pandora, a primeira mulher do mito grego que, como o próprio nome indica, tinha todos os dons, mas também carregava em sua célebre caixinha todos os males que nos preenchem internamente e nos rodeiam para sempre.

          O pássaro a murmurar esperanças é o poeta. O canto que Cyro de Mattos faz até hoje é o seu dizer individual que se conecta com a sociedade e o mundo. A obra reunida do artista da palavra é um delicado grito de crença e de esperança no futuro que serve como bálsamo para as dores internas e externas de Tântalo, Íxion e Sísifo, cujas agruras, em última análise, são as de todos nós.


*Oscar D'Ambrosio é jornalista, graduado em Letras (Português/Inglês), com especialização em Literatura Dramática (ECA-USP), mestrado em Artes Visuais (Unesp) e doutorado e pós-doutorado no Programa de Educação Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Nunca mais discussão 

Cyro de Mattos



                Aconteceu que Zé Inácio, motorista de ônibus em Buraquinho da Felicidade, ao chegar em sua residência, na rua da frente, do bairro Pau Miúdo, encontrou a mulher Belinha no sofá com um desconhecido. Revoltado, ele que é mais velho do que ela uns trinta anos, esperou que o rival saísse e partiu para tomar satisfações à mulher infiel.
          Xingando alto, sem ligar para os vizinhos que vieram até o passeio, Belinha revidava às agressões verbais do marido, chegando ao ponto de dizer que carinhoso era o amante, ninguém no mundo era mais quente do que ele. Olhar de ódio, lábio inferior mordido, mãos trêmulas, o Zé Inácio resolveu dar uma dúzia de tapas na mulher. Ela se defendeu armada de um velho facão, não tendo medo de enfrentar o marido traído. Vendo-se em desvantagem, ele pegou uma garrafa quebrada e atirou contra a mulher adúltera. Ela se livrou do projétil ao se abaixar rápido, indo se proteger por trás de uma pequena mesa. A garrafa a tingiu o filho caçula do casal, que  teve um ferimento grave na cabeça.
          Chamados pelos vizinhos, os mesmos policiais prenderam Zé Inácio em flagrante. Já mais calmo, não esboçou qualquer reação quando recebeu a ordem de prisão e foi algemado. Ele admitiu na delegacia que não tinha sido essa a primeira vez que encontra a mulher com algum desconhecido em sua residência. “A vida é assim mesmo, nada se pode fazer, cada um já entra nela pra cumprir sua sina”. Logo que saísse da cadeia, ia pedir perdão à mulher e tentar a reconciliação.
          Comentou que ainda não sabia o que tinha se passado com ele para cometer cenas vexatórias como aquelas diante dos vizinhos, mesmo sabendo que ela o trai, gostava muito dela. A briga que ele teve com a mulher já era coisa do passado, a paz voltaria a reinar no lar, “amanhã será outro dia”. Com rosas no jarro posto por Belinha em cima da mesinha.
          A pequena mesa com a toalha branca de linho, tendo no centro o coração grande bordado de vermelho, atravessado pela flecha dourada de Cupido. Só era usada em ocasião especial, presente de Belinha no aniversário dele. Era a toalha que ele mais gostava, embora a razão nunca conseguisse explicar ao coração os motivos desse querer tanto. Também pudera! - como na musiquinha que gostava tanto de cantarolar, o coração tem razões que a própria razão desconhece. 
          Além do mais, quando morrer, não queria choro nem vela, somente uma fita amarela gravada com o nome dela.
           De agora em diante prometia se comportar direitinho e nunca mais  vai ter discussão  com a Belinha.    
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Cyro de Mattos - escritor e poeta com prêmios literários importantes, no Brasil e exterior. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz, Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil e Ordem do Mérito do Governo da Bahia, no grau de Comendador. 

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