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sexta-feira, 8 de julho de 2022

 

5ª Festa Literária de Ilhéus começa no 

próximo dia 13 com conferência de 

Viviane Mosé

 



Com o tema “Literatura e utopias do imaginário”, a 5ª edição da Festa Literária de Ilhéus (FLI) será realizada de 13 a 16 de julho, promovida pela Editus - Editora da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc) - e Academia de Letras de Ilhéus (ALI), com apoio da Ilhéus FM, Bahia FM Sul, TV Santa Cruz, Hotel La Dolce Vita, Secretaria Municipal de Cultura, Governo do Estado da Bahia, através da Fundação Pedro Calmon e Secretaria de Esporte, Emprego e Renda; Cesol e patrocínio da Bahiagás. 

A FLI integra dois grandes eventos literários já consagrados na região: a Feira do Livro da UESC e o Festival Literário de Ilhéus (FLIOS).

A iniciativa é composta por atividades culturais, comercialização de livros, ações para o público infantil, workshops e rodas de conversas, e tem como objetivo valorizar a institucionalização da literatura universal sulbaiana, fomentar a leitura e a formação de novos escritores.

A abertura oficial acontecerá dia 13, às 19 horas, no Sindicato Rural, à Rua Eustáquio Bastos, no centro histórico de Ilhéus, quando ocorrerá a entrega do Prêmio Sosígenes Costa de Poesia – comemorativo pelos 26 anos de criação da Editus - e conferência com a psicóloga e escritora Viviane Mosé

A Festa Literária de Ilhéus conta também com o apoio da Pró-reitoria de Extensão da Uesc (Proex) e do PROLER, e este ano homenageia ao professor, escritor e babalorixá Rui do Carmo Póvoas. A programação, no dia 14, conta com bate-papo sobre “A poesia modernista na contemporaneidade”, às 9 horas, também no Palácio Paranaguá, com a participação dos escritores Aleilton Fonseca, André Rosa, Cátia Hughes e Geraldo Lavigne.

Logo mais, às 14 horas, no mesmo local, nova mesa de bate-papo vai tematizar a obra de “Fernando Leite Mendes, um cronista esquecido”, com as presenças dos escritores Ivo Korytowski, Pawlo Cidade e Wilson Mendes. Em seguida, às 16 horas, a mesa reunirá as escritoras Elisa Oliveira, Kali Oliveira, Luh Oliveira e Neila Brasil, para debater sobre “A arte e a vez de escrever para crianças”. Às 18 horas, haverá lançamento coletivo de livros na Academia de Letras de Ilhéus.

Mais Programação – No dia 15, com atividades também no auditório do Sindicato Rural, a partir da 9 horas, o bate-papo será com Elis Matos, Iran Melo e Tales Pereira/ Tallýz Mann sobre o inquietante tema “Todas, todos e todes: uma questão de gênero e linguagem”. Às 14 horas, os professores e comunicólogos Edgard Abbehusen, Julianna Torezani e Rita Virginia Argollo, conversarão sobre “Redes sociais: entre a arte e o controle.”

Os poetas Fabrício Brandão, Jane Hilda Badaró, Maria Luiza Heine e Tcharly Briglia se reúnem à mesa, às 16 horas, para discutir sobre “Poesia, arte e internet”. Às 18 horas, acontecerá um sarau lítero-musical.

No último dia do evento, 16 de julho, às 10 horas, o bate-papo sobre o tema “Corpos dançantes: música, literatura e artivismo” contará com as presenças de Karen Ramos, Milena Magalhães e Thiago Soares. Às 15 horas, o sul-africano Mlungisi Mkhonza conversará com os professores Rodrigo Bomfim e Rodrigo Felha sobre “Favela, juventudes e narrativas do mundo”.

A programação terá continuidade às 17 horas, com o lançamento de livros da Editus. Em seguida, às 18 horas, a conferência de encerramento será com o escritor carioca Jeferson Tenório sobre “O avesso da pele”, vencedor do Prêmio Jabuti 2021. Depois, previsto para às 19h30min, será apresenta o show da artista Ligia Callaz, também no Palácio Paranaguá.

Workshops e Feira de Livros – A programação da 5ª Festa Literária de Ilhéus oferece também dois workshops gratuitos, que acontecem na Academia de Letras de Ilhéus. Um sobre o tema “A Arte da Escrita”, a ser ministrado pelo premiado escritor Ivo Korytowski, no dia 14, das 9 às 12 horas. E o segundo, no dia 15, nesse mesmo horário, sobre o tema “Transformando Ideias em Contos”, com a professora e escritora Neila Brasil.

Já no Museu do Cacau, ao lado do Sindicato Rural, haverá a tradicional Feira de Livros, com descontos de até 50%.

Para outras informações sobre o evento e seus participantes, além de inscrições para as atividades, acesse o site: https://doity.com.br/festaliterariadeilheus.

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quinta-feira, 7 de julho de 2022

MENINO BOM, TÁ AÍ! – Nelson de Faria

 


                                                     “Quem quer se fazer não pode.

                                                      Quem é bom já nasce feito.”

                                                                                                 DITO POPULAR

 

            Havia gente, e muita, à porta do Bilhar Taco de Ouro, na Rua de Baixo, de Gabriel Monarca, também, conhecido por Biezinho Cururu, por via da cara gorda e bexiguenta, da boca resgada de orelha a orelha, quando ele ria, dos olhos negros saltados. Muito sujeito fraco e desprevenido experimentarão peso do braço dele, por inadvertência ou desconhecimento da jeriza que Biezinho devotava ao apelido, que, por sinal, lhe assentava bem, como luva. No Taco de Ouro, faziam ponto motoristas, boiadeiros, viajantes, pessoas desocupadas da vila. De instante a instante o grupo engrossava. O ar, viciado de fumo e odores de aguardente, era pesado, denso. Cabo Adonias, comandante do destacamento policial, foi chamado, às pressas. Acontecimento como aquele, desenrolado minutos antes, era raro no centro da cidadezinha. Nos arredores dela, nas vendas de ponta de rua, às vezes, umas duas ou três por ano, falando a verdade, o fato não despertava mais tanta atenção. O movimento às janelas e portas da Rua Direita era desusado. O prefeito, Major Suçuarana, sujeito valente, caladão, malicioso,  de faro fino, que nem o de raposa, arrastou a cadeira de vime para o passeio, refastelou-se nela, fingindo-se alheio ao que ocorrera na parte baixa de rua principal. Olhava, de soslaio, os jornais chegados pela manhã desdobrados à sua frente, pigarreava, gozando o espetáculo. Os três soldados, em cadência marcial, marchavam – um, dois, um, dois – sob as ordens do Cabo. Juntaram os calcanhares com estrépito, fazendo alto.  – Meia volta... volver! – Foi a ordem, seca, esganiçada, do comandante, no meio da rua, a cinco metros do prefeito. Cabo Adonias avançou, parou, levou a mão à pala do quepe, depois, em posição de sentido, aguardou ordens.

            - Faça recolher o defunto à sala da guarda. Enterre ele amanhã, depois que o Clodoaldo fizer o laudo do corpo de delito. Não convém muito alarido, muitas diligências. O rapaz, se bem andou, já botou muitas léguas atrás dele. Além do mais... – Coçou a cabeça, olhou em volta, certificando-se de que ninguém estava por perto, concluiu: - Quem caça, acha. Aquele sujeito carecia ser exemplado...

            - Antão, com sua licença, chefe. As ordens serão cumpridas.

            Os  soldados fizeram meia volta, continuaram o caminho.

            No chão, cimentado, caído de costas, as mãos escuras cruzadas sobre o peito largo, os olhos muito abertos, estava o corpo do motorista Zé Matias. Um filete de sangue fluía-lhe do canto da boca entreaberta. Mãos piedosas colocaram uma vela acesa ao lado dele. Cabo Adonias, impondo a autoridade do cargo, inflou as bochechas, estufou o peito, berrou:

            - Qual foi o enxerido que virou ele?

            As conversas pararam de repente. Havia susto nos olhos dos homens. Abriram roda, entreolhando-se. Voz pastosa, indicativa de criatura em início de embriaguez, rompeu o silêncio:

            - Saiba vossa senhoria que foi esta sua criada, aqui, que revirou o pobre, que golfava sangue da boca, e tava se afogando nele. – Fez uma pausa, levantou mais a cabeça de cabelos oxigenados, continuou: - Vosmecê, comandante, carece ter mais caridade com o falecido....

            Era Fifina, um pedacinho de mulher, deste tamanho, ainda bonita, apesar dos dois caninos chumbados a ouro e da vida dissipada que levava. Bichinha valente, pra danar, já havia espancado umas três concorrentes, anavalhado a cara de um rapazinho que se metera a besta com ela. Arrotava valentia, não tinha papas na língua.

            Adonias fitou a mulher bem dentro dos olhos dela, lembrou-se dos abraços apertados, das boquinhas gostosas que a diabinha sabia dar. Fechou o cenho, falou alto, voltado para os homens, para não magoar a mulher:

            - Lei é lei, Dona Josefina. A lei diz que ninguém pode mexer em defunto matado, para não desfazer as pistas, não atrapalhar a investigação. Desta vez, perdoo a ignorância da lei e dos regulamentos...

            - Deve estar correto o que vosmecê fala, comandante. Não sei nada de leis. Mais porém, deixar um vivente se acabar, como este aí, cora o coração da gente. Me desculpe se agravo vosmecê. Deixo não, gente, deixo não...

            Cuspiu no cimento do chão, passou as costas da mão na baba que lhe escorria dos lábios pintados, arrepanhou as saias, empurrou os homens que fechavam o círculo em torno dela, refugiou-se a um canto do salão. Caiu sobre uma mesa, desandou a soluçar, babando e chorando... Cabo Adonias tentou arrolar testemunhas do crime. Ninguém vira nada, ninguém sabia de nada. Biezinho contava: “O motorista parou o caminhão, chegou de junto do balcão e pediu um martelo de pinga. Ofereceu um gole pra mim, recebeu resposta de negação, porque eu não bebo; perguntei se queria mais. ‘Nhor não, foi a resposta. Só unzinho, pra clarear as vistas. Vou viajar a noite toda, quero chegar em casa de madrugada.’ Arrolhei a garrafa e levei a venenosa para a prateleira. Ouvi um barulhinho, às minhas costas, que nem dava para assustar um gato. Quando voltei o rosto, vi o extinto, o cujo aí, rodando nos calcanhares, as mãos na barriga, gemendo e soluçando. Um outro homem, que eu não vi chegar, afastou o corpo, para o ofendido não murchar em riba dele... Mais porém, não conheço o rapaz que fez o serviço, nhor não!”

            Aquilo era esperado por muita gente que conhecia o morto. Zé Matias, morador do arraial da Estiva, comprara um Fê-Nê-Mê, vivia transportando mercadorias de e para Salvador. Sujeito casado, pai de filhos, perdera a vergonha, o respeito dos mais. Viciou-se em engambelar mocinhas, induzindo-as com promessas de bons ordenados nas casas ricas da Bahia. Abusava das pobrezinhas, tirava-lhes os vinténs, se os possuíssem, largava-as nas cidades pequenas, por onde passasse, ou nos acampamentos, à beira das estradas. A última que viajou à boleia do carro dele foi Mariazinha, já de casamento conversado com Zé Procópio, rapazinho calado, manso, que, diziam, era incapaz de matar uma pulga.

            Fazia três meses que o rapazinho vivia em desassossegada andança. Ao entardecer, hora de chegarem motoristas que vinham de longe, ficava rondando portas de vendas e pensões.

            Naquele dia, à boquinha da noite, Zé Procópio aberturou o cujo e rasgou o bucho dele... Uns poucos viram o rapaz limpar a faca suja de sangue na perna da calça, colocá-la na bainha, sair andando de modo leviano, que nem inocente, e entrar na casa do prefeito. Quando Cabo Adonias parou, fazendo continência, Zé Procópio, que espiava a cena por uma fresta de janela da sala de visitas, estremeceu, suando frio. Depois, sorriu, ouvindo as ordens do chefe. Ajeitou o corpo, limpou o suor da testa e dos beiços, continuou a espiar o movimento da rua, o pensamento viajando por longe, muito longe. Indagava-se: “Por onde andaria Mariazinha, a culpada de tudo aquilo?”

 

            O OLHO CLÍNICO do Major Suçuarana descobriu, sem tardança, as qualidades de bom pistoleiro que dormiam dentro de Zé Procópio, despertadas naquela tarde. A calculada fuga da cena do crime, a calma do procedimento dele, procurando abrigo à sombra do maioral, sem deixar que muitos o vissem entrando na casa, a fala mansa do moço, relatando o fato, como se aquilo nada significasse: “Major, me garante minha pessoa porque mandei, agorinha mesmo, um danado pras profundas...” – tudo aquilo, e mais o jeito dele, humilde, sonso, eram qualidades apreciáveis num primário, bem pesadas pela experiência sertaneja do Major Suçuarana. Quando o corpo do morto passou pela frente da casa, era noite fechada. Suçuarana chamou o rapaz. Postados à janela, os dois viram a rede balançando-se, levada por dois soldados, Cabo Adonias à frente deles, com uma lanterna elétrica na mão. Zé Procópio sentiu um arrepio percorrendo-lhe o corpo, dos pés à cabeça. Quis recuar para a escuridão da sala. Uma sensação de enjoo tomava-lhe todo o estômago. Ouviu a voz seca, autoritária do padrinho:

            - Com medo? Homem, que é macho mesmo, não fraqueja. Aguenta ver, sem trastejar o malfeito que cometeu.

            - Nhor sim. Mais porém,  tou todo arrepiado, sentindo um entojo, parecendo de mulher almojada...

          - Pois, então, vamos curar a doença, que é coisa sem significância. Me siga, sem debicar do finado, sem conversar com os mais, como se não conhecesse ninguém.

            O defunto estava largado no chão duro, atijolado. O busto desnudo mostrava largo e comprido talho, que ia da caixa dos peitos à cova do umbigo. Golpe horrível, deixando entrever vísceras sanguinolentas e destroçadas. Suçuarana chegou de manso, quase sem ser pressentido. Recebeu as continências de estilo, tirou o chapéu, olhou demoradamente o corpo desventrado. Não disse palavra. Cabo Adonias contou:

            - Sujeito destemido, esse um que fez o serviço. Ir pra riba do cabra, encalcar nele palmo e meio de  aço, bem no bucho, sem boquejar, sem tremer a mão, é valentia danada, de se invejar. Ora, pois. Coisa parecida, que me acode ao bestunto, só vim no Mato Verde, faz tempo, quando eu era anspeçada. Foi o caso de um sujeito abrir a barriga de uma dona prostituta inté nas partes, lá dela – com licença da palavra – numa vezada só...

            Major Suçuarana arregaçou o canto da boca num sorriso tranquilo, olhou de viés para os curiosos amontoados à porta, enxergou, de uma mistura com quatro ou cinco, Zé Procópio, os olhos brilhando, sem uma contração na cara morena e séria. Pôs o chapéu na cabeça, puxou a aba dele sobre a testa. Despediu-se. Perdeu-se na noite escura. À sua retaguarda, colado a ele que nem sombra, o novo guarda-costas, fazendo jus ao pensamento do chefe: “Menininho bom, tá aí! Nem pestanejou. O diabinho vai longe...”

 

(BAZÉ – ESTÓRIAS SERTANEJAS)

Nelson de Faria

 

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O escritor NELSON DE FARIA

Julgado pela crítica brasileira:

 

          “Os novos contos, são da mesma alta qualidade dos anteriores. A mão do mestre se reconhece em qualquer dos seus contos.”

RIBEIRO COUTO

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terça-feira, 5 de julho de 2022

AMIGOS


 

Veja a sabedoria desse texto:

 

Um jovem recém-casado estava sentado num sofá, num dia quente e úmido, bebericando chá gelado, durante uma visita ao seu pai. Ao conversarem sobre a vida, o casamento, as responsabilidades da vida, as obrigações da pessoa adulta, o pai remexia pensativamente os cubos de gelo no seu copo e lançou um olhar claro e sóbrio para seu filho.

- Nunca se esqueça de seus amigos! - aconselhou. Serão mais importantes à medida  que você envelhecer. Independentemente do quanto você ame sua família, os filhos que porventura venham a ter, você sempre precisará de amigos..

Lembre-se de ocasionalmente ir a lugares com eles; faça coisas com eles; telefone para eles...

Que estranho conselho! (Pensou o jovem). Acabo de ingressar no mundo dos casados. Sou adulto. Com certeza, minha esposa e a família que iniciaremos serão tudo  de que necessito para dar sentido à minha vida!

Contudo, ele obedeceu ao pai. Manteve contato com seus amigos e anualmente aumentava o número de amigos. À medida  que os anos se passavam, ele foi compreendendo que seu pai sabia do que falava. À medida que o tempo e a natureza realizam suas mudanças e seus mistérios sobre um homem, amigos são baluartes de sua vida.

 

Passados 50 anos, eis o que aprendeu:

O Tempo passa.

A vida acontece.

A distância separa..

As crianças crescem.

Os empregos vão e vêm.

O amor fica mais frouxo.

As pessoas não fazem o que deveriam fazer.

O coração se rompe.

Os pais morrem.

Os colegas esquecem os favores.

As carreiras terminam.

Os filhos seguem a sua vida como você tão bem ensinou.


Os verdadeiros amigos estarão lá, não importa quanto tempo e quantos quilômetros estão entre vocês.

Um amigo nunca está mais distante do que o alcance de uma necessidade, torcendo por você, intervindo em seu favor e esperando você de braços abertos, e  abençoando sua vida!

E quando a velhice chega, não existe papo mais gostoso do que o dos velhos amigos... As histórias e recordações dos tempos vividos juntos, das viagens, das férias, das noitadas, das paqueras... Ah!!! tempo bom que não volta mais... Não volta, mas pode ser lembrado numa boa conversa debaixo da sombra de uma árvore, deitado na rede de uma varanda confortável ou à mesa de um restaurante, regada a um bom vinho, não com desconhecidos, mas com os velhos amigos.

Quando iniciamos esta aventura chamada VIDA, não sabíamos das incríveis alegrias ou tristezas que estavam adiante, nem sabíamos o quanto precisaríamos uns dos outros.

Amigos ajudam a dar sentido à sua vida...

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(Recebi via Whatsapp, sem menção de autoria)


segunda-feira, 4 de julho de 2022

Bia Kicis alerta que delação de Marcos Valério torna a eleição ‘um caso ...

A CASA DOS VIDROS AZUIS – Helena Borborema

  


         De vez em quando, sempre que possível, eu fugia do olhar atento de minha mãe e corria para a casa dos vidros azuis. Ela me fascinava. Tinha eu então uns seis anos, e minha mãe não entendia por que eu gostava tanto daquele casarão. Sempre que corria para lá, na volta era ameaçada de receber umas chineladas, mas nada me fazia desistir daquelas visitas.

            Situado bem perto da minha casa, numa esquina de frente para o rio, o casarão tinha cor amarelo-queimado e se apoiava sobre enorme porão, todo acimentado e muito limpo. Cercado de pequeno jardim, onde gerânios de cheiro exótico e cor avermelhada cresciam, tinha de frente ampla sacada, janelas laterais e um alto portão de ferro que lhe servia de entrada. Transposto este, estava uma escadaria de poucos degraus, larga, feita de cimento polido, que dava acesso a uma maciça porta de madeira entalhada. Em sua frente alongava-se uma rua ainda não calçada, onde um gramado – não digo verdejante, porque a sua cor era sempre meio parda – a cobria como um tapete empoeirado. Do outro lado do gramado, estava o rio que gritava e ria pelas vozes das lavadeiras e aguadeiros que labutavam nas suas margens. Mas quando a escuridão da noite se aproximava e eles se iam, apenas o leve rumor das águas se fazia ouvir, e uma tristeza dolorida aquietava tudo. Era esse o cenário que os meus olhos de criança descortinavam, e a impressão que se gravava no meu espírito.

            Transpor a porta do casarão, visitá-lo, era o meu encantamento. Por isso o procurava sempre que podia. Lá dentro, duas salas grandes, com assoalhos de bonitas tábuas de madeira-de-lei, amarelas umas, outras escuras, dispostas em tiras lustrosas e bem tratadas, me atraíam. Era ali o meu palácio encantado. Já no portão, o perfume diferente dos gerânios me convidava a entrar num mundo também diferente, e eu entrava de mansinho, sem me anunciar e sem ser convidada. Simplesmente entrava.

            Lá dentro, uma tranquilidade. A brisa amena vinda do rio, espaços grandes quase vazios de móveis, e o casal de velhos. Velhos  aos meus olhos de criança, pois estariam beirando os quarenta e poucos anos. A dona da casa, amiga de minha mãe, olhava para mim, sorria e me deixava à vontade. Parecia que ela já adivinhara o motivo de minhas visitas. Eu nada dizia, nem procurava, apenas me encaminhava a uma grande sala cujos janelões eram adornados por lindos vidros de cor azul-anil. Ali estava toda a razão do meu encantamento.

            Era aquele o meu mundo encantado. O sol da manhã, que se refletia direto nas vidraças, espalhava uma luz que eu achava maravilhosa, azul forte, que se estendia pelas paredes e assoalhos. O salão com apenas algumas cadeiras e uma pequena mesa de centro, todo iluminado de azul-anil, me envolvia numa magia tão grande que eu quedava feliz, fascinada, dentro de um palácio lindíssimo. Princesas e príncipes das histórias que as empregadas me contavam, carruagens de ouro e prata surgiam e desfilavam ante os meus olhos cheios de alegria. Via arcas cheias de pedras preciosas de Ali Babá, reluzindo no meio do grande salão.

            Como não havia crianças na casa, e não tendo com quem brincar ou participar daquela maravilha, depois de pouco tempo eu deixava o casarão tão sem-cerimônia como entrara, e voltava correndo para casa, já esperando o carão de minha mãe por andar em casa de vizinhos. Como iria ela entender os motivos da minha atração pela casa dos vidros azuis?

            Os anos passaram. O meu encantamento pelo casarão  foi se desvanecendo como a nuvem que se desmancha no espaço. Cresci, fui para longe,  mas a lembrança carreguei comigo. Voltei anos depois , para encontrar desolação. Chuvas de muitos invernos lavaram as suas paredes já mudadas de cor pelo tempo e gosto dos diversos moradores que lá habitaram. Meio arruinado, vazio e silencioso, reboco caindo, vidraças quebradas, despertou-me tristeza. O velho portão de ferro ainda de pé, outrora tão bordado nos seus arabescos que mãos de artistas forjaram, parecendo agora um espectro corroído pela ferrugem, teimava inutilmente em cumprir o seu fado de guardião e protetor. Dos vidros azuis das janelas, poucos restavam.

            Triste e curiosa eu me perguntava: Que mal fez o meu casarão ao tempo para que o atacasse tão cruelmente? O que aconteceu durante o nosso longo afastamento? As tábuas do chão ainda seriam as mesmas, de duas cores e lustrosas? E os gerânios, o que foi feito deles? Tudo estava tão diferente... O gramado da rua fora substituído por paralelepípedos. Só o rio parecia o mesmo, ou melhor, quase o mesmo, porque estava calado, já sem os cantares das lavadeiras e os gritos dos aguadeiros.

            Quis adentrar o velho portão, mas eu também tinha mudado, já não era mais aquela criança que outrora entrava sem pedir licença e saía sem se despedir. Porém, que interesse tinha mais para mim a velha casa, se os seus vitrais já não refletiam o azul que encantou a minha infância, e se o meu palácio de sonho não mais existia? O meu velho casarão parecia agora estampar a figura de um mártir coberto de chagas, flagelado, agonizante, numa dor silenciosa. Os vitrais azuis estraçalhados eram testemunhas mudas daquela decadência. Novamente lhe disse adeus e parti.

            Novos verões e novos invernos vieram. O progresso chegou envolvendo ruas, avenidas, casas, costumes e tradições, e com ele lá se foi embora o meu velho casarão. Da última vez que o busquei, já não o encontrei. Em seu lugar erguia-se um edifício de apartamentos, moderno, todo fechado, sem vidros coloridos, sem portão de arabescos bordados, sem jardim de gerânios.

            Sem a beleza serena e nobre do meu lindo casarão e, sobretudo, sem a poesia dos lindos vidros azuis iluminados pelo sol.

 

(RETALHOS)

Helena Borborema

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HELENA BORBOREMA -  Nasceu em Itabuna/Ba. Professora de Geografia lecionou muitos anos nos colégios Divina Providência, Ação Fraternal e Colégio Estadual de Itabuna. Formada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia de Itabuna, exerceu o cargo de Secretária de Educação e Cultura do Município.

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