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domingo, 20 de fevereiro de 2022

PALAVRA DA SALVAÇÃO (256)

  


7º Domingo do Tempo Comum – 20/02//202


Anúncio do Evangelho (Lc 6,27-38)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: “A vós, que me escutais, eu digo: Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos amaldiçoam, e rezai por aqueles que vos caluniam.

Se alguém te der uma bofetada numa face, oferece também a outra. Se alguém te tomar o manto, deixa-o levar também a túnica.

Dá a quem te pedir e, se alguém tirar o que é teu, não peças que o devolva. O que vós desejais que os outros vos façam, fazei-o também vós a eles.

Se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Até os pecadores amam aqueles que os amam.

E se fazeis o bem somente aos que vos fazem o bem, que recompensa tereis? Até os pecadores fazem assim.

E se emprestais somente àqueles de quem esperais receber, que recompensa tereis? Até os pecadores emprestam aos pecadores, para receber de volta a mesma quantia.

Ao contrário, amai os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai sem esperar coisa alguma em troca. Então, a vossa recompensa será grande, e sereis filhos do Altíssimo, porque Deus é bondoso também para com os ingratos e os maus. Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso.

Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados. Dai e vos será dado. Uma boa medida, calcada, sacudida, transbordante será colocada no vosso colo; porque, com a mesma medida com que medirdes os outros, vós também sereis medidos”.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

http://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Donizete Ferreira – Comunidade Canção Nova:


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Misericórdia: amor em excesso

 


“Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36)

 

O Evangelho deste 7º domingo do Tempo comum nos situa diante desta convicção: Deus é Misericórdia e nossa vocação cristã é viver misericordiosamente.

Em sua misericórdia, Deus sempre nos surpreende, sempre excede nossas estreitas expectativas, para abrir caminho a partir de nossas fragilidades. Só o amor misericordioso de Deus nos reconstrói por dentro, destrava nosso coração e nos move em direção a horizontes maiores de busca, responsabilidade e compromisso.

Duas razões que deveriam estar presentes em quem se diz cristão, algo tão natural no seguimento de Jesus Cristo: alegria pela experiência de que Deus nos ama com um coração misericordioso e misericórdia como conduta libertadora que nasce de tal experiência. Aqui nos encontramos envolvidos por uma mensagem que é essencial e decisiva no nosso “ser cristão”.

Ser misericordiosos e compassivos é a vocação à qual todos nós, seres humanos, fomos chamados, inclusive aqueles que ainda não experimentaram o dom da fé ou mesmo a esvaziaram. É o caminho para conseguir uma convivência leve, acolhedora e aberta. As Bem-aventuranças vão nesta direção, abrindo espaço para que o Amor misericordioso de Deus se transforme em motor da história. 

Misericórdia. É a primeira, a última, a única verdade na Igreja, em todas as suas doutrinas, cânones e ritos. É o “atributo primeiro” de Deus proclamado por todas as religiões e que deve inspirar o modo de proceder de todo ser humano. E, - por que não dizer? -, também no campo da política ou da gestão da vida pública com todas as suas instituições, partidos, programas e conferências climáticas. Ai das políticas sem entranhas, sem alma, sem misericórdia!

A misericórdia é a luz e a chave de nossa vida, tão preciosa e frágil, de nosso pequeno planeta tão vulnerável, do universo imenso e interrelacionado e do qual fazemos parte.

Misericórdia, segundo sua etimologia, significa “entranha”, coração, ternura diante da fragilidade e miséria do outro. Por isso é um dos nomes mais belos de Deus; é o mesmo que dizer “coração da Vida” e de tudo quanto existe. 

A força criativa da misericórdia de Deus põe em movimento os grandes dinamismos de nossa vida; debaixo do modo paralisado e petrificado de viver, existe uma possibilidade de vida nova nunca ativada.

Se recuperarmos as atitudes de misericórdia e compaixão, teremos entrado na vivência essencial do Evangelho. O decisivo é que a Igreja toda se deixe reger pelo “Princípio-Misericórdia”, sem ficar reduzida simplesmente a somar “obras de misericórdia”.

A misericórdia é para os audazes e criativos, capazes de revolucionar a existência com atitudes maduras de amor profético, alargando espaços onde imperam somente a doutrina, os esquemas rígidos e as retóricas de poder e de juízo daqueles que não se deixam conduzir pela força humanizadora da mesma Misericórdia.

À imagem do Deus de Misericórdia fomos criados, e somos seres capazes e necessitados de misericórdia. Uma faísca da misericórdia Deus está presente no interior de cada ser humano, pálido reflexo dessa “forma suprema de ternura” que é o Amor de Deus, que rompe as distâncias e se aproxima da realidade humana como Ternura amorosa. Ou seja, se Deus não se revelasse como “misericórdia”, não poderia ser amado pela pessoa humana como se ama o pai ou a mãe.

Deus misericordioso nos educa e nos impulsiona a viver misericordiosamente. Sua misericórdia penetra até o mais profundo de nosso ser, individual e comunitário, para que pensemos, falemos, escutemos e atuemos misericordiosamente. “Oxalá vos sintais sempre misericordiados, para serdes, por sua vez, miseri-cordiosos” (Papa Francisco). 

No princípio era a Misericórdia. Por ela fomos criados. Foi um ato de Misericórdia que nos deu vida. A Misericórdia é sempre geradora de vida. A Misericórdia é o Amor que vai além da justiça, e vir à vida foi fruto de Amor em excesso, não um ato de justiça.

Fomos criados por um coração misericordioso, fomos feitos por mãos misericordiosas, pensados por uma mente misericordiosa. Vivemos imersos na Misericórdia.

Se Deus não fosse misericordioso, não teríamos jamais existido; e se essa Misericórdia existe desde o princípio do nosso viver, ela ainda agora é fonte de vida, graça da qual temos continuamente necessidade e que constantemente está agindo em nós para alimentar o impulso da reconciliação com tudo e todos.

A misericórdia constitui a resposta de Deus à indigência do ser humano: ela destrava a vida, potencializa o dinamismo do “mais” e o coloca em movimento em direção a um amplo horizonte de sentido. 

O teólogo Jon Sobrino formulou a expressão “princípio-misericórdia”, porque a misericórdia foi a que moveu toda a ação de Deus no AT e de Jesus no NT.

Jesus realizou muitas coisas e em muitos lugares (ensinou, curou, denunciou, alimentou, dialogou, etc.), mas a misericórdia foi a que inspirou e moveu tudo em sua vida e ação. Sentiu profundamente o sofrimento das pessoas, preocupando-se sempre em aliviar sua dor. Mas é preciso destacar, no entanto, que Jesus não se limitou à esfera do privado, mas estendeu a misericórdia a dimensões coletivas e públicas: repartiu o alimento a uma multidão, interpelou os ricos, pregou às massas e as alentou, denunciou os abusos das autoridades religiosas e políticas, entrou em conflito com os manipuladores da religião do Templo... 

De acordo com o Evangelho deste domingo, só quem entra no fluxo do “princípio Misericórdia”, será capaz de amar até os inimigos, de quebrar o círculo de toda violência, de bem-dizer quem amaldiçoa e rezar pelos que caluniam. Assim, a misericórdia, recebida e experimentada, é a base da atitude compassiva, não como ato ocasional mas como estilo de vida evangélico. Torna-se o fundamento e a perene inspiração de uma existência de partilha e solidariedade.

“Ser humano” é, para Jesus, agir com misericórdia; do contrário, fica viciada na raiz a essência do humano, como acontece com aqueles que fazem da lei e da doutrina o centro de suas vidas, “passando do outro lado” da dor e da exclusão do outro.

A misericórdia, como estilo-de-vida cristã, é força oblativa que rompe distâncias e faz “morada no outro”.

Ela se constitui como uma “caridade-em-ação” perante o sofrimento alheio, numa atitude fundamental de solidariedade. É a ternura que se traduz em atos em favor da vida e não da morte.

Ela nos descentraliza e nos coloca no caminho do co-irmão, sobretudo daquele mais fragilizado e excluído.

É a misericórdia que desperta em nós uma nova sensibilidade a partir do outro, almejando com todas as forças aquilo que é o melhor para ele.

Trata-se de uma “escuta existencial” feita de profundo respeito pela alteridade do irmão. Não pretende que o outro se amolde à nossa maneira de ver ou sentir, mas deixa o outro ser profundamente ele mesmo.

Assim lançamos a base para um autêntico encontro fraterno, inspirando-nos na própria atitude de Jesus para com as pessoas. Abrimo-nos por dentro para captar o diferente do outro e acolhê-lo com o coração.

Texto bíblico:  Lc 6,27-38

Na oração: A experiência da oração implica escancarar as portas de nossa interioridade, abrindo passagem para que a Misericórdia divina transite com liberdade pelos recantos escondidos e sombrios, ativando e despertando dinamismos e recursos que ainda não tiveram oportunidade de se expressar.

- O atual contexto social-político-cultural-religioso revela sua terrível face desumanizadora, através da cultura do ódio, da intolerância, das mentiras... Como você, seguidor(a) de Jesus, tem reagido diante disso? Sua presença tem a marca da misericórdia ou da indiferença? Está a serviço da vida ou da morte?...


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2504-misericordia-amor-em-excesso

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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: Saudade - Ciro Vieira da Cunha




 

SAUDADE

 

Saudade! o teu olhar longo e macio

Derramando doçura em meu olhar...

Um bocado de sol sentindo frio,

Uma estrela vestida de luar...

 

Saudade! um pobre beijo fugidio

Que tanto quis e não cheguei a dar...

A mansidão inédita de um rio

Na volúpia satânica do mar...

 

Saudade! o nosso amor... o teu afago...

O meu carinho... o teu olhar tão lindo...

Um pedaço de céu dentro de um lago...

 

Saudade! um lenço branco me acenando...

Uma vontade de chorar sorrindo,

Uma vontade de sorrir chorando!...

 

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CIRO VIEIRA DA CUNHA

Nasceu na capital de São Paulo, em 1º de junho de 1897.  Publicou: Pontos de química fisiológica, em colaboração com Alberto Moreira (1918); Contra o alcoolismo no Brasil (1922); O dialeto brasileiro, tese para a cátedra de Português da Escola Normal Pedro II (Vitória, 1933); Espera inútil (1933); Oração de paraninfo (1937); Alguma poesia (1942); Sinfonia das ruas de Vitória (versos, em parceria,1943); Chuva de rosas (1947); No tempo de Paula Nei (Prêmio Carlos Laet da Academia Brasileira de Letras,1950); O cadete 308 (1956); No tempo de José do Patrocínio (1960); Memórias de um médico da roça (1956); Arte de colar (1970); Guia de civismo (em colaboração com Terezinha Saraiva,1972). Foi autor do hino da cidade de Vitória. Teve trabalhos inseridos em várias antologias. Faleceu no Rio de Janeiro, em 26 de junho de 1976.

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terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

ZEZINHO BONIFÁCIO – José Sarney




Bonifácio - Zezinho, entre os seus colegas de Parlamento, José Bonifácio Lafayette de Andrada -, que foi signatário do Manifesto dos Mineiros e presidente da Câmara dos Deputados, era tido como homem de muito bom humor que gostava de contar pilhérias e, não raro, fazia graça com seus colegas. Mas a mim sempre tratou muito bem e com grande amizade.

Era um político muito esperto, de tal modo que, depois de 1945, transitava entre os grupos dos dois líderes que comandavam a UDN mineira, Magalhães Pinto e Milton Campos, conseguindo não se envolver com nenhum dos lados, o que lhe acarretava vantagens e desvantagens. Uma delas é que nenhum deputado mineiro lhe emprestava solidariedade quando ele precisava, uma vez que não se sabia a que lado ele pertencia.

O ramo mineiro dos Andrada vem de seu tetravô Martim Francisco Ribeiro de Andrada, casado com dona Gabriela Frederica, filha de seu irmão José Bonifácio, o Patriarca. Deles descenderam José Bonifácio, o Moço, o grande orador do 2o Império, e seu tio Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, presidente de Minas Gerais e da Constituinte de 34.

Após concluir seus estudos, Zezinho foi nomeado por Antônio Carlos para trabalhar com o secretário de Segurança, José Francisco Bias Fortes. Pouco depois os dois estavam casados com duas irmãs, dona Vera e dona Francisca, filhas do engenheiro Simão Gustavo Tamm.

Concorrentes e aliados em Barbacena, de onde ambos eram originários, se distanciaram com a Revolução de 30: Zé Bonifácio foi nomeado prefeito da cidade. A tradição era que os Bias Fortes tivessem o poder local, e os Andrada, o estadual e o federal. Seu cunhado não gostou, não compareceu à posse e tornou-se oposição violenta. Olegário Maciel e Arthur Bernardes tentaram um acordo: o Zezinho continuaria prefeito e o Bias Fortes receberia o título de chefe político de Barbacena. Não deu certo.

Em 1945, com a formação dos novos partidos, o Bias Fortes tornou-se chefe da máquina pessedista (PSD) e o Zezinho ficou com a UDN, consagrando o antagonismo.

Quando Bias Fortes visitava sua cunhada, Zezinho nunca estava presente em casa: ele arranjava sempre uma desculpa para não se encontrar com o Bias.

Essa luta continuou por muitos anos: quando eu era deputado federal, ainda encontrei o filho do Bias, o Biazinho, e o Zé Bonifácio na Câmara dos Deputados. Sem ser mineiro, consegui ser amigo dos dois, pendendo um pouco para os Andradas, que eram do meu partido.

Muitas histórias contavam-se do Zezinho e de seus discursos irônicos.

Quando Getúlio suicidou-se, houve um clima de grande consternação na Câmara dos Deputados. Zé Bonifácio pediu a palavra, foi à tribuna e começou seu discurso assim:

- PTB! PTB! O que fizestes de vosso chefe? Abandonaste-o na hora mais difícil! E ele morreu só!

O Lúcio Bittencourt, que era deputado por Minas Gerais, aparteou-o:

- Não faça isto! Respeite este momento: nós estamos solidários com o presidente.

O Zezinho, bom Parlamentar, perguntou:

- Onde o senhor estava?

O Lúcio Bittencourt respondeu-lhe:

- Em Minas.

Aí o Zezinho retrucou:

- Vejam: estava em Minas enquanto o presidente estava aqui às vésperas de colocar uma bala no coração! E como soube da morte do Getúlio?

Lúcio Bittencourt respondeu-lhe:

- Pelo rádio.

Foi um vexame tremendo, e o Zezinho conseguiu o que queria.

Os Divergentes, 07/02/2022

 

https://www.academia.org.br/artigos/zezinho-bonifacio

 

José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38, eleito em 17 de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6 de novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.

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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

CORTESIA FRUTO DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ


“A cortesia é uma das propriedades de Deus, que dá seu sol e sua chuva aos justos e aos injustos por cortesia, e a cortesia é irmã da caridade, que extingue o ódio e conserva o amor.”

 (São Francisco de Assis)

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“A Revolução Francesa foi satânica porque ela cometeu sacrilégios, entronizou a deusa razão etc. Mas não só por isso. Foi satânica porque representou uma explosão de ódio contra o bem, representado pela pompa, pela graça, pela cortesia, que brilharam naquele tempo.”

(Plinio Corrêa de Oliveira)

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“A polidez é o ritual da sociedade, assim como a oração o é da Igreja.”

(Madame de Staël)

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“A corte é como um edifício de mármore, quer dizer, é composta de homens muito duros, mas muito polidos.”

(Racine)

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“O homem não educado é a caricatura de si próprio.”

(Friedrich von Schlegel)

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“As raízes da educação são amargas, e os frutos dulcíssimos.”

(Aristóteles)

 

https://www.abim.inf.br/cortesia-fruto-da-civilizacao-crista/



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CHUVA DE JANEIRO – Cyro de Mattos


Chuva de Janeiro

Cyro de Mattos*

         Depois que o marido faleceu perdeu o interesse pela vida. Vivera com ele trinta anos de casada e soubera que o calor do corpo aquece o amor. Quando se é idosa, a experiência de vida diz que esse calor do corpo some, ainda mais quando o seu homem já não está mais ao seu lado para consumar o ato mais prazeroso da vida.

          Os dois filhos estavam casados, viviam no exterior. Ela morava em um apartamento de quarto e sala. Passava com a aposentadoria de professora estadual. Todos os dias seguia para a pensão onde fazia a refeição do almoço. Sentava em uma mesa reservada para ela no canto da sala.  Lá viu pela primeira vez o homem de cabelos brancos que olhava para ela. Tinha um brilho diferente nos olhos.  O olhar dele se repetiu nos outros dias, deixando-a sem jeito. Ficou assustada quando ele se levantou de sua mesa e pediu permissão para fazer-lhe companhia durante a refeição.

          Disse que era um viúvo aposentado, fora funcionário do Banco do Brasil. Um dia convidou-a para passear no parque. A princípio relutou, mas diante da insistência dele outras vezes, resolveu aceitar o convite.  Conversaram sobre a vida, seus momentos entre o alegre e o triste, foram se tornando íntimos.  Num ponto concordaram, viver sozinho, sem ter ninguém como companhia, era ruim. Deram uma volta no jardim, sentaram no banco embaixo da árvore frondosa. Jogaram migalhas para os pombos e para os peixes na lagoa.

          Na tarde fresca, um vento morno passava no rosto dela em finura de  lenço e leveza de carícia. Um casal de namorados, em cada beijo que sorvia nas bocas ávidas, revelava que a vida era boa e bela, assim no calor que se estendia por toda a extensão da pele só podia ser dado valor a ela. Ele fez questão de levá-la até o prédio onde ficava o apartamento dela. Na entrada do pequeno edifício olharam-se em silêncio antes de cada um querer dizer algo ao outro, que eles mesmos já sabiam o que era e que pulsava como uma chama que lampeja dentro. Talvez um convite para conhecer o apartamento de perto por ele. Convite dessa natureza seria impossível, embora houvesse no rosto de cada um deles o olhar cintilante de brilho.

          Ele disse:

           - Muito obrigado.

           Ela disse:

           - Obrigada digo eu.

          Despediram-se com leve aperto de mão.

          Era janeiro e ainda não havia caído a chuva de verão.

          Daquela vez quando terminaram de fazer o passeio pelo parque, ele a convidou para conhecer o apartamento dele. Era também um quarto e sala. Ela perguntou quem fazia a arrumação e o asseio. Respondeu que havia contratado uma faxineira. Vinha duas vezes na semana fazer a faxina. Notou que certas coisas não estavam no lugar devido. Fez a arrumação com esmero.  Limpou a poeira na mesa e nas duas cadeiras. Deu brilho em alguns objetos domésticos. Um pouco cansada foi tomar um banho no chuveiro de água quente. Vestiu o roupão que pertenceu a ex-mulher dele. 

             Ela sorriu quando ouviu o convite para ir se deitar com ele.

             Então vieram os primeiros beijos. O ato para que alcançasse o auge exigia concentração e esforço. E aconteceu o máximo quando o prazer de ambos ao mesmo tempo precipitou a vertigem. Souberam que ainda restavam um pouco neles daquilo que motiva a vida. Era preciso de agora em diante aproveitar bem antes que não restasse mais nada. Foram alguns anos de convívio harmonioso, decorrente da união sem atrito entre o espírito e o corpo, que acordava rejuvenescido, embora no estado de fuga repentina em cada vez que o ato se consumava dentro algo precioso ia ficando longe nos seus contornos definidos. 

             Quando ocorreu aquela primeira vez em que dormiram juntos, ela lembrava agora, acordou no final da tarde. Movimentou-se no quarto com cuidado, não queria interromper o sono tranquilo dele. Foi até a janela.

             E, cheia de vida, ficou olhando cair pelo vidro a chuva de verão. 

 

*Cyro de Mattos é ficcionista, poeta e ensaísta

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sábado, 12 de fevereiro de 2022

PALAVRA DA SALVAÇÃO (255)


 6º Domingo do Tempo Comum 13/02/2022


Anúncio do Evangelho (Lc 6,17.20-26)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós!

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo † segundo Lucas.

— Glória a vós, Senhor!

Naquele tempo, Jesus desceu da montanha com os discípulos e parou num lugar plano. Ali estavam muitos dos seus discípulos e grande multidão de gente de toda a Judeia e de Jerusalém, do litoral de Tiro e Sidônia.

E, levantando os olhos para os seus discípulos, disse: “Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus!

Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis saciados! Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque havereis de rir!

Bem-aventurados sereis, quando os homens vos odiarem, vos expulsarem, vos insultarem e amaldiçoarem o vosso nome, por causa do Filho do Homem! Alegrai-vos, nesse dia, e exultai, pois será grande a vossa recompensa no céu; porque era assim que os antepassados deles tratavam os profetas.

Mas, ai de vós, ricos, porque já tendes vossa consolação! Ai de vós, que agora tendes fartura, porque passareis fome! Ai de vós, que agora rides, porque tereis luto e lágrimas! Ai de vós quando todos vos elogiam! Era assim que os antepassados deles tratavam os falsos profetas”.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

http://liturgia.cancaonova.com/pb/liturgia/6o-domingo-tempo-comum-5/?sDia=13&sMes=02&sAno=2022

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão de Dom Júlio Endi Akamine,
Arquidiocese de Sorocaba



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Viva a bem-aventurança de ser de Deus

Imagem: Tissot

“Levantando os olhos para os seus discípulos, disse: 'Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus! Bem-aventurados vós, que agora tende fome, porque sereis saciados! Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque havereis de rir! Bem-aventurados sereis, quando os homens vos odiarem, vos expulsarem, vos insultarem e amaldiçoarem o vosso nome, por causa do Filho do Homem!'” (Lucas 6,20-22).

Um detalhe bonito que o Evangelho de Lucas nos apresenta é esse: Jesus levantando os olhos para os Seus discípulos. Jesus vê os seus discípulos e cada um de nós também a pobreza, a fome, o choro, as injustiças, as fadigas, as tribulações. Jesus reconhece nos discípulos e cada um de nós, essa possibilidade de vivência das bem-aventuranças, Jesus reconhece isso. Jesus vê e dá um significado diferente, Ele transforma todas essas realidades de fome, de pobreza, de choro, de injustiça, transforma isso em bem-aventurança, em possibilidade de santificação.

Bem-aventurado, aqui, não é porque eu sou uma pessoa que sofro, que choro, uma pessoa que não tem sorte, uma pessoa injustiçada, mas porque, mesmo se eu estivesse nesta condição, Deus estará comigo. Por isso somos bem-aventurados. Não é ou companhias de nós para nós, para que sejam transformadas por dificuldades, mas é devidas por elas, porque elas são normalmente na realidade em pessoas que nós somos, para nós, para pessoas que somos mais fiéis.

Vamos viver essa bem-aventurança, uma aventura bela de sermos de Deus, de acolhê-Lo na nossa vida.

Na alegria e na dor, Deus precisa estar comigo. Na abundância, mas também no momento que faltar, Deus precisa estar comigo. Quem decide viver sozinho momentos de tribulação está vivendo já o inferno em si, porque o inferno é justamente estar sozinho, é viver sozinho. E Deus quer ser a companhia para os nossos corações no momento em que faltar, no momento em que nós passamos pela pobreza, no momento em que nós estamos tendo alguma coisa, no momento em que nós somos injustiçados, traídos, decepcionados, Deus quer ser a nossa companhia para transformar todos esses sofrimentos em bem-aventurança.

Para que a vida seja uma bem-aventura, ou seja, uma bela aventura, Deus precisa encontrar espaço para caminhar comigo e com você! Deixemos Deus caminhar, vamos viver essa bem-aventurança, uma aventura bela de sermos de Deus, de acolhê-Lo na nossa vida até mesmo nos momentos mais críticos. Ele é a nossa companhia, Ele quer ficar sempre do nosso lado!

Sobre todos vós, a bênção do Deus Todo-poderoso. Pai, Filho e Espírito Santo. Amém!


Padre Donizete Ferreira

Sacerdote da Comunidade Canção Nova.

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ENCANTO E DESENCANTO EM TEMPO DE COVID - Padre David Francisquini *

 


O colapso da fé que assola o mundo atual é sem dúvida o pior dos males que grassam na sociedade contemporânea. O reflexo desse flagelo não está apenas nas almas, mas nos ambientes, nos costumes e nas instituições. As pessoas sem fé vivem como se Deus não existisse, à procura desenfreada do gozo da vida, do amor irrestrito ao presente, do desprezo pelo passado e por todos os valores morais e religiosos.

Ao excluir Deus de suas vidas, ipso facto, o homem faz da existência uma chanchada, um carnaval, uma piada, além de outras futilidades que o fazem pular, rir, gritar, cantar. Hoje ele tenta preencher o vazio de Deus, além do trabalho, com automóvel, lazer, celular, vídeos de entretenimento e outros joguinhos do gênero…

Convenhamos, tudo isso parece moldado para fazer esquecer quão grave é a vida, diante das responsabilidades que por sua própria natureza ela nos impõe. Quantas cabeças rolaram ao longo dos séculos, seguidas de promessas de um mundo melhor, onde os homens seriam autossuficientes com o auxílio da ciência e da técnica.

Estas redimiriam o homem do trabalho, das fadigas, das doenças, resolveriam todos os seus problemas, eliminariam a sua dor, a pobreza, a ignorância, a insegurança, enfim tudo aquilo que chamamos de efeitos do pecado original. Cfr. Plinio Corrêa de Oliveira in Revolução e Contra-Revolução.

Mas como os homens gostam de ser enganados! Na medida em que eles foram abandonando a religião, os confessionários foram desaparecendo das igrejas — o mais das vezes, ó dor, removidos por mãos sagradas — e os consultórios psiquiátricos se multiplicando. Por quê?! Será que as pessoas se sentiram ou se sentem frustradas pelas promessas enganosas, e que a vida neste vale de lágrimas se lhes vai tornando inexplicável?!

“Sede sóbrios e vigiai. Vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar” (1 Pedro 8). Essa é a advertência do Evangelho sobre o pai da mentira. A história, em muitas de suas páginas, registrou essas ciladas com nome de renascimento, de cultura, de revolução, de guerra… a ponto de hoje mais que nunca pode-se afirmar que Satanás é o príncipe deste mundo.

As armas infernais são tão velhas como o demônio. Basta que seus agentes se apresentem faceiros com um ramo de louro, um metal brilhante ou um prato de lentilhas para abalar a vigilância tão apreciada por Nosso Senhor e cair no seu encanto. Mas o desencanto vem a galope com as aflições de espírito, transformando as pessoas em joguete, em escravo preso às suas garras… Logo elas, que venderam a alma na ilusão de ser livres!

Não se pode por outro lado negar que diante do esforço revolucionário e luciferino para levar os homens à apostasia venha surgindo uma sadia reação, sem dúvida uma ação da graça, que toca o fundo dos corações. As missas tradicionais, por exemplo, vão se multiplicando com muitos dos bons hábitos e costumes de outrora.

Posta esta introdução, passemos aos fatos. A pequena assistência espiritual prestada por sacerdotes aos enfermos, de modo especial aos atacados pela COVID, vem se tornando mais crítica em razão de uma campanha para cercear o atendimento de pessoas nos hospitais, UPAs e demais serviços ambulatoriais. O pretexto é preservar a saúde coletiva.

Afinal, não apenas da assistência médica ampla e eficaz necessita o paciente, mas também, e de algum modo sobretudo, da assistência espiritual, uma vez que nossos corpos são mortais, mas não a alma, cumprindo-nos por isso preservá-la de se perder eternamente.

É perplexitante nesse sentido considerar que a CNBB cuida quase tão-só de questões sociais e políticas, enquanto os católicos precisam recorrer a advogados para que padres tenham o devido acesso ao leito de pessoas enfermas para salvaguardar seus direitos previstos diante de Deus, direitos esses garantidos pela legislação federal.

Aqueles que por missão divina deveriam ser a voz que clama, o sal que salga, a luz que ilumina, quedam silenciosos e omissos, quando não coniventes com a perseguição que sofrem os fiéis abandonados nos hospitais e lugares correlatos sem o apoio moral e religioso. Uma omissão de clamar aos céus!

Nada mais malfazejo para as almas que necessitam de pão, dar-lhes pedra; que necessitam de um peixe, dar-lhes um escorpião, para utilizar as palavras do divino Salvador nesse caso de tanta incúria no atendimento espiritual de ovelhas que clamam pelos pastores.

Deveriam ser eles os primeiros a demonstrar desvelo em lutar com todos os meios lícitos a fim de que as portas do reconforto fossem franqueadas a almas órfãs, e muitas vezes já no umbral da morte. Seguramente a hora mais difícil da vida, o momento em que as pessoas mais precisam de apoio espiritual e encorajamento.

Este silêncio e omissão, sobretudo num momento como esse, só tem um nome: deslealdade para com a missão da Igreja, da glória de Deus e da salvação das almas.

Voltarei em breve ao tema.

 

* Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).

https://www.abim.inf.br/encanto-e-desencanto-em-tempo-de-covid/

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