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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022
MUSEU GUARDADOR DE AMORES FUGAZES – Cyro de Mattos
Museu Guardador de Amores Fugazes
Cyro de Mattos*
Só a arte da
palavra pode operar o milagre de fazer renascer o que se foi, dolorosamente.
Com a poesia marcada de versos no reverso, sem evasivas românticas, é capaz de
revelar a alma invisível nas rupturas drásticas dos seres e das coisas para que
seja visto o quanto cada um de nós é um ser do tempo, que não muda, e dessa
forma mudamos nós, na travessia dos amores fugitivos que acontecem submissos a
certo senhor soberano. Indiferente é
como esse cavaleiro no galope absoluto tudo dá e toma. E ela, a poesia, leal amada necessária, luz e
bálsamo, então acontece com todos os bemóis do sentimento para acender a alma
lírica, com suas tonalidades humanas e sons do coração batendo em dó, e
acorda-nos nos apelos de tanto estarmos na ânsia do amor, e nos socorre e
ilumina nas zonas obscuras de tudo que guardamos.
Esse museu de
emoções, que Raimundo Gadelha compôs com versos críticos na lembrança,
confinados em áspera travessia e nos cômodos ´com os elementos de tempos
temerários, reflete a alma tantas vezes sofrida do seu criador. Nesse museu de
emoções, que agora se abre para visões e revisões dolorosas da vida, o
visitante fica sabendo como nele é que escutamos o quanto cada um de nós conta
pelos cantos o seu tanto, suas verdades que entristecem a passagem dos anos no
soluço.
O nordestinado
Raimundo Gadelha, radicado há anos em São Paulo, onde desenvolve suas aptidões
como editor de livros de literatura, no seu trânsito por ruas e campos de
solidão trouxe os quadros necessários para habitar esse museu banhado de gritos
em tudo que expõe. Não é um museu composto de quadros exóticos, fotografias
curiosas, mas constituído de emoções que atormentam na cobrança do custo alto
pela visita, expõe em salas povoadas de duras recordações o sal dos sonhos em
que se banha por entre paralelos e meridianos do existir.
É inconteste que a geografia e as emoções
tão intensamente vividas no Nordeste
transformaram-se em afetivos elos
que carrego com orgulho por todos esses anos...
Nesse
museu, de pungente lirismo, com versos densos armados com o ritmo da saudade
incandescente, ciente do que fala seu guardador ressalta que “a família é
sempre/ lenta desintegração de nós mesmos.” E nos apresenta, na viagem
imaginária que se cruza com o real, lugares que vão ficando para trás. O
visitante em pouco tempo toma conhecimento que as vozes do pai do dono do museu
desdenhavam das regiões fora do mapa de sua afetividade enraizada no agreste do
sertão, do exterior nem queria que falassem. Em sua inquieta passagem por uma
paisagem particular, elencada de relações profundas com a vida, ordenava que se
pusesse nela os anúncios de empoeiradas estradas avistadas da boleia de um
caminhão.
Vínculos e
dilacerações, inquietações de natureza grave mostram como a vida é aqui insone,
não se compraz com o romantismo que simula o real tecido e acontecido nas
desilusões. Há no autor poeta desse museu, assim imerso em tempo, vida e
solidão, certa unidade de corpo
viajante gotejado de suor e alma inteirada de verdades, crenças e desvivências,
que emergem sem máscaras de um mundo agudo com as impressões fincadas na
saudade, que por sua vez se amolda ao som e à fúria de uma poética que fere e não
cura, como se fosse só tristeza batendo no tambor da excursão que deixou tudo
para trás. Noutro lance, o visitante, leia-se leitor, também vê pendurado no
armário do velho guarda-roupa o vestido que o dono do museu distante enviou
para a mãe no Natal. Doeu-lhe a oferenda. Era estranho imaginar como a mãe
ficou no Natal no vestido que nunca viu e que nem mesmo sabia a cor, com o seu
dinheiro foi a irmã que o comprou.
Em “Cigano”,
poema como de resto escrito com a alquimia sensitiva do verbo que nos une aos
sonhos, o visitante tem a oportunidade de constatar que o arquiteto desse museu
por entre solidões imaginadas e a realidade dura que se esvai nos anos está
partido em dois como um ser ambulante do tempo que em tudo permanece.
Um é o ser que se foi e hoje é só memória
e este outro presente e preso,
a todo instante ao passado estanque
vislumbrando o obscuro futuro.
Todos os seus
propósitos guardados na nostalgia como alento, o poeta Raimundo Gadelha,
guardador de tristezas e tormentos, na miragem reinventa. Coisas com o respiro da memória, seres que
não descansam na formação de ideais, expectantes esperanças dissolvidas nos
sentidos, intuições na alma como simulações perfeitas, capas espessas nas
camadas com achados certeiros, tudo isso nesse museu com as suas vozes
debatendo-se na paixão como se fosse “centopeia de abismos grafados no
espelho”. Visível assim nesse museu com suas circunstâncias vitais o mundo
fugaz surge transformado em ausências, solidões que adormecem sem carinho.
Beijos na memória acendem o coração no esquecimento do viver, tudo que em
verdade se foi, e possivelmente será.
Num instante a tarde se vai e vem a certeza
de que o mundo que existe lá fora encolheu.
Triste faço da casa museu de mim mesmo
e nele coloco pedaços do que fui
para melhor entender quem sou.
Com esses
versos afixados na parede de uma das galerias, o visitante percebe, em sua
passagem por tantas miradas do sofrer, que viver é como morrer a cada instante,
tudo se resume nesse vento que passou aqui e logo desapareceu no mistério com a
dureza das ausências. O que foi, o que é, o que será esvaem-se nas horas com a
duração de um mesmo instante. A propósito é preciso uma explicação a essa
altura da visita. Não se espere, numa
visita de ausência e nostalgia, um museu com o tempo habitado de
ternuras na cadência generosa da vida, pois não terá êxito o visitante, se
vozes, sons e cores foram diluídos com pesares onde viveu a esperança. Os
gritos que permanecem como mudos gemidos no tempo-espaço ecoam no salão onde
foi erguido o sonho impossível em transe, como nuvens manchadas de sentimentos
delirantes, atormentados, que dissimulando feridas fazem chover os dias como
dores incansáveis.
De fato,
esse museu não está estagnado, é um espaço onde se cabem outras porções de
poesia, fazendo-nos pensar. Através de fortes desenhos da vida, expressa todo o
peso terrestre do que está escurecido nos porões e nos desvios com as horas
intranquilas. Nesse aspecto, o peso que ele traz com o seu luto faz com que o
visitante encontre por trás de negras camadas espessas de solidão o que existiu
outrora na brancura. Por isso esse museu que revela agruras agudas com a
palavra fervorosa veste-se também na roupagem dos desenhos de outro poeta, dono
de um timbre impregnado de tristeza, discurso sustentado por solidões
solidárias, sensibilidade apurada que ressoa na beleza das letras brasileiras.
As ilustrações de Álvaro Alves de Faria, agora como poeta do desenho, permitem
adivinhar que há nesse museu a noite de estrelas apagadas, o dia ausente de
amores, que assim se cobriu com um sol de feição obscura. Um sol que não mais
pinta os desertos com as cores do mundo iluminado. Empretecido, tudo nele é
como fuga, que faz sumir ternuras, num só tempo é sem afagos quando os seus
raios deviam ser o amanhecer em vento ameno para cobrir os seres e as coisas
com a sua flor enorme.
A vida
refugiou-se na memória que faz pulsar o coração desse museu. Apresenta-se
vestida com a túnica versátil dos rumores encobertos por essas ilustrações
imersas no negrume silente do seu forte simbolismo, destacando que ele possui
uma alma que resvala no espelho oculto: com suas considerações e pulsações de
tudo que serve de alimento da alma não brilha de alegria, embora enriqueça a
parte noturna do que somos. Pode até ser dolorosa a mensagem que se encontra
nesse museu do poeta Raimundo Gadelha, revestido com as figuras obscuras
manchadas de saudade e solidão nos desenhos pesados de Álvaro Alves de Faria,
mas quem nele adentra não pode deixar de considerar as surpresas produzidas por
grave poesia, temperada com adeuses soprados com os ventos da angústia. Fica o proveito em quem o visita e sabe que
sem esses ventos, versos viáveis nos amores tantos, apesar de doloridos, não há
o sentido que queremos ter da existência.
Não se logra
respirar circunstâncias vitais que se juntam e apontam para estes bramidos
constantes, de dúvidas e silêncios, enredos em subterrânea melancolia do tempo
migrado para o que fica guardado em nossos anos de pesar. No condicional
possível que come os desejos, no colosso obsessivo da certeza de que todos
somos um, pleno de incompletudes e contradições, nos diálogos frequentes com a
vida movimentada no caos ordenado por estrofes amalgamadas de solidões, entre
sonhos e abismos.
*Cyro de Mattos é ficcionista, poeta e ensaísta. Membro da
Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de
Santa Cruz (Bahia)
* * *
terça-feira, 1 de fevereiro de 2022
ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: Noite de Insônia - Emílio de Menezes
Noite de Insônia
Emílio de Menezes
Este leito que é o meu, que é o teu, que é o nosso leito,
Onde este grande amor floriu, sincero e justo,
E unimos, ambos nós, o peito contra o peito,
Ambos cheios de anelo e ambos cheios de susto;
Este leito que aí está revolto assim, desfeito,
Onde humilde beijei
teus pés, as mãos, o busto,
Na ausência do teu corpo a que ele estava afeito,
Mudou-se, para mim, num leito de Procusto!...
Louco e só! Desvairado! – A noite vai sem termo
E, estendendo, lá fora, as sombras augurais
Envolve a Natureza e penetra o meu ermo.
E mal julgas talvez, quando, acaso, te vais,
Quanto me punge e corta o coração enfermo,
Este horrível temor de que não voltes mais!...
EMÍLIO DE MENEZES, o mais famoso poeta satírico brasileiro
depois de Gregório de Mattos. Foi também lírico primoroso. Nasceu em Curitiba
em 04/07/1867 e faleceu no Rio de Janeiro em 05/06/1918, sem haver tomado posse
na Academia Brasileira de Letras, para a qual fora eleito na vaga de Salvador
de Mendonça (cadeira nº20, depois ocupada por Humberto de Campos). As peripécias
da vida boêmia de Emílio, as suas piadas chistosas, as suas tiradas repentistas,
o grupo de amigo com os quais convivia, foram recordados no livro de Raimundo
de Menezes – Emílio de Menezes, o último boêmio (1945), já em 3ª edição. Publicou
o poeta os seguintes livros de versos: Símbolos, Poemas da Morte, Versos Antigos,
e Dies Irae (1909), Últimas Rimas (1917) e Mortalinas ou Os Deuses em Ceroulas
(1924). Este último volumes encerra os seus famosos sonetos satíricos.
* * *
UM PERFIL DE CORAGEM II – José Sarney
Um Perfil de Coragem - II
Contei na semana passada a história do grande gesto de
coragem cívica do Adauto Lúcio Cardoso ao defender a Lei acima das
contingências políticas. Ele foi, sem dúvida nenhuma, um dos grandes
brasileiros do século passado. Era de uma retidão absoluta, que não o impediu
de fazer política com todas as qualidades - ao contrário do que se costuma dizer
para desqualificar a política e os políticos, a política não apenas pode, mas
deve ser feita, para ser legítima, com a visão dos valores éticos que pautam a
sociedade. Adauto era uma fortaleza moral, impávido, respeitado por toda a
Câmara, por todo o Congresso, por todos.
Sua vida política começou com a assinatura do Manifesto dos
Mineiros, um dos pontapés que derrubou a ditadura Vargas. Vereador na Capital,
não aceitou a decisão do Senado de impedir que a Câmara de Vereadores
analisasse os vetos do Prefeito e renunciou a seu mandato. Eleito para a Câmara
dos Deputados, logo tornou-se um dos principais membros da Banda de Música da
UDN.
Em 1966 foi eleito Presidente da Câmara. Foi a Castelo
Branco e pediu o compromisso de que não houvesse cassações: não as aceitaria.
Pouco depois da eleição de Costa e Silva, em outubro de 1966, saiu uma lista
com a cassação de quatro deputados. Adauto, que estava no Rio, voltou a
Brasília e disse que, enquanto ele ali estivesse, deputados não sofreriam
restrições de direito. 'Eu poderia lavar as mãos, como Pilatos, mas não lavaria
minha consciência.'
O Ministro da Justiça disse que a posição de Adauto de
submeter as cassações à análise da Câmara era 'um absurdo inconcebível'. Mas
Adauto ficou firme na garantia aos deputados que permaneciam na Casa. Um ato
complementar 'considerando [que] entendeu o Senhor Presidente da Câmara?'
colocou em recesso o Congresso Nacional. Adauto aguardava em sua sala desde as
4 horas da madrugada. Uma hora depois forças militares invadiram o Congresso.
Pôs-se de pé no alto da escada que dá acesso do segundo andar ao plenário da
Câmara dos Deputados. Quando o comandante da tropa chegou, ele enfrentou: 'Aqui
estou como representante do poder civil.' E o militar contestou: 'Aqui estou
como representante do poder militar.' Adauto replicou: 'Então, pela força,
entre no Congresso, mas jamais com a minha complacência ou o meu
reconhecimento.' Passado o recesso, Adauto renunciou à Presidência da Casa.
Para mostrar a grandeza de outro homem público, o Marechal
Castello Branco decidiu, já nos últimos dias de seu governo, ao vagar uma
cadeira de ministro do Supremo Tribunal Federal, indo contra todos os
'revolucionários', que estavam com o Adauto engasgado na garganta, convidá-lo
para ser ministro da Suprema Corte.
Ali no Supremo, mais uma vez, Adauto iria mostrar quem ele
era.
Durante o julgamento, em março de 1971, no Governo do
Presidente Médici, da constitucionalidade do decreto-lei 1.077/1970, que
estabelecia a obrigatoriedade de censura prévia, inclusive a livros, o Ministro
Adauto disse que, como juiz, jamais concordaria com isso. Deu, então, seu voto
pela inconstitucionalidade do decreto, afirmando que o livro era intocável, não
poderia sujeitar-se a nenhuma censura e que sua publicação deveria ser livre.
Colhidos os votos, Adauto foi vencido e o Supremo aceitou o
arquivamento da ação pelo Procurador-Geral da República, o que, na prática,
autorizou a censura.
Adauto levantou-se, tirou a toga, enrolou-a, colocou-a sobre
sua cadeira e deixou o Supremo Tribunal Federal! Jamais voltou.
Esse era Adauto Lúcio Cardoso.
Ao escrever estes episódios ainda me comovo lembrando sua
figura?
Os Divergentes, 30/01/2022
https://www.academia.org.br/artigos/um-perfil-de-coragem-ii
José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38, eleito em 17
de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6 de
novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos
Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.
* * *
domingo, 30 de janeiro de 2022
SONETO DA INFÂNCIA MINHA – Cyro de Mattos
Soneto da Infância Minha
Cyro de
Mattos
Os quintais frutíferos. Houve afoito
Amanhecer, de galho em galho, rosto
De suor molhado
deixando as tardes
Que inventavam mentiras de verdade.
Inúteis, mas
importantes. Lonjuras
Alcançavam as puras aventuras
Bebidas no nascedouro da vida
Com gosto de fruta amadurecida.
Tomava banho na lua de prata,
Na rua onde dorme agora, quieta,
A minha turma. A vida não prendesse
Meu pássaro,
infância minha, não desse
Ponto final nas
vagas amorosas,
Onde corri nas
horas primorosas.
Cyro de Mattos - Membro efetivo da Academia de Letras da
Bahia, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Doutor
Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz.
* * *
PALAVRA DA SALVAÇÃO (254)
4º Domingo do Tempo Comum – 30/01/2022
Anúncio do Evangelho (Lc 4,21-30)
— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Lucas.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, estando Jesus na sinagoga, começou a
dizer: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de
ouvir”.
Todos davam testemunho a seu respeito, admirados com as
palavras cheias de encanto que saíam da sua boca. E diziam: “Não é este o filho
de José?”
Jesus, porém, disse: “Sem dúvida, vós me repetireis o
provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo. Faze também aqui, em tua terra, tudo o
que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum”.
E acrescentou: “Em verdade eu vos digo que nenhum profeta é
bem recebido em sua pátria.
De fato, eu vos digo: no tempo do profeta Elias, quando não
choveu durante três anos e seis meses e houve grande fome em toda a região,
havia muitas viúvas em Israel. No entanto, a nenhuma delas foi enviado
Elias, senão a uma viúva que vivia em Sarepta, na Sidônia.
E no tempo do profeta Eliseu, havia muitos leprosos em
Israel. Contudo, nenhum deles foi curado, mas sim Naamã, o sírio”.
Quando ouviram estas palavras de Jesus, todos na sinagoga
ficaram furiosos. Levantaram-se e o expulsaram da cidade. Levaram-no até
ao alto do monte sobre o qual a cidade estava construída, com a intenção de
lançá-lo no precipício. Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou
o seu caminho.
— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.
http://liturgia.cancaonova.com/pb/
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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Padre
Donizete Ferreira, Sacerdote da Comunidade Canção Nova.
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"Abrir
passagem" por entre os intolerantes
“Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou seu
caminho” (Lc 4,30)
Continuamos com o tema do domingo passado. A expressão “hoje
se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir” faz
conexão com o relato anterior. “Hoje” se cumpre essa Escritura
em cada um de nós; é preciso abrir espaço para que Deus cumpra sua vontade
amorosa em nossas vidas; Ele não força nem impõe nada: “que se cumpra”, depende
exclusivamente de nós. Somos nós que temos continuamente de nos perguntar:
“cumprimos essa Escritura que acabamos de ouvir?”
Até o leitor menos atento ficará surpreso com a dissonância
que aparece no relato deste domingo: diante da aprovação e admiração que seus
conterrâneos expressam, Jesus responde com repreensões, e a cena se conclui com
sentimentos de fúria por parte dos ouvintes na sinagoga, a ponto de terminar em
tragédia.
Se estivermos bem atentos ao texto, perceberemos que o
motivo do conflito e da fúria dos ouvintes parece claro: embora citando dois
grandes profetas de Israel – Elias e Eliseu -, Jesus deu destaque a dois
personagens estrangeiros como referência (viúva de Sarepta e Naamã, o sírio),
em detrimento dos personagens do próprio povo. Para um judeu piedoso era
inadmissível que qualquer pagão recebesse um favor divino, antes de alguém
pertencente ao “povo eleito”.
Elias e Eliseu são exemplos como Deus
atua com relação aos não-judeus. Elias atendeu a uma viúva de Sarepta e Eliseu
a um general sírio, e isso deixa em evidência a pretensão de salvação exclusiva
que os judeus pretendiam, como povo eleito.
O evangelista Lucas quer “quebrar” este argumento
contundente; Jesus desmascara a cegueira coletiva e isso provocou a ira de seus
vizinhos que se sentiram agredidos.
“Não é este o filho de José?”. A única razão que
os membros de seu povo dão para rejeitar as pretensões de Jesus, é que Ele é
mais um do povo, conhecido de todos.
No entanto, aqui está a grandeza de Jesus: sendo um entre
tantos, foi capaz de descobrir o que Deus esperava dele. Jesus não é um
extraterrestre que traz poderes especiais de outro mundo, mas um ser humano que
tira das profundezas de seu ser aquilo que Deus já colocou em todas as pessoas.
Jesus fala do que encontrou dentro de si mesmo e nos convida a descobrir e
viver em nós o mesmo que Ele descobriu e viveu.
Jesus poderia ter dito muitas coisas aos seus ouvintes, para
tranquilizá-los: explicar que Deus não escolhe os seus enviados entre os
grandes deste mundo, mas sim entre os pequeninos, a exemplo de Davi, o filho
caçula de Jessé. Poderia ter-lhes dito que se tornariam mais imagem de Deus se
dedicassem um cuidado especial aos cegos, aos prisioneiros e aos outros
deserdados, vítimas do contexto social, político e religioso da época.
No entanto, em lugar de tranquilizá-los, Jesus vai
inquietá-los ainda mais. Recorda-lhes, então, que Deus, em tempos de penúria e
sofrimento, foi em socorro de estrangeiros, de pagãos, sem qualquer ligação com
o povo eleito. Temos aí, em todo caso, o que provocou a indignação dos ouvintes
de Jesus. No fundo, o culto a Deus cedeu lugar ao culto ao povo eleito. Este
tipo de idolatria não é raro e pode assumir diversas formas: o culto à classe
social, à família, à nação, às relações vantajosas, etc.
Tal idolatria chegou ao extremo a ponto de levarem Jesus
para fora da cidade, a fim de matá-lo.
É uma antecipação da Páscoa, claro: Hebreus 13,12 destaca
que Jesus foi crucificado «fora do acampamento». Mas é este excluído que vai
integrar todo o universo com sua presença salvífica.
Como humanos, todos temos a tendência por estabelecer
distância entre o próprio grupo – tribo, parentela, família, povo, religião,
nação – e todos os demais grupos. Trata-se, sem dúvida de um movimento de
autoafirmação, de busca de segurança e defesa frente o diferente. Se, unido a
tudo isso, advertimos que nossas próprias crenças são questionadas, é provável
que se despertem sentimentos de agressividade, que não são outra coisa que
expressão do próprio medo.
Muitas vezes, o zelo religioso, moral ou político degenera
em formas de intolerância e fanatismo.
A intolerância e o fanatismo são uma expressão de atrofia
espiritual e que tem graves consequências na vida social e no diálogo
inter-religioso. É a incapacidade de aceitar os outros em razão de suas ideias,
convicções ou crenças. É uma grave debilidade que torna impossível “viver a
cultura do encontro” entre pessoas e grupos humanos que pensam, sentem, creem
de maneira diferente.
É profundamente desumanizador quando alguém se fecha na
cegueira de suas próprias ideias, crenças, ideologias... Frente a essa
tendência ancestral e, com frequência, virulenta, uma atitude madura e
compreensiva relativiza muros e fronteiras, reconhece a identidade comum
e torna possível a vivência da alteridade, no respeito e na confiança
compartilhadas.
É o que apreciamos nas pessoas sábias, como se mostra neste
caso em Jesus. Sarepta, Síria, Israel: por que a diferença deveria ser
entendida como enfrentamento ou exclusão?
Ao compreender o que somos, se distendem as rigidezes
instintivas do ego e a intolerância dos esquemas mentais que se expressam nas
relações sociais, no campo da política, da religião... São mecanismos de defesa
ativados automaticamente, mas carentes de sentido quando nos situamos na
compreensão daquilo que somos, ou seja, humanos.
É evidente que aquela mesma resistência contra Jesus se
reproduz hoje: argumentos batidos e arcaicos são tomados como pretexto para que
seja recusada a verdade presente no outro.
Se em todos os aspectos da vida se faz presente a inércia do
costume, mais ainda no campo religioso: há um tradicionalismo de manter
intocável o que foi recebido, como se nisso perigasse nossa fé. Sempre fazemos
o mesmo e não nos paramos para analisar, para introduzir mudanças e avaliá-las.
É necessário superar a inércia da rotina, do de sempre, do
estabelecido. Para não entrar em processos esquizofrênicos é preciso, muitas
vezes, desaprender o aprendido. Pensemos, repensemos, provemos, inovemos... Não
é esnobismo, nem desejos superficiais de mudar por mudar, mas necessidade de
questionar aquilo que não convence e nem serve mais, e buscar o que é mais
coerente e essencial. Desconstruir para reconstruir. É um trabalho que é
preciso fazer a partir de baixo. Não esperemos que as mudanças venham de cima.
É essa mesma compreensão que nos permite “abrir passagem” e
“afastar-nos” dos preconceitos e intolerâncias que nos isolam, nos empobrecem
e, em ocasiões extremamente cruéis, desembocam em tragédias. Somente tomando um
mínimo de distância de nossos próprios mapas mentais, legalismos, suspeitas...
seríamos capazes de rir de nós mesmos diante de tão cegos padrões de pensamento
e comportamento; só assim poderemos suavizar nossa rigidez, ampliar horizontes,
celebrar e viver a unidade compartilhada em tanta diversidade de maneiras de
ser e de viver.
Texto bíblico: Lc 4,21-30
Na oração: Aliado ao conformismo e à segurança
está o medo da Mudança; fechamo-nos no conhecido por medo do desconhecido.
Marcados pela “normose” (normalidade doentia), ficamos encapsulados num
quadrado “mofado”, trancafiados por normas parentais, sociais, culturais e
religiosas.
- Também na nossa sinagoga interior carregamos
intolerâncias, preconceitos, fanatismos... que depois se expressam no
julgamento e na indiferença frente aos diferentes.
- Quê sinais de intolerância e preconceito percebo em minha
vida cotidiana? Quando aparecem?
- Minha relação com Deus é intimista ou me abre a uma
presença sadia diante de quem pensa-sente-ama de maneira diferente? Sou
presença ecumênica ou carregada de suspeita?
Pe. Adroaldo Palaoro sj
* * *
sábado, 29 de janeiro de 2022
NA MÃO DE DEUS / A VIRGEM SANTÍSSIMA - Antero do Quental
Na Mão de Deus
Antero do Quental
Na mão de Deus, na sua mão direita
Descansou afinal meu coração,
Do palácio encantado da ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.
Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depus do ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.
Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva no colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,
Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!
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À Virgem Santíssima
Num sonho todo feito de incerteza,
De noturna e indizível ansiedade,
É que eu vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza...
Não era o vulgar brilho da beleza,
Nem o ardor banal da mocidade,
Era outra luz, era outra suavidade,
Que até nem sei se as há na natureza...
Um místico sofrer... uma ventura
Feita só de perdão, só de ternura
E da paz da nossa hora derradeira...
Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa...
E deixa-me sonhar a vida inteira!
ANTERO DO QUENTAL
* * *