Um de seus mais belos poemas habita o sentimento do
infinito. Para alcançá-lo, apenas a imaginação.
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Nos domínios fictícios do infinito, o pensamento humano só pode naufragar.
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Infinito atual e potencial: mas o poema hesita e não adere. A ideia de infinito
é uma ilusão. Como na infância e novos arcaicos: o assombro da extensão de
terra e mar. A fantasia trabalha e não descansa.
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Para ele, o infinito não é descortinável. Nem mesmo a analogia vai mais longe:
"todos os mundos que existem, por maiores que sejam, não sendo infinitos,
em número e em grandeza, são, por conseguinte, infinitamente pequenos, se
comparados a quanto o universo poderia, se, de fato, fosse infinito; e o todo
existente é infinitamente pequeno, se comparado à infinita verdade do não
existente, do nada".
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De Leopardi, o timbre essencial, desde a infinita verdade do nada.
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Cantor (Georg) ouviu a melodia do infinito. E emprestou-lhe assim uma
hierarquia.
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O infinito parece uma lição de botânica. Sua nomenclatura é expansiva. Dízimas,
Fractais.
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Dedeking preencheu com os números reais o vazio da reta. É voz corrente. Pra
mim, arrefeceu quanto possível.
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Insiste a voz de Cauchy: a soma de 1+1/2+1/4+... não chega a 2, mas tende para.
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A matemática e a metafísica se aproximam, segundo Leopardi, mediante operações
de cálculo e proposição.
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Resisto, sitiado, na minha cidadela. Penso que a matemática é filha da poesia.
Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em
3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi recebido
em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da
ABL para o exercício de 2018.
Antônio de Castro Alves nasceu na comarca de
Cachoeira, Estado da Bahia, a 14 de abril de 1847, sendo filho do médico
Antônio Alves e de sua mulher, D. Clélia Brasília da Silva Castro. Faleceu na
cidade do Salvador a 6 de julho de 1871. Na expressão de Afrânio Peixoto Castro
Alves “Pôs suas ideias à frente do seu sentimento e, num tempo em que a miséria
da escravidão não comovia ninguém, despertou com os seus poemas
arrebatadores, piedosos ou indignados, a sensibilidade humana e patriótica da
geração que, vinte anos mais tarde, viria a conseguir a liberdade. Por isso lhe
deram o nome invejável de Poeta dos Escravos. Das alturas do seu gênio
compreendera que não há grande homem sem uma grande causa social a que tenha
servido, e não aspirava a outra glorificação que a dessa obra realizada. A
morte, depois, não importaria...
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Marcos.
— Glória a vós, Senhor!
Naquele tempo, Jesus disse a seus discípulos: “Naqueles
dias, depois da grande tribulação, o sol vai se escurecer, e a lua não brilhará
mais, as estrelas começarão a cair do céu e as forças do céu serão
abaladas.
Então vereis o Filho do Homem vindo nas nuvens com grande
poder e glória. Ele enviará os anjos aos quatro cantos da terra e reunirá
os eleitos de Deus, de uma extremidade à outra da terra.
Aprendei, pois, da figueira esta parábola: quando seus ramos
ficam verdes e as folhas começam a brotar, sabeis que o verão está
perto. Assim também, quando virdes acontecer essas coisas, ficai sabendo
que o Filho do Homem está próximo, às portas.
Em verdade vos digo, esta geração não passará até que tudo
isto aconteça. O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não
passarão. Quanto àquele dia e hora, ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem
o Filho, mas somente o Pai”.
— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.
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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão de Dom Sérgio
Aparecido Colombo:
“Aprendei da figueira esta parábola: quando seus ramos ficam
verdes e as folhas começam a brotar, sabeis que o verão está perto” (Mc
13,28)
Estamos chegando ao final de mais um “ano litúrgico” (este é
penúltimo domingo), e a liturgia nos propõe leituras que, fazendo referência
aos “últimos tempos”, querem nos convidar à “vigilância” e a atenção ao tempo
presente.
O Evangelho de hoje é parte do cap. 13 do Evangelho de
Marcos, que contém um breve “apocalipse”, ou seja, uma revelação, um
desvelamento, um desnudamento dos múltiplos véus que cobrem a realidade humana,
com suas contradições, incertezas, promessas e esperanças.
Devido às imagens que este gênero literário utiliza, com
frequência atribui-se ao termo “apocalipse” um significado de “catástrofe” ou
“destruição”. A realidade, no entanto, é diferente. Etimologicamente
“apo-kalypsis” significa “destapar o que está escondido”, “tirar o véu”,
“desvelar”, ou seja, “revelação”.
No texto evangélico de hoje nos é revelado, através de
sinais (abalos celestes e terrestres, tribulações...), que esta ordem das
coisas (o “mundo”) vai ser renovado em profundidade. Tudo desmorona à nossa
volta, tudo vai desaparecer; mas o que o texto realça é a contundente confiança
na afirmação e na promessa de Jesus: “O céu e a terra passarão, mas minhas
palavras não passarão”. Ele trará a salvação de Deus; não chegará com aspecto
ameaçador.
A destruição anterior é a possibilidade de uma construção
mais profunda, fundada no Filho do Homem. Por um lado, o mundo velho acaba.
Mas, por outro, chega o ser humano verdadeiro, a humanidade de Deus. Para quem
crê, o mesmo “fim deste mundo” vai se converter em princípio de esperança
universal.
Por isso, as palavras de Jesus “não passarão”; não perderão
sua força salvadora; continuarão alimentando a esperança de seus seguidores e
serão sempre alento para os pobres.
As Palavras do Filho do Homem constituem o nosso rochedo,
são a nossa força; elas são o centro de nossa vida, iluminando-nos e ativando
nossos melhores recursos para acolher a novidade radical do Evangelho.
O sol, a lua e os astros se apagarão, mas o mundo não ficará
sem luz. Será o Filho do Homem quem o iluminará para sempre, estabelecendo a
verdade, a justiça e a paz na história humana, tão marcada por contínuas
mentiras, injustiças e violências.
Nesse sentido, pode-se afirmar que, no final, não será
preciso sol ou lua, porque o Filho do Homem será diretamente luz e vida para
todos. Seus seguidores poderão ver finalmente seu rosto tão buscado: “Vereis o
filho do Homem vindo nas nuvens”. Não caminhamos para o nada e o vazio. Jesus
virá ao nosso encontro, para nos conduzir ao abraço do Pai de bondade.
Quando acontecerá tudo isto? Já, agora mesmo: tudo está
acontecendo. Estamos na noite que precede à aurora do dia do Homem, da
humanidade de Cristo. Devemos nos manter como servos vigilantes no tempo das
tribulações e das trevas deste mundo, cheios de esperança.
Jesus põe como sinal uma figueira. Estamos na
primavera/verão que precede o tempo dos bons figos, dos bons frutos. Neste
contexto podemos recordar o risco de sermos figueiras estéreis, sem frutos. E
Jesus está esperando os frutos de nossa figueira. Nós mesmos somos o sinal de
que deve chegar o Filho do Homem, a humanidade reconciliada. Este é o tempo
oportuno.
Está preparada nossa figueira para dar frutos? Em que
“estação” nos encontramos?
Jesus era um profundo observador da natureza; sabia “ler” as
estações da natureza e vislumbrar, por detrás delas, a manifestação da presença
divina.
Toda estação tem seu sentido, sua riqueza e seu mistério.
Não é um mero repetir de ciclos: cada uma delas traz algo novo, diferente.
Também não estão separadas e nem há uma divisão estanque entre as estações:
estão interconectadas, interdependentes. Cada estação é mobilização para a
seguinte.
As estações da natureza nos ajudam a desvelar as estações
existenciais. Cada estação interna é um “kairós”, um tempo único e original,
que deve ser vivido intensamente. Cada estação interior também apresenta sua
riqueza e seu mistério. O problema está na petrificação de uma estação
interior, ou seja, medo da mudança, medo de entrar em outra estação, medo de
fazer a passagem.
Outro problema é o fato de não suportar uma determinada
estação, querendo fugir dela para entrar logo em outra estação. Cada estação
gesta algo novo; vivê-la a fundo é humanizar-se, deixar-se surpreender.
Podemos distinguir dois movimentos nas estações
existenciais: dois de maior interioridade (outono e inverno): tempo de
desfolhamento, esvaziamento e poda para livrar-se do que está sobrando
(outono). Tempo de descida (hibernação) para concentrar-se no essencial
(inverno).
Outro movimento: primavera e verão – vida expansiva, aberta
(tempo dos brotos, flores e frutos: sonhos, desejos, projetos, criatividade).
Em todas as estações há uma certeza: a presença da seiva
(presença divina), que tudo sustenta, embora, muitas vezes tudo parece estar
morto.
Cada tempo litúrgico também apresenta diferentes estações ao
longo do ano; estamos terminando um tempo litúrgico, com suas diferentes
estações, e nos preparando para viver outro novo tempo, com suas surpresas. Uma
nova esperança reacende e a nossa vida adquire novo sabor e sentido.
O anúncio de uma nova “estação” abre um “tempo” de júbilo
imenso porque chega o Filho do Homem, nova humanidade reconciliada, a meta da
criação de Deus, centrada e redimida em Cristo.
Estamos esperando o novo ser humano que vem de Deus, ou
seja, de nossa mesma capacidade divina de ser e de nos renovar; esperamos o
Deus de Jesus que é e que vem em nós.
Falsos sóis, luas e astros (ego inflado) querem fazer
prevalecer suas efêmeras luzes em nosso interior, fazendo brilhar nossa
vaidade, nossa prepotência, nosso autocentramento. Tudo isso deve ser abalado e
cair, para que o centro de nosso espaço interior seja ocupado pela presença
d’Aquele “que é tudo em todos”.
Nos dias sem sol de nossa vida, a esperança se parece a
esses ramos de árvores no inverno. Dá a impressão de estarem mortas. Mas o
calor da primavera as desperta e as veste de novo vigor. Há dias nos quais a
esperança se parece a grãos semeados na terra. Ninguém mais os vê, até que um
dia somos testemunhas de que o broto surge e o talo espera a espiga.
Para o cristão, a esperança é muito mais que otimismo; é a
virtude teologal que nunca engana. Esperar é a capacidade de ver, mesmo quando
nossos olhos não veem. É um dom do Espírito que deve ser pedido sempre. Cristo
é o motivo angular de nossa esperança, a revolução na história apesar da
limitação, do mal e da morte, que nos impulsiona a “esperar contra toda
esperança” (Rom. 4,18)
Texto bíblico: Mc 13,24-32
Na oração: “Marana thá” (vem, Senhor! Vem, mundo melhor!),
repetiam em aramaico os primeiros cristãos para dizer e realizar a
esperança. Esperar não é pedir nem aguardar que alguém venha ou que algo
aconteça. É levantar a cabeça e abrir os olhos, levantar-nos cada dia,
deixar-nos inspirar pelo Espírito que alenta em tudo, semear e antecipar o
mundo melhor, necessário e possível, como fez Jesus. Assim é que devemos e
podemos “esperar”.
- Em que “estação” a árvore da sua vida se encontra?
Primavera, verão, outono ou inverno? Você percebe o “novo” que cada uma delas
está gestando?
- A “seiva”, que inspira e sustenta todas as “estações” de
sua vida, encontra facilidade para circular por todo o seu ser? Há alguma
dimensão da sua interioridade que está bloqueada, impedindo a passagem do
“oxigênio divino”?
A Editus, Editora da
UESC, acaba de lançar mais um livro de Cyro de Mattos. Intitulado “Gabriel
García Márquez e outras crônicas”, a publicação reúne 43 crônicas distribuídas
em três segmentos: crônicas literárias, crônicas de futebol e crônicas de
natureza diversa. Na primeira parte do livro, o autor mostra o quanto é amarga
a memória da indesejada, que chega para nos privar da companhia do companheiro
de letras nessa viagem em que não há retorno. Ficam apenas as lembranças do
personagem que inventou mundos com a palavra, o aceno daqueles que na passagem
por este planeta dedicaram-se à arte literária com alma, força e vida.
Assumiram a solidão de ler a vida através da linguagem tomada emprestada à
fantasia.
Em comovidas pinceladas, o cronista ressalta as veredas
percorridas pelo escritor ou poeta, que fez da vida crença e sonho, meta e
persistência, solidão e ternura. João Ubaldo Ribeiro, Gabriel García Márquez,
Monteiro Lobato, Sonia Coutinho, Francisco Carvalho, Telmo Padilha, Salim
Miguel, Nelly Novaes Coelho, Jorge Amado e Caio Porfírio Carneiro dentre outros
são os personagens que motivam as crônicas enfeixadas na primeira parte do
livro, ora com a poesia da vida, ora com a tristeza que a morte marca no seu
julgado irreversível.
Já na segunda parte, Crônicas Esportivas, o futebol é o
assunto que centraliza o texto, ora focado no futebol amador, jogado com arte e
encanto no campo esburacado da terra natal do cronista, ora é a tragédia que
alcançou o time da chapecoense, matando em desastre aéreo quase o time todo. O
evento sinistro fez nascer do pesar imenso a união na dor entre o povo
brasileiro e o colombiano.
A terceira parte apresenta-se com o assunto de natureza
diversa, ora pende da aventura humana na fase da infância, que era pura
curtição no azul dos dias, quando ainda não existiam os divertimentos de hoje
com os jogos eletrônicos, ora circula pela cidade grande, com sua agitação no
cotidiano, disputa pelo espaço, medo de ser atingido por uma bala perdida
quando se rezava na missa. O cronista também logra extrair da vida o caso da
mulher pobre que teve quatro filhos duma só vez, gerando apreensões para
criá-los no marido, um simples dono de uma venda. São crônicas em
que se pretende revelar que a vida passa e não se basta em si mesma, é acrescida
de significados pela linguagem literária quando articulada com sentimento e
razão, o que dá valor a ela.
Cyro de Mattos
é autor de mais de cinquenta livros, de diversos gêneros.Publicado também em Portugal, Itália,
Espanha, França, Alemanha, Dinamarca, Rússia, México e Estados Unidos. Agraciado
com o Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras, em 1970, livro Os
Brabos, novelas, o Jabuti em 1988, Os Recuados, contos, e o Prêmio de Ficção Pen
Clube do Brasil, com Os Ventos Gemedores, romance, em 2017. Membro das Academias
de Letras da Bahia, de Itabuna e de Ilhéus. Primeiro Doutor Honoris Causa da
Universidade Estadual de Santa Cruz (Sul da Bahia). Na Rubem, revista digital
de crônicas, publicada em Curitiba, escreve quinzenalmente, às quintas-feiras.
A revista foi criada há cinco anos como homenagem a Rubem Braga, o grande
cronista brasileiro.
E agora prepare-se o leitor para o mesmo assombro em que
ficou a vila ao saber um dia que os loucos da Casa Verde iam todos ser postos
na rua.
—Todos?
—Todos.
—É impossível; alguns sim, mas todos...
—Todos. Assim o disse
ele no ofício que mandou hoje de manhã à Câmara
De fato o alienista oficiara à Câmara expondo: — 1': que
verificara das estatísticas da vila e da Casa Verde que quatro quintos da
população estavam aposentados naquele estabelecimento; 2° que esta deslocação
de população levara-o a examinar os fundamentos da sua teoria das moléstias
cerebrais, teoria que excluía da razão todos os casos em que o equilíbrio das
faculdades não fosse perfeito e absoluto; 3° que, desse exame e do fato
estatístico, resultara para ele a convicção de que a verdadeira doutrina não
era aquela, mas a oposta, e portanto, que se devia admitir como normal e
exemplar o desequilíbrio das faculdades e como hipóteses patológicas todos os
casos em que aquele equilíbrio fosse ininterrupto; 4D que à vista disso
declarava à Câmara que ia dar liberdade aos reclusos da Casa Verde e agasalhar
nela as pessoas que se achassem nas condições agora expostas; 5° que, tratando
de descobrir a verdade científica, não se pouparia a esforços de toda a
natureza, esperando da Câmara igual dedicação; 6º que restituía à Câmara e aos
particulares a soma do estipêndio recebido para alojamento dos supostos loucos,
descontada a parte efetivamente gasta com a alimentação, roupa, etc.; o que a
Câmara mandaria verificar nos livros e arcas da Casa Verde.
O assombro de Itaguaí foi grande; não foi menor a alegria
dos parentes e amigos dos reclusos. Jantares, danças, luminárias, músicas, tudo
houve para celebrar tão fausto acontecimento. Não descrevo as festas por não
interessarem ao nosso propósito; mas foram esplêndidas, tocantes e prolongadas.
E vão assim as coisas humanas! No meio do regozijo produzido
pelo ofício de Simão Bacamarte, ninguém advertia na frase final do § 4º, uma
frase cheia de experiências futuras.
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Fonte:
MINISTÉRIO DA CULTURA
Fundação Biblioteca Nacional
Departamento Nacional do Livro
.....................
Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis),
jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio
de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em
29 de setembro de 1908. É o fundador da cadeira nº. 23 da Academia Brasileira
de Letras.