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domingo, 6 de junho de 2021

Ninguém Segura Esse País

O ALIENISTA CAPÍTULO VII – Machado de Assis


O Inesperado


Chegados os dragões em frente aos Canjicas houve um instante de estupefação. Os Canjicas não queriam crer que a força pública fosse mandada contra eles; mas o barbeiro compreendeu tudo e esperou. Os dragões pararam, o capitão intimou à multidão que se dispersasse; mas, conquanto uma parte dela estivesse inclinada a isso, a outra parte apoiou fortemente o barbeiro, cuja resposta consistiu nestes termos alevantados:

—Não nos dispersaremos. Se quereis os nossos cadáveres, podeis tomá-los; mas só os cadáveres; não levareis a nossa honra, o nosso crédito, os nossos direitos, e com eles a salvação de Itaguaí.

Nada mais imprudente do que essa resposta do barbeiro; e nada mais natural. Era a vertigem das grandes crises. Talvez fosse também um excesso de confiança na abstenção das armas por parte dos dragões; confiança que o capitão dissipou logo, mandando carregar sobre os Canjicas. O momento foi indescritível. A multidão urrou furiosa; alguns, trepando às janelas das casas ou correndo pela rua fora, conseguiram escapar; mas a maioria ficou bufando de cólera, indignada, animada pela exortação do barbeiro. A derrota dos Canjicas estava iminente quando um terço dos dragões,—qualquer que fosse o motivo, as crônicas não o declaram,—passou subitamente para o lado da rebelião. Este inesperado reforço deu alma aos Canjicas, ao mesmo tempo que lançou o desanimo às fileiras da legalidade. Os soldados fiéis não tiveram coragem de atacar os seus próprios camaradas, e um a um foram passando para eles, de modo que, ao cabo de alguns minutos, o aspecto das coisas era totalmente outro. O capitão estava de um lado com alguma gente contra uma massa compacta que o ameaçava de morre. Não teve remédio, declarou-se vencido e entregou a espada ao barbeiro.

A revolução triunfante não perdeu um só minuto; recolheu os feridos às casas próximas e guiou para a Câmara Povo e tropa fraternizavam, davam vivas a el-rei, ao vice-rei, a Itaguaí, ao "ilustre Porfírio". Este ia na frente, empunhando tão destramente a espada, como se ela fosse apenas uma navalha um pouco mais comprida. A vitória cingia-lhe a fronte de um nimbo misterioso. A dignidade de governo começava a eurijar-lhe os quadris.

Os vereadores, às janelas, vendo a multidão e a tropa, cuidaram que a tropa capturara a multidão, e sem mais exame, entraram e votaram uma petição ao vice-rei para que mandasse dar um mês de soldo aos dragões, "cujo denodo salvou Itaguaí do abismo a que o tinha lançado uma cáfila de rebeldes . Esta frase foi proposta por Sebastião Freitas, o vereador dissidente cuja defesa dos Canjicas tanto escandalizara os colegas. Mas bem depressa a ilusão se desfez. Os vivas ao barbeiro, os morras aos vereadores e ao alienista vieram dar-lhes noticia da triste realidade. O presidente não desanimou:—Qualquer que seja a nossa sorte, disse ele, lembremo-nos que estamos ao serviço de Sua Majestade e do povo.—Sebastião insinuou que melhor se poderia servir à coroa e à vila saindo pelos fundos e indo conferenciar com o juiz de fora, mas toda a Câmara rejeitou esse alvitre.

Daí a nada o barbeiro, acompanhado de alguns de seus tenentes, entrava na sala da vereança intimava à Câmara a sua queda. A Câmara não resistiu, entregou-se e foi dali para a cadeia. Então os amigos do barbeiro propuseram-lhe que assumisse o governo da vila em nome de Sua Majestade. Porfírio aceitou o encargo, embora não desconhecesse (acrescentou) os espinhos que trazia; disse mais que não podia dispensar o concurso dos amigos presentes; ao que eles prontamente anuíram. O barbeiro veio à janela e comunicou ao povo essas resoluções, que o povo ratificou, aclamando o barbeiro. Este tomou a denominação de—"Protetor da vila em nome de Sua Majestade, e do povo".—Expediramse logo várias ordens importantes, comunicações oficiais do novo governo, uma exposição minuciosa ao vice-rei, com muitos protestos de obediência às ordens de Sua Majestade; finalmente uma proclamação ao povo, curta, mas enérgica:

"Itaguaienses! Uma Câmara corrupta e violenta conspirava contra os interesses de Sua Majestade e do povo. A opinião pública tinha-a condenado; um punhado de cidadãos, fortemente apoiados pelos bravos dragões de Sua Majestade, acaba de a dissolver ignominiosamente, e por unânime consenso da vila, foi-me confiado o mando supremo, até que Sua Majestade se sirva ordenar o que parecer melhor ao seu real serviço. Itaguaienses! não vos peço senão que me rodeeis de confiança, que me auxilieis em restaurar a paz e a fazenda publica, tão desbaratada pela Câmara que ora findou às vossas mãos. Contai com o meu sacrifício, e ficai certos de que a coroa será por nós. O Protetor da vila em nome de Sua Majestade e do povo Porfírio Caetano das Neves".

Toda a gente advertiu no absoluto silêncio desta proclamação acerca da Casa Verde; e, segundo uns, não podia haver mais vivo indício dos projetos tenebrosos do barbeiro. O perigo era tanto maior quanto que, no meio mesmo desses graves sucessos, o alienista metera na Casa Verde umas sete ou oito pessoas, entre elas duas senhoras e sendo um dos homens aparentado com o Protetor. Não era um repto, um ato intencional; mas todos o interpretaram dessa maneira; e a vila respirou com a esperança de que o alienista dentro de vinte e quatro horas estaria a ferros e destruído o terrível cárcere.

O dia acabou alegremente. Enquanto o arauto da matraca ia recitando de esquina em esquina a proclamação, o povo espalhava-se nas ruas e jurava morrer em defesa do ilustre Porfírio Poucos gritos contra a Casa Verde, prova de confiança na ação do governo. O barbeiro faz expedir um ato declarando feriado aquele dia, e entabulou negociações com o vigário para a celebração de um Te-Deum, tão conveniente era aos olhos dele a conjunção do poder temporal com o espiritual; mas o Padre Lopes recusou abertamente o seu concurso.

—Em todo caso, Vossa Reverendíssima não se alistará entre os inimigos do governo? disse-lhe o barbeiro, dando à fisionomia um aspecto tenebroso. Ao que o Padre Lopes respondeu, sem responder:

—Como alistar-me, se o novo governo não tem inimigos?

O barbeiro sorriu; era a pura verdade. Salvo o capitão, os vereadores e os principais da vila, toda a gente o aclamava. Os mesmos principais, se o não aclamavam, não tinham saído contra ele. Nenhum dos almotacés deixou de vir receber as suas ordens. No geral, as famílias abençoavam o nome daquele que ia enfim libertar Itaguaí da Casa Verde e do terrível Simão Bacamart.

 

MINISTÉRIO DA CULTURA

Fundação Biblioteca Nacional

Departamento Nacional do Livro

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Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis), jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1908. É o fundador da cadeira nº. 23 da Academia Brasileira de Letras.

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quinta-feira, 3 de junho de 2021

A VERDADE E A MENTIRA - José Sarney


V
ivemos num mundo em transformação. A sociedade digital mudou tanta coisa que isso atingiu o nosso modo de pensar. O aspecto mais discutido é o que se chama de 'a morte da verdade'. São tantas versões sobre um fato que não se sabe qual é a verdade.

Este problema não é novo. Sempre foi uma questão fundamental e está no centro do Evangelho. Pilatos pergunta a Cristo: 'Tu és rei?' Jesus diz que veio para dar 'testemunho da verdade', e Pilatos retruca: 'O que é a verdade?' O que acontecia era que falavam 'línguas' diferentes: Jesus, a de Deus; Pilatos, a do poder.

Agora nos deparamos com o problema do testemunho, ou melhor, das testemunhas. Querem que elas digam a verdade, mas a verdade é que, para elas, já não existe a verdade. A verdade é uma abstração, algo que lhes querem impor com nomes que lhes são alheios, como fatos, ciência, até mesmo mostrando-lhes gravações com uma imagem em que não se reconhecem. Ora é uma coisa que não foi dita para valer, foi dita para dizer o que querem ouvir.

Além da mentira, há o caso do mentiroso: mente quem diz a mentira ou quem construiu a mentira? Pelo menos é o que está lá no Montaigne: 'Eu sei que os gramáticos distinguem dizer mentira de mentir; e dizem que dizer mentira é dizer coisa falsa, mas que se pensa que é verdadeira.' Como a definição da palavra em latim quer dizer ir contra sua consciência 'isso só toca àqueles que dizem o contrário do que sabem'.

Mas acrescenta que mentir é 'um vício maldito, pois somos homens e só temos uns aos outros pela palavra'; e que depois que se começa a mentir é difícil parar. 'Se, como a verdade, a mentira só tivesse uma face, estaríamos em melhores termos. Porque tomaríamos por certo o contrário do que diria o mentiroso. Mas o contrário da verdade tem cem mil rostos e um campo indefinido.'

Assim vai andando a verdade, quer dizer, a mentira. Pois o mentiroso diz o que sabe que é falso, mas quando acha que o que é verdadeiro é falso, não sabe o que dizer, se a falsa verdade ou a verdadeira mentira. E eu podia terminar com o Padre Vieira: 'Finalmente, reduzindo todo o discurso, ou discursos: mentem as línguas, porque mentem as imaginações; mentem as línguas, porque mentem os ouvidos; mentem as línguas, porque mentem os olhos; e mentem as línguas, porque tudo mente, e todos mentem.'

Mas, hoje, quando a sociedade se pauta pela rede social e admite várias versões da verdade, pode parecer que não se sabe mais onde está a verdade; no entanto a verdade, aquela que não é versão, mas fato, existe.

Eu mesmo sei uma verdade incontestável: o Brasil precisa vacinar toda a sua população, seguir as recomendações dos cientistas e salvar vidas. Pois há vidas a serem salvas, e com elas o País tem obrigações.

Não é especulação filosófica ou um jogo de palavras. É a realidade que estamos vivendo.

O Estado do Maranhão, 24/05/2021

https://www.academia.org.br/artigos/verdade-e-mentira-0

 

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José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38 da ABL, eleito em 17 de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6 de novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.

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quarta-feira, 2 de junho de 2021

FECHOU O TEMPO EM BRASÍLIA! SENADORES SERÃO REPRESENTADOS NA PGR, VEJA O...

Padre Júlio Lancellotti envergonha a Arquidiocese de São Paulo!

FUNDAÇÃO PEDRO CALMON RECEBE OBRA POÉTICA COMPLETA DE CYRO DE MATTOS E ACERVOS QUE PRESERVAM A MEMÓRIA E A HISTÓRIA DA BAHIA

 


Fundação Pedro Calmon recebe obra poética

completa de Cyro de Mattos e acervos que

preservam a memória e a história da Bahia

 

Canto até Hoje


Jornalista e advogado, Cyro de Mattos, doou 70 livros de "Canto até hoje", sua obra poética completa, para as bibliotecas e espaço de leitura do estado. De acordo com o diretor geral da Fundação Pedro Calmon, Zulu Araújo, a obra de Cyro de Mattos é e será de grande valia para o estímulo do livro e da leitura em todo o estado. Cyro de Mattos é contista, novelista, romancista, cronista, poeta, ensaísta e organizador de antologia. É autor de 54 livros e seus contos e poemas figuram em mais de 50 antologias, no Brasil e no exterior. Conquistou mais de 40 prêmios literários. É membro efetivo do Pen Clube do Brasil, Ordem do Mérito da Bahia, no grau de Comendador, e da Academia de Letras da Bahia. De acordo com o diretor geral da FPC, Zulu Araújo, a obra de Cyro de Mattos é e será de grande valia para o estímulo do livro e da leitura em todo o estado.

 

O Imaginário Desfile da Embaixada Africana

 Com o intuito de salvaguardar a memória da Bahia, a Fundação Pedro Calmon (FPC/SecultBa) recebeu também como doação a obra do artista Anderson AC "O imaginário desfile da Embaixada Africana", do artista Anderson AC.

Presidente Zulu Araújo faz pronunciamento público sobre a doação à FPC de obras importantes.

A produção ficará sob a responsabilidade do Arquivo Público do Estado da Bahia (APEB) e ficará exposta para o público. A obra faz parte do Memórias do Reinado de Momo, que tem como objetivo central o fortalecimento da memória do carnaval de Salvador. O projeto é coordenado pela pesquisadora e doutora em Cultura e Sociedade, Caroline Fantinel e a concepção é do professor e vice-reitor da UFBA Paulo Miguez.

A Embaixada Africana foi um grupo carnavalesco, que surgiu no final do século XIX, e se destacou como clube uniformizado negro. Apresentavam-se através de grandes desfiles que tematizavam uma África de feitos gloriosos, distante do imaginário comum da pobreza, do atraso e da escravidão de que o continente era associado. Porém, foi proibido de desfilar em 1905, assim como os demais grupos da cultura negra, porque apresentava 'costumes africanos com batuques'.

Para Caroline Fantinel, "é uma grande alegria entregar a obra para o Arquivo Público da Bahia. Estamos seguros de que é um espaço que vai contribuir para a promoção da memória desse importante clube carnavalesco que fez tanta história no carnaval de Salvador e na vida da cidade na virada para o século XX". Ainda segundo Caroline, "o legado social, político, cultural e estético desses embaixadores festivos é imenso e precisa ser amplamente conhecido para que seja usado como ferramenta de força e resistência pela população negra soteropolitana", afirmou.

De acordo com a diretora do APEB, Teresa Matos, "o carnaval representa um componente significativo da cultura e da identidade da Bahia. Fato que explica a integração da obra ao acervo do Arquivo Público". Para saber mais do projeto Memórias do Reinado de Momo, clique aqui.

Centro de Memória
Outro material importante doado à FPC foi do acervo de César Borges. O ex-governador do estado entregou parte de seu acervo pessoal com mais de 4 mil itens ao Centro de Memória da Bahia (CMB), unidade da FPC. No acervo constam publicações sobre história, política e economia, em diferentes formatos como fotografias e audiovisuais, referentes ao período em que ele esteve à frente do executivo baiano e no exercício do seu mandato no Senado Federal. De acordo com o diretor do CMB, Walter Silva, "esse acervo se constitui como uma importante fonte para o entendimento, sobretudo da política na Bahia e no Brasil".

Fonte: SecultBA

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segunda-feira, 31 de maio de 2021

RAZÃO E PAIXÃO – Gibran Khalil Gibran

 


Razão e Paixão

 

            E a sacerdotisa falou novamente e disse: “Fala-nos da Razão e da Paixão”.

            E ele respondeu, dizendo:

            Vossa alma é frequentemente um campo de batalha onde vossa razão e vosso juízo combatem contra vossa paixão e vosso apetite.

            Pudesse eu ser o pacificador de vossa alma, transformando a discórdia e a rivalidade entre vossos elementos em união e harmonia.

            Mas como poderei fazê-lo, a menos que vós próprios sejam também pacificadores, mais ainda, enamorados de todos vossos elementos?

            Vossa razão e vossa paixão são o leme e as velas de vossa alma navegante.

            Se vossas velas ou vosso leme se quebram, só podereis ficar derivando ou permanecer imóveis no meio do mar.

            Pois a razão, reinando sozinha, restringe todo impulso; e a paixão, deixada a si, é um fogo que arde até sua própria destruição.

            Portanto, que vossa alma eleve vossa razão à altura de vossa paixão, para que ela possa cantar;

            E que dirija vossa paixão a passo com a razão, para que ela possa viver numa ressurreição cotidiana e, tal a fênix, renascer de suas próprias cinzas.

            Gostaria de que tratásseis vosso juízo e vosso apetite como trataríeis dois hóspedes amados em vossa casa.

            Certamente não honraríeis a um hóspede mais do que ao outro; pois quem procura tratar melhor a um dos dois, perde o amor e a confiança de ambos.

           

            Entre as colinas, quando vos sentardes à sombra fresca dos álamos brancos, partilhando da paz e da serenidade dos campos e dos prados distantes, então que vosso coração diga em silêncio: “Deus repousa na Razão”.

            E quando bramir a tempestade, e o vento poderoso sacudir a floresta, e o trovão e o relâmpago proclamarem a majestade do céu, então vosso coração diga com temor e respeito: “Deus age na Paixão”.

            E já que sois um sopro na esfera de Deus e uma folha na floresta de Deus, também devereis descansar na razão e agir na paixão.

 

(O PROFETA)

Gibran Khalil Gibran

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Gibran Khalil Gibran
 - Poeta libanês, viveu na França e nos EUA. Também foi um aclamado pintor. Seus textos apresentam a beleza da alma humana e da Natureza, num estilo belo, místico, conseguindo com simplicidade explicar os segredos da vida, da alegria, da justiça, do amor, da verdade.

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VIDA E OBRA DE GIBRAN (5)

1905-1920 Gibran escreve quase que exclusivamente em árabe e publica sete livros nessa língua: 1905, A Música; 1906, As Ninfas do Vale; 1908, As Almas Rebeldes; 1912, As Asas Partidas; 1914, Uma Lágrima e um Sorriso; 1919, As Procissões; 1920, Temporais. (Após sua morte, será publicado um oitavo livro, sob o título de Curiosidades e Belezas, composto de artigos e histórias já aparecidas em outros livros e de algumas páginas inéditas).

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