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sábado, 7 de novembro de 2020

URGENTE APELO PARA RESISTIR À TRAIÇÃO E RUÍNA DO OCIDENTE, FINA FLOR DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ

1 de novembro de 2020


Manifesto publicado pelo Instituto Plinio Corrêa de Oliveira em 30-10-20

 

A tríplice crise resultante da COVID-19, da agitação civil e do desastre econômico está abalando os fundamentos espirituais e materiais do Ocidente e do mundo. Não se trata de uma crise comum, pois ela abala nossas certezas desgastadas, ao mesmo tempo em que muda nossas rotinas diárias e cerceia a liberdade da Igreja. Frente a essa crise, muitos ficam perplexos e se perguntam o que deu errado. Para onde vai o Ocidente? É possível evitar o caos que se aproxima?

Diante desse grande perigo que ameaça o Ocidente, o Instituto Plinio Corrêa de Oliveira e suas organizações co-irmãs e autônomas nos cinco continentes — constituídas de leigos católicos que de há muito defendem a Civilização Cristã contra os erros do comunismo e do socialismo — apresentam uma análise dos perigos da atual situação, bem como uma mensagem de esperançosa restauração.

I. A situação atual

A atual crise se manifesta de várias maneiras. Entretanto, todas elas apresentam uma finalidade comum: destruir as estruturas da Civilização Cristã ocidental que ainda resistem. Poderíamos dividi-las em três categorias principais.

1. Uma crise sanitária que afeta todos os aspectos da vida

O mundo se confronta com uma epidemia viral suspeita originada e propagada a partir da China. Este vírus afeta, acima de tudo, as nações cristãs da Europa e das Américas, causando graves riscos sanitários e um profundo impacto econômico, social e psicológico resultantes das draconianas medidas sanitárias e lockdowns.

O assim chamado novo normal está afetando também a vida de centenas de milhões de pessoas ao limitar a liberdade de movimento, interrompendo o trabalho e a educação, proibindo ou limitando reuniões, eventos culturais e finalmente restringindo o acesso à Missa dominical e aos sacramentos.

As pessoas são levadas a se acostumar com um mundo de tristeza, isolamento e subconsumismo controlado por tecnocratas, não muito diferente do pesadelo distópico do romance ‘1984’, de George Orwell.

2. A pandemia expõe as debilidades estruturais de nosso mundo globalizado

Uma grave crise econômica está batendo à porta, com enormes consequências políticas, sociais, culturais e psicológicas. Analistas de nível mundial prevêem que será muito pior do que a Grande Depressão que começou em 1929.

A pandemia revelou a monumental dependência econômica do Ocidente — nefasto resultado do imprudente deslocamento de sua base industrial especialmente para a China.

O resultado é a grande fraqueza política do Ocidente. Sua influência se encontra muito abalada no mundo “multipolar” no qual a China comunista vem assumindo o papel de dragão. Muitos autores denunciam o declínio inevitável e gradual do poder político, militar e diplomático do Ocidente no cenário internacional. O mundo, como o conhecíamos, parece estar chegando ao seu fim.

3. A agitação enfraquece ainda mais o Ocidente


O Ocidente está sendo enfraquecido por focos de agitação que surgem simultaneamente no mundo todo, como que desencadeados por uma direção comum. Tais pontos incluem:

a) Imigração descontrolada, um mal importado que favorece a formação de quistos estrangeiros dentro das nações. Muitos recém-chegados — especialmente migrantes muçulmanos — recusam integrar-se e assimilar-se ao país que os recebe, criando de fato um separatismo interno. Este fenômeno transforma o Ocidente em um “espaço aberto” multiétnico, multirreligioso e multicultural, sem uma identidade nem objetivo comum.

b) Outro foco de agitação está no surgimento de políticas identitárias e ideologias de esquerda que buscam varrer todos os resquícios e estruturas do nosso passado cristão. Estes ideais sociais “desconstrucionistas” têm como alvo a sociedade burguesa capitalista. Muitos esquerdistas se aproveitam de diferenças raciais e culturais para promover a luta de classes por meio de violência nas ruas e destruição urbana. Um exemplo típico são os tumultos populares promovido pelo movimento Black Lives Matter nos Estados Unidos [foto acima].

Entre outras consequências, esta agitação leva a um radicalismo que, com a ajuda da mídia, assusta e paralisa a maioria silenciosa. Em países onde esta maioria reage, a consequente polarização ideológica leva a uma paralisia das instituições democráticas, e muitos observadores chegam a mencionar o risco de guerra civil.

II. O homem ocidental face a este panorama

O Ocidente não está preparado para enfrentar esta tríplice crise. Seus alicerces estão corroídos pela terrível fraqueza estrutural causada por uma revolução cultural massiva, como se pode ver, por exemplo, com a crise na família, a cultura da morte representada pelo aborto, e a ideologia LGBT agressiva que vem se impondo a toda a sociedade, até mesmo a crianças inocentes.

Acima de tudo, o Ocidente está enfraquecido por uma crise espiritual. Muitos abandonam a Fé e vivem sem respeitar a lei de Deus, ignorando sua graça e a vida sacramental. Enfraquecidos por esta decadência moral, passamos a esquecer nossas raízes cristãs.

Privados de apoio espiritual e social, muitos reagem à esta tríplice crise com perplexidade e incredulidade. Muitos psicólogos chamam isso de “trauma coletivo”. Nosso mundo, poderoso, sólido, tecnologicamente “perfeito” e seguro de si, foi abalado até os alicerces pelo novo coronavírus.

Em poucos meses, muitas certezas ruíram junto com a economia ocidental. Tais certezas alimentavam nas massas um otimismo de progresso indefinido. Hoje, essa crise corroeu a confiança na mídia, na ciência, nas autoridades políticas e até nos líderes religiosos.

O otimismo, traço característico de nosso tempo, que havia resistido a duas guerras mundiais, está desaparecendo e levando a uma crescente ansiedade pelo futuro.

Nesse contexto preocupante, muitos começam a questionar as premissas do Ocidente, perguntando: O que deu errado? Existe uma solução, uma luz que possa nos guiar nesta tempestade, consolando e restaurando a confiança no futuro?

Tais perguntas trazem consigo uma semente de remorso e de um vago anseio pela retomada do caminho abandonado da virtude.

III. Uma imensa orfandade espiritual


Em meio à crise, seria bom voltarmos à fonte da cultura cristã e redescobrirmos os valores espirituais que formam a base de nossa civilização. É desta fonte espiritual que virão a ordem, as instituições e as graças que nos salvarão desta crise tríplice. Somente um retorno de filhos pródigos à casa paterna pode regenerar a sociedade na medida e profundidade necessárias.

No entanto, nossa incapacidade de lidar com esta tríplice crise decorre do fato de que nossas certezas, princípios e valores foram minados pela crise que se desenvolveu paralelamente dentro da própria Igreja. Essa crise espiritual é muito mais destrutiva, pois nos priva dos meios que nos ajudariam a encontrar soluções.

Nesta hora de supremo perigo para o Cristianismo, os fiéis naturalmente alçariam seu olhar para a Cátedra de Pedro, Suprema Autoridade da Igreja Católica, buscando uma palavra de conforto e orientação. No entanto, em vez de se portar como baluarte do Ocidente, a Santa Sé parece indiferente ao seu destino. Às vezes parece até favorecer as forças que atacam o Ocidente com intensidade cada vez maior. O aspecto mais terrível da situação atual é a imensa orfandade espiritual em que se encontra o Ocidente.

Consideremos estes fatos recentes — entre muitos que poderiam ser citados — que solapam os fundamentos da fé:

1. Enquanto o Catecismo da Igreja Católica reitera que os atos homossexuais “são contrários à lei natural” e “não podem, em caso algum, ser aprovados” (no. 2357), e uma posterior declaração emitida pelo Vaticano em 2003, condena “o reconhecimento legal das uniões homossexuais”. Contudo, uma recente declaração do Papa Francisco afirma que “os homossexuais têm direito de fazer parte de uma família (…). O que precisamos criar é uma lei de convivência civil. Eles têm o direito de estarem cobertos legalmente”.


2. A fim de construir um “mundo novo” multipolar, o Papa Francisco lançou Fratelli Tutti, uma encíclica que, do ponto de vista religioso, coloca a Igreja Católica e a Sagrada Escritura em pé de igualdade com outras religiões e suas crenças fundamentais. Em nome de uma fraternidade universal naturalista e da “amizade social” correspondente, Fratelli Tutti fornece as bases doutrinárias e psicológicas para um “mundo aberto” sem princípios nem fronteiras, sem religião definida, em que os recursos estariam igualmente disponíveis a todos, e em que os conflitos devem ser resolvidos por meio do “diálogo”.

3. A encíclica favorece a invasão descontrolada de migrantes no Ocidente — no caso da Europa, são principalmente muçulmanos. Conclama os países a se submeterem a organismos internacionais como as Nações Unidas, que supostamente resolveriam problemas mundiais, e especialmente os relacionados ao clima e ao meio ambiente.

4. Além disso, contradizendo a doutrina social da Igreja, Fratelli Tutti cerceia de tal maneira a propriedade privada e a economia de livre mercado que, na prática, nega a liceidade moral desses dois fundamentos da economia ocidental. Outros pontos da encíclica também preocupam. O Papa Francisco os repetiu ao longo de seu pontificado e provavelmente o fará novamente durante os eventos do Pacto Global sobre a Educação e da Economia de Francesco. Por exemplo, promoverá um “decrescimento sustentável”, uma economia de ‘energia sem carbono’ — isto é, o miserabilismo como padrão de consumo — e a propriedade e gestão comunitária praticada por movimentos populares de esquerda.


5. A isso se somam os anseios indígenistas propostos na encíclica Laudato Si e na Exortação Apostólica Querida Amazonia, que apresentam o modo de vida tribal como modelo sustentável e comunitário. Sem mencionar os horrendos atos de adoração à Pachamama no Vaticano [foto ao lado]. Ambos documentos confirmam tragicamente as previsões do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira sobre as tendências miserabilistas e tribalistas de setores da Igreja, contidas no livro Revolução e Contra-Revolução, edição de 1976, e na obra Tribalismo indígena, ideal comuno-missionário para o Brasil no século XXI, de 1977.

6. A passividade da Hierarquia durante a crise sanitária ficou evidente quando muitas autoridades religiosas foram além das determinações civis. Inicialmente impondo a comunhão na mão e depois chegando a cancelar a celebração das missas. Pela primeira vez na história, o clero católico celebrou a Páscoa sem fiéis. Muitos destes não estão voltando para a Igreja, agravando assim uma crescente apostasia.

IV. Tem-se o direito de resistir a um papa que abandona a Cristandade?

Como diz seu próprio nome, a Igreja Católica é universal. Sua missão é batizar todos os povos, ensinando-as a observar o que Nosso Senhor Jesus Cristo ordenou (Mt 28:19-20). Nesse sentido, Ela não se fica circunscrita com esta ou aquela área geográfica, etnia ou cultura. Por dois mil anos a Civilização Cristã ocidental vem sendo o fruto mais visível e duradouro do apostolado da Igreja. A santidade de sua doutrina, o espírito evangelizador, a profundidade filosófica e teológica, a criação de hospitais, universidades, obras de caridade, o efeito florescente na economia, nas artes e ciências levaram o Papa Leão XIII a escrever nestes termos a Cristandade medieval:



“Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados. Nessa época, a influência da sabedoria cristã e a sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil. Então a Religião instituída por Jesus Cristo, solidamente estabelecida no grau de dignidade que lhe é devido, em toda parte era florescente, graças ao favor dos Príncipes e à proteção legítima dos Magistrados. Então o Sacerdócio e o Império estavam ligados entre si por uma feliz concórdia e pela permuta amistosa de bons ofícios. Organizada assim, a sociedade civil deu frutos superiores a toda a expectativa, cuja memória subsiste e subsistirá, consignada como está em inúmeros documentos que artifício algum dos adversários poderá corromper ou obscurecer” (Encíclica “Imortale Dei”, nº 28).

Os Soberanos Pontífices, que precederam os Papas conciliares, sempre reconheceram a civilização cristã ocidental como “a única ordem verdadeira entre os homens” (RCR, parte I, cap VII, 1, E), e procuraram defendê-la. Que mãe desnaturada seria a Igreja se, vendo esta ordem em perigo de morte, lhe voltasse as costas. Pior ainda, seria se colaborasse com seus inimigos a agredir esta ordem até que pereça. Se assim o fizesse, a Igreja estaria agindo como um falso pastor que entrega o rebanho aos lobos vorazes que o querem devorar. Lamentavelmente é esta a atitude demonstrada por muitas das nossas mais altas autoridades eclesiásticas.

Diante de tal panorama apocalíptico, uma pergunta lancinante surge na alma de inúmeros católicos: é lícito reagir e defender com altaneria a Civilização Cristã, suas tradições religiosas e temporais mesmo quando contrarie orientações emanadas de altas autoridades? É lícito resistir às políticas adotadas pelo Papa Francisco que ameaçam a integridade, segurança e identidades culturais do Ocidente?



Não tememos continuar em estado de resistência porque o Papa Paulo VI e numerosas autoridades eclesiásticas implicitamente reconheceram — por seu silêncio — a liceidade moral da declaração da TFP sobre a política de distensão do Vaticano com os regimes comunistas, de 1974. O documento [fac-símile acima], da autoria do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, foi assinado e publicado por todas as TFPs então existentes. Nele se lê:

“Neste ato filial, dizemos ao Pastor dos Pastores: Nossa alma é Vossa, nossa vida é Vossa. Mandai-nos o que quiserdes. Só não nos mandeis que cruzemos os braços diante do lobo vermelho que investe. A isto nossa consciência se opõe.

Sim, Santo Padre — continuamos — São Pedro nos ensina que é necessário ‘obedecer a Deus antes que aos homens’ (At. V, 29). Sois assistido pelo Espírito Santo e até confortado — nas condições definidas pelo Vaticano I — pelo privilégio da infalibilidade. O que não impede que em certas matérias ou circunstâncias a fraqueza a que estão sujeitos todos os homens possa influenciar e até determinar Vossa atuação. Uma dessas é — talvez por excelência — a diplomacia. E aqui se situa a Vossa política de distensão com os governos comunistas.

Aí o que fazer? As laudas da presente declaração seriam insuficientes para conter o elenco de todos os Padres da Igreja, Doutores, moralistas e canonistas — muitos deles elevados à honra dos altares — que afirmam a legitimidade da resistência. Uma resistência que não é separação, não é revolta, não é acrimônia, não é irreverência. Pelo contrário, é fidelidade, é união, é amor, é submissão”.

V. Resistência


Resistir
 significa que vamos encorajar os católicos a reafirmar seu amor pela Civilização Cristã ocidental, defendendo seu legado e sua cultura. Além disso, trabalharemos para que eles sejam restaurados com ainda maior brilho e solidez para que o Ocidente recupere a liderança mundial que merece, não por ser ocidental, mas por ser católico. A civilização cristã ocidental é erigida em um passado bimilenar e no fato de ter seu centro em Roma, a Sé de Pedro.

Resistir significa incentivar os líderes e povos ocidentais a reconhecer as profundas razões do seu declínio, analisadas em Revolução e Contra-Revolução, obra-prima do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira [foto], e aplicar os remédios que sugere para livrar o Ocidente desta crise existencial.

Resistir significa não nos conformarmos com a morte do Ocidente. Pois, como nos ensinou o líder católico brasileiro no mesmo livro: “Quando os homens resolvem cooperar com a graça de Deus, são as maravilhas da Historia que assim se operam: é a conversão do Império Romano, é a formação da Idade Média, é a reconquista da Espanha a partir de Covadonga, são todos esses acontecimentos que se dão como fruto das grandes ressurreições de alma de que os povos são também suscetíveis. Ressurreições invencíveis, porque não há o que derrote um povo virtuoso e que verdadeiramente ame a Deus”.

Resistir significa manifestar respeitosamente nossa análise e juízo diante de pronunciamentos como a encíclica Fratelli Tutti ou o endosso do Papa Francisco ao reconhecimento legal das uniões homossexuais — um golpe mortal no que ainda resta da civilização cristã ocidental.

Resistir significa denunciar com franqueza filial e respeitosa a perigosa contradição entre o tratamento privilegiado dispensado pela Santa Sé à China vermelha — cujo regime comunista não condena — e o desprezo do Papa Francisco pelos grandes países da Europa e das Américas. Ele ataca impiedosamente suas soberanias e sistema econômico, baseados na livre iniciativa e na propriedade privada e inteiramente alinhados com a lei natural, os Dez Mandamentos e o ensino bimilenar dos papas, como se pode ver no Supremo Magistério da Santa Madre Igreja.

Resistir significa proclamar com indomável confiança que, para além das tempestades espirituais, dos desafios materiais e de todos os ataques de seus inimigos, o Ocidente e a Civilização Cristã reerguer-se-ão, cumprindo as palavras proféticas de Nossa Senhora em Fátima: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará!”



SIGNATÁRIOS

Instituto Plinio Corrêa de Oliveira (Brasil)
Asociación Civil Fátima la Gran Esperanza (Argentina)
Australian TFP, Inc.
Österreichische Gesellschaft zum Schutz von Tradition, Familie und Privateigentum (Áustria)
Canadian Society for the Defence of Christian Civilization
Acción Familia por un Chile Autentico, Cristiano y Fuerte
Centro Cultural Cruzada (Colômbia)
Sociedad Colombiana Tradición y Acción (Colômbia)
Circulo Beato Pio IX (Equador)
Société Française pour la Défense de la Tradition, Famille, Propriété
Federation Pro Europa Christiana (France)
Deutsche Gesellschaft zum Schutz von Tradition, Familie und Privateigentum e.V. (Germany)
Irish Society for Christian Civilisation
Associazione Tradizione Famiglia Proprietà (Italy)
Stichting Civitas Christiana (The Netherlands)
Sociedad Paraguaya de Defensa de la Tradición, Familia y Propiedad (TFP)
Tradición y Acción por un Peru Mayor
Philippine Crusade for the Defense of Christian Civilization, Inc.
Fundacja Instytut Edukacji Społecznej i Religijnej im. Ks. Piotra Skargi (Poland)
Instituto Santo Condestável (Portugal)
Family Action South Africa
Tradición y Acción (Spain)
Helvetia Christiana (Switzerland)
Tradition, Family, Property–United Kingdom
American Society for the Defense of Tradition, Family, and Property (U.S.A.)


 https://www.abim.inf.br/urgente-apelo-para-resistir-a-traicao-e-ruina-do-ocidente-fina-flor-da-civilizacao-crista/

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sexta-feira, 6 de novembro de 2020

POEMA EN HOMENAJE DE UN AMIGO - Juan Angel Torres Rechy



Poema en homenaje de un amigo


Juan Angel Torres Rechy

Para Sr. D. Cyro de Mattos

 

Los perros de mi barrio no descansan,

escucho sus ladridos como ayer.

Así me sucedía en Salamanca,

así tal vez también es en Brasil.

El cielo se detiene a la ventana,

llenando con su luz mi habitación.

Los pájaros se alejan a lo lejos,

llevándose en su vuelo mi mirada.

La página en blanco se ahonda,

me enseña su misterio inexplicado.

El tiempo se engrandece en mi pluma,

se ensancha mi palabra en el espacio.

Por eso me pregunto si es un sueño,

la voz que me seduce en el silencio.

Por eso me respondo con mis versos,

robados de los besos de mi musa.

Así yo me escondo en el sonido,

del verbo no escuchado todavía.

Así me reconozco en mi hermano,

presente en el instante de mi canto.

Y miro desde dentro hacia fuera,

la vida de las calles y las plazas.

Y miro desde fuera hacia dentro,

el orden del espíritu en llamas.

Y vierto en mis lágrimas la dicha,

de ser un ser humano sin dobleces.

Y callo mi secreto revelado,

perdiendo de mi vista mi tesoro.

 

Xalapa, Veracruz, México

4 de noviembre de 2020

 

Juan Angel Torres Rechy, poeta e filólogo mexicano. Doutor em Línguas Hispânicas. Lecionou na Universidade de Salamanca, Espanha. Integra o Departamento de Espanhol da Universidade de Soocho na China.

 

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Poema em homenagem a um amigo


Juan Angel Torres Rechy

Para Sr. D. Cyro de Mattos

 

Os cães do meu bairro não descansam,

escuto seus latidos como ontem.

Assim acontecia em Salamanca,

assim talvez seja como no Brasil.

O céu para frente à janela,

ocupando com sua luz o meu quarto.

Os pássaros se afastam para longe,

levando com seu voo o meu olhar.

A página em branco se faz profunda,

ensina-me seu mistério inexplicável.

O tempo se prolonga em minha caneta,

estende-se minha palavra no espaço.

Por isso me pergunto se é um sonho,

a voz que me seduz no silêncio.

Por isso me respondo com meus versos

robados dos beijos de minha musa.

Assim eu me escondo no som,

do verbo ainda não escutado.

Assim me reconheço em meu irmão,

presente no momento do meu canto.

E olho de dentro para fora,

a vida das ruas e das praças.

E olho de fora para dentro,

a ordem do espírito em chamas.

E transformo em minhas lágrimas a graça,

de ser um ser humano sem dobras.

E calo meu segredo revelado,

perdendo de vista meu tesouro.


Xalapa, Veracruz, México

4 de novembro de 2020


Tradução de Luísa Damulakis,

Especializada em tradução pela Universidade  Gama filho (RJ)

Mestra em Língua e Cultura pela UFBA.


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quinta-feira, 5 de novembro de 2020

ELEIÇÕES AMERICANAS - José Sarney


É difícil para nós entendermos o sistema eleitoral americano. Estamos a cinco dias das suas eleições. A grande diferença para o sistema brasileiro é que aqui as regras eleitorais são federais, lá são federais e estaduais. Cada Estado tem independência para fazer seu sistema de votação como quiser. Apenas devem respeitar o que a Constituição regulou: primeiro, o presidente é eleito por um colégio eleitoral, numa tentativa de equilibrar os grandes e pequenos estados; segundo, cada estado elegerá dois senadores e tantos deputados quanto 1/435 da população total do país. Quando foi feita a Constituição, em 1787, não existia a eleição de vice-presidente. A eleição era só de presidente, e o segundo mais votado seria o vice-presidente — essas regras foram mudadas em 1804, com a introdução do Colégio Eleitoral pela XXII Emenda Constitucional.

Assim, a diferença para os sistemas das outras democracias liberais é a heterogeneidade. Como as regras são estaduais, não há um padrão. Tem estado que elege prefeito, tem o que faz referendo ou plebiscito, tem o que elege o presidente do conselho municipal etc. No estado em que morreu um senador, o seu sucessor é indicado de uma maneira própria, seja pela assembleia estadual, seja pelo governador, e o escolhido exerce o mandato até a próxima eleição, o que faz com que em alguns estados sejam eleitos agora dois senadores. Tem estado que elege a administração do county (município) e outros cargos, como chefe do ministério público ou chefe de polícia etc.

Para nós é incompreensível que, tendo tido mais votos, Al Gore tenha perdido para Bush e Hillary Clinton, para Trump. Mas outra diferença decisiva e fundamental é a possibilidade do voto antecipado, por correspondência ou em urnas especiais. Isso tem permitido abusos, como o dos republicanos que conseguiram parar na Suprema Corte a contagem de votos na Flórida quando o Al Gore ia ultrapassando o Bush. Ele perdeu a eleição com dignidade, não discutiu a decisão judicial, reconheceu a falsa derrota como verdadeira.

Agora, com a pandemia e o delírio do Trump, está acontecendo uma coisa inusitada: pela primeira vez o voto antecipado já é em alguns lugares maior que a votação total da última eleição. Como a imensa maioria deve ser de democratas, será o feitiço virando contra o feiticeiro — a não ser que o Trump, como promete, recuse o resultado e ganhe na Suprema Corte

No Brasil desde a Colônia as Ordenações Manuelina e Filipina determinavam o voto secreto. No Império era assim, com as restrições do voto censitário. Vem a República para estabelecer a liberdade e os direitos civis e adota como modelo a Constituição americana. Rui Barbosa quis fazer uma democracia exemplar, mas logo se derrubou o seu princípio básico: o voto secreto.

Já em 1896 ele foi abolido, estabelecendo-se o voto “a descoberto”, com duas cédulas, uma para colocar na urna e outra para entregar… a quem de direito. Justificativa: já que o povo tinha assistido “bestificado” a proclamação da República, era monarquista e, se houvesse eleição livre, ela, a República, perdia.

A solução veio de Campos Salles, Ministro da Justiça de Deodoro. “Então vamos fazer leis para fraudar a eleição.” E assim foi feito até 1932, quando voltamos ao voto secreto — mas proporcional e uninominal, como Assis Brasil tinha pensado mais de 40 anos antes, desgraça que prevalece até nossos dias e que continua a impedir eleições verdadeiramente democráticas.

Mas o diabo é que com todo o caos o sistema eleitoral americano, lá funciona e aqui, “organizado”, é mais caótico do que lá e funciona muito mal.

O Estado do Maranhão, 01/11/2020

https://www.academia.org.br/artigos/eleicoes-americanas

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José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38 da ABL, eleito em 17 de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6 de novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.

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quarta-feira, 4 de novembro de 2020

DISCURSO DO HERÓI DE PALMARES - Cyro de Mattos


                        Discurso do Herói de Palmares

      Por   Cyro de Mattos

 

Ao receber a Medalha Zumbi dos Palmares da Câmara de Vereadores de Salvador, em sessão solene, online, às 20 horas, no dia 3 de novembro de 2020.

 

           "Boa noite a todos.

           Ilustre jurista, vereador e confrade Edvaldo Brito.

           Primeiro  quero agradecer esse momento a Deus, depois à  minha esposa Mariza, que tem sido minha base durante 52 anos de casados, aos meus três filhos André Luís, Josefina e Adriano, que tanto me  motivam para que eu seja um cidadão digno, e aos meus seis netos, Rafael, Pedro Henrique, Gabriel, Luís Fernando, Marizinha e Murilo, que me dão alegria e certeza de que quando eu estiver em outra dimensão continuarei ainda aqui, neste velho mundo, em cada um deles.

           Faço um agradecimento especial ao professor emérito e jurista consagrado, vereador Edvaldo Brito, o autor do projeto para que esta Casa me concedesse a distinção. Muito me honra ter sido colega daquele estudante pobre na turma de 62 da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia. Aquele rapaz de corpo comprido, que foi o orador da turma. Esse homem de cor, cidadão digno, um símbolo vitorioso da negritude na Bahia e no Brasil. Essa criatura rara, de cultura adquirida com esforço nos livros, brilho de sua inteligência, crença na força dos antepassados, e que se sabe herdeiro da fraternidade e compromissado com a verdade, portador do axé, que, como se diz no candomblé, é “a luz do dia”. É por sua iniciativa generosa que estou aqui sendo homenageado, apesar de surpreso até agora ao receber essa láurea, e comovido.  

          Certa vez minha tetravó materna contou à minha trisavó que contou à minha bisavó que contou à minha avó que uma gente que vivia nas suas aldeias foi retirada da África como bicho, pior do que bicho, para a escravidão no Brasil Colonial.  Filho foi retirado da mãe, marido da mulher, irmão do irmão, acorrentados foram trazidos com os rostos tristes, até que se viram jogados para o embarque como um fardo deplorável no porão fétido do navio negreiro.  Longe, tão longe, foi ficando atrás na savana a lágrima de Deus.  No rumo desconhecido, seguia aquela gente na carga desgraçada, feita com vozes sofridas na cena lastimada. Uma pobre gente solitária vagando pela imensidão das ondas salgadas. Viajava marcada sem perdão, o corpo amassado, a fome e a sede nas horas de aflição, menos para o traficante branco, que conduzia o navio por entre as águas de cobiça e perversidade.

          No poema “Navio Negreiro”, de meu livro Poemas de Terreiro e Orixás, dou minha versão dessa sinistra embarcação com sua carga sofrida numa rota dos infernos.  Eis o poema:  

 

Navio Negreiro

 

não adiantava

gemer

não adiantava

mugir

não adiantava

 viver

muito melhor

morrer

 

funda a ferida

amargo o ferrão

ardido o sal

aguda a solidão

negro negro negro

o mugido anuncia

a sede e a fome

 de boi em agonia

 

todo esse mar

é a desgraça

não branca

que até hoje

das entranhas

rola nas ondas

o seu mal-estar

 

o despejo na praia

diz de um tesouro

alimentado do pai

alimentado da mãe

do filho e do irmão

como ofensas no amor

do suor fabricado 

para a saborosa canção

do constante senhor.

 

          Na rota da desgraça foi submetida essa gente ao trabalho servil do Brasil colonial. Alguns negros inconformados fugiam da senzala em busca da liberdade na mata fechada. Não conseguiam reter o suor e a amargura que derramavam todos os dias para irrigar o canavial do senhor de engenho.  A fome do Brasil açucareiro era insaciável, nunca se satisfazia com o trabalho de graça dado pelo braço escravo. O feitor com os cachorros logo ia atrás do negro fujão, que terminava castigado com a sua afronta no pelourinho. Treze, trinta, cinquenta chibatadas. Muitos não suportavam o castigo, morriam esfacelados.  Tristes, os outros olhavam, não podiam fazer nada. Calados, lambiam o vento, que soprava no peito a sina feita de atrocidades, assim guardadas como ruínas dos dias nos gemidos mudos.  

          Quem de novo fugisse e fosse apanhado, o remédio agora era cortar um pé, para que o exemplo fosse melhor disseminado.  Minha avó contava que em outros casos de insubmissão a língua era cortada daquele negro falador, inflamando os outros para fazer a revolta. Contou mais que minha tetravó tinha o seio farto, foi lambido, bebido como gostosura o seu leite puro para o anjinho do senhor não sucumbir.  Senhores bigodudos, sisudos doutores provaram do leite morno e doce, saindo ilesos das sombras da morte.  A paga daquele ofício era na roupa lavada, engomada, no fogão aceso e abanado, no asseio de inúmeros cômodos, no carrego de feixes de cana, em tudo que tinha o gosto amargo para que a vida continuasse no seu ritmo invariável de dor e solidão.

          O mel da cabaça da negrinha era para servir a seu dono, que deixava o fel nas entranhas. Matava a sede do que batia os dentes, montava nela com todas as forças que pudesse reunir e perfurava, sem remorso, umas carnes tenras. Arrancava os tampos com sua flor guardada entre as pernas, olhe lá, não tens que gritar, é pra ficar abafada nos lamentos, entorpecida pelo som e a fúria dos meus punhos, o querer é só meu, ninguém se atreva a interromper.  Passava o inverno, passava o verão, o tempo e as dores essa gente desgraçada ia moendo, remoendo. Como devia ser, os céus ordenavam. As horas se resumiam na fome e na sede de animal em passividade e agonia. O final todos sabiam, uma coisa, que teve a vida toda em luto perpétuo, era enterrada na cova rasa, mais nada.   

          E dizer que o Brasil foi carregado nos ombros dessa gente vítima de mazelas, violência e injustiça. De toda sorte de vilanias, preconceitos, desigualdades. Essa gente da qual também procedo, que deu o suor de sol a sol ao jugo do senhor branco e de volta recebeu a canga. O Brasil tem uma dívida com o negro que é impagável. Esquecido dessa dívida, ainda se vê hoje, em pleno século vinte e um, atos pusilânimes que alimentam a mancha que envergonha, essa chaga que subtrai e faz da vida um horror com fendas acumuladas de aversão, feridas que não curam.  

          Ontem na televisão, diante do rosto da humanidade pasma, a notícia veio com a cena do negro que teve a vida esmagada pelo policial branco.  Tiros foram desfechados nas costas de outro, que, indefeso, tentou fugir da perseguição como fúria canina. É comum a rejeição ao negro, considerado ao longo dos séculos como um ser inferior, de gradações baixas, daí não ser nada de mais ser visto até hoje no semblante inocente dele o ladrão ou o assassino. 

          Diante de tantas atitudes para alimentar o império do mal, destruir o espírito universal do bem, mais que nunca é preciso resistir, denunciar, lutar para desfazer a mentira e ao invés disso gritar a todos pulmões que a liberdade é o valor maior, a igualdade não é privilégio de ninguém, Deus fez todos nós com a mesma alma, o amor é o sentimento mais forte.

          Devo lembrar que o Quilombo dos Palmares era formado por três aldeias. Aí por volta de 1640 viveram cerca de dez mil quilombolas. Eram fortes e contentes, plantavam de tudo e não se serviam da terra como fonte única de riqueza, através do açúcar. Cada família em Palmares ocupava um lote de terra, o que tirava dela era para o seu sustento. Em 1670, já inúmeros povoados cobriam muitos quilômetros de terra na serra do Barriga, em Alagoas.  Palmares havia se transformado em um Estado, situado na borda do litoral do mundo canavieiro. Tornava-se por isso mesmo em grave ameaça ao império do açúcar, com seu sistema fixo calcado no braço escravo, em benefício exclusivo do senhor de engenho.

         Tinha uma população de trinta mil almas quando sob o comando de Zumbi sucumbiu às investidas de Domingos Jorge Velho, chefe de um exército armado de canhões, constituído de nove mil homens. Sucessor do trono de Ganga Zumba, Zumbi mostrara ser um guerreiro implacável antes mesmo de ser derrotado por Domingos Jorge Velho. Há quem diga que ele se pareceu aos heróis de guerra Aníbal, Alexandre, Ciro e Napoleão. Diferente deles porque não combateu para conquistar territórios e glórias, mas para fazer de Palmares uma flecha a ser atirada para o coração da liberdade.

          Muitos historiadores esconderam dos compêndios oficiais a grandeza do caráter de Zumbi dos Palmares, mas a verdade prevaleceu. Ele se tornou um verdadeiro herói do Brasil, símbolo da resistência negra perante o ferro do colono usurpador. De maneira que a essa altura só me resta dizer nesse momento de especial reconhecimento o quanto me dignifica receber da Câmara de Vereadores de Salvador, a mais antiga do Brasil, uma honraria com o nome desse herói negro. E assim terminar minha fala com um poema inspirado nessa figura, que por sua coragem e amor à liberdade, lealdade ao seu povo, tornou-se um marco elevado da tão esperada abolição.

 

Zumbi

 

Falo Zumbi,

digo Palmares,

ritmo da liberdade.

 

Falo Zumbi,

digo Palmares,

batuque da igualdade.

 

Falo Zumbi,

digo Palmares,

manual da fraternidade.

 

Falo Zumbi,

digo Palmares

sem o açúcar insaciável.

 

Falo Zumbi,

digo Palmares,

gente em grito indignada.

 

Falo Zumbi,

digo Palmares,

no abismo a África salta. 

 

Luzes da Manhã,

força do amor

pelo chão e nos ares.

 

          Espero que minha voz como um grão nos ventos da resistência venha se juntar ao movimento que vem lutando nos anos pela sanidade da razão, expandindo-se para a valorização e conscientização do universo do negro.

          A todos, o meu muito obrigado por esse momento gratificante em minha jornada de vida."


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terça-feira, 3 de novembro de 2020

NECESSIDADE DOS RECURSOS DA IGREJA PARA NOSSA "ÚLTIMA VIAGEM" - Plinio Maria Solimeo

3 de novembro de 2020


Plinio Maria Solimeo


Em filosofia há um conhecido axioma que diz “Todo homem é mortal. Ora, Sócrates é homem, logo Sócrates é mortal”.

         Não há certeza mais evidente e mais insofismável do que a de que todos morreremos um dia. Isso leva a considerar que, para os que temos fé, nossas últimas horas neste mundo poderão decidir nossa eterna salvação ou eterna perdição.

         Daí a necessidade de nos prepararmos bem para esta nossa última grande viagem para a eternidade, com os benefícios que a Santa Igreja põe à nossa disposição para esse momento.

Assim, quando o gongo já soou para nós e estamos no leito de morte, além de nos confessarmos e recebermos a Sagrada Comunhão, podemos ainda nos valer de um outro sacramento que a misericórdia de Deus instituiu para essa hora suprema, a Extrema Unção ou Unção dos Enfermos. Esse sacramento produz na alma, e mesmo no corpo do enfermo, admiráveis efeitos, como o de abrir mais facilmente as portas do paraíso.

         O sacramento da Unção dos Enfermos foi deduzido das palavras do evangelho de São Marcos: “E, tendo partido [os Doze Apóstolos], pregavam aos povos que fizessem penitência, e expeliam muitos demônios, e ungiam com óleo muitos enfermos e os curavam” (6, 12-13).

         Contudo, é na epístola de São Tiago que vem descrito mais explicitamente esse sacramento: “Está alguém entre vós enfermo? Chame os presbíteros da Igreja, e orem sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor. E a oração da fé salvará o doente; o Senhor o levantará e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados” (5, 14-15).



         Desse modo o apóstolo só deu a conhecer um rito estabelecido pelo próprio Redentor e prescreveu seu uso, como diz o Concílio de Trento, citado pelo Catecismo da Igreja Católica[i]“Esta santa unção dos enfermos foi instituída por Cristo nosso Senhor como sacramento do Novo Testamento, verdadeira e propriamente dito, insinuado por São Marcos (120 – Cf. Mc 6, 13.), mas recomendado aos fiéis e promulgado por São Tiago, apóstolo e irmão do Senhor”.

Das palavras de São Tiago vem a seguinte definição do Sacramento dos Enfermos: “Unção de óleo, acompanhada de súplica, feita sobre os doentes, pelos presbíteros, a fim de lhes procurar a saúde da alma — pela remissão dos pecados, quando necessária — e, querendo Deus, a saúde corporal”.

Sobre esse sacramento diz a Constituição sobre a Unção dos Enfermos promulgada por Paulo VI em 1973, citado pelo mesmo Catecismo: “O sacramento da Unção dos Enfermos é conferido aos que se encontram enfermos com a vida em perigo, ungindo-os na fronte e nas mãos com óleo de oliveira ou, segundo as circunstâncias, com outro óleo de origem vegetal, devidamente benzido, proferindo uma só vez, as palavras: ‘Por esta santa unção e pela sua infinita misericórdia o Senhor venha em teu auxílio com a graça do Espírito Santo, para que, liberto dos teus pecados, Ele te salve e, na sua bondade, alivie os teus sofrimentos”.

Segundo o ritual antigo, a pessoa podia receber só uma vez o sacramento durante uma mesma doença. Isso foi modificado por Paulo VI, pelo que, no decurso da mesma doença, este sacramento pode ser repetido se o mal se agrava. Ele pode ser também recebido “antes duma operação cirúrgica importante, e por pessoas de idade, cuja fragilidade se acentua”. O que amplia muito o âmbito dos que podem receber o sacramento.


Últimos momentos de Sto. Afonso Maria de Ligório


Sobre os benefícios sem nome ligados à Unção dos Enfermos, o Concílio de Trento definiu que: “A realidade causada pelo Sacramento é a graça do Espírito Santo, cuja unção: a) apaga os pecados a serem perdoados, se ainda os há; b) apaga também os remanescentes dos pecados; c) alivia e fortifica a alma do doente, nele excitando grande confiança na misericórdia divina. Por ela sustentado, o enfermo suporta melhor os incômodos e trabalhos da doença; resiste mais facilmente às tentações do demônio que lhe arma insídias ao calcanhar (Gen 3,15); d) por vezes, quando convém à salvação da alma, recobra a saúde do corpo”[ii].

De acordo com os teólogos medievais, a Unção dos Enfermos apagaria também as penas temporais merecidas pelo pecado. O que prepararia a alma que o recebesse para ir diretamente para o Céu. Mas a Igreja ainda não se pronunciou a respeito.

         Como com a morte não se brinca — e muito menos com a salvação eterna —, dizem os teólogos que é muito conveniente que o enfermo receba a absolvição de seus pecados pela confissão, apenas iniciada a gravidade, mesmo se não existir perigo próximo de morte. Diz o eminente teólogo Pe. Royo Marin, O.P., “Com isso se dissiparia em grande escala esse estúpido e anticristão pretexto — que a tantas almas terá custado sua salvação eterna — de que se vai assustar o enfermo se se fala de confissão. Este é um dos maiores crimes que se pode cometer, dos que clamam vingança ao Céu, e não ficarão sem castigo nesta vida ou na outra”.[iii]

É por isso que se deve ministrar esse sacramento condicionalmente mesmo a quem está aparentemente (mas não certamente) morto. Pois a morte aparente prolonga-se até meia hora depois do último suspiro nos casos de doença prolongada ou de velhice, e por duas horas mais ou menos após a morte aparente nos de morte súbita ou violenta. O que levava a que, nos tempos em que ainda havia fé no povo, tão logo ocorresse um acidente, a ir-se imediatamente chamar um sacerdote para atender o sinistrado. E com isso quantas almas se salvavam!

A morte do Imperador Dom Pedro I


Monsenhor Penido dá um exemplo para mostrar a eficácia desse sacramento: “Suponhamos um pecador inveterado, surpreendido por mal súbito. Perdeu a fala, e não mais pode confessar-se. Mas intimamente teme o inferno, quer reconciliar-se com Deus e sua Igreja, que tanto desprezou. Receba os santos óleos, e todos os pecados ser-lhe-ão perdoados sem tardança”, abrindo-lhe as portas do Paraíso!

         Sabemos, por experiência, quanto despedaça o coração propor a um enfermo mui estremecido que receba os últimos Sacramentos. Mas porventura não lhe proporíamos um tratamento penoso, por exemplo uma operação dolorosíssima, no afã de tudo tentar para lhe salvar o corpo? E para a alma, nada faríamos? Isso seria aterradora prova de materialismo prático, argumenta Mons. Penido.

         Afirmam portanto os teólogos que não se deve esperar que o doente chegue à derradeira extremidade, quando o enfermo já perdeu muito de sua lucidez, para chamar o sacerdote. Pois os santos óleos não são o Sacramento dos cadáveres, nem apenas dos agonizantes, mas o Sacramento dos enfermos, instituído para o reconforto espiritual e corporal dos doentes.

Mas não param aí os benefícios da Santa Madre Igreja em favor dos que nos precedem acompanhados do sinal da fé. Qualquer sacerdote que assista o enfermo pode conferir-lhe também uma benção papal com indulgência plenária. Diz o Pe. Royo Marin que, “Se [o agonizante]conseguir lucrar plenamente esta indulgência plenária, a alma ficaria totalmente isenta das penas do purgatório”. Quer dizer, irá diretamente para o Céu. Contudo, diz ele, “Para sua validade [dessa bênção] se requer que o enfermo pronuncie com a boca, ou ao menos com o coração, o santo nome de Jesus, que aceite com resignação, em expiação de seus pecados, as dores da enfermidade e a própria morte se Deus determinou enviá-la naquela ocasião”.

 Por que, hoje em dia, se priva nossos caros doentes de todos esses celestes benefícios, negando-lhes o acesso aos últimos sacramentos? Pode-se ser mais cruel?

         Para concluir, citamos um efeito colateral da Unção dos Enfermos, que é a cura do corpo. Pois, no ritual desse sacramento, não ocorre uma só vez a palavra “morte”. Mas pede-se a Deus que “expulsai todas as dores do espírito e do corpo, e misericordiosamente restitui-lhe a saúde da alma e do corpo, a fim de que, restabelecido por obra de vossa misericórdia, ele possa voltar a suas atividades de outrora”.

         Como é rica e magnífica a doutrina católica, e como está voltada amorosamente para o amparo e a direção de seus filhos para levá-los com segurança à pátria celeste!


[i]Catecismo da Igreja Católica,

http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p2s2cap1_1420-1532_po.html

[ii] In Mons. Dr. M. Teixeira-Leite Penido, Iniciação Teológica – Volume II,

O MISTÉRIO DOS SACRAMENTOS, Editora Vozes Limitada, Petrópolis, 1961, Capítulo V, O Sacramento dos Enfermos, pp. 391 e ss.

[iii] A Extrema Unção ou “Unção dos Enfermos”, Pe. Royo Marin, O.P., Teologia de la Salvacion, Biblioteca de Autores Cristianos, Madri, 1959, pp. 252 e ss.

https://www.abim.inf.br/necessidade-dos-recursos-da-igreja-para-nossa-ultima-viagem/

 

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