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quinta-feira, 10 de setembro de 2020

SEMINÁRIO HOMENAGEIA ANTÔNIO TORRES DE HOJE A SÁBADO


Neste 2020, ao completar 80 anos (no próximo domingo, dia 13), o jornalista, escritor e acadêmico baiano da cidade de Sátiro Dias, Antônio Torres, da Academia Brasileira de Letras e da Academia de Letras da Bahia, vem recebendo várias e justas homenagens. 

Aqui na Bahia, será realizado durante três dias - desta quinta, dia 10, até sábado, dia 12 -, o Seminário Narrativas e Viagens do Sertão ao Mundo, inteiramente dedicado a leituras e análises da obra ficcional do autor, tanto por estudiosos brasileiros, como estrangeiros. O evento é promovido pela Academia de Letras da Bahia - ALB, em parceria com a Universidade Estadual de Feira de Santana - UEFS, e a Universidade do Estado da Bahia - UNEB, sendo coordenador-geral o professor, poeta e escritor Aleilton Fonseca, membro das Academias de Letras da Bahia (Salvador) e de Ilhéus.

A sessão especial de abertura acontece hoje, às 17h, com membros acadêmicos da Bahia e a presença do homenageado, pelo canal Zoom da ALB no Youtube.

Mais informações: www.academiadeletrasdabahia.org.br.


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ROSA DAQUELA ESQUINA – Ariston Caldas

 


          Quem é Rosa? “Rosa daquela esquina”. Ninguém sabia se era prenome, apelido ou nome verdadeiro. Todos sabiam, porém, que Rosa era um raio de gente, como dizia dona Merentina.

            Descalça pela rua, beiços untados de batom, short subindo pelas virilhas, gola despencada, andança pelas casas dos outros; doze anos e nas horas vagas namorava pelos becos, pela beira do rio. “Se dona Merentina souber, vai me engolir viva”. Pensava, às vezes, se esticando com Arnaldinho, o filho, 16 anos, meio-lerdo só de aparência; o que era mesmo, um sonso de verdade. Em pouco tempo um leva-e-traz soprou nos ouvidos de dona Merentina. O primeiro impacto dela seria quebrar a cara de rosa, “molequinha que nem se olha”. Dizia, ameaçando levar o fato ao conhecimento do marido, comerciante de conceito no lugar. 

            Ciente do fuxico, Rosa nem ficou com medo e chegou a amiudar as andanças pela rua de Arnaldinho. “Te parto a cara, tipinha!”. Rosa ficou de olho duro, risinho frio, cínica, espevitada, “vá merda, sinhá bruxa!”, respondeu já em disparada, cheia de deboche. E quando o pai dela soubesse da encrenca! Iria chiar na palmatória, puxada pelos cabelos. Bonifácio não era sopa. Pedreiro aformigado, mãos calosas pelo cabo da colher, cinzentas pela cal, pelo cimento. Se Rosa tivesse mãe, a vida seria menos dura, mesmo perdendo parte das vadiagens. Sozinha, cozinhava para Bonifácio, cosicava, enchia o pote, engomava, limpara os sapatos dele nos dias de culto evangélico, a fora outras lidanças, varrendo, lavando, comprando coisas pelas bodegas. Antes dos agarros com Arnaldinho, fazia muito piseiro pela casa da mãe dele, sumia corredor adentro, ia para a cozinha onde ficava fuxicando com uma empregada, cuidando da vida de todo mundo. Mas era dona de um predicado importante: bonita para ninguém dizer o contrário, de cara, de corpo, de pele. Isso deveria render-lhe a tolerância das pessoas, até de dona Merentina antes da encrenca com o filho. Pena que as mazelas fossem tantas, a começar pelo desleixo consigo mesma, descalça, roupa despencando, cabelo embaraçado com uma flor perdida no meio. Uma doidinha, como diziam pessoas da vizinhança. Verdade que, se Rosa não portasse tanta maluquice, nem ia chegar para os admiradores.

            Mas, como! Arnaldinho, agora, nos tampos dela, mesmo enfrentando as durezas da mãe que não dormia no ponto, pedante, crespa, quase violenta.

            Dona Merentina suspirou de alívio quando soube que Rosa andava de chamego com Zacarias, escurinho auxiliar do pai dela que, ciente do acontecimento, deu uns bolos de palmatória nela e dispensou o moleque do trabalho. De pronto, Arnaldinho fazia a renovação, para raiva e desgosto de sua mãe. Zacarias ficou triste, Rosa não saía de seu juízo, bonita, esperta, “um raio de gente”, agora, com a barriga crescendo, um filho de outro no bucho. Ciente do acontecido, dona Merentina assustou-se, entrou em choque. Recuperada, passou a idealizar coisas absurdas, como forçá-la a tomar uma droga para abortar; pediria a um médico um abortivo seguro e ameaçaria Rosa: “se não tomar, mando te matar!”. Voltava a lembrar de Bonifácio, temia providências dele levando o caso para Seu Borges, delegado de polícia, sujeito sisudo e justiceiro. De qualquer modo, Arnaldinho era caso perdido, havia traído os preceitos da família, misturando-se com quem não presta. Nem teria condição de preparar-se para o vestibular.

            Ciente do fato, o pai de Rosa ficou assustado, com medo, frustrado, sentindo-se inferior à família de Arnaldinho. Fez cálculos, acrescentou, deduziu e resolveu ir-se embora do lugar, carregando a filha. Dona Merentina viu a mudança, passou pelo outro lado da rua como quem não repara. Bonifácio, na carroceria de um caminhão com utensílios velhos e trouxas. Rosa, na cabine, cabelo voando, boca cheia de batom. “Um alívio”. Lembrou que pedira ajuda aos santos, com fé, agora era atendida. Compraria flores e velas, enfeitaria o altar da igrejinha, mandaria celebrar uma missa de ação de graças. Testemunhou o carro saindo até quando sumiu de vista, levando Rosa para as profundas. Não precisaria mais aporrinhar o marido, “homem frouxo, sem decisão”. Por que Arnaldinho não apareceu para o almoço?

            Numa curva da estrada, ele deu com uma mão e subiu para a cabine, sentando-se ao lado de Rosa.

            Dona Merentina não soube, até hoje, se a fuga dele foi tramada pelos três ou se Arnaldinho pegou a ponga, de cara dura. Certo é que ela ficou alucinada, falando aos conhecidos íntimos que estava sentindo vontade de se matar.

 

(LINHAS INTERCALADAS – 2ª EDIÇÃO)

Ariston Caldas


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quarta-feira, 9 de setembro de 2020

ACADEMIA DE LETRAS DE ITABUNA PUBLICA SUA REVISTA GURIATÃ/3

Clique sobre a foto, para vê-la no tamanho original


                                Academia de Letras de Itabuna

Publica Sua Revista Guriatã/ 3

 

Com o selo da Libri Editorial, de Brasília, a Academia de Letras de Itabuna acaba de publicar o número 3 da sua revista Guriatã na qual traz artigos e ensaios, poesia, ficção, textos diversos, discursos e registros, assinados  pelos acadêmicos integrantes do corpo de associados e por escritores convidados, além de  divulgar uma série de atividades literárias e culturais dos membros da instituição.


Segundo o editor da revista, escritor  e poeta Cyro de Mattos,[foto ao lado] que também é membro efetivo da Academia de Letras da Bahia,  no editorial “Revista como pássaro das letras e da cultura”,   como cidadela de resistência, arquitetada na palavra escrita, Guriatã vem pela terceira vez   com o seu canto para repercutir  em espaço de construção de conhecimento, permuta de experiências literárias, em especial  as que são produzidas  na região Sul da Bahia.

Segundo ele, “Guriatã comporta o pensamento e o sentimento como crença de que o veículo dessa natureza impresso ainda funciona no contexto dos tempos atuais, em que prevalece a imagem visual e/ou a linguagem internética movida pela rapidez e globalização do que transmite.”

A Academia de Letras de Itabuna (ALITA) é presidida atualmente pela professora  Silmara Oliveira. A revista apresenta dessa vez textos de Reheniglei Rehem, Heloísa Prazeres e Marcus Mota, doutores em Letras;  ensaio de Cyro de Mattos sobre romance de estreia de Dostoiewski;   poemas de Telmo Padilha, Valdelice Pinheiro, Walker Luna, Ruy Póvoas, Renato Prata e Ceres Marylise; contos de Aramis Ribeiro Costa, Lilia Gramacho e Gerana Damulakis;  crônicas de Raquel Rocha, João Otávio e  Ruy Espinheira Filho;  discursos de Sônia Maron e Silmara Oliveira, além de ampla  divulgação das atividades literárias e culturais dos membros da instituição. 


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terça-feira, 8 de setembro de 2020

SANTA CASA DE LORETO — A TRASLADAÇÃO ANGÉLICA

Afresco “Nascimento da Virgem” (entre 1486 e 1490), na Capela Tornabuoni da Igreja Santa Maria Novella (Florença). Obra o artista florentino Domenico Ghirlandaio (1449 – 1494).

Neste dia 8 de setembro celebramos o aniversário de Nossa Senhora — Sua Natividade na Santa Casa de Nazaré, que foi transladada milagrosamente para Loreto na Itália, no século XIII. Naquele sacrossanto recinto, Ela foi educada por seus veneráveis pais, Sant´Ana e São Joaquim, e ali também recebeu a Visitação do arcanjo São Gabriel, quando Lhe anunciou de que Ela fora escolhida para ser a Mãe de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo.

Há 100 anos, em 24 de março de 1920, o Papa Bento XV proclamou Nossa Senhora de Loreto Padroeira dos Aeronautas. Para comemorar esse centenário, iniciou-se em 8 de dezembro de 2019 um Jubileu Lauretano para os viajantes de avião, militares e civis, bem como para fiéis do mundo inteiro que visitarem a Santa Casa de Loreto (Itália). O Ano Santo, durante o qual se pode receber a indulgência plenária, se encerrará em 10 de dezembro de 2021.

O bispo de Loreto, Dom Fabio Dal Cin, lembrou que “a indulgência plenária de ano jubilar incentivará os fiéis que atravessarão a Porta Santa a pedir o dom da conversão a Deus e a reviver sua devoção filial Àquele que nos protege nas viagens aéreas”.

Quase concomitantemente com o anúncio do Jubileu, a Congregação para o Culto Divino introduziu em 7 de outubro de 2019 a Memória facultativa de Nossa Senhora de Loreto no Calendário Romano Geral, a ser celebrada em 10 de dezembro. Mas omitiu-se totalmente qualquer referência à trasladação milagrosa da Santa Casa; e também não se enfatizou que, ao longo dos séculos, precisamente esse fato miraculoso está no cerne da veneração dos fiéis. Formulações assim, insuficientes, ambíguas ou contraditórias, infelizmente tornaram-se típicas em muitos membros da Hierarquia católica nas últimas décadas.

Note-se também que Nossa Senhora de Loreto foi declarada Padroeira dos Aeronautas, mas esta é uma profissão que nem sequer existia quando se deu a trasladação da Santa Casa de Loreto (de 1291 a 1296, em várias etapas – Ver adiante). Vincula-se a escolha desse título de padroeira a um reconhecimento tácito da trasladação aérea miraculosa por meio dos anjos, pois não se justificaria se ela tivesse sido trasladada por via marítima, graças à perícia de homens do mar. Além disso, a liturgia secular sempre celebrou a trasladação das paredes, e não da imagem de Nossa Senhora venerada em Loreto. Os textos escolhidos para a missa e o decreto do culto divino ignoram todos esses aspectos milagrosos.



Trasladação da casa de Maria para Loreto – Anônimo, 

primeira metade do séc. XVI.


Histórico comprovado das trasladações

Basílica da Anunciação, em Nazaré, lugar onde originalmente se encontrava a casa da Sagrada Família

            Entre 9 e 10 de maio de 1291, quando se aproximava o fim da presença dos cruzados na Terra Santa, um acontecimento extraordinário ocorreu em Nazaré, na Palestina. Naquela noite desapareceu da Basílica da Anunciação uma preciosa relíquia, guardada ali durante séculos: a Santa Casa onde residira Nossa Senhora. Nela a Virgem Santíssima recebera o anúncio do arcanjo Gabriel e dera o seu consentimento (Fiat). O Verbo então se fez carne, iniciando-se assim a Redenção da humanidade.

            Quem fosse àquele vilarejo da Galiléia a partir de 10 de maio de 1291 não encontraria mais as três paredes que compunham o lar da Sagrada Família, ali presentes até o dia anterior. Eram apenas três paredes, porque a quarta correspondia ao fundo representado por uma pedreira, num tipo de construção comum na Palestina. As paredes reapareceram na manhã do mesmo dia na floresta de Tersatto (hoje um distrito da cidade de Rijeka, na Croácia).

            A partir de então, durante exatamente três anos, a famosa relíquia se tornou um destino de peregrinações e devoção. Na noite entre 9 e 10 de dezembro de 1294, a Santa Casa desapareceu milagrosamente de Tersatto, do mesmo modo como ali chegara. As três paredes, marcadas pela presença da Sagrada Família, chegaram depois à Itália na região das Marcas, território pertencente aos Estados Pontifícios.

            Historicamente, antes de chegar aonde é hoje venerada, sua presença foi confirmada em três lugares: em Ancona (na localidade de Posatora) e em Loreto, primeiro na planície (atual local de Banderuola); depois no campo de propriedade de dois irmãos (em frente ao atual santuário); e finalmente, em dezembro de 1296, instalou-se onde se encontra hoje. Segundo a tradição, imortalizada em inúmeras pinturas e esculturas, todas as trasladações mencionadas ocorreram milagrosamente pela ação de anjos.

            Ninguém no mundo católico duvida de que se encontra em Loreto a Santa Casa de Nazaré. No entanto, há algumas décadas sua trasladação angélica foi infelizmente reduzida a uma mera lenda, difundida assim por eclesiásticos que se obstinam em seguir os passos maliciosos de protestantes, iluministas e modernistas.

            Seria crível o transporte das paredes sagradas ter ocorrido por meio de homens? Como explicar tanta troca de lugares? Muito estranho também seria operações assim, de si complexíssimas, não terem sido planejadas, executadas nem documentadas de nenhuma forma por ninguém. Teria sido tecnicamente possível enviar por navio, tantas vezes, pedras que depois se reorganizariam de modo perfeito? Por que colocar a Santa Casa numa via pública, sendo que a lei local proibia ali qualquer construção, sob pena de prisão?

            O arquiteto Federico Mannucci, em um documento de 1923, afirmou: “É absurdo pensar que a casa poderia ter sido transportada por meios mecânicos […]. O que é surpreendente e extraordinário é o edifício da Santa Casa permanecer inalterado, sem a menor sustentação e sem o menor dano às paredes; pois não possui fundação e está localizado em terreno sem consistência, dissolvido e sobrecarregado, ainda que parcialmente, com o peso da abóbada construída no lugar do telhado”. O arquiteto Giuseppe Sacconi afirmou que “a Casa Santa é parcialmente apoiada no final de uma estrada antiga e parcialmente suspensa acima da vala adjacente”, razão pela qual não pode ter sido construída ou reconstruída como está, no local onde se encontra.


Interior da Santa Casa de Loreto [Foto: Michael Gorre].

A tradição sustentada pela construção

            Outro elemento comprobatório provém da técnica de construção. A argamassa com a qual as pedras em Loreto são ligadas vem da Palestina na época de Jesus. Como compatibilizar esta evidência com uma reconstrução posterior a um eventual transporte por navio? Como seria possível também, após muitas mudanças e várias reconstruções, não ser alterada a geometria perfeita da Santa Casa, que combina inteiramente com as dimensões das fundações deixadas em Nazaré?

            O transporte humano da Santa Casa é uma mera hipótese, sem nenhuma prova, e serve apenas para minar a fé do peregrino, contradizendo séculos de estudos e demonstrações, além de numerosos pronunciamentos pontifícios e testemunhos de santos. Como geralmente acontece, a tradição da Igreja é muito mais confiável e “científica” do que a suposta modernidade dos progressistas católicos.

Baluarte na luta contra o islã e lugar de milagres


Nossa Senhora e o Menino na Santa Casa de Loreto, anônimo, séc. XVII

            Para conhecer com mais profundidade sobre a “questão lauretana”, recomendamos a leitura do livro O milagre da Santa Casa de Loreto, escrito pelo jornalista italiano Federico Catani(lançado recentemente em português pela Ambientes & Costumes Editora, São Paulo). A obra se destaca por seu rigor histórico sólido e convincente, tanto quanto pela riqueza do material iconográfico. É um excelente guia para quem, neste ano do Jubileu Lauretano, deseje conhecer melhor aquelas paredes onde a Virgem Mãe de Deus foi concebida imaculada e recebeu o anúncio do arcanjo Gabriel.

            O livro não apenas comprova a veracidade histórica das trasladações milagrosas da Santa Casa, como trata de toda a história do Santuário de Loreto e de seu papel essencial na história do cristianismo universal e na defesa da Europa; por exemplo, dos papas e dos generais que se voltaram para Nossa Senhora de Loreto antes de travar as batalhas mais decisivas da Cristandade contra o Islã: a de Lepanto (1571) e a de Viena (1683).

            Centenas de homens ilustres — reis, rainhas, santos, homens de letras, filósofos e músicos — foram como peregrinos a Loreto, onde milagres extraordinários de cura e conversão ocorreram e ainda ocorrem.

            Foi entre aquelas paredes que São Luís Maria Grignion de Montfort teve a inspiração para escrever seu Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. De fato, que lugar haveria mais adequado para fazer a escolha de viver o cativeiro de amor por Nossa Senhora? Assim como Nosso Senhor, encarnado no ventre de Maria Santíssima, se tornou completamente dependente dela, também os católicos que fazem a consagração pregada por esse santo vandeano se entregam totalmente à Mãe de Deus.


Santuário da Santa Casa de Loreto, Itália.

Princípios não negociáveis         

Nas páginas finais do livro, o autor afirma que a Santa Casa pode e deve ser vista pelos fiéis do terceiro milênio como o Santuário dos princípios não negociáveis, e também como ponto de referência para os desafios que nos aguardam no futuro próximo. Em Loreto, portanto, é possível encontrar a energia espiritual para combater, com especial vigor nestes tempos calamitosos, o bom combate em defesa de princípios inegociáveis: a sacralidade da vida inocente desde a concepção até a morte natural; a verdade antropológica do homem e da família; a intangibilidade do casamento como uma união fecunda sacramental e indissolúvel entre o homem e a mulher; e o direito prioritário dos pais de educar seus filhos.



 

https://www.abim.inf.br/santa-casa-de-loreto-a-trasladacao-angelica/

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FINALMENTE SÓS – Marília Benício dos Santos

 



Finalmente Sós

Marília Benício dos Santos


          Hoje amanheci sedenta de Deus. Vou à missa. Voltar à fonte, pensei. “Estou descuidando-me dessa prática”. Não tinha participando das missas durante a semana.  E parti para a igreja. Fui pela praia, preparando-me para o encontro com Jesus, na Eucaristia. Chego finalmente à igreja. Na porta leio os horários das missas. Que pena, hoje só haverá missa à tarde. Mas resolvi entrar para uma oração mais profunda. Gosto de ficar bem perto do Sacrário. Encaminho-me para lá. Havia um grupo de senhoras rezando o terço. O primeiro impulso foi de irritação, mas logo reagi e acompanhei o terço com aquelas Senhoras; foi bom. Agradeci a Deus. Há quanto tempo não rezava o terço em conjunto. Assim que acabou o terço, uma das senhores iniciou a Ladainha de Nossa Senhora. Passivamente respondia às invocações: “Rogai por Nós!”. Após a ladainha, outra senhora iniciou algumas orações; eu, pacientemente, acompanhei. Em seguida outra começou a distribuir Ave-Marias: pela conversão dos pecadores, por uma amiga que estava doente, por um padre que ia viajar, etc., etc.

            Depois dos cumprimentos, das despedidas, aquele grupo saiu da igreja. “Finalmente sós”, eu e meu Deus. E comecei a refletir sobre a Trindade. Esse Triangulo de Amor: Pai, Filho e Espírito Santo, a distribuir dentro de mim muita paz. O Pai, que criou o mundo para mim, pensando em mim, para que eu pudesse ser feliz e, muito unida a Ele, distribuir esta felicidade pelos meus irmãos. O Filho, aquele que o Pai, num extravasamento de amor, entregou aos homens, e estes não O aceitaram e O crucificaram. Assim Jesus se entrega, numa doação total, por mim e por toda a humanidade. E, como consequência do amor do Pai e do Filho, surge o Espírito Santo. Esse Espírito Santo que o Cristo nos deixou como herança. “No entanto, eu vos digo a verdade: é de vosso interesse que eu parta, pois, se eu não for, o Paráclito não virá a vós. Quando eu for, enviá-lo-ei a vós” (Jo 16,7). O Espírito Santo que me inspira nos momentos difíceis e que está sempre a derramar os seus dons. Como é bom refletir sobre estas Verdades! E estava a gozar um pouco dessa tranquilidade que o Triangulo do Amor derramava sobre mim...

            - Vamos rezar um terço pela conversão dos pecadores.

             “Meu Deus, perdoa-me, mas realmente não tenho condição de acompanhar estas minhas irmãs. Foste Tu mesmo que disseste ‘não quero sacrifício, mas a misericórdia’. Tchau, meu Deus. Tchau não, porque irás comigo”.

            E lá me fui rumo à praia, olhar o mar. O mar parece que se encontra com o céu. Mas isso só acontece na minha fantasia; porque o mar nunca se encontra com o céu. O mar, apesar de toda sua grandiosidade não pode encontrar-se com Deus, - ele não é capaz de amar. Eu, sim, apesar de toda a minha pequenez, posso encontrar-me com Deus, porque amo. Só o amor encurta as distâncias.

 

(ARCO-ÍRIS)

Marília Benício dos Santos

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Marília Benício dos Santos, Itabuna BA - *10/10/1920   +24/05/2014


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domingo, 6 de setembro de 2020

A SENHORA DO GALVÃO – Machado de Assis


           
 Começaram a rosnar dos amores deste advogado com a viúva do brigadeiro, quando eles não tinham ainda passado dos primeiros obséquios. Assim se fazem algumas reputações más, e, o que parece absurdo, algumas boas. Com efeito, há vidas que só têm prólogo; mas toda gente fala do livro que se lhe segue, e o autor morre com as folhas em branco. No presente caso, as folhas escreveram-se, formando todas um grosso volume de trezentas páginas compactas, sem contar as notas. Estas foram postas no fim, não para esclarecer, mas para recordar os capítulos passados; tal é o método nesses livros de colaboração. Mas a verdade é que eles apenas combinavam no plano, quando a mulher do advogado recebeu este bilhete anônimo:

            “Não é possível que a senhora se deixasse embair mais tempo, tão escandalosamente, por uma de suas amigas, que se consola da viuvez, seduzindo os maridos alheios, quando bastava conservar os cachos...” 

            Que cachos? Maria Olympia não perguntou que cachos eram; da viúva do Brigadeiro, que os trazia por gosto e não por moda. Creio que isto se passou em 1853. Maria Olympia leu e releu o bilhete; afinal, meteu-o no vestido e encarou a mucama, que esperava por ela e que lhe perguntou:

            - Nhanhã não quer mais ver o chale?

            Maria Olympia pegou no chale que a mucama lhe dava e foi pô-lo aos ombros, defronte do espelho. Achou que lhe ficava bem, muito melhor que à viúva. Cotejou suas graças com as da outra. Enquanto fazia essas reflexões, ia compondo pregando e despregando o chale.

          - Este parece melhor que o outro, aventurou a mucama.

           - Não sei... disse a senhora, chegando mais para a janela, com os dois nas mãos.

           - Bota o outro, nhanhã.

            A nhanhã obedeceu. Experimentou cinco chales dos dez que ali estavam, em caixas, vindos de uma loja da rua da Ajuda. Concluiu que os dois primeiros eram os melhores; a questão era saber qual dos dois escolheria, uma vez que o marido, recente advogado, pedia-lhe que fosse econômica. Contemplava-os alternadamente, e ora preferia um, ora outro. De repente, lembrou-se da aleivosia do marido, a necessidade de mortificá-lo, castigá-lo, mostrar-lhe que não era peteca de ninguém, nem maltrapilha; e, de raiva, comprou os dois chales.

          Ao bater das quatro horas (era a hora do marido), nada de marido. Nem às quatro e meia. Maria Olympia imaginava uma porção de coisas aborrecidas, ia à janela, tornava a entrar, temia um desastre ou doença repentina, pensou também, que fosse uma sessão de júri. Cinco horas, e nada. Os cachos da viúva também negrejavam diante dela, entre a doença e o júri com uns tons de azul-ferrete, que era provavelmente a cor do diabo. Realmente era para exaurir a paciência de uma moça de vinte e seis anos. Vinte e seis anos; não tinha mais. Era filha de um deputado do tempo da Regência, que a deixou menina; e foi uma tia que a educou com muita distinção. A tia não a levou muito cedo a bailes e espetáculos. Era religiosa, conduziu-a primeiro à igreja. Maria Olympia tinha a vocação da vida exterior, e, nas procissões e missas cantadas, gostava principalmente do rumor, da pompa. Magra devoção, que escasseou ainda mais com o primeiro espetáculo e o primeiro baile. Não alcançou a Candiani, mas ouviu a Ida Edelvira, dançou à larga e ganhou fama de elegante.

            Eram cinco horas e meia, quando o Galvão chegou. Maria Olympia, que então passeava na sala, tão depressa se lhe ouviu os pés, fez o que faria qualquer outra senhora na mesma situação: pegou um jornal de modas e sentou-se, lendo, com um grande ar de pouco caso. Galvão entrou ofegante, risonho, cheio de carinhos, perguntando-lhe se estava zangada, e jurando que tinha um motivo para a demora, um motivo que ela havia de agradecer, se soubesse...

            - Não é preciso, interrompeu ela friamente.

            Levantou-se; foram jantar. Falaram pouco; ela menos que ele, mas em todo o caso sem parecer magoada. Pode ser que entrasse a duvidar da carta anônima; pode ser também que os dois chales lhe pesassem na consciência. No fim do jantar, Galvão explicou a demora; tinha ido, a pé, ao teatro provisório comprar camarote para esta noite: davam os Lombardos. De lá, na volta, foi encomendar um carro...

            - Os Lombardos? Interrompeu Maria Olympia.

            - Sim, canta a Leboceta, canta a Jacobson, há bailado. Você nunca viu os Lombardos?

            - Nunca.

            - E aí está porque me demorei. Que é que você merecia agora? Merecia que eu lhe cortasse a ponta desse narizinho arrebitado...

            Como ele acompanhasse o dito com um gesto, ela recuou a cabeça; depois acabou de tomar o café. Tenhamos pena da alma dessa moça. Os primeiros acordes dos Lombardos ecoavam nela, enquanto a carta anônima lhe trazia uma nota lúgubre, espécie de “Réquiem”. E por que é que a carta não seria uma calúnia? Naturalmente não era outra coisa: alguma invenção de inimigos, ou para afligi-la, ou para fazê-los brigar. Era isto mesmo. Entretanto, uma vez que estava avisada, não os perderia de vista. Aqui acudiu-lhe uma ideia: consultou o marido se poderia convidar a viúva.

            - Não, respondeu ele; o carro só tem dois lugares e eu não hei de ir na boleia.

            Maria Olympia sorriu de contente, e levantou-se. Há muito tempo que tinha vontade de ouvir os Lombardos. Vamos aos Lombardos! Trá, lá, lá, lá... Meia hora depois foi vestir-se. Galvão, quando a viu pronta daí a pouco, ficou encantado. Minha mulher é linda, pensou ele; e fez um gesto para estreitá-la ao peito; mas a mulher recuou, pedindo-lhe que não a amarrotasse. E, como ele, por umas veleidades de camareiro, pretendeu consertar-lhe a pluma do cabelo, ela disse-lhe enfastiada:

            - Deixa, Eduardo! Já veio o carro? 

            Entraram no carro e seguiram para o teatro. Quem é que estava no camarote contíguo ao deles? Justamente a viúva e a mãe; esta coincidência, filha do acaso, podia fazer crer algum ajusta prévio. Maria Olympia chegou a suspeitá-lo, mas a sensação da entrada não lhe deu tempo de examinar a suspeita. Toda a sala voltara-se para vê-la, e ela, bebeu a tragos demorados, o leite da admiração pública. Demais, o marido, teve a inspiração maquiavélica de lhe dizer ao ouvido: “Antes a mandasses convidar; ficava-nos devendo o favor”. Qualquer suspeita cairia diante desta palavra. Contudo, ela cuidou de não os perder de vista.

            Juntas saíram do camarote, no fim e atravessaram os corredores. A modéstia com que a viúva trajava podia realçar a magnificência da amiga.

            Uma semana depois, recebeu Maria Olympia outra carta anônima. Era mais longa e explícita. Vieram outras, uma por semana durante três meses. Maria Olympia leu as primeiras com algum aborrecimento; as seguintes foram calejando a sensibilidade. Não havia dúvida que o marido demorava-se fora, muitas vezes, ao contrário do que fazia dantes, ou saía à noite e regressava tarde, mas, segundo dizia, gastava o tempo no Wallerstein ou no Bernardo, em palestras políticas. E isto era verdade, uma verdade de cinco a dez minutos, o tempo necessário para recolher alguma anedota ou novidade, que pudesse repetir em casa, à laia de documento. Dali seguia para o Largo São Francisco e metia-se no ônibus.

            Tudo era verdade. E, contudo, ela continuava a não crer nas cartas. Ultimamente, não se dava mais ao trabalho de a refutar consigo; lia-as de uma só vez e rasgava-as. Com o tempo foram surgindo alguns indícios menos vagos, pouco a pouco, ao modo de aparecimento da terra aos navegantes. Mas este Colombo teimava não crer na América. Negava o que via; não podendo negá-lo, interpretava-o; depois recordava algum caso de alucinação, uma anedota de aparência ilusória, e nesse travesseiro cômodo e mole punha a cabeça e dormia. Já então, prosperando-lhe o escritório, dava o Galvão partidas e jantares, iam a bailes, teatros, corridas de cavalos. Maria Olympia vivia alegre, radiante; começava a ser um dos nomes da moda. E andava muita vez com a viúva, a despeito das cartas, a tal ponto que uma destas lhe dizia: “Parece que é melhor não escrever mais, uma vez que a senhora se regala numa comborçaria de mau gosto.” Que era comborçaria? Maria Olympia quis perguntá-lo ao marido, mas esqueceu o termo, e não pensou mais nisso. 

            Entretanto, constou ao marido que a mulher recebia cartas pelo correio. Cartas de quem? Esta notícia foi um golpe duro e inesperado. Galvão examinou de memória as pessoas que lhe frequentavam a casa, as que podiam encontrá-la em teatros ou bailes e achou muitas figuras verossímeis. Em verdade, não lhe faltavam adoradores.

            - Cartas de quem? Repetia ele mordendo o beiço e franzindo a testa.

            Durante sete dias passou uma vida inquieta e aborrecida, espiando a mulher e gastando em casa grande parte do tempo. No oitavo dia, veio uma carta.

            - Para mim? Disse ele vivamente.

            - Não; é para mim, respondeu Maria Olympia, lendo o sobrescrito; parece letra de Mariana ou de Lulu Fontoura.

            Não queria lê-la, mas o marido disse que a lesse; podia ser alguma notícia grave. Maria Olympia leu a carta e dobrou-a , sorrindo; ia guardá-la, quando o marido desejou ver o que era.

            - Você sorriu, disse ele gracejando; há de ser algum epigrama comigo.

            - Qual! É um negócio de moldes.

            - Me deixa ver.

            - Para que, Eduardo?

            - Que tem? Você não quer mostrar, por algum motivo há de ser. Dê cá.

            Já não sorria, tinha a voz trêmula. Ela ainda recusou a carta, uma, duas, três vezes. Teve mesmo ideia de rasgá-la, mas era pior, e não conseguiria fazê-lo até o fim. Realmente, era uma situação original. Quando ela viu que não tinha remédio, determinou ceder. Que melhor ocasião para ler no rosto dele a expressão da verdade? A carta era das mais explícitas: falava da viúva em termos crus. Maria Olympia entregou-lha.

            - Não queria mostrar esta, disse-lhe ela primeiro, como não mostrei outras que tenha recebido e botado fora; são tolices, intrigas, que andam fazendo para... Leia, leia a carta.

            Galvão abriu a carta e deitou-lhe os olhos ávidos. Ela enterrou a cabeça na cintura, para ver de perto a franja do vestido. Não o viu empalidecer. Quando ele, depois de alguns minutos, proferiu duas ou três palavras, já tinha a fisionomia composta e um esboço de sorriso. Mas a mulher, que o não adivinhava, respondeu ainda de cabeça baixa; só a levantou daí a três ou quatro minutos, e não para fitá-lo de uma vez, mas aos pedaços, como se temesse descobrir-lhe nos olhos a confirmação do anônimo. Vendo-lhe, ao contrário, um sorriso, achou que era o da inocência, e falou de outra coisa.

            Redobraram as cautelas do marido; parece também que  ele não pôde esquivar-se a um tal ou qual sentimento de admiração para com a mulher. Pela sua parte, a viúva, tendo notícia das cartas, sentiu-se envergonhada; mas reagiu depressa, e requintou de maneiras afetuosas com a amiga.

            Na segunda ou terceira semana de agosto, Galvão fez-se sócio do Cassino Fluminense. Era um dos sonhos da mulher. A seis de setembro, fazia anos a viúva, como sabemos. Na véspera, foi Maria Olympia (com a tia que chegara de fora), comprar-lhe um mimo: era uso entre elas. Comprou-lhe um anel. Viu na mesma casa uma joia engraçada, uma meia lua de diamantes para o cabelo, emblema de Diana, que lhe iria muito bem sobre a testa. De Maomé, que fosse; todo emblema de diamantes é cristão. Maria Olympia pensou naturalmente na primeira noite do Cassino; e a tia, vendo-lhe o desejo, quis comprar a joia, mas era tarde, estava vendida.

            Veio a noite do baile. Maria Olympia subiu comovida as escadas do Cassino. Pessoas que a conheciam naquele tempo, dizem que o que ela achava na vida exterior, era a sensação de uma grande carícia pública, à distância; era a sua maneira de ser amada. Entrando no Cassino, ia recolher nova cópia de admirações e não se enganou, porque elas vieram, e de fina casta.

            Foi pelas dez horas e meia que a viúva ali apareceu. Estava realmente bela, trajada a primor, tendo na cabeça a meia lua de diamantes. Ficava-lhe bem o diabo da joia, com as duas pontas para cima, emergindo do cabelo negro. Toda a gente admirou sempre a viúva naquele salão. Tinha muitas amigas, mais ou menos íntimas, não poucos adoradores, e possuía um gênero de espírito que espertava com as grandes luzes. Certo secretário da ligação não cessava de recomendar aos diplomatas novos: “Causez avec Mme. Tavares, c’est adorable!” Assim era nas noites; assim foi nesta.

            - Hoje quase não tenho tido tempo de estar com você, disse ela a Maria Olympia lá para meia-noite.

            - Naturalmente, disse a outra abrindo e fechando o leque; e, depois de umedecer os lábios, como para chamar a eles todo o veneno que tinha no coração: - Ypiranga, você está hoje uma viúva deliciosa... Vem seduzir mais algum marido?

            A viúva empalideceu, e não pôde dizer nada. Maria Olympia acrescentou, com os olhos, alguma coisa que a humilhasse bem, que lhe respingasse lama no triunfo. Já no resto da noite falaram pouco; três dias depois, romperam para nunca mais.

            

(CONTOS DE ALCOVA)

Compilados por Ives Idílio

           

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MACHADO DE ASSIS

 Machado de Assis, nascido no Rio de Janeiro em 1839, representa nesta antologia, a literatura brasileira. 

Ninguém melhor do que o autor de “Dom Casmurro”, reúne credenciais para comparecer a este cortejo de autores de diferentes países e de épocas diversas.

O genial romancista Brasileiro, que começa a prender a atenção dos leitores e críticos de todo o mundo, embora faça viver seus personagens em cenário autenticamente nacional, consegue ultrapassar as barreiras da língua, graças ao acento de universalidade que lhe aureola a obra.

Dedicado também ao conto, gênero dos mais difíceis, consegue escrevê-lo com facilidade, sem desprestigiar uma só de suas qualidades, superando os obstáculos naturais que a brevidade impõe.

“A Senhora do Galvão”, amostra brilhante de sutileza, é o endosso convincente de nossas palavras a respeito da obra do maior de nossos escritores.

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