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quinta-feira, 13 de agosto de 2020

O SOFRIDO LÍBANO - José Sarney

O Maranhão tem uma certa ligação com o Líbano. É difícil encontrar uma família maranhense que com ele, de maneira direta ou indireta, não possua uma ligação de sangue, sentimental ou de amizade. Sírios e libaneses de vários credos religiosos buscaram para seus caminhos de imigração o Norte do Brasil. Aqui no Maranhão essa presença se tornou tão forte que muitos sírio-libaneses assumiram posições de liderança na política, no comércio, nas entidades de classe, com grande expressão.

Essa influência e miscigenação se tornou tão arraigada que chegou até a incorporar-se aos costumes e à culinária. Eu sempre digo que o Maranhão tem várias culinárias: a culinária da Costa, dos peixes e frutos do mar; a culinária portuguesa tradicional, que não abandonamos, de cozidões, tortas, caldeiradas; a do sertão, de carne de sol, maria isabel, pirão de leite etc; a libanesa de quibes, esfirras, quibe labanie; e a maranhense mesma, mistura da africana e da indígena com um toque libanês, de onde saiu o divino arroz de cuxá.

Antônio Dino, grande médico e alma boa, que foi meu Vice-Governador, me contou uma parte dessa saga da imigração libanesa dizendo que no início do século XX alguns refugiados políticos, seus ancestrais e muitos outros, vieram para o Maranhão, principalmente para o interior. Não guardei todo o relato, o que lamento, e faço uma sugestão para alguma tese acadêmica levantando essa história, que faz parte da nossa.

Eu mesmo tenho dentro de casa muitos Murad e Duailibe, genros e netos.

Quando o meu romance O Dono do Mar foi traduzido para o árabe, fui a Beirute para seu lançamento. A cidade tinha saído da guerra civil e estava toda destruída. O Rafik Hariri — que seis anos depois foi morto pela explosão de um carro bomba na hora em que passava seu comboio — era um grande político, fizera o Acordo de Faët acabando com 15 anos de guerra-civil, estava reconstruindo Beirute. Com ele e sua irmã construí mesmo uma relação de amizade. Tenho um serviço de jantar que foi ofertado por ele.

O Líbano tem uma história sofrida. Sua localização, espremido com fronteira do Israel, Síria e Chipre (pelo mar), o torna alvo de permanente agressão e envolvimento no caldeirão do Oriente Médio, tendo como centro a milenar luta de judeus e palestinos.

A tragédia que vive o Líbano com a gigantesca explosão e a destruição do seu porto e da cidade soma-se à crise econômica e política. Naquela época se assinalava a presença de 500 mil palestinos nos campos de refugiados, comandados pelo Hezbollah, que desequilibrava a divisão de poderes formada no pacto de independência, dividindo o poder dos xiitas com a milícia Amal. Com a guerra da Síria mais 1,5 milhões de refugiados entraram no país, que tinha 4,5 milhões. A insatisfação vem de toda parte. O filho de Hariri tentou recentemente substituir o pai e foi expulso pelos protestos de rua que exigem “fora todos os políticos”. A tragédia maior é um país essencialmente multicultural tornar-se inviável pela violência de seus vizinhos e pela incapacidade em exercer seu talento para a convivência.

Sofremos com o Líbano e somos solidários com o seu povo e nos juntamos àqueles que no mundo inteiro tem o dever de ajudá-los a ressurgir das cinzas.

 

O Estado do Maranhão, 08/08/2020

 

https://www.academia.org.br/artigos/o-sofrido-libano

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José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38 da ABL, eleito em 17 de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6 de novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.


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DE NOVO A OPÇÃO PREFERENCIAL PELA EXCLUSÃO - Péricles Capanema

13 de agosto de 2020

Péricles Capanema

 

A jornalista Mônica Bergamo divulgou na “Folha de São Paulo” (26 de julho) “carta ao povo de Deus”, manifesto assinado por 152 bispos (em boa parte, resignatários), que deveria ter sido dado à publicidade quatro dias antes, a 22 de julho. Pelo que afirma a colunista, os signatários queriam, antes de propagá-la, esperar a opinião da Comissão Permanente da CNBB, cuja reunião para análise do texto ocorrerá proximamente. E temiam que a chamada “ala conservadora” da CNBB impedisse sua divulgação.

Tem sólidos fundamentos o temor do choque em setores conservadores. E não só da CNBB, em qualquer lugar, pois é traumático o conteúdo; trata-se de lídimo libelo petista, poderia ser assumido pela Comissão Executiva Nacional do PT.

De fato, na 2ª feira, 27 de julho, em nota a CNBB se distanciou (pelo menos, por enquanto) da mencionada tomada de posição, dizendo que “nada tem a ver” com ela, que é “responsabilidade dos signatários”. Teria então havido um vazamento para impedir o engavetamento do texto. Aqui não se trata de apoio ao governo Bolsonaro. É normal a oposição, cumpre papel necessário, terá justificativas que devem ser ponderadas.

O chocante no caso é a assunção da linguagem e das bandeiras da esquerda, mesmo a mais extremada, o apelo a um trabalho coordenado, cujo êxito colocará o Brasil em situação próxima à da Venezuela ou Cuba, retrocesso cruel para todos, em especial para os pobres.

Desde décadas, tem sido excluída a maioria silenciosa dos católicos. 

Existem cerca de 500 bispos atuando no Brasil, pouco mais de 300 efetivos, pouco menos de 200 resignatários. Dos 152 subscritores, repito, parte importante é resignatária. O fato tem sua importância. Convém recordar, o bispo emérito não tem obrigações de pastorear diocese, está mais distante dos fiéis e do Clero, sente-se assim mais livre para agir segundo suas preferências ronceiras; no caso, a militância esquerdista, que por razões prudenciais preferiria esconder quando à frente de dioceses. Ali, precisariam pelo menos fingir levar em conta o clamor da maioria silenciosa e silenciada do povo; recordando linguagem bíblica, não poderiam atirar uma pedra para filhos que pedem pão, nem podem arrojar uma serpente ao escutá-los pedindo peixe.

Com efeito, observando a orfandade em que se encontra desde décadas a imensa maioria do laicato católico, excluída de forma intolerante pela opção preferencial pela esquerda levada a cabo por parte dos pastores, é normal se lembrar de passagens bíblicas atinentes. “Tenho visto atentamente a aflição do meu povo, que está no Egito, e tenho ouvido o seu clamor” (Ex 3, 7). “E qual o pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, também, se lhe pedir peixe, lhe dará por peixe uma serpente?” (Lc 11, 11). Para os aflitos, a política habitual tem sido pedras e serpentes. O manifesto em análise constitui, dói dizê-lo, mais um dos episódios lacerantes do misterioso processo de autodemolição da Igreja, em que tantas vezes o pastor espanca a ovelha indefesa, abre as portas do redil e saúda alegremente o lobo que avança.

Radicalização da exclusão. Mais um ponto a ter em vista. Os 152 signatários podem estar redondamente iludidos a respeito da real influência que seu demolidor libelo terá na opinião nacional, em especial na católica. Na prática, vai demolir pouca coisa, se tanto. O brasileiro é pacato, abomina agitações e dilacerações. E o intolerante texto as instiga. Imaginarão que sua condição de bispos da Igreja Católica dá à sua voz eco que no caso não existe? Na prática, incomodado com a ácida linguagem revolucionária, o laicato majoritariamente fechará os ouvidos à mensagem.

Outro aspecto importante. Nosso Senhor no Evangelho ensinou: “As minhas ovelhas conhecem a minha voz (Jo 10, 27). O sensus fidei faz com que o católico conheça o timbre da voz do bom pastor. Quando é estranho o timbre, dele se afasta. Em resumo, o palavrório amazônico terá repercussão escassa. Os católicos, em geral desgostosos com o disparatado do texto, sentir-se-ão ainda mais excluídos.

Outra maioria silenciosa. 

Certamente bem mais que 152 bispos foram sondados para darem seu apoio ao texto intoxicado por um esquerdismo primário e descabelado. Recusaram. Temos aqui uma maioria silenciosa, um pouco menos de 350 — destes, quantos foram sondados, não tenho como saber —, que pelas mais variadas razões, inclusive desconhecimento, imagino, abstiveram-se. Preferiram guardar distância do texto revolucionário. Isolaram-se assim dos 152 signatários, tangidos pelo vezo incoercível de se juntar às reinvindicações da esquerda, mesmo as mais radicalizadas.

Em 1976, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira publicou livro de grande repercussão “A Igreja ante a escalada da ameaça comunista — Apelo aos bispos silenciosos”. O trabalho continha o pedido para que os então bispos silenciosos, maioria clara, tomassem a frente do palco, tirando o protagonismo quase monopolístico dos bispos de esquerda.

Agora, também, a maioria está silenciosa. Dizia ele na ocasião: “Importa, com efeito, não ver em tal silêncio apenas a posição cômoda de quem está longe da luta. Mas também o desapego e a retidão que evitam obstinadamente a complacência ativa com o mal. […] Nas mãos dos silenciosos, pôs Deus todos os meios que ainda podem remediar a situação: são eles numerosos, dispõem de posições, de prestígio e de cargos. Atuem. Nós lhes imploramos. Falem, ensinem, lutem”. Estamos hoje em situação parecida. Os excluídos na Igreja, ansiando por inclusão e compreensão, hoje não pedem outra coisaa seus pastores. Não aprofundem ainda mais as valas da exclusão.

Apelo à união da esquerda em torno de programa demolidor. 

O libelo dos 152 está na rede e na imprensa escrita. Dele extraio trechos de maior significado. Ponto central, recusa qualquer complacência com o governo: “É dever […] posicionar-se claramente. […] A narrativa que propõe a complacência frente aos desmandos do Governo Federal, não justifica a inércia e a omissão”. Aos que não têm nenhuma complacência (os sem complacência) com o governo, a proposta: “O momento é de unidade. […] Por isso, propomos um amplo diálogo nacional”. A finalidade de tal frente popular salta do texto apaixonado: “As reformas trabalhista e previdenciária mostraram-se como armadilhas. […] É insustentável uma economia que insiste no neoliberalismo. […] uma ‘economia que mata’. […] O desprezo pela educação, cultura, saúde e diplomacia também nos estarrece. […] Demonstrações de raiva pela educação pública. […] escolha da educação como inimiga. […] No plano econômico, o ministro da economia […] privilegiando apenas grandes grupos […] grupos financeiros que nada produzem. […] O governo federal demonstra rechaço pelos mais pobres e vulneráveis. […] Este tempo não é para divisões”.

Esperemos que a CNBB recuse seu apoio a um texto favorecedor de retrocessos e exclusões. E que, enfim, para o bem do Brasil, falem os silenciosos do Episcopado.

 

http://www.abim.inf.br/de-novo-a-opcao-preferencial-pela-exclusao/ 

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quarta-feira, 12 de agosto de 2020

A DESCONHECIDA – Mariano Latorre

 

           O montanhês, um homenzarrão talhado a fio de machado em velhas madeiras indígenas, desembaraça sua carreta serrana, sem responder a pergunta que lhe acaba de dirigir o rapaz de pé perto dele. É um rapaz franzino, em seu rosto magro existe algo de gasto. Seus dedos sujos, se retorcem. Por certo ele teme que o carreiro se vá sem lhe responder a pergunta na qual se aferra todo o seu ser. Então repete com voz trêmula:

            - Que me diz, senhor? Leva-me até Recinto. Peço-lhe por tudo que o senhor mais queira...

            O carreiro responde com ar de troça...

            - É muito pequena a carreta, senhor. Ademais, os bois não comeram nesta caldeira.

            O moço torna à carga. Sua voz agora tem o tom humilde e pedichão dos mendigos.

            - Senhor, não posso dar-lhe mais de dez pesos... Perdi tudo... Nada mais tenho.

            O carreiro mostra o quadrilátero minúsculo de sua carreta:

            - Não vê que é pequena? E vai também a senhora... O senhor não cabe...

            O jovem olha para o semicírculo escuro onde nada vê. Com uma voz débil faz ainda uma última tentativa.

            - Posso ir com o senhor na frente?

            O carreiro sorri compassivo

            - No varal apenas eu me sento...

            E generoso acrescenta, como esmola, um conselho:

            - Amanhã a carreta do Bustamonte segue para Veguilhas, é maior que esta.

            O rapaz responde já convicto: 

            - Obrigado, muito obrigado.

            Uma voz de mulher, de aspereza masculina, entretanto ordena de dentro:

            - Labrego, diz ao cavalheiro que pode ir na carreta.

            Indeciso o viandante aproximou-se da parte posterior:

            - Senhora, se o permite?

            Do interior da carreta veio um murmúrio inarticulado que devia ser de aquiescência. Teve de estender-se ao comprido e estirar-se com cuidado para não molestar a companheira. Não havia folga possível porque a mulher que ia a seu lado era corpulenta. Por sorte, um macio colchão de campo cobria a cama da carreta e sua cabeça descansou em uma almofada comum como em um leito conjugal. Todavia, como uma esposa ofendida, a mulher dera-lhe as costas e ele só via a curva escura de seus quadris e o ângulo de seu ombro. O calor era asfixiante. O rapaz cerrou os olhos. Quem era essa companhia? Será uma doente contagiosa que se oculta para não se envergonhar? Por que não lhe dirige a palavra? É talvez uma aldeã que só se banha por indicação médica... De súbito sentiu mover-se inquieta.

Os estremecimentos de seu corpo eram tão visíveis que no fundo do seu ser ouviu também essa voz ancestral que desperta e ruge sempre que um homem e uma mulher estão próximos um do outro. Em seguida, sentiu um odor de pele limpa que transpira; isto o exasperou até o intraduzível; a mulher, nos movimentos involuntários do sono, se aproximara mais para o seu lado, e parte de seus músculos colavam ao seu joelho e ao seu corpo. O carreteiro, lá fora, cantava:

            Um fazendeiro tinha

            boi de muitas cores...

            malhados e pintados...

            Algo de imprevisto fez com que o rapaz não mais ouvisse a voz do condutor. O corpo da mulher que dormitava ao seu lado, ia-se aproximando paulatinamente do seu. Não era em absoluto, agora o percebia exatamente, a pressão sem malícia de um corpo na inconsciência do sono; sentiu depois, próximo, um cálido alento, abrasador; e uns lábios que buscavam os seus, com essa cegueira que só a morte e a vida dão aos movimentos dos homens.

            E naquela carreta que rodava pela montanha o mundo se deteve um minuto em seu eterno rodar pelos espaços, sobre os lábios de dois seres desconhecidos até então.

            - Quem será esta mulher?

            Cansado, adormeceu.

            Violento solavanco o fez despertar em sobressalto.

            - Levanta, patrão, que já estamos em Recinto, falou o carreiro com voz rouca.

            - Aqui estão os dez pesos.

            O homem ia estender a mão para receber, mas a voz da mulher pronunciou um não imperativo cortando-lhe em seco o gesto.

            A um grito do carreiro, a carreta escorregou silenciosamente sobre a terra vermelha e porosa do caminho. A sua silhueta perdia-se na penumbra do amanhecer. Na memória do jovem ficava apenas o fogo de uma boca ávida sobre seus lábios e a ponta disforme de um sapato de aldeã.

            Esperou ainda que uma mão aparecesse, ao longe, em romântico gesto de adeus. Mas não se notou nenhum movimento. O rapaz dirigiu-se para a estação.

 

(CONTOS DE ALCOVA – Dezembro de 1963)

Compilados por Yves Idílio

 

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MARIANO LATORRE 

          Mariano Latorre é por excelência o estilista da paisagem chilena. Seus livros encerram, por ciclos sucessivos, as regiões e as cidades do Chile, sua pátria.

          Iniciador da prosa “criolista”, mestre do conto descritivo sul-americano, Latorre nos dá nesta sua “A DESCONHECIDA”, uma pequena “vernissage” do seu poder de “conteur” que bem merece uma maior e larga difusão entre os povos de língua latina.

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Mariano Latorre 

(Cobquecura, 1886 - Santiago, 1955) Romancista chileno, principal representante junto com Marta Brunet da corrente crioula no Chile. Mariano Latorre deixou os estudos de direito pela pedagogia e tornou-se professor de espanhol. Posteriormente, deu aulas de literatura na Universidade do Chile, combinando seu trabalho docente com a atividade literária, na qual, além de conceber suas próprias criações, foi frequentemente solicitado a prefaciar obras de outros autores e colaborar em revistas e jornais.

Por trinta anos ele viajou por todo o Chile, documentando-se sobre costumes, paisagens, flora, fauna, vestimenta, entonações de fala, etc. Seu trabalho bebia da observação direta da natureza, um meio que ele conhecia de suas contínuas excursões ao campo. Isso lhe permitiu desenvolver uma literatura que se destacasse por uma presença explícita do naturalismo e do costumbrismo, como já se apreciava em seu primeiro título, Cuentos del Maule (1912), um livro de contos em que o crioulo que prevaleceu ao longo de sua história começou a se definir. Produção.

Outros títulos do mesmo gênero são Cuna de condores (1918), Chilenos del mar (1929), On Panta (1935), Hombres y zorros (1937) e La isla de los rosas (1955). Dentre suas novelas, destaca-se Zurzulita (1920), em que o protagonista é a Cordilheira dos Andes, por onde desfilam uma série de personagens, como camponeses, pobres e marginalizados, vítimas dos poderosos elementos da natureza. Outros romances seus são Ully (1923) e La paquera (póstumo, 1958).

Em 1971 foram publicados seus ensaios, reunidos sob o título de Memórias e Outras Confidências . Em 1944, pelos seus méritos, laboriosidade e grande contribuição para o conhecimento dos costumes, da língua e do quadro patriótico natural, foi galardoado com o Prémio Nacional de Literatura. Um ano depois, foi nomeado acadêmico da Faculdade de Filosofia e Educação da Universidade do Chile. No campo da diplomacia, Mariano Latorre foi adido cultural na Espanha, Argentina, Colômbia e Bolívia.

https://www.biografiasyvidas.com/biografia/l/latorre.htm

 

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terça-feira, 11 de agosto de 2020

O CEGO MARUJO – Cyro de Mattos

                                O Cego Marujo

Cyro de Mattos

 

               Na minha infância conheci criaturas interessantes que, na maneira de ser de cada uma delas,  davam cores e sons à cidade. Faziam parte do espetáculo da vida onde  quer que se apresentassem.  O cego Marujo era uma delas. Fazia ponto com a sua viola inseparável no estacionamento  de ônibus, que ficava no centro da cidade, atrás do prédio do Instituto de Cacau da Bahia, perto do Ginásio Divina Providência.

         As marinetes, assim chamados os ônibus de cadeira dura daquela época,  chegavam e saíam daquele local  movimentado com  gente próspera e modesta. Ali,  os carregadores entregavam  os embrulhos grandes pelas janelas aos passageiros que  retornavam  a alguma cidade circunvizinha. Não importava o tempo, chuvoso ou de estio, lá estava o cego Marujo dedilhando a viola ao peito, a cuia ao lado.

         Ficava no passeio, embaixo da marquise, junto à entrada  para os guichês onde os passageiros compravam a passagem.  Antes que o ônibus partisse,  passageiros gostavam de ouvir o cego Marujo dedilhando a viola, que gemia ao peito. A cuia ia se enchendo de cédulas de dinheiro e  moedas na medida que ele ia tirando  suas cantigas, dizendo de coisas alegres e tristes, das ocorrências rotineiras que serviam de alimento à memória da cidade. 

     .  Desfiava na viola a história que falasse de algum assunto  bastante comentado na cidade, como o da mulher  que foi esfaqueada pelo marido ciumento quando o casal atravessava a Ponte  Velha.  O marido acusava de estar sendo traído pela mulher com o vizinho.  A pobre coitada só fazia cuidar dos  afazeres da casa e fazer a comida gostosa para o marido ciumento. No meio da discussão acirrada, o marido golpeou a infeliz com várias facadas. Melado de sangue,  sem saber o que fazer depois da cena alucinada,   o marido ciumento  jogou da ponte o corpo da mulher no rio e saiu disparado rumo ao centro da cidade,  gritando que era um homem desgraçado. 

      Outra vez o cego Marujo desfiou a cantiga da mulher que pariu no meio da Ponte Velha. Teve sorte. Deu à luz com a ajuda de duas mulheres idosas,  que cedo  iam fazendo a travessia na ponte.  Pariu um menino graúdo. Não deu um gemido durante o parto, não chorou, , não  fez cara feia.  Levantou-se com a ajuda das duas mulheres  que fizeram o parto. Saiu andando como se nada de mais tivesse acontecido, o menino nos braços, no rosto alegre o sorriso gordo.  

            Se o cego Marujo não enxergava, os olhos estavam submersos nas sombras,  como era que conseguia gravar aquelas histórias,  que pareciam  publicadas nos  cordéis escritos pelos  trovadores da cidade?  Comentava-se que o seu guia, um menino negro, esperto,  era quem lia as histórias de cordel  para ele no barraco onde moravam no bairro da Conceição. Ele fazia a música e encaixava a letra no  cordel  cujo conteúdo  mais o marcava. Mas também improvisava com  cantigas baseadas em histórias que ele mesmo inventava.

           Gostava de fazer o  público sorrir quando estava  aglomerado  diante dele. Certa vez, ouvi o cego Marujo  falar do tempo que era jovem, enxergava até agulha na areia, era pescador que saía cedo  para pegar o peixe  nos longes do mares bravios.

          O barco parecia brinquedo

          Nas mãos da onda gigante,

          Chamava por Deus a tripulação,

         Só eu era o que nada temia,

         Quanto mais fosse o perigo

         Causando a maior aflição.

 

       Não viesse pescar comigo   

       Nos mares distantes de Ilhéus,

      Homem que fosse frouxo,

     Desses  que gosta de cama boa, 

      Contar façanha na lorota,

      Comer mulher de bunda gorda.

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Cyro de Mattos, escritor e poeta. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Autor premiado no Brasil, Portugal, Itália e México.

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segunda-feira, 10 de agosto de 2020

TRÊS GRANDES REVESES (IRREVERSÍVEIS) DA CHINA COMUNISTA – Marcos Machado

9 de agosto de 2020

Marcos Machado

 

Não esperemos da mídia alinhada com a esquerda um noticiário imparcial sobre os revezes do chamado “gigante” asiático. Nunca vão informar que a China não tem agropecuária suficiente para alimentar seus 1.4 bilhões de habitantes. Nem que lhe faltam matérias-primas como ferro (do Brasil), cobre (do Chile), petróleo. Menos ainda que seu caráter autoritário e ditatorial causa repulsa no mundo livre.

E não são os “deuses” nem as “más fadas” que estão empalidecendo a “estrela” de Pequim. Como veremos, é o próprio comunismo chinês.

Como, aliás, está no mais baixo patamar que se possa imaginar a “estrela” petista, que seus aliados de sempre — o falso Centrão e os bispos de esquerda — tentam salvar. A recente Carta dos 152 bispos progressistas, articulada pelo amigo de Lula, Dom Cláudio Hummes, é disso a mais recente prova.

China, onde o feitiço virou contra o feiticeiro

O desgaste da imagem da China varre o Ocidente e as nações livres do Oriente e se deve em boa medida a uma cartada mal jogada do PCCh com a pandemia.

“As observações do embaixador chinês nos EUA vieram quando uma nova pesquisa da Pew Research descobriu que dois terços do público dos EUA tinham visões desfavoráveis sobre a China — um novo aumento significativo dos 47% quando Trump assumiu o cargo em 2017. Quase três quartos dos americanos disseram não ter ‘nenhuma confiança’ no presidente chinês Xi Jinping para ‘fazer a coisa certa em relação aos assuntos mundiais’. Retórica anti-China, incluindo a repetida descrição de Trump da doença como o ‘vírus chinês’”.1

A culpa da China na pandemia ficou clara aos olhos de todos e os processos trilionários contra ela estão em curso no mundo inteiro. Culpa em encobrir a origem do vírus, em ocultar a sua expansão e periculosidade, em tentar vender medicamentos e suprimentos de má qualidade para combater o vírus.

Esses são fatos notórios, não precisam de demonstração.

O PCCh não entende de diplomacia

Habituados à maneira comunista de ver o mundo, as relações humanas, a diplomacia, os chineses comunistas do PCCh não conseguem ser amáveis, jeitosos, acolhedores. As mesmas táticas que usam intramuros para sufocar dissidências e justas manifestações de liberdade, eles as aplicam na diplomacia, no trato com os países livres.

“A China exigiu no dia 2, que o Canadá pare com a extradição aos Estados Unidos de Meng Wanzhou, diretora financeira da multinacional chinesa de telecomunicações Huawei, um processo autorizado pelo governo do país”.

“‘O abuso por parte de Estados Unidos e do Canadá de suas regras de extradição é uma grave violação dos direitos legítimos de um cidadão chinês’, disse hoje o porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da China, Lu Kang”.2

A reação intempestiva contra a Austrália, que pedia uma investigação independente da origem do vírus chinês, foi assim noticiada: “O embaixador chinês Cheng Jingye ameaçou em 26 de abril que o ‘público chinês’ possa boicotar as exportações australianas, o turismo e o setor universitário se o governo continuar com o inquérito”.3

Acrescentamos: falar em “público chinês” num país dirigido ditatorialmente pelo PCCh é cinismo do embaixador.

Guerra comercial com os EUA e violação dos direitos fundamentais

O recente fechamento do consulado chinês em Houston (Texas), por acusações de espionagem, vem numa esteira de medidas do governo Trump contra o PCCh. Ele inclui desde guerra de tarifas, proibição de visto, roubo de propriedade intelectual, suborno de cientistas, até graves denúncias de perseguição religiosa e campos de confinamento de uigures.

A China vence o ranking da violação dos direitos da pessoa humana, da censura na internet, da liberdade de expressão. A Lei de Segurança Nacional de Hong Kong nos dá disso mais uma prova, ao violar os acordos com o Reino Unido em 1985.

A consequência dessa série de violações é clara: o Mundo Livre começa a acordar, a perceber que os comunistas não cumprem acordos e que os planos de dominação mundial traçados pelo PCCh lhe escapam das mãos.

A crescente campanha de denúncias contra a Huawei, instrumento de espionagem do PCCh, encontra eco na Austrália, no Reino Unido e em outras nações.

Engano irreversível: O “perfil” do comunista chinês distancia

A “estrela” de Pequim empalideceu. Cabe ao Mundo Livre corrigir os nefastos erros oriundos do otimismo da era Nixon, cujas viagens à China redundaram na industrialização e no enriquecimento dela em detrimento do Ocidente.

As reações em curso, que apontamos neste artigo, constituem a grande esperança do esmagamento final do dragão comunista chinês que oprime e escraviza seu povo.

O Brasil precisa saber fazer suas verdadeiras alianças internacionais a fim de preservar nossa soberania e a integridade territorial. Acordo com comunistas é agenda de esquerda ou do falso Centrão.

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Notas:

https://ipco.org.br/rejeicao-de-xi-jinping-atinge-3-4-tres-quartos-nos-eua-por-que-a-china-nao-abre-os-portoes/

https://ipco.org.br/mais-uma-imposicao-cinica-da-china-impedir-a-extradicao-de-meng-wanzhou/

https://ipco.org.br/congresso-americano-apoia-australia-contra-ameaca-da-china/

 

http://www.abim.inf.br/tres-grandes-reveses-irreversiveis-da-china-comunista/

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domingo, 9 de agosto de 2020

O PÁROCO – Coelho Neto

Tão velhinho! Pobre velho!

Vivia ali entre pastores, na alta serra gelada, espalhando bênçãos e esperanças.

            Não chores, filha! Deixa que as neves se derretam para que o teu noivo possa transpor o monte. Não desespere, pastor. Então, porque te morre um borrego, bradas assim contra o teu Deus? Não te lembras de Job? Não tens ainda tanta ovelha fecunda trincando a erva dos outeiros, bebendo a água das fontes?

            Por que choras, mulher?

            Levanta os olhos para o céu, ele lá está, é anjo entre os anjos do Senhor. Que melhor queres? Aqui seria zagal: tremeria ao frio, fugiria ao lobo e, muita vez, talvez chorasse à míngua vendo o embornal vazio ou tiritasse assentado à beira da cinza morta. Deixa-o lá! Falava à noiva triste, ao pegureiro bravio, à mãe chorosa, o velho pároco serrano.

            Tão velhinho! Pobre velho!

            Nem mais fugiam as pombas quando o viam entrar vagarosamente na velha igreja, iam- lhe à frente as pombas, arrulhando com familiaridade.

            A sua missa era longa. Tão velhinho!

            Já lhe custava pronunciar, e para ler então! Baixava a cabecinha branca e trêmula sobre as amarelecidas folhas do missal como se as beijasse. Às vezes, porém, ficava extasiado: os olhos longamente postos no crucificado e, quando os descia, estavam rasos de água.

            Grande santo!

            E morreu...

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Coelho Neto (Henrique Maximiano C. N.), fundador da Cadeira 2 da ABL. Recebeu os Acadêmicos Osório Duque-Estrada, Mário de Alencar e Paulo Barreto.  romancista, crítico e teatrólogo, nasceu em Caxias, MA, em 21 de fevereiro de 1864, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 28 de novembro de 1934.


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PALAVRA DA SALVAÇÃO (196)

19º Domingo do Tempo Comum – 09/08/2020


 Anúncio do Evangelho (Mt 14,22-33)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.

— Glória a vós, Senhor.

Depois da multiplicação dos pães, Jesus mandou que os discípulos entrassem na barca e seguissem, à sua frente, para o outro lado do mar, enquanto ele despediria as multidões. Depois de despedi-las, Jesus subiu ao monte, para orar a sós. A noite chegou, e Jesus continuava ali, sozinho. A barca, porém, já longe da terra, era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário. Pelas três horas da manhã, Jesus veio até os discípulos, andando sobre o mar. Quando os discípulos o avistaram, andando sobre o mar, ficaram apavorados e disseram: “É um fantasma”. E gritaram de medo. Jesus, porém, logo lhes disse: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!”

Então Pedro lhe disse: “Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água”. E Jesus respondeu: “Vem!” Pedro desceu da barca e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus. Mas, quando sentiu o vento, ficou com medo e, começando a afundar, gritou: “Senhor, salva-me!” Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro, e lhe disse: “Homem fraco na fé, por que duvidaste?”

Assim que subiram no barco, o vento se acalmou. Os que estavam no barco prostraram-se diante dele, dizendo: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!”

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.


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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Roger Araújo:


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A arte de enfrentar tempestades

“A barca, já longe da terra, era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário” (Mt 14,24)

 

Poderíamos dizer que o relato da “travessia tormentosa” é uma síntese da história de nossas vidas.

Seguramente as primeiras comunidades cristãs, como todos nós hoje, se identificaram facilmente com esse grupo de discípulos em meio a uma tormenta que sacode com força a barca em que estavam. Viver com Jesus ausente requer confiança absoluta, esperança firme e capacidade para descobri-Lo presente em sua aparente ausência. No envio que recebemos d’Ele para ir à outra margem é possível que nossa barca seja também sacudida pelos movimentos das ondas dos medos que nos fazem ver fantasmas, impedindo-nos reconhecer o Ressuscitado, caminhando ao nosso lado.

Todos compartilhamos, para além do tempo e do espaço no qual nos encontramos, a mesma bela e frágil natureza humana. Por isso, embora as circunstâncias que nos envolvem sejam diferentes, e certamente estas podem favorecer ou dificultar nosso seguimento de Jesus, reconhecemos que os verdadeiros obstáculos, para viver centrados n’Ele e comprometidos com seu Reino, não nos vem de fora, mas brotam de nosso próprio interior. E o maior deles é o medo.

Os medos acompanham nossa vida cotidiana. Quem se pergunta honestamente – o que eu temo? – re-conhecerá, sem dúvida, uma pequena ou grande lista de medos que o habitam, travando o fluir de sua vida.

Quando o ser humano quebrou sua aliança com Deus no Paraíso, o medo foi sua reação imediata. “Ouvi teus passos no jardim; fiquei com medo, porque estava nu, e me escondi” (Gen. 3,10).

O medo se instalou em seu coração. E o ser humano continua a temer através dos desertos e cidades, de dia e de noite, no coração e na sociedade..., onde quer que esteja; ele vive sob um medo constante, sentido com maior ou menor intensidade, mas sempre presente.

Medo dos passos de Deus e de seus próprios passos; medo de estranhos e de amigos; medo do futuro; medo do diferente; medo de seu corpo e da sua afetividade; medo de decidir; medo de se comprometer; medo de romper as amarras do passado; medo do novo; medo de viver e de morrer, medo de si mesmo. Uma longa cadeia de medos, da primeira à última respiração, nesta terra de sombras.

Todos os medos estão inter-relacionados e, qualquer que seja seu objeto imediato, todos têm em comum o sentimento sombrio do perigo ameaçador.

Sabemos que o medo deixa as pessoas vulneráveis à manipulação. Não existe depósito de munição mais potencialmente explosivo do que os estoques de medo nas escuras profundezas de suas vidas.

As pessoas ficam tensas e projetam estas tensões na realidade circundante. Encaram os outros como inimigos, e as oportunidades como ameaças. O trabalho é competição, e a vida, um campo de batalha.

O medo quebra o ritmo biológico e ataca os tecidos do corpo; ele nasce na mente, mas sua influência é sentida nos nervos, no pulso, nos músculos e na respiração.

As pessoas temem os perigos que conhecem e mais ainda os que não conhecem, mas os vislumbram presentes em cada esquina. Um medo que pode ser nomeado perde o terror e a capacidade de ferir; no entanto, um medo sem nome, um fantasma sem rosto, escuro como uma sombra e rápido como uma tempestade aumenta o pavor e paralisa a ação. Medo sem nome que assombra e queima as energias que poderiam ser canalizadas para algo criativo.

O medo distorce a percepção da realidade; ele gera muitos fantasmas e pré-juizos que, como consequência, maximizam os fatores objetivos causantes do perigo.

Sendo uma emoção primária, o medo, com frequência, impede o discernimento e a busca da solução mais inteligente para os problemas; longe de resolvê-los, pode agravá-los a médio e longo prazo.

Quando o medo e a sensação de impotência impregnam nossa vida cotidiana, se aviva em nós a consciência permanente de “vulnerabilidade”. Não estamos preparados para acolher nossa fragilidade, nossa condição humana.

Enfim, o medo obscurece o sentido e a direção da vida, tira o brilho tão próprio do amor; ele nos acovarda e nos enterra na acomodação mesquinha.

 É bom lembrar que o ser humano amadurece através do confronto entre desejo e medo. Não há medo sem um desejo escondido e não há desejo que não traga consigo um medo. O desejo e o medo estão ligados. Temos medo do que desejamos e desejamos o que nos faz medo.

DESEJO e MEDO: existe, na natureza humana, a tendência natural de ultrapassar o imediato, de caminhar para a “outra margem”... para arriscar novos horizontes; necessidade de afrontar o perigo, de tentar, de se aventurar... Mas existe também a tendência oposta de se poupar e de se acautelar, a necessidade inata de evitar o perigo, de se afastar dos obstáculos, de fugir das tempestades... O ser humano que confia é também o ser humano que teme; o ato de coragem carrega, também, o medo.

No nosso crescimento humano e espiritual, o medo não superado, ou desejo bloqueado, vão gerar tempestades. Ou, pelo contrário, o medo superado, o desejo desatado, vão permitir a maturação. E nossa vida evolui assim, através do nosso desejo de plenitude e o nosso medo de destruição (impulso de vida x impulso de morte).

Todos nós, no nível pessoal ou coletivo, vivemos experiências de tempestades; algumas como um “tsunami”, como este que vivemos no atual momento.  Estamos diante de uma “onda nova” de risco e de vida, na madrugada de um dia que pode e deve ser de salvação: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!”

Uma coisa é sentir medo; outra, é permanecer paralisado com medo de arriscar e não aventurar por novas terras, na descoberta infindável que é a vida.

É preciso não ter medo do medo, e fazer dele uma mediação para o próprio crescimento, descobrindo o desejo de viver que se esconde atrás de cada medo. E que vai permitir ir mais longe.

As batalhas mais profundas do espírito (a quebra de limites da mente e do costume, o avanço sobre novos ideais e sonhos...) se conquistam com o atrevimento da coragem, com a força da fé, com a imaginação solta, com a criatividade livre e desimpedida.

Desafiando os medos aprende-se a ter coragem. Aceitar os medos é o caminho para tornar-se destemido. O conhecimento da própria fraqueza é a maior força.

Cada medo não resolvido é um peso na vida. É preciso descobri-los, identificá-los, nomeá-los e tomá-los como são até que se possa dissolvê-los em consciência e coragem.

Também a Igreja se mostra, muitas vezes, presa ao medo, matando seu espírito profético. Uma Igreja medrosa torna-se conivente com a cultura da violência e da morte. Enquanto mais teme, mais se fecha e se entrincheira atrás de normas, doutrinas, ritos...; e quanto mais se entrincheira, mais frágil se torna.

A grande comunidade dos seguidores de Jesus é chamada por Ele a viver contínuas travessias, a sair dos seus espaços estreitos e “normóticos” (normalidade doentia), a ser “provada” pelas tormentas e ventos contrários, a esvaziar sua barca de tantos pesos para poder fluir com mais leveza, levantando suas velas e aproveitando da força dos mesmos ventos.

É o mesmo Espírito de Jesus que sopra as velas da grande barca, conduzindo-a para a “outra margem”, a margem do compromisso em favor da vida.

 

 Texto bíblico:  Mt 14,22-33 

Na oração: Entre na barca de sua vida, em companhia do Senhor; deixe que a presença d’Ele desmascare os medos que atrofiam sua identidade e originalidade.

- Dê nomes aos seus medos; nomeá-los, já é dar o primeiro passo para não se deixar determinar por eles.

- O que você faria, se não tivesse medo?

 

Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2113-a-arte-de-enfrentar-tempestades

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