Total de visualizações de página

terça-feira, 21 de julho de 2020

MACHADO DE ASSIS PRESIDE NOSSA REUNIÃO VIRTUAL - Ignácio de Loyola Brandão

Gostaria de saber como Machado de Assis presidiria nossa reunião virtual. Adaptar-se-ia (como diria Michel Temer) ao sistema Zoom? Usaria o Google? Ou recorreria a dezenas de outros sistemas que existem? Conseguiria posicionar a cabeça em relação a câmera? Ele que provavelmente gostava de olhar para o interlocutor, conferir reações, perguntar e ouvir a resposta na hora, olhar em volta para ver as repercussões de uma fala, não se irritaria ao olhar para o monitor e ver apenas uma pessoa?

Como reagiria aos breves lapsos de tempo que oscilam entre uma fala e outra? Chamaria para seu lado dona Lucia, dona Carmem, a Daniela, a Jussara, a Ana Paula pedindo socorro? No final, Castorino resolveria o problema. Ou recriminaria o Raphael Pinheiro: coloque em ordem este aparato parafernálico. Ou se perderia quando vários acadêmicos aparecessem em quadradinhos na tela, sem saber para qual olhar? Ele se lembraria daquela frase do conto Entre Duas Datas que simboliza os tempos da Covid, do isolamento: “ Eram como duas pessoas que se olham, separadas por um abismo, e estendem os braços para se apertarem”.

Ficaria irritado quando a câmera apanhasse um desprevenido cochilando? Criticaria a falta do calor humano, dos risos, das intervenções fora de seu olhar? Ficaria curioso ao ver cochichos ao pé do ouvido, ou confabulações misteriosas apanhadas de surpresa pela câmera. Teria um sistema privado de comunicação – somente ele saberia senha - que lhe mostraria se Capitu estava sendo levada da breca? Ele que prezava a escrita, estaria curioso para saber como seria a ata da reunião? Escrita ou por edição de imagens? No desacerto com a tecnologia e na ausência de filhos ou netos, será que ele pediria ajuda às suas mulheres, Virgilia, Sofia, Flora, Helena, Guiomar, Helena? Ou clamaria: Carolina, Carolina, dê a mão aqui! Mas correria o risco de ouvir: Você que é o Bruxo do Cosme Velho se arranje! Machado imaginando que em matéria de informática se a rêde cai nem os bruxos resolvem, certamente exclamaria: Está na hora de escrever O Alienista.

Portal da ABL, 20/07/2020

 ..................
Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.


* * *

APRESENTAÇÃO DO LIVRO “OS BRABOS” DE CYRO DE MATTOS POR JORGE AMADO NA ABL

              Apresentação do livro “Os Brabos”
de Cyro de Mattos por Jorge Amado
na Academia Brasileira de Letras

“As quatro narrativas de Cyro de Mattos, reunidas em Os brabos, volume de recente edição da Civilização Brasileira, mereceram, ainda inéditas, o Prêmio Nacional de Ficção Afonso Arinos, distribuído pela Academia Brasileira de Letras. Relator da ilustre comissão de romancistas que o concedeu (Bernardo Elis, José Cândido de Carvalho, Herberto Sales, Adonias Filho e Afonso Arinos de Meio Franco), nosso mestre Alceu de Amoroso Lima, a mais alta expressão de crítica literária brasileira, consagrou o livro e o autor.

No livro, Alceu de Amoroso Lima encontrou "narrativas   dramáticas e brasileiríssimas, por seu tema e por sua linguagem", e disse do autor ser ele "escritor visceralmente nosso... Admirável ficcionista." Transcrevo esses trechos do relatório do Mestre Alceu porque sintetizam, com aquele singular poder de análise e definição, a literatura de Cyro de Mattos. Realmente um escritor brasileiríssimo pela temática e pela linguagem. O tema é "o povo brasileiro mais humilde e típico" e a linguagem, depurada, exata, amplia a dramaticidade da ação, impedindo qualquer vulgaridade de sentimento, evitando qualquer recurso aos modismos tão em voga atualmente.

Cyro de Mattos não se confunde à maioria de escrevinhadores que, na falta de real experiência humana e de real experimentação literária, se perdem na imitação uns dos outros, em cacoetes e fogos de artifícios enganadores. Cyro de Mattos possui uma personalidade vigorosa e original: a condição humana dos personagens que surgem de seu conhecimento e emoção nada têm de artificialismo da pequena burguesia a exibir angústia de psicanalista. O autor de Os brabos pisa chão verdadeiro, toca a carne e o sangue dos homens, "entre sombras e abismos".

Largo caminho andou Cyro de Mattos do livro de estreia - estreia, aliás, marcante com  Berro de fogo, em 1966, até as narrativas reunidas neste volume de 1979. O escritor cresceu, depurou-se, a poesia que é parte inerente de sua criação fundiu-se na limpidez da expressão, formando um todo harmonioso, iluminando os personagens de dentro para fora, expressando a vida solidária.

Com seu novo livro, Cyro de Mattos marca mais uma vez a presença na literatura brasileira dos escritores grapiúnas, do poderoso clã de poetas e ficcionistas nascidos da civilização do cacau no sul da Bahia.”

-----
O Texto de Jorge Amado sobre Os brabos, novelas, de Cyro de Mattos, está registrado na ata da Academia Brasileira de Letras, em 6 de março de 1980.

* * *

segunda-feira, 20 de julho de 2020

HINO AO SOL - São Francisco de Assis


 Hino ao Sol

Senhor Onipotente, ó Eterno Senhor,
Toda a honra te pertence, a Vida, a Luz e o Amor.
Supremo Criador dos luminosos Céus,
O homem não foi jamais digno de nomear
Teu Nome Soberano: este é maior que o mar!
Por toda a Criatura, onde quer que ela esteja,
Bendito seja Deus, Louvado sempre seja
De meu grande Senhor o Nome Sacrossanto,
Que revigora o fraco e dulcifica o Santo,
Que lhe dê glória o Sol, tão fulvo e coruscante.

Fonte de Vida e Luz, tão belo e radiante,
Que dissipa a noite a sombra do terror,
Inundando a amplidão de límpido fulgor.
Bendito seja sempre o meu Deus pela lua,
Que à noite na amplidão dos espaços flutua,
Espargindo uma luz tão doce e maviosa
Como um Hino celeste e o aroma de uma Rosa...
Por esses mil milhões de Estrelas cintilantes
Tão lindas lá nos céus, tão altas e distantes.
Entoe o teu louvor o Vento nosso Irmão,
Que faz rugir o Oceano em fúrias de Leão.
Que tudo te glorie – tempo, nuvens e ar, -
Num hino triunfal, e sem cessar!

Louvado sejas sempre, ó Divino Senhor,
Pela água nossa Irmã, a qual, com seu frescor,
Pura como cristal, fecundante e preciosa,
 Nos suaviza a sede e faz florir a Rosa...
Ó Supremo Poder, glorifique-Te o Fogo,
O qual seja onde for, apenas surge logo
Dissipa a escuridão e é alegre e formoso,
Robustíssimo e Doce, Altivo e Esplendoroso.

Louvado sejas tu, pela Terra, Senhor,
Pois ela nos sustenta e produz Fruto e Flor:
Flor dum fino matiz com que nós Te adoramos.
Fruto diverso e bom com que nos sustentamos.
Bendito sejas sempre, inefável Senhor,
Por quem, de coração, pelo Teu Santo Amor,
Perdoa a quem odeia, e tem resignação
No mais cruel pesar, na maior provação!

Oh! Bendito e Feliz o que conserva a Paz
Que sempre flui de Ti: Venturoso o que traz
Teu Nome – Grande e Bom! – em sua alma guardado,
Porque Ele, lá no Céu, será glorificado.


 SÃO FRANCISCO DE ASSIS
(Versão do Pe. Francisco Siqueira)
 ............
LUSO-BRASILEIRA - ANTOLOGIA FTD 1ª e 2ª séries do Ciclo Ginasial
Livraria Francisco Alves
PAULO DA AZEVEDO & CIA., LTDA

* * *

A CIDADE E O CORONAVÍRUS – Cyro de Mattos


A Cidade e o Coronavírus
Cyro de Mattos

          Quando a cidade comemora outro ano de emancipação política, falam do progresso e vocação de seu povo para o trabalho. A cidade vive o clima de festa e desperta muito cedo com a descarga de foguetes que crepitam no céu. Os moradores sabem que a cidade é antes de tudo raiz que se aninha no peito e seiva que escorre no esforço dos dias.

          É trama com ânsia e sonho. Acontece nas mãos generosas do padeiro, no feijão preparado pela cozinheira, que o ano todo tem calo e calor nas mãos. Na colher do pedreiro. No sermão do padre, na filarmônica tocando na praça, convidando o povo para voar na valsa. Na cuia do cego, na cartilha da professora. Na bola do menino que quebrou a vidraça do vizinho. Com os namorados que passeiam de mãos dadas no jardim. Na rua, na loja, no armazém, no banco, a cidade com o seu modo de estipular o mundo.

          Na guerra da palavra em tempo de eleições quando a vitória é uma questão de vida ou morte. No jornal televisivo que dá a notícia boa ou má, sempre veloz, indo de canto a canto. Nos dias de hoje, desse terrível coronavírus e de um governo executivo que se nutre de ódio com um presidente incendiário, certamente a notícia fere e deixa o brasileiro atônito.
     
          Com sangue nas veias que sangram todos os dias, a cidade anda às vezes triste, os pés descalços, adormece embaixo de marquises. Atropela na dura lei da vida, converte-se em tempo de violência e miséria, que cada vez mais assusta.

          Com vários jornais, emissoras de rádio, canais de televisão, colégios, hospitais, ruas e avenidas asfaltadas, universidade como brasa verdejante em seu novo dizer da lavra, a cidade vive agora a época da automação, da moderna sociedade de massas. Sabe que hoje o mundo é uma aldeia global, não podendo desviar-se dessa sintonia. Mas na cidade ainda encontramos a maneira sensível de alguns conceberem a vida com a razão e a emoção na mais completa leitura do mundo através da arte da palavra.  Existem aqueles que lambem as palavras e se alucinam. Falam de coisas agudas. Tentam com a palavra permanecer na vida, negando a morte.

          Mas ninguém imaginaria que a cidade fosse interrompida no seu fluxo de vida com essa guerra do coronavírus. Agora todos andam de máscara quando uma necessidade impõe que vá comprar algo necessário na farmácia.  Em nossas casas vivemos recolhidos na quarentena.  A notícia na televisão informa os estragos que o coronavírus vem fazendo aos frágeis seres humanos. A cidade está vazia. Vivemos um clímax de filme de ficção científica. De pesadelo e desalento. As ruas desertas.  Impiedoso, sorrateiro, veloz, o coronavírus ataca todo o planeta e não se satisfaz com as vítimas que mata a todo instante.

           Mas venceremos essa impiedosa guerra bacteriana, esperando-se que no próximo ano estejamos comemorando o dia de aniversário da cidade com abraços, euforia de risos no rosto aberto de contente, sem faltar as badaladas do sino na catedral de São José, o padroeiro da cidade, e a descarga de foguetes no céu.

...............
Cyro de Mattos é escritor e poeta. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Possui prêmios literários expressivos no Brasil e exterior. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia.
* * *

domingo, 19 de julho de 2020

TEMPOS DO CORONAVÍRUS – Cyro de Mattos


Tempos do Coronavírus
Cyro de Mattos


     Ninguém imaginaria que as cidades fossem interrompidas no seu fluxo de vida com essa guerra do coronavírus. Agora todos andam de máscara quando uma necessidade impõe que vá comprar algo necessário na farmácia ou supermercado. Cuidado, cuide-se com os demais, lave sempre as mãos, com álcool ou sabão, mas não esqueça o ritual, se viver é perigoso, agora é muito mais. Esse tipo de cautela pode ser providencial, vai salvar a sua vida.
   
        Em nossas casas vivemos recolhidos nessa repetitiva e irritante quarentena, que tem como um de seus propósitos fazer com que nossa roupa fique apertada com os quilinhos que de repente ganhamos.  A notícia na televisão informa os estragos que o coronavírus vem fazendo aos frágeis seres humanos. As cidades estão vazias. Vivemos um clímax de filme de ficção científica. De pesadelo e desalento.

          As ruas desertas.  Impiedoso, sorrateiro, veloz,  o coronavírus ataca todo o planeta e não se satisfaz com as vítimas fatais que vem fazendo a todo instante. Não bastasse exigir  o nosso confinamento, proibir  abraçar o amigo, impedir que o beijo em carícia de lenço  seja dado ao ente querido e a flor se entreabra no rosto com a expressão do sorriso.

      Horrível, infame, impiedoso, esse coronavírus. De onde veio essa minúscula criatura que não é vista a olho nu com sua fábrica da morte no lugar da vida? Para onde quer levar nossos assustados e tristes corações? Por causa dela, os pais ficam sem o filho, o marido sem a esposa, o neto sem a avó, o vizinho sem a vizinha. Ela não tem limite, até criança é agarrada por suas pinças venenosas. Quanto aos idosos nem é bom falar, são os que são levados mais depressa na onda dessa assassina, que mata e não enterra, de tão estúpida com a sua traiçoeira invenção da morte.

       Maneira de forjarmos uma estratégia com vistas a diminuir suas investidas pusilânimes, é ficarmos de quarentena, recolhidos em nossas casas, não formarmos grupos, evitarmos sair como antes, só mesmo quando necessário.  É preciso cautela até que se ache o antídoto para mandá-la para as funduras do pior abismo. Lugar que ela merece habitar para todo o sempre,  dormir e se alimentar de nada, como é de sua predileção.
 
       Como penso que a linguagem literária é a mais completa  como leitura do mundo e a literatura é  forma de conhecimento da vida  fundamental como o amanhecer, além de ser fonte de prazer, quando se tem em mãos um bom livro, bem escrito, que conte uma história com surpreendentes sentidos,  sugiro que alguns que  vão me ler nessa crônica reserve um pouco de seu tempo de quarentena e tente escrever histórias, crônicas, poemas,  como forma de conversar no seu estar no mundo,  tomando a palavra emprestada do sonho.  Mostre à esposa, ao filho, ao amigo, as histórias, as crônicas ou poemas que você escreveu. Qualquer um pode tentar. A beleza e o encantamento da vida estão em tudo. Com a arte da palavra, você também irá descobrir isso, tenho certeza.
     
      Afinal, todos nós, de poeta, médico e louco temos um pouco. Por que não de escritor, seja o nosso canto alegre, triste ou rouco?

..................
Cyro de Mattos é escritor e poeta. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Publicado em Portugal, Itália, Espanha, Alemanha, França, Dinamarca, Rússia e Estados Unidos. Premiado no Brasil e exterior. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia e de Ilhéus. Comendador da Ordem do Mérito do Governo da Bahia.

* * *

PALAVRA DA SALVAÇÃO (193)

16º Domingo do Tempo Comum -19/07/2020

Anúncio do Evangelho (Mt 13,24-43) 

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, Jesus contou outra parábola à multidão: “O Reino dos Céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio do trigo, e foi embora. Quando o trigo cresceu e as espigas começaram a se formar, apareceu também o joio. Os empregados foram procurar o dono e lhe disseram: ‘Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o joio?’
O dono respondeu: ‘Foi algum inimigo que fez isso’. Os empregados lhe perguntaram: ‘Queres que vamos arrancar o joio?’
O dono respondeu: ‘Não! Pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita! E, no tempo da colheita, direi aos que cortam o trigo: arrancai primeiro o joio e amarrai-o em feixes para ser queimado! Recolhei, porém, o trigo no meu celeiro!’”
Jesus contou-lhes outra parábola: “O Reino dos Céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo. Embora ela seja a menor de todas as sementes, quando cresce, fica maior do que as outras plantas. E torna-se uma árvore, de modo que os pássaros vêm e fazem ninhos em seus ramos”.
Jesus contou-lhes ainda uma outra parábola: “O Reino dos Céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado”.
Tudo isso Jesus falava em parábolas às multidões. Nada lhes falava sem usar parábolas, para se cumprir o que foi dito pelo profeta: “Abrirei a boca para falar em parábolas; vou proclamar coisas escondidas desde a criação do mundo”.
Então Jesus deixou as multidões e foi para casa. Seus discípulos aproximaram-se dele e disseram: “Explica-nos a parábola do joio!”
Jesus respondeu: “Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem. O campo é o mundo. A boa semente são os que pertencem ao Reino. O joio são os que pertencem ao Maligno. O inimigo que semeou o joio é o diabo. A colheita é o fim dos tempos. Os ceifeiros são os anjos. Como o joio é recolhido e queimado ao fogo, assim também acontecerá no fim dos tempos: o Filho do Homem enviará os seus anjos, e eles retirarão do seu Reino todos os que fazem outros pecar e os que praticam o mal; e depois os lançarão na fornalha de fogo. Aí haverá choro e ranger de dentes.  Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

---
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Padre Roger Araújo:

---

“Deixai crescer um e outro até a colheita!” (Mt 13,30)

Jesus costumava contar parábolas com frequência e as pessoas gostavam de ouvi-lo; suas parábolas, brotavam do chão da vida, estavam carregadas de vida e comprometiam as pessoas a viverem de um modo diferente, deixando-se inspirar por Aquele que é Fonte da Vida. Como relatos instigantes, as parábolas faziam emergir uma nova imagem de Deus e uma nova imagem do ser humano.

Sabemos que as imagens, que cada um guarda em seu interior, tem um peso e marcam a vida: elas podem fazer adoecer ou ativar uma vida sadia, podem alimentar medos ou despertar coragem, podem estreitar a vida ou expandi-la.... Todos temos experiências das funestas consequências das falsas imagens de Deus, que acabam alimentando, em cada um, uma auto-imagem atrofiada e paralisante. Jesus, com suas parábolas provocativas, desejava quebrar tais imagens nocivas e substitui-las por outras saudáveis.

Para isso, Ele usa uma pedagogia para nos provocar e dirigir nossa atenção para algo específico, que nos inquieta: quando nos sentimos incomodados com Suas imagens, isso significa que estamos sendo confronta-dos com imagens falsas de Deus e de nós mesmos, petrificadas em nosso interior. Algum aspecto nosso, que até então havia permanecido na sombra, é iluminado; agora somos capazes de nos ver de modo diferente. Essa transformação interior, de nossa visão e de nossos sentimentos, não pode ser alcançada por meio de meras palavras de ensinamento. Para isso, precisamos da arte das parábolas, pois elas desvelam, põem às claras, situações e modos fechados de viver, visões distorcidas, falsas verdades, ideias atrofiadas, crenças vazias..., que nos dão uma sensação de segurança e temos resistências em abrir mão de tudo isso. 

Como muitas outras parábolas, também a do “joio e do trigo” é um relato provocativo. Não só porque parece ir contra o “senso comum”, que aconselha arrancar o joio que impede o crescimento do trigo, mas porque é também uma resposta às críticas que o próprio Jesus recebia por sua atitude com relação àqueles que a religião tinha excluído. Não em vão Ele foi acusado de ser “amigo de publicanos e pecadores”.

Por outro lado, a parábola pode deixar transparecer as inquietações da comunidade de Mateus, preocupada por separar com clareza os “bons discípulos” daqueles que não eram. Como tantos grupos humanos, a tentação é marcar uma linha divisória, entre o “trigo” e o “joio”. Essa separação, no interior da comunidade cristã, acaba se projetando nas relações sociais, políticas, econômicas, culturais..., criando “muros” e “fronteiras” que esvaziam o processo de humanização.

Pois bem, seja porque se refira à vida histórica de Jesus, seja porque se tenha adaptado para responder a alguma polêmica comunitária posterior, o certo é que a mensagem da parábola não deixa lugar a dúvidas: “deixai crescer um e outro até a colheita!”. Por isso, a atitude sábia de deixar o “trigo e o joio crescerem juntos”, nos remete precisamente ao que temos de fazer com o nosso próprio “joio”: aceitá-lo, acolhê-lo, integrá-lo, reconhecê-lo como nosso, sem reduzir-nos a ele e sem nos deixar determinar por ele. Tal atitude implica um crescimento em integração e em humildade. Por mais estranho que pareça, a aceitação do “joio” nos humaniza, pois nos faz descer de nosso pedestal egóico – feito de exigência, perfeccionismo e de complexo de superioridade – e aproximar-nos de nosso ser verdadeiro.

Quanto mais nós nos conhecemos e conhecemos o Sol que nos habita (Deus), mais nos integramos e mais nos humanizamos.

Humanizar-se, não no sentido de ser mais virtuoso, brilhante, bem-sucedido, perfeccionista... Humanizar-se é também a capacidade de acolher-se frágil, vulnerável e, ao mesmo tempo, ativar o vigor, ser criativo, resistir, poder traçar caminhos... Fazer a síntese entre ternura e vigor.

Não pretendamos, pois, arrancar o joio; demonstremos com nossa vida que, ser trigo, é mais humano. 

Nossa vida está repleta da graça divina. Vivemos mergulhados na Graça que nos santifica.

Ser santo(a) é viver em plenitude nossa humanidade. É aprender a descobrir e a redescobrir a “presença de Deus em tudo e tudo em Deus” (S. Inácio).

Já foi dito que o ser humano nunca é tão grande como quando sabe reconhecer e aceitar sua fragilidade, sua limitação...  Reconhecer e aceitar sua própria “humanidade”, diante de Deus e dos outros, significa percorrer um caminho em direção a uma visão positiva, madura e profunda de si mesmo.

Com isso, já não desperdiçamos as nossas energias para tentar, inutilmente, afastar de nós algo que faz parte de nossa vida e que devemos aprender a integrar, a preencher de sentido, a transformar...

Às vezes, no mal que queremos extirpar, há um bem que não sabemos descobrir. 

Com efeito, temos sempre a tentação de querer extirpar logo e totalmente o “joio” do nosso coração, arriscando-nos a arrancar com ele, pela raiz, os germes do bem que estão crescendo com dificuldade e que exigem uma atitude muito diferente, isto é, paciência e delicadeza, capacidade de intuição e clarividência, disponibilidade para alimentar uma sadia tolerância para conosco.

Todo este processo de integração interior se faz visível na integração com os outros com quem convivemos. 

Parece claro que, nós seres humanos, ficamos incomodados com o “diferente”, com aquele que sente, pensa e crê de outra maneira. Se a isso agregamos a necessidade de “ter razão”, característica do ego, pode-ríamos explicar a origem de tantas intolerâncias, fanatismos, juízos, processos inquisitoriais e condenações... Tanto as religiões, como os grupos sociais, insistem em ter tudo bem clarificado e estabelecido, para evitar sobressaltos. Detrás de tudo isso, o que se busca é assegurar a sobrevivência e defender-se da ameaça da insegurança ou da necessidade de mudanças. Sair das próprias posições e convicções, no campo religioso, social, político, cultural...é, para muitos, um processo doloroso.

A parábola que estamos comentando (joio e trigo) é um chamado à tolerância e à paciência. A virtude da tolerância não é sinônimo de “bonzinho amorfo”, nem constitui um relativismo suicida. Tolerância é respeito e valorização da pessoa, acima das diferenças, acima das atitudes contrárias e inclusive, segundo Jesus, frente às agressões recebidas: “Amai vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem”.

A personalidade fanática tende a ver a realidade dividida completamente em duas: tudo é branco ou preto, verdadeiro ou falso, bom ou mau, “trigo e joio”; para ela, não existem outras tonalidades. Por isso, ela se converte em juiz implacável que “salva” ou “condena”, assume atitudes fascistas ou nazistas, com a ilusão da raça pura, da ideologia pura, da religião pura...

Niels Bohr, um dos grandes iniciadores da física quântica, afirmou que “o oposto de uma verdade profunda pode ser também outra verdade profunda”. E para ele não se tratava de uma crença ou de uma opinião pessoal, mas de uma constatação, fruto de seus experimentos com partículas sub-atômicas.

Há um fato inegável: ninguém é igual a outro, todos temos algo que nos diferencia. Por isso existe a biodiversidade, milhões de formas de vida. O mesmo e mais profundamente vale para o nível humano. Aqui as diferenças mostram a riqueza da única e mesma humanidade. Podemos ser humanos de muitas formas e devemos ser tolerantes, como toda a realidade é tolerante. A intolerância será sempre um desvio e uma patologia e assim deve ser considerada.

Texto bíblico:  Mt 13,24-43
Na oração: O rigorismo não faz parte do caminho da Graça; o caminho da graça se chama compreensão e tolerância. A melhor resposta é dar a oportunidade para que o trigo amadureça; a melhor solução é abrir possibilidade para que o joio seja transformado. É questão de saber esperar. E disso, o amor é especialista.
- Frente ao “joio” presente em seu interior, que atitudes assume: auto-julgamento? moralismo? intransigência?
- E frente ao “outro”, que “pensa, sente e ama de maneira diferente”, como você se situa?

Pe. Adroaldo Palaoro sj


* * *

sexta-feira, 17 de julho de 2020

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS COMEMORA SEU 123º ANIVERSÁRIO EM FORMATO VIRTUAL

A Academia Brasileira de Letras comemora seus 123 anos de fundação no dia 20 de julho, segunda-feira, em solenidade virtual. Em razão das restrições impostas pela pandemia, a cerimônia ocorrerá exclusivamente pela internet. O Acadêmico Alberto Venancio Filho será o orador oficial do evento, que contará com a participação virtual dos Acadêmicos Marco Lucchesi, Merval Pereira, Antônio Torres e Edmar Bacha, membros da atual Diretoria. Também serão disponibilizadas mensagens gravadas por diversos acadêmicos em alusão ao aniversário da ABL. Todo o conteúdo poderá ser acessado no site da instituição, a partir das 17h do dia 20 de julho.

Na ocasião, será apresentado ao público o Selo Comemorativo em homenagem aos 100 anos de nascimento do Acadêmico João Cabral de Melo Neto, produzido pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. O presidente da ABL também discursará sobre importantes protocolos firmados em prol da leitura com instituições como a Marinha do Brasil e a Câmara dos Deputados.

Ao final da solenidade, haverá a apresentação da cravista Rosana Lanzelotte em um concerto especial, no qual executará a Sonata em sol maior de Sigismund von Neukomm.

Exposição
Outra ação promovida pela Academia Brasileira de Letras para a comemoração do seu aniversário será a disponibilização de uma exposição virtual em seu site. Realizada em uma reconstrução tridimensional da Biblioteca Acadêmica Lúcio de Mendonça, a mostra exibirá fotografias de cerimônias de posses de acadêmicos realizadas entre 1916 a 1969. O visitante terá a chance de apreciar registros raros de grandes nomes da ABL, como Assis Chateaubriand e Guimarães Rosa.


16/07/2020


* * *