Total de visualizações de página

quinta-feira, 16 de julho de 2020

A ORDEM DO CARMO E A FIDELIDADE PERFEITA

16 de julho de 2020


Virgem do Carmo – Isabel Martos, séc. XIX. 

Coleção Particular, Sevilha (Espanha).


A Igreja comemora o dia de Nossa Senhora do Carmo em 16 de julho; e o de Santo Elias, fundador da Ordem do Carmo, no dia 20. Para relembrar ambas comemorações, segue trecho de uma conferência de Plinio Corrêa de Oliveira realizada em 14-11-1970.
.
Nossa Senhora é a Rainha da Ordem do Carmo, a primeira Ordem religiosa constituída de modo especial para o louvor d’Ela. A observância oficial da Ordem do Carmo é a devoção da escravidão à Santíssima Virgem. Um dos louvores que Ela recebe de todos os seus carmelitas no Céu é o cântico de seus escravos de amor.

O que significa, neste caso, ser “escravo de amor”? É a condição da pessoa que desejou ter uma fidelidade perfeita e completa; que desejou renunciar a seus haveres e direitos; que desejou renunciar a si mesmo, inclusive aos bons méritos de suas boas obras; que depositou tudo nas mãos de Nossa Senhora; e quis viver só para Ela, a fim de que, nessa união, Ela fizesse tudo, como Senhora de tudo.

A Ordem do Carmo tem a vocação de ser tão unida à Santa Mãe de Deus, que pode ser chamada de Ordem dos escravos da Santíssima Virgem. No Céu, com certeza, essa Ordem deve ter um lugar especial junto a Ela. Deve ser o Céu dos Céus, um lugar eleitíssimo, o melhor dos lugares para os filhos carmelitas que Ela suscitou para serem seus escravos até o fim do mundo, sob a direção do máximo escravo d’Ela que foi Santo Elias — esse homem incomparável e assombroso, que voltará no fim de toda a História para travar as últimas batalhas por Deus.

Peçamos a Santo Elias, em união com todos os santos da Ordem do Carmo, que ele se constitua nosso especial chefe, pai e senhor, e auxilie as almas cambaleantes, dando fervor e claridade aos espíritos indecisos, firmeza à vontade fraca.


  
* * *


quarta-feira, 15 de julho de 2020

O CRISTO REDENTOR DO CORCOVADO NA MIRA – Péricles Capanema

15 de julho de 2020


Péricles Capanema

Prossegue intensa nos Estados Unidos a campanha de destruição de estátuas simbólicas. Foram derrubadas estátuas de Cristóvão Colombo; várias estátuas de generais heróis na Guerra Civil sofreram a mesma sorte, também algumas de São Junípero Serra. Estátua de São Luís IX, rei da França, foi rapidamente recolhida em Saint Louis para não ser vandalizada. E ainda ameaçadas estátuas dos chamados pais fundadores da nação líder do Ocidente. A destruição continua, nada parece escapar à fúria vandálica. Além de arrancadas violentamente dos pedestais, têm sido corrente, para completar a liturgia caricata, cusparadas, chutes, berros, pinturas afrontosas. Não são raras mutilações e decepações.

A mensagem lampeja clara: a figura dos homenageados evoca realidades já não mais toleráveis. Primeiro o símbolo e depois as realidades simbolizadas serão banidos da superpotência. Acusam-nos de representar uma civilização escravocrata, imperialista, genocida, opressora, em especial de negros e índios. Um passo a mais: é a civilização europeia que está no cadafalso. Outro passo na mesma direção: é a civilização cristã europeia. E a fonte última da Europa cristã é Nosso Senhor Jesus Cristo. Questão de tempo, chegarão lá, as estátuas de Jesus Cristo, símbolo de sua doutrina e Igreja, também serão abatidas.

Aliás, já estamos nas primeiras etapas de tal demolição revolucionária e — não convém evitar o qualificativo — satânica. Coerente com o espírito do movimento, foi o que sintomaticamente já anunciou o escritor Shaun King, ativista social, fundador do “Real Justice PAC” e apoiador do movimento “Black lives matter”: as imagens de Jesus Cristo também precisam ser derrubadas, pois lembram “uma forma de supremacia branca”. Imposição da justiça real, parece, ditadura dos novos tempos.

No começo, o vozerio pela derrubada virá da extrema esquerda, de movimentos anarquistas e assemelhados, como já exigido por Shaun King. Depois, vozeadas do centro ecoarão os protestos, propondo a medida como necessidade de harmonia social. No fim, uma suposta maioria centrista achará melhor tirar todas as estátuas de Nosso Senhor dos lugares públicos para preservar o caráter laico do Estado. E, no trajeto, algumas estátuas serão vandalizadas, sem nenhuma punição, forma de impor celeridade maior ao processo demolidor. Alguns, com subestima, às vezes calculada, dirão, são atos isolados de mero alcance simbólico, que não mexem no fundo das realidades que importam, as quais continuarão as mesmas. Serão as mãos que apagam, as vozes que adormecem a reação.


Napoleão com o príncipe Metternich com durante a reunião em Dresden em 26 de junho de 1813. Quadro de Woldemar Friedrich (1900).

Símbolos não importam? Pulo as décadas, retorno para longe. Em 23 de junho de 1813, Napoleão encontrou Metternich em Dresden [quadro acima]. Ali se jogava a sorte da Europa, a vida, quem sabe, de milhões de homens. Foram quase quatro horas de conversa, por vezes amável, por vezes tensa e ríspida. De um lado, o general representante da investida revolucionária. Do outro, o representante da Europa conservadora. Em certo momento de tensão, os dois em pé, Napoleão gritou ameaças e atirou o chapéu no chão. Ele era imperador, o outro, apenas ministro. Esperou um gesto de cortesia de Metternich, recolhendo e lhe devolvendo o chapéu. Nada. O corso passou ao lado do chapéu, empurrou-o com o pé. O chanceler austríaco não se mexeu, fingiu nada ter percebido, continuou a argumentar. Napoleão ameaçou:

— Para um homem como eu, a vida de um milhão de homens, vale nada.

Metternich olhou o chapéu no chão. Continuou Napoleão:

— Perdi 300 mil homens na Rússia, entre eles não havia mais que 30 mil franceses. Os outros, italianos, poloneses, alemães.

O ministro atalhou:

— Vossa Majestade se esquece que fala a um alemão.

Napoleão sentiu o golpe, apanhou o chapéu e o enfiou na cabeça. Derrota simbólica enorme. Ao se despedir, Metternich lhe disse: “Majestade, sua situação está perdida. Pressentia-o, quando cheguei. Agora, levo comigo a convicção”.

O encontro de Dresden, pleno de frases e gestos simbólicos repercutiu. Repercute até hoje. É visto como um dos marcos importantes da queda de Napoleão. A Europa tomou um rumo detestado pelo imperador da França. Um gesto simbólico, a recusa de apanhar um simples chapéu (no caso, indício de temor e traço de subserviência) até hoje é vista como resumo de uma reunião de mais de três horas. Gestos simbólicos têm efeito enorme, são lances da guerra cultural. Além da importância em si, são observados como atitudes prenunciativas.

Será derrota enorme para a Cristandade que diante das estátuas derrubadas (no frigir dos ovos o que está sendo atacado é a Cristandade), não haja resposta à altura com desagravos proporcionais e revide legais, mas altamente significativos.

Donald Trump está em campanha pela reeleição. Qual estátua os dirigentes da sua propaganda escolheram como a mais representativa para simbolizar sua causa e, portanto, para ser vista como alvo a ser derrubado pelos adversários? À primeira vista, seria alguma de um “foundigng father”. Ou alguma célebre na Europa pelo valor artístico.

Nada disso, foi selecionada a do Cristo Redentor do Corcovado, braços abertos para o mundo, inaugurada em 1931, eco lídimo do movimento pela realeza social de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ato de enorme simbologia, visto pelos chefes da campanha presidencial republicana como de forte repercussão eleitoral. O fato é conhecido. Em propaganda divulgada por todo o país, encimada pelo Cristo do Corcovado, o texto dizia: “O Presidente deseja saber quem o apoiará contra a esquerda radical”. Está dado a entender, queiramos ou não, estamos diante de uma batalha universal.

Dia virá, e não está longe, em que se exigirá no Brasil a derrubada da estátua do Cristo Redentor do Corcovado. A exigência virá de grupos ideológicos, inflamados pelas mesmas doutrinas que hoje trabalham nos Estados Unidos pela destruição de suas raízes históricas e aparecimento de uma sociedade rasa e ateia, parecida com o mundo comunal imaginado por Marx como etapa final do comunismo.


* * *

terça-feira, 14 de julho de 2020

A SURPREENDENTE VOLTA DAS “PINÇAS EUCARÍSTICAS” PARA DISTRIBUIR A SANTA COMUNHÃO

Daniel Karmann/dpa Picture-Alliance via AFP
 O pe. Thomas Jeschner usa pinças eucarísticas na igreja de São Lourenço, em Eschenbach, na Alemanha

Redação da Aleteia | Mai 11, 2020

Ao contrário do que muitos poderiam supor, elas não são nenhuma “modernidade” recém-inventada: fazem parte da liturgia há séculos
Agradual reabertura das igrejas para as Missas e demais ritos litúrgicos celebrados com a presença física dos fiéis tem exigido cuidados especiais para evitar os contágios pelo coronavírus. Entre as medidas estão a higienização das mãos na entrada de igrejas, a adoção de marcas no piso para garantir uma distância de ao menos 1,5 metro entre os fiéis na fila da Comunhão, o espaçamento entre os bancos e até dos lugares liberados em cada banco para que os fiéis se sentem etc.



Além dessas e outras medidas, houve uma que chamou especialmente as atenções de quem viu fotos da reabertura das igrejas em várias paróquias da Europa: o uso das pinças eucarísticas.

As pinças eucarísticas

Trata-se de pinças especiais com as quais o sacerdote entrega a hóstia ao fiel na hora da Comunhão sem tocá-las com a mão.
Para muitos fiéis, o uso desse recurso pareceu uma “triste novidade” surgida agora, mas, na realidade, as pinças eucarísticas fazem parte da liturgia católica há séculos e visam preservar a reverência ao Corpo de Cristo em circunstâncias de emergência sanitária.

São instrumentos utilizados historicamente em períodos de pestes e epidemias para ajudar a distribuir a Sagrada Comunhão com segurança e dignidade, evitando, por exemplo, que a Eucaristia seja distribuída dentro de pequenos sacos plásticos individuais, como chegou a ser sugerido por autoridades do governo da Itália e da administração estadual de Santa Catarina, no Brasil – hipótese que foi enfaticamente descartada pelo episcopado de ambos os países.


Desta Italia

Uso histórico

Há registros do uso das pinças eucarísticas, por exemplo, no século XIV, na corte papal de Avignon. Ao longo dos séculos, elas receberam diversas denominações que caíram em desuso, como fórcipes e tenáculos. Um “tenáculo de argento” (prata) é mencionado no inventário de 1315-1316 do Papa Clemente V. O uso de “tenáculos de ouro” para a Santa Eucaristia é também documentado no “Liber de Caerimoniis Sanctae Romanae Ecclesiae” (Livro de Cerimônias da Santa Igreja Romana), da segunda metade do século XIV.

Além das pinças, chegaram a ser usadas colheres eucarísticas de diversos comprimentos em algumas localidades, sempre com o intuito de manter a reverência e a dignidade ao se receber a Comunhão em períodos de emergência sanitária.


Desta Italia


* * *


segunda-feira, 13 de julho de 2020

A HORA DA VERDADE – Jair Messias Bolsonaro

12 de Julho de 2020

Milhões de empregos destruídos, dezenas de milhões de informais sem renda e um país na beira da recessão.

A situação só não está pior pelas ações do Governo Federal que foi ao socorro das pequenas e médias empresas, arranjou recursos para estados e municípios e está pagando Auxílio Emergencial de R$ 600,00 para mais de 60 milhões de pessoas.

Sempre disse que o efeito colateral do combate ao vírus não poderia ser pior que o próprio vírus.

A realidade do futuro de cada família brasileira deve ser despolitizada da pandemia. Os números reais dessa guerra brevemente aparecerão.

A desinformação foi uma arma largamente utilizada. O pânico foi disseminado fazendo as pessoas acreditarem que só tinham um grave problema para enfrentar.

Não será fácil, mas havemos de recomeçar.

BOM DIA A TODOS.

 Jair Messias Bolsonaro, Presidente do Brasil


* * *

MÁSCARA SE TRANSFORMA EM MORDAÇA – Marcos Luiz Garcia

13 de julho de 2020
                         
                                                                          Marcos Luiz Garcia


          No dia 1º de julho deu-se mais um passo da distensão gradual da quarentena em São Paulo, anunciada previamente pelo governador. Também foi anunciada a desmontagem do hospital de campanha do estádio do Pacaembu.

         Para quem sai às ruas, dir-se-ia que a vida está quase voltando ao normal. Inesperadamente, no momento mesmo de anunciar o relaxamento da querentena, o governador anunciou que o uso da máscara continuará obrigatório, penalizando com uma multa de 500 reais quem for flagrado sem ela. E se for dentro de um estabelecimento comercial, a multa será de 5.000 reais para o proprietário.

         Tudo isto se torna mais compreensivel se nos reportamos ao que foi anunciado pelo Reinformation TV no dia 15 de junho a propósito do Forum Econômico Mundial. Resumindo, pretendem que o mundo passe por um reset e tudo recomece seguindo a pista de um comunismo mundial sob o nome de globalismo.

O que diz a reportagem?

         “‘Nada mais será o mesmo’: quantas vezes ouvimos isso durante o auge da pandemia do COVID-19? O mundo ‘pós-COVID’, repetiu o establishment político da mídia, deveria encontrar um ‘novo normal’. E é de fato o que está ocorrendo: viagens fáceis, relacionamentos interpessoais calorosos, grandes encontros, liberdades individuais e até simples apertos de mão devem parecer dar lugar a um longo distanciamento social em última análise, regras exigentes e vigilância potencialmente drástica. Mas isso é apenas parte da imagem. O Fórum Econômico Mundial — o dos famosos encontros mundiais de Davos — em colaboração com o príncipe Charles da Inglaterra e o Fundo Monetário Internacional, lançou uma iniciativa reveladora que já mostra certos objetivos cuja realização é facilitada pelo grande medo do coronavírus chinês. Chamado ‘The Great Reset’, ele busca ‘reconstruir’ o sistema econômico e social global, a fim de torná-lo mais ‘sustentável’.

         “Essa convulsão de cima para baixo é apresentada como necessária devido ao colapso da economia mundial, ela própria consecutiva ao confinamento geral.

         “A ideia recebeu o apoio total do secretário-geral das Nações Unidas, Antonio Guterres, ex-presidente da Internacional Socialista de 1999 a 2005”. 

         A notícia continua, mas o parágrafo destacado confirma o que temos afirmado: o vírus chinês está servindo de pretexto para a criação de alavancas de controle das pessoas, rumo a uma futura ditadura globalista de caráter socialocomunista, exercida principalmente através da cibernética.

         Numerosos médicos desaconselham o uso ininterrupto das máscaras como as que estamos sendo obrigados a usar, por provocar o que a ciência chama de hipoxemia, que é a deficiência anormal de concentração de oxigênio no sangue e nos tecidos orgânicos.

         Essa exigência do uso das máscaras parece mais a imposição de uma doma, de um bridão, que a maioria das pessoas utiliza sem se dar conta de que estão sendo pouco a pouco “domadas” e acostumadas à perda de sua liberdade e personalidade.

         Sim, e isto já vem de longe: quem se acostumou a certos hábitos irracionais como o uso de roupas furadas ou mesmo pré-manchadas de fábrica, a usar adereços completamente extravagantes e antiestéticos, a ouvir músicas caóticas etc., acabará aceitando sem maior avaliação nem reação imposições dessas.         Incluo neste quadro o uso desequilibrado do smartfone, que concorre para essa dependência.

         Para que o processo de “doma” iniciado a pretexto da pandemia possa continuar é necessário encontrar justificativas.

         A observância das normas sanitárias nas igrejas, imposta pela CNBB, não se vê em nenhuma repartição. Como seria bom se a Lei de Deus e a moral fossem observadas com análogo rigor. Teríamos clero e fiéis em alto grau de santidade.

         Outra faceta dessa “doma” é a ditadura do Judiciário. Mas fica para outra ocasião.

         Uma coisa é certa: esse domínio do Estado sobre as pessoas, iniciado a partir do pânico com o coronavírus, é aquilo que o PT sempre tentou realizar.

         Assim, em vários aspectos da realidade, estamos vivendo um petismo sem PT… Falaram tanto contra a lei da mordaça, e agora petistas e aliados querem amordaçar todos os brasileiros sob a forma de uma máscara imposta pela China. É o primeiro passo para o estabelecimento uma ditadura férrea contra a qual devemos lutar!

         Nossa Senhora de Fátima tenha pena de nós e intervenha o quanto antes nos acontecimentos, conforme anunciou em 1917.


* * *

domingo, 12 de julho de 2020

CERTA MANHÃ EM PISA, ITÁLIA - Ignácio de Loyola Brandão

Aproveitando o confinamento, estou há semanas tentando arrumar minha biblioteca que virou Babel, sem ser a de Borges. Ficava constrangido quando visitas olhavam para tudo e, educados, nada diziam. Fiquei aliviado quando vi nos jornais a biblioteca do Aldir Blanc, bagunça memorável, montes de livros empilhados, papéis, caixas, objetos. Do meio daquela mixórdia, todavia, saíram algumas das mais belas letras da música popular brasileira, comoventes, ríspidas. Mexo que mexo e do remelexo saiu um livrinho de capa marrom, levemente roída pelas traças. Ao ver aquele exemplar da segunda edição italiana de Un Amore, romance de Dino Buzzati, edição da Bompiani, Lucía Curia surgiu dentro do meu confinamento. Ao pronunciar seu nome, acentue o i, ela fazia questão. 

Gaúcha bela e sensual, seu nome inicial era Lucía Regina Tomasina Curia. Nos anos em que foi a mais bela e descolada e diferenciada modelo de moda, era apenas Lucía, eventualmente Curia. Mais tarde casou-se com o banqueiro milionário, diplomata e colecionador Walther Moreira Salles, do grand monde do universo, e tornou-se Lucia Moreira Salles, que ela abreviava para LMS. Assim, subitamente na manhã paulistana, nos vimos juntos em uma livraria de Pisa, Itália, em certa manhã de 1963. 

Era uma folga da caravana da moda brasileira da Rhodia, que andava pelo mundo fazendo desfiles com tecidos desenhados por artistas plásticos como Di Cavalcanti, Juarez Machado, Volpi, Darcy Penteado, Aldemir Martins, Carybé (argentino naturalizado baiano). Na noite anterior, tínhamos estado no Festival dos Dois Mundos, em Spoletto, e, quando Lucía atravessou a passarela, ouvi os aplausos de Luchino Visconti, esse mesmo, o diretor de Rocco e Seus Irmãos, Vagas Estrelas da Ursa, O Estrangeiro (baseado em Albert Camus), Morte em Veneza, O Leopardo, Senso, Os Deuses Malditos. Ele estava na minha frente. Tinha olho para as grandes coisas.

Foi Lucía quem, no café da manhã no hotel, me puxou e lá fomos, com o cineasta Fernando de Barros e o músico Sergio Mendes, para uma livraria, cada um em busca do seus interesses. Eu morava em Roma, na época, e me chamaram, acompanhava o grupo para fazer o texto de um documentário que seria exibido no Brasil. Em Roma, conheci Luis Carta que se tornaria amigo e grande amigo no futuro. Quando Thomas Soto Correa me levou para a Claudia, fiz um exame psicotécnico. Fui reprovado e Luis e Thomaz me contrataram assim mesmo, fiquei sete anos lá. 

De sete em sete, vim mudando de publicação. Na pequena, mas bem abastecida livrariazinha, eu estava fascinado com o roteiro do filme Oito e Meio, de Fellini, edição da Rizoli, quando Lucía me trouxe um livrinho. Vi o título, Un Amore. Cara irônica, ela era sempre pura malícia, me perguntou: “Conhece Buzzati?”. Disse que não, ela me entregou e esclareceu: “Comprei para você, ele é mais ou menos seu gênero, é jornalista, arredio, caladão, mas um belo escritor. Você não diz que vai escrever livros?”. Meu primeiro livro sairia dois anos depois. Naquele momento, pelas mãos daquela modelo, fiz a descoberta de um de meus autores favoritos. 

Acompanhei a carreira dele, o sucesso de O Deserto dos Tártaros, Um Amor e de O Segredo do Bosque Velho (circula no Brasil a versão portuguesa editada pela Cavalo de Ferro) e seus contos, peças teatrais, seus poemas. Morto em 1972, aos 66 anos, Buzzati foi contista, poeta, artista plástico, e seu mundo cheio de alegorias e beirando o fantástico forneceu faíscas em livros meus como Cadeiras Proibidas e mesmo Não Verás País Nenhum e Desta Terra Nada Vai Sobrar... Buzzati participou de uma geração italiana brilhante que teve nomes como Moravia, Pavese, Bassani, Natalia Ginsburg, Brancatti, Bonaviri, Silone, Vittorini, Elsa Morante.

A maioria teve suas obras adaptadas para o cinema, foram grandes filmes nas décadas de 1960 e 1970. Tenho uma edição brasileira de Un Amore, editada pela Nova Fronteira, tradução de Tizziana Giorgini. História do amor de Antonio Dorigo, um cinquentão, por uma prostituta, o livro causou furor e escândalo na época de seu lançamentos na Itália. Foi filme em 1965, com Agnés Spaak, filha do célebre roteirista Charles Spaak, autor de A Grande Ilusão, clássico de Jean Renoir, de 1937.

Lucía, que falava três línguas, sempre foi uma modelo diferenciada no mundo da moda brasileira. Pioneira de novas mentalidades e maneira de encarar e estruturar a carreira, embrião de Gisele Bündchen. Depois de desfilar para Dener, estilista must dos anos 1960, Lucía instalou-se em Paris, e tornou-se o braço direito de Chanel. Valentino adorava vê-la na passarela. Enfim, casou-se com Walther Moreira Salles. Viúva, desde 2001, pouco antes de morrer, aos 70 anos, ela produziu/patrocinou uma edição fac-similar preciosa, A Portrait of Oscar Wilde, com cartas, contos e poemas do autor de O Retrato de Dorian Gray. Moreira Salles tinha os originais em seus arquivos. Feito com um cuidado especial – as 185 páginas são costuradas à mão e encadernadas na Itália pela Legatoria Rigoldi, de Milão. Preciosidade para bibliófilos que foi celebrada nos meios literários dos Estados Unidos e da Inglaterra. Tudo isso me veio à mente saindo do montículo de livros empoeirados, esquecidos. Releio Buzzati.

O Estado de S. Paulo, 03/07/2020


...............
Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.
* * *

PALAVRA DA SALVAÇÃO (192)

15º Domingo do Tempo Comum – 12/07/2020

Anúncio do Evangelho (Mt 13,1-23)

 — O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele dia, Jesus saiu de casa e foi sentar-se às margens do mar da Galileia. Uma grande multidão reuniu-se em volta dele. Por isso, Jesus entrou numa barca e sentou-se, enquanto a multidão ficava de pé, na praia. E disse-lhes muitas coisas em parábolas: “O semeador saiu para semear. Enquanto semeava, algumas sementes caíram à beira do caminho, e os pássaros vieram e as comeram. Outras sementes caíram em terreno pedregoso, onde não havia muita terra. As sementes logo brotaram, porque a terra não era profunda. Mas, quando o sol apareceu, as plantas ficaram queimadas e secaram, porque não tinham raiz.
Outras sementes caíram no meio dos espinhos. Os espinhos cresceram e sufocaram as plantas.
Outras sementes, porém, caíram em terra boa, e produziram à base de cem, de sessenta e de trinta frutos por semente. Quem tem ouvidos, ouça!”
Os discípulos aproximaram-se e disseram a Jesus: “Por que falas ao povo em parábolas?” Jesus respondeu: “Porque a vós foi dado o conhecimento dos mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não é dado. Pois à pessoa que tem será dado ainda mais, e terá em abundância; mas à pessoa que não tem será tirado até o pouco que tem. É por isso que eu lhes falo em parábolas: porque olhando, eles não veem, e ouvindo, eles não escutam nem compreendem. Desse modo se cumpre neles a profecia de Isaías: ‘Havereis de ouvir, sem nada entender. Havereis de olhar, sem nada ver. Porque o coração deste povo se tornou insensível. Eles ouviram com má vontade e fecharam seus olhos, para não ver com os olhos, nem ouvir com os ouvidos, nem compreender com o coração, de modo que se convertam e eu os cure’.
Felizes sois vós, porque vossos olhos veem e vossos ouvidos ouvem. Em verdade vos digo, muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes, e não viram, desejaram ouvir o que ouvis, e não ouviram.
Ouvi, portanto, a parábola do semeador: Todo aquele que ouve a palavra do Reino e não a compreende, vem o Maligno e rouba o que foi semeado em seu coração. Este é o que foi semeado à beira do caminho.
A semente que caiu em terreno pedregoso é aquele que ouve a palavra e logo a recebe com alegria; mas ele não tem raiz em si mesmo, é de momento; quando chega o sofrimento ou a perseguição, por causa da palavra, ele desiste logo. A semente que caiu no meio dos espinhos é aquele que ouve a palavra, mas as preocupações do mundo e a ilusão da riqueza sufocam a palavra, e ele não dá fruto.
A semente que caiu em boa terra é aquele que ouve a palavra e a compreende. Esse produz fruto. Um dá cem, outro sessenta e outro trinta”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

---
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Padre Roger Araújo:

---
“Mas, quando o sol apareceu as plantas, ficaram queimadas e secaram, porque não, não tinham raiz,” (Mt 13,6)

As parábolas são um relato provocativo e aberto, que envolvem o ouvinte ou o leitor; elas não exigem explicações, mas uma resposta pessoal, vital; move a assumir uma atitude frente a alternativa de vida que propõem. Se não toma uma decisão, é sinal que a pessoa já definiu sua postura: continuar com a própria maneira de ver e viver a realidade.

O objetivo das parábolas é substituir uma maneira de ver o mundo, míope e limitado, por outra, aberta a uma nova realidade, cheia de sentido e de esperança.

As imagens de sementes, árvores, terreno..., dão o que pensar; questionam nossa maneira de ser, nos convidam a descer ao nosso chão existencial, a olhar o mais profundo de nós mesmos e da realidade que nos cerca, e descobrir ali ricas possibilidades.

Cada planta procura seu chão. Não se desenvolve em qualquer lugar. Exige nossa atenção: é preciso conhecer o chão onde ela é plantada, observá-la, cuidá-la...

Cada chão tem uma palavra a nos dizer; o novo vem das raízes, vem de baixo, da base, do chão.  Na experiência espiritual, somos motivados a mergulhar no terreno da interioridade, como as raízes na obscuridade da terra, na presença do silêncio.

Aqui o caminho para Deus é “descer” ao nosso próprio chão e viver a comunhão universal. Subimos rumo ao Transcendente quando descemos ao nosso chão da vida. O movimento de enterrar profunda-mente as raízes possibilita alcançar a seiva, o pulsar da vida e o equilíbrio. 

Faz-se necessário, portanto, lançar raízes no mais profundo de nós mesmos e despertar todas as energias criativas, todas as grandes motivações adormecidas, toda bondade aí presente, toda decisão de assumir como cooperadores e artífices de um novo tempo.

Temos uma identidade que funda suas raízes na família, no povo, na cultura de origem. Outra, que provém das opções de nossa liberdade, de nossas decisões.  E um terceiro nível de identidade que nos vem da fé quando, progressivamente, como uma árvore, vamos “subindo” em direção a um novo sentido para nossa própria existência, deixando-nos conduzir pela força do Espírito presente no chão de nosso eu profundo. Desse enraizamento é que surgem os frutos surpreendentes, “à base de cem, de sessenta e de trinta por semente”.

Somos, portanto, seres de enraizamento e de abertura. “O ser humano é criado para...”, afirma S. Inácio. A raiz que nos limita é nossa encarnação na realidade. A abertura que nos faz romper barreiras e ultrapassar os limites, impulsionando-nos à busca permanente por novos mundos, é nossa transcendência. Ninguém segura os pensamentos, ninguém amarra as emoções, ninguém detém os sonhos... O desafio consiste, então, em manter juntos o enraizamento e a abertura. Encarnados, mas abertos à transcendência.

Nesse sentido, transcender não significa fugir da própria realidade, mas mergulhar na própria condição humana; “transcender é humanizar-se”.

A tradição judeu-cristã fala em “trans-descendência”. Somos convidados não apenas a superar e a voar para cima, mas, fundamentalmente, a descer e a buscar o chão. É a experiência da Encarnação: o Deus que envolve toda a realidade, emergiu do chão da realidade e da história. É o Amor que desce.

Ao entrar no “fluxo da descida” de Deus, somos desafiados a deixar a superfície banal e descer às dimensões profundas da nossa existência humana. Nessas águas, não nos afogamos; respiramos fundo e revitalizamo-nos. Por isso, somos chamados a superar ambiguidades, a escolher rumo construtivo, a definir nossa identidade pessoal e a optar por causas humanas que nos fazem transcender.

Somos impulsionados a mergulhar na própria existência humana “misteriosa”, e contar com a inteligência criadora, com a liberdade fecunda, com o coração ardente e com mãos mobilizadas para o serviço.

Na “parábola do semeador”, Jesus compara nosso interior com um campo dotado de diferentes “espécies” de terra, mas habitado por uma semente de vida. A semente é poderosa e eficaz. Mas estão em jogo nossa acolhida e nossa receptividade: podemos permanecer no nível da superfície; podemos nos deixar prender por outros interesses ou prioridades sensíveis; ou podemos nos abrir às dimensões mais  profundas de nós mesmos, à nossa “terra boa”, ao nosso “bom lugar”. Lida dessa perspectiva, a parábola não nos deixa indiferentes; motiva a nos questionar sobre a partir de onde nós estamos vivendo e, para chegar à resposta adequada, convida a nos fixar nos frutos que saem de nós.

A experiência espiritual cristã implica, portanto, “mergulhar os pés no chão da vida”.

É na obscuridade da terra que a planta vai buscar a força que a manterá viva, que lhe dará condição de expandir sua copa em direção à imensidão do céu. As raízes mergulham na terra de modo profundo, silencioso e lento. Expressões do nosso cotidiano como “pôr os pés no chão”, “estar com os pés na terra”, significam enraizar-nos e comprometer-nos com a realidade que nos afeta.

No “chão”, à primeira vista, estão todas as sujeiras, os detritos e as coisas em decomposição. Mas, para as raízes, tudo isso significa o alimento da vida.

Um “chão” é sempre mais do que um simples chão: cada “chão” revela lembranças, referências, ansiedades, medos, saudades...; cada “chão” guarda histórias, presenças e tem força de memória. Há vidas, pessoas, caminhos, acontecimentos, experiências...

Chão amplo é convite a sonhar alto, a pensar grande, a aventurar-se...; ousar ir além, lançar por terra o modo arcaico de proceder, romper com os espaços rotineiros e cansativos.

“Chão humano e humanizante”, porque carregado da presença divina.

É o ser humano mesmo o verdadeiro chão a partir do qual Deus se deixa encontrar e se dá a conhecer; cada pessoa é o autêntico chão da eterna presença de Deus.

Geralmente caímos na armadilha de acreditar que dar fruto é fazer obras grandes. A tarefa fundamental do ser humano não é fazer coisas, mas “fazer-se”. “Dar fruto” seria dar sentido à nossa existência de modo que, ao final dela, a criação inteira possa estar um pouco mais perto da meta, graças à nossa presença nela. Não se trata simplesmente de ativismo, mas de engendrar, de gestar algo novo, viver o Evangelho como novidade. Uma coisa é ter êxito e outra é ser fecundos, gerar vida.

Este é o desafio: gerar o novo a partir de dentro de nós mesmos, como se o sugássemos da terra com nossas raízes, para que nossas palavras e nossas ações sejam originais e criativas, e revelem uma força transformadora, com impacto na realidade onde nos encontramos.

Na fecundidade há espaço para o “mistério”. A fecundidade tem lugar no oculto, nas entranhas da terra. A fecundidade supõe confiança e abandono, uma atitude aberta e serena, sem ansiedade nem tensão, sem deixar-se desanimar pela insignificância dos primeiros resultados.

Viver em chave de fecundidade supõe aceitar ritmos, tempos longos como se dão na natureza. As plantas necessitam tempo para florescer e meses para crescer. Isto supõe excluir toda impaciência.

A fecundidade perdura e aumenta com os anos, embora as forças físicas se debilitem.

Texto bíblico:  Mt. 13,1-23 
Na oração:  “Pensamos e sentimos a partir do lugar onde nossos pés estão plantados”. Onde seus pés estão plantados? O seu “ter-reno cotidiano” tem facilitado ou dificultado o surgimento de novos frutos?
- Vivemos em um contexto marcado pela cultura da superficialidade, da aparência... Onde está enraizada sua vida? Ela tem se revelado como “terra boa”, verdadeira e fecunda, de onde brotam novidades surpreendentes?

Pe. Adroaldo Palaoro sj
* * *