A Igreja comemora o dia de Nossa Senhora do Carmo em 16 de
julho; e o de Santo Elias, fundador da Ordem do Carmo, no dia 20. Para
relembrar ambas comemorações, segue trecho de uma conferência de Plinio Corrêa
de Oliveira realizada em 14-11-1970.
.
Nossa Senhora é a Rainha da Ordem do Carmo, a primeira Ordem
religiosa constituída de modo especial para o louvor d’Ela. A observância
oficial da Ordem do Carmo é a devoção da escravidão à Santíssima Virgem. Um dos
louvores que Ela recebe de todos os seus carmelitas no Céu é o cântico de seus
escravos de amor.
O que significa, neste caso, ser “escravo de amor”? É a
condição da pessoa que desejou ter uma fidelidade perfeita e completa; que
desejou renunciar a seus haveres e direitos; que desejou renunciar a si mesmo,
inclusive aos bons méritos de suas boas obras; que depositou tudo nas mãos de
Nossa Senhora; e quis viver só para Ela, a fim de que, nessa união, Ela fizesse
tudo, como Senhora de tudo.
A Ordem do Carmo tem a vocação de ser tão unida à Santa Mãe
de Deus, que pode ser chamada de Ordem dos escravos da Santíssima Virgem. No
Céu, com certeza, essa Ordem deve ter um lugar especial junto a Ela. Deve ser o
Céu dos Céus, um lugar eleitíssimo, o melhor dos lugares para os filhos
carmelitas que Ela suscitou para serem seus escravos até o fim do mundo, sob a
direção do máximo escravo d’Ela que foi Santo Elias — esse homem incomparável e
assombroso, que voltará no fim de toda a História para travar as últimas
batalhas por Deus.
Peçamos a Santo Elias, em união com todos os santos da Ordem
do Carmo, que ele se constitua nosso especial chefe, pai e senhor, e auxilie as
almas cambaleantes, dando fervor e claridade aos espíritos indecisos, firmeza à
vontade fraca.
Prossegue intensa nos Estados Unidos a campanha de destruição
de estátuas simbólicas. Foram derrubadas estátuas de Cristóvão Colombo; várias
estátuas de generais heróis na Guerra Civil sofreram a mesma sorte, também
algumas de São Junípero Serra. Estátua de São Luís IX, rei da França, foi
rapidamente recolhida em Saint Louis para não ser vandalizada. E ainda
ameaçadas estátuas dos chamados pais fundadores da nação líder do Ocidente. A
destruição continua, nada parece escapar à fúria vandálica. Além de arrancadas
violentamente dos pedestais, têm sido corrente, para completar a liturgia
caricata, cusparadas, chutes, berros, pinturas afrontosas. Não são raras
mutilações e decepações.
A mensagem lampeja clara: a figura dos homenageados evoca
realidades já não mais toleráveis. Primeiro o símbolo e depois as realidades simbolizadas
serão banidos da superpotência. Acusam-nos de representar uma civilização
escravocrata, imperialista, genocida, opressora, em especial de negros e
índios. Um passo a mais: é a civilização europeia que está no cadafalso. Outro
passo na mesma direção: é a civilização cristã europeia. E a fonte última da
Europa cristã é Nosso Senhor Jesus Cristo. Questão de tempo, chegarão lá, as
estátuas de Jesus Cristo, símbolo de sua doutrina e Igreja, também serão
abatidas.
Aliás, já estamos nas primeiras etapas de tal demolição
revolucionária e — não convém evitar o qualificativo — satânica. Coerente com o
espírito do movimento, foi o que sintomaticamente já anunciou o escritor Shaun
King, ativista social, fundador do “Real Justice PAC” e apoiador do movimento “Black
lives matter”: as imagens de Jesus Cristo também precisam ser derrubadas, pois
lembram “uma forma de supremacia branca”. Imposição da justiça real,
parece, ditadura dos novos tempos.
No começo, o vozerio pela derrubada virá da extrema
esquerda, de movimentos anarquistas e assemelhados, como já exigido por Shaun
King. Depois, vozeadas do centro ecoarão os protestos, propondo a medida como
necessidade de harmonia social. No fim, uma suposta maioria centrista achará
melhor tirar todas as estátuas de Nosso Senhor dos lugares públicos para
preservar o caráter laico do Estado. E, no trajeto, algumas estátuas serão
vandalizadas, sem nenhuma punição, forma de impor celeridade maior ao processo
demolidor. Alguns, com subestima, às vezes calculada, dirão, são atos isolados
de mero alcance simbólico, que não mexem no fundo das realidades que importam,
as quais continuarão as mesmas. Serão as mãos que apagam, as vozes que
adormecem a reação.
Napoleão com o príncipe Metternich com durante a reunião em
Dresden em 26 de junho de 1813. Quadro de Woldemar Friedrich (1900).
Símbolos não importam? Pulo as décadas, retorno para longe.
Em 23 de junho de 1813, Napoleão encontrou Metternich em Dresden [quadro acima].
Ali se jogava a sorte da Europa, a vida, quem sabe, de milhões de homens. Foram
quase quatro horas de conversa, por vezes amável, por vezes tensa e ríspida. De
um lado, o general representante da investida revolucionária. Do outro, o
representante da Europa conservadora. Em certo momento de tensão, os dois em
pé, Napoleão gritou ameaças e atirou o chapéu no chão. Ele era imperador, o
outro, apenas ministro. Esperou um gesto de cortesia de Metternich, recolhendo
e lhe devolvendo o chapéu. Nada. O corso passou ao lado do chapéu, empurrou-o
com o pé. O chanceler austríaco não se mexeu, fingiu nada ter percebido,
continuou a argumentar. Napoleão ameaçou:
— Para um homem como eu, a vida de um milhão de homens, vale
nada.
Metternich olhou o chapéu no chão. Continuou Napoleão:
— Perdi 300 mil homens na Rússia, entre eles não havia mais
que 30 mil franceses. Os outros, italianos, poloneses, alemães.
O ministro atalhou:
— Vossa Majestade se esquece que fala a um alemão.
Napoleão sentiu o golpe, apanhou o chapéu e o enfiou na
cabeça. Derrota simbólica enorme. Ao se despedir, Metternich lhe disse: “Majestade,
sua situação está perdida. Pressentia-o, quando cheguei. Agora, levo comigo a
convicção”.
O encontro de Dresden, pleno de frases e gestos simbólicos
repercutiu. Repercute até hoje. É visto como um dos marcos importantes da queda
de Napoleão. A Europa tomou um rumo detestado pelo imperador da França. Um
gesto simbólico, a recusa de apanhar um simples chapéu (no caso, indício de
temor e traço de subserviência) até hoje é vista como resumo de uma reunião de
mais de três horas. Gestos simbólicos têm efeito enorme, são lances da guerra
cultural. Além da importância em si, são observados como atitudes
prenunciativas.
Será derrota enorme para a Cristandade que diante das
estátuas derrubadas (no frigir dos ovos o que está sendo atacado é a
Cristandade), não haja resposta à altura com desagravos proporcionais e revide
legais, mas altamente significativos.
Donald Trump está em campanha pela reeleição. Qual estátua
os dirigentes da sua propaganda escolheram como a mais representativa para
simbolizar sua causa e, portanto, para ser vista como alvo a ser derrubado
pelos adversários? À primeira vista, seria alguma de um “foundigng father”. Ou
alguma célebre na Europa pelo valor artístico.
Nada disso, foi selecionada a do Cristo Redentor do
Corcovado, braços abertos para o mundo, inaugurada em 1931, eco lídimo do
movimento pela realeza social de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ato de enorme
simbologia, visto pelos chefes da campanha presidencial republicana como de
forte repercussão eleitoral. O fato é conhecido. Em propaganda divulgada por
todo o país, encimada pelo Cristo do Corcovado, o texto dizia: “O
Presidente deseja saber quem o apoiará contra a esquerda radical”. Está
dado a entender, queiramos ou não, estamos diante de uma batalha universal.
Dia virá, e não está longe, em que se exigirá no Brasil a
derrubada da estátua do Cristo Redentor do Corcovado. A exigência virá de
grupos ideológicos, inflamados pelas mesmas doutrinas que hoje trabalham nos
Estados Unidos pela destruição de suas raízes históricas e aparecimento de uma
sociedade rasa e ateia, parecida com o mundo comunal imaginado por Marx como
etapa final do comunismo.
Ao contrário do que muitos poderiam supor, elas não são
nenhuma “modernidade” recém-inventada: fazem parte da liturgia há séculos
Agradual reabertura das igrejas para as Missas e demais
ritos litúrgicos celebrados com a presença física dos fiéis tem exigido
cuidados especiais para evitar os contágios pelo coronavírus. Entre as medidas
estão a higienização das mãos na entrada de igrejas, a adoção de marcas no piso
para garantir uma distância de ao menos 1,5 metro entre os fiéis na fila da
Comunhão, o espaçamento entre os bancos e até dos lugares liberados em cada
banco para que os fiéis se sentem etc.
Além dessas e outras medidas, houve uma que chamou
especialmente as atenções de quem viu fotos da reabertura das igrejas em várias
paróquias da Europa: o uso das pinças eucarísticas.
As pinças eucarísticas
Trata-se de pinças especiais com as quais o sacerdote
entrega a hóstia ao fiel na hora da Comunhão sem tocá-las com a mão.
Para muitos fiéis, o uso desse recurso pareceu uma “triste
novidade” surgida agora, mas, na realidade, as pinças eucarísticas fazem parte
da liturgia católica há séculos e visam preservar a reverência ao Corpo de
Cristo em circunstâncias de emergência sanitária.
São instrumentos utilizados historicamente em períodos de
pestes e epidemias para ajudar a distribuir a Sagrada Comunhão com segurança e
dignidade, evitando, por exemplo, que a Eucaristia seja distribuída dentro de
pequenos sacos plásticos individuais, como chegou a ser sugerido por
autoridades do governo da Itália e da administração estadual de Santa Catarina,
no Brasil – hipótese que foi enfaticamente descartada pelo episcopado de ambos
os países.
Desta Italia
Uso histórico
Há registros do uso das pinças eucarísticas, por exemplo, no
século XIV, na corte papal de Avignon. Ao longo dos séculos, elas receberam
diversas denominações que caíram em desuso, como fórcipes e tenáculos. Um
“tenáculo de argento” (prata) é mencionado no inventário de 1315-1316 do Papa
Clemente V. O uso de “tenáculos de ouro” para a Santa Eucaristia é também
documentado no “Liber de Caerimoniis Sanctae Romanae Ecclesiae” (Livro de
Cerimônias da Santa Igreja Romana), da segunda metade do século XIV.
Além das pinças, chegaram a ser usadas colheres eucarísticas
de diversos comprimentos em algumas localidades, sempre com o intuito de manter
a reverência e a dignidade ao se receber a Comunhão em períodos de emergência
sanitária.
Milhões de empregos destruídos,
dezenas de milhões de informais sem renda e um país na beira da recessão.
A situação só não está pior pelas
ações do Governo Federal que foi ao socorro das pequenas e médias empresas,
arranjou recursos para estados e municípios e está pagando Auxílio Emergencial
de R$ 600,00 para mais de 60 milhões de pessoas.
Sempre disse que o efeito colateral
do combate ao vírus não poderia ser pior que o próprio vírus.
A realidade do futuro de cada família
brasileira deve ser despolitizada da pandemia. Os números reais dessa guerra
brevemente aparecerão.
A desinformação foi uma arma
largamente utilizada. O pânico foi disseminado fazendo as pessoas acreditarem
que só tinham um grave problema para enfrentar.
No dia 1º de julho deu-se mais um passo da distensão gradual
da quarentena em São Paulo, anunciada previamente pelo governador. Também foi
anunciada a desmontagem do hospital de campanha do estádio do Pacaembu.
Para quem
sai às ruas, dir-se-ia que a vida está quase voltando ao normal.
Inesperadamente, no momento mesmo de anunciar o relaxamento da querentena, o
governador anunciou que o uso da máscara continuará obrigatório, penalizando
com uma multa de 500 reais quem for flagrado sem ela. E se for dentro de um
estabelecimento comercial, a multa será de 5.000 reais para o proprietário.
Tudo isto
se torna mais compreensivel se nos reportamos ao que foi anunciado pelo Reinformation
TV no dia 15 de junho a propósito do Forum Econômico Mundial. Resumindo,
pretendem que o mundo passe por um reset e tudo recomece seguindo a
pista de um comunismo mundial sob o nome de globalismo.
O que diz a reportagem?
“‘Nada
mais será o mesmo’: quantas vezes ouvimos isso durante o auge da pandemia do
COVID-19? O mundo ‘pós-COVID’, repetiu o establishment político da
mídia, deveria encontrar um ‘novo normal’. E é de fato o que está
ocorrendo: viagens fáceis, relacionamentos interpessoais calorosos,
grandes encontros, liberdades individuais e até simples apertos de mão devem
parecer dar lugar a um longo distanciamento social em última
análise, regras exigentes e vigilância potencialmente drástica. Mas isso é
apenas parte da imagem. O Fórum Econômico Mundial — o dos famosos
encontros mundiais de Davos — em colaboração com o príncipe Charles da Inglaterra
e o Fundo Monetário Internacional, lançou uma iniciativa reveladora que já
mostra certos objetivos cuja realização é facilitada pelo grande medo
do coronavírus chinês. Chamado ‘The Great Reset’, ele busca ‘reconstruir’ o
sistema econômico e social global, a fim de torná-lo mais ‘sustentável’.
“Essa
convulsão de cima para baixo é apresentada como necessária devido ao colapso da
economia mundial, ela própria consecutiva ao confinamento geral.
“A ideia
recebeu o apoio total do secretário-geral das Nações Unidas, Antonio Guterres,
ex-presidente da Internacional Socialista de 1999 a 2005”.
A notícia
continua, mas o parágrafo destacado confirma o que temos afirmado: o vírus
chinês está servindo de pretexto para a criação de alavancas de controle das
pessoas, rumo a uma futura ditadura globalista de caráter socialocomunista,
exercida principalmente através da cibernética.
Numerosos
médicos desaconselham o uso ininterrupto das máscaras como as que estamos sendo
obrigados a usar, por provocar o que a ciência chama de hipoxemia, que é a
deficiência anormal de concentração de oxigênio no sangue e nos tecidos
orgânicos.
Essa
exigência do uso das máscaras parece mais a imposição de uma doma, de um
bridão, que a maioria das pessoas utiliza sem se dar conta de que estão sendo
pouco a pouco “domadas” e acostumadas à perda de sua liberdade e personalidade.
Sim, e isto
já vem de longe: quem se acostumou a certos hábitos irracionais como o uso de
roupas furadas ou mesmo pré-manchadas de fábrica, a usar adereços completamente
extravagantes e antiestéticos, a ouvir músicas caóticas etc., acabará aceitando
sem maior avaliação nem reação imposições dessas.
Incluo neste quadro o uso
desequilibrado do smartfone, que concorre para essa dependência.
Para
que o processo de “doma” iniciado a pretexto da pandemia possa continuar é
necessário encontrar justificativas.
A
observância das normas sanitárias nas igrejas, imposta pela CNBB, não se vê em
nenhuma repartição. Como seria bom se a Lei de Deus e a moral fossem observadas
com análogo rigor. Teríamos clero e fiéis em alto grau de santidade.
Outra
faceta dessa “doma” é a ditadura do Judiciário. Mas fica para outra ocasião.
Uma coisa é
certa: esse domínio do Estado sobre as pessoas, iniciado a partir do pânico com
o coronavírus, é aquilo que o PT sempre tentou realizar.
Assim, em
vários aspectos da realidade, estamos vivendo um petismo sem PT… Falaram
tanto contra a lei da mordaça, e agora petistas e aliados querem amordaçar
todos os brasileiros sob a forma de uma máscara imposta pela China. É o
primeiro passo para o estabelecimento uma ditadura férrea contra a qual devemos
lutar!
Nossa
Senhora de Fátima tenha pena de nós e intervenha o quanto antes nos
acontecimentos, conforme anunciou em 1917.
Aproveitando o confinamento, estou há semanas tentando
arrumar minha biblioteca que virou Babel, sem ser a de Borges. Ficava
constrangido quando visitas olhavam para tudo e, educados, nada diziam. Fiquei
aliviado quando vi nos jornais a biblioteca do Aldir Blanc, bagunça memorável,
montes de livros empilhados, papéis, caixas, objetos. Do meio daquela mixórdia,
todavia, saíram algumas das mais belas letras da música popular brasileira,
comoventes, ríspidas. Mexo que mexo e do remelexo saiu um livrinho de capa
marrom, levemente roída pelas traças. Ao ver aquele exemplar da segunda edição
italiana de Un Amore, romance de Dino Buzzati, edição da Bompiani, Lucía Curia
surgiu dentro do meu confinamento. Ao pronunciar seu nome, acentue o i, ela
fazia questão.
Gaúcha bela e sensual, seu nome inicial era Lucía Regina
Tomasina Curia. Nos anos em que foi a mais bela e descolada e diferenciada
modelo de moda, era apenas Lucía, eventualmente Curia. Mais tarde casou-se com
o banqueiro milionário, diplomata e colecionador Walther Moreira Salles, do
grand monde do universo, e tornou-se Lucia Moreira Salles, que ela abreviava
para LMS. Assim, subitamente na manhã paulistana, nos vimos juntos em uma
livraria de Pisa, Itália, em certa manhã de 1963.
Era uma folga da caravana da moda brasileira da Rhodia, que
andava pelo mundo fazendo desfiles com tecidos desenhados por artistas
plásticos como Di Cavalcanti, Juarez Machado, Volpi, Darcy Penteado, Aldemir
Martins, Carybé (argentino naturalizado baiano). Na noite anterior, tínhamos
estado no Festival dos Dois Mundos, em Spoletto, e, quando Lucía atravessou a
passarela, ouvi os aplausos de Luchino Visconti, esse mesmo, o diretor de Rocco
e Seus Irmãos, Vagas Estrelas da Ursa, O Estrangeiro (baseado em Albert Camus),
Morte em Veneza, O Leopardo, Senso, Os Deuses Malditos. Ele estava na minha
frente. Tinha olho para as grandes coisas.
Foi Lucía quem, no café da manhã no hotel, me puxou e lá
fomos, com o cineasta Fernando de Barros e o músico Sergio Mendes, para uma
livraria, cada um em busca do seus interesses. Eu morava em Roma, na época, e
me chamaram, acompanhava o grupo para fazer o texto de um documentário que
seria exibido no Brasil. Em Roma, conheci Luis Carta que se tornaria amigo e
grande amigo no futuro. Quando Thomas Soto Correa me levou para a Claudia, fiz
um exame psicotécnico. Fui reprovado e Luis e Thomaz me contrataram assim
mesmo, fiquei sete anos lá.
De sete em sete, vim mudando de publicação. Na pequena, mas
bem abastecida livrariazinha, eu estava fascinado com o roteiro do filme Oito e
Meio, de Fellini, edição da Rizoli, quando Lucía me trouxe um livrinho. Vi o
título, Un Amore. Cara irônica, ela era sempre pura malícia, me perguntou:
“Conhece Buzzati?”. Disse que não, ela me entregou e esclareceu: “Comprei para
você, ele é mais ou menos seu gênero, é jornalista, arredio, caladão, mas um
belo escritor. Você não diz que vai escrever livros?”. Meu primeiro livro
sairia dois anos depois. Naquele momento, pelas mãos daquela modelo, fiz a
descoberta de um de meus autores favoritos.
Acompanhei a carreira dele, o sucesso de O Deserto dos
Tártaros, Um Amor e de O Segredo do Bosque Velho (circula no Brasil a versão
portuguesa editada pela Cavalo de Ferro) e seus contos, peças teatrais, seus
poemas. Morto em 1972, aos 66 anos, Buzzati foi contista, poeta, artista
plástico, e seu mundo cheio de alegorias e beirando o fantástico forneceu
faíscas em livros meus como Cadeiras Proibidas e mesmo Não Verás País Nenhum e
Desta Terra Nada Vai Sobrar... Buzzati participou de uma geração italiana
brilhante que teve nomes como Moravia, Pavese, Bassani, Natalia Ginsburg,
Brancatti, Bonaviri, Silone, Vittorini, Elsa Morante.
A maioria teve suas obras adaptadas para o cinema, foram
grandes filmes nas décadas de 1960 e 1970. Tenho uma edição brasileira de Un
Amore, editada pela Nova Fronteira, tradução de Tizziana Giorgini. História do
amor de Antonio Dorigo, um cinquentão, por uma prostituta, o livro causou furor
e escândalo na época de seu lançamentos na Itália. Foi filme em 1965, com Agnés
Spaak, filha do célebre roteirista Charles Spaak, autor de A Grande Ilusão,
clássico de Jean Renoir, de 1937.
Lucía, que falava três línguas, sempre foi uma modelo
diferenciada no mundo da moda brasileira. Pioneira de novas mentalidades e
maneira de encarar e estruturar a carreira, embrião de Gisele Bündchen. Depois
de desfilar para Dener, estilista must dos anos 1960, Lucía instalou-se em
Paris, e tornou-se o braço direito de Chanel. Valentino adorava vê-la na
passarela. Enfim, casou-se com Walther Moreira Salles. Viúva, desde 2001, pouco
antes de morrer, aos 70 anos, ela produziu/patrocinou uma edição fac-similar
preciosa, A Portrait of Oscar Wilde, com cartas, contos e poemas do autor de O
Retrato de Dorian Gray. Moreira Salles tinha os originais em seus arquivos.
Feito com um cuidado especial – as 185 páginas são costuradas à mão e
encadernadas na Itália pela Legatoria Rigoldi, de Milão. Preciosidade para
bibliófilos que foi celebrada nos meios literários dos Estados Unidos e da
Inglaterra. Tudo isso me veio à mente saindo do montículo de livros
empoeirados, esquecidos. Releio Buzzati.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Mateus.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele dia, Jesus saiu de casa e foi sentar-se às margens
do mar da Galileia. Uma grande multidão reuniu-se em volta dele. Por isso,
Jesus entrou numa barca e sentou-se, enquanto a multidão ficava de pé, na
praia. E disse-lhes muitas coisas em parábolas: “O semeador saiu para
semear. Enquanto semeava, algumas sementes caíram à beira do caminho, e os
pássaros vieram e as comeram. Outras sementes caíram em terreno pedregoso,
onde não havia muita terra. As sementes logo brotaram, porque a terra não era
profunda. Mas, quando o sol apareceu, as plantas ficaram queimadas e
secaram, porque não tinham raiz.
Outras sementes caíram no meio dos espinhos. Os espinhos
cresceram e sufocaram as plantas.
Outras sementes, porém, caíram em terra boa, e produziram à
base de cem, de sessenta e de trinta frutos por semente. Quem tem ouvidos,
ouça!”
Os discípulos aproximaram-se e disseram a Jesus: “Por que
falas ao povo em parábolas?” Jesus respondeu: “Porque a vós foi dado o
conhecimento dos mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não é dado. Pois
à pessoa que tem será dado ainda mais, e terá em abundância; mas à pessoa que
não tem será tirado até o pouco que tem. É por isso que eu lhes falo em
parábolas: porque olhando, eles não veem, e ouvindo, eles não escutam nem
compreendem. Desse modo se cumpre neles a profecia de Isaías: ‘Havereis de
ouvir, sem nada entender. Havereis de olhar, sem nada ver. Porque o
coração deste povo se tornou insensível. Eles ouviram com má vontade e fecharam
seus olhos, para não ver com os olhos, nem ouvir com os ouvidos, nem
compreender com o coração, de modo que se convertam e eu os cure’.
Felizes sois vós, porque vossos olhos veem e vossos ouvidos
ouvem. Em verdade vos digo, muitos profetas e justos desejaram ver o que
vedes, e não viram, desejaram ouvir o que ouvis, e não ouviram.
Ouvi, portanto, a parábola do semeador: Todo aquele que
ouve a palavra do Reino e não a compreende, vem o Maligno e rouba o que foi
semeado em seu coração. Este é o que foi semeado à beira do caminho.
A semente que caiu em terreno pedregoso é aquele que ouve a
palavra e logo a recebe com alegria; mas ele não tem raiz em si mesmo, é
de momento; quando chega o sofrimento ou a perseguição, por causa da palavra,
ele desiste logo. A semente que caiu no meio dos espinhos é aquele que
ouve a palavra, mas as preocupações do mundo e a ilusão da riqueza sufocam a
palavra, e ele não dá fruto.
A semente que caiu em boa terra é aquele que ouve a palavra
e a compreende. Esse produz fruto. Um dá cem, outro sessenta e outro trinta”.
“Mas, quando o sol apareceu as plantas, ficaram queimadas e
secaram, porque não, não tinham raiz,” (Mt 13,6)
As parábolas são um relato provocativo e aberto, que
envolvem o ouvinte ou o leitor; elas não exigem explicações, mas uma resposta
pessoal, vital; move a assumir uma atitude frente a alternativa de vida que
propõem. Se não toma uma decisão, é sinal que a pessoa já definiu sua postura:
continuar com a própria maneira de ver e viver a realidade.
O objetivo das parábolas é substituir uma maneira de ver o
mundo, míope e limitado, por outra, aberta a uma nova realidade, cheia de
sentido e de esperança.
As imagens de sementes, árvores, terreno..., dão o que
pensar; questionam nossa maneira de ser, nos convidam a descer ao nosso chão existencial,
a olhar o mais profundo de nós mesmos e da realidade que nos cerca, e descobrir
ali ricas possibilidades.
Cada planta procura seu chão. Não se desenvolve em
qualquer lugar. Exige nossa atenção: é preciso conhecer o chão onde
ela é plantada, observá-la, cuidá-la...
Cada chão tem uma palavra a nos dizer; o novo vem
das raízes, vem de baixo, da base, do chão. Na experiência
espiritual, somos motivados a mergulhar no terreno da interioridade, como as
raízes na obscuridade da terra, na presença do silêncio.
Aqui o caminho para Deus é “descer” ao nosso
próprio chão e viver a comunhão universal. Subimos rumo ao
Transcendente quando descemos ao nosso chão da vida. O movimento de
enterrar profunda-mente as raízes possibilita alcançar a seiva, o pulsar da
vida e o equilíbrio.
Faz-se necessário, portanto, lançar raízes no mais profundo
de nós mesmos e despertar todas as energias criativas, todas as grandes
motivações adormecidas, toda bondade aí presente, toda decisão de assumir como
cooperadores e artífices de um novo tempo.
Temos uma identidade que funda suas raízes na família, no
povo, na cultura de origem. Outra, que provém das opções de nossa liberdade, de
nossas decisões. E um terceiro nível de identidade que nos vem da fé
quando, progressivamente, como uma árvore, vamos “subindo” em direção a um novo
sentido para nossa própria existência, deixando-nos conduzir pela força do
Espírito presente no chão de nosso eu profundo. Desse enraizamento é que surgem
os frutos surpreendentes, “à base de cem, de sessenta e de trinta por semente”.
Somos, portanto, seres de enraizamento e de abertura. “O
ser humano é criado para...”, afirma S. Inácio. A raiz que nos
limita é nossa encarnação na realidade. A abertura que nos faz romper
barreiras e ultrapassar os limites, impulsionando-nos à busca permanente por
novos mundos, é nossa transcendência. Ninguém segura os pensamentos,
ninguém amarra as emoções, ninguém detém os sonhos... O desafio consiste,
então, em manter juntos o enraizamento e a abertura. Encarnados,
mas abertos à transcendência.
Nesse sentido, transcender não significa fugir da
própria realidade, mas mergulhar na própria condição humana; “transcender
é humanizar-se”.
A tradição judeu-cristã fala em “trans-descendência”. Somos
convidados não apenas a superar e a voar para cima, mas, fundamentalmente, a
descer e a buscar o chão. É a experiência da Encarnação: o Deus que
envolve toda a realidade, emergiu do chão da realidade e da história. É o Amor que
desce.
Ao entrar no “fluxo da descida” de Deus, somos desafiados a
deixar a superfície banal e descer às dimensões profundas da nossa
existência humana. Nessas águas, não nos afogamos; respiramos fundo e
revitalizamo-nos. Por isso, somos chamados a superar ambiguidades, a escolher
rumo construtivo, a definir nossa identidade pessoal e a optar por causas
humanas que nos fazem transcender.
Somos impulsionados a mergulhar na própria existência
humana “misteriosa”, e contar com a inteligência criadora, com a liberdade
fecunda, com o coração ardente e com mãos mobilizadas para o serviço.
Na “parábola do semeador”, Jesus compara nosso interior
com um campo dotado de diferentes “espécies” de terra, mas habitado por
uma semente de vida. A semente é poderosa e eficaz. Mas estão em jogo
nossa acolhida e nossa receptividade: podemos permanecer no nível da
superfície; podemos nos deixar prender por outros interesses ou prioridades
sensíveis; ou podemos nos abrir às dimensões mais profundas de nós
mesmos, à nossa “terra boa”, ao nosso “bom lugar”. Lida dessa perspectiva, a
parábola não nos deixa indiferentes; motiva a nos questionar sobre a partir de
onde nós estamos vivendo e, para chegar à resposta adequada, convida a nos
fixar nos frutos que saem de nós.
A experiência espiritual cristã implica, portanto, “mergulhar
os pés no chão da vida”.
É na obscuridade da terra que a planta vai buscar a força
que a manterá viva, que lhe dará condição de expandir sua copa em direção à
imensidão do céu. As raízes mergulham na terra de modo profundo, silencioso e
lento. Expressões do nosso cotidiano como “pôr os pés no chão”, “estar
com os pés na terra”, significam enraizar-nos e comprometer-nos com a
realidade que nos afeta.
No “chão”, à primeira vista, estão todas as
sujeiras, os detritos e as coisas em decomposição. Mas, para as raízes, tudo
isso significa o alimento da vida.
Um “chão” é sempre mais do que um simples chão:
cada “chão” revela lembranças, referências, ansiedades, medos, saudades...;
cada “chão” guarda histórias, presenças e tem força de memória. Há vidas,
pessoas, caminhos, acontecimentos, experiências...
Chão amplo é convite a sonhar alto, a pensar grande, a
aventurar-se...; ousar ir além, lançar por terra o modo arcaico de proceder,
romper com os espaços rotineiros e cansativos.
“Chão humano e humanizante”, porque carregado da presença
divina.
É o ser humano mesmo o verdadeiro chão a partir do
qual Deus se deixa encontrar e se dá a conhecer; cada pessoa é o
autêntico chão da eterna presença de Deus.
Geralmente caímos na armadilha de acreditar que dar fruto é
fazer obras grandes. A tarefa fundamental do ser humano não é fazer coisas,
mas “fazer-se”. “Dar fruto” seria dar sentido à nossa existência de
modo que, ao final dela, a criação inteira possa estar um pouco mais perto da
meta, graças à nossa presença nela. Não se trata simplesmente de ativismo, mas
de engendrar, de gestar algo novo, viver o Evangelho como novidade. Uma coisa é
ter êxito e outra é ser fecundos, gerar vida.
Este é o desafio: gerar o novo a partir de dentro
de nós mesmos, como se o sugássemos da terra com nossas raízes, para que nossas
palavras e nossas ações sejam originais e criativas, e revelem uma força
transformadora, com impacto na realidade onde nos encontramos.
Na fecundidade há espaço para o “mistério”. A
fecundidade tem lugar no oculto, nas entranhas da terra. A fecundidade supõe
confiança e abandono, uma atitude aberta e serena, sem ansiedade nem tensão,
sem deixar-se desanimar pela insignificância dos primeiros resultados.
Viver em chave de fecundidade supõe aceitar
ritmos, tempos longos como se dão na natureza. As plantas necessitam tempo para
florescer e meses para crescer. Isto supõe excluir toda impaciência.
A fecundidade perdura e aumenta com os anos,
embora as forças físicas se debilitem.
Texto bíblico: Mt. 13,1-23
Na oração: “Pensamos e sentimos a partir do lugar
onde nossos pés estão plantados”. Onde seus pés estão plantados? O
seu “ter-reno cotidiano” tem facilitado ou dificultado o surgimento de novos
frutos?
- Vivemos em um contexto marcado pela cultura da
superficialidade, da aparência... Onde está enraizada sua vida? Ela tem se
revelado como “terra boa”, verdadeira e fecunda, de onde brotam novidades
surpreendentes?