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sexta-feira, 1 de maio de 2020

ITACOATIARA - Marco Lucchesi

Parte de minha juventude floresceu nesta pequena praia de Niterói. Em tupi-guarani, Itacoatiara significa pedra riscada. Nem ferida, nem magoada. Riscada, apenas. Sigo o mesmo destino das pedras.

Herdei um azul feroz e contundente: no céu onde se esconde o Sagitário; no além do mar oceano, e com saudades de África. É tanto azul que já não sei o que faço. Distribui-lo entre Rafael Sanzio, Raul Brandão e a mesquita de Isfahan.

Repousam no jardim, onde me ponho a escrever, os ossos de Carina, minha saudosa pastora alemã, e uma funda geologia da memória. Guardada a sete chaves, talvez impronunciável, com antigas falhas sísmicas. 

Poderia invocar mil vezes outras potências do azul, o mesmo azul que me deixa em estado de sítio e põe o mundo entre parênteses, quando me deito, como substância pensante, a olhar o céu.

Cultivo a biblioteca polifônica, as mãos que me precederam ao piano e o vigoroso telescópio, que me leva a contemplar a noite fria, como os românticos alemães. Itacoatiara deu-me, desde cedo, uma proximidade com estrelas, nebulosas e parcelas de infinito.

Darwin adentrou o cromatismo da mata atlântica, aqui, na serra da Tiririca, onde me entrego ao ócio das manhãs, subindo e tornando a descer a pedra do Costão. 

Tornei-me adicto da maresia. Preciso de iodo e sal. Não posso viver sem o mar, sem as ondas que se agitam.

Morder o mundo e abocanhá-lo, a partir dessa fronteira, sonho e matéria, aqui, onde transito e onde me perco, entre antúrios e magnólias. Talvez entre Florbela e Sophia, Al Berto e Pascoaes, Helder e Jorge, Fernando e Camões. 

“Tranquei o mundo lá fora”, disse um poeta brasileiro. Pois cada qual se reinventa, ao medir forças com a pandemia. Um mundo vasto que se desbasta.

A realidade virtual, a ideia mística e técnica, empresta caráter relativo ao que está próximo ou distante. Cresce o desejo de estarmos juntos e a revisão geral da biopolítica.

Assim, quando cai a noite, brilham os olhos de Ana, como dois gatos. O que virá depois? A fome nas favelas, a dança macabra no cárcere, o jogo de xadrez da morte e Antonius Block? Sinais do Dia do Juízo, como apregoam os corneteiros do fim do mundo. Igrejas abertas, durante a pandemia, para aquecer a venda de promissórias e salvo-condutos para depois do Apocalipse. 

A política do vírus e o vírus da política perversa, a pandemia e o pandemônio, produzem fortes dissonâncias. Mas a sociedade civil compreende a gravidade e não abre mão do isolamento. As comunidades mais pobres oferecem as respostas mais solidárias e criativas.

Morre-me um parente na Toscana. As janelas da Itália perdem um cantor. Ana escreve um diário sutil, a tradução do mundo, em haicais e iluminuras. Indaga para onde caminhamos e até quando haverá mundo?
  
Não o mesmo, talvez. Sairemos diversos, mesmo de Itacoatira. E terá de ser forçosamente outra civilização, voltada para a humanidade e a Mãe-Terra. 

Lembro-me de Jorge de Lima: “Há sempre um copo de mar para um homem navegar”.


Jornal de Letras de Lisboa, 21/04/2020



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Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.

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quinta-feira, 30 de abril de 2020

BISPO ITALIANO: “6 MILHÕES DE ABORTOS TAMBÉM SÃO UMA PANDEMIA!”


QUARTA-FEIRA, 29 DE ABRIL DE 2020 - 19:30 - IGNEWS

Legalizar o aborto não o torna moralmente aceitável, afirma dom Alberto Maria Careggio

Dom Alberto Maria Careggio, bispo emérito da diocese italiana de Ventimiglia e Sanremo, afirmou que os 6 milhões de abortos legalizados que são perpetrados por ano em todo o planeta também são uma pandemia a ser combatida.O site da diocese publicou um artigo em que dom Alberto declara:

“Quanto tempo vai durar a pandemia do coronavírus não é possível saber, nem durante quantos dias ainda teremos que ouvir o boletim das mortes, dos infectados e dos recuperados. E se o mesmo fosse feito em relação aos mais de 6 milhões de abortos legalizados em todo o mundo? Essa também é uma pandemia, que mata a consciência daqueles que a praticam e a dos governantes que, ao legislar, pretendem eliminar o horror do assassinato.

Legalizar não significa de modo algum moralizar uma ação que é contra a vida: dizem popularmente que o aborto clama por vingança diante de Deus – e é isso mesmo!

O heroísmo de todos aqueles que fazem o possível para salvar a vida dos outros arriscando a própria é mais edificante. O mal não tem a última palavra. Da catástrofe e dos escombros desta pandemia devemos esperar o despertar desses valores humanos e cristãos de amor e solidariedade, de altruísmo e generosidade, de compaixão e ternura, adormecidos, mas não desaparecidos: são e continuam sendo a marca da mão de Deus, que quis criar o homem à Sua imagem e semelhança”.

Fonte: Redação da Aleteia  https://pt.aleteia.org 


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quarta-feira, 29 de abril de 2020

CENTENÁRIO DE WILSON LINS - Aramis Ribeiro Costa

Centenário de Wilson Lins

Aramis Ribeiro Costa*


            Não fosse essa tragédia que se abateu sobre a humanidade em forma de vírus, e certamente a Academia de Letras da Bahia estaria celebrando, com pompas e circunstâncias, o centenário de nascimento de Wilson Lins. A data é 25 de abril, mas o ano nem sempre foi um ponto pacífico na biografia do jornalista, político, escritor e acadêmico. É que havia, na primeira metade do século passado, o costume de se alterar a data do nascimento em documentos e informações biográficas, para atender a certas circunstâncias, como, por exemplo, matricular-se em curso superior, emancipar-se, casar-se, e tantas outras coisas. E o resultado é encontrarmos uma quantidade surpreendente de pessoas que, durante toda a vida, tiveram duas datas de nascimento, a verdadeira, oculta, e a inventada, a servir aos interesses.

              Não sei o que aconteceu com a data de nascimento de Wilson Lins, qual o motivo da duplicidade. O fato é que o ano de 1919 aparece em vários verbetes e informativos biográficos como o ano do seu nascimento. Não foi por outro motivo, aliás, que publiquei um longo artigo intitulado “O Escritor Wilson Lins” na Revista da Academia de Letras da Bahia nº57, trazendo, no pé da página, a informação de que se tratava de “uma homenagem do autor ao centenário de nascimento do acadêmico Wilson Lins, nascido em 25 de abril de 1919”. Mas era engano. Meu e de muita gente. Wilson nasceu, na verdade, em 1920.

 Wilson Mascarenhas Lins de Albuquerque baiano de Pilão Arcado, foi uma dessas personalidades que, no seu tempo, dispensava qualquer apresentação. Tornou-se, muito moço, redator-chefe do jornal O Imparcial, de propriedade do seu pai Franklin Lins de Albuquerque, quando também se fez cronista político. Fechado O Imparcial, passou a exercer o jornalismo no Diário de Notícias, depois no Diário da Bahia e, finalmente, em A Tarde. Os mais velhos ainda devem se lembrar de Rubião Braz, o pseudônimo que fazia tremer os políticos da época com sua mordacidade e sua aguda ironia.

               Do jornalismo passou à política, tendo sido deputado estadual por mais de uma legislatura, presidente da Assembleia Legislativa de Bahia, secretário de Educação e presidente do Conselho Estadual de Cultura da Bahia. Na Academia de Letras da Bahia, para a qual foi eleito em 1967, ocupou a Cadeira número 38.

               Não fora eleito para a casa das letras por acaso. Mais do que um notável da Bahia, tratava-se de um de seus maiores escritores. A obra que publicou em livro é considerável e diversificada, passa por coletâneas de crônicas, ensaios, uma novela, memória, mas, principalmente, é alicerçada em seis romances, cinco dos quais poderiam figurar, sem nenhum favor, no cânone da literatura brasileira, como exemplares no seu gênero.

                E, de fato, o são. Os Cabras do CoronelO Reduto, Remanso da ValentiaResponso das Almas e Militão sem Remorso, romances de coronéis e jagunços, recriam uma dura realidade do sertão baiano no início do século passado, realidade que fez parte da infância do autor, filho de pai coronel. Não fossem as inexplicáveis barreiras que impedem a divulgação, para o resto do país, da literatura produzida na Bahia, ao menos daqueles que daqui não saem, e esses cinco romances de Wilson Lins estariam no catálogo nacional, ao lado dos de Jorge Amado, Adonias Filho e Herberto Sales, o que vale dizer, ao lado do que melhor se fez nesse gênero, na literatura brasileira e em qualquer outra.

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*Aramis Ribeiro Costa é ficcionista, poeta e orador de primeira linha, fazendo uso da palavra serena e atraente. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, na qual exerceu o mandato de presidente por duas temporadas.


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terça-feira, 28 de abril de 2020

TEMPO DE PANDEMIA... OU DE TRAVESSIA? - Ir. Helena T. Rech


Estou completando 71 anos de vida. Não sei se são muito ou poucos anos? Só sei que estes anos os vivi intensamente e, muito eu aprendi com a vida...

Neste tempo que chamo de travessia, outros dizem que é pandemia e, há ainda quem diga que é o “fim do mundo”, que o Anti-Cristo vai chegar e tudo consertar... outros dizem ser a Terceira Guerra Mundial, sem armas de fogo, sem bombas terríveis... Esta guerra do “Corona Vírus”, não será vencida com armas nucleares, mas com amor, cuidado com a vida, solidariedade, investimento na ciência e na saúde, infra estrutura hospitalar, dedicação de nossas agente de saúde e humanidade.

Eu acredito que é tempo de mudar. Mudar nosso jeito de pensar, de se relacionar; de amar, de se doar, de acreditar e até de rezar ou se olhar; sentar lado a lado no sofá, na mesa, na sala... tempo de compartilhar sentimentos, medos, sonhos e esperanças... é tempo de resignificar a vida, o saber, o isolamento e o sofrimento... Saber calar, silenciar e sem muito entender ou questionar tempo de simplesmente contemplar a vida, as pessoas, as ruas vazias, as lojas fechadas por causa da pandemia, da quarentena... tudo isso é para mim, e para você, tempo de renascer e reaprender a VIVER. Redescobrir o belo da vida, o lado lúdico de cada um... olhar pro céu e ver que ele está mais azul... O pôr-do-sol encantador que vai se despedindo no horizonte num bailado de corres fascinante. E isso não é fantasia. É o mais belo presente que o universo nos dá. Como se não bastasse isto... e a chuva de meteoros que aconteceu nestes dias de quarentena? Tantas reportagens nos mostraram que durante o isolamento a natureza é mais feliz, as águas dos oceanos e dos rios estão mais límpidas e transparentes. Estou sentindo que dentro de minha casa e o ar que respiro e o ambiente físico tem menos poluição.

O mais interessante é que na “travessia/epidemia”, a verdadeira sabedoria do isolamento social, nos ajudará a entender que os voos cancelados, as viagens interrompidas, as escolas, universidades, academias e parques fechado... nos aponte que a grande viagem que devemos fazer é pra dentro de nós mesmos. Na interioridade de nosso coração há um lindo “jardim secreto” onde podemos passear
com nossos amigos e amigas, conversar, descansar, sonhar. Em nosso coração existe o mais lindo “santuário” onde posso estar com Deus Trindade em qualquer hora, sem sair de casa, sem buscar um templo ou igreja, hoje fechados.

Em todas as línguas a palavra mais falada é essa mesmo “CASA”...
Sim. “CASA” = moradia, “Casa Comum”, o Planeta. Casa sou eu, é você. Somos todos nós casa habitada pela Trindade, pela vida, pelas pessoas, por sentimentos de todos os tipos, pelo amor, egoísmo, ódio, gratuidade, solidariedade, abertura, alegria. Pois é, não será este o tempo de nos “habitar” de verdade? Estar conosco... visitar nosso "jardim secreto”, contemplar nosso interior? Escutar nossos sentimentos... fazer uma grande faxina em nossa casa interior, para ficar só com aquilo que realmente vale? Deixar o que não serve para nada, a não ser para nos manter doentes, rancorosos, fechados, amargos... quem sabe expulsar os vírus: egoísmo, orgulho, auto-suficiência, consumismo...?

Que tempo fecundo é esse que vivemos!... Estamos “abrigados” em nossas casas. Tão raro esta oportunidade de estarmos juntos, gastar tempo, olhar olho no olho... conversar. Façamos a travessia!

É tempo de “travessias” da “pandemia” para a vida de verdade. De acolhida, cuidado, descobertas, convivência, despojamento. Quantas vezes desejamos e, poucas vezes conseguimos deixar o trabalho, desacelerar o ritmo, parar, curtir, descansar, sonhar o novo... Simplesmente viver em “nossa casa”, estar conosco mesmos.

Vamos qualificar e significar este tempo precioso e singular. Quem sabe único.


Ir. Helena T. Rech, STS
São Paulo, 25 de abril de 2020

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HOJE, HORAS APÓS O QUE ACONTECEU ENTRE BOLSONARO E MORO...


... com a poeira baixa, tive tempo de pensar com mais calma e me dei conta de quantos anos luz a Esquerda, com auxílio da Nova Ordem Mundial, está a nossa frente em planejamento.... Eu explico:

Lembro de Bolsonaro arrastando multidões pelo Brasil, de Norte a Sul, mesmo como Deputado; e as visitas que George Soros fez a Fernando Henrique Cardoso no mesmo período...

A imprensa que escondera o Foro de São Paulo por mais de 15 anos não deu destaque as essas visitas do Líder da Nova Ordem ao passo abafava qualquer reportagem sobre o crescimento de Bolsonaro.

Era claro que aquele Ex-Militar ia dar trabalho e atrapalhar os planos de escravizar a Nação Brasileira, já que ele não entrava nos círculos dos conspiradores... Mas como interromper ou evitar que o povo amasse aquele personagem tão parecido com ele? Já haviam eliminado vários opositores mas acharam que desta vez era melhor usar armas diferentes, como por exemplo a imprensa que o massacraria com falsas acusações...Pelo menos naquele momento acharam melhor não matá-lo.

Eleições se aproximando e aquele Capitão do Exército só crescia nas pesquisas e no coração do povo... FHC recebeu mais algumas visitas de seu patrão George Soros para receber instruções... Precisavam de um plano maior do que apenas usar a Militância, a Mídia e seus marionetes dentro do Congresso e Câmara... Precisavam urgentemente criar uma figura que se igualasse ao Capitão Bolsonaro , mesmo que fosse pelo menos na admiração do povo, Mas quem seria esse personagem se todos os nomes mais populares já haviam perdido suas máscaras e não conseguiam a mesma sintonia com a população?

Precisavam de alguém que tivesse dentro de si os Ideais Progressistas e fosse admirado por desempenhar bem sua função… Sim precisavam de alguém influente como um Juiz que fosse alinhado com o Progressismo e tivesse amizades capazes de convence-lo a iniciar a empreitada de se igualar ao Capitão do Exército que tomava o coração do povo de assalto…

Lembro que o Capitão também mostrava admiração pelo personagem escolhido pelos conspiradores e até tentou cumprimentá-lo ao cruzar com ele num Aeroporto… Mas o Juiz, assim como os conspiradores, o desprezava e se recusou a cumprimentá-lo…
Será que vai dar tempo de parar esse Capitão? Se perguntavam os conspiradores… A ala radical dentre eles decidiu não esperar e decidiram matá-lo como fizeram com outros desafetos... Veio a facada... Mas o que é isso? Como ele foi capaz de sobreviver e estar saindo da situação mais forte ainda? Atenção, voltem ao plano original, mandem o Juiz ligar para o hospital e se desculpar do incidente no Aeroporto e se oferecer para visitá-lo… O Juiz precisava entrar naquele Palácio da Presidência de alguma forma mesmo que fosse como Ministro ou algo assim…Se não conseguissem vencer o Capitão nas eleições que se aproximam, pelo menos teriam um trunfo próximo dele quando precisassem…

E assim foi feito… Desde a eleição do Capitão , tudo que tem sido feito com a ajuda da Mídia, tem sido para diminuir a imagem de Bolsonaro e fortalecer a do Juiz Moro que conseguiu sim, não só’ a admiração de grande parte da população, como também o mesmo nível de amor que o povo tem pelo Capitão.. A Lava-jato milagrosamente começa a prender criminosos poderosos e contando até com votos do próprio STF… Entende agora as condenações de Lula? E claro que ninguém nunca viu Lula atrás de grades reais, e era um sacrifício necessário arriscar a divulgar uma pequena parte dos crimes cometidos pelo molusco… Colocariam Lula num hotel confortável e chamariam de prisão domiciliar… Eu desafio que haja um brasileiro sequer que tenha visto Lula atrás de grades reais…

O resto acho que não preciso explicar…. Com os ataques coordenados de Rodrigo Maia, Alcolumbre e STF também começando a não dar certo, e a popularidade do Presidente eleito só crescendo, os Conspiradores viram que era hora de usarem seu trunfo…. Grande parte da população virou as costas para o Capitão por causa da saída de Moro e finalmente o Plano que começou com as visitas de George Soros a FHC parece estar funcionando…. A população está confusa e indignada por ver o amado Juiz sair do cargo, e nem se deu conta de que aquele personagem, símbolo de honestidade, está mostrando uma outra face, fazendo acusações que fortalecem as conspirações de Maia, Alcolumbe e STF e se igualando até mesmo a seres desprezíveis como o pretenso jornalista Verdevaldo ao dar print de conversas e entregar para o jornalismo porco da Rede Globo

Sim, os esquerdopatas estão séculos a nossa frente em planejamento e organização, a ponto de nos levar a fazer o trabalho sujo para eles, ajudando a destruir o único político em mais de 100 anos que verdadeiramente se preocupa com o Brasil e seu povo…

Sinto nossa chance de liberdade escorrendo entre os dedos…. Ou colocamos nossa cabeça no lugar e apoiamos Bolsonaro, ou os conspiradores irão vencer e dessa vez será sem volta… Espero sinceramente que pensem nisso e compartilhem com seus amigos… Se não concordarem com meus argumentos apenas ignorem e voltem a dormir…

Ayres 
Abril 2020

(Recebi via WhatsApp)


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segunda-feira, 27 de abril de 2020

O PÁSSARO DO POETA HÉLIO NUNES – Cyro de Mattos


O pássaro do poeta Hélio Nunes
Cyro de Mattos


          Foi com a imagem do pássaro que canta o amanhã justo, o amor da amada com a sua carga de ternura constante, o desejo de um mundo para o filho sem as marcas amargas do presente, que o jornalista e poeta Hélio Nunes teceu e aconteceu seu canto no único livro publicado de poesia. Com capa de Santa Rosa, Pássaro do amanhã é como  canto preso na alma, como diz o poeta, “e ele canta por minha boca.”

          Esse pássaro canta pelo amor, o sentimento mais belo,  pela liberdade,  o mais forte,  pela ternura, que está na infância, pela solidariedade aos meninos abandonados de rua, aos adultos que estão presos e não têm  dinheiro para contratar advogado. Se a esperança veste a ternura  com o sorriso da flor, o canto que veste os versos de Hélio Nunes  é revestido de palavras que se abraçam como velhas amigas, nutre-se do brilho das estrelas,  do enlevo na sua tristeza lírica, como quando o poeta vê o tempo passando enquanto navega em barquinhos de papel da doce infância.
  
          Hélio Nunes produz o poema com este sentimento forte do amor, decorrente de  sonhos  que  propõem a vida com braço ao abraço, sem a escuridão da matéria  que prende o dia claro na noite de estrelas apagadas. Mas também marcado por esse desejo de mudanças,  que extirpem as desigualdades, as doenças  sociais alimentadas com a pobreza para o sobejo das corrupções. Não é uma poesia panfletária, pelo contrário, dotada de linguagem fácil,  a  ideia nada tem de artificial. Impressiona com o seu grito, sua verdade na  palavra escrita com fogo, daí que pode ser lembrada em companhia de poetas do timbre de Thiago de Melo e Moacir Félix.

          No antológico poema “Liberdade”,  Hélio Nunes diz de seu entendimento  sobre o que significa palavra tão cara:  O vento corre,  corre,/ cochicha pelos roseirais, / pelos caminhos levanta pó, /pelos ares arvora bandeiras / raivosas de espumas. /Liberdade – o vento foi feito para correr. //A águia voa, voa, /traça no espaço azul /audaciosas linhas /de uma geometria que ainda /Einstein não estudou./ Liberdade – a águia foi feita para voar.//Além um homem falava/ de igualdade e justiça./Tinha nos olhos o mesmo brilho/ de uma estrela matutina./Liberdade – o homem nasceu para pensar.

          Vê-se assim que poucos poetas trataram o tema com o toque de simplicidade, força verdadeira de versos traçados com sons da alma e cores da vida.

          Ele foi um poeta de seu tempo e lugar. Cantou as primeiras  aventuras siderais do homem. Ofertou sorrisos e flores à amada Valquíria,  a companheira  verdadeira, a mulher de fibra  e resignada, com ela teve cinco filhos. De dia como jornalista combativo, à noite construtor de devaneios e sonhos. Certo  é que o livro Pássaro do Amanhã, há tempos raridade bibliográfica, pelo seu conteúdo lírico, desejos límpidos que não são imposições,  cantares que comovem, falares  de atualidade até hoje,   como obra literária e conteúdo humano calcado na  vida sem distorções gritantes  merece ser reeditado. Alguns de seus poemas participam da antologia  Poesia Moderna da Região do Cacau, (1977),  organizada por Telmo Padilha.

          Natural de Aracaju, Hélio Nunes nasceu no dia 17 de abril de 1931.  Fugindo da perseguição policial em 1952, passando por  Cachoeira de São Félix,  veio fixar residência em Itabuna, onde fundou uma gráfica e o “Jornal de Notícias”,  que apresentou em suas páginas uma linguagem diferente  do provincianismo de outros veículos de imprensa locais. Foi também  professor da Escola de Contabilidade local. Fez um manifesto sobre a situação deplorável de crianças que dormiam na rua.

          Perseguido pelo regime  militar de 1964, teve que vender a gráfica por preço insignificante. Fez concurso para escrivão e foi morar sozinho  em Itororó,  naquela comarca  distante de sua residência familiar fez-se eficiente  funcionário da justiça.   Continuou sendo perseguido pelo regime militar,  vítima de processos intermináveis, longe da esposa e filhos,  oprimido por terrível solidão.  Caminhante  pelas valas de grande depressão, faleceu vítima de um enfarto.  É o patrono da cadeira 30 da Academia de Letras de Itabuna.

          Podemos dizer que a sua poesia lírica está entrelaçada com a sua própria vida,   seus versos  refletem o pensamento de  quem  sonhou por um país humano, sem favelados,  crianças anêmicas e bolsões de pobreza, Seu grito não tem o recheio da pieguice,  mas nos chega  irrompido da dor, da solidão solidária, com o seu caldo de sofrimento e beleza.
 
          Abaixo vão transcritos três poemas de Hélio Nunes para despertar, ainda que seja um pouco, a memória esquecida de um bom poeta lírico.

Hélio Nunes (2º na foto)
FOTO: Memoria Grapiúnaprojeto da Fundação Jupará com patrocínio da rádio Morena FM 98.7 e jornal A Região.

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Ode à Lua Artificial

Olha a soviética no espaço
Sem quarto minguante, sem plenilúnio.
Criemos a poética desse novo astro.
Não basta dizermos que o satélite
Ronda a muitos quilômetros de altura.
Precisamos dizer,  por exemplo: amada.,
Numa tarde de domingo iremos de nave
Colher  rosas da primavera marciana.

Olha o homem avançando para o céu.
Houve uma poesia de viagens Marítimas.
É tempo da poesia das viagens siderais.

Eu sei. Um colar alvo de luas artificiais
Envolverá a terra; e pela noite sonhando
Eu oferecerei a Valquíria, noiva minha.


Rosas Rubras

Na madrugada fria de ontem
Um operário tossiu
Lançou rosas vermelhas
Perdidas no chão.

E quando o pedreiro caiu
Do alto do andaime,
Deixou rosas vermelhas
Perdidas do chão.

E o grevista tinha o punho cerrado
Recebeu no peito a fria bala,
Rosas vermelhas desabrocharam
Em seu coração.

Ah! Eu sei, é certo,
A Primavera irromper
Florida de rosas vermelhas.
Perdidas. Não.


Poema ao Meu Filho

Meu filho, chegarás na primavera:
Mil desculpas,  não poderei oferecer-te
Aquele mundo e humano que sonhei.

Meu filho, chegarás na primavera:
Quando adulto, não sê igual aos demais.
Tenhas o coração inquieto e a ternura de Valquíria.

Meu filho, chegarás na Primavera:
Ama e ama. Se te forçarem a odiar,  odeia.
O amor e o ódio têm suas grandezas.

Meu filho, chegarás na primavera:
Rosa e foguetes teleguiados também.
Vê nos povos, brancos e negros, teus irmãos.

Meu filho, chegarás na primavera:
Aos 18 anos, lê estes versos, não são conselhos,
São desejos, devaneios de um pai sonhador...

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Cyro de Mattos é escritor e poeta. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia.  Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Tem livro publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha e Dinamarca. Conquistou o Segundo Lugar do Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro ,  duas vezes, em Gênova, Itália, o  Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras,  o da Associação Paulista de Críticos de Arte   e o Prêmio Nacional Pen Clube do Brasil. 


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domingo, 26 de abril de 2020

O TETRAPLÉGICO SUSCITADO POR DEUS PARA COMPOR A SUBLIME SALVE RAINHA – Plinio Maria Solimeo


26 de abril de 2020


         Plinio Maria Solimeo


            Hoje em dia tudo é pretexto para o aborto, sobretudo quando o feto apresenta anomalias congênitas tidas como insanáveis. O que dizer então quando o ultrassom prenuncia um menino tetraplégico, com os membros e o tronco totalmente paralisados? Que mãe em nossos dias tem coragem e fé suficientes para permitir que ele nasça?  
            Pois foi o que ocorreu no início do século XI com Hermann Contractus, ou Hermano Contraído ou Aleijado, que se tornou um dos maiores gênios já vistos pelo mundo.
            Esse menino tão disforme, incapaz de caminhar ou de se movimentar, e consequentemente incapacitado para qualquer estudo, nasceu no dia 18 de julho de 1013 em Altshausen, na Alemanha.          
Diante de condições tão desfavoráveis, não sabendo como lidar com o filho, seus pais resolveram entregá-lo aos sete anos de idade aos cuidados dos monges beneditinos do mosteiro de Reichenau [foto ao lado], na ilha do mesmo nome, no lago de Constança, onde possuíam um orfanato para meninos. Naquela época de fé, os monges receberam o infeliz Hermann com compaixão e amor, por verem nele uma criatura de Deus. 
             Comenta o site espanhol Religion em libertad, do qual extraímos esta matéria: “Em qualquer civilização não cristã, de qualquer época e latitude, uma pessoa como Hermann teria sido eliminada, ou não teria nascido. Por que seus pais decidiram não eliminá-lo? Por que os monges de Reichenau decidiram não eliminá-lo? Por que ele, nas dramáticas condições de dor física em que vivia, não pediu para ser eliminado? Mons. Luigi Giussani assim nos explica: ‘Porque para ele Deus era incomensuravelmente mais pertinente e existencialmente mais vivo do que para nós. Só Cristo dá um sentido de Deus tão concreto, poderoso, incisivo, dominante e apaixonante’. Sim, só Cristo dá. E uma sociedade que renega este aporte não é uma sociedade mais evoluída ou mais moderna. É apenas uma sociedade mais pobre e mais cínica”.       
Como reagia Hermann à sua quase total paralisia à medida que crescia? Esse aleijado não era um revoltado contra a sua sorte, contra o mundo e contra todos, como se poderia supor em nosso mundo igualitário, mas, por meio de sua profunda fé, aceitava com espírito sobrenatural o quinhão que a Providência lhe reservara, sabendo dar um sentido à sua existência apesar das dificuldades cotidianas decorrentes de uma dor física que lhe causava um sofrimento contínuo. Por isso era uma pessoa alegre, afável, mansa, humilde e acessível; em resumo, era feliz em meio a todas suas limitações.
            Quando os monges começaram a lhe ensinar as primeiras letras, perceberam que Herman possuía uma inteligência muito acima da média, o que o levava a aprender a ler e escrever com facilidade. Então o fizeram estudar. Aprendeu latim, grego e árabe e se tornou perito em várias ciências. Fez-se monge aos vinte anos e passou o resto de sua vida na Abadia que o acolhera.
            Desdobrando-se em solicitude, os bondosos monges haviam construído para ele uma cadeira transportável que lhe permitia ser levado para onde necessitasse. Nela, entretanto, devia permanecer sempre em uma posição, pois qualquer movimento lhe era doloroso.
   
        As limitações de Hermann não o impediram de escrever numerosos livros, entre eles o Chronicon, onde compilou pela primeira vez os eventos desde o nascimento de Cristo até o tempo em que vivia, quando esses dados estavam espalhados em diversas crônicas. Ele os ordenou de acordo com os anos da era cristã. Um de seus discípulos, Bertoldo de Reichenau, continuou o trabalho.

            Hermann escreveu também obras espirituais dedicadas a religiosas e sacerdotes; tratados sobre a ciência da música; diversas obras sobre geometria e aritmética; as gestas de Conrado II e de Henrique III; compôs o Ofício litúrgico de alguns santos (São Gregório Magno, Santa Afra de Augusta, Santos Gordiano e Epímaco e Wolfgang de Regensburg). Além disso, escreveu sequências sobre a Virgem Maria, a Cruz e a Páscoa.
            Quando no final da vida ficou cego, Hermann começou a escrever hinos religiosos, tanto a letra quanto a música, a mais conhecida das quais é asublime antífona Salve Regina (Salve Rainha). Compôs também a letra e música da Alma Redemptoris Mater, que uma alma bem formada não pode ouvir sem profunda emoção.
             Comenta Religion en Libertad“Enquanto compunha o canto da Salve Regina e escrevia o verso gementes et flentes in hac lacrimarum Valle (gemendo e chorando neste vale de lágrimas), Hermann se referia também ao sofrimento que lhe causava sua própria condição física. É incrível que um dos raros hinos que sobreviveram à reforma litúrgica post-conciliar, e que ainda se canta nas igrejas há mais de mil anos, seja precisamente composto por um tetraplégico, um incapaz, uma pessoa que a mentalidade de hoje definiria como ‘indigna de viver’; mais ainda, inclusive ‘indigna de nascer’, e que, com toda probabilidade, na sociedade atual, seria abortada. O fato de que se continue a cantar há mais de um milênio a Salve Regina parece realmente uma dádiva de Deus”.
         
Alguns anos depois, o célebre abade de Claraval, São Bernardo [quadro ao lado], ouvindo essa suave antífona enquanto entrava na catedral de Speyer, na Alemanha, extasiado, ajoelhou-se três vezes, exclamando em cada uma delas: Ó clemens, Ó pia, ó dulcis Virgo Maria! Essas exclamações foram acrescentadas à oração Salve Rainha, completando-a com chave de ouro.
Entretanto, o campo no qual Hermann mais revelou a grandeza de seu gênio foi o da astronomia. São dele dois dos mais importantes tratados sobre o astrolábio, o De Mensura Astrolabii e o De Utilitatibus Astrolabii, com instruções para a construção desse aparelho, na época grande novidade na Europa. Essas obras lhe valeram o epíteto de Prodigium saeculi (milagre do século). Sua fama fez com que o Imperador Santo Henrique III e o Papa Leão IX fossem visitá-lo no mosteiro de Reichenau.
             Continua Religión em Libertad“Dizia Giussani: ‘Como pode uma existência de sofrimento tornar-se tão rica e amável? Essa energia conferida pela adesão à realidade última das coisas permite utilizar também o que o mundo que nos rodeia considera inutilizável: o mal, a dor, o cansaço de viver, a incapacidade física e moral, o aborrecimento, inclusive a resistência a Deus. Tudo pode ser transformado e mostrar maravilhosamente os efeitos de sua transformação quando se vive em função da realidade verdadeira: se ‘se oferece a Deus’, como reza a tradição cristã. Oferecer a Deus qualquer miséria é o contrário da abdicação, de uma aceitação automática, de uma resignação passiva; é o vínculo, afirmado de maneira consciente e enérgica, da própria particularidade com o universal’. Hermann soube ser uma testemunha luminosa dessa transformação em seu oferecimento a Deus com uma serenidade que causou assombro entre seus contemporâneos”.
               Esse gênio santo e sofredor entregou sua bela alma ao seu Criador no dia 24 de setembro de 1054, com apenas 41 anos de idade. Seu fiel discípulo Bertoldo assim descreve seus últimos dias: “Quando, afinal, a bondade amorosa do Senhor se dignou libertar sua santa alma da tediosa prisão do mundo, ele teve uma pleurisia, e sofreu durante dez dias uma grande dor’. Em seu leito de morte, Hermann consolou seu discípulo, que o velava triste, com estas últimas palavras: ‘Não chores por mim, meu amigo. Sinta-te feliz e contente com meu destino. Pensa cada dia que tu também terás que morrer, e esforça-te para estar sempre preparado para esta eventualidade, e reflete sobre tua última viagem, porque não sabes nem a hora nem o dia que me seguirás, a teu queridíssimo amigo Hermann’. Dizendo isto, expirou”, após ter recebido a Sagrada Eucaristia.
               Embora tivesse sido imediatamente venerado como santo, o culto a Hermann Contractus só foi oficialmente confirmado pela Igreja em 1863, quando foi beatificado pelo imortal Papa Pio IX.

Texto da Oração
Salve, Rainha, Mãe de misericórdia, vida, doçura, esperança nossa, salve! A vós bradamos os degredados filhos de Eva; a vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas. Eia, pois, advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei, e depois deste desterro mostrai-nos Jesus, bendito fruto de vosso ventre.
Ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria.
Rogai por nós, Santa Mãe de Deus.
Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.
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