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segunda-feira, 2 de março de 2020

CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2020 - "Fraternidade e vida: dom e compromisso"



Tema: ‘Fraternidade e vida: dom e compromisso’
Lema: ‘Viu, sentiu compaixão e cuidou dele’
Composição: Padre José Antônio de Oliveira
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Ligue o vídeo abaixo:

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Hino da Campanha da Fraternidade 2020


Deus de amor e de ternura, contemplamos
Este mundo tão bonito que nos deste
Desse dom, fonte da vida, recordamos
Cuidadores, guardiões tu nos fizeste.

Peregrinos, aprendemos nesta estrada
O que o bom samaritano ensinou
Ao passar por uma vida ameaçada
Ele a viu, compadeceu-se e cuidou.

Toda vida é um presente e é sagrada
Seja humana, vegetal ou animal
É pra sempre ser cuidada e respeitada
Desde o início até seu termo natural.

Peregrinos...

Tua glória é o homem vivo, Deus da vida
Ver felizes os teus filhos, tuas filhas
É a justiça para todos, sem medida
É formarmos, no amor, bela Família.

Peregrinos...

Mata a vida o vírus torpe da ganância
Da violência, da mentira e da ambição
Mas também o preconceito, a intolerância
O caminho é a justiça e conversão.



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NÃO PACTUAR COM A REVOLUÇÃO — O EXEMPLO DE SANTO AFONSO DE LIGÓRIO


1 de março de 2020
Tomada da Bastilha em 14 de julho de 1789

Plinio Maria Solimeo

No prólogo de sua completíssima biografia de Santo Afonso de Ligório,[i] o erudito historiador e hagiógrafo francês Padre Berthe [quadro abaixo] debuxa em rápidos traços a situação religiosa na França no início do século XX.

Escrevendo em 1906, referindo-se aos nefastos efeitos da diabólica Revolução Francesa: “Já faz 100 anos que a Revolução ataca a Igreja de Deus com um furor sempre crescente. […] Atualmente ela derruba a golpes de machado todas as instituições cristãs: laiciza a família, a escola, o hospital, a caserna, o cemitério e até a rua, proibida doravante ao Deus feito homem”.

Pe. Augustin Berthe

Entretanto, após investir contra o altar e o trono, a Revolução de 1789 fez um recuo tático: com a Concordata de Napoleão e particularmente com a Restauração dos Bourbons em 1814, ela permitiu que a situação religiosa na França de certo modo se recompusesse e a Igreja recomeçasse a inspirar a vida pública dos franceses. Contudo, como os revolucionários não estavam dormindo, mas tinham apenas mudado de tática, ganharam amplamente as eleições em 1879 e começaram a trabalhar para acabar coma influência da Igreja sobre o Estado, ainda relativamente forte.

Assim, nesse mesmo ano suprimiram a obrigação do repouso dominical, e no ano seguinte interditaram as congregações religiosas e expulsaram a Companhia de Jesus. Em 1881 secularizaram os cemitérios, até então ligados à Igreja, e em 1882 laicizaram a escola primária, tirando-a do âmbito religioso.

Mas isso ainda não satisfazia a sanha dos revolucionários: em 1884 eles suprimiram as orações públicas na Câmara dos Deputados e restabeleceram o divórcio. No ano seguinte fecharam as Faculdades de Teologia geridas pelo Estado e laicizaram os hospitais, que até então sob a tutela da Igreja. Em 1886 laicizaram o pessoal de ensino nos estabelecimentos laicos e em 1887 retiraram os símbolos religiosos dos tribunais. Em 1889 decretaram a convocação dos seminaristas e clérigos para o serviço militar, e finalmente, em 1904, romperam as relações diplomáticas com a Santa Sé e decretaram a separação da Igreja e do Estado[ii].

Enquanto os revolucionários demoliam assim toda a influência da Igreja na esfera temporal, o que faziam os católicos, majoritários no país? Como foi possível — pergunta o Padre Berthe — “reduzir os católicos a esse estado de escravidão” na outrora Filha Primogênita da Igreja, sem que houvesse uma reação proporcional?

Para o ilustre eclesiástico, isso só se deu porque os católicos em geral se esqueceram de que a Igreja é militante e, portanto, que devem lutar contra o demônio, o mundo e a carne. Mas, sobretudo, porque “a maioria não quis compreender que o cataclismo de 1789 não foi uma revolução comum, mas a Revolução dos povos contra Deus e contra seu Cristo, a apostasia das nações”.

Eis como o Pe. Berthe descreve a consequência dessa apostasia dos católicos: “Cegos voluntários, em presença das ruínas que se acumulavam, continuavam a repetir ‘que o mal não é tão grande, que todos os séculos se assemelham, e que os homens sempre foram os mesmos’. Eles dormirão em seu otimismo até o dia em que, com a religião e a moral destruídas, a sociedade desmoronará sob os golpes do socialismo”.

Mas é preciso citar os “colaboracionistas” — aqueles católicos “esclarecidos e progressistas” como os há hoje —, “que julgavam que se devia poupar [a Revolução], aceitando seus princípios, louvando como ela a liberdade, o progresso, a civilização moderna, aconselhando mesmo à Igreja de se reconciliar com o direito novo, de sacrificar suas imunidades, e de se mostrar menos intransigente em matéria de moral, de ascetismo, de exegese, de história, de tradições”.

É o que sucede também em nossos dias quando, para adaptar a Igreja ao “espírito do mundo”, se leva tudo de roldão, provocando o desfazimento da vida de família com a avalanche homossexual, a teoria de gênero, o aborto etc., tendo como consequência, sobretudo, a terrível crise que devasta a Santa Igreja.

Continuando com o Padre Berthe, por causa dessa colaboração ou pela falta do espírito de luta, “se nós perdemos bom número de nossas posições, é porque não as quisemos defender muito vigorosamente. […] Em tempo de guerra, todo homem é soldado; em tempo de perseguição, todo cristão deve dizer como os Macabeus: ‘Antes a morte à apostasia!’”.

Qual é a solução que nos apresenta? A que ele propõe era válida para o início do século XX, mas hoje, por causa da profunda crise na Igreja, precisaria de uma adaptação, a qual exigiria uma nova envergadura para combater o mal.

Afirma o autor: “O melhor meio de reanimar nos corações a santa chama do entusiasmo cristão é colocando sob os olhos dos católicos a vida e os combates daqueles que se fizeram cavaleiros de Cristo e de sua Igreja. Nos primeiros séculos, quando o sangue corria aos borbotões, liam-se nas assembleias as Atas dos mártires, e os homens, as mulheres e as crianças, levados pelo exemplo, corriam em busca do suplício”.

O Padre Berthe apresenta Santo Afonso Maria de Ligório [quadro ao lado] como modelo para enfrentar a crise: “Lancemos um simples golpe de vista sobre sua longa carreira e dar-nos-emos conta das vitórias que obteremos sobre os inimigos de Deus se soubermos lutar com o mesmo espírito, a mesma coragem, as mesmas armas desse campeão de nossa santa e nobre causa”.

Ele então sintetiza em poucas linhas o perfil desse grande santo: “Quando o jovem cavaleiro napolitano estava na idade de compreender o que se passava no mundo, três tipos de sectários — os jansenistas, os regalistas e os filósofos — trabalhavam em concerto para arruinar o catolicismo. Voltaire e Rousseau semeavam por toda parte os princípios da Revolução que oprimem hoje o mundo inteiro. Não tendo no coração outra paixão senão a de propagar o reino de Jesus Cristo salvando as almas resgatadas pelo seu sangue, Afonso abandonou seu palácio, seu direito de primogenitura, suas esperanças de futuro [era famoso advogado no Fórum de Nápoles], suspendeu sua espada no altar de Nossa Senhora da Misericórdia e entrou na milícia sagrada, a fim de levar seu socorro ao povo de Deus”.

Continua o Padre Berthe: “Revestido dessa armadura [da penitência], ele empunha o gládio e marcha contra o inimigo. Seu gládio não é o da palavra, como a espuma dos retóricos, mas o gládio do grande Apóstolo, que penetra até a divisão da alma e do espírito e quebra todas as resistências. […] Por toda parte veneram o santo, o taumaturgo, o profeta, porque Deus está visivelmente com ele, a Virgem se digna iluminá-lo com um brilho todo celeste enquanto ele prega ao povo”.

O grande Doutor da Igreja, no entanto, deseja fazer render todos os talentos que recebeu do Criador. “Ele deseja que todos os cristãos se compenetrem de seu espírito cavalheiresco. Por seus numerosos escritos dirigidos às diversas classes da sociedade, ele se esforça para despertar por toda parte a fé, o amor de Jesus Cristo, o zelo pela salvação das almas. Suas calorosas exortações vão encontrar os bispos em seus palácios, os padres em seus presbitérios, os religiosos e as religiosas em suas celas, os próprios reis em seus tronos”.

Finalmente, conclui o Padre Berthe: “E quando esse grande homem, apóstolo, fundador, bispo, asceta, moralista, apologista, tinha assim, durante meio século, sustentado a Igreja e repelido o mundo, Deus lhe pôs sobre os ombros a cruz de seu Divino Filho, e o fez subir, durante 20 anos, a montanha do Calvário. […] Crucificado em seu coração até se ver caluniado junto ao Papa e expulso da Congregação da qual era fundador, ele exclamou: Fiat! Crucificado em sua alma até sentir-se abandonado pelo próprio Deus, ao bordo do inferno, cercado de demônios que o incitavam ao desespero, ele aceita a prova, triunfa de todos seus inimigos e morre sorrindo à Virgem Maria, que vem buscá-lo para conduzi-lo ao Céu. […] Os católicos mais ou menos seduzidos pela ilusão liberal aprenderão do santo Doutor a morrer antes que transigir com a Revolução ou ceder a Satã um só dos direitos que pertencem a Cristo e à sua Igreja”.


[i]R.P.Berthe, Saint Alphonse de Liguori – 1696 – 1787, Tomo I, Librairie de laSainte Famille, Paris, 1906.




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domingo, 1 de março de 2020

SEUS OLHOS SÃO DOIS SÓIS – Wagner Borges


Clique sobre a foto, para vê-la no tamanho original:

Que jamais, em tempo algum, o teu coração acalente o ódio. Que o canto da maturidade jamais asfixie a tua criança interior. Que o teu sorriso seja sempre verdadeiro. Que as perdas do teu caminho sejam sempre encaradas como lições de vida. Que a música seja tua companheira de momentos secretos contigo mesmo. Que os teus momentos de amor contenham a magia de tua alma eterna em cada beijo.

Que os teus olhos sejam dois sóis olhando a luz da vida em cada amanhecer. Que cada dia seja um novo recomeço, onde tua alma dance na luz. Que em cada passo teu fiquem marcas luminosas de tua passagem em cada coração. Que em cada amigo o teu coração faça festa e celebre o encanto da amizade profunda que liga as almas afins. Que em teus momentos de solidão e cansaço esteja sempre presente em teu coração a lembrança de que tudo passa e se transforma, quando a alma é grande e generosa.

Que o teu coração voe contente nas asas da espiritualidade consciente, para que tu percebas a ternura invisível tocando o centro do teu ser eterno. Que um suave acalanto te acompanhe, na Terra ou no Espaço, e por onde quer que a Luz Divina leve o teu viver. Que o teu coração sinta a presença secreta do inefável. Que os teus pensamentos, os teus amores, o teu viver, e a tua passagem pela vida sejam sempre abençoados por aquele amor que ama sem nome. Aquele Amor que não se explica, só se sente.

Que esse Amor seja o teu acalanto secreto, viajando eternamente no centro do teu ser. Que esse Amor transforme os teus dramas em luz, a tua tristeza em celebração, e os teus passos cansados em alegres passos de dança renovadora. Que jamais, em tempo algum, tu esqueças da presença que está em ti e em todos os seres. 
Que o teu viver seja pleno de PAZ E LUZ.  


"Gotas de Crystal" <luciacrystal@gmail.com>

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PALAVRA DA SALVAÇÃO (172)


1º Domingo da Quaresma – 01/03/2020

Anúncio do Evangelho (Mt 4,1-11)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós!
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor!

Naquele tempo, o Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo. Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites, e, depois disso, teve fome. Então, o tentador aproximou-se e disse a Jesus: “Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães!” Mas Jesus respondeu: “Está escrito: ‘Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus’”.
Então o diabo levou Jesus à Cidade Santa, colocou-o sobre a parte mais alta do Templo, e lhe disse: “Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo! Porque está escrito: ‘Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito, e eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’”. Jesus lhe respondeu: “Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus!’”
Novamente, o diabo levou Jesus para um monte muito alto. Mostrou-lhe todos os reinos do mundo e sua glória, e lhe disse: “Eu te darei tudo isso, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar”. Jesus lhe disse: “Vai-te embora, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás ao Senhor, teu Deus, e somente a ele prestarás culto’”.
Então o diabo o deixou. E os anjos se aproximaram e serviram a Jesus.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Roger Araújo:

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“O Espírito conduziu Jesus ao deserto...” (Mt 4,1) 

Na experiência do batismo, Jesus escutou a voz do Pai. Trata-se do principal momento teofânico de sua vida, juntamente com a transfiguração. Mateus se serve deles para proclamar que a identidade de Jesus consiste em ser o Filho amado do Pai. Essa é sua identidade e nela se revela que seu “código genético” consiste em ser o Filho, o Amado, o Predileto..., sobre quem se visibiliza a complacência do Pai.

Agora podemos compreender sua ida ao deserto, movido pelo Espírito, como uma necessidade imperiosa de “processar”, no silêncio e na solidão, essa revelação, de alargar espaço, em sua interioridade, para o deslumbramento e o assombro.

O significado do deserto não é prioritariamente o penitencial. “Levá-lo-ei ao deserto e falar-lhe-ei ao coração”, tinha dito Oséias (2,16), convertendo o deserto em um lugar privilegiado de encontro pessoal e de escuta da Palavra. Jesus é conduzido ao deserto para acolher a Palavra escutada em seu coração no momento de seu batismo. Ele precisava de tempo para assentar no mais profundo de seu ser uma Palavra que o descentrasse para sempre de si mesmo e o situasse à sombra da ternura incondicional de Alguém maior.

O evangelista Mateus apresenta a estadia de Jesus no deserto como um tempo de lucidez, fazendo-nos perceber que a relação filial da qual Ele tinha tomado consciência, iluminou de tal maneira sua visão, que se tornara impossível confundir a Deus com os falsos ídolos que o tentador lhe apresenta: um deus em busca de um mágico e não de um Filho; um “deus” contaminado das vazias pretensões do pior da condição humana: ter, brilhar, ostentar poder, exercer domínio...

O que parece claro é que Jesus buscou o deserto para um tempo de discernimento, em oração e em solidão, diante do Pai que o proclamou seu Filho; Ele teve de refletir e discernir sobre o modo como assumiria sua missão em sua vida pública.

Ora, essa missão comportava, de fato, não só um fim que havia de realizar (a salvação e a libertação total da humanidade) senão, também, um meio, ou seja, um caminho e uma maneira de proceder, tendo em vista alcançar aquele fim. E esse meio ou esse procedimento era, essencialmente, a solidariedade com todos os pecadores e excluídos da terra, a ponto de morrer com eles e por eles.

Não podemos esquecer que o tentador não propõe a Jesus que se afastasse de seu fim, ou seja, de seu projeto messiânico de salvação (“Se és o Filho de Deus...”), senão que, na realidade, o que ele faz é oferecer a Jesus alguns meios determinados para realizar a implantação do Reino do Pai.

Como viver sua missão e a partir de quê lugar? Buscando seu próprio interesse ou escutando fielmente a Palavra do Pai? Como deverá atuar? Dominando os outros ou pondo-se a seu serviço? Buscando sua própria glória ou a vontade de Deus? Centrando sua vida na busca de poder e riqueza ou assumindo uma vida pobre, como expressão de solidariedade com os mais excluídos?

Na cena das tentações, vemos Jesus reagindo do mesmo modo como fez ao longo de toda sua vida: centrado e em sintonia afetiva com tudo aquilo que Ele vai descobrindo como o querer de seu Pai: a vida abundante daqueles que veio buscar e salvar. Ele não veio para preocupar-se de seu próprio pão, mas de preparar uma mesa na qual todos pudessem se sentar para comer; Ele não veio para que os anjos o carregassem sobre as asas, para angariar fama e “ter um nome”, mas para dar a conhecer o nome do Pai e carregar sobre seus ombros todos os perdidos, como um pastor carrega a ovelha extraviada. Não veio para possuir, dominar ou ser o centro, mas para servir e dar a vida.

O que livra Jesus de cair nos enganos do tentador é sua excentricidade, sua referência ao Pai e à sua Palavra, e, a partir desse Centro, receberá o impulso para abandonar o deserto e se deixar conduzir pela corrente de Vida, alimentada pelo Espírito. A partir desse momento, vê-lo-emos caminhando pela Galileia, entrando em relação com o mundo dos pobres e excluídos, anunciando o Reino, criando uma nova comunidade de vida, buscando colaboradores, aproximando-se das pessoas, entrando nas casas, acolhendo, curando, ensinando, abrindo um horizonte de sentido para a vida das pessoas...

A passagem evangélica das tentações também nos inspira a encontrar com o mesmo Deus a quem Jesus conheceu no deserto: um Deus que não exige de nós proezas nem gestos espetaculares, mas somente alimentar nossa confiança n’Ele e nosso agradecimento; um Deus que nos dirige sua Palavra, não para nos impor obrigações ou para apontar nossas fragilidades, mas para nos alimentar e nos fazer crescer; um Deus que não é encontrado nos lugares carregados de prepotência, de poder, de vaidade e consumismo, mas nos lugares do despojamento e da simplicidade de vida, nos lugares dos “descartados” e excluídos.

Muitas vezes pensamos que Deus é um “estraga-prazeres”, ou um Deus triste que não quer que vivamos prazerosamente. E, então, temos a sensação que as tentações são essas coisas fascinantes que nos seduzem, mas que temos de renunciá-las em nome de uma suposta “perfeição”. Porém, Deus não é Aquele que complica nossa vida com leis, sacrifícios, renúncias... Ele quer que vivamos e, de maneira intensa.

Para cruzar os desertos da vida é preciso ativar uma atitude de esvaziamento de tudo aquilo que é “peso morto” para chegar ao mais profundo e verdadeiro de nosso ser. O deserto nos revela de onde viemos e para onde vamos; ele nos remete inteiramente ao Doador da vida e desperta outros recursos vitais, aninhados em nosso interior.

Tudo o mais é pouco para a sede do coração. “Só Deus basta”, nos sussurra o deserto.

Desde sempre, a humanidade inteira e cada um de nós, estamos expostos à tentação. Faz parte de nossa condição humana. Trata-se de um conflito permanente que pode travar nossa existência por dentro.

Por um lado, sentimos o apelo e o impulso para o bem, para a liberdade, para o compromisso e a fraternidade. Mas por outro, sentimos também a sedução e a tendência para o egocentrismo, o prestígio e os instintos de poder e posse. Sentimo-nos simultaneamente santos e pecadores, oprimidos e libertados.

As tentações sempre estão diante de nós, como pedras que se convertem em pães, como aplauso buscado a partir dos critérios do mundo, ou como joelhos que se dobram frente às promessas de um ídolo com pés de barro.  São dinamismos que bloqueiam o fluxo da vida, impedindo-a de se expandir e de se colocar a serviço de outras vidas.

Ser tentado é próprio do humano, mas o que é divino pode também ser encontrado em nosso interior.

Quem é conduzido pelo Espírito, é capaz de acessar à própria interioridade e não se deixa enredar pelos estímulos externos nem pelos impulsos egóicos.

Diante das tentações do poder, do ter e do prestígio, o(a) seguidor(a) de Jesus responde com a partilha, o serviço, a comunhão, a solidariedade... O tempo quaresmal vem ativar esse dinamismo expansivo. E a Campanha da Fraternidade nos motiva a fazer da vida um grande dom e um profundo compromisso.

Só quem se deixa conduzir pelo Espírito, como Jesus, consegue romper com tudo aquilo que atrofia a vida; só assim consegue fazer o salto libertador

Trata-se de ser dócil para deixar-se conduzir pelos impulsos do Espírito, por onde muitas vezes não entende e não sabe. É Ele que ativa o que há de melhor em si mesmo, expandindo sua vida em direção aos valores do Reino: desapego, serviço, esvaziamento do ego...

Na realidade, só existe uma “grande tentação” para os cristãos: a tentação radical da infidelidade a Cristo e a seu Reino. É a tentação de traçar para si mesmo um caminho, isto é, de projetar uma vida para si, dando uma direção diferente daquela que lhe deu o próprio Deus. Esta é a maneira de trair o melhor de si mesmo, de renunciar ao que há de melhor em si mesmo. Tentação essa que significa o fracasso da própria vida.

Texto bíblico: Mt 4,1-11
Na oração: Diante de “Jesus tentado”, recorde experiências pessoais de tentação: quais são aquelas que mais lhe afetam e lhe seduzem? Como você procede para não se deixar conduzir e nem se determinar por elas?
- Recorde dimensões da vida que precisam ser ampliadas a partir da experiência do deserto. 

Pe. Adroaldo Palaoro sj


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sábado, 29 de fevereiro de 2020

A REVOLUÇÃO DE ITABUNA – Carlos Pereira filho


            Esta falada revolução de Itabuna, explicava Carlos Sousa ao seu companheiro de palestra, o Tourinho da farmácia, tinha interpretações diversas, mas a interessante é a que contava Adolfo Lima, que foi secretário da Prefeitura. Esse Adolfo Lima, ponderou o farmacêutico, é cidadão inteligente e preparado. Viveu por aqui decentemente, metido nessas políticas e saiu limpo, sem roubar e sem matar, para viver em Ilhéus.

            A história da revolução, repetiu Carlos Sousa, é ótima. O prefeito Antônio Gonçalves Brandão começou a manobrar safadamente para fazer um candidato ao seu gosto e por isso rompeu com o partido que sustentava a candidatura de José Kruschewsky. Do lado de Brandão formaram Paulino Vieira, Afonso Ligouri, Astério Rebouças, Filadelfo Almeida. Firmino Alves e Henrique Alves ficaram na moita, soprando a fogueira para queimarem Zezinho Kruschewsky e Gileno Amado.

            Em Salvador, as coisas não andavam boas, nem poderiam andar, com a política fervendo, entre o Governador Moniz e Arlindo Leone, de quem o deputado itabunenses era correligionário e amigo. Um dia, Antônio Moniz chamou ao palácio Gileno Amado e disse-lhe: “Pelo que vejo você está sozinho, em Itabuna”. Gileno ouviu, queimou de raiva e saiu do palácio. Efetivamente, estava sozinho, ou quase sozinho, com a traição do prefeito e dos amigos. No passeio do palácio, ao sair, encontrou o sargento Belarmino, um caboclo grosso e simpático, cara de homem de coragem.

            Chamou Belarmino e disse-lhe: - Belarmino, você tem coragem para cumprir uma missão arriscada?

            - Tenho até para morrer, é questão do senhor determinar.

            - Então, ouça, Belarmino: pegue o seu fuzil, embarque no vapor que sai hoje, para Ilhéus. Em Ilhéus tome o trem, vá a Itabuna e entregue esta carta ao prefeito, vivo ou morto.

            - Vivo ou morto, eu ou o prefeito? – indagou espantado, o sargento.

            - Um ou outro, Belarmino, como preferir, o caso é que entregue a carta.

            Ordens dadas, ordens cumpridas. Belarmino apanhou o fuzil, encheu a capanga de balas, despediu-se da amante que morava numa casa da Rua da Misericórdia, beijou-a e abraçou-a, arranjou umas fitas milagrosas do Senhor do Bonfim e embarcou no “baiano” para Ilhéus, na terceira classe, cheia de sergipanos enjoados. Uma viagem desgraçada, vento sul contra, mar pela frente, prenúncio de maior temporal. O comandante do navio Jequitinhonha, um homem vermelho de nome Correia, quanto mais o navio jogava, mais ele bebia.

          No dia seguinte saltou em Ilhéus, e foi descansar no quartel para viajar no dia imediato, no trem das sete horas. De vez em quando apalpava o dinheiro que o deputado lhe dera, cem mil-réis e pensava na tal ordem – “ou vivo ou morto”. Era o diabo, mas cumpriria a ordem, “ou vivo ou morto”. Teve uma ideia. Foi à estação e comunicou para Itabuna, pelo telefone, que no outro trem, estaria lá com uma força.

            Realmente, no dia marcado às 11 horas saltou do trem na estação de Itabuna com o fuzil na mão, e a passo militar. A estação estava deserta. Um ou outro curioso, um ou outro espião. Aproximou-se de um soldado que deparou na rua e ordenou que o acompanhasse e disse alto para ser ouvido: “a tropa vem aí”.

            Com o companheiro, marchou para a casa do Prefeito Brandão. Lembrou-se da recomendação: “vivo ou morto”; apalpou a carta, o dinheiro, sacudiu a capanga para ouvir o tinir das balas, umas contra as outras, e enfiou pela porta da residência do Prefeito, apartando os homens de cara feia que encontrava no caminho. Perfilou-se diante do prefeito, entregou a carta e disse marcial: “Dê-me, as ordens”. Pode retirar-se! Exclamou o prefeito. E Belarmino, militarmente, saiu, como havia entrado.

            Perto da Rua do Lopes, observou que um grupo marchava em sua direção e, incontinenti, atirou contra o grupo que correu, tendo um jagunço perdido o chapéu arrancado por uma bala. Ao mesmo tempo os “cauassus”, que guardavam a residência de José Kruschewsky, começaram a atirar também e estabeleceu-se um tiroteio do diabo. Um sujeito passou correndo e gritou: “A tropa da polícia tomou a cidade, está chegando por todos os lados”.

            Paulino Vieira, Henrique Félix correram, fugiram ou se esconderam. Belarmino soube da notícia, marchou para o esconderijo dos jagunços foragidos de Paulino Vieira e nas pastagens ao lado apanhou todo o armamento jogado fora na carreira da fuga. Estava terminada a revolução.

            Foi ao telégrafo e passou o seguinte despacho: “Deputado Gileno Amado estou vivo, movimento dominado. Mande as ordens”.

(TERRAS DE ITABUNA – CAPÍTULO XVI)
Carlos Pereira Filho

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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

AINDA FACULDADE DE DIREITO - Cyro de Mattos

Ainda Faculdade de Direito

Cyro de Mattos 


          Ingressei na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia quando era localizada na Praça da Piedade, nas imediações do Gabinete Português de Leitura, terminando o curso no prédio novo  construído no Vale do Canela.

          Informo que na minha turma da Faculdade, idos de 1958 a 1962, havia o deputado federal Raul Ferraz, o deputado estadual Arquimedes Pedreira e a Desembargadora Lucy Lopes Moreira. O pensador social João Berbert, o que se foi tão cedo na viagem sem regresso. O padre Jair e o pianista Mário Boavista. Havia também uma juíza da Justiça do Trabalho, Marietinha, a pequena notável. Um juiz da Justiça Comum, Artur Caria, que usava óculos de lentes fortes, e o jurista Dylson Dórea, a causar espanto com o brilho de sua memória. O casal João Pedro e Célia, os noivos Eduardo Adami e Lícia. A estonteante Ynessa. O empresário Marcelo Gomes, alegre baterista do conjunto que tocava na faculdade, à noite, aos sábados. O nigeriano Edvaldo Brito, tributarista admirável, ‘’croner’’ do conjunto e o orador da turma. O civilista Antônio Luís Calmon Teixeira, de fino trato e jeito manso, campeão imbatível de pesca submarina nas águas do Rio Vermelho. O sinfônico Afrânio, tocador de oboé e outros instrumentos de música erudita. Os craques Adalberto, Jair, Marcelo Santos e Cadilaque. O filósofo Álvaro Peres, o poeta maior Ildásio Tavares, o magnífico romancista João Ubaldo Ribeiro e o arguto crítico literário Davi Sales.

          Ressalta o cronista as molequeiras do delegado Dermeval Pó-Secante. As aventuras do Mascate Edvaldo Bispo, consagrado por tribos comedoras de gente como “O Grande Cacique Turgulês”, quando das suas negociações de terras devolutas no Baixo, Médio e Alto Amazonas. O faro incorrigível do promotor Cícero de Magalhães para descobrir as batidas mais gostosas nos botecos escondidos da Cidade Baixa. Os estudos abalizados do recatado Vilaboim, sempre recolhido à elaboração do vigésimo e último volume da primeira parte de seu Tratado Puro de Direito Internacional decorrente do comportamento atávico do urubu nas correntes aéreas.

          Se lembrar é maneira de conhecer a vida, amá-la no vertical aceno das distâncias, como é bom saber que tive dentro daquela faculdade uma juventude marcante, a inscrever no tempo um calendário feito de sensações ricas, gestos discordantes e atos solidários. Discussões acaloradas aconteciam num ambiente de companheirismo, as opiniões se fazendo livres em seus ritmos de passagem. O pensamento ideológico conflitava-se e terminava muitas vezes em amizade permanente, o ideal dava lugar às relações cotidianas fora das dimensões críticas.

          De anel no dedo e diploma na mão, regressaria ao Sul da Bahia com muitas lembranças agradáveis de meus idos acadêmicos na gloriosa Faculdade de Direito. Depois de muitos anos de militância profissional, questionando o percurso do moço do interior que se fez advogado, proclamaria dentro de mim a certeza dos que não se agacharam neste chão verbal  da lei com suas ervas daninhas nestes versos:
           
O sinete cônscio sempre
para deslindar os cipós
na terra a se fazer limpa
refrescada pela chuva
fecundada por um sol
com seus raios quentes
na pauta e julgamento,
o mundo desses crimes
nos porões e sonhos
de minha própria lei”.


Cyro de Mattos - é escritor e poeta. Publicado por várias  editoras na Europa. Premiado no Brasil, Itália, Portugal e México. Membro da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz-UESC.


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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

O COLÉGIO – Helena Borborema



             Ana Maria acabara de receber o pacote de maçãs trazido do mercado pela empregada. A manhã já ia pelo meio e ela havia convidado amigos para o jantar. Por que não fazer logo com aquelas maçãs a torta que havia desejado para a sobremesa da noite? Nesse sentido, começou a descascar as frutas. As maçãs eram vermelhas, bonitas, e o seu cheiro ativo logo impregnou todo o ambiente. Mas uma coisa estranha acontecia: aquele perfume sempre lhe lembrava coisas da infância, como as viagens de navio para Salvador quando, enjoada, só comia maçãs, ou as das merendas que levava para o colégio, quando no curso primário. Por isso ela hoje as detesta. Mas naquele momento veio-lhe de imediato à memória as maçãs grandes, vermelhas e cheirosas, que o pai comprava para ela no bar do senhor Elias Grimann.

            O senhor Elias era um lituano alegre, baixo e magrinho, muito educado, dono do Elite Bar, onde vendia frutas importadas, vinhos e licores finos, bombons e chocolates também importados. Porém entre os artigos mais procurados em seu estabelecimento, estavam os finos biscoitos “Aimoré”, embalados em bonitas latas com a figura de um também bonito índio impresso na tampa. E naquele momento, meu Deus! Como podia ser? – pensava Ana Maria. Como um passado de tantos anos podia voltar de repente, tão vivo, tão real, trazido pelo aroma de uma fruta? Uma lembrança olfativa e visual ao mesmo tempo, pouco a pouco lhe trouxe imagens que foram ficando cada vez mais vivas, e ela se viu no pátio de um colégio. Sim, era ela mesma, o uniforme do colégio que era o mesmo, saia azul de pregas, blusa branca e gravata também azul. Ela sorria com uma bonita maçã vermelha na mão. Era um recreio de meninas.

            Ana Maria não quis deter suas lembranças. Era bom recordar aquele passado que julgara estar muito para trás, mas que agora via, nítido, real. O pátio do colégio estava ali à sua frente, era o pátio de recreio do Colégio Divina Providência. Ela o reviu perfeitamente. Parou de descascar as maçãs, evocando mais acuradamente a cena. E um tempo passado voltou, uma fase de sua vida reviveu. Era menina, do primeiro ano primário, quando começou a frequentar aquele educandário, então dirigido por um grupo de religiosas. Uma a uma as figuras das freiras foram lhe surgindo como os olhos da mente as guardaram. Viu uma baixinha, gorducha, de olhos meio esverdeados, ar sarcástico, com quem ela nunca simpatizou. Foi sua professora nos dois primeiros anos primários, mas nunca soube cativar a amizade da menina. Viu ainda, nitidamente, uma outra de sobrolho carregado, que foi também sua professora e de quem também não guardou lembrança agradável. Outras figuras foram surgindo uma após outra, professoras, colegas, imagens distantes, mas redivivas. Sorriu quando viu a figura, alta, corada, nariguda, de sua primeira professora de piano, uma freira do Rio Grande do Norte, única de quem gostou por ser ela talvez a mais afetuosa.

            Ana Maria se deteve no trabalho para bisbilhotar melhor aquele cenário que a lembrança desenterrara. Viu-se no dia de sua Primeira Comunhão, na capelinha de Santo Antônio, com mais duas colegas cujas fisionomias o tempo apagou. Foi durante uma missa muito bonita, toda cantada, pois as freiras festejavam o dia da padroeira da Ordem. Com este pensamento, chegou-lhe à boca o gosto das empadas de camarão que sua mãe encomendara para aquele dia de festa, feitas por dona Santinha, uma portuguesa casada com o jardineiro da Prefeitura, também português. Empadas de preparo inigualável, tão bem feitas e saborosas que ficaram na lembrança, desafiando o tempo.

            Foi com as freiras do Divina Providência que Ana Maria iniciou o seu estudo de religião através do catecismo e das leituras da História Sagrada da conceituada Editora F. T. D. Este livro para escolares, de linguagem simples, com ilustrações, narrava todas as passagens do Antigo e do Novo Testamento de modo agradável, atrativo. Data dessa época, o curso primário, o seu conhecimento de todos aqueles personagens bíblicos, como por exemplo, Absalão, cuja figura ela guardara na retina, com a sua farta cabeleira presa aos galhos de uma árvore, e um soldado ao lado com a espada desembainhada para o matar. A leitura da História Sagrada expusera para ela, ainda menina, o mundo das figuras bíblicas como Abraão, Isaac, Moisés, Davi e outros. O sacrifício de Abraão no monte Moriá a deixara impressionada pela atitude corajosa do patriarca. Só o que lhe causava cisma era a figura de Deus Pai, representada por um velho de longa barba branca, de aspecto severo, que lhe impunha um respeito enorme, até um certo temor.

            Foi também no Divina Providência que ela aprendeu a segurar a agulha para bordar, nas aulas diárias de costura, à tarde, a que todas as alunas eram obrigadas a frequentar. Essas aulas começavam às 14 horas e o sinal era dado pelo apito do trem e iam até às 16 horas. No fim do ano letivo, os bordados adornando almofadas ou transformados em toalhas, blusas, paninhos diversos, eram apresentados em grande exposição, com o comparecimento das mães das alunas e visitantes. Ainda no final do ano Letivo, as freiras faziam para as famílias das alunas uma grande festa com representações teatrais, bailados, poesias, e no final, de modo solene, a leitura de notas de cada aluna e a distribuição de medalhas àquelas que fizeram jus.

            Além das matérias tradicionais do currículo e das aulas de bordado, as alunas tinham toda semana uma hora de aula de civilidade. Nessa ocasião eram ensinadas as boas maneiras, como se portar à mesa na hora das refeições, na sala de visitas, como tratar os superiores e empregados, a boa postura ao se sentar, ao andar, ao falar e ao rir, as atenções para com um hóspede. Enfim, por mais “botocuda” que fosse a aluna, tinha ali com as religiosas, a boa educação. Uma educação pode-se dizer, integral. O amor à Pátria era incentivado com os hinos no fim da tarde, bem como a exaltação à figura dos Santos, também invocados em hinos e orações, para começar e encerrar os períodos de aula. A Instrução Moral e Cívica, matéria que infelizmente foi abolida, também fazia parte do currículo.

            Quando uma aluna terminava o curso primário, mesmo que não desse continuidade aos estudos, já levava com ela um bom conhecimentos das matérias elementares, boa caligrafia e uma boa formação cívica, moral e religiosa. Para as alunas que quisessem, ainda havia um curso particular de piano, ministrado por uma das freiras. O Divina Providência veio para realizar em Itabuna uma missão importante numa época em que a cidade sentia de maneira premente a necessidade de um educandário.

            À noite, durante o jantar, essas lembranças de Ana Maria foram abordadas como um dos temas de conversa. Opiniões foram surgindo, comentários e elogios unânimes cercaram o Colégio Divina Providência, que como o próprio nome diz, gozou sempre da proteção de Deus.

            Entre as amigas presentes, uma lembrou-se da cisterna que havia no pátio do colégio, fechada por grande tampa de cimento e com uma bomba para levar água ao edifício, foi lembrada também a cozinha, onde a figura de proa era Porcina, cozinheira das freiras e perita no preparo de um alféloa, que fazia a delícia das meninas no recreio. Uma particularidade do Divina Providência era o seu internato, que abrigava grande número de meninas que moravam fora da cidade, e que sem essa casa de ensino teriam seus estudos dificultados.

            “E o prédio?” – observou outra amiga. Como se conservou a fachada, coisa difícil em Itabuna que pouco preserva o seu patrimônio! Realmente, o Divina Providencia tem mais esse mérito, o de conservar até hoje as suas características arquitetônicas iniciais. Nada mudou externamente, só o interior teve de ser alterado para ampliação das salas de aula, auditório, atendendo exigências outras do ensino moderno.

            No bate-papo do jantar, foram ainda lembradas as figuras daqueles homens idealistas e dedicados a Itabuna, a cujos esforços a cidade deve esse seu patrimônio cultural. O Divina Providência nasceu do idealismo e esforços de homens como Monsenhor Moisés Gonçalves do Couto, então vigário da Paróquia; Dr. Celso Fontes Lima, que até o fim da vida dedicou todos os seus esforços em defesa dos interesses do Colégio; senhores Ramiro Nunes de Aquino, Otávio Mendonça, Antônio Lúcio da Silva e alguns outros (todos pertencentes à Sociedade de São Vicente de Paula, de Itabuna), e mais tarde fortalecido pelo esforço e dedicação de dona Lindaura Brandão de Oliveira, sua diretora por vários anos.

            Após alguns anos de bons serviços, as Religiosas deixaram o Colégio, quando ele passou então para as mãos de professores não-pertencentes à ordem religiosa.

            A instalação do curso ginasial no Divina Providência foi um marco importante na vida de Itabuna. Antes disso, nem todos os jovens da cidade e da região podiam ter acesso ao ginásio. Só quem possuía muito dinheiro ou se atrevia a arcar com enorme sacrifício podia mandar um filho estudar em Salvador. Estudar na Capital era difícil, a começar pela viagem. Feita de navio, que nem sempre tinha viagens regulares, passou a ser feita também, a partir da década de trinta, por via terrestre, nas chamadas marinetes. Com as estradas em construção, a viagem era feita em duas etapas, o que equivalia a dois dias. Via Itabuna-Jequié, via Itabuna-Conquista. A comunicação da família com o filho estudante era outra dificuldade, só feita por telegrama, que quase sempre chegava atrasado ao destinatário, ou por meio de carta que, não raro, extraviava. Então muitas famílias pagavam a um correspondente, senhor de confiança que uma vez por mês ia a Salvador, levando dinheiro, carta, doces, roupas, encomendas para o filho estudante. O mais procurado era um senhor de nome Tranquilino. Na volta, trazia para a família as esperadas notícias, com a vantagem de ter falado a viva voz com o jovem.

            Cada amiga presente ao jantar tinha uma lembrança na família nesses tempos difíceis e dispendiosos, pois todo jovem estudante que ia do interior tinha que ficar interno no colégio, o que era muito caro, ou num pensionato, o que custava também muito dinheiro, salvo para aqueles  que tinham parentes em Salvador. Assim, a criação do curso Normal e depois o Ginasial no Divina Providência foi tão importante, que Itabuna podia ser marcada por duas épocas: antes e depois do Divina Providência.

            Como o sol esparge a luz, o Divina Providência espargiu pela Bahia um exército, um número incontável de jovens que hoje engrandecem a terra onde nasceram ou vivem. Em todas as profissões brilham nomes de ex-alunos do Divina Providência. Na Medicina, no Direito, na Odontologia, Artes Plásticas, Comércio, Engenharia, na Magistratura, no Clero, na vida pública, na política, no Jornalismo, nas Oficinas, no Exército, em todos os setores enfim, está um homem ou uma mulher bem preparado, que recebeu como alicerce de sua formação os ensinamentos do Ginásio Divina Providência.

            Ana Maria terminou o seu jantar com a alegria das boas  lembranças surgidas, boas recordações, lembrando que também daquele colégio ela saiu para continuar  os seus estudos e para ele voltou mais tarde, como professora, indo lecionar nas mesmas salas onde anos antes estudara, pisar o mesmo pátio onde, menina, já merendara risonha, bonitas e lustrosas maçãs vermelhas.

(RETALHOS)
Helena Borborema


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