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terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

A RUA PAULINO VIEIRA - Helena Borborema


Foto Waldyr Gomes
  
           Para uma criança, no meu tempo era bom demais morar na Paulino Vieira. Antiga rua da Laranjeira, sempre foi uma rua estreita, o que permitia a seus moradores um conhecimento pelo qual todos se davam bem. Situada perto do Rio, tinha a vantagem de proporcionar às famílias que nela residiam, mais facilidade de água para o gasto, numa época em que esta dependia exclusivamente dos aguadeiros que, com seus barris no lombo de um jumento, enchiam os tanques das residências. Isto lá pelas décadas de vinte e de trinta. A proximidade do rio oferecia ainda aos meninos da rua os banhos de folguedo após as aulas da tarde. Tomar banho no rio era uma diversão que não deixava de ser preocupante para os pais, em virtude dos “peraus”, lugares profundos e traiçoeiros que existiam em água aparentemente tranquilas. Um desses “peraus” ficava num trecho chamado Pau de Alho, e o outro mais adiante, na Pedra do Gelo, em frente à fábrica desse produto. Esse trecho perigoso do Rio Cachoeira ficava em frente da atual avenida Fernando Cordier. Situada perto da fábrica de gelo, a Paulino Vieira dava aos seus moradores mais facilidade de adquirir esse produto, vendido sob a forma de grandes barras, e que era muito importante numa época em que não existia ainda nas casas a geladeira. Essa fábrica, situada na beira do rio, mais ou menos no local onde se ergue hoje o edifício Santa Paula, era propriedade do senhor Pedro Borges, um sergipano radicado em Itabuna, fazendeiro e homem de iniciativa. Por essa época, ainda na década de trinta, sorvete em Itabuna era artigo de luxo, pouquíssimas família se davam ao requinte de prepará-lo em casa, em pequenas máquinas manuais.  Por isso, não foi pequena a animação da criançada, e até de adultos, quando seu Homero (Merinho) apareceu pelas ruas da cidade empurrando o primeiro carrinho de sorvete, vendido em pequenas tabocas e fabricado por ele em sua máquina ambulante.


            Os meninos da Paulino Vieira tinham para brincar a beira do rio, onde, num gramado ralo, jogavam bola, organizados em times. O perigo dessas jogadas era a passagem das boiadas com algum boi brabo. Vindo pela beira do Rio, que era passagem obrigatória, a boiada era tangida em direção da Taboquinhas (Rua Barão do Rio Branco), e daí para o matadouro que ficava num terreno alto, no lugar onde se encontra hoje o IMEAM (Instituto Municipal de Educação Aziz Maron). Mas para a molecada a passagem da boiada não deixava de ser um divertimento, quando todos corriam espavoridos buscando abrigo por todos os lados. Uma outra atração para as crianças da Paulino Vieira era a chegada da tropa de cacau do Coronel Oscar Marinho, que morava e tinha um grande armazém na rua. A chegada dos animais era anunciada pelo tilintar do sino da besta-madrinha, que num passo cadenciado, toda enfeitada de fitas coloridas pendentes da cabeça e com um bonito peitoral cheio de enfeites prateados e guizos, vinha na frente guiando a tropa carregada de sacos de cacau. E eram muitos animais. Os tropeiros, de calça arregaçada até o meio da canela, alguns com um lenço amarrado na cabeça, chicote na mão, tangendo e gritando, davam mais vivacidade ao conjunto. Não havia menino ou menina na rua que não corresse para ver a chegada da tropa do coronel.

            Pela Paulino Vieira, aos sábados, havia muito movimento. Às vezes a dona de casa fazia a feira da semana sem precisar sair de casa.  Os vendedores vinham de suas roças e plantações, de passagem para a feira que ficava no centro da cidade, na praça Adami, e apresentavam nas portas os seus produtos, desde frutas e verduras, até feijão verde, pimenta, tapioca, a compridos paus de galinhas, cesta de ovos, perus. Diariamente passavam pescadores com grandes “rodas” de peixes tirados, quase na hora rio.  Bonitos robalos e carapebas, cordas de pitus, tudo tirado do dadivoso Cachoeira, em cujas água abundavam cardumes de corrós, bagres,  corcundas, acaris que fartavam tanto a mesa dos ricos quanto a dos pobres.  A pesca era feita de tarrafa em toda a extensão do rio, e de jereré nas partes rasas junto das margens.  Na rua, numa boa casa, morava o pescador seu João Luiz, que diariamente vendia o produto de suas pescarias aos moradores que quisessem comprá-lo. Peixes e galinhas não eram vendidos a quilo, mas a “olho”, depois de muito regateio. O comprador de galinha fazia suas exigências antes de fechar negócio. Soprava debaixo das asas da ave para ver se a mesma sofria de uma doença - a “mofina” -, apalpava o peito para ver se era carnudo e se a galinha estava gorda ou magra. Depois desses exames, discutia-se o preço. Era frequente a venda de caças como tatus, pacas, sariguês, teiús e passarinhos, crus ou moqueados, abatidos nas matas próximas. Na época do São João, milho verde e laranjas eram comprados na porta, sem necessidade de se procurar a feira, pois os vendedores que vinham das roças com seus burros carregados tinham, nas residências, que eram muitas, compradores certos.

            Todas as tardes, durante a semana, a meninada da Paulino Vieira, lá pelas 16:00h, ficava a postos esperando o“homem das massas”, que vinha da padaria com um grande baú de folha-de-flandres na cabeça, repleto de pães, doces e biscoitos, os mais variados. Cacetinhos, roscas lustrosas, sonhos, broas de milho, queijadas, bolachas e bolinhos diversos eram escolhidos a dedo, conforme a preferência. Havia ainda o bolachão “mata-fome”.

            Para o café da manhã, muitas famílias que não tinham quem comprasse o pão, colocavam, como já era de costume, um saco próprio para isso, pendurado num prego na porta da rua. Bem cedo, o padeiro colocava nos sacos os pães bem quentinhos, recém-saídos do forno e na quantidade previamente acertada. Ali eles ficavam até que alguém da casa fosse apanhá-los. Não havia falha na entrega, nem moleque faminto para roubá-los. Ainda pela manhã passava o leiteiro, montado num burrico com dois grandes vasilhames de leite, distribuindo os litros com a freguesia. Também passavam mercando, com seus tabuleiros na cabeça, os vendedores de carne de porco e de carneiro. Outro vendedor que frequentava a Paulino Vieira era seu Alexandre, que mercava os saborosos beijus de Água Branca. Negro, tinha uma mão aleijada, e passava todas as tardes puxando um burrinho carregando dois cestos de beijus, muito bem feitos, enrolados em folha de bananeira. A singularidade de Alexandre era que ele, para alertar a freguesia da sua passagem, ladrava tal e qual um cachorro.

            Na rua, havia residências simples e casas boas. Nas décadas de vinte e de trinta, nela residiam dois coronéis do cacau, Oscar Marinho Falcão - numa bonita casa cheia de janelas com um portão de ferro e pequeno jardim ao lado - e o austero Manuel Brandão (Neca), que usava roupa escura com um colete, relógio de ouro com corrente na algibeira e chapéu de feltro. Quatro famílias libanesas moravam também na rua nessa mesma época: os Barifaldi Hirs, os Habib, os Midlej, e o casal Alfredo Agle. Outros moradores desse período foram os senhores Francisco Ribeiro  - ourives muito conhecido e conceituado na cidade -, Arthur Pitta , o alfaiate Narciso Rocha, o coronel Laudelino Lorens, o dono da farmácia senhor Benigno Azevedo,  o advogado Lafayette de Borborema. Outros moradores ficaram temporariamente. No início da rua, esquina com a praça Olinto Leone , ficava a ampla residência do senhor Carlos Maron, mais tarde transformada em sede do Itabuna Clube.  Esta casa foi depois demolida e em seu terreno erguido o prédio do Banco do Brasil.

            Além das casas residenciais, funcionavam na Paulino Vieira a alfaiataria do senhor Narciso Rocha, a pensão familiar de seu Pitta, a quitanda de dona Sinforosa, senhora gorda, de cabeleira branca, todos os dias sentada à porta esperando pela freguesia que procurava o seu carvão, enquanto o filho Zé Capenga (era chamado assim mesmo) atendia na parte da quitanda vendendo talhadas de jaca, bananas, verduras, frutas e tempero verde. Numa das esquinas ficava a selaria Flor do Brasil, de seu Zé Gomes, homônimo de outro Zé Gomes, que tinha uma sapataria mas adiante.

            Como nas residências de toda a cidade os fogões eram alimentandos a lenha ou a carvão, diariamente podiam ser vistas as figura dos carvoeiros com seus burros carregados de sacos deste produto, e o vendedor de lenha com os feixes de achas amarrados de cipó, também no lombo de burros, oferecendo pelas casas.

            A Paulino Vieira era uma rua gostosa de se morar pelas distrações que oferecia. No carnaval, era passagem dos blocos e mascarados, a começar pelo Zé Pereira , que acordava os moradores com o seu zabumba, já anunciando a folia. Até cortejo de casamento fazia a alegria da rua. Uma ou outra noiva que residia na rua da Jaqueira (final da avenida Fernando Cordier até o começo da Mangabinha), pela falta de transporte na cidade, passava vestida de noiva, com véu e ramalhete de flores na mão, acompanhada de seu cortejo de padrinhos e convidados, todos a pé, até a Igreja Matriz de São José, na praça Olinto Leone, ou à Capelinha de Santo Antônio. Era uma festa para os olhos de qualquer criança.

            Quando a noite chegava, a meninada da rua se juntava para as brincadeiras. As meninas faziam rodas de ciranda, cabra-cega, boca-de-forno, pulavam corda, tudo no meio da rua - sem o menor perigo, pois os poucos carros da cidade quase nunca circulavam à noite -, enquanto algumas famílias, cada qual sentada à sua porta usufruindo da fresca da noite, acompanhavam atentos o corre-corre dos filhos. Para os adultos, aquele bate-papo tranquilo, sentados ali no passeio, era o modo de encher a noite e deixar o tempo passar, numa época em que não havia ainda a televisão ou outro entretenimento, a não ser o cinema para aquele que gostavam de frequentá-lo. Todos se sentiam seguros. Logo ao anoitecer, um grupo de homens fardados de cáqui, de quepe e cassetete na mão, aparecia na rua marchando sob as ordens de um comandante, seu Moraes. Era a Guarda Noturna. Numa encruzilhada das ruas, eles paravam sob as ordens de um apito e, a uma determinação do chefe, se encaminhava cada um para a rua que lhe fora designada. Cada família conhecia o guarda da sua rua, sabia o seu nome, confiava nele. Ninguém tinha medo de sair, de ficar sentado à porta até mais tarde, de esquecer uma janela aberta ou uma cadeira no passeio. O guarda estava ali para proteger e dar segurança. Não havia assaltos. A violência só ocorria por altos interesses políticos ou econômicos.

            Com frequência, o silêncio da rua Paulino Vieira à noite era quebrado pela voz plangente de um seresteiro, o Chico Malandro, rapaz simples da Mangabinha, que  conforme o apelidaram, passava o dia sem trabalhar, saindo só à noite para dedilhar o seu violão e cantar as mágoas de amor.

            Situada entre a beira do Rio e a rua 7 de setembro, antiga Buri, a Paulino Vieira recebia desta muita influência nos dias de festa. Pelo Natal, a Sete de Setembro e a J.J. Seabra (antiga Rua da Lama) ficavam mais iluminadas. Mesas de jogos, desde a roleta ao jaburu e aos dados, eram instaladas na Sete de Setembro, em plena rua, fazendo a animação das festas natalinas. Nesses jogos, ouvia-se a voz dos responsáveis pela roleta ou dados chamando os passantes para que fossem tentar a sorte, lançando os dados sobre mesas forradas de oleado preto ou vermelho com grandes números pintados de branco. Adultos e crianças aí se juntavam para jogar,  sem o menor problema. Tudo era festa.

            Na rua Sete de Setembro (Buri), ainda na semana do Natal, vendedores expunham melancias, abacaxis, e mangas, que eram as frutas da época, em verdadeiros montes que se erguiam do chão desafiando a gula de quem quisesse se fartar. Na Praça Adami, eram armadas as quermesses cheias de brinquedos e prendas variadas, organizadas por senhoras da sociedade com fins beneficentes.

            Além das frutas expostas no meio da rua e vendidas na maior fartura, a mercearia “O Vesúvio”, na mesma rua, chamava a atenção. Esta mercearia pertencia ao senhor Gaspar Fiilizzola, um italiano gordo, corado, atencioso e alegre, e nela era encontrada uma variedade grande de produtos. Sacos de avelãs, amêndoas, castanhas portuguesas, nozes, ficavam expostos aos passantes. Pendurados sobre o balcão, grandes presuntos e ótimos salames vindos do Sul do País apetitosos cachos de uva moscatel, cachos de passas vindos da Argentina enchiam os olhos. Sobre o balcão, queijos variados, caixas de frutas como maçãs, peras, e ameixas frescas, faziam as delícias das pessoas de maior poder aquisitivo. Havia muita fartura, especialmente pelas festas natalinas.

            Com a morte de seu Gaspar, o "Vesúvio" foi fechado, ficando só as padarias uma a dos irmãos Celestino, e a outra do senhor Senna. Mais tarde, na mesma rua Sete de Setembro, foi inaugurado o “O Pão de Leite”, de Zeca Franco, com massas finas, pães e bolos.

            Uma casa de tecidos aumentou o movimento da rua Sete de setembro: foi a ”Loja do Povo”, do sergipano Francino Nunes, recém-chegado a Itabuna. Esta loja, situada num terreno junto ao qual foi levantado, anos depois, um prédio da família Messias, marcava o fim da Rua Sete de Setembro, ex-Buri. Daí para frente era um terreno vazio, encharcado nos tempos de chuva, abrangendo o local onde é hoje o Jardim do O. Poucas casinhas se erguiam ali, e em duas delas residiam as então conhecidas rezadeiras dona Maria e dona Bertolina, muito procuradas para tirar “olhado” de menino doente ou que não queria comer. Para além desse terreno descampado, já na entrada da Avenida Garcia, ficava a rancharia dos sertanejos que traziam carneiros para vender, além de enormes requeijões. Depois da rancharia, lá pelas imediações do atual bairro Zildolândia, ficava o campo de futebol.

            Muitas modificações sofreram o Buri e a Rua da Lama com o alargamento, novo calçamento, novas construções, etc. A primeira recebeu o nome de Rua Sete de Setembro, a segunda, J.J. Seabra. Ambas foram mais tarde unificadas, na administração do prefeito José de Almeida Alcântara, com o nome de Avenida do Cinquentenário, em homenagem aos cinquenta anos de Itabuna como cidade. Muitos anos antes, porém, a Laranjeira já havia também mudado de nome, passando a ser Rua Coronel Paulino Vieira, nome de uma das mais dignas figuras do passado de Itabuna. Com o tempo, a Paulino Vieira foi sendo modificada. Seus moradores aos poucos foram saindo, e um comércio ativo ali surgiu. Quase todas as casas foram modificadas. Onde havia janelas, surgiram vitrinas. Das casas dos coronéis, uma foi demolida, e a outra, modificada. A rua perdeu a alegria pueril do passado, mas conservou a sua vitalidade sob outros aspectos, como nos mostra hoje o seu comércio atuante.

            Rua Paulino Vieira, onde nasci e passei toda a minha infância, ex-rua da Laranjeira, é por isso mesmo aquela que deixou marcas indeléveis na minha lembrança. Foi a rua das minhas brincadeiras, do pular corda, das cirandas, do chicotinho queimado e da boca de forno. A rua do São João alegrado pelas fogueiras, balões e fogos de artifício. A rua que me proporcionava acompanhar a vida do Cachoeira nos seus altos e baixos. Rua das serestas do Chico Malandro, do desfilar das tropas de cacau para o armazém do coronel, quando despertava a curiosidade da meninada com o tilintar dos guizos e chocalhos da besta-madrinha.

            Rua das boas lembranças de uma infância feliz.


(RETALHOS)
Helena Borborema

* * *


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

MÁRIO DE ANDRADE – Frases


Frases 

Escrevo sem pensar, tudo o que o meu inconsciente grita. Penso depois: não só para corrigir, mas para justificar o que escrevi.

***
O passado é lição para se meditar, não para se reproduzir.

***
Eu sou um escritor difícil 
Que a muita gente enquizila,
Porém essa culpa é fácil
De se acabar duma vez:
É só tirar a cortina
Que entra luz nesta escurez.

***
Minha obra toda badala assim: Brasileiros, chegou a hora de realizar o Brasil.

***
Quando a alma fala, já não fala nada.

***
Não devemos servir de exemplo a ninguém. Mas podemos servir de lição.

***
Ela repetia sempre "Carlos", era a sensualidade dela. Talvez de todos... Se você ama, ou por outra se já deseja no amor, pronuncie baixinho o nome desejado. Veja como ele se moja em formas transmissoras do encosto que enlanguesce. Esse ou essa que você ama, se torna assim maior, mais poderoso. E se apodera de você. Homens, mulheres, fortes, fracos... Se apodera.

***
São sempre assim os pais: quando as esperanças se projetam sobre um filho, o resto são sombras mal reparadas. Que vivam, e Deus os abençoe! Amém.

***
Só o esquecimento é que condensa,

E então minha alma servirá de abrigo.


***
Popular é o ruim gostoso.

***
As pessoas não debatem conteúdo, apenas os rótulos.

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Mário Raul Morais de Andrade foi um poeta, escritor, crítico literário, musicólogo, folclorista, ensaísta e fotógrafo brasileiro. Foi um dos pioneiros da poesia moderna brasileira com a publicação de seu livro Pauliceia Desvairada em 1922. 

* * *

domingo, 2 de fevereiro de 2020

ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: Uma sevilhana pela Espanha – João Cabral de Melo Neto


Uma Sevilhana pela Espanha


No sol de mar do céu de Cádiz,
mediterrâneo e classicista,
que dá às coisas mais terrosas
carne de estátua ou peixe, vítrea,

ela seguia carne
do campo de Sevilha:
carne de terra adentro,
carnal, jamais marisca

___________
Durante essas ruas paris
de Barcelona, tão avenida,
entre uma gente meio Londres
urbanizada em mansas filas,

chegava a desafio
seu caminhar Sevilha:
que é levando a cabeça
em flor que fosse espiga.

____________
Dentro da vida de Madrid,
onde Castela, monja e bispa,
alguma vez deixa-se rir,
deixa-se ser Andaluzia,

logo se descobria
seu ter-se, de Sevilha:
como, se o riso é claro,
há mais riso em quem ria.

_____________
através túneis de museus,
museus-mosteiros que amortiçam
a luz já velha, castelhana,
sobre obras mortas de fadiga,

tudo ela convertia
no museu de Sevilha:
museu entre jardins
e caules de água viva.


(Serial, 1959-1961)

João Cabral de Melo Neto nasceu na cidade do Recife, a 6 de janeiro de 1920 e faleceu no dia 9 de outubro de 1999, no Rio de Janeiro, aos 79 anos. Eleito membro da Academia Brasileira de Letras em 15 de agosto de 1968, tomou posse em 6 de maio de 1969. Foi recebido por José Américo.

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PALAVRA DA SALVAÇÃO (168)

Apresentação do Senhor – Domingo, 02/02/2020

Anúncio do Evangelho (Lc 2,22-40)

O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo  segundo Lucas.
— Glória a vós, Senhor.
Quando se completaram os dias para a purificação da mãe e do filho, conforme a lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, a fim de apresentá-lo ao Senhor. Conforme está escrito na lei do Senhor: “Todo primogênito do sexo masculino deve ser consagrado ao Senhor”.
Foram também oferecer o sacrifício — um par de rolas ou dois pombinhos — como está ordenado na Lei do Senhor. Em Jerusalém, havia um homem chamado Simeão, o qual era justo e piedoso, e esperava a consolação do povo de Israel. O Espírito Santo estava com ele e lhe havia anunciado que não morreria antes de ver o Messias que vem do Senhor. Movido pelo Espírito, Simeão veio ao Templo. Quando os pais trouxeram o menino Jesus para cumprir o que a Lei ordenava, Simeão tomou o menino nos braços e bendisse a Deus: “Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar teu servo partir em paz; porque meus olhos viram a tua salvação, que preparaste diante de todos os povos: luz para iluminar as nações e glória do teu povo Israel”. O pai e a mãe de Jesus estavam admirados com o que diziam a respeito dele. Simeão os abençoou e disse a Maria, a mãe de Jesus: “Este menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição. Assim serão revelados os pensamentos de muitos corações. Quanto a ti, uma espada te traspassará a alma”.
Havia também uma profetisa, chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era de idade muito avançada; quando jovem, tinha sido casada e vivera sete anos com o marido. Depois ficara viúva, e agora já estava com oitenta e quatro anos. Não saía do Templo, dia e noite servindo a Deus com jejuns e orações. Ana chegou nesse momento e pôs-se a louvar a Deus e a falar do menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém. Depois de cumprirem tudo, conforme a Lei do Senhor, voltaram à Galileia, para Nazaré, sua cidade. O menino crescia e tornava-se forte, cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava com ele.
— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.
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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Padre Roger Araújo:

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Apresentação do Senhor: "Deus no colo"



“Simeão tomou o menino nos braços e bendisse a Deus” (Lc 2,28)

Neste ano, o 4º. dom. do Tempo Comum coincide com 02 de fevereiro, um dia de festa de Jesus e de sua mãe Maria; festa que é conhecida com vários nomes:
- Apresentação de Jesus no Templo, para ser oferecido a seu Deus; a humanidade, representada por Maria e José, “presenteiam” a Deus o maior dom que possuem, seu filho primogênito, a Luz das Nações;
- Purificação da mãe Maria, a quem Simeão revela seu destino sofredor e ativo de Mãe. Esta é a festa das sete dores que purificam e iluminam, quando são assumidas a serviço dos outros;
- Festa da Luz, dia das Candeias. Quarenta dias depois do nascimento de Jesus (fechando o ciclo do Natal), os cristãos (especialmente as mulheres) iam às igrejas com velas/candeias, dando graças pela vida.
Todos nós sabemos e experimentamos que o modo de agir Deus é discreto, silencioso. Ele se deixa encontrar no cotidiano e nas histórias simples.  O mundo está cheio de mistérios grandiosos que cobrimos com a rotina e as pressas. Falta-nos capacidade de assombro e pureza no olhar para captar o mistério do simples. Quando a realidade é vista tão somente com os olhos estreitos e interessados, perdemos a oportunidade de contemplar o rosto d’Aquele que se deixa encontrar em tudo e em todos. 
Todo o relato da Apresentação de Jesus no Templo está atravessado de cotidianidade, com a marca da simplicidade e dos olhares contemplativos. Aqui se faz visível uma festa de promessas cumpridas.  Simeão e Ana tiveram o privilégio de contemplar o Salvador, porque souberam esperar e permanecer. E porque souberam contemplar, viram na vulnerabilidade de um menino, o esperado de Israel. Podemos imaginar os rostos irradiantes e os olhos cheios de luz destes dois anciãos diante do Menino que lhes abre o futuro e alarga os seus sonhos!... 
O Nascimento de Jesus parece despertar os anciãos: Zacarias, o idoso que põe em dúvida a promessa de Deus; Isabel, aquela que concebe na velhice; José, aquele que não compreende o que está acontecendo, mas confia na palavra de Deus; Simeão, o homem que envelhece com a esperança de ver o Messias antes que a morte feche seus olhos; Ana, a profetisa, aquela que dá graças ao Senhor e proclama a todos o nascimento do Messias.
Nos relatos de Lucas, não são os sacerdotes do templo, nem os mestres da lei, nem os legitimados pela religião ou pelo poder social que falam ou reconhecem. Falam os pequenos, os pobres e os simples. Aqueles que não costumam ter palavra – pastores, ilegais, pagãos – são os que veem mais além, maravilham-se, reconhecem e confessam o Menino de Belém. É com eles que devemos estar, se queremos também reconhecer Jesus. 
Alguém poderia perguntar: por que tantos idosos(as) no Nascimento de Jesus? Infelizmente, não vivemos tempos favoráveis aos idosos; considerados “improdutivos” são “descartados”; para muitos, são só um estorvo.
E, no entanto, são eles(as) as testemunhas da esperança messiânica, as testemunhas das promessas do Espírito Santo, as testemunhas do futuro e do novo, as testemunhas da fé, as testemunhas de um caloroso entardecer da vida. Os anciãos e anciãs são aqueles(as) que mantém viva a memória de seu povo, mantém viva a continuidade da história; são eles e elas que sustentam em seus braços o novo que começa; são eles e elas que esquecem a nostalgia do passado, sorriem e cantam o nascimento do novo. Mesmo com sua visão limitada, são capazes de ver e reconhecer as surpresas e as maravilhas de Deus. 
Simeão é o ancião que soube esperar. Recebeu a promessa de não morrer sem ver o Messias. E hoje o vemos com o Menino Jesus em seus braços; ele sente sua vida realizada, reconhece o sentido de tudo o que viveu e agora pode soltar-se e abandonar-se em paz; a promessa foi realizada: “viu o Senhor”. 
Numa sociedade como a nossa, em constante tensão pelo “conflito de gerações”, a figura de Simeão torna-se curiosa e até simpática. Seus braços unem e abraçam o velho e o novo; seus braços apertam o passado e o presente; seus braços são o encontro entre o ontem e o hoje; seus braços, estreitando o menino, são a harmonia entre o que se vai e o que vem. 
Simeão não tem nada e, ao mesmo tempo, tem tudo: tem a promessa que alimentou sua vida de esperança até o final; tem os braços calorosos para acolher Deus neles e embalá-lo; e tem a alegria e o prazer de uma ancianidade feliz, realizada e cumprida. 
Ao ler-escutar o Evangelho deste domingo, também somos convidados a nos fixar em uma pessoa que passa quase desapercebida: Ana, a profetisa. Ela pode nos ensinar a ser profetas e profetisas dos buscadores da Vida em um mundo tão desafiante como o nosso, onde, muitas vezes, nos sentimos pequenos, incapazes, pobres..., mas também afortunados, livres, discípulos e discípulas d’Aquele que sabe quem somos e por isso nos elege, nos chama, nos convoca a fazer caminho com Ele.
Ana revela uma presença muito discreta, no templo; mas está atenta a tudo o que ali acontece. Ela não faz ruído, passa longas horas em silêncio, sua vida não tem maior relevância social e religiosa... Lucas só dedica três versículos para revelar o perfil de Ana, e neles somos informados que era “profetisa”, “anciã” e possuidora de um nome significativo: “Ana” vem do verbo “hanan” que em hebraico significa “agraciar”, “favorecer”, e aparece vinculada a um passado marcado por nomes benditos: “Fanuel” significa “rosto de Deus” e “Aser” significa “feliz” ou “afortunado”; mas, o fato de ser viúva desde jovem a associa irremediavelmente a uma situação de perda, vazio e carência. E aqui, aparece vinculada ao templo e dedicada assiduamente ao serviço de Deus. 
Mas, de uma maneira imprevista, sua vida deu um grande salto ao aproximar-se de outro ancião, Simeão, precisamente no momento em que este tinha tomado nos braços um menino, filho de uns pobres e desconhecidos galileus, chamando-o salvador, luz e glória. Junto aos pastores de Belém, Ana recebe as primícias da presença de Jesus, e seu nome de “Agraciada”, que possuía só como promessa, se faz realidade nela; e a partir desse momento, com todo seu ser reverdecido e os olhos cheios de luzes (candeias), dava “graças a Deus e falava do menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém”. 
A liturgia deste domingo apresenta-se como ocasião privilegiada para nos recordar que a velhice é uma etapa da vida, com suas limitações e problemas, mas também com suas grandes possibilidades. Não podemos negar o desgaste e os problemas que o passar dos anos traz consigo, mas, ao mesmo tempo, inspirados nos idosos Simeão e Ana, somos motivados a não esquecer que a velhice é a etapa que nos oferece a possibilidade de coroar nossa vida. 
O decisivo é adotar uma postura aberta e positiva diante da última etapa da vida. “Vivê-la positivamente como a culminação da vida, como a etapa sem a qual a vida ficaria inacabada, inconclusa” (L. Diez). Segundo o Papa Francisco, a pessoa idosa pode viver com mais sabedoria e sensatez, para relativizar, inclusive com humor, muitas coisas que antes dava tanta importância; a ancianidade é tempo para recordar (visitar de novo com o coração) o essencial; o tempo para a quietude e a contemplação; é o tempo para viver mais devagar, sem pressas, encontrando-se consigo mesmo com mais profundidade; é o tempo de desfrutar de maneira mais sossegada cada experiência, cada pessoa, cada encontro. 
Frente a uma vida fragmentada e dispersa, o ancião e a anciã estão em melhores condições de unificar e integrar sua existência. Esta última etapa da vida se converte em tempo de graça e salvação pois pode contar sempre com a presença e o auxílio amoroso d’Aquele que é o Senhor dos tempos.

Texto bíblico:  Lc 2,22-40 
Na oração: Precisamos de homens como Simeão e mulheres como Ana, da tribo dos que estão reconciliados com sua própria vida; pessoas com uma presença benevolente e carinhosa para tudo o que lhes rodeia. Com olhos expandidos por dentro, eles puderam perceber a salvação de um modo muito diferente do que haviam imaginado.
- O gesto de Simeão nos é proposto a todos, e todos os dias: bendizer a vida nova nos outros.
- Seu cotidiano, no Templo da vida, tem a marca do bem-dizer ou do mal-dizer, da gratidão ou da queixa...?

Pe. Adroaldo Palaoro sj
Itaici-SP

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sábado, 1 de fevereiro de 2020

O PROVÉRBIO E A VIDA



* Os dias se sucedem e não se parecem.
* Palavras e plumas, o vento as leva.
* Panela que muitos mexem, ou sai insossa ou sai salgada.
* Pedra que rola não cria limo.
* Pela casca se conhece o pau.
*Pela obra se conhece o obreiro.
*Pobreza não é vileza.
* Por fora, filó, filó; por dentro, molambo só.
* Por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento.
* Quem abrolhos semeia, espinhos colhe.
* Quem acorda cão dormindo, vende a paz e compra arruído.
* Quem boa cama faz, nela se deita.
* Quem má cama faz, nela jaz.
* Quem com ferro fere, com ferro será ferido.
* Quem compra o que não pode, vende o que não quer.
* Quem dá aos pobres, empresta a Deus.
* Quem desdenha quer comprar.
* Quem não arrisca, não petisca.
* Quem nunca comeu melado, quando come se lambuza.
* Quem pode o mais, pode o menos.
* Quem quer divertir-se, compra macaco.
* O mau se destrói por sua maldade; o justo a abriga na sua bondade.

Fonte: "Folhinha do Sagrado Coração de Jesus"

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O GUIA DEFINITIVO PARA VENCER A SOLIDÃO – Dolors Massot


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Dolors Massot | Jan 29, 2020

Como vencer a solidão? Se você está se sentindo mais só do que gostaria, este artigo é para você: um roteiro simples e definitivo para vencer a solidão.

Ficar um pouco sozinho(a) pode renovar as energias. Mas a solidão em si é muito difícil de lidar.

Por motivos profissionais ou pessoais, podemos nos desconectar de outras pessoas com o passar dos anos.

Se isso acontecer, podemos de repente nos ver com algumas poucas pessoas à nossa volta, à medida que envelhecemos, o que pode levar à solidão. Como podemos superar esse isolamento? O que podemos fazer para parar de nos sentir sozinhos? Aqui estão 11 sugestões:


1. Decida não ficar sozinho
A solidão não é um destino inevitável. Nunca é tarde para fazer amigos. Se você não quer mais ficar sozinho e busca amizades, o primeiro passo é convencer-se de que pode encontrar amigos: Sim, em qualquer idade. Sim, em qualquer situação. Sim, mesmo com suas limitações. Sim, mesmo na cidade onde você mora.

2. Coloque seus óculos de “ver amigos”
Mude as “lentes” através das quais você vê o mundo ao seu redor e descobrirá possíveis amigos nas pessoas que encontra todos os dias, sejam elas já conhecidas ou não. Todos os dias podem ser uma surpresa feliz, mas tudo depende da sua perspectiva.

3. Cultive seus laços familiares
Se você se afastou de seus parentes, é hora de fortalecer seus laços familiares novamente. Pense em termos de círculos concêntricos, dos seus parentes mais próximos aos mais distantes. Seus pais, tios e tias, irmãos, primos. Procure ocasiões para se reconectar com eles, começando com uma mensagem de felicitação pelo aniversário, por exemplo. Convide-os a sair para tomar um café ou para uma refeição. Converse, pergunte por sua saúde e suas questões.

4. Viaje em grupo
Em vez de viajar sozinho(a), viaje em grupo com desconhecidos. Você pode participar de uma viagem organizada por uma igreja ou um grupo através das redes sociais ou de um agente de turismo. Alguns dias em outra cidade ou país, em um ambiente mais descontraído, cria a oportunidade de uma conversa casual com companheiros de viagem. Você pode aprender como eles são e encontrar coisas que você tem em comum, que podem formar a base para criar uma amizade.

5. Esteja atento(a) aos roteiros e atividades em sua cidade
Em muitas cidades, existem rotas de diferentes tipos que levam a pontos de interesse, geralmente com visitas guiadas. Também pode haver passeios fotográficos em grupo ou aulas ou sessões de desenho e pintura ao ar livre. Tais atividades facilitam fazer conexões e a troca de ideias com outras pessoas.

6. Aprenda um novo idioma
Participe de um grupo de conversação em um idioma que você estudou no passado e deseja praticar; ou simplesmente decida aprender um novo idioma. Você crescerá intelectualmente e se envolverá em atividades de aprendizagem que o aproximarão de pessoas com interesses semelhantes. Muitas vezes existem grupos que se reúnem em cafés ou restaurantes, por exemplo; você não precisa necessariamente frequentar uma escola de idiomas, embora não seja uma má ideia.

7. Participe de esportes, como jogador ou espectador
Para fazer amigos, você precisa gastar algum tempo procurando por eles. Esse tempo pode ser orientado para a prática de um esporte como correr ou andar de bicicleta. Nos parques e nas ruas, muitas pessoas praticam esportes, e é natural conhecer quem faz o mesmo percurso e a mesma programação. Você também pode frequentar uma academia. Mesmo se você não pratica esportes, provavelmente é fã de um ou mais times (futebol ou basquete, por exemplo). Lá você pode se juntar a outros fãs, tanto pelas redes sociais quanto fisicamente, participando de jogos. E você já pensou em ingressar ou colaborar com uma fundação de caridade promovida pelo seu time favorito?

8. Voluntariado
Se você deseja dedicar tempo para ajudar as pessoas carentes, existem muitas organizações que procuram voluntários. O voluntariado costuma ser organizado em equipes, para que você possa se conectar com outras pessoas e fazer amigos imediatamente. Você estará unido por sua preocupação com os outros, e esse é um ótimo lugar para começar.

9. Procure por grupos do Facebook que pensam da mesma forma
Nas redes sociais, você pode conhecer pessoas de todo o mundo. Se você procura grupos dedicados aos seus interesses e hobbies, é muito fácil iniciar uma conversa. Se nenhum tópico vier à mente imediatamente, pense em algo que lhe interessa sobre história, natureza, ecologia, sua profissão, arte, moda, arqueologia, animais de estimação ou esportes, por exemplo.

10. Ofereça aulas ou workshops
No que você é bom? Culinária, idiomas, artesanato, jardinagem, mecânica? Por que não compartilhar esse talento? A maioria das cidades tem espaços públicos ou privados que seriam mais do que felizes em saber que você está disponível para ensinar. Você conhecerá todo tipo de gente nova. É também uma maneira de se tornar conhecido no bairro.

11. Descubra o seu lado literário
Você gosta de escrever poesia, histórias, drama? Você tem alguns manuscritos esquecidos em uma gaveta? É hora de compartilhar essa tentativa poética, narrativa ou dramática com outras pessoas. Junte-se a um clube de literatura! Se você nunca escreveu, mas gosta de livros, entre em um clube do livro. Lá, você pode compartilhar opiniões, e as conversas sempre acabam indo além do assunto do livro selecionado. A leitura também tem a vantagem de aproximar pessoas de todas as idades.


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sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

DOM BOSCO — um dos maiores santos do século XIX


 31 de janeiro de 2020

No dia 31 de janeiro de 1888 encerrou-se a carreira terrena daquele que assim foi elogiado pelo grande Papa Pio IX: “Em Dom Bosco o sobrenatural havia chegado a ser natural, e o extraordinário, ordinário, e a legenda áurea dos séculos passados, realidade presente”.
·         Plinio Maria Solimeo


 
      Neste artigo nos deteremos apenas em alguns aspectos da vida de São João Bosco, pois em artigos anteriores já apresentamos a magnífica biografia desse ilustre santo e grande taumaturgo. 
        Dom Bosco já em vida gozava de fama de santidade. Sua rica personalidade encheu praticamente todo o século XIX. Como comenta o Cardeal Pedro Maffi, Arcebispo de Pisa, “a vida de Dom Bosco é tão densa, tão variada e tem tão múltiplas facetas que, a quem se acerca para contemplá-la ou estudá-la, sempre lhe ficará na sombra alguma face importante do poliedro”.(1) 
         Mesmo antes de sua canonização, a revista “Civiltà Cattolica”, dos Padres Jesuítas, dele dizia em 1930: “Ao estudar a vida e a obra de Dom Bosco, ficamos tão admirados da grandeza deste gênio, que sua figura se agiganta à medida que nos acercamos de sua pessoa, ouvimos suas palavras e contemplamos de perto e com nossos próprios olhos suas obras de apostolado em suas características mais vivas e pessoais.”(2)
Visão dos grandes empreendimentos
Paramentos usados por Dom Bosco

        João Bosco “vem ao mundo no preciso momento em que se desagrega a construção político-social da Revolução Francesa, que transcendeu todo o orbe, e quando, pelas reações naturais a tão enorme cataclismo, flutuam em todos os ambientes, e fluem em todos os leitos, as correntes muito diversas de doutrinas, opiniões e sistemas que dão origem a movimentos científicos, religiosos e sociais de todo gênero e com características inconfundíveis”.(3)
         Um médico amigo assim descreveu Dom Bosco no seu apogeu: Não é um cerebral; é um homem de coração; mas tem a visão dos grandes empreendimentos, e o empreendimento das grandes visões. Sua única arma é a caridade. Abraça muitas coisas, e todas convergem na unidade superior de uma ideia, e vive para sua ideia (ou, melhor dizendo, ideal). Aqui está seu foco, sua síntese, que recolhe os raios de sua atividade prodigiosa. Temperamento enérgico e fogoso, possui uma excepcional sensibilidade para a percepção de coisas e fatos que nos demais produziriam menor comoção; sensibilidade extrema própria dos gênios mais sublimes.”(4)
         Por isso, todo o apostolado de Dom Bosco voltou-se ao combate dos inúmeros e graves problemas de sua época, dando uma orientação profundamente religiosa aos jovens que seriam o futuro da sociedade. Para ele, como o afirmou em sua História Eclesiástica e na História da Itália, a Igreja é o centro da História, e o Papa, o centro da Igreja.
“Parece-se com Nosso Senhor!”
Num sonho, São João Bosco teve a revelação de que sua imagem estaria acima da estátua de bronze de São Pedro e do medalhão/mosaico do Papa Pio IX. Constrangido com tal glória, ele acordou e o sonho se desfez. Mas hoje, na nave central da Basílica de São Pedro em Roma, essa revelação encontra-se imortalizada em mármore, como se vê nesta foto. A estátua mede 4,80 m e foi realizada pelo famoso escultor Pietro Canonica (1869-1959). [Foto PRC]

         Para isso ele contou desde o nascimento com graças e carismas especiais. A Providência “o havia dotado prodigiosamente: pobreza e humildade de berço, mas lar cristianíssimo e amante do trabalho; uma mãe santa; de engenho pronto e vivo, presença agraciada e simpática; memória felicíssima; vontade a toda prova; robustez física invejável, força hercúlea, agilidade pasmosa, sensibilidade delicadíssima, acessível a todo o belo e bom; coração ‘segundo o coração de Deus’ e, posto que haveria de ser ‘pai dos órfãos’, sente o peso da orfandade paterna quando tem dois anos”.(5)
       Ao que acrescenta outro autor: “Largamente pagou-lhe o Senhor! Deu-lhe a irradiação da santidade, e com a irradiação, a influência, mediante uma simpatia mais única que rara. Em seus últimos anos, sobretudo, as pessoas, ao vê-lo, sentiam-se atraídas; e os simples exclamavam: ‘Parece-se com Nosso Senhor!’; e os mais teólogos: ‘Quão bom deve ser Nosso Senhor se Dom Bosco é tão bom!’ As crianças corriam para ele, atraídas como por um imã. E as multidões se aglomeravam para olhá-lo e pedir-lhe uma palavra, um sorriso ou […] um milagre. Porque Nosso Senhor o fez um taumaturgo: o taumaturgo do século XIX. […] Deus Nosso Senhor comprouve-se em fazer dele como um resumo dos carismas que adornaram a vida dos santos nos séculos passados. Porque Dom Bosco curava os enfermos com sua bênção, lia nas consciências e no futuro, multiplicava os pães, as castanhas para seus filhos, as medalhas e estampas para os devotos […] Teve várias vezes o dom da bilocação, ressuscitou três mortos, e os animais obedeciam, submissos a seus mandatos”.(6)
         Escreve seu discípulo e biógrafo Pe. João Lemoyne: “A vida de Dom Bosco é uma trama de sonhos tão maravilhosos, que não se compreende sem a assistência divina direta, sob pena, naturalmente, de que houvesse sido um estulto, um ilusionista, um enganador ou um vaidoso. Os que viveram ao seu lado durante trinta e quarenta anos não viram nunca nele o menor sinal de querer ganhar o apreço dos seus fazendo-se passar por um privilegiado com dons sobrenaturais. Dom Bosco era humilde, e a humildade aborrece a mentira.”(7)
         Pio XI afirmou: “Em Dom Bosco o sobrenatural havia chegado a ser natural, e o extraordinário, ordinário, e a legenda áurea dos séculos passados, realidade presente”.(8)
Entretanto, esses dons sobrenaturais não vinham sem um pesado ônus. Um dos seus —o Pe. Estevão Trione — manifestou-lhe certa vez o desejo de poder operar milagres para converter as almas. Dom Bosco lhe respondeu: “Tu não sabes o terrível que isso é, e as tremendas responsabilidades que acarreta.”(9)
         Mas é preciso apresentar o outro lado da medalha: como todos os santos, Dom Bosco teve muito que sofrer, quer dos homens, quer dos elementos. Sofria com a pobreza de meios para suas obras; sofria com enfermidades que Deus lhe mandava para purificá-lo, apesar de sua saúde robusta; sofria sobretudo pelos ataques do demônio, que o atormentava de mil maneiras, até golpeá-lo fisicamente e rasgar manuscritos que lhe haviam custado anos de meditação e fadiga.
        Outra característica de Dom Bosco era seu ódio ao pecado: “Poucos homens haveria que tenham odiado e combatido tanto o pecado. Tinha até vertigens só em pensar neles; e muitas vezes ouviram-no exclamar que preferia que se queimasse mil vezes o Oratório — que tantos desvelos lhe tinha custado — antes que se cometesse nele um pecado.”(10)
Propósitos na ordenação sacerdotal
Sonho de Dom Bosco no qual Nossa Senhora lhe explica sua vocação: transformar lobos em cordeiros
Dom Bosco tinha uma visão inteiramente sobrenatural do sacerdócio, como o demonstram os propósitos que ele fez na conclusão do retiro espiritual, por ocasião de sua ordenação sacerdotal:
“O sacerdote não vai só ao céu, nem só ao inferno. Se agir bem, irá ao céu com as almas que salvar com seu bom exemplo; se agir mal, se der escândalo, irá à perdição com as almas condenadas por seu escândalo.
Portanto, empenhar-me-ei em guardar os seguintes propósitos:
1º. Não passear nunca, senão por grave necessidade, [tais como] visitas a enfermos etc.
2º. Ocupar rigorosamente bem o tempo.
3º. Padecer, humilhar-me muito, e sempre quando se tratar de salvar almas.
4º. A caridade e a doçura de São Francisco de Sales me guiem em tudo.
5º. Sempre estarei contente com a comida que me apresentarem, contanto que não seja nociva à saúde.
6º. Beberei vinho aguado e só como remédio, quer dizer, só quanto e quando o reclame a saúde.
7º. O trabalho é uma arma poderosa contra os inimigos da alma; por isso não darei ao corpo mais do que cinco horas de sono cada noite. Durante o dia, especialmente depois da comida, não tomarei nenhum descanso. Farei exceção em caso de enfermidade.
8º. Destinarei cada dia algum tempo à meditação e à leitura espiritual. Durante o dia farei uma breve visita ou ao menos uma oração ao Santíssimo Sacramento. Terei ao menos um quarto de hora de preparação e outro quarto de hora de ação de graças pela Santa Missa.
9º. Não conversarei com mulheres, exceto no caso de ouvi-las em confissão ou em alguma outra necessidade espiritual.”(11)
A pobreza de Dom Bosco 
Mamãe Margarida, mãe de São João Bosco

      É difícil ter uma ideia da pobreza em que Dom Bosco viveu, principalmente nos seus primeiros anos. Uma carestia sem precedentes abatera-se sobre a Itália no ano de 1817, levando a miséria por toda parte. Milhares de famílias abandonaram os campos, indo procurar alimento nas cidades. Dom Bosco diz em suas memórias “Encontravam-se pessoas mortas nos campos, com a boca cheia de erva, com a qual tinham tentado aquietar sua fome raivosa.”(12)
        Em artigo anterior já tratamos do papel de Mamãe Margarida, não só na formação de São João Bosco, mas também na sua doce influência sobre os rapazes do Oratório.
        Entretanto, cabe aqui pelo menos uma referência a essa mulher excepcional, que durante a carestia tinha que fazer das tripas coração para prover a família com alimentos. Agradecido, narra o filho: “Pode-se imaginar o quanto minha mãe sofreria e se cansaria durante ano tão calamitoso. Mas uma grande economia e o cuidado nas coisas mais miúdas, unidos a um trabalho esgotante, junto com a ajuda verdadeiramente providencial, contribuíram para solucionar aquela crise de alimentos.”(13) Que belo exemplo para tantas famílias que se lastimam da pobreza, que não a sabem suportar com espírito sobrenatural! 
Procurado até mesmo pelos grandes da Terra
O santo anunciou grandes desgraças ao rei da Itália, Vitor Manuel II, por causa das perseguições que ele promoveu contra a Igreja

        A santidade e a ação de Dom Bosco se irradiaram por todo o mundo. Assim como o demônio é obrigado por vezes a dizer verdades pela boca dos possessos, assim o líder revolucionário comunista Mao Tsé-Tung colocou este singularíssimo dito entre seus “mandamentos”: “Honrarás a João Bosco, que cuidou dos humildes e educou os operários…”(14)
         O humilde sacerdote é procurado pelos depostos reis de Nápoles e da Sicília. Visitam-no também os pretendentes aos tronos francês e espanhol, respectivamente o conde de Chambord e Carlos VII. “Aos primeiros lhes diz que toda resistência será inútil, pois Deus os afastava do trono por sua tibieza em defender os direitos divinos e a causa das almas. Aos segundos aconselha a não aventurar-se de ligeiro em reivindicações pelas armas, para não se exporem a um derramamento inútil de sangue. E como alegam seus direitos […] ele responde que tudo está muito bem, mas que poderia não ser essa a vontade de Deus. […] A uns e a outros recomenda a santificação por sua submissão à vontade divina e o exercício das boas obras”.(15)
         No ano de 1867, estando em Roma a rainha Maria Teresa, esposa do deposto rei de Nápoles Ferdinando II, ela aspirava ouvir de Dom Bosco que a esperava um futuro glorioso e a volta ao trono. Mas ele respondeu-lhe: “Majestade, doe-me dizer-vos, mas não vereis mais Nápoles”. E a Francisco II, filho de Ferdinando, disse a mesma coisa. E como o rei insistisse em que desse as razões para isso, o santo mostrou-lhe como a Igreja havia sido muito perseguida em Nápoles. O rei procurou justificar-se dando as “razões de Estado” que o haviam obrigado a agir assim. Dom Bosco respondeu-lhe: “Sim, é verdade, mas as causas de tantos males religiosos não podem ser agora removidas.”(16)
         O santo anunciou grandes desgraças ao soberano da Itália, Vitor Manuel II, extensivas à sua família e aos seus sucessores, caso ele persistisse em sua oposição à Igreja. O que se realizou ao pé da letra. 
         Dom Bosco usava a mesma política da verdade com o ministro piemontês, Urbano Rattazzi. Certo dia, aproveitando-se da confiança que tinha com o santo, ele lhe perguntou se incorrera na censura eclesiástica pelo que havia feito contra a Igreja como ministro. Dom Bosco pediu-lhe três dias para pensar. Depois lhe disse: “Excelência, estudei a questão, e a estudei para poder-lhe dizer que não havíeis incorrido na censura; mas não consegui”. Sua honestidade e liberdade agradaram ao ministro, que lhe respondeu: “Estava certo de que Dom Bosco não me teria enganado, por isso quis saber dele. Estou contente pela sua franqueza: recorra sempre a mim, em qualquer necessidade de ajuda para seus meninos.”(17)
“Parecia deificado”
Dom Bosco recebeu do Bem-aventurado Papa Pio IX a ordem de escrever seus sonhos e revelações
         Em seus últimos anos, no dizer de seus contemporâneos, Dom Bosco “parecia deificado”. Seu secretário, João Lemoyne, declara que o viu várias vezes resplandecente e levantado do solo.
        Celebrando a Santa Missa, era comum ele levantar-se do solo com a hóstia nas mãos na hora da elevação, envolto em inefável luz. Isso explica por que ele era já objeto de veneração, visto em vida como um verdadeiro santo e procurado por todo mundo.
        Um exemplo disso ocorreu na sua segunda viagem a Paris, em 1883, que foi uma apoteose contínua, como também o fora por todos os lugares por onde passou.
        Léon Aubineau escreveu no “Univers” de 4 e 5 de maio desse ano: “Paris está atônita por causa da comoção manifestada em seu seio em torno do humilde padre turinense, que não tem nada de atraente aos olhos do mundo. […] O aplauso dos parisienses é quase unânime, e a atração irresistível que agita a multidão tem algo de maravilhoso. Nisto há uma resposta inconsciente, se se quiser, mas direta e enérgica, contra a proclamação de ateísmo que de todas as partes se pretende fazer em nome do povo. É ao homem de Deus que são endereçadas todas essas homenagens; é ao homem de fé e de oração que a multidão quer contemplar. As maiores igrejas — a Madalena, São Sulpício, Santa Clotilde — são pequenas demais para conter os fiéis que querem assistir à Missa de Dom Bosco. Não pedem outra coisa dele. […] Todos desejam que essa bênção desça sobre sua miséria pessoal, ou sobre sua dor particular. O bom padre ouve a todos, interessa-se por todos, invoca sobre todos a proteção de Maria Auxiliadora. Ele não se pertence mais, mas abandona-se a todos que lhe suplicam”.(18)
Os “sonhos” de Dom Bosco
         Sobre os “sonhos” de Dom Bosco, que alcançaram profunda repercussão em todas as suas realizações e apostolado, e que ainda impressionam os fiéis em nossos dias, escreve o Pe. Rodolfo Fierro, salesiano:
“Como ao antigo patriarca José, a vários profetas, a São José, o bendito esposo de Maria e a São Pedro, Deus o ilustrava frequentemente por meio de sonhos. Pode-se dizer que todas suas grandes obras e devoções têm origem em um sonho ou em vários. Que alguns são verdadeiramente sobrenaturais, não cabe dúvida, por seu caráter, por seus resultados, e pelas próprias expressões do Santo. […] O que pensava ele de seus sonhos? No princípio não lhes deu importância, tomando-os por jogos da fantasia, e até chegou a temer que fossem alucinações diabólicas. Mas, vendo que sempre se realizava o sonhado, que [neles] se lhe mandava coisas importantes, que lhe eram dadas missões concretas, consultou seu diretor espiritual, São José Cafasso, e este, examinando tudo, ordenou-lhe que se tranquilizasse e obedecesse. Mas a suprema decisão deu-a Pio IX, mandando-lhe que os escrevesse. […] Mas é um fato inegável e característico dele que muitos de seus sonhos não são sonhos como tais, mas verdadeiras visões de caráter sobrenatural, e sua variedade recorre às três espécies de visões que descrevem Santo Isidoro de Sevilha, São João da Cruz, e Santa Teresa.”(19)
O Bem-aventurado Pio IX ordena-lhe que escreva os sonhos
Túmulo de São João Bosco no Santuário de Maria Auxiliadora, em Turim [Foto FV]

       As relações de São João Bosco com o imortal Bem-aventurado Papa Pio IX foram as mais amistosas e mais íntimas que se possa imaginar. O santo Pontífice interessava-se pelos seus “birichinni” (meninos), pelas suas publicações, e inclusive pelos seus sonhos.
         Com efeito, já na segunda audiência que Dom Bosco teve com Pio IX, este intuiu que, para fazer tantas e tão santas obras, ele deveria ser movido por um impulso divino. Pediu-lhe então que lhe contasse detalhadamente tudo o que em sua vida tivesse qualquer aparência de sobrenatural. “Narrei-lhe quanto se havia apresentado à minha fantasia em sonhos extraordinários, que em parte já se haviam verificado, começando pelo primeiro, quando tinha nove anos”, diz Dom Bosco.
        O Papa, que o ouvia atentamente, disse-lhe: “Ouvi, Dom Bosco, desejo que escrevais tudo o que me dissestes, e com detalhes. Conservai-o como patrimônio para vossa Congregação, como herança para sua edificação e alento, e como norma para vossos filhos.”(20)
         O Pontífice revelou então sua intenção de nomeá-lo seu camareiro secreto com o título de monsenhor. Dom Bosco respondeu-lhe: “Santidade, que bela figura faria eu, sendo monsenhor, diante de meus rapazes! Os pobrezinhos não saberiam reconhecer-me. Nem se atreveriam a acercar-se de mim, e levar-me daqui para lá, como o fazem agora. E logo… com este título, o mundo me creria rico, e eu mesmo não teria valor para apresentar-me pedindo esmola para nossas obras. Ó Padre Santo! O melhor é que eu seja sempre o pobre Dom Bosco.” Pio IX não insistiu.(21)
Catecismo para a Igreja universal
Quando foi recebido em audiência por Pio IX, Dom Bosco falou-lhe da necessidade de introduzir na Igreja universal “um catecismo breve que eliminasse a multidão dos que corriam em cada diocese, e que contivesse, de modo simples e claro, os elementos da doutrina cristã que professam todos os católicos. […] A ideia agradou ao Papa, como também a insinuação de que este catecismo universal, único e obrigatório, deveria ser promulgado pela Santa Sé, tanto mais que [Dom Bosco] assegurou que a maior parte dos Padres do concílio [Vaticano I] dariam seu voto favorável”.(22)
         Infelizmente, apesar de aprovada por esmagadora maioria dos Bispos na votação preliminar, a ideia não pôde concretizar-se devido à brusca interrupção do Concílio pela ímpia invasão de Roma pelas tropas de Vitor Emanuel II, do Piemonte.
 Visão das catástrofes que cairiam sobre a Europa 
Altar-mor do Santuário de Maria Auxiliadora, construído por São João Bosco em Turim [foto FV]

        No dia 5 de janeiro de 1870, vigília da Epifania, estando em Roma para acompanhar o Concílio, Dom Bosco teve um sonho ou visão sobre as grandes catástrofes que ameaçavam a Europa. 
         Por isso, na conversa que se seguiu com o Sumo Pontífice, ele se sentiu no dever de consciência de colocá-lo a par da situação catastrófica que se delineava no horizonte. “Falou-lhe sobre a guerra entre a França e a Prússia, que já todos criam inevitável, do abandono em que Napoleão III deixaria Roma, da queda do império napoleônico, e dos terríveis açoites que cairiam sobre a França e, em especial sobre Paris.”(23) Tudo isso vira nesse sonho.
         Aproveitando então da grande bondade com que Pio IX o ouvia, o santo narrou-lhe o sonho que tivera, mas só a parte que se referia ao Pontífice:
Agora, a voz do céu se dirige ao Pastor dos pastores. Tu estás na grande conferência com teus assessores; mas o inimigo do bem não se dá um momento de repouso; estuda e põe em prática contra ti todas suas artes. Semeará discórdias entre teus assessores; suscitará inimigos entre meus filhos. As potências do século vomitarão fogo e quereriam que as palavras fossem sufocadas na garganta dos defensores de minha lei. Isto não será. Farão o mal, mas a si mesmos. Tu, apressa-te; se as dificuldades não se resolvem, trunca-as. Se te achas em apuros, não te detenhas; continua até que se tenha cortado a cabeça da hidra do erro. Este golpe fará tremer a terra e o inferno, mas o mundo estará a salvo, e todos os bons se alegrarão. […] Os dias correm velozes; teus anos se acercam do número determinado, mas a grande Rainha será sempre tua ajuda, e nos tempos passados como no porvir, será magnum et singulare in Ecclesia praesidium”.(24)
         Ante tão trágico panorama, Pio IX cortou-lhe comovido a palavra, dizendo: “Basta, basta; se não esta noite não poderei dormir”. Mas no dia seguinte mandou chamar Dom Bosco para ouvir o resto do sonho. Entretanto, o santo já havia tomado o trem para Florença. Mais tarde ele fará chegar às mãos do Pontífice o relato completo do sonho.
O desenrolar dos acontecimentos confirma o sonho

     O desenrolar dos acontecimentos confirmou o sonho de Dom Bosco. No dia 18 de julho desse ano de 1870, fora finalmente proclamado com grande solenidade o dogma da infalibilidade pontifícia, contra o desejo dos Bispos liberais. Mas eis o resultado imediato: “A Áustria aboliu a concordata e rompeu as relações com a Santa Sé. A Baviera sustentava Dollinger na proclamação do cisma dos ‘velhos católicos’. O novo reino da Itália ordenava aos magistrados a vigilância sobre os bispos e párocos, e o encarceramento dos que publicaram a constituição dogmática sobre a infalibilidade pontifícia. A França retirou sua guarnição de Civitavecchia; a Prússia autorizava Vitor Emanuel a entrar em Roma”.(25) 
         À vista de todos esses acontecimentos, vários membros da Corte Pontifícia aconselharam o Papa a abandonar Roma e buscar refúgio em outra parte. Pio IX vacilava. Eles pressionavam. Então o Pontífice lhes disse que havia mandado consultar Dom Bosco, e esperava a resposta. Esta veio nestas palavras: “O sentinela, o anjo de Israel, permaneça em seu posto, guardando a rocha de Deus e a arca santa”. Pio IX permaneceu em Roma.(26)
          Acrescentamos que Pio IX entregou sua alma a Deus no dia 8 de fevereiro de 1878, dia e hora previstos por Dom Bosco. Até seus últimos momentos, o Papa lembrava-se do santo. Os que o assistiam no último transe ouviram-no balbuciar: “Dom Bosco! Dom Bosco! É um homem prodigioso. Eu o estimo e quero muito”.(27)
 Morte e glorificação
         Dez anos depois, no dia 31 de janeiro de 1888, era a vez de Dom Bosco encerrar sua carreira terrena. Chamado misteriosamente, seu discípulo João Cagliero, então bispo missionário, veio da Argentina para assisti-lo. Pouco antes de expirar, Dom Bosco exclamou “Jesus! Maria!… Jesus e Maria, eu vos dou o meu coração e a minha alma… In manus tuas, Domine, commendo spiritum meum… Ó Mãe! Mãe!… abri-me a porta do paraíso”.(28)
          O “Osservatore Romano” desse dia afirma: “A morte de Dom Bosco é um luto para a Igreja e para a Humanidade. No ocaso do século XIX, em meio às convulsões dos povos e transformações políticas, soube, com o ascendente da palavra e do exemplo, suscitar uma maravilhosa corrente de caridade e atrair a si os espíritos ainda mais rebeldes, à doçura serena da fé.”(29)
         Multidões participaram do cortejo, levando o corpo do santo à última morada. Descreve o jornal vaticano: “Naquela multidão silenciosa e pia, via-se gente do povo e senhores, peregrinos franceses, suíços, alemães, camponeses, sacerdotes, nobres — toda a escala social — e todos louvavam a obra e a virtude modesta e santa do defunto. Muitos, vindos por curiosidade, permaneciam tocados com aquele espetáculo novo e solene, e diziam também ‘que ele era um grande santo’. Muitos armazéns tinham fechado suas portas em sinal de luto, do mesmo modo que empresas tinham dado liberdade aos seus operários para que fossem acrescer o significado desta solene demonstração.”(30)
         Em junho de 1907 São Pio X reconheceu a heroicidade das virtudes de Dom Bosco e o declarou Venerável. Em 2 de junho de 1929 Pio XI o beatificou. Finalmente, no Domingo de Páscoa, 1º de abril de 1934, no encerramento do Ano Santo extraordinário, o mesmo pontífice o canonizou solenemente.
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Notas:
1.      Cardeal Pedro Maffi, arcebispo de Pisa, in Rodolfo Fierro, S.D.B., Introduccion GeneralBiografia y Escritos de San Juan Bosco, Biblioteca de Autores Cristianos (BAC), Madri, 1967, p. 3.
2.      Apud Fierro, op.cit., p. 44.
3.      Fierro, op.cit., p. 3.
4.      Fierro, op.cit., p. 10.
5.      Fierro, op.cit., p. 5.
6.      Fierro, op.cit., p. 8.
7.      Memorias del Oratorio, in Biografia y Escritos de San Juan Bosco, BAC, p. 76, nota 16.
8.      Discurso de 3 de abril de 1932, in Biografia y Escritos de San Juan Bosco, p. 11.
9.      Fierro, op.cit., p. 45.
10.  Fierro, op.cit., p. 45.
11.  Memórias del Oratorio, p. 131, nota 65.
12.  Memórias del Oratorio, p. 74.
13.  Memórias del Oratorio, p. 75.
14.  Fierro, op.cit., p. 11.
15.  Fierro, op.cit., p. 9.
16.  Pe. G.B. Lemoyne, Vita di San Giovanni Bosco, Società Editrice Internazionale, Torino, 1975, p. 394.
17.  Lemoyne, op. cit., p. 391.
18.  Lemoyne, op. cit., pp. 512-513.
19.  Fierro, op.cit., pp. 54-55.
20.  Memorias del Oratorio, p. 293.
21.  Memorias del Oratorio, p. 293.
22.  Memorias del Oratorio, pp. 374-375.
23.  Memórias del Oratorio, p. 375.
24.  Memorias del Oratorio, pp. 366-367.
25.  Memorias del Oratorio, p. 376.
26.  Memorias del Oratorio, p.378.
27.  Memorias del Oratorio, p. 400, nota 20.
28.  Lemoyne, op.cit., p. 654.
29.  Lemoyne, op.cit., p. 660.
30.  Lemoyne, op.cit., p. 666.



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