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sábado, 21 de setembro de 2019

CONHEÇA A INDÍGENA QUE IRÁ À ASSEMBLEIA GERAL DA ONU

Ysani Kalapalo foi convidada pelo próprio governo Bolsonaro

21/09/2019 

Ysani Kalapalo é youtuber e fala sobre vida dos indígenas do Xingu Foto: Reprodução

O presidente Jair Bolsonaro embarca para os Estados Unidos nesta segunda-feira (23), junto com sua esposa, a primeira-dama Michelle Bolsonaro, e comitiva.

Eles irão para Nova Iorque para a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Junto com a comitiva está a indígena Ysani Kalapalo, convidada pelo próprio presidente para participar do evento.

Ysani é youtuber e influenciadora digital. Ela faz vídeos sobre a vida em sua aldeia no Xingu e costuma comentar os rumos da política. Ysani é apoiadora do governo atual, de direita, e crítica da grande mídia.

A indígena afirmou, inclusive, que as queimadas na Amazônia não tem a ver com decisões de Bolsonaro e configuravam fake news para prejudicar o governo.

Ela sentará ao lado dos ministros Ricardo Salles, do Meio Ambiente, e Ernesto Araújo, de Relações Exteriores, durante o discurso do presidente.


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HOMEM INSUPORTÁVEL – Cyro de Mattos

                                                 
                            Homem Insuportável 

Cyro de Mattos


          Não que fosse cheio de rancor. Depressivo, pessimista.

          Alimentada era a alma com as coisas boas da vida.

          Só que ninguém queria chegar perto dele para um dedo de prosa. Vizinhos evitavam encontrá-lo. Não queriam cruzar com ele no mesmo passeio.

          A pobre mulher faleceu daquele odor horrível. Generosa, sacrificada. Uma santa, os vizinhos comentavam. Durante anos suportar o cheiro malcheiroso do marido.

          Comigo ninguém pode, nem percevejo nem bode, dizia contente, sorrindo. Acostumado à solidão da casa.

          Desde pequeno o pavor de água. A mãe empurrava–o para o banheiro aos gritos. Ameaçava-o com os piores castigos.  Resistia até quando podia. A presença do pai com a taca na mão intimidava-o. Ficava sem saída. Um horror quando a água do chuveiro batia na pele fétida. Chorava alto.

          Quando ficasse grande, sairia de casa para não sofrer o castigo diário. Banho de água fria ou quente nunca mais.
 
          Jovem, em plena força da idade, cada dia mais distante de um banho para refrescar o corpo no verão. Demorava dias. Mesmo que fosse rápido. Num abrir e fechar de olho. Resistia.

          O cheiro insuportável aderindo à pele, grossa como casca de madeira, com o lodo dos anos passando, encrespando, cascuda.
 
          Aproveitava o calorão do tempo abafado como numa estufa. Passeio sob o sol a pino.  Voltava para a casa com o corpo molhado de suor. Tirava a roupa, torcia a calça, a camisa. Deixava aquele caldo oleoso ir caindo da roupa na bacia. Aí, sim, jogava-o no corpo aos poucos.  Não se enxugava. Lograva com isso o suor extraído do corpo, suficiente para banhá-lo como se água fosse.
 
          No ônibus ninguém se aventurava a ficar perto dele. Passageiros espirravam. Tapavam o nariz. Alguns esbravejavam.

          Urubus ficavam assanhados no telhado, pressentiam que ele circulava entre os cômodos da casa.

          Os vizinhos nem conseguiam mais dormir.

          Achou conveniente ir morar na cadeia. Conviver com aquela gente imunda. Como ele. Certamente não gostava de tomar banho.

          Os presos fizeram greve de fome. Exigiram que saísse o mais breve da cadeia. O mau cheiro vindo de sua cela deixava todos eles enfurecidos, gritando, ameaçando-o de morte.

          Sem querer mais transtornos, decidiu morar nos arredores da cidade. Lugar solitário. Somente ele, ninguém mais. Junto do lixão.

          Teve um dia que trancou portas e janelas. E lá dentro, no escuro, permaneceu para sempre. Protegido dos clamores, ameaças, xingamentos. Em seu reduto intransponível. Somente ele com a fedentina do corpo.

          Deleite das horas, absorvidas com o maior prazer.


Cyro de Mattos - Ficcionista e poeta. Publicado em inglês, francês, italiano, espanhol, alemão, dinamarquês, russo. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. É membro titular da Academia de Letras da Bahia e da Academia de Letras de Ilhéus. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz-UESC.

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sexta-feira, 20 de setembro de 2019

TREM BALA - Neimar Fernandes


Parece que o “TREM BALA” conduzido por Jair Messias Bolsonaro, vulgo Johnny Bravo, está ultrapassando todas as barreiras, mas os apitos e barulhos ficam por conta dos descontentes.


Se o Tarcísio Gomes de Freitas não parar, passaremos o Chile em infraestrutura.

Se o Paulo Guedes não parar, nossa economia será a mais forte da America Latina e Caribe.

Se Ernesto Araujo não parar, seremos referência.

Se Ricardo Salles não parar, o mundo entenderá como respeitar a natureza de fato deixando os ambientalistas desesperados.

Se Damares Alves não parar, anistias serão negadas, pedófilos e estupradores entrarão em extinção…. todas as crianças terão a sua infância protegida e respeitada….e vamos ser referências mundiais no verdadeiro significado de Direitos Humanos.

Se Sergio Moro não parar, todos os corruptos e bandidos da nação serão presos e terroristas estrangeiros deportados. Brasil não é mais Disneylândia da bandidagem e nem dos narcotraficantes.

Se Abraham Weintraub não parar, a educação será finalmente de qualidade quebrando a espinha dorsal.

Se Tereza Cristina não parar o agro crescera absurdamente deixando o Greenpeace e várias ONG's loucos.

Se Jair Messias Bolsonaro não parar, ele será reeleito em 2022!

Se o povo não parar de apoiar o Jair Messias Bolsonaro, teremos uma Direita permanente no governo.

A Caravana passa e os cães ladram.

Eis que a esperança ressurge no coração da nação brasileira.


NEIMAR FERNANDES é jornalista e publicitário, pós graduado em marketing pela SUNY-State University of New York e tem mais de 40 anos de experiência com serviços prestados no Brasil e exterior. Vamos compartilhar!

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ABL APRESENTA “A COMÉDIA DA PANELINHA”, DE PLAUTO, NA LEITURA DRAMATIZADA DE SETEMBRO


Em 2019, uma parceria entre a Academia Brasileira de Letras e a Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Pena promove apresentações teatrais da peça “A comédia da Panelinha”, entre outras, adaptadas para o formato de leitura dramatizada.
O evento será realizado no dia 25 de setembro, quarta-feira às 15h00, no Teatro R. Magalhães Jr. localizado na Academia Brasileira de Letras, Av. Presidente Wilson, 203 – Castelo. A entrada é francaFaça sua reserva!
A leitura
O enredo central envolve a história do velho Euclião, que possui uma panela cheia de ouro herdada por gerações. Por medo de perder tal riqueza, entretanto, o personagem vive como um pobretão, atordoado com a possibilidade de descobrirem o seu tesouro escondido. Numa trama cheia de peripécias e mal-entendidos, o autor propõe a pergunta sempre atual: dinheiro traz felicidade?
Com um pouco mais de uma hora de duração, jovens e adultos poderão se encantar com uma divertida história que tem como tema central esconder de todos a sua fonte instantânea de riqueza. A apresentação é realizada pelo grupo de alunos e ex-alunos da Escola, com direção da professora Christiane Messias e tradução de Aída Costa.
O autor
Plauto foi um grande dramaturgo romano que viveu durante o período republicano. A obra "A comédia da Panelinha" de Plauto serviu de inspiração para outros renomados escritores ao longo dos séculos, como ShakespeareMolière e Ariano Suassuna.

INSCRIÇÕES
Garanta sua participação gratuita para esta sessão exclusiva. Lugares limitados.


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quinta-feira, 19 de setembro de 2019

BEM-VINDO AO SÉCULO XXI – Jhanis Saadi

"Bem-vindo ao século XXI

Aqui o sexo é livre e o amor se tornou um bolso cheio de notas.

Onde perder o celular é pior do que perder os teus valores. Onde a moda é fumar e beber, e se não fizer isso, você está obsoleto. Onde o banheiro se tornou estúdio para fotos e a igreja, o lugar perfeito para check in.

Século XXI, onde homens e mulheres temem uma gravidez muito mais que HIV. Onde o serviço de entrega de pizza chega mais rápido do que a ambulância.

Onde as pessoas morrem de medo de terroristas e criminosos muito mais do que temem a Deus. Onde as roupas decidem o valor de uma pessoa e ter dinheiro é mais importante do que ter amigos ou até mesmo família.

Século XXI, onde as crianças são capazes de desistir dos seus pais pelo seu amor virtual. Onde os pais esquecem de reunir a família à mesa para um jantar harmonioso, conversando sobre o dia a dia pois estão entretidos no seu trabalho ou celular.

Onde homens e mulheres muitas vezes, só querem relacionamentos sem obrigações e seu único 'compromisso' se torna posar para fotos e postar nas redes sociais jurando amor eterno. Onde o amor se tornou público ou uma peça de teatro.

Onde o mais popular ou o mais seguido com mais curtidas em fotos é aquele que aparenta esbanjar felicidade; aquele que posta fotos em lugares legais e badalados rodeados por 'amizades vazias' com 'amores incertos' e 'famílias desunidas'.

Onde as pessoas se esqueceram de cuidar do espírito, da alma vazia e resolveram cuidar e cultuar os seus corpos. Onde vale mais uma lipoaspiração para ter o corpo desejado do 'mundo artístico' do que um diploma universitário.

Onde uma foto na academia tem muito mais curtidas do que uma foto estudando ou praticando boas ações.

Século XXI, aqui você só sobrevive se jogar com a 'razão', e você é destruído se agir com o teu coração!"


Jhanis Saadi 




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RETROCESSO NA INGLATERRA – Péricles Capanema


17 de setembro de 2019
Péricles Capanema

Não vou tratar aqui do imbróglio Brexit. Deixo suas ameaças e incompreensões para eventual outro artigo. O caso pode provocar enorme retrocesso em várias frentes. É de outra regressão, menos imediata, certamente mais funda, o que esmiúço nas linhas abaixo.

Antígua e Barbuda, Austrália, Belize, Barbados, Canadá, Granada, Jamaica, Nova Zelândia, Papua Nova Guiné, São Cristóvão e Nevis, Santa Lúcia, São Vicente e Granadinas, Ilhas Salomão, Bahamas, Tuvalu. British Commonwealth. O Reino Unido é composto de quatro nações, Inglaterra, Gales, Escócia e Irlanda do Norte. Inglaterra, Gales e Escócia formam a Grã-Bretanha. Também British Commonwealth. Constituem todos, repito, a British Commonwealth, cuja tradução, entre várias, poderia ser comunidade das nações britânicas. Têm um só chefe de Estado, a rainha Elisabeth II. Ligados por vários laços construídos pacientemente ao longo das centúrias, esses países constituem uma liga de mútuos bons ofícios, abertura e benevolência recíprocas. Um pouco distante, olhando para a mesma direção, encontram-se Estados Unidos, Índia, Paquistão. De tal comunidade de povos, ligados por tantos laços, e ressalto, os do afeto, consideração e respeito, advêm enormes vantagens comerciais mútuas, facilidades de viagens, de estudos, proteção militar, tanta coisa mais.

Bandeiras dos países-membros da British Commonwealth
No centro, uma pequena ilha, poucas riquezas naturais, governada por séculos com espantosa continuidade operosa. A realidade empurra o observador a se inclinar diante do senso político extraordinário ali incrustado senso de governo que faz lembrar, e quem sabe os supera, os romanos das idades clássicas.

Senatus Populusque Romanus — o Senado e o Povo Romano. Chamo a atenção agora para a palavra Senatus. E para a realidade, conselho formado por pater famílias, os chefes das famílias patrícias. Depois a ela volto.

Os primeiros-ministros de cinco membros da Commonwealth de 1944 em uma Conferência da Commonwealth. Churchill no centro.

Um salto para a História contemporânea. Corria 1937. Winston Churchill, então no ostracismo, carreira encerrada, tudo o indicava, pois era rejeitado no seu partido devido à oposição feroz que fazia ao nazismo e a seu armamentismo, foi convidado para ir à embaixada alemã em 21 de maio, onde o esperava o embaixador Joachim von Ribbentrop, depois ministro do Exterior do Terceiro Reich. Foi-lhe apresentada a proposta de um pacto entre a Alemanha nazista e a Inglaterra. O político inglês a rejeitou prontamente. Então Ribbentrop virou as costas bruscamente e disse: “Sendo assim, não há saída. A guerra é inevitável. Hitler está resolvido. Nada o deterá, nada nos deterá”. Winston Churchill, calmo, disse ao chefe nazista mais ou menos o seguinte: “Não subestime a Inglaterra e de modo especial não a julgue pelas atitudes do presente governo. Ela é muito inteligente. Se vocês nos afundam em outra grande guerra, ela coligará o mundo inteiro contra vocês, como fez na última vez”. Ribbentrop redarguiu: “A Inglaterra pode ser muito inteligente, mas desta vez não coligará o mundo inteiro contra nós”. Churchill foi embora. Veio a guerra, a Inglaterra coligou o mundo contra Hitler, venceu-a, é o mesmo senso político em atividade.

Em 1955, a Rainha Elisabeth II com Winston Churchill no centro

As realidades políticas duradouras estão enraizadas em realidades sociais, delas recebem a seiva. A classe política inglesa em boa medida é reflexo da vida, no campo e na cidade, de famílias que em graus muito diferentes marcaram a história inglesa. Winston Churchill era desse meio. E mesmo os políticos que dali não vieram respiraram tais ares, moldam seu comportamento pelos valores e costumes que pautam as relações entre esposos, filhos, parentela e conhecidos das famílias antigas do Reino Unido. É valor social, para ficar por aqui, de enorme valia. Mais precisamente, tem enorme função social. A Câmara dos Comuns, a Câmara dos Lordes, a própria realeza, sem essa realidade humana que as embasa, seriam corpos de vida anêmica. Têm elas na Inglaterra papel análogo ao Senado romano.

A Rainha na abertura do Parlamento, em 2014

Embora já não se possa falar em sociedade de ordens, referir-se ao fato em comento apenas como sociedade de classes seria apressado, superficial e deformante. À vera, ainda permanece no ar o perfume da sociedade de ordens, continua tendo vitalidade o senso do bem comum, não morreram comportamentos que tiveram seu auge nas épocas de esplendor da cavalaria cristã. Com tais balizas, a benéfica mobilidade social, para cima e para baixo, assimilações e decadências, respeitam a estabilidade, fazem-se enfim sem lesar o bem comum. Estou escondendo os possíveis abusos, deformações, favoritismos injustificáveis? Não, apenas não os estou colocando no quadro para que o essencial seja visto em primeiro lugar. Do mesmo modo que faria ao analisar a situação do bombeiro, de evidente relevância social, sem de início aludir a profissionais corruptos, relapsos e omissos.

Por que coloquei no título retrocesso na Inglaterra? Para não deixar passar batida uma involução, um sintoma dela aponto no próximo parágrafo, que pode, com o tempo, perenizar fossilização regressiva, tantas vezes característica de sociedades igualitárias.

A Editora Debrett publica desde 1769 um anuário, hoje intitulado Peerage and Baronetage, [na foto a edição deste ano — a última], espécie de almanaque da nobreza e aristocracia inglesas. Todos os títulos ali constantes têm sua história, muito deles de grande ressonância, significam a justo título muito no mundo saxão, mas não representam a essência do fenômeno (são dele reflexo) que aqui coloco na lupa: o miolo é o cultivo amoroso da excelência, no caso, a social, por boa parte do público. Isso é motor do avanço em qualquer sociedade.

Informa Vivian Oswald no jornal “Globo”, a edição impressa de 2019 do Peerage and Baronetage, a 150º, será a última. Razão decisiva, o álbum de dois volumes dá prejuízo. São muito altos os custos de produção, distribuição e estocagem do artístico e informativo trabalho, capa de couro, cerca de três mil páginas. A publicação continua na internet, com consulta paga. A propósito, esta última edição, preço promocional, sai por 405 libras.

Em resumo, parece, o público já não se interessa o suficiente para ser lucrativo manter em circulação um dos símbolos da grandeza da Inglaterra. Acostumou-se com horizontes mais acanhados, em que aparece menos a atração pela excelência, no caso, um marco do apreço pela perfeição social. É rota para o atraso, fenômeno que pode ter efeitos mais fundos que o imbróglio Brexit.



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quarta-feira, 18 de setembro de 2019

A SALVAÇÃO DA LAVOURA! - Antonio Nunes de Souza


Depois de uma manhã bastante trabalhosa, para descansar as escondidas do administrador, o trabalhador rural procurou uma grota numa pirambeira para relaxar, deitou-se e dormiu tranquilamente, depois de tomar uma cachacinha e saborear sua farofa com carne seca.

Passadas algumas horas, com um grande susto, foi acordado com uma pancada da cabeça, por algo que despencara da árvore.

Pulou assustado, olhou para o chão e viu um grande ovo de chocolate, rachado em duas partes. Em princípio ficou apavorado e procurou em sua volta quem havia atirado tal objeto. Mas, não vendo ninguém, olhou para cima e, muito espantado, viu que o cacaueiro estava carregado de ovos de páscoa (desembrulhados, é claro!). Ele, mais assustado ainda, esfregou os olhos para dar uma maior firmeza a sua visão, tornando a olhar para cima, constatou a árvore coberta de ovos, não só em seu tronco, como em diversos galhos.

-Meu Deus, será que estou doido ou é um milagre? Exclamou ele em voz alta, ainda não acreditando no que via.

Meio desconfiado, pegou um pedaço do ovo que havia caído em sua cabeça e, com certo medo, enfiou na boca para experimentar o sabor e constatar a realidade. E, para sua maior surpresa, o gosto era uma delícia, com uma textura de alta qualidade.

Já desfeito o susto inicial, deu um pequeno sorriso e ficou a matutar o que teria acontecido com aquele cacaueiro, pois os outros estavam todos normais, somente aquele apresentava uma frutificação tão saborosa e estranha. Curiosamente, aquele pedaço de roça fora ele mesmo que havia plantado tempos atrás, mas, pela localização ser muito acidentada, nunca tinha voltado ali para verificar o crescimento ou desenvolvimento daquelas mudas que lhe foram mandadas pelo patrão. Mas, o curioso é que todas as mudas foram iguais e somente aquele tinha degenerado com relação aos frutos.

Depois de pensar bastante o que fazer, se colheria para ele e ficaria calado ou se contava ao administrador. Então, colocou a memória para funcionar, procurando lembrar-se do dia em que fez o tal plantio. Caboclo de boa memória, num sobressalto, lembrou-se que, no dia em que estava enterrando às mudas, ele encontrou uma galinha morta bem no pé da cova e aproveitou para empurrá-la para dentro, fazendo o plantio e a ave serviria de adubo.

-Só pode ter sido isso! Disse ele em voz baixa. E ao mesmo tempo pensou: Houve uma mistura das características da galinha com a do cacau e o resultado foi a árvore produzir ovos de páscoa. Vou imediatamente passar essa minha experiência para o pessoal da Ceplac e lá eles poderão aprimorar, colocar papel de seda e uma fitinha, pois aí os ovos já sairão embalados e prontos para vender. E ainda tem mais, se os cientistas forem expertos, já nos saquinhos das mudas colocarão castanhas, passas, amendoins, frutas cristalizadas, farinha de trigo, etc. e, quem sabe se não teremos mudas que produzam, além dos ovos de páscoa com vários sabores, alguns deliciosos panetones?

Esse trabalhador rural fez uma carta para o departamento de genética do órgão, já se passaram dois anos e ninguém foi na fazenda para comprovar o fato e colocar em prática esse novo tipo de clone. Talvez essa seja a solução para todos os nossos problemas regionais.

Infelizmente não posso declinar o nome do trabalhador, mas, posso afirmar que ele nunca mais comprou ovos de páscoa, manda para os amigos e guarda a sete chaves, bem camuflado, seu cacaueiro encantado.

  
Antonio Nunes de Souza, escritor
Membro da Academia Grapiúna de Letras-AGRAL
                                     
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