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domingo, 26 de maio de 2019

ANEMIA DO ABRIL VERMELHO - Péricles Capanema


25 de maio de 2019

Péricles Capanema

Desde 1997 o MST promove o chamado “abril vermelho”. Financiado com dinheiro público, o gigantesco show de agitações reclamou sempre a radicalização da reforma agrária e a implantação de outras pautas da esquerda, etapas para a sonhada sociedade socialista (caminho para a presente situação da Venezuela, na realidade). O MST, na linha de frente, era ajudado em particular pela CPT e INCRA, trinca do barulho…

Há muitos lustros o agro tem sido atacado por vários meios —, um dos quais, invasões de fazendas —, em especial pela ação concertada dessas três entidades. O MST (primeira), organização comunista, braço do PT, e a CPT (segunda), extrema-esquerda eclesiástica, protegida pela CNBB (à vera, não apenas protegida, é órgão dela). A terceira, o INCRA.

Nos governos de esquerda, no INCRA diretoria, superintendências e enxames de funcionários solícitos encarniçadamente conluiados com PT, MST e CPT agrediam a propriedade particular no campo. No governo Temer, infelizmente continuou o INCRA a favorecer objetivos do MST (um pouco menos escancaradamente). Agora, sofreu uma trava. Continuam, porém, agentes do órgão em obstinada atuação deletéria, pipocam aqui e ali funcionários efetivos e superintendências empurrando no rumo antigo. As três organizações formaram na prática um pactum sceleris (formaram no passado; a realidade ainda existe hoje, diminuída).

Assomou para desgraça do Brasil respiro importante para o MST. Em encontro com representantes da organização criminosa em fevereiro passado, Rodrigo Maia, presidente da Câmara, comprometeu-se a não pautar (colocar para votação) projetos que o criminalizem. Criminalizar a atuação do MST ficou para as calendas. Foi promessa de campanha — espera-se que apenas de momento arquivada. “Toda ação do MST e do MTST deve ser tipificada como terrorismo”, repetia o candidato Jair Bolsonaro. Com o incumprimento do compromisso, o MST preservaria suas possibilidades de ação no futuro.

Amarelou em 2019 o “abril vermelho”. Só pequena agitação em Salvador, onde um petista, Rui Costa, é inquilino do Palácio de Ondina. A própria Abin não julgou necessário alertar o governo sobre possíveis agitações. Por quê?

Porque o “abril vermelho” desde sempre foi show totalmente artificial, viveu do dinheiro público. Não representa em nada o sentimento do homem do campo. Em parte, o INCRA, por causa da nova direção, já não impulsiona abertamente a ação concertada do MST-CPT. Ficaram ainda focos infeccionados, já disse. O presidente Jair Bolsonaro apontou outro fator: “Incra registra só 1 ocupação no 1º trimestre diante 43 ações no mesmo período de 2018. O MST está mais fraco pela facilitação da posse de armas, iniciativa que terá derivações pelo governo, falta de financiamento do setor público e de ONG”.

O ponto maior é esse, faltou dinheiro público para o “abril vermelho”. Por exemplo, acabou a farra dos convênios. Contudo, estão intactas as leis e, em boa medida, as estruturas utilizadas pelas mencionadas três organizações. A anemia acabará no dia em que o dinheiro público voltar a fluir.

Lamento prever, gostaria de estar errado, mas vai continuar intacta a legislação e boa parte das estruturas. Não é politicamente correto acabar com a infecção. Temos no Brasil tumores de estimação. São cancerígenos, matam as possibilidades de avanço, prejudicam os pobres, mas são nossos tumores de estimação. Um dos mais virulentos é o programa da reforma agrária.

É, repito, politicamente incorreto enunciar o óbvio ululante: desde o início, lá pelos anos 60, a implantação da reforma agrária representou retrocesso monumental, um atraso de proporções amazônicas. Se nunca no Brasil se tivesse falado de reforma agrária, os pobres hoje estariam mais bem de vida no campo e na cidade, os alimentos estariam mais baratos, seríamos hoje potência agrícola mais poderosa. E as montanhas de dinheiro que foram desperdiçados no programa maluco poderiam ter atendido larga e beneficamente a saúde e a educação.

Inexistisse o xodó pelo tumor, a medida mais comezinha e lógica seria acabar imediatamente com o programa da reforma agrária. Aqui não. E continuam as declarações bestas do tipo: “Vamos aplicar a legislação, o programa da reforma agrária não parou, vai ficar sério”. “Vamos aproveitar os lotes abandonados”.

Todos sabem, são centenas de milhares de lotes com contratos de gavetas, abandonados, empregados para outros fins, produtividade baixíssima. Já foram utilizados 880 mil quilômetros quadrados nessa doidice (o Estado de Minas Gerais, 586.528 km2, área do Rio Grande do Sul, 281.748 km2; soma dos dois 868.266 km2). Ou seja, se somarmos a área de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul não dá a área esperdiçada na maluquice do programa de reforma agrária (disseminação de favelas rurais, roubalheira, pobreza, clientelismo de movimentos sociais). O agronegócio salva a economia brasileira, garante a balança comercial, distribui riquezas, dá empregos. Sabem com que área? Vejam esse dado: em 2016, a Embrapa Territorial havia calculado a ocupação com a produção agrícola em 7,8% (65.913.738 hectares. 659.137 km2.

Relatório do TCU de 2016 indicava que o valor das áreas com indícios de situação irregular dentro do programa de reforma agrária era de R$159 bilhões, utilizada a avaliação do IBGE. Se for em valor de mercado, pode facilmente chegar a R$300 bilhões. Terra tratada na esbórnia, na desorganização, no desconhecimento. Advertia que bilhões de reais emprestados poderiam não ser pagos (claro, nunca foram). Vejam o disparate nas palavras do relatório do TCU: “Conforme informado pelo INCRA, os créditos eram concedidos a estruturas associativas formais ou informais e distribuídos entre os integrantes dos PAs (projetos de assentamento), não havendo registro individualizado organizado sobre quem recebeu os créditos, ou seja, o prejuízo pode ser muito maior.” Entenderam? Sociedades informais (patotas de privilegiados dos movimentos sociais), sem registro individualizado recebiam dinheiro público.

R$300 bilhões de terras na bagunça. Coloque os empréstimos não devolvidos, os perdões de dívidas, a assistência técnica estatal para aproveitadores, o controle tirânico dos assentamentos pelos agentes do MST, a venda ilegal de madeira. Os escândalos do mensalão e do petrolão são fichinha perto do escândalo do programa da reforma agrária.

Mas, é claro, não se pode extinguir o programa. Razão técnica? Nenhuma. Não aumenta a produtividade. Razão social? Nenhuma. Piora a situação dos pobres. Razão de paz social? Nenhuma. Tensiona a região em que se implantam os assentamentos. Mas trona e sobrepassa tudo uma razão inamovível. É tumor de estimação. Tumores de estimação são intocáveis.


* * *

NÃO SE CALE – Ruth Borges



Engole o choro. 
Engole sapo. 
Cala a boca. 
Cala o peito.
Mas o corpo fala, e como fala. 

Fala a ponta dos dedos batendo na mesa. Falam os pés inquietos na cama. Fala a dor de cabeça. Fala a gastrite, o refluxo, a ansiedade. Fala o nó na garganta atravessado. Fala a angústia, fala a ruga na testa. Fala a insônia, o sono demasiado.

Você se cala, mas o falatório interno começa. As pessoas adoecem porque cultivam e guardam as coisas não digeridas dentro de seus corações. 
O normal do ser humano seria a comunicação e conseguir dizer o que está sentindo. Mas nem todos se habilitam para esse difícil exercício. Nem sempre digerimos bem aquelas pequenas coisas, como mensagens mal respondidas, as palavras que machucam...

Você finge que não ouviu, engole e tudo isso vai se acumulando até que um dia enche. Esses pequenos fatos indigestos percorrem a garganta, entram no estômago, invadem o peito, e se deixarmos, calará nossa boca e nossa paz. 

O importante é não deixar acumular ou achar que simplesmente vai aliviar com o passar dos dias. O tempo até tem um papel importante, mas não resolve tudo. Tentar mostrar que tudo sempre está bem requer muita energia, o desgaste emocional é grande.

Não dá para engolir tudo e dizer amém! Eu sei. 

Também não dá para cometer sincericídios por aí e sair vomitando as coisas entaladas na sua garganta.

Mas dá para se expressar. 

Tem hora que o sentimento pede pra ser dito, entendido, descodificado, traduzido. 

Tudo que ele quer é ser exorcizado pela palavra ou pela via que lhe cabe melhor. Expressar tranquiliza a dor. Dor não é para sentir para sempre. Dor é vírgula.

Então faz uma carta, um poema, um livro. Canta uma música. Pega as sapatilhas, sapateia. Faz uma aquarela. Faz uma vida. Faz piada, faz texto, faz quadro, faz encontro com amigos. Faz corrida no parque. Fala pro seu analista, fala para Deus, para o universo... se pinta de artista.

Conversa sozinho, papeia com seu cachorro, solta um grito pro céu, mas não se cale.

 Pois “se você engolir tudo que sente, no final você se afoga”.

  

 Ruth Borges.

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PALAVRA DA SALVAÇÃO (132)


6º Domingo da Páscoa – 26/05/2019

Anúncio do Evangelho (Jo 14,23-29)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada. Quem não me ama, não guarda a minha palavra. E a palavra que escutais não é minha, mas do Pai que me enviou.
Isso é o que vos disse enquanto estava convosco. Mas o Defensor, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos tenho dito.
Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; mas não a dou como o mundo. Não se perturbe nem se intimide o vosso coração.
Ouvistes o que eu vos disse: ‘Vou, mas voltarei a vós’. Se me amásseis, ficaríeis alegres porque vou para o Pai, pois o Pai é maior do que eu. Disse-vos isso, agora, antes que aconteça, para que, quando acontecer, vós acrediteis”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. André Teles:

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Deus não é nosso hóspede, mas a essência do nosso ser

“...e nós viremos e faremos nele nossa morada” (Jo 14,23)

Continuamos com o discurso de despedida de Jesus, depois da Última Ceia. O tema do domingo passado era o amor manifestado na entrega aos demais. Terminávamos dizendo que esse amor era a expressão de uma experiência interior, relação com o mais profundo de nós mesmos que é Deus.

Hoje o evangelho nos fala do que significa essa vivência íntima. A Realidade que somos, é nosso verdadeiro ser. O verdadeiro Deus não é um ser separado que está em alguma parte da estratosfera, mas o fundamento de nosso ser e de cada um dos seres do universo.
Tudo está admiravelmente condensado e expresso nesta frase com a qual se inicia o evangelho de hoje: “viremos a ele e faremos nele nossa morada”. O ser humano está habitado por Deus, no sentido mais profundo que possamos imaginar.

Quem toma consciência de sua identidade profunda, descobre-se habitado e amado pelo Mistério e não pode fazer outra coisa senão amar e experimentar a unidade com todos. Na linguagem do quarto evangelho, Deus e Jesus são o “centro” último do nosso interior, o que constitui nossa identidade mais profunda. Deus Trindade abraça e se expressa em toda a realidade; habita tudo e em tudo se manifesta; envolve tudo e em tudo está presente. É o que experimentaram e proclamaram os místicos: “Meu Eu é Deus e não reconheço outro Eu que a Deus mesmo” (S. Catarina de Gênova).

João da Cruz escreve: “A alma mais parece Deus que alma, e ainda é Deus por participação”. Não se trata, portanto, de que Deus habite unicamente naqueles que cumprem a palavra de Jesus, num retorno à religião dos méritos e das recompensas. Deus habita já todos os seres: nada poderia existir “fora” d’Ele. Tudo é morada de Deus.

Segundo S. Inácio “Deus habita nas criaturas: nos elementos dando o ser; nas plantas, a vida vegetativa; nos animais, a vida sensitiva; nas pessoas, a vida intelectiva. Do mesmo modo em mim, dando-me o ser, o viver, o sentir e o entender. E também fazendo de mim o seu templo” (EE. 235).

Tudo está inundado de Deus; tudo é sagrado, nada é profano.

Deus não permanece exterior nós, mas habita no mais profundo de cada um; somos o que somos devido à presença de Deus em nós. A dignidade e o significado último de cada ser humano não provêm dele mesmo, mas da presença de Deus em seu interior.

Além disso, nós nunca estamos fora de Deus. Tudo que somos e temos é manifestação de sua força, bondade e amor. Com-viver com Deus tem sempre algo de aventura que assusta e encanta. É a chamada “experiência numinosa”. Pois, Deus e o ser humano não são adversários, mas “diferenças que se amam”. Por isso, ao abraçarmos cada pessoa, estaremos tomando nos braços não apenas os seus limites, fragilidades e sombras, mas também o seu infinito mistério: Deus mesmo.

Igualmente, distanciar-se do outro é expulsar-se de Deus, e quem se fecha à novidade do outro, inevitavelmente limita a ação do Criador no próprio interior. E para onde quer que olhemos, lá está Ele: silencioso, como nosso próprio mistério. Está presente na distante profundeza do universo como suprema fecundidade e nosso Pai, na proximidade dos seres humanos como humildade e nosso irmão, em nós mesmos como sentido e o vigor que nos faz viver.

Jesus viveu uma profunda identificação com o Pai que não podemos expressar com palavras. “Eu e o Pai somos um”. Nós também somos chamados a viver essa mesma identificação. Fazer-nos uma coisa só com Deus, que é presença e que não está em nós como hóspede agregado que chega e sai, mas como fundamento de nosso ser, sem o qual nada pode existir em nós. Essa presença de Deus em nós não altera em nada nossa individualidade. Nós somos totalmente nós mesmos e totalmente de Deus. Viver esta realidade é o que constitui a plenitude do ser humano.

Uma coisa é a linguagem e outra a realidade que queremos manifestar com ela. Deus não tem que vir de nenhum lugar para estar no mais profundo de nosso ser. Está aí desde antes de existirmos. Não existe “alguma parte” onde Deus possa estar, fora de nós e do resto da criação. Deus é Aquele que torna possível nossa existência. Somos nós que estamos fundamentados n’Ele desde o primeiro instante do nosso existir. Deus já não é esse Outro ao qual temos que ir ou esperar que venha, senão que forma parte de nossa realidade, um espaço do qual podemos nos diferenciar, mas não separar.

Descobri-Lo em nós, tomar consciência dessa presença, é como se Ele viesse a nós. Esta verdade é a fonte de toda experiência espiritual. Os místicos ousam dizer: “temos Deus dentro de nós; é tão unido a nós que Ele é a nossa própria profundidade”.

Aqui está a grande novidade da mensagem e da experiência de Jesus: revelar que o lugar da presença de Deus é o ser humano. Ele é experimentado dentro de nós; mas também é preciso descobri-Lo dentro de cada um dos outros seres humanos. A presença surge de dentro e nos sensibiliza a percebê-Lo no outro.

 “Deixar Deus ser Deus em nosso interior” significa entrar no fluxo da dinâmica divina, ou seja, viver encontros divinizados, sendo presença divinizada, expressando palavras e atos divinizados...

A presença de Deus em nosso interior fica atrofiada quando nossa vida é carregada do veneno do preconceito, da intolerância, do julgamento, da suspeita e do medo do diferente. É justamente essa presença divina no eu profundo que nos diferencia e nos torna originais. Encontrar-nos com Deus na própria morada interna não é fechar-nos num intimismo estéril; implica ampliar o espaço do coração para acolher o outro que pensa, sente e ama de maneira diferente, porque também ele é morada da Trindade.

O Espírito é o garantidor dessa presença dinâmica do Pai e de Jesus em nós: “Ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos tenho dito”. O verdadeiro Mestre – nosso “mestre interior” – que nos irá conduzindo até a verdade é o Espírito de Deus, que se expressa no mais profundo de todo ser humano. É a “voz” de Deus em nós, à qual temos acesso a partir da abertura e disponibilidade interior.

O teólogo Schillebeeckx afirmou: “Se pudesse tirar de mim o que há de mim, ficaria Deus; se pudesse tirar de mim o que há de Deus, ficaria nada”.

Ao nos reconhecermos nessa morada interior, podemos receber a paz da qual fala Jesus; não só isso: descobrimos que somos Paz. Não é a “paz do mundo”, que sempre será oscilante e inconstante, senão a Paz que abraça todas as situações da vida, porque estamos ancorados naquilo que realmente somos.

O “shalom” judaico é muito mais rico que nosso conceito de paz; mas o evangelho de João acrescenta um “plus” de significado sobre o já rico significado judaico. A paz, de que fala Jesus, tem sua origem no interior de cada um. É a harmonia total, não só dentro da pessoa, mas com os outros e com a criação inteira. Corresponde ao fruto primeiro das relações autênticas em todas as direções; expressa a consequência do amor que é Deus em cada um, descoberto e vivido. A paz não é buscada diretamente; ela é fruto do amor. Só o amor, ativado e manifestado no próprio interior, conduz à paz verdadeira. Poder-se-ia dizer que esta “paz” não é algo diferente do Espírito. É a paz de quem permanece ancorado em sua identidade profunda, sem identificar-se com os altos e baixos das circunstâncias, nem perder-se com o “vai-e-vem” da mente.

É a paz que supera toda razão, porque nasce de um “lugar” que está mais além da razão, mais além da mente, na compreensão do Mistério que somos, e que não se vê afetado pelo que ocorre em nosso eu.

Texto bíblico:  Jo 14,23-29
Na oração: Considerar, como devo, de minha parte, amar as pessoas de tal maneira que me faça transparente, para que através de mim os outros possam conhecer quem é Deus.

- Eu devo deixar “transparecer” a imagem de Deus, através da bondade, justiça, serviço... Deus “habita em mim”, deixando suas pegadas; através delas sou movido a dar testemunho de quem é Deus.

Pe. Adroaldo Palaoro sj


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sábado, 25 de maio de 2019

O DOCE – Cyro de Mattos


O Doce
Cyro de Mattos


Coloquei um doce bom
Na boquinha de meu bem
Quando a mulher ama
Que doçura o homem tem.


Filhos, netos, parentes, de bom gosto alardeavam o feito incrível alcançado pelo patriarca. Caso raro no planeta.  Alcançara a marca de 102 anos de idade. A comemoração festiva, os familiares, a cada ano do aniversário.  Ele nem ligava. As vozes fraternas pelos cômodos da casa modesta.

Falava, escutava, cantarolava baixinho.

Gostava de pegar o banquinho, a enxada com o cabo pequeno. Sentava-se no quintal, Ali, extirpava a erva daninha, paciente. Lavrador desde jovem, hábito que cultivava prazeroso na passagem das estações. Mexia nas veias e nervos, a tendência para lavrar a terra, lavouras de curta duração.

O tempo, benevolente, de mansinho ia sustentando-o. Ajudava a carregar as porções da vida na cacunda.

Morava com a filha Nicota, costureira de mão cheia, enviuvara quando andava nos seus 85 anos. Não tinha filhos, da vida não se queixava.

Pela manhã, com o sol quente, encerrava o agrário ritual pelo quintal.

Pela tarde, tirava um soninho, depois de fazer a refeição do almoço. Constava apenas de mingau de aveia e um copo de limonada.

Voltava à tarde ao ritual no quintal quando o sol esfriava. 

“Tá na hora de tomar seu banho”, dizia Nicota, chamando-o à porta da cozinha, que dava para o quintal.
 
Recolhia-se para o banho fresco. Arrumava com cuidado os cabelos ralos, a cabeça miúda.  Aparecia na sala para a última refeição do dia, mais uma merenda. Chá de cidreira com bolacha ou rodelas de pão torrado.

Quando havia visita da vizinha ao lado, aparecia na sala. Perfumado.   Os olhinhos miúdos, como duas contas, brilhavam. Vestido de camisa e calça azul, de mescla. A roupa engomada com cuidado pela Nicota, como ele pedia sempre.

Dizia para a visita:

- Dona, me arranje uma namorada.

A vizinha Lenilda, viúva oitentona, sorria.

Doceira de mão cheia, de voz macia, dava água na boca só de pensar nos doces que faziam as mãos dadivosas da vizinha Lenilda.
 
A cada visita da vizinha à filha Nicota, na encomenda de um vestido ou blusa com florzinhas, o pedido dele não faltava.

- Me arranje uma namorada, dona...  te dou um doce.

Um dia, a vizinha apresentou-se como a eleita, que tanto ele procurava.  Alegre, a voz cantante, maviosa.

Casamento no padre e no juiz. Casório bastante comentado na cidadezinha, aplaudido por uns, desaprovado por outros.

Agora, ao invés de oferecer um doce à antiga vizinha, ganhava dela vários doces, uma delícia nos ingredientes caprichados. De abacaxi, goiaba, batata doce, carambola, laranja, mamão, banana, jaca e até de bala de jenipapo. Tinha também o de pudim de tapioca.  Uma gostosura.

O doce de leite era o que ele mais gostava.
 
Não cansava de elogiar o predileto. Chegava a chorar, de tanto comer esse tipo de doce. Se não recebesse um freio da Lenilda, era capaz de acabar com a vida ali mesmo, de tanto comer e se lambuzar de doce de leite.


*Cyro de Mattos é escritor e poeta. 

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O AMOR, A RIQUEZA E O ÊXITO



Onde há amor, há também riqueza e êxito.

Uma mulher regava o jardim de sua casa e viu três idosos com os seus anos de experiência em frente ao seu jardim.

Ela não os conhecia e lhes disse:

- Não os conheço, mas devem estar com fome.

Por favor, entrem em minha casa para que possam comer algo.

- Não podemos entrar numa casa os três juntos, explicaram os velhos.

- Por quê? Quis saber ela.

Um dos homens apontou para um de seus amigos e explicou:

O nome dele é Riqueza.

Depois apontou para o outro.

O nome dele é Êxito e eu me chamo Amor.

Agora entre e decida com o seu marido qual de nós três vocês desejam convidar para entrar em vossa casa.

A mulher entrou em casa e contou a seu marido o que eles lhe haviam dito.

O homem ficou muito feliz e replicou:

- Que bom!

Já que é assim, vamos convidar a Riqueza, que entre e encha a nossa casa.

Sua esposa não estava de acordo:

- Querido, por que não convidamos o Êxito?

A filha do casal estava escutando tudo e veio correndo a dizer:

- Não seria melhor convidar o Amor?

Nosso lar ficaria então cheio de amor.

- Vamos escutar o conselho de nossa filha, disse o esposo à sua mulher.

Vá lá fora e convide o Amor para que seja nosso hóspede.

A esposa saiu e perguntou-lhes:

- Qual de vocês é o Amor? Por favor, entre e seja nosso convidado. Então o Amor começou a caminhar para entrar na casa.

Os outros dois também se levantaram e o seguiram.

Surpresa, a mulher perguntou à Riqueza e ao Êxito:

- Só convidei o Amor, por que vocês estão vindo também?

Os homens responderam juntos:

- Se tivessem convidado a Riqueza ou o Êxito os outros dois permaneceriam aqui fora,
mas já que convidaram o Amor, aonde ele vai, nós vamos com ele. 

Onde há Amor, há também Riqueza e Êxito.


(Recebi via WhatsApp. Autor não mencionado)

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sexta-feira, 24 de maio de 2019

SACERDOTE VÍTIMA DO ÓDIO COMUNISTA - Plinio Maria Solimeo


21 de maio de 2019
Igreja destruída na China comunista

Plinio Maria Solimeo

         Apesar do infeliz acordo da Santa Sé com a China comunista em prol da chamada Igreja Patriótica, títere do governo chinês, e em detrimento da chamada Igreja Subterrânea, fiel a Roma, continuam as perseguições naquele país. Bispos fiéis e católicos leigos têm sido perseguidos, igrejas e conventos continuam a ser invadidos e destruídos.

De acordo com o conceituado National Catholic Register, desde dezembro de 2018 — não chegando a três meses depois de assinar seu acordo com o Vaticano —, Pequim aumentou a perseguição religiosa, procurando sinicizar a religião no país. Depois de citar perseguições a outros grupos religiosos, o jornal acrescenta: “Com relação aos católicos, as condições são opressivas também, com santuários no país sendo também demolidos. Os católicos menores de 18 anos são proibidos de assistir Missa, e algumas dioceses permanecem vagas”[i].

         Isso porque o comunismo não muda. E é implacável quando está no poder, levando tudo a ferro e fogo para impor sua nefasta ideologia. Seriam muitos os exemplos ao longo da história do século XX e início do XXI, tanto na Rússia quanto noutros países onde ele predominou ou predomina. Escolhemos apenas um, ocorrido nos remotos idos de 1929, para mostrar o ódio diabólico que esses sem-Deus já demonstravam contra os católicos, assim que conquistavam um país. Trata-se do martírio de um sacerdote irlandês, cruelmente morto pelo fato de simplesmente ser católico.

  
      O Pe. Timóteo Leonard [foto] nasceu numa fazenda em Killonan, Ballysimon, no Condado de Limerick, na Irlanda, na festa de São Pedro e São Paulo de 1893. Um dos seis filhos do casal William e Mariana Leonard, dois de seus irmãos se tornariam também sacerdotes.

         Timóteo frequentou a Escola Nacional de Monaleen, foi interno no Colégio São Munchin em Limerick e, depois de cursar a Universidade São Patrício, em Maynooth, foi ordenado sacerdote no dia 28 de abril de 1918, para a Diocese de Limerick. Pouco depois entrou para a Sociedade Missionária de São Columbano, que havia sido fundada dois anos antes para enviar missionários à China.

Em 1924 seria fundado o ramo feminino da Sociedade, o das Irmãs Missionárias de São Columbano, para assessorar os missionários em seu apostolado. São Columbano (540-615) foi um monge missionário irlandês que se tornou conhecido pela fundação de inúmeros mosteiros pela Europa, o mais famoso sendo o de Luxeuil, na França, fundado em 590, no qual entraram tantos monges, que foi possível fazer o laus perennis, isto é, o Ofício ininterrupto, dia e noite, a Deus.

O Pe. Leonard foi dos primeiros missionários columbanos a ser enviado à China, em 1920, com o Pe. Eduardo Galvin, co-fundador da Sociedade com o Pe. João Blowick. Os missionários partiram no dia de São Patrício, 17 de março, do porto de Liverpool, na Inglaterra, via Estados Unidos.

Chegando a Shangai, os missionários participaram por vários meses de um curso intensivo de chinês mandarim. Depois do que o Pe. Leonard foi enviado para área de Haniang, começando então seu apostolado em solo chinês. O Pe. Galvin mais tarde seria o primeiro bispo de Hanyang, naquele país.

Memorial em homenagem ao Pe. Timóteo Leonard

Em 1924 o Pe. Timóteo retornou à Irlanda em busca de novos missionários e ajuda financeira para sua missão. Nesse intuito, pregou em paróquias, colégios e escolas, projetando slides do trabalho dos missionários na China. Como tinha nascido numa fazenda, também apresentou seu trabalho numa feira de agricultura, sendo muito bem recebido pelos fazendeiros, que lhe deram bom suporte financeiro.

Durante essa estadia na Irlanda, o Pe. William Fenton perguntou-lhe se ele tinha considerado que poderia ser morto na China. O intrépido missionário respondeu: “E daí? Se eu pensasse que não o poderia ser, ficaria desapontado. Aliás, [o martírio] não será senão por um quarto de hora. Pense então na recompensa eterna!”.

         O Pe. Leonard retornou à China em 1926, desta vez para a região de Hubei, na parte central do país. Dois anos depois foi transferido para a província de Jiangxi, ficando pároco de Nan Feng, na diocese de Nan Chang.

         O verdadeiro missionário era incansável em seu trabalho, seu entusiasmo não encontrando limites. Além de atender a seus paroquianos da cidade, viajava por péssimos caminhos em lombo de mula para visitar os católicos encontrados em áreas distantes, em lugares às vezes quase inacessíveis.

         Ora, os revolucionários comunistas, liderados pelo feroz MaoTseTung, conseguiram penetrar naquela área por volta de 1929. O exército vermelho somava então dez mil homens na região. Todos seus membros odiavam os católicos, principalmente os missionários estrangeiros que trabalhavam no país.

         No dia 15 de julho de 1929, os energúmenos chegaram à cidade de Nan Feng, e foram direto para a igreja. O Pe. Leonard estava exatamente terminando a consagração na Missa das 5:00 horas da manhã. Os comunistas o arrancaram do altar, quebrando os vasos sagrados. Nesse instante, a maior preocupação do sacerdote foi a de salvar o Santíssimo Sacramento. Increpou então asperamente os sem-Deus pelo sacrilégio que cometiam, fazendo heróicos esforços para proteger as Sagradas Espécies. Mas os comunistas tiraram-lhe das mãos o cibório, jogaram as hóstias sagradas pelo chão, e nelas pisaram.

Depois intimaram o Pe. Timóteo a pagar grande importância por seu resgate. Como ele recusou, o levaram preso juntamente com 16 fiéis, incluindo seu coroinha. O Pe. Leonardo pediu a seus captores que liberassem o menino sem resgate, com o que eles condescenderam.

Os 17 confessores da fé foram aprisionados. Entretanto o Pe. Timóteo, como o responsável por todos eles, foi levado para o alto de um monte, onde o interrogaram e torturaram por muito tempo, durante o qual o sacerdote recusou qualquer alimento, permanecendo entregue à oração.

No dia seguinte, depois de um simulacro de julgamento, o missionário columbano foi condenado à morte, acusado de ser hostil ao povo da China, isto é, dos comunistas, amigo dos Nacionalistas que contra eles lutavam, e espião do Vaticano. O Pe. Timóteo foi executado no dia 17, sendo parcialmente decapitado.

         Três dias depois, seus paroquianos recuperaram o seu corpo, e o levaram para a igreja local, onde foi velado por três dias em meio a lágrimas, cânticos e orações dos seus paroquianos.

No dia 23 de julho o missionário também columbano, Pe. Pat Dermody, e um sacerdote chinês, cantaram solene Missa de réquiem pelo eterno repouso da alma do falecido.

É preciso dizer que os missionários columbanos foram expulsos da China quando os comunistas tomaram o poder no país em 1949.

O Pe. Timóteo Lonard foi o primeiro dos 24 missionários da Sociedade de São Columbanoque deram sua vida pela fé. Ele tinha somente 36 anos de idade quando foi martirizado.

         O dia em que sua família recebeu a notícia de seu martírio, foi de muita consternação para a sua mãe e os seus irmãos. Entretanto, em meio à tristeza, veio da Austrália uma nota de fé e alegria. Com efeito, um dos irmãos do falecido, Dr. William Leonard, que se tornara grande erudito naquele país, ao saber da notícia das circunstâncias da morte do irmão, mandou um telegrama à mãe, no qual dizia: “Congratulações! A senhora se tornou a mãe de um mártir”. 


Outras fontes consultadas:
https://columbans.ie/new-headstone-columban-martyr-fr-timothy-leonard/
http://www.ncregister.com/daily-news/from-ireland-to-china-and-martyrdom-the-legacy-of-father-timothy-leonard
http://www.limerickcity.ie/media/olj%202011%20p046%20to%20048.pdf


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SEM DESTINO! - Antonio Nunes de Souza


Sem Destino


Na penumbra da madrugada
Vou tranquilo na pela estrada
Sem saber onde estou indo.
O bom é estar andando
Sem parar vou caminhando
Sem saber se estou vindo!

Perdido em meus pensamentos
Esquecendo meus tormentos
Sigo em frente meu destino.
Deixando sempre para trás
Os velhos momentos de paz
Do meu tempo de menino!

Estou com a mente perdida
Minha memória esquecida
Somente não posso parar.
Não sei se vou ou se fico
No coração ouço um grito
Para continuar a andar!


Antonio Nunes de Souza, escritor
Membro da Academia Grapiúna de Letras-AGRAL



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