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terça-feira, 2 de agosto de 2022
segunda-feira, 1 de agosto de 2022
Dísticos
Cyro de Mattos *
O bandolim
Tocou tanto para a lua no jardim
que ficou com as cordas de prata
A Garça
Em cima da pedra,
a noiva pernalta
Infância
O mundo é uma criança
com palhaço e lambança
O Grilo
Todo o peso terrestre
nesse cricri constante
O Beija-flor
Beijar e amar
essa a vida do ar
A Isca
Quando vem à tona
como se arrisca
Adivinha
No avião faz proezas
e é o rei da criação?
A Poesia
Sentimento e pensamento
nos fios sem fim do sonho
O Cais
Água batendo
pedra em saudade
O Rio
Morrendo de sede
Cachoeira o seu nome
O Canário
Pinga cantiga no paraíso
começando de novo.
A Canção
Doce como a chuva
venha comigo se molhar
A Casa
As flores no vaso
a mesa só ternura
A Harpa
Cativante nos céus
enquanto as nuvens sonham
O Pinto
Minúsculo amanhecer
no pio no trisco
Os Janeiros
A cidade de brinquedo
um tempo de frutas
As Formigas
De folhinha em folhinha
o amor pela natureza
O Campeador
No meu burrico
venço a solidão
A Hiena
Gargalhada anuncia
o espectro da fome
O Cão
O meu cão em hino
músculos me festejam
A Avó
Saudade assim
fixa o ouro na memória
O Coqueiro
Abano do vento
folhas pestanejam
*Cyro de Mattos é ficcionista, poeta e ensaísta
* * *
domingo, 31 de julho de 2022
RECORDAÇÕES DE UMA TERRA MARAVILHOSA - Carlos Pereira Filho
Carlos
Sousa, durante muitos anos, viveu em Itabuna. Teve roça de cacau, fazenda de
pecuária, indústrias, e um grande número de amigos. Desfrutou das melhores
condições sociais, políticas e econômicas. Não foi feliz, fracassou no
comércio, na lavoura, na pecuária. Fracassou, onde todos prosperavam. Faliu, onde
todos enriqueceram. Perdeu o nome, ele que poderia ser considerado um homem de
bem e onde um simples trabalhador rural conseguia, em pouco tempo, o pomposo
título de “coronel do cacau”, título de riqueza e consideração.
Afastou-se
de Itabuna, sem uma queixa, sem mágoa, sem ressentimento. Não havia amealhado o
ouro, mas havia vivido numa terra maravilhosa, na convivência de seres humanos,
dotados de qualidades, de inteligência, de capacidade de trabalho, um gênio
empreendedor.
Jamais
poderia esquecer-se de Oscar Marinho, das suas palestras macias, sutis,
maliciosas, da sua objetividade e daquela expressão que usava, quando
confessava que tinha dois corações, um do lado direito, que funcionava para os
negócios, outro do lado esquerdo, que funcionava para a vida do seu corpo.
Carlos Sousa só possuía o coração do lado esquerdo.
E de
outros velhos companheiros, como Zacarias de Sousa Freire, de Ápio Lopes,
Nicodemos Barreto, Artur Nilo de Santana, Astério Rebouças, Alfeu Suzart de
Carvalho, Martinho Conceição, lutadores do progresso itabunense. Isto para não
falar mais do Tourinho da farmácia, das suas palestras, das suas má-criações.
Nunca
ouviu Tourinho falar bem de um companheiro. Dos santos, ele só se referia bem a
São José; ao resto não dava a menor atenção. Num tempo em que todo mundo
respeitava os “responsos” do Moura Teixeira, para curar moléstias e
picadas de serpentes, Tourinho mangava abertamente desses “milagres”.
Gente
ordinária, Carlos Sousa havia também conhecido, em Itabuna, mas preferia
esquecê-la, como aquele pecuarista do “Pau Vermelho”.
Que homem
estúpido, malcriado, cheio de si, como se ele no invés do dinheiro, valesse
alguma coisa. Também essa gente servia para contraste. Se não fosse um cidadão
miserável como esse, como poderia avaliar a bondade de um cidadão, como foi
Astério Rebouças?
Tudo isso
pertencia ao passado. Agora, em outra terra, Carlos Sousa tratava de uma vida,
exercia outras atividades. O mundo não mudava. Sempre foi assim. No particular,
Moura Teixeira talvez estivesse com a razão, quando afirmava que, neste vale de
lágrimas, a vida é passageira, é uma provação.
Em Itabuna
ele, Carlos Sousa, passara uma parte da sua vida. Certamente o espírito que
vivia no seu corpo era aquele que lhe havia revelado, numa sessão, “D. Ceci”, o
espírito de um insatisfeito. Um espírito
que lutava para possuir uma fortuna imensa, para acumular riqueza enorme.
Tanto que se metia em dezenas de negócios, com uma ânsia desesperadora de
enriquecer. Não se contentava com o pouco, queria muito, dominar o muito, e por
isso mesmo caíra como pássaro sem asas. Antes assim. Pior seria que seu
espírito fosse atormentado pela ganância furiosa e a sovinice miserável que
dominavam aquele médico, Dr. Coriolano Antunes. Que monstruosidade, que
sofrimento! O homem só queria ganhar e
não gastar. Era de uma miserabilidade incompreensível. E como sofria a sua mulher!
Coitada, não tinha direito a nada, nem a se vestir, nem a comer, nem a se
divertir e, ainda, era obrigada a suportar a falta de respeito do marido, com
as amas, as visitas, que frequentavam a sua casa. Parecia a Carlos Sousa que a
provação do Dr. Coriolano se revestia de uma pena mais severa, mais dura.
Quantos corpos, quantas vidas, não necessitaria o espírito do Dr. Coriolano
para purificar-se até ao ponto de estender a mão para dar uma esmola?
Enfim
Carlos Sousa não queria pensar muito nestas coisas, com medo de perder o juízo.
Estava pobre e fora de Itabuna.
Consolava-se, é verdade, com as revelações espiritualistas, mas, no
fundo, tinha a certeza de que tudo isso era consequência da luta materialista e
capitalista. Luta cruel da concorrência, na qual um empobrecia, outro
enriquecia. Um acumulava, outro se esvaziava. Homens e nações se empenhavam
nessa batalha tremenda de amontoar riquezas e, quando um homem, ou uma nação
conseguia amealhar, outro homem e outra nação sofriam as consequências e eram
levados à miséria. Os resultados se positivavam em desequilíbrios sociais que
levavam à fome, às revoluções e à guerra, de quando em quando.
Falava-se
num mundo melhor que a Rússia estava criando. Não acreditava muito nesse mundo
povoado pelos homens secularmente defeituosos.
Os homens,
como as feras, como as serpentes, possuíam qualidades que o nascimento dava e
somente a cova tirava. Quantos homens, antes e depois de Cristo, tinham
imaginado um mundo mais justo e mais tolerante, no qual a infância não sofresse
e a velhice não permanecesse abandonada?
A cobiça
humana sepultava os sentimentos bons. Muitas vezes ele sonhava que a humanidade
era um pantanal sem fim, no qual brotava, , de longe em longe, a flor da
virtude representada num lírio, alvo, como a luz da manhã, que entrava pela
janela do seu quarto na casa que morava â beira do oceano, no bairro proletário
do Malhado, na cidade de Ilhéus. Pensava nestas coisas e se contentava. Afinal
de contas a felicidade não estava na riqueza como não estava na pobreza.
Encontrava-se na paz do espírito. Não havia nas suas mãos dinheiro que desse
para comprar o que desejava de luxo ou capricho; existia, todavia, espaço para
o seu espírito elevar-se, pairar no reino das coisas belas e maravilhosas, que
somente a inteligência pode construir, para lenitivo e paz da consciência.
(TERRAS DE ITABUNA – Cap. XXIX)
Carlos Pereira Filho
sábado, 30 de julho de 2022
ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: A Imortal – Luiz Gonzaga Dias
A Imortal
Luiz Gonzaga Dias
A esperança é o futuro... A hora que finda
É um anseio que morre ou se completa.
– Um velho sonho... Uma ilusão infinda,
Uma ambição que se mantém secreta.
Por mais velha, a esperança é sempre linda!
E nunca morre, embora atinja a meta,
Que se esperava... Vai vivendo ainda,
Enquanto há vida é sempre incompleta.
Não envelhece não! Se bem que nova,
Ela tem outro tom róseo matiz
Que esmaece ao se beirar da cova.
Mas a esperança continua forte...
Porque, este anelo humano – ser feliz,
Não finda com a vida: vence a morte!
(IMAGENS MUTILADAS)
Luiz Gonzaga Dias
* * *
quinta-feira, 28 de julho de 2022
Cantiga Por Itabuna
Eglê S. Machado
Adornei um relicário
e o enchi de amor e vida,
pra no teu aniversário
te ofertar, terra querida!
Itabuna - tom
vibrante,
gingado do meu compasso
na cadência aconchegante
do teu suave regaço.
Lírios, para a cidade
que tanta vida me
deu:
Deu-me paz, luz, liberdade,
E me amou, me acolheu!
Vigor, ventura, nobreza,
trabalho, paz e fortuna:
construí minha riqueza
em ti, amada Itabuna!
Parabéns, bela cidade
do glorioso São José!
Para ti felicidade,
muita Paz e grande fé!
* * *




