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quinta-feira, 7 de julho de 2022

MENINO BOM, TÁ AÍ! – Nelson de Faria

 


                                                     “Quem quer se fazer não pode.

                                                      Quem é bom já nasce feito.”

                                                                                                 DITO POPULAR

 

            Havia gente, e muita, à porta do Bilhar Taco de Ouro, na Rua de Baixo, de Gabriel Monarca, também, conhecido por Biezinho Cururu, por via da cara gorda e bexiguenta, da boca resgada de orelha a orelha, quando ele ria, dos olhos negros saltados. Muito sujeito fraco e desprevenido experimentarão peso do braço dele, por inadvertência ou desconhecimento da jeriza que Biezinho devotava ao apelido, que, por sinal, lhe assentava bem, como luva. No Taco de Ouro, faziam ponto motoristas, boiadeiros, viajantes, pessoas desocupadas da vila. De instante a instante o grupo engrossava. O ar, viciado de fumo e odores de aguardente, era pesado, denso. Cabo Adonias, comandante do destacamento policial, foi chamado, às pressas. Acontecimento como aquele, desenrolado minutos antes, era raro no centro da cidadezinha. Nos arredores dela, nas vendas de ponta de rua, às vezes, umas duas ou três por ano, falando a verdade, o fato não despertava mais tanta atenção. O movimento às janelas e portas da Rua Direita era desusado. O prefeito, Major Suçuarana, sujeito valente, caladão, malicioso,  de faro fino, que nem o de raposa, arrastou a cadeira de vime para o passeio, refastelou-se nela, fingindo-se alheio ao que ocorrera na parte baixa de rua principal. Olhava, de soslaio, os jornais chegados pela manhã desdobrados à sua frente, pigarreava, gozando o espetáculo. Os três soldados, em cadência marcial, marchavam – um, dois, um, dois – sob as ordens do Cabo. Juntaram os calcanhares com estrépito, fazendo alto.  – Meia volta... volver! – Foi a ordem, seca, esganiçada, do comandante, no meio da rua, a cinco metros do prefeito. Cabo Adonias avançou, parou, levou a mão à pala do quepe, depois, em posição de sentido, aguardou ordens.

            - Faça recolher o defunto à sala da guarda. Enterre ele amanhã, depois que o Clodoaldo fizer o laudo do corpo de delito. Não convém muito alarido, muitas diligências. O rapaz, se bem andou, já botou muitas léguas atrás dele. Além do mais... – Coçou a cabeça, olhou em volta, certificando-se de que ninguém estava por perto, concluiu: - Quem caça, acha. Aquele sujeito carecia ser exemplado...

            - Antão, com sua licença, chefe. As ordens serão cumpridas.

            Os  soldados fizeram meia volta, continuaram o caminho.

            No chão, cimentado, caído de costas, as mãos escuras cruzadas sobre o peito largo, os olhos muito abertos, estava o corpo do motorista Zé Matias. Um filete de sangue fluía-lhe do canto da boca entreaberta. Mãos piedosas colocaram uma vela acesa ao lado dele. Cabo Adonias, impondo a autoridade do cargo, inflou as bochechas, estufou o peito, berrou:

            - Qual foi o enxerido que virou ele?

            As conversas pararam de repente. Havia susto nos olhos dos homens. Abriram roda, entreolhando-se. Voz pastosa, indicativa de criatura em início de embriaguez, rompeu o silêncio:

            - Saiba vossa senhoria que foi esta sua criada, aqui, que revirou o pobre, que golfava sangue da boca, e tava se afogando nele. – Fez uma pausa, levantou mais a cabeça de cabelos oxigenados, continuou: - Vosmecê, comandante, carece ter mais caridade com o falecido....

            Era Fifina, um pedacinho de mulher, deste tamanho, ainda bonita, apesar dos dois caninos chumbados a ouro e da vida dissipada que levava. Bichinha valente, pra danar, já havia espancado umas três concorrentes, anavalhado a cara de um rapazinho que se metera a besta com ela. Arrotava valentia, não tinha papas na língua.

            Adonias fitou a mulher bem dentro dos olhos dela, lembrou-se dos abraços apertados, das boquinhas gostosas que a diabinha sabia dar. Fechou o cenho, falou alto, voltado para os homens, para não magoar a mulher:

            - Lei é lei, Dona Josefina. A lei diz que ninguém pode mexer em defunto matado, para não desfazer as pistas, não atrapalhar a investigação. Desta vez, perdoo a ignorância da lei e dos regulamentos...

            - Deve estar correto o que vosmecê fala, comandante. Não sei nada de leis. Mais porém, deixar um vivente se acabar, como este aí, cora o coração da gente. Me desculpe se agravo vosmecê. Deixo não, gente, deixo não...

            Cuspiu no cimento do chão, passou as costas da mão na baba que lhe escorria dos lábios pintados, arrepanhou as saias, empurrou os homens que fechavam o círculo em torno dela, refugiou-se a um canto do salão. Caiu sobre uma mesa, desandou a soluçar, babando e chorando... Cabo Adonias tentou arrolar testemunhas do crime. Ninguém vira nada, ninguém sabia de nada. Biezinho contava: “O motorista parou o caminhão, chegou de junto do balcão e pediu um martelo de pinga. Ofereceu um gole pra mim, recebeu resposta de negação, porque eu não bebo; perguntei se queria mais. ‘Nhor não, foi a resposta. Só unzinho, pra clarear as vistas. Vou viajar a noite toda, quero chegar em casa de madrugada.’ Arrolhei a garrafa e levei a venenosa para a prateleira. Ouvi um barulhinho, às minhas costas, que nem dava para assustar um gato. Quando voltei o rosto, vi o extinto, o cujo aí, rodando nos calcanhares, as mãos na barriga, gemendo e soluçando. Um outro homem, que eu não vi chegar, afastou o corpo, para o ofendido não murchar em riba dele... Mais porém, não conheço o rapaz que fez o serviço, nhor não!”

            Aquilo era esperado por muita gente que conhecia o morto. Zé Matias, morador do arraial da Estiva, comprara um Fê-Nê-Mê, vivia transportando mercadorias de e para Salvador. Sujeito casado, pai de filhos, perdera a vergonha, o respeito dos mais. Viciou-se em engambelar mocinhas, induzindo-as com promessas de bons ordenados nas casas ricas da Bahia. Abusava das pobrezinhas, tirava-lhes os vinténs, se os possuíssem, largava-as nas cidades pequenas, por onde passasse, ou nos acampamentos, à beira das estradas. A última que viajou à boleia do carro dele foi Mariazinha, já de casamento conversado com Zé Procópio, rapazinho calado, manso, que, diziam, era incapaz de matar uma pulga.

            Fazia três meses que o rapazinho vivia em desassossegada andança. Ao entardecer, hora de chegarem motoristas que vinham de longe, ficava rondando portas de vendas e pensões.

            Naquele dia, à boquinha da noite, Zé Procópio aberturou o cujo e rasgou o bucho dele... Uns poucos viram o rapaz limpar a faca suja de sangue na perna da calça, colocá-la na bainha, sair andando de modo leviano, que nem inocente, e entrar na casa do prefeito. Quando Cabo Adonias parou, fazendo continência, Zé Procópio, que espiava a cena por uma fresta de janela da sala de visitas, estremeceu, suando frio. Depois, sorriu, ouvindo as ordens do chefe. Ajeitou o corpo, limpou o suor da testa e dos beiços, continuou a espiar o movimento da rua, o pensamento viajando por longe, muito longe. Indagava-se: “Por onde andaria Mariazinha, a culpada de tudo aquilo?”

 

            O OLHO CLÍNICO do Major Suçuarana descobriu, sem tardança, as qualidades de bom pistoleiro que dormiam dentro de Zé Procópio, despertadas naquela tarde. A calculada fuga da cena do crime, a calma do procedimento dele, procurando abrigo à sombra do maioral, sem deixar que muitos o vissem entrando na casa, a fala mansa do moço, relatando o fato, como se aquilo nada significasse: “Major, me garante minha pessoa porque mandei, agorinha mesmo, um danado pras profundas...” – tudo aquilo, e mais o jeito dele, humilde, sonso, eram qualidades apreciáveis num primário, bem pesadas pela experiência sertaneja do Major Suçuarana. Quando o corpo do morto passou pela frente da casa, era noite fechada. Suçuarana chamou o rapaz. Postados à janela, os dois viram a rede balançando-se, levada por dois soldados, Cabo Adonias à frente deles, com uma lanterna elétrica na mão. Zé Procópio sentiu um arrepio percorrendo-lhe o corpo, dos pés à cabeça. Quis recuar para a escuridão da sala. Uma sensação de enjoo tomava-lhe todo o estômago. Ouviu a voz seca, autoritária do padrinho:

            - Com medo? Homem, que é macho mesmo, não fraqueja. Aguenta ver, sem trastejar o malfeito que cometeu.

            - Nhor sim. Mais porém,  tou todo arrepiado, sentindo um entojo, parecendo de mulher almojada...

          - Pois, então, vamos curar a doença, que é coisa sem significância. Me siga, sem debicar do finado, sem conversar com os mais, como se não conhecesse ninguém.

            O defunto estava largado no chão duro, atijolado. O busto desnudo mostrava largo e comprido talho, que ia da caixa dos peitos à cova do umbigo. Golpe horrível, deixando entrever vísceras sanguinolentas e destroçadas. Suçuarana chegou de manso, quase sem ser pressentido. Recebeu as continências de estilo, tirou o chapéu, olhou demoradamente o corpo desventrado. Não disse palavra. Cabo Adonias contou:

            - Sujeito destemido, esse um que fez o serviço. Ir pra riba do cabra, encalcar nele palmo e meio de  aço, bem no bucho, sem boquejar, sem tremer a mão, é valentia danada, de se invejar. Ora, pois. Coisa parecida, que me acode ao bestunto, só vim no Mato Verde, faz tempo, quando eu era anspeçada. Foi o caso de um sujeito abrir a barriga de uma dona prostituta inté nas partes, lá dela – com licença da palavra – numa vezada só...

            Major Suçuarana arregaçou o canto da boca num sorriso tranquilo, olhou de viés para os curiosos amontoados à porta, enxergou, de uma mistura com quatro ou cinco, Zé Procópio, os olhos brilhando, sem uma contração na cara morena e séria. Pôs o chapéu na cabeça, puxou a aba dele sobre a testa. Despediu-se. Perdeu-se na noite escura. À sua retaguarda, colado a ele que nem sombra, o novo guarda-costas, fazendo jus ao pensamento do chefe: “Menininho bom, tá aí! Nem pestanejou. O diabinho vai longe...”

 

(BAZÉ – ESTÓRIAS SERTANEJAS)

Nelson de Faria

 

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O escritor NELSON DE FARIA

Julgado pela crítica brasileira:

 

          “Os novos contos, são da mesma alta qualidade dos anteriores. A mão do mestre se reconhece em qualquer dos seus contos.”

RIBEIRO COUTO

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terça-feira, 5 de julho de 2022

AMIGOS


 

Veja a sabedoria desse texto:

 

Um jovem recém-casado estava sentado num sofá, num dia quente e úmido, bebericando chá gelado, durante uma visita ao seu pai. Ao conversarem sobre a vida, o casamento, as responsabilidades da vida, as obrigações da pessoa adulta, o pai remexia pensativamente os cubos de gelo no seu copo e lançou um olhar claro e sóbrio para seu filho.

- Nunca se esqueça de seus amigos! - aconselhou. Serão mais importantes à medida  que você envelhecer. Independentemente do quanto você ame sua família, os filhos que porventura venham a ter, você sempre precisará de amigos..

Lembre-se de ocasionalmente ir a lugares com eles; faça coisas com eles; telefone para eles...

Que estranho conselho! (Pensou o jovem). Acabo de ingressar no mundo dos casados. Sou adulto. Com certeza, minha esposa e a família que iniciaremos serão tudo  de que necessito para dar sentido à minha vida!

Contudo, ele obedeceu ao pai. Manteve contato com seus amigos e anualmente aumentava o número de amigos. À medida  que os anos se passavam, ele foi compreendendo que seu pai sabia do que falava. À medida que o tempo e a natureza realizam suas mudanças e seus mistérios sobre um homem, amigos são baluartes de sua vida.

 

Passados 50 anos, eis o que aprendeu:

O Tempo passa.

A vida acontece.

A distância separa..

As crianças crescem.

Os empregos vão e vêm.

O amor fica mais frouxo.

As pessoas não fazem o que deveriam fazer.

O coração se rompe.

Os pais morrem.

Os colegas esquecem os favores.

As carreiras terminam.

Os filhos seguem a sua vida como você tão bem ensinou.


Os verdadeiros amigos estarão lá, não importa quanto tempo e quantos quilômetros estão entre vocês.

Um amigo nunca está mais distante do que o alcance de uma necessidade, torcendo por você, intervindo em seu favor e esperando você de braços abertos, e  abençoando sua vida!

E quando a velhice chega, não existe papo mais gostoso do que o dos velhos amigos... As histórias e recordações dos tempos vividos juntos, das viagens, das férias, das noitadas, das paqueras... Ah!!! tempo bom que não volta mais... Não volta, mas pode ser lembrado numa boa conversa debaixo da sombra de uma árvore, deitado na rede de uma varanda confortável ou à mesa de um restaurante, regada a um bom vinho, não com desconhecidos, mas com os velhos amigos.

Quando iniciamos esta aventura chamada VIDA, não sabíamos das incríveis alegrias ou tristezas que estavam adiante, nem sabíamos o quanto precisaríamos uns dos outros.

Amigos ajudam a dar sentido à sua vida...

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(Recebi via Whatsapp, sem menção de autoria)


segunda-feira, 4 de julho de 2022

Bia Kicis alerta que delação de Marcos Valério torna a eleição ‘um caso ...

A CASA DOS VIDROS AZUIS – Helena Borborema

  


         De vez em quando, sempre que possível, eu fugia do olhar atento de minha mãe e corria para a casa dos vidros azuis. Ela me fascinava. Tinha eu então uns seis anos, e minha mãe não entendia por que eu gostava tanto daquele casarão. Sempre que corria para lá, na volta era ameaçada de receber umas chineladas, mas nada me fazia desistir daquelas visitas.

            Situado bem perto da minha casa, numa esquina de frente para o rio, o casarão tinha cor amarelo-queimado e se apoiava sobre enorme porão, todo acimentado e muito limpo. Cercado de pequeno jardim, onde gerânios de cheiro exótico e cor avermelhada cresciam, tinha de frente ampla sacada, janelas laterais e um alto portão de ferro que lhe servia de entrada. Transposto este, estava uma escadaria de poucos degraus, larga, feita de cimento polido, que dava acesso a uma maciça porta de madeira entalhada. Em sua frente alongava-se uma rua ainda não calçada, onde um gramado – não digo verdejante, porque a sua cor era sempre meio parda – a cobria como um tapete empoeirado. Do outro lado do gramado, estava o rio que gritava e ria pelas vozes das lavadeiras e aguadeiros que labutavam nas suas margens. Mas quando a escuridão da noite se aproximava e eles se iam, apenas o leve rumor das águas se fazia ouvir, e uma tristeza dolorida aquietava tudo. Era esse o cenário que os meus olhos de criança descortinavam, e a impressão que se gravava no meu espírito.

            Transpor a porta do casarão, visitá-lo, era o meu encantamento. Por isso o procurava sempre que podia. Lá dentro, duas salas grandes, com assoalhos de bonitas tábuas de madeira-de-lei, amarelas umas, outras escuras, dispostas em tiras lustrosas e bem tratadas, me atraíam. Era ali o meu palácio encantado. Já no portão, o perfume diferente dos gerânios me convidava a entrar num mundo também diferente, e eu entrava de mansinho, sem me anunciar e sem ser convidada. Simplesmente entrava.

            Lá dentro, uma tranquilidade. A brisa amena vinda do rio, espaços grandes quase vazios de móveis, e o casal de velhos. Velhos  aos meus olhos de criança, pois estariam beirando os quarenta e poucos anos. A dona da casa, amiga de minha mãe, olhava para mim, sorria e me deixava à vontade. Parecia que ela já adivinhara o motivo de minhas visitas. Eu nada dizia, nem procurava, apenas me encaminhava a uma grande sala cujos janelões eram adornados por lindos vidros de cor azul-anil. Ali estava toda a razão do meu encantamento.

            Era aquele o meu mundo encantado. O sol da manhã, que se refletia direto nas vidraças, espalhava uma luz que eu achava maravilhosa, azul forte, que se estendia pelas paredes e assoalhos. O salão com apenas algumas cadeiras e uma pequena mesa de centro, todo iluminado de azul-anil, me envolvia numa magia tão grande que eu quedava feliz, fascinada, dentro de um palácio lindíssimo. Princesas e príncipes das histórias que as empregadas me contavam, carruagens de ouro e prata surgiam e desfilavam ante os meus olhos cheios de alegria. Via arcas cheias de pedras preciosas de Ali Babá, reluzindo no meio do grande salão.

            Como não havia crianças na casa, e não tendo com quem brincar ou participar daquela maravilha, depois de pouco tempo eu deixava o casarão tão sem-cerimônia como entrara, e voltava correndo para casa, já esperando o carão de minha mãe por andar em casa de vizinhos. Como iria ela entender os motivos da minha atração pela casa dos vidros azuis?

            Os anos passaram. O meu encantamento pelo casarão  foi se desvanecendo como a nuvem que se desmancha no espaço. Cresci, fui para longe,  mas a lembrança carreguei comigo. Voltei anos depois , para encontrar desolação. Chuvas de muitos invernos lavaram as suas paredes já mudadas de cor pelo tempo e gosto dos diversos moradores que lá habitaram. Meio arruinado, vazio e silencioso, reboco caindo, vidraças quebradas, despertou-me tristeza. O velho portão de ferro ainda de pé, outrora tão bordado nos seus arabescos que mãos de artistas forjaram, parecendo agora um espectro corroído pela ferrugem, teimava inutilmente em cumprir o seu fado de guardião e protetor. Dos vidros azuis das janelas, poucos restavam.

            Triste e curiosa eu me perguntava: Que mal fez o meu casarão ao tempo para que o atacasse tão cruelmente? O que aconteceu durante o nosso longo afastamento? As tábuas do chão ainda seriam as mesmas, de duas cores e lustrosas? E os gerânios, o que foi feito deles? Tudo estava tão diferente... O gramado da rua fora substituído por paralelepípedos. Só o rio parecia o mesmo, ou melhor, quase o mesmo, porque estava calado, já sem os cantares das lavadeiras e os gritos dos aguadeiros.

            Quis adentrar o velho portão, mas eu também tinha mudado, já não era mais aquela criança que outrora entrava sem pedir licença e saía sem se despedir. Porém, que interesse tinha mais para mim a velha casa, se os seus vitrais já não refletiam o azul que encantou a minha infância, e se o meu palácio de sonho não mais existia? O meu velho casarão parecia agora estampar a figura de um mártir coberto de chagas, flagelado, agonizante, numa dor silenciosa. Os vitrais azuis estraçalhados eram testemunhas mudas daquela decadência. Novamente lhe disse adeus e parti.

            Novos verões e novos invernos vieram. O progresso chegou envolvendo ruas, avenidas, casas, costumes e tradições, e com ele lá se foi embora o meu velho casarão. Da última vez que o busquei, já não o encontrei. Em seu lugar erguia-se um edifício de apartamentos, moderno, todo fechado, sem vidros coloridos, sem portão de arabescos bordados, sem jardim de gerânios.

            Sem a beleza serena e nobre do meu lindo casarão e, sobretudo, sem a poesia dos lindos vidros azuis iluminados pelo sol.

 

(RETALHOS)

Helena Borborema

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HELENA BORBOREMA -  Nasceu em Itabuna/Ba. Professora de Geografia lecionou muitos anos nos colégios Divina Providência, Ação Fraternal e Colégio Estadual de Itabuna. Formada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia de Itabuna, exerceu o cargo de Secretária de Educação e Cultura do Município.

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Cada Um De Nós É Por Enquanto A Vida | Poema de José Saramago com narraç...

sábado, 2 de julho de 2022

A INDEPENDÊNCIA DA BAHIA EM BAIANÊS



Oxe! Colé de mermo? Você fila aula e eu tenho que contar tudo de novo? Mas é niuma. Se ligue que você não sabe da terça-metade. Tá ligado que a Família Real partiu a mil de Portugal pra cá em 1808? Vazou com medo de Napoleão e quando chegou, deu uma de porreta e chamou a gente de Reino Unido. Ficou todo mundo de boa e a gente comeu essa pilha.

Tempo vai, tempo vem, rolou a crocodilagem: D. João VI e a Família Real partiram a mil de volta pra Portugal e ainda queriam que o Brasil voltasse a ser colônia. Aoooooooonde!

Quem anda pra trás é caranguejo, mô pai. O povo se retô, pegô ar e o pau comeu. Aí, D. Pedro I deu o zig na família e disse assim pra Portugal: “Quem vai é o coelho. Diga ao povo que fico!” Pô, véio, D. Pedro brocô.

Mas aí, o bicho pegô. Portugal ficou virado no estopô e a gente recebeu a galinha pulano: as tropas de Madeira de Melo armaram uma bocada nas ruas de Salvador e foi aquela muvuca. Nosso povo lutou, mas ximbou e se lenhou: o exército português tomou a cidade na tora.

O povo ficou injuriado e fugiu picado para o Recôncavo junto com nossos soldados. Lá, eles usaram o tutano pra organizar a reação: tiveram uma ideia massa e criaram o Exército Libertador. Tinha poucos soldados e muita gente do povo: pobres, negros libertos, negros escravizados, índios, agricultores, etc. Só tinha uma mulher que se alistou na cocó dizendo que era homem: Maria Quitéria. Já tinha pra mais de 10 mil pessoas, mas era tudo feito a migué: tinha poucas armas, ninguém sabia lutar, um mangue da porra.

E eu falo mesmo que eu não sou baú: o exército de Portugal virado no diabo e a gente ia lutar de badogue e barandão? Aí é barril dobrado. Mas o povo tava na pilha e o couro comeu. Um barco português chegou em Cachoeira atirando e os baianos renderam eles a bordo de canoas. Ô povo retado! Ô povo virado no estopô.

Enquanto isso, em Salvador, o exército português tava bagunçando, mandando e desmandando: uma esculhambação da porra. Foi então que eles invadiram o Convento da Lapa e mataram a Sóror Joana Angélica. Aí fedeu. Aí escancarou tudo. Eles foram fuleiro. A notícia deixou o povo agoniado e o Exército Libertador decidiu que ia arrodear Salvador.

Lá em Itaparica, o povo também deu testa ao exército português e não deixou invadir a ilha. Maria Felipa, uma negra retada, se juntou com mais 40 marisqueiras: elas ficaram de butuca e, na calada da noite, foram chavecar os vigias dos barcos. Levaram os donzelos pro mato e quando eles acharam que iam fazer ozadia, receberam foi uma surra de cansanção. Arde coma porra! É pior que tomar zunhada. Enquanto os vigias tavam nuzinhos, se coçando e se bulino, as mulheres colocaram fogo em mais de 40 barcos dos portugas. Receba, sinha miséra!

Já nas águas da Baía de Todos os Santos e no Rio Paraguaçu, foi João das Botas que lutou contra mais de 40 barcos portugueses com sua “Flotilha Itaparicana” que só tinha barco de pescador. É brincadeira um esparro desse? Mas ele tirou onda e segurou os portugueses. 

Até então, a briga era essa: o povo baiano contra Portugal. Mas aí, D. Pedro entrou na dança e mandou reforço. Pra terra, ele contratou o general francês “Labativs” (se falar Labatut, use o “lá ele” porque Labatut tem rima). Ele chegou com mais soldados do resto do Brasil e deu um trato no nosso Exército Libertador. Um tapinha aqui, outro ali, mas tudo continuou meio nas coxas, feito a facão. Mas como a guerra já era daqui pra li, e como baiano é baiano: se não guenta vara, peça cacetinho. Só tem tu, vai tu mesmo: imagine a paletada de Cachoeira até Salvador.

Já para o mar, D. Pedro contratou o Lord Cochrane (mas pode chamar de “Croquete” que é niuma). O cara era escocês e já tinha fama de mau lá nas Europa. Isso já assustou a marinha portuguesa: ponto pra D. Pedro.

O Exército Libertador tinha muita garra mas pouca experiência. Chegou e cercou a cidade mas levou um baculejo daqueles do exército português. Foi na Batalha de Pirajá: os caras bagunharam a gente. Foi barril de mil. Nem dava pra brincar de esconde-esconde ou gritar “um, dois, três, salve todos”. Já era, pai!

Só que o nosso Corneteiro Lopes recebeu uma ordem pra tocar “borimbora” (Tradução: recuar), deu revertério e tocou “se joga” (Tradução: Cavalaria avançar e degolar). Oxe! Aí, esculhambou tudo. O nosso exército sacudiu a poeira e pra se amostrar, deu-lhe uma carreira e passou a porra nos portuga que não entenderam nada. Os portuga vazaram quando ouviram o toque de “se pique” e a galera do mau correndo pra dentro.

Foi o maior migué da história da Bahia, do Brasil e do mundo porque a gente não tinha nem um cavalo pra contar história, que dirá uma cavalaria inteira. Só mesmo baiano pra ganhar uma guerra no grito. Isso né culhuda não, véio: foi assim mermo. O Corneteiro Lopes se armou porque deu certo, mas se desse merda, uzoto ia dizer que foi ideia de jerico.

Com isso, isolamos os portugueses dentro de Salvador e aí deixamos eles sem água e sem comida: não entrava nem geladinho, nem bolinho-de-estudante, nem um real de big big.

Aí, quando a esquadra de Lord “Croquete” (Lord Cockrane) chegou e se juntou à flotinha de João das Botas, o sacrista do Madeira de Melo viu que já tava com a moral de jegue, chamou o rebanho de soldado dele na surdina e se picou de madrugada. Saiu no lixo mas João das Botas foi na cola deles até alto-mar e uns e oto “me disseram” que ele a largou o doce assim, ó: Se plante, vú, seu Madeira! Não se abra não que eu não sou cupim. E nem volte aqui paroano!

Na moral, véio, o nosso povo tirou onda: Salvador fiou livre e o Brasil consolidou sua independência. E quem não lutou com armas, lutou cuidando dos feridos, conseguindo comida para os soldados, doando dinheiro para as batalhas.

Eita povo guerreiro! Eita povo boca de zero nove. E aí, painho, foi um arerê nas ruas de Salvador: o Exército Libertador entrou triunfante: todo mundo solto na buraqueira indo cumê água. A rua chega ficou apertada e assim nasceu o desfile do 2 de Julho. Né não é?

Tá rebocado que você não sabia dessa história. Agora, tá ligado porque a tocha vem do Recôncavo, passa por Pirajá e chega na Lapinha, né? Tá ligado porque a festa é do povo, né? E tá ligado porque tem o Caboclo e a Cabocla, né? Ó paí! Não tá ligado não, seu leso? Me faça uma garapa! É porque eles representam a mistura popular que nos deu força pra lutar pela independência. Tá vendo aí? Fiz um texto grande pra apertar sua mente, mas a história é de lenhar, né não?

 

(Texto de Louti Bahia da @amoahistoriadesalvador publicado em 30/06/2020)

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